Estava pensando como definir estes primeiros dias da Semana
Santa.
Acho que os poderia definir como um retiro em preparação
para algo grande.
O incêndio da Catedral Notre Dame em Paris, chocou o mundo.
A riqueza cultural, religiosa e testemunhal de quase nove séculos, foi
destruída pelo fogo em poucas horas...
Sentimos, como estamos impotentes, perante a fúria da
natureza. Nossos símbolos matérias desaparecem num piscar de olhos... só o
espírito, a alma permanece porque é imutável e eterno.
As leituras da liturgia nestes três dias confirmam
efemeridade e fragilidade do mundo e de nós mesmos. Mas o Cristo, angustiado
como homem, mas poderoso como Deus, aponta para a vida e para a eternidade.
O perfume de Maria só pode ter valor, na perspectiva da vida
eterna (Jo 12,7 8);
Lázaro, o justo, ressuscitado, vive com a força restauradora
de Cristo, mas incomoda. Por quê? (Jo 12,10-11);
Finalmente, até o Filho de Deus, é vendido por 30 moedas
ganhos pela corrupção... (Mt 26,15);
São tantas questões existenciais para repensar...
Que Cristo sofredor nos ilumine.
Com a benção e oração, bom dia.
Dom Ceslau.
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Dom Ceslau Stanula - Bispo Emérito da Diocese de
Itabuna-BA, escritor, Membro da Academia Grapiúna de Letras-AGRAL
O Acadêmico e professor Tarcísio Padilha lança, no dia 17 de
abril, quarta-feira, pela Editora Batel, os dois primeiros livros da coletânea
de sua obra reunida. O evento está programado para a Livraria Travessa de
Ipanema (Rua Visconde de Pirajá, 572), a partir das 18 horas. Nesse dia, o
autor estará completando 91 anos de idade.
Crônicas para um mundo melhor – uma ética do cotidiano é
o primeiro dos dois volumes e tem o prefácio assinado pelo Acadêmico Antonio
Hoauiss (1915-1999) e apresentação do escritor Marco Lucchesi, Presidente da
Academia Brasileira de Letras (ABL). No segundo, intitulado Literatura e
livre pensar – grandes nomes, o prefácio é assinado pelo Acadêmico e professor
Domício Proença Filho, ex-Presidente da ABL.
Os demais livros serão lançados com intervalo de três meses,
sendo o último no dia 24 de março de 2020, data que coincide com o aniversário
de 92 anos da mulher do escritor, senhora Ruth Padilha. Segundo a filha do
casal Heloisa Padilha, as datas, do primeiro ao último lançamento, “caracterizam
que se trata de um projeto de família, o que é muito importante frisar”.
O primeiro livro, de acordo com os editores, é uma coletânea
com 70 artigos do autor publicados no Jornal do Commercio entre 1996 e 1998,
nos quais o autor apresenta sua avaliação e suas aspirações a respeito do mundo
atual. Em textos que tratam de temas do cotidiano, o autor analisa e reflete
sobre os fatos, contextos e realidades com um crivo ético. O autor procura, de
um lado, ressaltar virtudes e elementos de um ideal a ser atingido pela
atividade humana e, de outro, apontar as mazelas de um mundo em construção,
enfatizando a ação e a reflexão como o caminho para se atingir o maior bem
comum da humanidade.
O segundo é uma publicação inédita em livro de textos e
discursos de Tarcísio Padilha sobre personalidades do mundo literário e
intelectual brasileiro, Guimarães Rosa, Coelho Neto, Rachel de Queirós, Alceu
Amoroso Lima, Sobral Pinto, Octávio de Faria, Luiz Paulo Horta, Carlos Heitor
Cony, Nélida Piñon e Ana Maria Machado foram os nomes escolhidos por Tarcísio
Padilha para essa coletânea. São textos em que a criação literária e o livre
pensamento surgem como tema central, numa homenagem sincera do autor a cada uma
das personalidades escolhidas.
Tarcísio Padilha é o quinto ocupante da Cadeira nº 2 da
Academia Brasileira de Letras, eleito em 20 de março de 1997, na sucessão de
Mário Palmério. É membro fundador, conselheiro e membro honorário da
Association Louis Lavelle, de Paris. Nasceu no Rio de Janeiro e começou sua formação
fundamental no Grupo Escolar D. Pedro II, em Petrópolis. É bacharel em
Filosofia e Direito pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-RJ); diplomado
em Ciências Sociais pelo Instituto de Direito Comparado da PUC-RJ; licenciado
em Filosofia pela Universidade Federal Fluminense; doutor em Filosofia pela
Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj)
Cyro de Mattos escreve crônica, conto, poesia, ensaio e
literatura infantojuvenil. Tem no prelo da Editus, editora da UESC, Nada Era
Melhor, romance da infância,Pequenos Corações, contos, e O Discurso do Rio,
poesia.
Virou coringa a expressão “ponto fora da curva”, tem sido
empregada nas mais diferentes acepções. Umas lisonjeiras; outras, nem tanto,
envolvem censura, às vezes até carregam nota depreciativa. Vou usá-la como
censura. Boi do couro grosso, de há muito acostumado a bordoadas, mesmo as mais
inesperadas, posso bem levar mais umas hoje. Paciência. Segue a vida.
Vem da curva de Gauss (1777-1855), parece, sua origem. É uma
fórmula matemática utilizada na Estatística, que se exprime, graficamente, à
maneira de um sino. A imensa maioria dos eventos analisados estatisticamente
cai dentro do sino. Um ou outro fica fora da curva. É o dito ponto fora da
curva. Por analogia, aplica-se aos que se destacam, estão além do universo
considerado. Daí “fulano é ponto fora da curva em seu meio”. Sicrano, pelo
contrário, desceu muito, ficou “ponto fora da curva entre seus amigos de
infância”. E assim por diante. Multiplicam-se ao infinito as aplicações
analógicas da expressão com raiz na Estatística.
Vou falar do decreto 9.758 de 11 de abril de 2019, triste
ponto fora da curva — bagatela para os superficiais, golpe sério para quem
enxerga fundo. O diploma legal obriga os membros do Poder Executivo a um só
tratamento: senhor (claro, senhora, senhores, senhoras). Por óbvio, exclui da
esdrúxula imposição o Legislativo, o Judiciário, comunicações com autoridades
estrangeiras e outras exceções.
Vossa Excelência não pode mais, agora é só senhor. Vossa
Magnificência, excluído, basta o senhor. Vossa Senhoria, rifado. Doutor, o
simples e familiar doutor, banido, onde já se viu chamar alguém de doutor em
comunicação oficial? Já está muito bom o senhor, para que mais? Ilustre, fora.
Digno, expulso. Respeitável, idem. O tratamento nivelador vale para todos,
presidente, vice-presidente, ministros, reitores, poupa ninguém. Majestade e
alteza já haviam sido enxotadas faz mais de século. Ficou mais simples, é bom,
ruminam alguns. Caminhemos devagar, escapando das armadilhas simplificadoras;
nessa uniformizante e igualitária toada, acabaríamos despencando logo nos
buracos do cumpanhero e do camarada para todo mundo. Camarada
presidente.
Entro por atalho, um exemplo conhecido vai cortar caminho. À
vera, até envolto na legenda, tantas as versões sobre os diálogos, ainda que no
cerne concordantes. O protagonista é Talleyrand (1754-1838), o “príncipe dos
diplomatas”, causeur, brilhante presença de espírito, inteligência
superior. À mesa, em ambiente fidalgo, tratava os assuntos da França e da
Europa com rapidez, objetividade, leveza; eficácia. Sob as formas refinadas, um
auge de senso prático. Em jantares de convívio ameno, depois de cortar a carne,
um de seus recursos, com senso da medida honrava a cada conviva ao regalar um
pedaço. Com o pitéu, ia junto nas palavras, no tom e no gesto certos o
reconhecimento das superioridades devidas à idade, à condição social e ao
mérito. Postura sempre simples e natural; nunca postiça ou enfatuada. A um
eclesiástico destacado ou um príncipe: “Monseigneur, me daria a grande
honra de aceitar um pedaço?” A um duque: “Poderia ter a alegria de
lhe oferecer este pedaço?”. A um marquês: “Me daria a alegria de aceitar
este?” E assim ia, até o mais simples dos convivas.
Ambiente de século XIX, restos do Ancien Régime, Paris,
outros hábitos, sei bem. Resta uma constatação, sem gosto e cultivo do senso do
matizes, sem apreço às variadas fulgurações do espírito, inexiste civilização.
O esplendor das formas constituía ali expressão refinada da “unidade na
variedade” — a palavra universo vem daí. Busco em Isaac Newton: “A
variedade na unidade é a lei suprema do universo”. Variedades harmônicas. Não
agridamos inconsideradamente a variedade. Em resumo, o grande espetáculo de
cultura do salão de jantar de Talleyrand anos a fio, repetida com variações
sem-número de vezes, animou conversas, perenizou-se nas páginas das memórias do
tempo, foi degustada em biografias célebres. Chegou viva até nós com seu fulgor
de alta civilização. Formou personalidades.
Ao longo dos séculos admirações e imitações sensatas foram
nutridas por cenas como a acima descrita em duas pobres pinceladas.
Pedagógicas, alimentam o impulso da perfeição pessoal (e social), assim como um
exemplo de um santo nutre o desejo da ação virtuosa. E aqui repito: precisamos
buscar a simplicidade, mas fugir dos simplismos e simplificações. É raro uma
solução niveladora não padecer pelo menos de simplismo; com frequência,
empobrece o convívio; e, em decorrência incoercível, a própria personalidade.
Amplio. Valores do Brasil antigo levavam naturalmente a
distinguir pessoas e situações com apenas um gesto, uma palavra rápida. Faziam
parte do ambiente cultural que encantou muita gente de relevo que viveu por
aqui. Sempre me impressionou o comentário de Fernand Braudel, dos maiores
historiadores do século XX: “Foi no Brasil que me tornei inteligente. O
espetáculo que tive diante dos olhos era um tal espetáculo de história, um tal
espetáculo de gentileza social que eu compreendi a vida de outra maneira. Os
mais belos anos de minha vida, eu passei no Brasil”.
O que ele viu, espetáculo de gentileza social — de convívio
— que fez entender a vida de forma diversa. Para Braudel, o fundamental em um
historiador era conservar o coração da criança (maravilhar-se), surpreender-se
com os fatos. E olhar o passado como uma criança percebe as primeiras imagens.
Entre 1935 e 1937, floriu no Brasil o coração de criança do historiador,
aperfeiçoou antenas.
Corta. Vamos ser realistas, o Brasil já não está conseguindo
fazer inteligentes os homens potencialmente muito inteligentes. Porque está
morrendo a nossa forma própria de enxergar a realidade, sufocados os ambientes
familiares, onde ela florescia. Corremos risco iminente de já não termos o
olhar que nos distinguia.
E aqui volto ao decreto 9.758 de 11 de abril. Esse malencontreux texto,
para ser benévolo, é ponto fora da curva, pois vem de um governo que já editou
muitas medidas saneadoras — teve muita coisa dentro da curva. Nivelador,
simplificador, aproxima-nos de autômatos. Vira as costas para o Brasil que
cultivava matrizes de juízo e conduta, apreciava diversidades, harmonizava-as,
sabia estimular umas a fortalecer as outras. E com isso criava condições para
convívio enriquecedor de personalidades.
No mesmo pacote do decreto 9.758 veio o revogaço.
Sugestão: incluam o 9.758 no revogaço.
Você tem o hábito de juntar objetos inúteis no
momento, acreditando que um dia (nem sabe quando) poderá precisar deles?
Você tem o hábito de juntar dinheiro só para não o gastar, pois no futuro
poderá fazer falta? Você tem o hábito de guardar roupas, sapatos, móveis,
utensílios domésticos e outros tipos de equipamentos que já não usa há um bom
tempo?
E dentro de você? Você tem o hábito de guardar
mágoas, ressentimentos, raivas e medos? Não faça isso. É anti-prosperidade.
É preciso criar um espaço, um vazio, para que as coisas novas cheguem em sua
vida. É preciso eliminar o que é inútil em você e na sua vida, para que a
prosperidade venha. É a força desse vazio que absorverá e atrairá tudo o que
você almeja. Enquanto você estiver material ou emocionalmente carregado de
coisas velhas e inúteis, não haverá espaço aberto para novas oportunidades.
Os bens precisam circular. Limpe as gavetas, os
guarda-roupas, o quartinho lá do fundo, a garagem. Dê o que você não usa mais.
Venda, troque, movimente e não acumule. Dê espaço para o novo. (Não
estamos falando do capitalismo / consumismo). A atitude de guardar um monte de
coisas inúteis amarra sua vida. Não são os objetos guardados que emperram
sua vida, mas o significado da atitude de guardar. Quando se guarda, considera-se a
possibilidade da falta, da carência. É acreditar que amanhã poderá faltar, e
você não terá meios de prover suas necessidades.
Com essa postura, você está enviando mensagens
para o seu cérebro e para a vida: Você não confia no amanhã! Você acredita
que o novo e o melhor não são para você, já que se contenta em guardar coisas
velhas e inúteis. O princípio de não acreditar que o melhor é para
você, pode se manifestar, por exemplo, na conservação de um velho e inútil
liquidificador. Esse princípio, expresso num objeto, denota um comportamento
que pode também estar presente em outras áreas da sua vida, gerando entraves ao
sucesso e à prosperidade. O simples fato de dar para alguém o velho
liquidificador, colocando o objeto em circulação, cria um vácuo para que algo
melhor ocupe o espaço deixado. Emocionalmente, também.
Você passa a acreditar que o novo compensará o objeto
doado. Gente, uma faxina básica, apesar da trabalheira e do cansaço que
provoca, ao final é sempre bem-vinda. Arejar espaços, fora e dentro da
gente faz um bem enorme! Vamos lá ... Mãos à obra! Desfaça-se do que
perdeu a cor e o brilho e deixe entrar o novo em sua casa e dentro de
você!
Cyro de Mattos escreve crônica, conto, poesia, ensaio e
literatura infantojuvenil. Tem no prelo da Editus, editora da UESC, Nada Era
Melhor, romance da infância, Pequenos Corações, contos, e O Discurso do Rio,
poesia.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
Lucas.
— Glória a vós, Senhor.
Naquele tempo, Jesus caminhava à frente dos
discípulos, subindo para Jerusalém. Quando se aproximou de Betfagé e
Betânia, perto do monte chamado das Oliveiras, enviou dois de seus discípulos,
dizendo: “Ide ao povoado ali na frente. Logo na entrada encontrareis um
jumentinho amarrado, que nunca foi montado. Desamarrai-o e trazei-o aqui. Se
alguém, por acaso, vos perguntar: ‘Por que desamarrais o jumentinho?’,
respondereis assim: ‘O Senhor precisa dele’”. Os enviados partiram e
encontraram tudo exatamente como Jesus lhes havia dito. Quando
desamarravam o jumentinho, os donos perguntaram: “Por que estais desamarrando o
jumentinho?” Eles responderam: “O Senhor precisa dele”. E levaram
o jumentinho a Jesus. Então puseram seus mantos sobre o animal e ajudaram Jesus
a montar. E enquanto Jesus passava, o povo ia estendendo suas roupas no
caminho.
Quando chegou perto da descida do monte das Oliveiras, a
multidão dos discípulos, aos gritos e cheia de alegria, começou a louvar a Deus
por todos os milagres que tinha visto. Todos gritavam: “Bendito o rei,
que vem em nome do Senhor! Paz no céu e glória nas alturas!”
Do meio da multidão, alguns dos fariseus disseram a Jesus:
“Mestre, repreende teus discípulos!” Jesus, porém, respondeu: “Eu vos
declaro: se eles se calarem, as pedras gritarão”.
Celebramos hoje o chamado “Domingo de Ramos”, a entrada
triunfal de Jesus em Jerusalém. Nada de mobilizações, nada de comissão de
preparação da festa; não teve um mestre de cerimônias para que tudo acontecesse
dentro das normas estabelecidas; não pediu que a polícia lhe acompanhasse, nem
guarda-costas para sua segurança pessoal. Jesus nunca buscou as grandes
manifestações populares. A improvisação contou com a espontaneidade do povo
simples e, como tal, nada de grandes solenidades, de aparato espetacular. Para
Jesus, bastava-lhe um jumentinho. O resto ficou a cargo da iniciativa da multidão
que se uniu a Ele, enfeitando o caminho e entoando hinos messiânicos.
Todos sabemos que as “mudanças profundas e duradouras” na
sociedade não vem de cima, mas de baixo, a partir da solidariedade e da
identificação de vida com os últimos deste mundo. Ali, nas periferias e nas
margens, há uma esperança latente e alentadora daqueles que se empenham por
imprimir um movimento novo à história; é nele que está a semente de uma vida
diferente, criativa e mais promissora. E Jesus foi o ponto de partida de uma
ousada mudança na história da humanidade.
Os evangelistas sinóticos relatam a vida pública de Jesus
como uma subida das “periferias” até a capital política e religiosa. E Jesus
“entra” em Jerusalém, montado num jumentinho e aclamado por seus seguidores. Escolhe
um jumentinho como símbolo de um messianismo de paz e simplicidade. Nada,
portanto, de uma manifestação espetacular; Ele rompe com a imagem de um
triunfador e despoja-se de todo indício de poder. Jesus, presença de vida nos
povoados, vilas e campos, quer levar vida a uma cidade que carregava forças de
morte em seu interior. Ele quer pôr o coração de Deus no coração da grande
cidade; deseja recriar, no coração da capital, o ícone da nova Jerusalém, a
cidade cheia de humanidade e comunhão, o lugar da justiça e fraternidade...
Mantos colocados como tapetes pelo solo, ramos de oliveira e
palmas e tudo o que saía de dentro das pessoas: o canto, o grito de louvor, as
vivas, os aplausos. O povo simples faz as coisas de maneira simples, mas que se
tornam simpáticas, festivas. Além disso, Jesus não precisava mais que isso.
Jesus não quis entrar em Jerusalém como os conquistadores militares, mas como o
homem simples, como o Salvador simples. Porque, para Jesus era uma entrada que
queria ser como uma nova oferta de salvação à cidade de Jerusalém, e a salvação
não é oferecida com títulos de grandeza; isso sim, ela é oferecida com cantos,
danças, alegria. Jesus quer que todos descubram a novidade do Evangelho com
vibração e com sentido festivo; quando Ele nos oferece o dom salvação, faz com
alegria e é também com alegria que somos chamados a acolhê-lo.
Como mensageiro de paz, chegou Jesus a Jerusalém montado num
jumentinho. Não precisava de soldados e nem de instituições de violência para
se defender. Sem armas de guerra, sem um possante cavalo, sem poderes e nem
ambições..., mas montado num jumentinho de paz; um jumentinho emprestado e
novo, não domado, pois Jesus não possuía nem um jumentinho.
O texto de Lucas supõe que Jesus tinha conhecidos naquela
região, à entrada da aldeia (Betfagé). O jumentinho não era seu, mas contava
com amigos que o emprestaram. Este jumentinho é símbolo da vida campesina e
pacífica, animal do pobre; é conhecida sua resistência na lida do cotidiano do
campo: carrega peso, lavra a terra, suporta longas viagens... Não é animal para
a guerra e nem para alimentar a vaidade daqueles que querem demonstrar seu
poder diante dos outros. Jesus se serve de um jumentinho para dizer que não
quer se impor pelas armas e pela força; seu senhorio é diferente, retomando as
tradições campesinas de seu povo.
Como o jumentinho não tem arreio, nem apetrechos (é um
jumentinho novo, nunca montado), os discípulos estendem seus próprios mantos na
garupa, para que assim Jesus pudesse montar com dignidade e, sobre sua garupa,
pudesse entrar na cidade, descendo pelo Monte das Oliveiras. Jesus chegou a
Jerusalém de maneira pacífica, mas muito provocadora, pois instaurar o Reino
como Ele propunha implicava um desafio para o sistema imperial de Roma e para a
política sacerdotal do templo.
Que Jesus era uma pessoa desconcertante, não resta dúvida.
Continuamente Ele assumia atitudes que desconcertavam a todos, ou realizava
alguns gestos que causavam assombro... Sempre evitou grandes manifestações que
poderiam se prestar a enganos e equívocos em torno à sua pessoa. Quando
quiseram fazê-lo rei, escapou e se refugiou na montanha. Como é que agora, o
primeiro dia de sua última semana, lhe ocorre armar um rebuliço? Como profeta,
Jesus toma consciência que agora já não é mais o momento dos discursos, mas dos
gestos; já não é o momento das palavras, mas dos fatos; já não é o momento de
esconder-se, mas de mostrar a cara; já não é o momento das prudências, mas dos
riscos; já não é o momento de ocultar sua messianidade, mas de proclamá-la.
A Igreja também necessita de gestos, mas de gestos
evangélicos. Muito mais que grandes discursos, a Igreja necessita de gestos
simples que o povo entenda, viva e sinta. Temos demasiados “exibicionismos
clericais” que tem pouco a ver com a simplicidade de Jesus; temos grandes
solenidades, que possivelmente são bem-intencionadas, mas que expressam pouco
da simplicidade e da pobreza de Jesus.
Com frequência confundimos nossa vitalidade cristã com as
grandes massas em torno às grandes figuras da Igreja. Medimos nossa fé pelas
estatísticas daqueles que assistem a essas grandes manifestações. E logo, todos
somos conscientes de que tudo continua igual, que as grandes massas não vão
mudar depois dos grandes aplausos e vivas.
Jesus mesmo viveu essa experiência. Essa mesma multidão que
hoje o acompanha, dentro de uns dias pedirá que o crucifiquem. Os entusiasmos
massivos têm muito pouco de personalização da fé. É mais o sentimentalismo do
momento que uma experiência profunda do Evangelho. Jesus não fundou uma Igreja
de grandes massas. Pelo contrário, falou de uma Igreja “pequeno rebanho”, “sal
e fermento”, esvaziada de vaidades e carregada de simplicidade.
Não estamos insistindo em demasia no prestígio da Igreja?
Não estamos por demais preocupados com uma Igreja que brilha, em vez de uma
Igreja simples, pobre e despojada? Não temos na Igreja “carros possantes” em
excesso e pouquíssimos jumentinhos?
Texto bíblico: Lc 19,28-40
Na oração: Nosso zêlo e amor pelo Evangelho e pela
semente do Reino que nele está contida, deve favorecer o advento de uma “Nova
Jerusalém”; é preciso cuidar o coração, esvaziá-lo, limpá-lo, aquecê-lo,
transformá-lo em humilde receptáculo, para que o Espírito do Senhor possa ali
pousar e nele habitar como num ninho acolhedor, transmitindo-lhe vida, luz,
calor, paz, ternura...
- Como você descreve sua “Jerusalém interior”: cidade da paz
e do encontro ou cidade da intolerância e da violência?