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sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

O GRAMÁTICO – Artur Azevedo


                                     O Gramático 

Artur Azevedo

 

          Havia na capital de uma das nossas províncias menos adiantadas certa panelinha de gramáticos, sofrivelmente pedantes. Não se agitava questão de sintaxe, para cuja solução não fossem tais senhores imediatamente consultados. Diziam as coisas mais simples e rudimentares num tom pedantesco e dogmático, que não deixava de produzir o seu efeito no espírito das massas boquiabertas.

          Dessa aluvião de grandes homens destacava-se o Dr. Praxedes, que almoçava, merendava, jantava e ceava gramática portuguesa.

          Esse ratão, bacharel formado em Olinda, nos bons tempos, era chefe de seção da Secretaria do Governo, e andava pelas ruas a fazer a análise lógica das tabuletas das lojas e dos cartazes pregados nas esquinas. “Casa do Barateiro – sujeito: esta casa; verbo, é; atributo, a casa; do barateiro, complemento restritivo.” O Dr. Praxedes despedia um criado, se o infeliz, como a soubrette das Femmes Savantes, cometia um erro de prosódia.

          E quando submetia os transeuntes incautos a um exame de regência gramatical?

          Por exemplo: encontrava na rua um menino, e este caía na asneira de perguntar muito naturalmente:

          - Sr. Dr. Praxedes, como tem passado?

          - Venha cá – respondia ele agarrando o pequeno por um botão do casaco: - “Sr. Dr. Praxedes, como tem passado?” Que oração é esta?

          - Mas... é que estou com muita pressa...

          - Diga!

          - É uma oração interrogativa.

         - Sujeito?

         - Sr. Dr. Praxedes.

         - Verbo?

         - Ter.

         - Atributo?

         - Passado.

         - Bom. Pode ir. Lembranças a seu pai.

          E, com uma ideia súbita, parando:

          - Ah! Venha cá! Venha cá! Lembranças a seu pai – que oração é esta?

          - É uma oração... uma oração imperativa.

          - Bravo! Sujeito?

          - Está oculto... é você... Você dê lembranças a seu pai.

          - Muito bem! Verbo?

          - Dar.

          - Atributo?

          - Dador.

          - Lembranças é um complemento...?

          - Objetivo.

          - A seu pai...?

          - Terminativo.

          - Muito bem. Pode ir. Adeus.

 

          Depois de aposentado com trinta anos de serviço, o Dr. Praxedes recolheu-se ao interior da província, escolhendo, para passar o resto dos seus gloriosos dias, a cidadezinha de ***, seu berço natal. Aí advogava por muito empenho, continuando a exercer a sua missão de oráculo em questões gramaticais.

          Raramente saía à rua, pois todo o tempo era pouco para estar em casa, respondendo às numerosas consultas que lhe dirigiam da capital e de outros pontos da província.

          A cidadezinha de *** dava-se ao luxo de uma folha hebdomadária, o “Progresso”, propriedade do Clorindo Barreto, que acumulava as funções de diretor, redator, compositor, revisor, paginador, impressor, distribuidor e cobrador.

          Ninguém se admire disso, porque o Barreto – justiça se lhe faça – dava mais uso à tesoura do que a pena. O vigário, que tinha sempre a sua pilhéria aos domingos, disse um dia que aquilo não era uma tesoura, mas um tesouro.

         Entretanto, se no escritório do “Progresso” a goma-arábica tinha mais extração que a tinta de escrever, não se passava caso de vulto, dentro ou fora da localidade, que não viesse fielmente narrado na folha.

          Por exemplo:

          “O Sr. Major Hilarião Gouveia de Araújo acaba de receber a grata nova de que seu prezado filho, o jovem Tancredo, acaba de concluir os seus preparatórios na Corte, e vai matricular-se na Escola Politécnica da referida corte.

          Cumprimentamos cheios de júbilo o Sr. Major Hilarião, que é um dos mais prestimosos assinantes desde que fundou-se a nossa folha.”

 

          Em fins de maio de 1885, a notícia do falecimento de Victor Hugo, chegou à cidadezinha de ***, levada por um sujeito que saíra da capital justamente na ocasião em que o telégrafo comunicara o infausto acontecimento.

          O Barreto, logo que soube da notícia, coçou a cabeça e murmurou:

          - Diabo! Não tenho jornais... Como hei de descalçar este par de botas? A notícia da morte de Victor Hugo deve ser floreada, bem escrita, e não me sinto com forças para desempenhar semelhante tarefa!

          Todavia, molhou a pena, que se parecia um tanto com a espada de certos generais, e rabiscou: Victor Hugo.

          Ao cabo de duas horas de cogitação, o jornalista não escrevera nem mais uma linha...

 

          Mas, oh! Providência! Nesse momento passou pela porta da tipografia o sábio Dr. Praxedes, a passos largos, medidos e solenes, e uma ideia iluminou o cérebro vazio de Clorindo Barreto.

          - Dr. Praxedes! Dr. Praxedes! – exclamou ele. – Tenha vossa senhoria a bondade de entrar por um momento. Preciso falar-lhe.

          O Dr. Praxedes empacou, voltou-se gravemente e, conquanto embirrasse com o Barreto, por causa de seus constantes solecismos, entrou na tipografia.

          - Que deseja?

          O relator do Progresso referiu a notícia da morte do grande poeta, confessou o vergonhoso embaraço em que se achava, e apelou para as luzes do Dr. Praxedes.

         Esse, com um sorriso de lisonjeado, sorriso que logo desapareceu, curvando-se-lhe os lábios em sentido oposto, sentou-se à mesa com a gravidade de um juiz, tirou os óculos, limpou-os com muito vagar, bifurcou-os no nariz, pediu uma pena nova, experimentou-a na unha do polegar, dispôs sobre a mesa algumas tiras de papel, cujas arestas aparou cuidadosamente com a tesoura, chupou a pena, molhou-a três vezes no tinteiro infecundo, sacudiu-a outras tantas, e, afinal, escreveu:

          “Falecimento. – Consta, por pessoa vinda de ***, ter falecido em Paris, capital da França, o Sr. Victor Hugo, poeta insigne e autor de várias obras de mérito, entre as quais um drama em verso, Mariquinhas Delorme (Marion Delorme) e uma interessante novela intitulada Nossa Senhora de Paris (Notre-Dame de Paris).

          O ilustre finado era conde e viúvo.

          O seu falecimento enluta a literatura da culta Europa.

          Nossos sinceros pêsames à sua estremecida família.”

 

          O Dr. Praxedes saiu da tipografia do “Progresso”, e continuou o seu caminho a passos largos medidos e solenes.

          Ia mais satisfeito e cheio de si do que o próprio Sr. Victor Hugo quando escreveu a última palavra de sua interessante novela.

          O Barreto ficou radiante e, examinando a tira de papel escrita pelo gramático, exclamou, comovido pela admiração:

          - Nem uma emenda!

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Artur Azevedo (Artur Nabantino Gonçalves de Azevedo), jornalista e teatrólogo, nasceu em São Luís, MA, em 7 de julho de 1855, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 22 de outubro de 1908. Figurou, ao lado do irmão Aluísio Azevedo, no grupo fundador da Academia Brasileira de Letras, onde criou a cadeira nº 29, que tem como patrono Martins Pena.

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CHARUTADA: O ESCÂNDALO DOS EMPRÉSTIMOS DO BNDES NA ERA PT

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

OLHA O QUE O ARCEBISPO FALOU PARA BOLSONARO NA MISSA DE SÉTIMO DIA DE SU...

EXERCÍCIOS PARA DISCERNIR SE SUAS INTUIÇÕES VÊM DO ESPÍRITO SANTO


Shutterstock

Marzena Devoud 

Como identificar, no fluxo de pensamentos que atravessam a mente, as inspirações realmente vindas do Espírito Santo? Aqui está o método de São Francisco de Sales

Por que é tão difícil levar a sério este conselho de São Paulo: “Deixai-vos conduzir pelo Espírito”? De fato, alguns consideram que uma vida guiada pelo Espírito Santo é reservada apenas para uma elite praticante de esporte radical.

Para São Francisco de Sales, deixar-se conduzir pelo Espírito Santo não é um luxo nem uma extravagância, mas um fundamento essencial de toda a vida cristã. No livro “Introdução à Vida Devota”, o religioso recomenda prestar atenção às “inspirações interiores”, isto é, a “todas as atrações, os movimentos, os sentimentos de contrição, as luzes e a sabedoria que Deus torna conhecidos em nós”.

No entanto, como explica o padre Joël Guibert em seu livro Le secret de la sérénité, la confiance en Dieu avec saint François de Sales (“O Segredo da Serenidade, Confiança em Deus com São Francisco de Sales“) essas inspirações sopradas pelo Espírito são extremamente delicadas, são tão sutis que podem simplesmente passar despercebidas. “A pessoa que não cultiva um certo silêncio em sua vida dificilmente poderá ouvir a voz do Espírito”, explica.

Mas como podemos discernir esta voz sutil e discreta do Espírito? Como identificar no fluxo de pensamentos que atravessam a mente as inspirações vindas do Espírito Santo? Aqui está o método de São Francisco de Sales em quatro passos.


1 EVITAR OS PENSAMENTOS TÓXICOS

Maurizio Cerutti

Para ouvir as sugestões do Espírito, São Francisco de Sales aconselha a identificar sistematicamente todos os pensamentos tóxicos, como os relacionados à amargura, raiva, ao ciúme ou à vingança. Diz ele:

“Essas pequenas tentações de raiva, suspeita, ciúme, inveja, infidelidade de coração, frivolidade, vaidade, fingimento, maus pensamentos… Se elas vierem te picar e pararem um pouco em seu coração, não as combata, não lhes responda, mas simplesmente retire-as de lá, protestando interiormente o contrário e principalmente o seu amor a Deus. Em vez disso, dirija seu coração a Jesus Cristo”.

Ao contrário dos sussurros do Espírito, os pensamentos tóxicos fazem muito mais barulho e criam algum tumulto interior.


2 PRATICAR A ORAÇÃO DO CORAÇÃO

Quem nunca passou um dia ruminando uma preocupação? Quem nunca cultivou com antecipação o cenário sombrio de uma entrevista ou reunião que desperta preocupação? Esses pensamentos podem parecer triviais e sem importância, mas acabam criando uma parede interna que o Espírito Santo não será capaz de derrubar. Por quê? “Quanto mais a preocupação nos domina, mais procuramos por nós mesmos e com tensão uma solução para dominá-la”, analisa o padre Joël Guibert, para quem a armadilha está justamente aí: “vamos gradualmente perdendo a confiança no poder do Espírito para nós, insistindo em cuidar de nós mesmos”. São Francisco de Sales deixa isso claro em uma carta a uma amiga:

“Você deve se aliviar, desprezando todas aquelas sugestões tristes e melancólicas que o inimigo nos faz com o único propósito de nos cansar e nos preocupar.”

Para ele só há um caminho: praticar a “oração do coração”. Em cada momento de angústia, repetir com fé: “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim pecador! Também chamada de “oração de Jesus”, a prece visa tornar Cristo presente no coração de quem reza.


3 MANTER A FÉ

O Espírito Santo age na medida da confiança depositada em sua ação. As curas relatadas no Evangelho ilustram isso muito bem. Ter fé é, portanto, fazer a escolha de se livrar da preocupação que sobrecarrega a mente e entregá-la a Deus. Parando o “mau pensamento”, deixamos o Espírito Santo agir. Assim explica Francisco de Sales numa carta a Santa Joana de Chantal:

“Nosso Senhor quer despojá-la de todas as coisas para que somente Ele seja tudo para você.”


Leia também:Todos os maus pensamentos são causados pelo pecado?


4 TER CUIDADO COM O PERFECCIONISMO

Entre a torrente de pensamentos excessivamente ruidosos e as sutis inspirações do Espírito, esse exercício de discernimento exige certa disciplina interior. Mas não se trata, sobretudo, de cair em certo perfeccionismo. São Francisco de Sales explica muito bem isso, dando este valioso conselho a um conhecido visivelmente envolvido em obras de caridade:

“Cuidado com todos esses pensamentos mesquinhos de vanglória que vêm à sua alma entre as suas boas ações. Portanto, não se divirta examinando se você consentiu ou não; mas, simplesmente, continue seus trabalhos como se não fosse da sua conta”.

Para os religiosos, só existe uma regra de ouro: o amor. Devemos rejeitar pensamentos tóxicos por amor a Deus. O que conta neste exercício não é o número de pequenas vitórias, mas uma atitude humilde e um desejo profundo de avançar neste caminho, de deixar-se guiar cada vez mais na vida pelo Espírito Santo.

https://pt.aleteia.org/2022/01/26/exercicios-para-discernir-se-suas-intuicoes-vem-do-espirito-santo/?utm_campaign=EM-PT-Newsletter-Daily-&utm_content=Newsletter&utm_medium=email&utm_source=sendinblue&utm_term=20220127

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POEMA DO AMOR – Cyro de Mattos


Poema do Amor

Cyro de Mattos


Ilustração Edsoleda Santos

 

Convivem em mim

Teus olhos dançarinos,

O corpo luminoso

Jardim de carícias.

Um ritmo sublime

De orvalho e pétala.

Querida, venha comigo.

Vamos ver terra e céu

Noivando no entardecer.

Onde respiram as rosas

Há um beijo vitorioso

Que perdura no eterno.

 

Cyro de Mattos é ficcionista e poeta. Também editado no exterior. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia. Doutor Honoris Causa da UESC.

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quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

A VERDADE SOBRE “GRANDE SERTÃO: VEREDAS”, de GUIMARÃES ROSA



A Verdade sobre “GRANDE SERTÃO:

VEREDAS”, de Guimarães Rosa

 

Ivo Korytoswki

Escritor com duas obras premiadas pela UBE, tradutor consagrado, lexicógrafo, filósofo pela UFRJ, pesquisador da história do Rio, blogueiro e Youtuber. Pode ser contactado no Facebook.

 

Grande Sertão: Veredas é uma “vaca sagrada” da literatura brasileira. Não gostar dessa obra do Rosa é o suprassumo do “culturalmente incorreto”. O máximo que você pode dizer é que não está à altura do livro, não está preparado ainda para ler o livro. O defeito não é do livro, é teu.

O livro tem qualidades enormes que não vou declinar aqui porque já o foram sobejamente. Mas tem defeitos também. Quer saber a verdade sobre Grande Sertão: Veredas? Então me acompanhe.

1) Vê-se de tudo em Grande Sertão: Veredas, uma Ilíada brasileira, um pacto faustiano sertanejo, uma regressão à língua primordial pré-Babel, menos o que a obra realmente é: uma grande “guerra de quadrilhas” ou, mais exatamente, guerra entre bandos de jagunços que percorrem os sertões das “Gerais” meio que sem destino com sede de luta e vingança. “O senhor sabe o mais que é, de se navegar sertão num rumo sem termo, amanhecendo cada manhã num pouso diferente, sem juízo de raiz?” (pág. 275 da 37. edição, da foto abaixo) “Sertão é o penal, criminal. Sertão é onde o homem tem de ter a dura nuca e mão quadrada.” (pág. 92) Em meio a toda essa violência desenfreada tropas do governo também metem a colher. Só que guerra de quadrilha urbana tem um objetivo: conquistar território para vender drogas para ganhar dinheiro. E essa guerra sem fim dos jagunços aparentemente não tem objetivo concreto, ou se tem Rosa não deixa claro qual seja: é a guerra pela guerra, as eternas vendetas.

2) Os personagens que travam essa guerra, por mais pitorescos que se afigurem na criação artística de Rosa, são maus: matam com prazer, estupram, invadem cidades e saqueiam o comércio, numa das cenas mais revoltantes massacram cavalos só de maldade, tem cena de antropofagia (“o corpudo não era bugio não, não achavam o rabo. Era homem humano” - pág. 43), é gente com culpa no cartório. “Jagunço – criatura paga para crimes, impondo o sofrer no quieto arruado dos outros, matando e roupilhando” (pág. 191)

São todos maus, menos o protagonista/narrador. “Eu Riobaldo, jagunço, homem de matar e morrer com a minha valentia.” (pág. 174) Esse é o protótipo de um arquétipo da literatura: o bom bandido. O bandido filósofo, porque está preocupado com a questão da existência de Deus e do diabo (como se a existência de Deus e do diabo fosse a suprema questão filosófica). O bandido poeta (o discurso de Riobaldo tem, sim, poeticidade). O jagunço que entrou na jagunçagem não por ser ruim, mas pela força de um destino de tragédia grega (ἀνάγκη) que o empurrou para a “vida de jagunço”. “Por que será que eu precisava de ir por adiante, com Diadorim e os companheiros, atrás de sorte e morte, nestes Gerais meus? Destino preso.” (pág. 171) O problema é que não existe “bandido bom” na vida real. Só na literatura e numa ciência social descolada da realidade. (Como posso ser tão tacanho a ponto de equiparar Riobaldo a um bandido? Dirão)

3) Uma das virtudes apontadas em Grande Sertão: Veredas, aliás, a virtude cardeal, que impressionou o meio intelectual da época do lançamento (segunda metade da década de 1950) e continua impressionando até hoje, é a inovação, a criatividade linguística. Segundo Alexei Bueno, “uma espécie de expressionismo linguístico onde violentas deformações da base já muito requintada que é a expressão oral do sertanejo brasileiro conseguiram atingir sínteses artísticas e emocionais espantosas”. Não que a linguagem do sertanejo (ou de outros estratos da população menos letrada) nunca tivesse sido reproduzida tal e qual. Já havia sido, em diálogos. 

Mas aqui não se trata só de diálogos entre personagens. Um narrador conta a história, da primeira (“Nonada”) à última (“Travessia”) frase, em uma linguagem supostamente de um sertanejo, livre das amarras da “norma culta”. Que não é uma linguagem de um sertanejo comum, qualquer. É a linguagem de um sertanejo idealizado, esclarecido, de pendores poéticos, inclinação filosófica, que discorre “sabiamente” sobre o bem e o mal, Deus e o diabo na terra do sol, em suma, um sertanejo criado pela imaginação fertilíssima, pela genialidade do Rosa. No fundo é a linguagem do Rosa se ele, homem urbano, diplomata, cultíssimo, fosse viver no meio sertanejo! Rosa é louvado por ter revolucionado a língua. Revolucionou mesmo? A língua falada pelos brasileiros mudou em decorrência da obra do Rosa? Por outro lado, se alguém escrever um livro inteiro em miguxês/internetês, que é o calão dos internautas, ou em gíria de traficante de morro carioca, tá ligado?, será louvado por ter revolucionado a língua? E uma língua com séculos de tradição literária carece de ser revolucionada? Não basta que evolua naturalmente?

4) A linguagem de Riobaldo, narrador de Grande Sertão: Veredas, soa estranha para quem abre o livro pela primeira vez, mas se você se esforçar e ultrapassar certo número de páginas, acaba se acostumando: é o que dizem. Como se acostuma com a sintaxe & pontuação esdrúxula do Saramago. Pois vou confessar uma coisa. No momento em que escrevo estas linhas já ultrapassei a página 300 e ainda não me acostumei com a linguagem. Digo mais: já enjoei dessa linguagem, tipo enjoo que se tem em navio depois de vários dias em alto-mar. É assaz frustrante ler uma obra em que, vira e mexe, você depara com construções léxicas que parecem não fazer sentido e onde as palavras que você porventura não entende (porque você não tem na cabeça todas as centenas de milhares de palavras da língua portuguesa) não constam necessariamente do dicionário. Querem exemplos?

Agora, advai que aquietavam, no estatuto. Nanja, o senhor, nessa sossegação, que se fie! O que fosse, eles podiam referver em imediatidade, o banguelê, num zunir: que vespassem. (pág. 227)

Assim que, inimigo, persistia só inimigo, surunganga; mas enxuto e comparado, contra-homem sem o desleixo de si. (pág. 317)

“É, eu vou com o senhor, e esse urucuiano Salústio vem comigo, mas é na hora da situação... Aí, na hora horinha, estou junto perto, para ver. A para ver como é, que será vai ser... O que será vai ser ou vai não ser...” (pág. 306)

Os fatos passados obedecem à gente; os em vir, também. Só o poder do presente é que é furiável? Não. Esse obedece igual – e é o que é. Isso já aprendi. (pág. 301)

Vou ainda mais longe: há momentos em que o narrador parece estar delirando. Senão vejamos.

Todos estão loucos, neste mundo? Porque a cabeça da gente é uma só, e as coisas que há e que estão para haver são demais de muitas, muito maiores diferentes, e a gente tem de necessitar de aumentar a cabeça, para o total. Todos os sucedidos acontecendo, o sentir forte da gente – o que produz os ventos. (pág. 272)

5) E a fidedignidade histórica? Essas guerras de jagunços sem nenhum motivo aparente ocorreram realmente em Minas/Goiás? Sei que houve cangaço no Nordeste, sei que latifundiários praticaram (ou até ainda praticam) grilagem de terras e até lançaram ou lançam mão de jagunços para se apropriar de terrenos alheios, mas guerras entre bandos de jagunços tipo guerras feudais medievais sem qualquer objetivo ocorreram em Minas Gerais? (Aqui espero o socorro dos historiadores mineiros.) Aliás, Alexei Bueno, em seu ensaio “Ribeiro, Rego, Rosa e Rocha: Afinidades Eletivas” confirma essa minha sensação de irrealidade ao escrever que em Grande Sertão: Vereda “sente-se uma organização social e militar muito mais próxima do que conhecemos como cangaço, pela independência, sobretudo, dos seus membros, do que de qualquer jaguncismo histórico daquele mais sonhado do que real norte de Minas”.

6) Grande Sertão: Veredas não é a maior saga da literatura brasileira do século XX. Quem detém o laurel, em minha modesta opinião, é O Tempo e o Vento, do Érico Veríssimo, que conta, romanceadamente, a história da formação do Rio Grande do Sul, desde os primórdios até a era getuliana, com as rixas entre as famílias poderosas proprietárias das terras, reconstituição dos gauchismos mas... sem "revolucionar a língua", digamos assim.

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Na época do lançamento, Grande Sertão: Veredas foi recebido com estupor, diferente de tudo que se escrevera antes. Reconheceram os críticos as virtudes, mas também as dificuldades de compreensão da monumental obra (e um dos críticos chegou a aludir aos “exageros” do estilo roseano). 

Assim, diz Maria Eugenia Celso, no Jornal do Brasil de 28/7/1956:

O que acho mais extraordinário em “Grande Sertão: Veredas”, o novo romance de Guimarães Rosa, é que, assim tão terrivelmente sertanejo no linguajar, no ambiente e na trama passional dos episódios, tenha sido escrito aqui por um diplomata num meio supercivilizado, para o qual aquela maneira de falar não pode deixar de ser um tanto charadística. Verdadeiro “tour de force”, a meu ver.

Escreve Manuel Bandeira em “Livros a Mancheias” no JB de 12 de agosto daquele mesmo ano:

Guimarães Rosa ouvi dizer que inventou uma língua nova, que não é nem a portuguesa, nem a brasileira, nem a de Mário de Andrade.

Em mesa redonda sobre Rosa publicada no JB de 2 de setembro afirmou Sérgio Milliet:

Mas com “Grande Sertão: Veredas” temos o grito de independência de nossa literatura. Depois deste livro será preciso reescrever a gramática do português do Brasil. [...] “Grande Sertão: Veredas” é sem dúvida alguma, o nosso grande acontecimento literário e linguístico do século. Está para a possível língua brasileira como a poesia de Villon ao findar a Idade Média.

Benedito Nunes, em “Primeira Notícia sobre Grande Sertão: Veredas”, no JB de 10/2/1957, escreve:

“Grande Sertão: Veredas” ultrapassa o âmbito regional. No drama do sertanejo ou do jagunço, irrompem os grandes problemas humanos – seja a luta do homem contra a natureza que o estimula e o abate ao mesmo tempo, seja o ímpeto do jagunço que se põe em armas para defender uma causa indefinível, adota a lei da guerra menos pela rudeza de seu espírito do que pela necessidade de viver e de realizar o seu destino.

Aliás, trata-se do único crítico que ousa apontar as deficiências do estilo do autor:

Os trechos onde a linguagem decai, perdendo a sua eficiência expressiva, revelam os defeitos da técnica que o romancista preferiu adotar para ser fiel às situações vividas pelo personagem. Alguns desses defeitos são cacoetes estilísticos decorrentes do uso, tantas vezes abusivo das desarticulações sintáticas, contrações e elipses que, praticadas mecanicamente, não possuem mais valor expressivo. 

Josué Montello, em aula inaugural do Curso de Literatura proferida em 28 de março de 1957 na Faculdade de Letras de Lisboa, considerou Grande Sertão: Veredas “a mais arrojada aventura da nova ficção brasileira. Guimarães Rosa é um renovador da língua como Aquilino Ribeiro.”

Múcio Leão (JB, 1/5/1957) reconhece que a linguagem de Grande Sertão: Veredas é dificílima, “uma espécie de língua nova, inaceitável à maioria dos leitores, senão a todos eles. Eu mesmo, que terminei por achar uma pura delícia esse Grande Sertão: Veredas, tive muita dificuldade para conseguir lê-lo. [...] Resolvi lê-lo mais ou menos como se fosse um livro escrito em outra língua, uma língua aproximada desta que falo.”

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Em suma, “o sertão é do tamanho do mundo” (pág. 60), e Grande Sertão: Veredas é um clássico, um monumento da nossa literatura, inovador, impressionante, de tirar o fôlego, uma das três epopeias da língua portuguesa (as outras, Os Lusíadas e Os Sertões), segundo meu amigo Alexei, tudo isso admito, mas... não há nada de errado em você, nem você precisa ficar com sentimento de culpa, caso não goste do livro de Guimarães Rosa. Afinal, gosto se discute!

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Ivo Korytoswki é romancista premiado, tradutor com quase duzentos romances traduzidos, autor de vários livros sobre o léxico brasileiro. Jornalista e blogueiro famoso no Rio e São Paulo.

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terça-feira, 25 de janeiro de 2022

ITABUNA CENTENÁRIA REFLETINDO: Frases de Famosos

 

Frases de Famosos

 

"As discórdias, habitualmente, são resolvidas, com a Lei do Amor”.

Mahatma Gandhi

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“Nada melhor do que a PAZ que aniquila toda a guerra de poderes celestes ou terrestres”.

Santo Inácio de Antioquia

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“O TEMPO PRESENTE é o único no qual podemos reparar o passado e construir o futuro”.

Santo Agostinho

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Com CRISTO, uma teia de aranha torna-se fortaleza; sem Cristo, a fortaleza é apenas uma teia de aranha”.

São Félix

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“O segredo da vida humana está na entrega sem questionamentos a DEUS, e na consciência de sua presença amorosa”.

Thomas Merton

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“Quem pergunta com má intenção não merece ouvir a VERDADE”.

Santo Ambrósio

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“Os CÉUS são relatores da glória de DEUS”.

Francisco de Quevedo

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“DEUS é o Deus do presente. Assim Ele te encontra e te acolhe não pelo que foste, mas pelo que és agora”.

Eckhart

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“O grande poder existe na força irresistível do AMOR”.

Gabriel Garcia Marquez

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“Homem poderoso é quem tem PODER sobre si mesmo”.

Sêneca

 

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