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sábado, 19 de agosto de 2023

Alexandre Cachorro

Cyro de Mattos

 


          Os meninos de minha rua gostavam muito dos beijus que o Alexandre Cachorro fabricava. O vendedor de beiju era um homem magro, alto, a cara com marcas da bexiga, que quase o levou para a cova. Tinha poucos dentes na parte superior e inferior da boca, as gengivas empretecidas, devido ao vício que tinha de fumar o cigarro Yolanda Azul.  O cigarro quase não saía de sua boca.

          Seu Isaías, um homem de bigode cheio, cabeça sem um fio de cabelo, o melhor consertador de bicicleta na cidade, era um dos fregueses do Alexandre Cachorro. Sempre comprava o seu beiju quando ele passava vendendo no beco onde ficava a oficina de consertar bicicleta. Certa vez, Seu Isaías disse que Alexandre Cachorro passou a ter esse apelido depois que ficou sem o seu cão de estimação.

          Sansão era um amigo fiel que acompanhava seu dono quando cedo vinha vender beiju no balaio pelas ruas principais da cidade. Era um cão grande, pelo negro brilhante, que não fazia mal a ninguém. Tinha a mania de correr atrás do carro, latindo seguidas vezes, quando pressentia que o veículo passava na rua sacolejando, buzinando, como se fosse um bicho de outro mundo prestes a fazer algum dano ao vendedor de beiju. A cena provocava riso entre algum menino que tinha a sorte de presenciá-la, vendo naquele cão o melhor amigo do dono, tendo o melhor salto, sendo o melhor abraço e o melhor guardião. Qual o menino na cidade que não gostaria de possuir um cão como aquele, um protetor fiel de seu dono?

          Quando chegava perto do dono, tinha olhos de bicho pidão, o rabo inquieto. Então Seu Alexandre jogava o beiju para cima, sorrindo assim que via que no salto preciso a guloseima era abocanhada pelo cão. Tinha a mania de correr latindo atrás do carro, que passava em velocidade normal pela rua, tentando morder nessa hora uma das rodas do veículo. Um dia, disparou atrás de um carro latindo mais que de costume, tentando morder desesperado uma das rodas dianteiras do veículo. Foi pego pela roda traseira. O motorista não teve tempo de frear o carro e evitar a colisão com o animal, que com o impacto desferido pela roda traseira foi lançado para o passeio. Ficou com a cabeça fendida, a boca emborcada na poça de sangue. Horrorizado, não querendo acreditar no que seus olhos estavam vendo, o dono do animal ficou com a expressão cabisbaixa no rosto triste. Sabia que daquele momento em diante Sansão não seria mais o amigo que o acompanhava quando descia com o balaio cheio de beiju para ser vendido de porta em porta.

          Morava no casebre de paredes de adobe, cobertura de folha de flandres velho, erguido perto do matagal onde descia um córrego de águas escuras. No fogão a lenha, sem pressa, costumava preparar os beijus arrumados na frigideira em forma de um tabuleiro grande.  Sansão quieto em um dos cantos da sala, atento aos movimentos do dono no casebre acanhado. Ele fazia todos os dias o beiju seco e o molinho com um gosto adocicado, que era enrolado na palha de banana.  Dava água na boca do menino só de pensar no beiju molinho e doce produzido por Alexandre Cachorro.  Nem no céu havia outro igual àquele que ele fazia na frigideira quadrada sob o calor do forno.

           Na refeição matinal, o menino tinha os olhos de gula em cima das iguarias que a mãe trazia nas tigelas, postas com cuidado à mesa: cuscuz, requeijão assado, banana fritada, batata doce cozida, mugunzá, pão de milho amanteigado, quentinho, aipim molinho. Entre essas guloseimas prazerosas, nenhuma ganhava do beiju molinho e doce que o Alexandre Cachorro produzia. 

          Passou uma semana, duas, mais outra, um mês. De repente Alexandre Cachorro deixara de aparecer nas ruas da cidade para vender seu beiju apreciado pela freguesia enorme, sem que alguém conseguisse explicar o que havia acontecido com ele. Estaria doente lá no seu casebre onde vivia sozinho, desde que a mulher falecera de uma doença perigosa, que lhe atacou o pulmão? Onde às vezes se dizia que ele latia, rosnava e uivava igual a um cachorro perdido no mundo, à procura do dono, mas que nunca achava? Toda a cidade logo passou a saber que ele dera para imitar os latidos de cachorro quando ia vender seu beiju pelas ruas principais desde que ficou sem a companhia do amigo Sansão.

          Um dia, sua ausência demorada pelas ruas principais quando vendia seu beiju anunciado por ele mesmo como o melhor do mundo foi esclarecida por seu Isaías. O consertador de bicicleta informou que soube da notícia da morte de Alexandre Cachorro pelo carteiro. Os vizinhos estranharam que o casebre onde ele morava ficasse durante três dias com portas e janelas fechadas. Ele tinha o costume de abrir cedo a porta e janela da frente, mal o sol despontava no horizonte com sua flor luminosa.  Chamaram por ele vezes seguidas. Bateram com força na porta. Até que encontraram seu corpo estirado no piso de cimento esburacado, todo duro. 

          Estava agora dormindo o sono sem sonho na cidade dos pés juntos, naquele lugar onde todos chegam um dia para não mais acordar para esse mundo de cá cheio de momentos alegres e tristes.

          Não precisava mais vender beiju pelas ruas e becos, dando latidos igual a um cachorro.

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Cyro de Mattos é escritor e poeta. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. Publicado nos Estados Unidos, Dinamarca, Rússia, Portugal, Espanha, Itália, França e Alemanha. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia. Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz - UESC.

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sábado, 12 de agosto de 2023

Poeta e escritor Cyro de Mattos recebe comenda Dois de Julho na ALBA
Honraria foi entregue pelo deputado Marcelinho Veiga nesta quinta (10)




A Assembleia Legislativa da Bahia (ALBA) foi  palco da entrega da maior honraria da Casa para o escritor e poeta Cyro de Mattos às 15h desta quinta-feira (10). Uma sessão especial proposta pelo deputado estadual Marcelinho Veiga (UB) marcou a celebração do artista baiano que recebeu a Comenda Dois de Julho após construção de legado literário com 65 obras publicadas de diversos gêneros e premiado em diferentes países. A entrega da comenda aconteceu no plenário da Alba. 
Em sua justificativa, o deputado Marcelinho Veiga diz “que o trabalho de Cyro de Mattos engrandece a vida de qualquer pessoa com sua obra”. Para ele, os livros contribuem com a progressão da cultura, artes e ciências, na Bahia e no Brasil. “É uma honra poder homenagear um baiano de Itabuna com um legado cultural imenso e que evidencia o poder intelectual e de expressão verbal do povo nordestino. A intenção é sempre poder registrar a importância da cultura em nossas vidas. Com certeza, milhares de pessoas já foram influenciadas pelas suas narrativas”, descreve.
Cyro de Mattos é autor de 65 livros pessoais, de diversos gêneros, premiado no Brasil, Portugal, Itália, México e Cuba. É o primeiro doutor honoris causa da Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc). Ele também é membro efetivo das Academias de Letras da Bahia, Ilhéus e Itabuna. Tem livros editados em Portugal (cinco), Itália (seis), França (um), Alemanha (um), Espanha (dois) e Dinamarca (um). Seu livro ‘Infância com Bicho e Pesadelo e Outras Histórias’ recebeu o prêmio internacional Casa das Américas e está sendo traduzido para o espanhol.

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quinta-feira, 10 de agosto de 2023

Um homem lúcido

Ignácio de Loyola Brandão

 


Havia naquela cidade uma mulher que prometera nunca se casar se isso fosse bom para a humanidade a fim de conter o aumento populacional. Não eram poucos os pretendentes, ela era bonita. Não dessas belezas estonteantes, inatingíveis, de comerciais de tevê, principalmente os que vendem cervejas. Aliás, até hoje me pergunto a relação entre cerveja e mulher bonita. Porque? Ao olhar para uma você sente sede? Mas, sede você mitiga com água. E neste mundo corretamente político pergunto: uma mulher feia não inspira a pessoa a tomar cerveja? Preconceito? Machismo? Uma cerveja geladíssima pede paisagem deserta, sem fim, extensão super escaldante. Um lugar onde você precisa caminhar aos pulinhos para não queimar os pés pede o que? Cerveja geladíssima na mente publicitária.

Faz semanas que isto me intriga. Penso tanto que meu cérebro ferve, e com os neurônios queimados o pensamento se torna impossível para mim, preciso me refrescar, fico desesperado em busca de um oásis, com palmeiras, ou tamareiras, porque me parece, ou melhor, parece-me que as tâmaras se dão bem em regimes quentes.

O que, pensando racionalmente, se é que alguém no mundo pensa racionalmente, a não ser os Inteligentes Artificias que entraram em moda. No entanto, confesso que tenho 87 anos e ainda não encontrei nenhum Inteligente Artificial e me alertaram que se eu for procurar entre os políticos, aí é que ficarei desiludido. É um desastre.

Súbito, minha esposa me chama a atenção. Que elocubrações são essas que vejo como legendas na sua testa? No futuro haverá legendas nas nossas testas. Como pensar que em meio a um deserto ardente (nada a ver com a Sarça Ardentes bíblica) uma pessoa apareceria com um isopor cheio de garrafas de cerveja? Para vender a quem? Imaginou o preço que este ambulante cobraria? Uma exorbitância e ninguém reclamaria. Claro, sentado em uma duna no deserto, solão ardendo, você recusaria aquele liquido gelado por causa de uns reais. Uns? Não! Nem dezenas. Centenas. Milhares. Porque, reconheçamos, vale. Mas talvez pudesse pagar em Drex. A nova moeda que o Brasil inventou. Sim, mas espere, para sentar-se na areia fervente, será bom levar uma almofada climatizada, gelada. Ou será catastrófico para o traseiro? Drex. Já vivi a época do conto de reis, do mil reis, do cruzeiro, do cruzado, do cruzado novo, do real, da bitcoin. Mas estas serão outras considerações menos complexas. Não, não tomei ácido, estou lúcido. Como qualquer brasileiro.

Estado de São Paulo, 09/08/2023

 https://www.academia.org.br/artigos/um-homem-lucido

Ignácio de Loyola Brandão - Décimo ocupante da Cadeira 11, eleito em 14 de março de 2019 na sucessão do Acadêmico Helio Jaguaribe.

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OESTE SEM FILTRO - 10/08/2023

quinta-feira, 3 de agosto de 2023

Assembleia Legislativa da Bahia 

Vai Homenagear Cyro de Mattos 

Com a Comenda Dois de Julho 


 

 No próximo dia 10 de agosto, às 15 horas, no plenário da Assembleia Legislativa do Estado da Bahia, em Salvador, o escritor e poeta Cyro de Mattos estará recebendo a Comenda Dois de Julho, a mais elevada honraria daquela Casa.  A concessão da Comenda resultou do pleito proposto pelo deputado Marcelinho Veiga. A Comenda Dois de Julho foi criada para homenagear aos que engrandecem a vida com a sua obra, contribuem com a progressão da Cultura, Artes e Ciências, na Bahia e no Brasil.  

Entre as personalidades que foram agraciadas com a Comenda Dois de Julho figuram os professores doutores Luís Henrique Dias Tavares e Cid Teixeira, a Iarolixá Mãe Stella de Oxóssi, o Reitor da UFBA João Carles Salles, o escritor Joaci Góes, presidente do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, todos eles membros efetivos da Academia de Letras da Bahia. Também receberam a honraria o instrumentista Carlinhos Brown, professor doutor Albino Rubin, médium Divaldo Franco, diretor teatral Márcio Meireles, a cantora Margareth Menezes, o desportista Bobô e a baiana Marta Vasconcelos, Miss Universo.  

Cyro de Mattos é autor de 65 livros pessoais, de diversos gêneros, premiado no Brasil, Portugal, Itália, México e Cuba. Primeiro Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Membro efetivo das Academias de Letras da Bahia, Ilhéus e Salvador. Do Pen Clube do Brasil e do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia. Editado também em Portugal (cinco livros), Itália (seis), França (um), Alemanha (1), Espanha (dois) e Dinamarca (um). Seus contos e poemas estão presentes em mais de quarenta antologias importantes publicadas no Brasil, França, Portugal, Estados Unidos, Rússia, Itália e Espanha. Seu livro Infância com Bicho e Pesadelo e Outras Histórias, Prêmio Internacional Casa das Américas, está sendo traduzido para o espanhol para em breve circular no continente da América Latina, numa edição do Fondo Editorial Casa de las Américas, de Havana, Cuba. 

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quinta-feira, 27 de julho de 2023

Aniversário da Cidade

Cyro de Mattos

 


                Comemora a cidade outro ano de emancipação política. Falam de seu progresso e vocação de seu povo para o trabalho. A cidade torna-se festiva e desperta muito cedo com a descarga de foguetes que crepitam no céu. Os moradores sabem que a cidade é antes de tudo raiz e seiva que escorrem no comercinho novo. É trama com ânsia e sonho. Antes aconteceu na légua do tropeiro, roupa do alfaiate, plaina do carpina, tenda do sapateiro. Nas mãos generosas do padeiro, no feijão preparado pela cozinheira, que o ano todo tem calo e calor nas mãos. Na colher do pedreiro. No sermão do padre, na filarmônica tocando na praça, convidando o povo para voar na valsa. Na cuia do cego, na cantiga da lavadeira, na cartilha da professora. Na bola do menino que quebrou a vidraça do vizinho. Com os namorados que passeiam de mãos dadas no jardim. Na rua, na loja, no armazém, no banco, a cidade com o seu modo de estipular o mundo. Na guerra da palavra em tempo de eleições, quando a vitória é uma questão de vida ou morte. No jornal que dá a notícia boa ou má, sempre veloz, indo de canto a canto.       

            Com sangue nas veias que sangram todos os dias, a cidade anda às vezes triste, os pés descalços, adormece embaixo de marquises. Atropela na dura lei da vida, converte-se em tempo de violência e miséria, que cada vez mais assusta.

             Com vários jornais, emissoras de rádio, canais de televisão, colégios, hospitais, ruas e avenidas asfaltadas, universidade como brasa verdejante em seu novo dizer da lavra, a cidade vive agora a época da automação, da moderna sociedade de massas. Sabe que hoje o mundo é uma aldeia global, não podendo desviar-se dessa sintonia. Mas na cidade ainda encontramos a maneira sensível de alguns conceberem a vida. Existem aqueles que lambem as palavras e se alucinam. Falam de coisas agudas. Tentam com a palavra permanecer na vida, negando a morte.

             E o cronista, aprendiz das palavras que queimam como brasa, no momento que está concluindo a crônica, imagina o primeiro homem que pisou no chão de suas raízes. A noite daquele homem no navio misturando-se com as conversas de macho. As estrelas tão longe. Perdidas na abóboda do céu negro. O navio já se aproximando do porto de Ilhéus.

             Na viola do peito, Félix Severino do Amor Divino cantava baixinho, sem ninguém cantava.

 

Cyro de Mattos - Cyro de Mattos é poeta e ficcionista. Possui prêmios literários importantes. Primeiro Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Autor de mais de 50 livros de diversos gêneros.

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