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domingo, 7 de fevereiro de 2021

BEATO PIO IX - Plinio Maria Solimeo



Papa da Imaculada Conceição, do Syllabus e da infalibilidade pontifícia. Enfrentou corajosamente o “Risorgimento” italiano e sua vinculação histórica e ideológica com a Revolução Francesa. Sua festividade é celebrada no dia 7 de fevereiro.

Plinio Maria Solimeo

Escrever sobre um Papa que faleceu aos 86 anos, e que durante 32 esteve no comando da Igreja numa época das mais conturbadas de sua história, governando-a com sabedoria em seus muitos empreendimentos, é quase impossível num espaço muito limitado. Por isso daremos apenas grandes traços do pontificado desse bem-aventurado Pontífice, baseando-nos sobretudo na excelente obra do Prof. Roberto de Mattei,1 da qual são transcritas as citações entre aspas cujas fontes não vêm citadas; e as demais são do bom artigo de Michel T. Ott na The Catholic Encyclopedia.

Influência de São Vicente Pallotti

João Maria Mastai Ferretti, futuro Pio IX, nasceu no dia 13 de maio de 1792 em Senigaglia, na Itália. De família da nobreza local, estudou no Colégio Piarista em Volterra. Como sofria de epilepsia, não pôde seguir a carreira militar. Em 1809 foi estudar teologia em Roma, mas teve que abandonar os estudos em 1812, por problemas de saúde. Fez parte da Guarda Nobre Pontifícia, mas também por motivos de saúde teve que deixá-la. Apesar desses padecimentos, sua longa vida incluiu o pontificado de 32 anos, o mais longo da História depois do de São Pedro.

Mastai Ferreti teve em 1815 um encontro providencial com São Vicente Pallotti, que lhe profetizou o pontificado, e a partir daí a Virgem de Loreto o curou gradual e definitivamente. Diante das ideias que marcaram seu tempo — “iluminismo, turbulências do período napoleônico, surgimento da questão operária que culminou no ‘manifesto comunista’, tendências liberais, movimentos nacionalistas na Europa, além do desenvolvimento da imprensa” — São Vicente Palloti “voltava sua atenção sobre a necessidade urgente de reavivar a fé, e de reacender a caridade entre os católicos para anunciar a todos os homens a boa notícia da salvação”.2

Arcebispo, Cardeal e Papa



Tiara de Pio IX

Tendo voltado aos seus estudos teológicos, foi ordenado sacerdote em 1819. Em 1823 acompanhou o Núncio Apostólico ao Chile, aí permanecendo durante dois anos. Ao seu retorno em 1825, foi nomeado cônego de Santa Maria in Via Lata e diretor do grande hospital de São Miguel. Finalmente, em 1827, Leão XII o designou Arcebispo de Espoleto, onde seguiu uma linha pacificadora e moderada.

Em 1831, revolucionários italianos partidários da independência de seu país em relação à Áustria combateram o exército imperial e foram derrotados. O Arcebispo Ferretti os convenceu a depor as armas e a se dispersarem. Deu-lhes dinheiro suficiente para voltar às suas casas, e obteve para eles o perdão do comandante austríaco.

No ano seguinte Mastai Ferreti foi transferido para a sé de Imola. Em 14 de dezembro de 1840 tornou-se cardeal (em 1839 ele já havia sido cardeal in petto), conservando a sé de Imola até tornar-se sucessor de Gregório XVI em junho de 1846. Era o candidato dos cardeais liberais, que desejavam reformas políticas moderadas.

O novo Papa aceitou relutantemente a tiara, e tomou o nome de Pio em memória de Pio VII, seu benfeitor. Por sua caridade para com os pobres, bondade de coração e perspicácia, foi recebido com alegria pelo povo.

Em sua primeira encíclica (Qui Pluribus, de 9 de novembro de 1846) Pio IX lamentou a opressão dos interesses católicos, as intrigas contra a Santa Sé, as maquinações das sociedades secretas, os sectarismos, as associações bíblicas, o indiferentismo, as falsas filosofias, o comunismo e a licenciosidade da imprensa.



O Papa Pio IX despede-se do Rei Fernando II no momento de seu retorno a Roma depois do exílio em Gaeta – Filippo Bigioli (1798-1878)

Fuga para a cidade de Gaeta

Durante a revolução de 1848, estando Roma em poder dos revolucionários que visavam proclamar a república, o palácio papal do Quirinal foi cercado. Com a assistência do embaixador da Baviera, o Papa conseguiu fugir disfarçado para Gaeta, onde outros cardeais se juntaram a ele. Apelou então para França, Áustria, Espanha e Nápoles, e no dia 29 de junho as tropas francesas comandadas por Oudinot restauraram a ordem na Cidade Eterna.

No dia 12 de abril de 1850 o Soberano Pontífice pôde voltar a Roma. Daí em diante abandonou sua política liberal, tornando-se cada vez mais um firme contra-revolucionário.



O Papa Pio IX proclama o Dogma da Imaculada Conceição Francesco Podesti, séc. XIX. Museu do Vaticano

Dogma da Imaculada Conceição

         Depois de ter ouvido os pareceres de uma comissão teológica e dos bispos favoráveis à Imaculada Conceição, no dia 8 de dezembro de 1854 Pio IX proclamou solenemente, diante de uma multidão de cardeais, bispos, religiosos e mais de cinquenta mil fiéis, que “a gloriosa Mãe de Deus fora concebida, desde o primeiro instante de sua concepção, isenta de qualquer mancha”.

         “Todos os presentes afirmam que, no momento da proclamação do dogma, o rosto de Pio IX, banhado em lágrimas, foi iluminado por um feixe de luz que descia do alto”, como é declarado na Positio (livro que resume toda a documentação e testemunhos de que o Servo de Deus viveu em grau heroico as dez virtudes: as teologais, cardeais e, se religioso ou clérigo, as de pobreza, castidade e obediência).

O Sumo Pontífice declarou depois a uma religiosa que, naquele momento, “o próprio Deus comunicou ao meu espírito um conhecimento tão claro e tão vasto da incomparável pureza da Santíssima Virgem, que me perdi como num abismo na profundeza desse conhecimento que língua alguma pode descrever”.

         Escreve De Mattei: “Nos difíceis anos que marcaram a sua ascensão ao trono de São Pedro, Pio IX decidiu confiar o seu pontificado e a própria causa da Igreja Católica, com uma solene definição dogmática, àquela que desde a infância sempre invocara como Virgem Dolorosa […]. Segundo o testemunho de uma religiosa do Sagrado Coração de Jesus, Pio IX teria tido a intuição de propor outras duas definições dogmáticas relativas a Nossa Senhora: a Assunção, e a Mediação Universal”. O dogma da Assunção foi proclamado depois por Pio XII, em 1950. Resta ainda o da mediação universal da Mãe de Deus, almejado ardentemente por todos os fiéis católicos.

         No ano seguinte, 1855, tendo o Piemonte aprovado uma lei suprimindo as Ordens religiosas, Pio IX fulminou com uma excomunhão maior todos quantos tinham proposto, aprovado e sancionado tão infame lei.

Encíclica Quanta Cura e o Syllabus


Em várias ocasiões, diversos eclesiásticos e leigos influentes haviam sugerido a Pio IX que publicasse um documento condenando os inúmeros e perniciosos erros do tempo. O Pontífice então “encarregou o cardeal Fornari, que presidia os trabalhos da Comissão Pontifícia, de consultar a opinião de alguns leigos e eclesiásticos de vulto, entre os quais o conde Avogradro della Motta, Mons. Pie, Louis Veuillot e Donoso Cortés”.

Depois de vaivens, a encíclica Quanta Cura, de 8 de dezembro de 1864, condenou 16 proposições relativas aos erros da época. A encíclica era acompanhada do famoso “Syllabus errorum”, lista de 80 proposições condenando o panteísmo, naturalismo, racionalismo, indiferentismo, socialismo, comunismo e a maçonaria.

Primeiro Concílio Vaticano

Haviam transcorrido três séculos após o encerramento do Concílio de Trento, quando em setembro de 1864 Pio IX decidiu convocar um Concílio Ecumênico como remédio para os gravíssimos males do tempo. Anunciou oficialmente em junho de 1868 a convocação, marcando sua abertura para 8 de dezembro de 1869. A preparação havia sido meticulosa. Desde 1865 instituíra uma comissão cardinalícia, tendo como consultores os teólogos mais autorizados das diversas disciplinas.

No dia 18 de julho de 1870 foi proclamado o dogma da Infalibilidade Pontifícia pela bula Æterni Patris. “No instante em que Pio IX entoou o Te Deum, o sol, cortando inesperadamente as nuvens, iluminou a Basílica, deixando descer um raio sobre o rosto comovido do Papa, como já tinha acontecido por ocasião da definição do dogma da Imaculada Conceição”.

Foi o último ato do Primeiro Concílio Vaticano, pois no dia seguinte, 19 de julho, a Prússia declarava guerra à França. “Punha-se assim em movimento a sucessão de acontecimentos que haveria de concluir-se com a ocupação de Roma a 20 de setembro, com o adiamento do Concílio ‘para uma época mais oportuna e mais propícia’.” Com efeito, no dia 11 de setembro cerca de 60 mil homens das forças italianas invadiram Roma, defendida por apenas 13 mil soldados do exército pontifício. Por isso o Papa dera a estes últimos a ordem de se renderem, tão logo ficasse configurada a agressão.

A queda de Roma marcou o fim do poder temporal da Santa Sé. Pio IX encerrou-se então no Vaticano, passando a considerar-se como prisioneiro.



Túmulo de Pio IX na igreja romana de São Lourenço Fora dos Muros

Singular virtude e grandes realizações

O pontificado de Pio IX foi cheio de outras grandes realizações, como o restabelecimento da hierarquia católica na Inglaterra, Holanda e Escócia; a condenação das doutrinas galicanas; o envio de missionários ao Polo Norte, Índia, Birmânia, China e Japão; a criação de um dicastério para as questões relativas aos orientais. Incentivou também a devoção ao Sagrado Coração de Jesus.

Segundo o teólogo Michael T. Ott, na The Catholic Encyclopedia, “o crescimento sadio e extensivo da Igreja durante seu pontificado foi sobretudo devido ao seu desprendimento de si mesmo”, e ao fato de ele ter concorrido muito para o florescimento da Esposa Mística de Cristo escolhendo “para os postos eclesiásticos importantes somente homens que eram famosos por sua piedade e saber”. Isso explica também a quase unanimidade dos bispos em favor das grandes decisões pontifícias.

Monsenhor Pietro Balan, historiador da Igreja citado por De Mattei, assim descreve Pio IX: “Era um homem de singular virtude, de vida piedosíssima, de costumes inocentes, de índole humilde e compassiva, mas ao mesmo tempo firme, experiente nas coisas políticas, conhecedor das tristes condições da sociedade, das revoltas contemporâneas e dos artifícios sectários, douto nas disciplinas eclesiásticas, eloquente, sóbrio, temperante, figura muito esbelta, de modos corteses, avesso a favores indevidos a parentes, magnânimo para socorrer e proteger, afetuoso, de consciência singularmente delicada, e devotíssimo da Virgem Imaculada”.

Faleceu no dia 7 de fevereiro de 1878, e foi sucedido pelo Papa Leão XIII. Seu túmulo está na igreja romana de São Lourenço Fora dos Muros. Foi beatificado em setembro de 2000.

____________

Notas:

1. Roberto de Mattei, “Pio IX”, Livraria Civilização Editora, Porto, 2000.

2. https://pt.wikipedia.org/wiki/Vicente_Pallotti

https://www.abim.inf.br/beato-pio-ix/

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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

Os Pingos Nos Is - 05/02/21 - 3 MILHÕES DE INSCRITOS NO CANAL!!! - PARABÉNS!

ITABUNA CENTENÁRIA, UM POEMA: Amigo - José Lannes

 


Amigo 

(José Lannes)


Amigo é o que nos procura

simplesmente por sentir

prazer, descanso, ventura,

em nos ver e nos ouvir.

 

Aconselha-nos, se erramos,

sem humilhar-nos, porém,

e sempre que precisamos,

ao nosso encontro ele vem...

 

Tem muito dos nossos gostos,

das nossas opiniões 

e, se divergem os rostos,

concordam os corações.

 

Quando um dia, inopinada,

uma dor nos espezinha...

Embora bem disfarçada,

num relance ele adivinha...

 

Com uma palavra breve e sábia,

realiza o encanto:

eis que já sentimos leve

o que nos pesava tanto!

 

Na hora torva e indecisa

em que descremos de nós,

só ele nos valoriza

com sua alma e sua voz!

 

Mais que irmão! conceito antigo

nos instrui com perfeição,

se nem todo irmão é amigo,

todo amigo é sempre irmão. 

 

Mas não é qualquer no mundo

que possui o raro dom

de ser amigo profundo...

É preciso, antes, ser bom.





 

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

ESCRITOR E POETA GRAPIÚNA ELOGIADO NA ESPANHA

 


                                                                

Escritor e Poeta Grapiúna

Elogiado na Espanha

 

 

          O artigo Cyro de Mattos: La poesía en el corazón del Brasil, de Juan Angel Torres Rechy, poeta e filólogo mexicano, integrante do Departamento de Espanhol da Universidade de Soochow,  P. R. China, teve publicação com destaque na Rádio e TV Al Dia e no Boletim Poético digital “Crear en Salamanca”, veículos culturais importantes de Salamanca, na Espanha.  Além disso, o artigo apresenta os poemas “Lugar” e “Tarde no Alpendre” do autor baiano, na tradução do poeta peruano-espanhol Alfredo Pérez Alencart.      

     No artigo, o ensaísta mexicano comenta sobre a atuação do poeta e ficcionista baiano no XVI Encontro de Poetas Iberoamericanos, em Salamanca, quando então lançou o livro de poemas Donde Estoy y Soy, noticia sobre o seu ingresso na Academia de Letras da Bahia e sobre os seus prêmios literários mais importantes. Ressalta ainda sua obra  poética com um acervo constituído de dezoito livros publicados no Brasil e doze no exterior.  

       Enquanto isso, o Boletim Poético digital “Crear en Salamanca”, editado pelo poeta peruano-espanhol Alfredo Pérez Alencart, para divulgar as atividades dos poetas que vêm participando dos Encuentros de Poetas Iberoamericanos, dá destaque, na edição de fevereiro, aos três livros O Discurso do Rio, poesia, Nada Era Melhor, romance da infância, e Pequenos Corações, contos, de Cyro de Mattos, publicados recentemente pela Editus, editora da Uesc.  O Boletim inclui também do poeta baiano Sete Sonetos Inspirados em Fernando Pessoa, que integram o livro Canto até Hoje, ainda inédito.


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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

ITABUNA CENTENÁRIA REFLETINDO: A Viagem de Trem

 


A vida não passa de uma viagem de trem, cheia de embarques e desembarques, alguns acidentes, agradáveis surpresas em muitos embarques e grandes tristezas em alguns desembarques.

Quando nascemos, entramos nesse magnífico trem e nos deparamos com algumas pessoas que julgamos, estarão sempre nessa viagem conosco: nossos pais.

Infelizmente isso não é verdade, em alguma estação eles descerão e nos deixarão órfãos do seu carinho, amizade e companhia insubstituível. Isso, porém, não nos impedirá que durante o percurso, pessoas que se tornarão muito especiais para nós, embarquem. Chegam nossos irmãos, amigos, filhos e amores inesquecíveis!

Muitas pessoas embarcarão nesse trem apenas a passeio, outras encontrarão no seu trajeto somente tristezas e ainda outras circularão por ele prontos a ajudar quem precise. Vários dos viajantes quando desembarcam deixam saudades eternas, outros tantos quando desocupam seu assento, ninguém nem sequer percebe.

Curioso é constatar que alguns passageiros que se tornam tão caros para nós, acomodam-se em vagões diferentes dos nossos, portanto somos obrigados a fazer esse trajeto separados deles, o que não nos impede é claro que possamos ir ao seu encontro. No entanto, infelizmente, jamais poderemos nos sentar ao seu lado, pois já haverá alguém ocupando aquele assento.

Não importa, é assim a viagem, cheia de atropelos, sonhos, fantasias, esperas, despedidas, porém, jamais, retornos. Façamos essa viagem então, da melhor maneira possível, tentando nos relacionar bem com os outros passageiros, procurando em cada um deles o que tiverem de melhor. Lembrando sempre que em algum momento eles poderão fraquejar e precisaremos entender, porque provavelmente também fraquejaremos, e com certeza haverá alguém que nos acudirá com seu carinho e sua atenção.

O grande mistério afinal é que nunca saberemos em qual parada desceremos, muito menos nossos companheiros de viagem, nem mesmo aquele que está sentado ao nosso lado. Eu fico pensando se quando descer desse trem sentirei saudades. Acredito que sim, me separar de muitas amizades que fiz será no mínimo doloroso, deixar meus filhos continuarem a viagem sozinhos será muito triste com certeza...

Mas me agarro à esperança de que em algum momento estarei na estação principal e com grande emoção os verei chegar. Estarão provavelmente com uma bagagem que não possuíam quando embarcaram e o que me deixará mais feliz será ter a certeza de que, de alguma forma, eu fui uma grande colaboradora para que ela tenha crescido e se tornado valiosa.

Amigos, façamos com que a nossa estada nesse trem seja tranquila, que tenha valido a pena e que quando chegar a hora de desembarcarmos o nosso lugar vazio traga saudades e boas recordações para aqueles que prosseguirem a viagem.

 

(Autor não mencionado)

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terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

ITABUNA CENTENÁRIA UM POEMA: FIM DE ROMANCE – Luiz Gonzaga Dias



Fim de Romance

 

Ela voltou depois... Voltou mais linda,

Tal como torna a tentação do jogo;

Veio dentro da tarde quase finda

Tendo na boca carminada, um rogo.

 

Alma exaltada, coração em fogo

Mantive a força de vontade ainda.

De recusar o doce desafogo

Do cérebro que pedia a sua vinda.

 

Sopesei a tortura na renúncia,

Mas na recusa havia uma denúncia

Do suplicio maior chegar depois.

 

Ela entendeu também... Foi se afastando,

Deixando atrás um coração chorando...

Era tarde demais para nós dois!

 

Luiz Gonzaga Dias

( IMAGENS MUTILADAS )

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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

ABORTO NÃO É UMA QUESTÃO RELIGIOSA?



Luiz Sérgio Solimeo

 

Os católicos argentinos deram um exemplo para o mundo ao lutar valentemente contra a legalização do aborto [fotos acima e abaixo]. Entretanto, eles não tiveram o apoio do papa argentino, uma vez que a agenda dele não inclui tais preocupações. Com efeito, o silêncio do Papa Bergoglio a propósito da legalização do aborto no seu país foi chocante.


Por exemplo, o Prof. José Arturo Quarracino destaca que em sua última mensagem de Natal, o Papa Francisco falou sobre os problemas de vários países, mas não disse palavra sobre a Argentina, sua terra natal. Ele ressaltou que esta indiferença confirma o que se comenta entre os bispos e padres amigos de Bergoglio, ou seja, que o aborto não é assunto tão importante como o meio ambiente ou os migrantes.1

Esse silêncio é ainda mais inexplicável considerando que o Papa tem boas relações com o presidente da Argentina, Alberto Fernández. Este, pouco depois de ser eleito, foi calorosamente recebido por Francisco [foto ao lado].


Por sua vez o Prof. Rubén Peretó Rivas escreveu: “O presidente argentino, Alberto Fernández, foi quem promoveu a lei e se comprometeu a pressionar pessoal e insistentemente vários legisladores para que mudassem de voto e permitissem sua aprovação [do aborto]. É o mesmo presidente que foi saudado com complacência e largos sorrisos pelo Sumo Pontífice em 31 de janeiro de 2020, o mesmo que naquele dia assistiu à missa celebrada pelo Arcebispo Marcelo Sánchez Sorondo para ele e seus acompanhantes na cripta da Basílica do Vaticano — onde se encontra o túmulo de São Pedro — onde comungou com a sua concubina, a ex-showgirl Fabiola Yañez”.2 Afinal, estamos no tempo de Amoris Laetitia

O Papa Francisco, em cartas privadas às pessoas que o consultaram sobre o seu pronunciamento de o aborto não ser principalmente uma questão religiosa religiosa, repetiu a sua declaração.3 Essa postura sugere que não se deve empreender uma luta religiosa para bloquear a legalização desse pecado grave. Numa dessas cartas — embora privada, foi publicada pela Conferência Episcopal Argentina — o Papa afirmou: “A [uma carta] me perguntando sobre o problema do aborto, eu respondi […] [que] o assunto do aborto não é principalmente uma questão religiosa, mas humana, uma questão de ética humana anterior a qualquer confissão religiosa”.4

E prosseguiu sugerindo que argumentos não religiosos sejam usados na luta contra o aborto: “Sugiro que você se faça duas perguntas: — É justo eliminar uma vida humana para resolver um problema? — É justo contratar um assassino para resolver um problema?”5      Uma coisa é utilizar tanto argumentos religiosos quanto os de bom senso. Outra é dizer que o aborto não é principalmente uma questão religiosa.

Em questões morais, como o aborto, o argumento mais decisivo é o religioso, pois coloca a pessoa diante de seu destino eterno, seu fim último. Isso é especialmente verdadeiro em um país católico como a Argentina. Afirmar que o aborto não é fundamentalmente uma questão religiosa é negar que ele, acima de tudo, é uma grave ofensa a Deus. É a morte deliberada de um ser humano inocente. É um dos quatro pecados que clamam ao Céu por vingança.6

Além disso, o aborto vai contra a infinita sabedoria de Deus ao vincular a relação sexual natural à procriação da humanidade. Também vai contra Sua adorável vontade, que determina que o ato sexual deve ser realizado apenas no casamento e sem interferências que o tornem infrutífero. O aborto é, portanto, uma revolta contra Deus, “aversio a Deo, conversio ad creaturam” — afastar-se de Deus, voltar-se para algum bem criado — como Santo Agostinho definiu o pecado.7


A mulher que procura um aborto voluntariamente, e a equipe médica que o pratica, pecam por ação. Quem deveria se opor à legalização do aborto e não o faz, peca por omissão. Santo Tomás de Aquino afirma que ser negligente em “um ato ou circunstância necessária à salvação é um pecado mortal”.8 O aborto é um pecado mortal extremamente grave. Além de uma ofensa grave contra Deus, tem consequências na vida moral e social de um povo.

Assim, aqueles cuja missão é guiar, sobretudo espiritualmente, e não se opõem de modo ativo ao aborto, mas se limitam a declarações ambíguas ou oposição branda, desproporcional à situação, cometem um pecado grave. Sua omissão contribui para que o pecado do aborto provocado se generalize. Ajuda a fazer com que o crime pareça “normal”, levando muitos a pecar.

O Papa São Félix III já advertia no século V, que “um erro ao qual não se opõe, é considerado aprovado; uma verdade defendida de modo minimalista, é abolida […]. Quem não se opõe a um crime evidente, está sujeito à suspeita de secreta cumplicidade”.9

As autoridades religiosas que não combateram a legalização do aborto neste país católico como era seu dever, devem prestar contas a Deus por sua responsabilidade neste pecado nacional. “Que fizeste? A voz do sangue de teu irmão clama da terra por mim” (Gênesis 4,10).

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Notas:

  1. Marco Tossati, “Quarracino. Aborto en Argentina: la Indiferencia del Papa Bergoglio,” Stilum Curiae, Dec. 26, 2020, https://www.marcotosatti.com/2020/12/26/quarracino-aborto-en-argentina-la-indiferencia-del-papa-bergoglio/.
  2. See Aldo Maria Valli, “L’aborto in Argentina e gli amici di papa Francesco,” AldoMariaValli.it, Dec. 30, 2020, https://www.aldomariavalli.it/2020/12/30/laborto-in-argentina-e-gli-amici-di-papa-francesco/. “Presidente argentino concubino y abortista recibe la Comunión en el Vaticano (Vídeo)”, https://gloria.tv/post/hwVfRJqDfVYR343VMcFmfztU8, acessado em 13 de Jan.de 2021.
  3. Elisabetta Piqué, “Fuerte condena del papa Francisco al aborto: ‘¿es justo cancelar una vida humana para resolver un problema?’” La Nación, Jan. 10, 2021, https://www.lanacion.com.ar/politica/fuerte-condena-del-papa-al-aborto-es-nid2566081.
  4. Conferencia Episcopal Argentina, “Carta del Papa Francisco a sus alumnos y compañeros de colegio,” Episcopado.org, Dec. 5, 2020, https://episcopado.org/contenidos.php?id=2707&tipo=unica.
  5. Ibid.
  6. “8. P: Quais são os pecados que bradam ao Céu e pedem a Deus por vingança? – R: Os pecados que bradam ao Céu e clamam a Deus por vingança são quatro: 1º. Homicídio voluntário; 2º. Pecado impuro contra a natureza; 3º. Opressão dos pobres, principalmente órfãos e viúvas; 4º. Não pagar o salário a quem trabalha. P: Por que se diz que estes pecados pedem vingança a Deus? Porque o diz o Espírito Santo, e porque a sua malícia é tão grave e manifesta, que provoca o mesmo Deus a puni-los com os mais severos castigos” (Catecismo Maior de São Pio X, Diocese de Campos, RJ).
  7. Battista Mondin, Dizionario Enciclopedico del Pensiero di San Tommaso d’Aquino (Bologna: Edizione Studio Domenicano, 1991), 445.
  8. Summa Theologiae, II–II, q. 54, a.3, c.
  9. Citado por Leão XIII na Encíclica Inimica vis (Sobre a Maçonaria), 8 Dez.1892, no. 7. http://www.vatican.va/content/leo-xiii/en/encyclicals/documents/hf_l-xiii_enc_08121892_inimica-vis.html

 

https://www.abim.inf.br/aborto-nao-e-uma-questao-religiosa/

 

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