A Academia Brasileira de Letras, em parceria com a Cinemateca do Museu de Arte Moderna e com o apoio do Espaço Itaú de Cinema, dá continuidade ao CineAcademia Nelson Pereira dos Santos, em homenagem ao saudoso acadêmico falecido em 2018. Os filmes serão exibidos na primeira terça-feira de cada mês, sempre às 18h00, no Espaço Itaú de Botafogo (Praia de Botafogo, 316) e obedecerão a um critério de ciclos preestabelecidos. A coordenação desses ciclos caberá ao Acadêmico Carlos Diegues.
O primeiro filme projetado foi "Limite", de Mário Peixoto, dentro do Ciclo Fundação do Cinema Brasileiro, que mostrará também "Argila", de Humberto Mauro e "Rio, 40 graus", de Nelson Pereira dos Santos (em janeiro). Cada projeção de filme terá uma apresentação e uma mesa de debates com profissionais ligados ao filme em exibição, além de cineastas, críticos, professores e pensadores reconhecidos.
Para a exibição de "Argila", a mesa será composta pelo cineasta André Di Mauro e pela atriz Carla Camurati. José Quendal será o mediador do debate.
Os ingressos poderão ser obtidos na bilheteria do Espaço Itaú de Cinema, situado à Praia de Botafogo, 316, Botafogo ou pelo site www.ingresso.com. Os valores são R$10,00 para inteira e R$5,00 para meia-entrada.
Argila
Admiradora de obras de arte e, em especial, da cerâmica de Marajó, jovem viúva compra uma cerâmica de objetos utilizados e a entrega a um talentoso artesão para que desenvolva suas habilidades artísticas. Apaixonado pela patroa, o jovem desfaz seu namoro com uma moça da região. Alertada pelo pai da moça sobre o acontecido, a viúva, apesar de amá-lo secretamente, recusa o amor do ceramista.
Amigo meu de décadas, como poucos culto, amável e
inteligente, enviou-me dito francês conhecido “savoir dire, savoir plaire,
savoir faire” (saber dizer, saber agradar, saber fazer), como possível
tradução da locução inglesa “soft skills”, por mim examinada em texto
recente — “Foco no sucesso”, desde 27 de outubro em meu blog
periclescapanema.blogspot.com.
Perguntava eu no artigo se alguém tinha em mente tradução
adequada para o que hoje significa “soft skills” no mundo dos
negócios, em que de forma especial exprime qualificações necessárias para ali
alcançar posições de destaque (eu não tinha). Minha intenção primeira no
presente texto era discorrer sobre em que a viva construção francesa acima
transcrita parece exprimir corretamente o “soft skills” e em que, a
meu entender, deixava de lado certos aspectos.
Todo o artigo já estava na cachola, era só limar um ou outro
pormenor e pôr no papel. No texto imaginado por mim havia um ponto que só uma
vez ouvi levantado (aliás, por político mineiro que já nos deixou há tempos)
como fundamental na vida: a importância do convívio com homens inteligentes. O
experiente homem público julgava indispensável para a formação intelectual,
para moldar a personalidade, para as obrigações de pai de família e de
profissional o tal convívio. “Procure sempre o convívio dos homens
inteligentes”. Claro, homens no sentido normal da palavra, mulheres,
crianças, moços, idosos (seres humanos). Ousaria rematar com um pontinho:
busque o convívio dos bons observadores. Nada soma quem não sabe ver direito a
realidade. Os raciocínios brotam desfocados se os olhos antes não captam
realidade objetiva e rica.
Corta, o resto fica para depois. De repente fui agredido
pela realidade e me vejo obrigado a tratar agora de outro assunto. O amigo
acima mora em Frankfurt. Outro amigo, residente em Paris, a quem não vejo faz
muito tempo, muito tempo mesmo, o que lamento, têm algo em comum: o mau gosto
de ler textos meus. Passou os olhos pelo “Preocupa” (postado no blog também em
27 de outubro) e se viu na obrigação de me avisar: o futuro já chegou. Pensei
comigo: antes da hora (para os incautos). O futuro em tela estava marcado para
2047.
Todos sabem, o “Le Monde” é jornal de enorme importância,
com viés de centro-esquerda (não é um “Le Figaro”). E assim em geral ecoa mal
ou não ecoa as vozes que vêm da direita. O “Le Monde” edita uma espécie de
revista “Le magazine du Monde”, cujo número 424 de 1-11-2019 traz informativo
artigo de Florence de Changy intitulado “Les entreprises étrangères sous
pression chinoise” (As empresas estrangeiras debaixo da pressão chinesa).
Não são empresas pequenas, são mamutes famosos, alguns dos
quais do mundo do alto luxo. Florence de Changy começa relatando o caso da NBA
(National Basketball Association), a gigante norte-americana que coordena o
basquete nos Estados Unidos. Um simples tuíte de Daryl Morey, dirigente do
Houston Rockets, apoiando os combatentes pela liberdade em Hong Kong (atenção,
só reclamam o que consta dos textos legais), desencadeou furor na China
continental, o que causou prejuízos grandes aos maiores clubes dos Estados
Unidos. Alguém duvida que o furor não foi instigado pelas autoridades chinesas?
Retaliada no bolso, a NBA entrou logo na linha. O recado, e não é o primeiro,
ficou mais claro: o governo chinês exige lealdade absoluta (se quiserem troquem
lealdade por submissão, fidelidade, vassalagem, subserviência, dá no mesmo).
Não admite ninguém pisando fora da linha traçada pelo PCC (Partido Comunista
Chinês).
Outro caso. Tem sede em Hong Kong uma linha aérea grande e
reputada, a Cathay Pacific. Em agosto, o governo chinês exigiu da empresa
que demitisse imediatamente 200 empregados que participaram dos presentes
protestos na cidade. Ou, menos que isso, de alguma maneira manifestaram algum
apoio, mesmo que discreto. Ordem dada, ordem cumprida. Foram logo demitidos os
pouco mais de 200 funcionários. Rua! E ainda três dirigentes. A punição não
terminou aí, funcionários de grandes empresas chinesas estão proibidos de voar
na Cathay Pacific. Avery Ng, deputado social-democrata, nota: “O
governo chinês deu o recado: qualquer pessoa, qualquer uma mesmo, que ousar
tomar posição não conforme à linha determinada pelo Partido Comunista Chinês,
será punida ou demitida. É aviso ameaçador para todas as empresas que tenham o
menor interesse no mercado chinês”.
Poucas semanas depois, foi a vez do BNB Paribas, banco
francês. Funcionário seu em Hong Kong ousou colocar no Facebook particular
expressão de alguma maneira depreciativa com a China continental e favorável
aos Estados Unidos. Sofreu avalanches de ataques das milícias digitais. Teve de
sair do banco (a reportagem não deixa claro se pediu demissão ou foi demitido;
na prática, a mesma coisa. Rua!).
Resumindo o clima, observou o francês residente há 15 anos
em Hong Kong: “Começamos a ter medo de nossa própria sombra. É enorme o
efeito da intimidação chinesa. Todo mundo sabe, mas não se pode falar a
respeito. Além do mais, de que adiantaria? É a nova realidade”.
De momento, todas as grandes empresas de Hong Kong, e aqui
estão incluídas as francesas, muito presentes no setor do luxo e das finanças,
temem o passo em falso fatal. Têm uma única escolha: obedecer Beijing. Versace,
Givenchy, Coach, Delta Airlines, Zara, entre outros, já pagaram por seus erros.
A vigilância inclui o Tibete e a China Nacionalista. Estão
proibidos comentários ou quaisquer manifestações que destoem da linha oficial
do Partido Comunista. Beijing nos dois assuntos não tolera ponderações
contrárias a seus interesses. A Dior, numa apresentação interna, projetou um
mapa da China. Por distração, não constava nele Taiwan. Guerra das milícias
digitais. A Dior se dobrou em desculpas, reconheceu publicamente o dogma
comunista da “China única”, “respeito constante pelo princípio da China
única”. E assim vai.
E assim irá. Pelo tratado com a Inglaterra, a administração
de Hong Kong só passará a ser chinesa em 2047. A China perdeu a paciência,
mandou às favas escrúpulos, e já está sinalizado sobre o que teremos pela
frente. O futuro está chegando antes. Para Macau, a data é 2049, mas ali o
futuro já chegou. Eles não piam contra a China, que já domina tudo. Hong Kong e
Macau recebem hoje tratamento que, se não acordarmos, será o nosso daqui a
algum tempo. Quando? Não sei. Uma coisa sei, para nós, o futuro também pode
chegar antes da hora.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
Mateus.
— Glória a vós, Senhor.
Naquele tempo, Jesus disse aos seus discípulos: “A
vinda do Filho do Homem será como no tempo de Noé. Pois nos dias, antes
do dilúvio, todos comiam e bebiam, casavam-se e davam-se em casamento, até o
dia em que Noé entrou na arca. E eles nada perceberam, até que veio o
dilúvio e arrastou a todos. Assim acontecerá também na vinda do Filho do Homem.
Dois homens estarão trabalhando no campo: um será levado e
o outro será deixado. Duas mulheres estarão moendo no moinho: uma será
levada e a outra será deixada.
Portanto, ficai atentos, porque não sabeis em que dia virá
o Senhor.
Compreendei bem isto: se o dono da casa soubesse a que
horas viria o ladrão, certamente vigiaria e não deixaria que a sua casa fosse
arrombada.
Por isso, também vós ficai preparados! Porque, na hora em
que menos pensais, o Filho do Homem virá”.
“A vinda do Filho do Homem será como no tempo de Noé” (Mt
24,37)
Começamos um novo ano litúrgico. É um tempo especial que a
Igreja nos oferece como escola de oração e oficina de discipulado: ela nos
convida à contemplação e invocação dos mistérios de Jesus “hoje” e à
aprendizagem do autêntico discipulado neste nosso tempo. O Ano Litúrgico nos
diz que o tempo não é movimento circular, repetição do mesmo (chrónos), mas
renovação permanente, acontecimento surpreendente (kairós). Acolhamos este novo
ano litúrgico como tempo de graça e salvação.
No Advento, somos movidos a “sentir o tempo” de um modo
novo, a fazer-nos amigo dele, a nomear e acompanhar o tempo que nos cabe viver,
a habitar com intensidade as diferentes etapas de nossa vida. Cada momento
esconde sua pérola, e é muito excitante quando chegamos a descobri-la.
Falar do “tempo” não é tão simples e óbvio; é frequente
encontrar-nos numa situação na qual vivemos o tempo como um túnel, contínuo,
repetitivo... Trata-se de um tempo que absorve, devora, desgasta, esgota...;
túnel onde só há presente e sua prolongação homogênea. É cenário de uma
frenética e acelerada corrida por rentabilizar ao máximo os minutos e as horas.
O tempo torna-se cada vez mais veloz, fugaz, estressante... “Kronos” continua a
devorar com maior intensidade o que cria. Diante disso, não há futuro auspicioso,
nem esperança que sustenta... Com isso, corremos o risco de viver em um “tempo
sem tempo”! Um tempo para “ter”! Um tempo para preencher! Um tempo de excesso
de informação circulante e de atividades insensatas (sem sentido)! Um tempo sem
eternidade.
Um tempo assim só é habitado pelo “ego”; não há lugar para o
outro, muito menos para o Outro. Podemos dizer que um tempo assim cheira a
mofo, não está arejado...; é monstro que nos devora. Trata-se de um “tempo
sem advento”: não vem ninguém, não esperamos ninguém... Também Deus não
consegue entrar em nossos “tempos apertados”.
Marcados pelo “tempo vazio” a ser preenchido a todo custo,
acabamos por perder a consciência da riqueza do “tempo do Advento”. Tempo forte
carregado de sentido, que nos humaniza e nos faz caminhar em direção Àquele que
vem vindo... ao nosso encontro. Tempo que nos faz ter acesso àquilo que é mais
humano em nós: o sentido da esperança, a travessia, o encontro com o novo...;
tempo que nos arranca de nossas rotinas e modos fechados de viver.
Viver o tempo intensamente, vivificá-lo, cuidá-lo e
artisticamente orientá-lo para aquilo que desejamos. Este “tempo presente” é
oportuno, precioso e não volta mais. Vivê-lo para além dele, na espera do que
deve vir, carregá-lo de intenção e de presença.
Mais uma vez, é preciso parar e descer a esse nível do tempo
para ir descobrindo uma Presença que completa nosso ser, que plenifica nossa
existência, que responde à nossa interrogação existencial...; está aí, vindo em
direção à nossa vida, mais uma vez e de maneira surpreendente, como sempre
esteve. “Eis que estou à porta e bato: se alguém ouvir minha voz e abrir a
porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele comigo” (Ap. 3,20).
Advento, portanto, nos revela a presença da eternidade no
coração do tempo. O Eterno irrompe na história, iluminando a dura rotina e a
sequência do cotidiano. E, no nosso interior, o Eterno tem seu templo. Quando o
Advento aponta para a eternidade, bem que poderíamos olhar para dentro de nós
mesmos. Aí, no nosso interior, há tanto de eterno. A eternidade dialoga com a
gente, fala por dentro.
Passamos a viver, então, o tempo da espera e da esperança,
das buscas e dos silêncios... Sem a eternidade do coração que pulsa em nós, que
nos unifica e plenifica, a vida se empobrece.
Por outro lado, o Advento nos desperta para “olhar” ao nosso
redor e descobrir que Deus continua vindo. Sempre e por caminhos
surpreendentes. Advento nos convida a “contaminar-nos” da realidade; e isso nos
humaniza. Toda a nossa vida torna-se Advento.
Deus está no coração do tempo. Deus está ali como força
explosiva que dá à nossa vida nova dimensão e à nossa existência, infinito
valor. De agora em diante, cada um de nossos momentos está cheio de Sua
presença, pois a eternidade está no coração do tempo. Deus transforma o
“kronos” em “Kairós”.
A invasão da eternidade no tempo confere a este mesmo tempo
uma plenitude de ser, um peso de realidade e existência, uma densidade de
sentido que ele é incapaz de ter por si só. De agora em diante, nada em nossas
vidas é insignificante, nem rotineiro. A ação mais simples é transfigurada e
assume uma dimensão eterna e divina. Nada é banal, nada é comum para alguém
cuja vida mergulha no eterno.
No evangelho deste domingo, tanto a referência à história de
Noé, como as duas breves parábolas que seguem, se apresentam com um matiz de
“urgência”, que se traduz em um chamado à “vigilância”: “ficai atentos...,
ficai preparados”. Sem dúvida, é um convite a permanecer despertos, porque o
“Filho do Homem”, está vindo, e só a atenção nos permite percebê-lo.
Numa leitura literal, esta “vinda” pode ser mal-entendida
como algo que deve acontecer em um futuro mais ou menos próximo, e que comporta
um juízo com o correspondente “prêmio” ou “castigo”. No entanto, o texto
mateano nos oferece uma perspectiva mais ampla e atual.
Deus está vindo a todo instante, mas só quem está
verdadeiramente desperto entrará em sintonia com essa presença e deixar-se-á
inspirar por ela. Se não descobrirmos essa presença, nossa vida poderá
transcorrer sem tomarmos consciência da maior riqueza que está ao nosso
alcança. Deus não tem que vir em nenhum momento especial, nem vem de parte
alguma, porque é a base e fundamento de nosso ser; e se Ele se separasse de nós
um só instante, nosso ser voltaria ao nada. O que chamamos Deus está em nós
como fundamento, mesmo que não descubramos sua presença. Mas, como ser humano,
nossa mais alta possibilidade de plenitude consiste precisamente em descobrir e
viver conscientemente essa realidade. Deus está presente em tudo, habita em
todos os seres, mas só o ser humano pode ser consciente dessa presença.
É preciso recuperar a força do “hoje” de Deus para conosco,
reconhecer o “tempo” de sua Vinda, em tempos de deslocamentos. Vislumbramos
“algo” no horizonte e percebemos seus passos enquanto chega; e a história é o
rumor desses passos. Caminhamos para Ele quanto mais nos adentramos no
profundo de nós mesmos e da realidade.
Contemplando o “hoje” de Deus, o coração se alarga até o
assombro, os braços se abrem para a acolhida, os pés se movem para o encontro,
os olhos se aquecem para o reconhecimento.
Texto bíblico: Mt 24,37-44
Na oração: É preciso despertar e abrir bem os olhos.
Viver
vigilantes para olhar mais além de nossos pequenos interesses e preocupações. O
Evangelho nos convida a estar vigilantes. Estar desperto é a condição mínima
para ativar nossa humanidade.
- O que você está vislumbrando no seu horizonte pessoal,
social, espiritual, profissional, relacional...?
- Deus entra em sua agenda, em seu tempo? Quê sinais de sua
presença você percebe no ritmo cotidiano de sua vida?
Nota do autor: Por oportuno, reproduzo o artigo que escrevi
em 16 de novembro do ano passado, antes do julgamento do caso pela 13ª Vara da
Justiça Federal em Curitiba.
O rapaz, de nome Fernando, acalentava o sonho de possuir um
sítio na aprazível Serra de Itapetinga para ali reunir amigos e familiares em
momentos de convívio. Como não dispusesse dos meios necessários, juntou-os
entre pessoas de suas relações e adquiriu, após muita busca, no município de
Atibaia, uma propriedade com as características almejadas.
Vencida essa etapa, cuidou, então, de dar jeito nas
benfeitorias existentes. Tanto a moradia quanto as demais construções e áreas
de lazer precisavam de reformas que seriam custosas. Mas nenhuma dificuldade ou
restrição financeira afastava o proprietário de seu objetivo.
Fernando, como se verá, era robustecido pela têmpera dos
vencedores.
Se havia obra a ser feita no seu sítio, nada melhor do que
confiá-la à maior empreiteira do Brasil.
Marcelo Odebrecht, requisitado, deslocou gente de suas
hidrelétricas, portos e plataformas de petróleo, subiu a serra e assumiu a
encrenca: casa, alojamento, garagem, adega, piscina, laguinho, campinho de
futebol. Tudo coisa grande, já se vê.
Vencida essa etapa, o ambicioso proprietário se deu conta de
que as instalações da velha cozinha remanescente não eram compatíveis com os
festejos que ansiava por proporcionar aos seus convidados.
Para manter o elevado padrão, Fernando não deixou por menos.
Deu uma folga à primeira e convocou a segunda maior empreiteira do Brasil, a
OAS.
E o pessoal de Léo Pinheiro para lá se tocou, prontamente, a
cuidar da sofisticada engenharia culinária do importantíssimo sítio. Afinal,
uma obra desse porte não aparece todo dia.
Opa! Problemas de telefonia. Como habitar e receber amigos
em local com tão precárias comunicações?
Inconveniente, sim, mas de fácil solução. Afinal, todos nós
somos conhecedores da cuidadosa atenção que a OI dispensa a seus clientes.
Certo? Bastou comunicar-lhe o problema e uma nova torre alteou-se, bem ali, no
meio da serra.
Concluídas as empreitadas, chaves na mão, a surpresa! Quem
surge, de mala e cuia como dizemos cá no Sul, para se instalar no sítio do
Fernando? Recém-egressa da Granja do Torto, a família Lula da Silva veio e
tomou conta. Veio com tudo.
Com adega, santinha de devoção, estoque de DVD, fotos de
família e promoveu a invasão dos sonhos de qualquer militante do MST. Lula e os
seus se instalaram para ficar e permaneceram durante cinco anos, até o caso
chegar ao conhecimento público.
Quando a Polícia Federal fez a perícia no local não
encontrou um palito de fósforos que pudesse ser atribuído ao desafortunado
Fernando. Do pedalinho ao xarope para tosse, era tudo Lula da Silva.
Eu não acredito que você acredite nessa história. Aliás,
contada, a PF não acreditou, o MPF não acreditou e eu duvido que algum juiz a
leve a sério. Mas há quem creia, talvez para não admitir que, por
inconfessáveis motivos, concede a Lula permissão para condutas que reprovaria
em qualquer outro ser humano.
Membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto,
empresário e escritor e titular do site www.puggina.org,
colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o
totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A tomada do
Brasil. Integrante do grupo Pensar+.
A reunião em torno da mesa, que uniu os seres humanos, pode
desaparecer
Luis Dufaur
A reunião em torno “da lareira, da panela e da
mesa comum, que uniu os seres humanos durante pelo menos 150.000 anos, poderia
desaparecer”, segundo o historiador inglês Felipe Fernández Armesto [foto
abaixo].
O paradoxo é que esse retrocesso é obra da tecnologia.
O Prof. Felipe é autor do ensaio Comida, culinária e
civilização (ed. Tusquets), sobre a história da refeição, no qual demonstra
que “se comermos sem contato de alma em frente das telas digitais,
voltaremos três milhões de anos atrás”.
Professor convidado de universidades e institutos de
pesquisa, Fernández Armesto é autor de um grande número de obras concernentes à
história com uma perspectiva sociológica e cultural.
“Se deixarmos a mesa familiar, se comermos na frente das
telas ou caminhando isolados pelas ruas, voltaremos a um estágio na história
próprio dos hominídeos pré-civilização. A um sistema de vida semelhante ao de
dois ou três milhões de anos atrás, dos hominídeos catadores que comiam
desesperadamente, sem pensar nas possibilidades de usar a mesa para criar
sociedade, promover afeto e planejar um futuro melhor”, disse, em entrevista ao
jornal “La Nación” (11-10-19).
Fernández Armesto observa que “não pode haver convívio
sem refeição partilhada”, da mesma maneira como é “impossível imaginar uma
economia sem dinheiro” ou sem intercâmbio.
Portanto, é “legítimo considerar a refeição como o
momento mais importante do mundo: é o que mais ocupa a maioria das pessoas na
maioria das vezes”, deduz ele.
Segundo o pesquisador, as causas que contribuem para o
desaparecimento gradual do hábito de se sentar juntos para comer e conviver
são “mudanças sociais paradigmáticas” que causam danos que “estão
ocorrendo”.
Família “feliz” pelo contato com o smartphone, mas cessou o
relacionamento de alma
Quais? —
O“desligamento familiar, golpes intergeracionais, anomia, rejeição
de tradição, abandono do senso de pertencer à mesma família humana, no bom
sentido da palavra, a predominância de um individualismo existencialista alheio
à necessidade humana de manter relações vivas com outros seres humanos de carne
de osso”.
O autor se posiciona num ponto de vista sociológico e ético.
Porém, se analisarmos os ensinamentos do catolicismo, encontraremos momentos
religiosos nos quais Deus escolheu refeições para marcar momentos augustos da
Revelação.
Jesus escolheu refeições para o início de sua pregação até a
Ultima Ceia (Bodas de Canaã, Gérard David (1460 — 1523), Museu do Louvre.
Nosso
Senhor Jesus Cristo começou sua vida pública participando de um grande
banquete: o das bodas de Canaã. Ali fez seu primeiro milagre para um grande
número de pessoas: transformou a água das ânforas num precioso
vinho.
Quando chegou a noite junto ao Lago de Galileia e Jesus
percebeu que as multidões estavam sem comer. Ele sentiu que passavam fome como
um rebanho sem pastor, multiplicou os pães e peixes e mandou os Apóstolos
distribuí-los com tanta abundância que sobraram cestos repletos.
Simbolizou que a Igreja deveria alimentar os povos com a
palavra do Evangelho e que os Apóstolos voltariam com tantas conversões que
encheriam cestos.
Quando os judeus saíram da escravidão do Egito, a primeira
instrução de Moisés foi que jantassem bem. É a origem da ceia pascal que
repetimos até hoje no Domingo de Páscoa.
E foi precisamente durante uma ceia pascoal que Jesus
instituiu a Missa e a Eucaristia, cujos significados místicos são
frequentemente associados à alimentação em torno de uma mesa, obviamente
sagrada: o altar.
Outra prefigura eucarística é o maná que alimentou os judeus
no deserto.
Após a Ressurreição, Jesus se tornou patente aos apóstolos
na hora de partir o pão na mesa em Emaús. E assim poderíamos prosseguir com numerosos
exemplos.
Basta mencionar que as grandes festas litúrgicas ou
religiosas são acompanhadas com nobres, mas deliciosas refeições em comum,
familiares e sociais, como no Natal, na Páscoa, nas festas dos santos
padroeiros etc.
Porém, o professor que citamos observa que sob o pretexto de
progresso e modernidade estamos regredindo ao primitivismo. Morre o convívio,
apaga-se a religião no lar e na sociedade, se estiolam a cultura e o contato
entre as almas com a morte dos almoços e jantares em que predomina o contato de
alma a alma entre familiares.
Essa decadência está sendo feita sob o pretexto, continua o
ensaísta, de “mudanças tecnológicas que facilitam o abandono social: uma
rede eletrônica que não aperta sua mão nem beija seu rosto; formas de entretenimento
solitário, sem trocas emocionais com outras pessoas”.
Quantas vezes num bar vemos grupos de rapazes e moças que
não trocam uma palavra sequer, cada qual grudado em seu smartphone? Ou
estudantes e até professores universitários que na mesa não falam nada e no
máximo cada um exibe uma imagem ou uma mensagem de texto que apareceu em seu
dispositivo móvel?
No livro, o Prof. Fernández Armesto trata da história da
conversa e do convívio nas refeições como assunto inseparável de outro tipo de
relacionamento entre os seres humanos entre si e com a natureza: o nível da
culinária que desperta a inteligência.
Ele traça conexões em cada estágio entre a comida do passado
e a maneira como é consumida hoje.
Os belos serviços e talheres desaparecem e vai ficando o
sanduíche dentro de um envelope num McDonald, ou fast-food equivalente,
e um copo de plástico descartável sem muita preocupação se a mesa fica suja ou
não, e se o conviva sentado em frente se sentiu atendido ou interpretado.
Por isso, o professor acha que é possível identificar na
história dos povos civilizados oito revoluções na história da refeição. Essas
afetaram outros aspectos da história da humanidade, tornando-a ou mais
convivial e amável, ou mais insensível e brutal.
Acolha-me! Deixe que eu me deite em seu colo e tenha
sonhos de criança! Permita-me ter medo e confessá-lo... Deixe que eu solte meu
ser por campos onde seja possível andar sem jogos... sem temores... sem
mentiras.
Acolha-me! Guarde em seus braços meus infantis
segredos, minhas dúvidas de gente grande, meus sentimentos de ser pequeno! Faça
com que eu deixe o mundo lá fora por apenas alguns instantes.
Acolha-me! Segure minhas mãos com o carinho que só você
sabe fazer! Seca meu choro com palavras reais sobre um mundo que gostaria de
ter.
Acolha-me! Traga-me a paz em forma de gestos...
Não apenas me diga... Mostre-me!
Acolha-me! Decora meu rosto com desenhos feitos com
seus dedos com linhas que novamente me liguem ao mundo doce e terno em que
tanto acredito... A possibilidade de ser mais do que o herói de uma noite... O
amor de uma vida inteira.
Dê guarida ao meu insistente ser, aos sentimentos que
quero manter.
Semeia em meu corpo gestos puros e leves!
Guarda minhas costas para que eu possa enfim dormir... Para
que me sinta na casa dos seus braços, como aquela pessoa que você esperava e
que finalmente chegou.
Acolha-me... Olhe dentro dos meus olhos, busque por
mim, grite num sussurro meu nome.
Acolha-me... E com a tinta do seu amor escreva comigo uma
história bonita, destas onde o amor existe.
Segue comigo num cavalo branco, numa noite de lua, para
um lugar qualquer que mesmo existindo apenas em nossa comum imaginação será uma
ilusão segura que me fará de novo viver.
Cyro de Mattos é ficcionista e poeta. Da Academia de Letras
da Bahia. Possui prêmios importantes no Brasil e exterior. Publicado também por
várias editoras europeias.Primeiro
Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz.