Total de visualizações de página

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

“CAMINHO SINODAL” DECIDIDO A FAZER UMA REVOLUÇÃO NA IGREJA


Não parece, mas a foto é de uma assembleia de bispos (progressitas) da Alemanha

Mathias von Gersdorff

 

Por ocasião das “bênçãos” a duplas homossexuais no início de maio passado, foram feitos vários apelos aos progressistas radicais alemães para que se moderassem. Advertências claras vieram também de Roma, pois com seu comportamento estrondoso eles ameaçavam prejudicar o processo sinodal no mundo inteiro.

Como resultado, a maioria dos teólogos e dos grupos de base se conteve de fato em suas posições extremadas, levando a supor até que se havia alcançado certa disciplina no progressismo radical alemão. Contudo, dela nada restou na II Assembleia Geral do Caminho Sinodal, quando voltaram formular exigências extremistas, contrárias ao Magistério e a Igreja universal:

— A Comunidade de Mulheres Católicas Alemãs (KFD), a União Alemã de Mulheres Católicas (KDFB) e a associação Maria 2.0 passaram a exigir a introdução do sacerdócio feminino. Tais associações são apoiadas especialmente pelos bispos Overbeck, de Essen e Bode, de Osnabrück.

— Elas exigem uma vez mais a abolição da moralidade sexual católica, em particular as parcerias homossexuais e extraconjugais devem ser aceitas e possivelmente e mesmo abençoadas.

— A Igreja deve ser democratizada e, na melhor das hipóteses, os bispos devem atuar como moderadores entre as diferentes correntes eclesiais. A natureza sacramental da ordenação ainda não foi rejeitada, mas suas consequências sim. Em particular, a constituição hierárquica da Igreja.

Em resumo busca-se erigir uma Igreja completamente nova, com uma Moral própria, e nova estrutura diretiva. Assim, o Caminho Sinodal quer construir de fato uma igreja nacional alemã. Há resistência em marcha, de modo especial de Dom Voderholzer, bispo de Regensburg, e de Dom Oster, bispo de Passau.

Contudo, Dom Rudolf Voderholzer foi imediata e duramente criticado por Dom Georg Bätzing, bispo de Limburg e presidente da Conferência Episcopal: “Suas declarações não foram autorizadas, além de presunçosas”. Não pode haver dúvida de que o Caminho Sinodal nada mais é do que uma revolução eclesiástica para uma nova religião.

A estratégia futura a ser aplicada em vista do Sínodo Mundial está em aberto, havendo três opções:

— Possivelmente os progressistas quererão criar fatos consumados, erigindo uma igreja nacional, independendo das reações por parte de Roma e da Igreja universal. Com quase certeza irão fazer ouvidos moucos aos brados de alerta, correndo o risco de se separarem de Roma.

— Talvez eles não queiram ir tão longe, tomando diante do Sínodo Mundial uma posição, de início, a mais revolucionária possível, mas sem adotar medidas concretas, esperando para ver como as coisas irão se passar em âmbito mundial.

— É possível que eles pensem que uma revolução em escala mundial na Igreja possa ser deflagrada a partir da Alemanha, como já se deu no século XVI com o protestantismo. As resoluções do Caminho Sinodal seriam algo como um manifesto da revolução da Igreja para o mundo inteiro.

Uma coisa é certa. Os bispos, sobretudo Dom Georg Bätzing, já não dirigem os acontecimentos, mas são arrastados pelas correntes radicais na assembleia do Caminho Sinodal. Eles teriam de encerrar o já iniciado processo de destruição com uma palavra de força, mas na aparência temem que os grupos radicais de base partam para as barricadas.

A possibilidade de se apoiarem em católicos leais ao Magistério na Alemanha encontra-se fora de questão para a maioria dos bispos, de tal modo eles se encontram prisioneiros de associações financeiramente fortes.

____________

Texto original: https://mathias-von-gersdorff.blogspot.com/2021/10/vollversammlung-synodaler-weg-ist-zur.html

Tradução: Renato Murta de Vasconcelos

https://www.abim.inf.br/caminho-sinodal-decidido-a-fazer-uma-revolucao-na-igreja/

* * *

O4 DE OUTUBRO: Dia de São Francisco de Assis

 


                  FRANCISCO DE ASSIS 

 

São Francisco de Assis,  nasceu na cidade de Assis, na Itália, em 1181 (ou 1182). Filho de um rico comerciante de tecidos, Francisco tirou todos os proveitos de sua condição social vivendo entre os amigos boêmios.

Tentou, como o pai, seguir a carreira de comerciante, mas a tentativa foi em vão.

Sonhou então, com as honras militares. Aos vinte anos alistou-se no exército de Gualtieri de Brienne que combatia pelo papa, mas em Spoleto teve um sonho revelador: Foi convidado a trabalhar para "o Patrão e não para o servo".

Suas revelações não parariam por aí. Em Assis, o santo dedicou-se ao serviço de doentes e pobres. Um dia do outono de 1205, enquanto rezava na igrejinha de São Damião, ouviu a imagem de Cristo lhe dizer: "Francisco, restaura minha casa decadente".

O chamado, ainda pouco claro para São Francisco, foi tomado no sentido literal e o santo vendeu as mercadorias da loja do pai para restaurar a igrejinha. Como resultado, o pai de São Francisco, indignado com o ocorrido, deserdou-o.

Com a renúncia definitiva aos bens materiais paternos, São Francisco deu início à sua vida religiosa, "unindo-se à Irmã Pobreza".

A Ordem dos Frades Menores teve início com a autorização do papa Inocêncio III e Francisco e onze companheiros tornaram-se pregadores itinerantes, levando Cristo ao povo com simplicidade e humildade.

O trabalho foi tão bem realizado que, por toda Itália, os irmãos chamavam o povo à fé e à penitência. A sede da Ordem, localizada na capela de Porciúncula de Santa Maria dos Anjos, próxima a Assis, estava superlotada de candidatos ao sacerdócio. Para suprir a necessidade do espaço, foi aberto outro convento em Bolonha. Um fato interessante entre os pregadores itinerantes foi que poucos, dentre eles, tomaram as ordens sacras. São Francisco de Assis, por exemplo, nunca foi sacerdote.

Em 1212, São Francisco fundou com sua fiel amiga Santa Clara, a Ordem das Damas Pobres ou Clarissas. Já em 1217, o movimento franciscano começou a se desenvolver como uma ordem religiosa. E como já havia ocorrido anteriormente, o número de membros era tão grande que foi necessária a criação de províncias que se encaminharam por toda a Itália e para fora dela, chegando inclusive a Inglaterra.

Sua devoção a Deus não se resumiria em sacrifícios, mas também em dores e chagas. Enquanto pregava no Monte Alverne, nos Apeninos, em 1224, apareceram-lhe no corpo as cinco chagas de Cristo, no fenômeno denominado "estigmatização".

Autor do Cântico do Irmão Sol, considerado um poeta e amante da natureza, São Francisco foi canonizado dois anos após sua morte.

Em 1939, o papa Pio XII tributou um reconhecimento oficial ao "mais italiano dos santos e o mais santo dos italianos", proclamando-o padroeiro da Itália.

 

(Recebi via WhatsApp)

* * *

EX-GERENTE DO FACEBOOK ASSUME AUTORIA DE DENÚNCIAS CONTRA REDE


Delatora deve prestar depoimento ao Congresso dos EUA nesta terça-feira (5).


Frances Haugen, ex-gerente de produtos do Facebook, revelou ao programa ’60 Minutes’, da CBS News, que foi ela a responsável por apresentar uma série de denúncias sobre as práticas da rede social.

As declarações ocorreram neste domingo (3) e, segundo Haugen, os documentos repassados embasaram reportagens do ‘Wall Street Journal’ que mostraram, entre outras coisas, que há uma política de proteção de celebridades — que não precisam respeitar as regras internas.

“Eu vi repetidamente conflitos de interesses entre aquilo que era bom para o público e o que era bom para o Facebook. E, todas as vezes, o Facebook escolheu só o que era melhor para ele e para seus lucros”, relatou.

Conforme a ex-funcionária, a rede social fundada por Mark Zuckerberg a todo momento olhou para os “lucros acima da segurança” dos usuários e do público em geral. Ela disse, inclusive, que trabalhou em outras redes sociais, mas que a conduta do Facebook foi a pior de todas.

“Em um certo momento em 2021, eu percebi que precisava agir de maneira sistemática e que eu precisava ter muitos documentos de maneira que ninguém pudesse colocar em dúvida que isso era real”, relatou à CBS News.

Contratada em 2019, Frances Haugen deixou a empresa em outubro deste ano.

“O Facebook viu que, se mudasse o algoritmo para algo que seja mais seguro, as pessoas passarão menos tempo no site, vão clicar menos em anúncios e vão gerar menos dinheiro. Ele ganha mais dinheiro quando você consome mais conteúdo e as pessoas gostam de se envolver com coisas que provocam uma reação emocional. E, quanto mais raiva você sentir, mais vai interagir e consumir”, acrescentou.

https://presidentebolsonaro.com/ex-gerente-do-facebook-assume-autoria-de-denuncias-contra-rede/

   * * *






domingo, 3 de outubro de 2021

SÃO FRANCISCO DE ASSIS – Plinio Corrêa de Oliveira


Lógica, calma, firmeza, contemplação, pureza, espírito de cavalaria

Plinio Corrêa de Oliveira

          São Francisco de Assis faleceu no dia 3 de outubro de 1226, portanto séculos depois de São Bento (480-547), de quem era grande admirador e devoto. Certa vez, ele resolveu ir ao mosteiro de Subiaco para venerar São Bento.



Essa pintura de São Francisco de Assis está numa das grutas de Subiaco. Acho uma maravilha! Representa um homem com aproximadamente 30 anos. A cidade de Assis fica no centro da Itália, mas ele, nesta representação, parece mais com o tipo humano do norte do país; sua fisionomia revela algo de germânico, um pouco alourado, olhos claros, bigode e barba um tanto rosados. Sua mão direita toca ligeiramente o braço esquerdo. Notem a força e a lógica nas linhas dessa mão.

A atitude dele é muito serena e calma, mas com muita determinação de vontade. Pela impostação da face notamos sua firmeza, traços distendidos, mas sem nenhuma moleza. Olhar de uma pessoa pensativa, em contemplação. Muita força de vontade de alguém que deseja aquilo que contempla.

Fisionomia de uma pureza impressionante! Um homem casto por excelência, temperante e vigoroso. Compreende-se que ele gostasse de ler para os seus noviços as histórias de Cavalaria. Antes de ser franciscano ele pensou em ser cavaleiro.

____________

Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em 6 de julho de 1985. Esta transcrição não passou pela revisão do autor.


O mosteiro de Subiaco (Itália), construído a partir do século VI pelo próprio São Bento, é o berço da Ordem Beneditina. Em 1223, São Francisco de Assis o visitou. Esse afresco, de pintor anônimo do séc. XIII, é a representação mais antiga do ‘Poverello de Assis’ e fica na Capela de São Gregório na gruta de Subiaco. Pintado em vida do santo, antes de ele ter recebido os estigmas. Fisionomia bem diferente dos habituais ‘santinhos’ que conhecemos, normalmente distribuídos em igrejas, pintados segundo uma iconografia progressista, em que o santo parece sentimental, adocicado, hesitante e mole. O oposto das grandes virtudes de São Francisco de Assis, considerado uma das maiores glórias da Igreja em todos os tempos.

 

https://www.abim.inf.br/sao-francisco-de-assis-2/ 


* * *

sábado, 2 de outubro de 2021


LIVRO O GIGANTE E A BICICLETA

DE FERNANDO LEITE MENDES 

SERÁ LANÇADO PELA ALI DIA 14

 


           O livro O Gigante e a Bicicleta e Outras Belas Crônicas, de Fernando Leite Mendes, coletânea organizada por Cyro de Mattos e Ivo Korytowski para resgatar a memória e o valor do esquecido cronista ilheense será lançado pela Academia de Letras de Ilhéus, online, no dia 14 de outubro, às 19 horas.

          O lançamento remoto contará com a participação de Pawlo Cidade (mediador), Cyro de Mattos, Ivo Koritowski, Jane Hilda Badaró e Wilson Leite Mendes, o filho do cronista.

          O livro traz capa da desenhista Jane Hilda Badaró e tem o selo editorial da Via Litterarum, do editor Agenor Gasparetto. Para o escritor e poeta Cyro de Mattos, Fernando Leite Mendes, que nos deixou aos 48 anos, nada deve aos cronistas melhores de sua época, década de 50 no Rio de Janeiro, como Carlinhos Oliveira, Paulo Mendes Campos, Rubem Braga, Drummond, Carlos Heitor Cony, Stanislaw Ponte Preta, Fernando Sabino, Rachel de Queiroz e outros astros da crônica brasileira. 

           A antologia O Gigante e a Bicicleta e Outras Belas Crônicas é acrescida de prefácio, depoimentos e pesquisa iconográfica realizada pelos organizadores.  

          Cyro de Mattos é autor de vasta obra, de vários gêneros, membro das Academias de Letras da Bahia, de Ilhéus e de Itabuna, Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz, também editado no exterior, além de detentor de prêmios importantes. Publica quinzenalmente uma crônica na revista virtual da crônica RUBEM, de Curitiba.  

         Ivo Korytowski é jornalista, tradutor e romancista premiado pela União Brasileira de Escritores (Rio). Reside em São Paulo. É o editor dos conceituados blogs Literatura & Rio de Janeiro & São Paulo e Sopa no Mel. Para selecionar as crônicas que compõem esse livro póstumo, seus organizadores fizeram ampla pesquisa na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. 


* * *

sexta-feira, 1 de outubro de 2021

HOJE, 1/10 É DIA DE: Santa Terezinha do Menino Jesus

 


Santa Teresinha do Menino Jesus

 

A vida da Santa Teresinha do Menino Jesus marca na História da Igreja uma nova forma de entregar-se à religiosidade. No lugar do medo do "Deus duro e vingador", ela coloca o amor puro e total a Jesus, amor puro, infantil e total, como deixaria registrado nos livros "Infância Espiritual" e "História de uma alma".

Teresinha nasceu na França, em 02 de janeiro de 1873. Foi batizada com o nome de Maria Francisca. Nasceu numa família muito religiosa. Aos quinze anos conseguiu permissão para entrar no Carmelo, em Lisieux, concedida especial e pessoalmente pelo Papa Leão XIII.

Sua obra não frutificou pela ação evangelizadora ou atividade caritativa, mas sim em oração, sacrifícios, provações, penitências e imolações, santificando o seu cotidiano enquanto carmelita.

Teresinha teve seus últimos anos consumidos pela terrível tuberculose que, no entanto, não venceu sua paciência com os desígnios do Supremo. Morreu em primeiro de outubro de 1897 com vinte e quatro anos, depois de prometer uma chuva de rosas sobre a Terra quando expirasse. Essa chuva ainda cai sobre nós, em forma de uma quantidade incalculável de graças e milagres alcançados através de sua intervenção em favor de seus devotos.

O papa Pio XI a chamou de "Padroeira especial de todos os missionários, homens e mulheres, e das missões existentes em todo o universo".

 

(Recebi via WhatsApp – Autor não mencionado)

* * *

quinta-feira, 30 de setembro de 2021

ROMANCE DO NEGRO EM TORTO ARADO - Cyro de Mattos

                 Romance do negro em torto arado 

Cyro de Mattos*

                    

           Romance do baiano Itamar Vieira Junior, Torto arado (2019) conquistou o prêmio Internacional Leya, um dos mais prestigiados em língua portuguesa, que tornou o autor em um fenômeno da literatura contemporânea. Graças à láurea merecida foi conduzido para além das fronteiras nacionais. O prêmio conquistado deu fama ao autor que há pouco tempo só tinha publicado dois livros de contos: Os dias e Oração do carrasco. O romance rendeu ainda a Itamar Vieira Junior os cobiçados prêmios Jabuti e Oceanos de Literatura, o que expandiu ainda mais o seu nome de romancista e impôs a tradução da sua obra em outros idiomas. 

      Romance de narrativa segura, que encanta, dotado de uma uniformidade em sua construção estética que satisfaz, apresenta-se com dois planos no enfrentamento do tema, um de natureza histórica conectado à solidariedade da realidade social e o outro nas relações com o mágico, adotado por alguns de seus personagens, em convívio atemporal com os espíritos conhecidos como encantados. Intenso na carga dramática prende na medida em que vai desenvolvendo a trama vivida por Zeca Chapéu Grande, mãe Salu, as filhas Belonísia e Bibiana, vó Donana, e outras personagens paralelas, como Crispina, Crispiniana, Tobias, Severo, Domingas, Maria Cabocla, compadre Saturnino, o gerente Sutério, Miúda e até mesmo pelos encantados Velho Nagô e Santa Rita Pesqueira.

          O tema do romance atravessa o Brasil mascarado em outra face da escravidão do negro, esse desgraçado vivente que um dia estupidamente foi retirado de África para fornecer mão de obra gratuita nos longes de outras terras.  O discurso do baiano Itamar Vieira Junior motiva-se assim com o tema que envolve o descendente desse negro esquecido depois da abolição da escravatura. Quando então soube de outro tipo de escravidão, imposto no trabalho sem paga pelo dono da terra.

           Chegando à   fazenda, depois de vagar, vulnerável por todos os lados, recebia de favor a morada de adobe e vara trançada, de fragilidade visível para que não durasse com o uso e fosse substituída nos mesmos moldes pelos descendentes da mão servil e gratuita. No jogo que só favorecia ao dono da terra, não era permitido ao trabalhador que fosse construída uma casa de tijolo.  Na morada precária, sem água encanada e energia elétrica, exigia-se de seu morador que trabalhasse a terra sem receber remuneração e tudo que produzisse nela por mãos calosas, na lavoura de duração perene, era destinado ao dono da fazenda. 

           Difícil que em ambiente de tamanha dificuldade o trabalhador arranjasse tempo para zelar de sua lavoura de pouca duração na várzea quando estava seca, isso era tarefa para a mulher e os filhos. O quintal da casa era também onde a mulher plantava a abóbora, a batata-doce, o quiabo, o tomate e o alface. O alimento sempre era escasso nos períodos de seca prolongada ou de chuva em abundância. Nessas horas de mais vexame, recorria-se ao parente e ao vizinho para arranjar algo que abrandasse o duro passadio.  No estio demorado, o trabalhador alimentava-se com beiju de jatobá, peixe pequeno pescado no rio empoçado. Nas cheias, em algum braço do rio ou lagoa que se formava na várzea, pescava-se o peixe grande, o que até certo ponto aliviava.

           Torto arado conta a história das irmãs Bibiana e Belonísia, que ainda pré-adolescentes sofrem o acidente com a faca de cabo de marfim e lâmina que brilha como espelho, escondida entre as roupas velhas da avó Donana, na mala debaixo da cama.  É quando a aguçada curiosidade das irmãs força que descubram o que existe guardado na mala debaixo da cama, fazendo que se vejam surpresas diante da faca de intenso brilho na lâmina e com o cabo de marfim. Ocorre o acidente em que uma delas tem a língua cortada enquanto a outra apenas fica ferida. A irmã que ficou sem a língua só será revelada no final do romance, recurso que o autor usa com habilidade na técnica de sustentar o suspense para aprofundar a narrativa na trama, em cujos atalhos de passagens impressionantes desenvolvem-se outros acontecimentos arrojados vividos pelas duas personagens. 

      Com o acidente, uma irmã fica como responsável na transmissão   dos sentimentos da outra, do significado dos dizeres em silêncio provocados pela espontaneidade do riso ou desconforto da tristeza. Na situação que sempre existia com a compreensão recíproca, numa convivência de gestos expressos com o sentimento de amor fraterno, como antes nunca deixou de existir. Mais unidas estavam agora, apreensivas, até certo ponto cautelosas, uma pressentindo o que se passava no coração da outra, sem poder expressar suas reações diante dos seres e das coisas.    

            Aparece em suas vidas o primo Severo para separá-las nos sentimentos bons que existiam entre elas, naquela irmandade formada pela cadência do viver desprovida de animosidade. As chamas do amor surgem para aquecer de repente o coração de cada uma, as pulsações agora são causadas pelas visões que as inquietam, originadas pela jovialidade do primo. A desconfiança e o ciúme são mazelas que nascem dessas chamas para separá-las no rancor, que não souberam antes em qualquer circunstância.   O diálogo nutrido pelo afeto já não se faz disponível pela alma que teme ser ofendida pela vitória do amor da outra, a que não ficou emudecida com o acidente provocado pela faca de cabo de marfim.  Somente no final é também revelado o mistério que envolve a faca de lâmina brilhante, durante tanto tempo guardando o segredo de algo fatal por Donana, que reage zangada quando pressente que o instrumento afiado possa ser descoberto por algum curioso.           

           Bibiana faz-se agricultora com o passar do tempo enquanto a irmã Belonísia acompanha o marido quando ele se afasta da fazenda Água Negra em busca de melhores dias na cidade. É lá, em chão estranho, de desafio e dificuldade, que ela consegue se formar em professora.  De volta às origens tempos depois, o marido entrega-se à causa de conscientização dos que trabalham na terra com as mãos incansáveis, recebendo no final como recompensa o descanso no cemitério Viração. E dessa  maneira, conscientes do  discurso solidário, possam se libertar do jugo imposto na rotina do trabalho sem paga,  que exaure, torna a vida sofrida, inconcebível, sugada na lavra até a derradeira gota de suor, que só encontra sossego no sumidouro de uma cova rasa.  Severo é assassinado. Belonísia decide retomar a luta do marido para a libertação dos que vivem submissos à canga do dono da terra, o único que tira proveito do trabalho exercido em condição desumana.      

            Em Torto arado, romance audacioso na denúncia social, como Beira rio beira vida, do piauiense Assis Brasil, o autor não se omite quando é para dar seu testemunho crítico sobre a questão social da terra usada em níveis desumanos. Faz ecoar de suas páginas o grito pungente riscado nas dores de uma realidade soprada pelo vento de amanhecer áspero, que só encontra alento no escape para uma hora mais branda vivida no plano espiritual com os encantados. 

       No final de romance tão belo quanto revelador da vida encalhada numa estrutura arcaica, a personagem Salu deixa seu grito ecoar contra os donos da terra e o uso dela de maneira desumana, num misto de coragem assombrosa e grandeza humana:

 

         “Vocês podem até me arrancar dela como uma erva ruim, mas nunca irão arrancar a terra de mim.” (página 230, edição 2020)

 

             Para esse romance de incursão intimista e social na realidade rural brasileira, motivado pela gente do quilombo, a mensagem de uma épica contemporânea é encerrada com o pensamento reflexivo de afirmação lúcida.

                                  

        “Sobre a terra, há de viver sempre o mais forte.”  (página 262,   

                                              ano 2020)


         À afirmação de mensagem poderosa pode ser adicionada a bandeira do sentimento do amor, que é de fato o mais forte, e o da liberdade, o mais valoroso. 

 

 Referência

 JUNIOR, Itamar Vieira, Torto arado, romance, Prêmios Leya, Jabuti e Oceanos de Literatura, Editora Todavia, São Paulo, 2020.


 


*Cyro de Mattos
é autor de 80 livros, de diversos gêneros. É também publicado em Portugal, Itália, França, Espanha, Alemanha, Dinamarca, Rússia e Estados Unidos.  Membro da Academia de Letras da Bahia, Pen Clube do Brasil e Instituto Geográfico e Histórico da Bahia.  Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México.

* * *