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segunda-feira, 23 de março de 2020

NOVOS CENÁRIOS NA ERA DO CORONAVÍRUS – Roberto de Mattei


22 de março de 2020

O coronavírus é um castigo divino? Considerações políticas, históricas e teológicas

Roberto de Mattei

O tema da minha palestra é Os novos cenários na Itália e na Europa com e após o coronavírus.

Não falarei sobre esse tópico do ponto de vista médico ou científico, pois não tenho competência nesses campos.

Em vez disso, tratarei do assunto sob outros três pontos de vista: do estudioso das ciências políticas e sociais; do historiador; e do ponto de vista do filósofo da História.

O estudo das ciências sociais

As ciências políticas e sociais são aquelas que estudam o comportamento do homem em seu contexto social, político e geopolítico. Desse ponto de vista, não me pergunto sobre as origens do coronavírus e sua natureza, mas sobre as consequências sociais que ele está tendo e terá.

Uma epidemia é a disseminação em escala nacional ou mundial (neste caso, é chamada de pandemia) de uma doença infecciosa que afeta um grande número de indivíduos de uma determinada população em um período muito curto de tempo.

O coronavírus, renomeado Covid-19 pela OMS, é uma doença infecciosa que começou a se espalhar a partir da China. A Itália é aparentemente o país ocidental mais afetado.

Por que a Itália está em quarentena hoje? Porque, como os analistas entenderam desde o primeiro momento, o problema do coronavírus não é tanto a taxa de letalidade da doença, mas a rapidez da infecção na população. Todos concordam que a letalidade da doença em si não é muito alta. Um paciente pode se recuperar se for assistido por pessoal especializado em unidades de saúde bem equipadas. Mas se, devido à rapidez da infecção, que pode afetar milhões de pessoas simultaneamente, o número de pacientes for galopante, faltarão instalações e funcionários: nesse caso os pacientes morrem porque são privados dos cuidados necessários. Para tratar casos graves, são necessários cuidados intensivos para ventilar os pulmões. Se esse suporte estiver ausente, os pacientes morrem. Se o número de pessoas infectadas aumentar os hospitais não poderão mais oferecer tratamento intensivo a todos e um número crescente de pacientes sucumbirá.

As projeções epidemiológicas são inexoráveis​​e justificam as precauções tomadas. “Se ficar descontrolado, o coronavírus pode afetar toda a população italiana; mas suponhamos que no final apenas 30% sejam infectados, cerca de 20 milhões. Se desses — contando por baixo — uns 10% entrar em crise, isso significa que, sem cuidados intensivos, eles estarão destinados a sucumbir. Seriam dois milhões de mortes diretas, além de todas as mortes indiretas resultantes do colapso do sistema de saúde e da ordem social e econômica resultante”[1].

O colapso do sistema de saúde também tem outras consequências. O primeiro é o colapso do sistema de produção do país.

As crises econômicas geralmente surgem da falta de demanda ou de oferta. Mas se aqueles que desejam consumir devem permanecer em casa e as lojas estão fechadas e aqueles que poderiam oferecer não podem levar seus produtos aos clientes porque as operações de logística, o transporte de mercadorias e os pontos de venda estão em crise, as cadeias de suprimentos–as supply chains colapsam. Os bancos centrais não conseguem salvar a situação: “A crise pós-coronavírus não tem solução monetária“, escreve Maurizio Ricci em La Repubblica, em 28 de fevereiro. Stefano Feltri, por sua vez, observa: “Receitas tipicamente keynesianas — criação de empregos e demanda artificial com dinheiro público — não são viáveis ​​quando os trabalhadores não saem de casa, os caminhões não circulam, os estádios estão fechados e as pessoas não reservam viagens de férias ou de negócios porque em casa há doentes ou temem infecções. Além de evitar crises de liquidez para as empresas, suspendendo os pagamentos de impostos e de juros aos bancos, a política é impotente. Um decreto do governo não é suficiente para reorganizar a cadeia de suprimentos”[2].

A expressão “tempestade perfeita” foi criada há vários anos pelo economista Nouriel Roubini para indicar uma mistura de condições financeiras que poderiam levar a um colapso do mercado. “Haverá uma recessão global devido ao coronavírus”, diz Nouriel Roubini, acrescentando: “A crise explodirá e resultará em um desastre”[3]. As previsões de Roubini foram confirmadas pela queda nos preços do petróleo após o fracasso de um acordo na OPEP, com a Arábia Saudita desafiando a Rússia e decidindo aumentar a produção e baixar os preços. Provavelmente serão ratificadas pelo desdobramento de eventos.

O ponto fraco da globalização é a “interconexão”, a palavra talismã do nosso tempo, da economia à religião. A Querida Amazônia do Papa Francisco é um hino à interconexão. Mas o sistema global é frágil precisamente porque está muito interconectado. E o sistema de distribuição de produtos é uma das cadeias dessa interconexão econômica.

Não se trata de mercados, mas da economia real. Não apenas as finanças, mas também a indústria, o comércio e a agricultura — ou seja, os pilares da economia de um país — podem entrar em colapso se o sistema de produção e distribuição estiver em crise.

Mas há outro ponto que começa a ser vislumbrado: não é apenas o colapso do sistema de saúde, não é só a possibilidade de uma rachadura econômica, mas também pode haver um colapso do Estado e da autoridade pública; em uma palavra, a anarquia social. As prisões em revolta na Itália indicam uma direção,

As epidemias têm consequências psicológicas e sociais pelo pânico que podem causar. A Psicologia Social nasceu entre o final do século XIX e o início do século XX. Um de seus primeiros expoentes é Gustave Le Bon (1841-1931), autor de um famoso livro intitulado Psicologia das Massas (1895).

Analisando o comportamento coletivo, Le Bon explica como no meio da multidão o indivíduo passa por uma mudança psicológica pela qual sentimentos e paixões são transmitidos de um indivíduo para outro “por contágio”, como nas doenças infecciosas. A moderna teoria do contágio social, inspirada em Le Bon, explica como, protegido no anonimato da massa, até o indivíduo mais pacífico pode se tornar agressivo, agindo por imitação ou sugestão. O pânico é um daqueles sentimentos transmitidos por contágio social, como aconteceu durante a Revolução Francesa no período chamado de “Grande Medo”[4].

Se à crise econômica se soma a crise da saúde, uma onda descontrolada de pânico pode desencadear impulsos violentos na multidão. O Estado é substituído por tribos, gangues, especialmente nos subúrbios de grandes centros urbanos. A anarquia tem seus agentes, e a guerra social, que foi teorizada pelo Fórum de São Paulo (uma confederação de organizações ultraesquerdistas latino-americanas), já é praticada na Bolívia e no Chile, Venezuela e Equador, e pode em breve expandir-se para a Europa.

Esse processo revolucionário certamente corresponde ao projeto dos lobbies globalistas, os “mestres do caos”, como os defineo professor Renato Cristin[5]. Mas, se isso é verdade, também é verdade que quem sai derrotado por essa crise é precisamente a utopia da globalização, apresentada como o principal caminho para levar à unificação da humanidade. De fato, a globalização destrói o espaço e pulveriza as distâncias: hoje, pelo contrário, a regra para escapar da epidemia é a distância social, o isolamento do indivíduo. A quarentena se opõe diametralmente à “Sociedade Aberta” defendida por George Soros. A concepção do homem como um relacionamento, típica de certo personalismo filosófico, entra em ocaso.

O Papa Francisco, após o fracasso da Querida Amazônia, concentrou-se fortemente na conferência dedicada ao Pacto Global, agendada no Vaticano para 14 de maio. A conferência, no entanto, foi adiada e ela não apenas se afasta no tempo, mas suas premissas ideológicas se dissolvem. O coronavírus nos traz de volta à realidade. Não é o fim das fronteiras, anunciado após a queda do Muro de Berlim, é o fim do mundo sem fronteiras. Não é o triunfo da nova ordem mundial, é o triunfo da nova desordem mundial. O cenário político e social é o de uma sociedade que se desintegra e se decompõe. Foi tudo planejado? É possível. Mas a História não é uma sucessão determinística de eventos. O Mestre da História é Deus, não os mestres do caos. É o fim da “aldeia global”. O assassino da globalização é um vírus global chamado coronavírus.

O historiador

Um hospital nos Estados Unidos, em 1918, lotado de vítimas da gripe espanhola.

A esta altura, o historiador se substitui ao observador político e tenta ver as coisas em uma perspectiva de longa distância. As epidemias acompanharam a história da humanidade desde seu início até o século XX e sempre se entrelaçaram com outros dois flagelos: guerras e crises econômicas. A última grande epidemia — a gripe espanhola da década de 1920 [foto] — estava intimamente ligada à Primeira Guerra Mundial e à Grande Depressão de 1929, também conhecida como the Great Crashuma crise econômica e financeira que abalou a economia mundial no final da década de 1920, com sérias repercussões também na década seguinte. Esses eventos foram seguidos pela Segunda Guerra Mundial.

Laura Spinnay é uma jornalista científica inglesa que escreveu um livro intitulado Pale Rider: The Spanish Flu of 1918 and How It Changed the World, traduzido como: 1918. A gripe espanhola, a pandemia que mudou o mundo. Seu livro nos informa que entre 1918 e 1920 o vírus espanhol infectou aproximadamente 500 milhões de pessoas, atingindo até habitantes de ilhas remotas do Oceano Pacífico e do Oceano Ártico, causando a morte de 50 a 100 milhões de pessoas, dez vezes mais que a Primeira Guerra Mundial. A Grande Guerra ajudou a espalhar o vírus pelo mundo. Laura Spinnay escreve: “É difícil imaginar um mecanismo de contágio mais eficaz do que a mobilização de grandes quantidades de tropas no auge da onda epidémica do outono, que chegaram aos quatro cantos do planeta, onde foram recebidos por multidões festivas. Basicamente, o que a gripe espanhola nos ensinou é que outra pandemia de gripe é inevitável, mas se causará dez ou cem milhões de vítimas depende apenas de como será o mundo no qual ela se desencadeará.”[6]

No mundo interconectado da globalização, a facilidade de contágio é certamente maior do que cem anos atrás. Quem poderia negar isso?

Mas o olhar do historiador remonta mais atrás no tempo.

O século XX foi o século mais terrível da História, mas houve outro século terrível, aquele que a historiadora Barbara Tuchman em seu livro A Distant Mirror chama de “O calamitoso século XIV” [7].

Quero focalizar esse período histórico, que marca o fim da Idade Média e o início da Era Moderna. Faço isso com base nos trabalhos de historiadores– não católicos, mas sérios e objetivos em suas pesquisas.

As Rogações são procissões convocadas pela Igreja para implorar a ajuda do Céu contra as calamidades. Nas Rogações, rezamos A fame, peste et bello libera nos, Domine: “da fome, da peste e da guerra, livrai-nos, Senhor”. A fome, a peste e a guerra sempre foram consideradas pelo povo cristão como castigos de Deus. A invocação litúrgica presente na cerimônia das Rogações — escreve o historiador Roberto Lopez — “retomou toda a sua dramática relevância durante o século XIV”.[8] “Entre os séculos X e XII — observa López — nenhum dos grandes flagelos que ceifam a humanidade parece ter-se espalhado em grande proporção; nem a peste, da qual não ouvimos falar neste período, nem a penúria, nem a guerra, que causou um número muito pequeno de vítimas. Além disso, as potencialidades da agricultura foram ampliadas por uma melhoria gradual do clima. Temos provas disso no recuo das geleiras nas montanhas e dos icebergs nos mares do Norte, na extensão da viticultura em regiões como a Inglaterra, onde hoje não é mais praticável, na abundância de água em territórios do Saara depois recuperados pelo deserto”[9].

Muito diferente foi a imagem do século XIV, que assistiu à convergência de catástrofes naturais e de sérias convulsões religiosas e políticas.

O século XIV foi um século de profunda crise religiosa: começou com a bofetada de Anagni (1303), uma das maiores humilhações do Papado na História; depois viu a mudança dos Papas, durante setenta anos, para a cidade de Avignon, na França (1308-1378), e terminou entre 1378 e 1417, com os quarenta anos do Cisma do Ocidente, no qual a Europa católica se dividiu entre dois e depois três papas opostos entre si. Um século depois, em 1517, a Revolução Protestante rasgou a unidade de fé do Cristianismo.

Se o século XIII havia sido um período de paz na Europa, o século XIV foi uma era de guerra permanente. Basta pensar na “Guerra dos Cem Anos” entre a França e a Inglaterra (1339-1452) e a invasão dos turcos ao Império Bizantino, com a conquista de Adrianópolis em 1362.

 Nesse século, a Europa experimentou uma crise econômica devido às mudanças climáticas causadas não pelo homem, mas pelo esfriamento. O clima da Idade Média era ameno e doce, como seus costumes. O século XIV, pelo contrário, experimentou um forte enrijecimento das condições climáticas.
As chuvas e inundações da primavera de 1315 resultaram em uma fome geral que assolou a Europa inteira, especialmente as regiões septentrionais, causando a morte de milhões de pessoas. A fome se espalhou por toda parte. Os idosos recusavam voluntariamente a comida na esperança de que os jovens sobrevivessem e os cronistas da época escreveram sobre muitos casos de canibalismo.

Uma das principais consequências da fome foi a desestruturação agrícola. Durante esse período, houve grandes movimentos de despovoamento agrícola, caracterizados pela fuga da terra e o abandono das aldeias; a floresta invadiu campos e vinhedos. Como consequência do abandono do campo, houve uma redução acentuada na produtividade do solo e um depauperamento dos rebanhos.

Se o mau tempo causa fome, isso enfraquece o corpo das populações, abre o caminho às doenças. Os historiadores Ruggero Romano e Alberto Tenenti mostram como no século XIV se intensificou o círculo vicioso entre penúrias e epidemias[10]. A última grande peste havia eclodido entre 747 e 750; reapareceu quase seiscentos anos depois, repetindo-se quatro vezes no curso de uma década.

A peste veio do Oriente e chegou a Constantinopla no outono de 1347. Nos três anos seguintes, infectou toda a Europa até a Escandinávia e a Polônia. É a Peste Negra [quadro ao lado] de que fala Boccaccio no Decamerão. A Itália perdeu cerca da metade de seus habitantes. Agnolo di Tura, cronista de Siena, reclamou que não encontrava mais ninguém para enterrar os mortos e que ele teve que enterrar seus cinco filhos com as próprias mãos. Giovanni Villani, um cronista florentino, foi atingido pela peste de forma tão repentina que sua crônica parou no meio de uma frase.

A população europeia, que no início de 1300 atingira mais de 70 milhões de habitantes, após um século de guerras, epidemias e fomes desceu para 40 milhões; portanto, diminuiu mais de um terço.

A fome, a peste e as guerras do século XIV foram interpretadas pelo povo cristão como sinais do castigo de Deus.

Tria sunt flagella quibus dominus castigat: três são os flagelos com os quais Deus castiga os povos: guerra, peste e fome, advertiu São Bernardino de Siena (1380-1444)[11]. São Bernardino de Siena pertence a esse número de santos — como Catarina de Siena, Brígida da Suécia, Vicente Ferrer, Luís Maria Grignion de Montfort — que explicaram como, ao longo da História, os desastres naturais sempre acompanharam as infidelidades e apostasias das nações.

Isso que aconteceu no final da Idade Média cristã parece acontecer com as calamidades de hoje. Santos como Bernardino de Siena não atribuíram esses eventos à atuação dos agentes do mal, mas aos pecados dos homens, tão mais graves se forem pecados coletivos e ainda mais graves se forem tolerados ou promovidos pelos governantes dos povos e pelas autoridades da Igreja.

O filósofo da História

Essas considerações nos introduzem no terceiro ponto de vista sob o qual considerarei os eventos, não como sociólogo ou historiador, mas como filósofo da História.

A Teologia e a Filosofia da História são campos de especulação intelectual que aplicam os princípios da teologia e da filosofia a eventos históricos. O teólogo da História é como uma águia que julga dos cimos os eventos humanos. Grandes teólogos da História foram Santo Agostinho (3054-430), Jacques Bénigne Bossuet (1627-1704), que foi chamado de águia de Meaux, do nome da diocese da qual foi bispo, o conde Joseph de Maistre (1753-1821), o marquês Juan Donoso Cortés (1809-1853), o abade de Solesmes, Dom Guéranger (1805-1875), o professor Plinio Corrêa de Oliveira (1908-1995) e muitos outros.

Há uma expressão bíblica que diz: Judicia Dei abyssus multa (Salmos 35, 7): os juízos de Deus são um grande abismo. O teólogo da História se submete a esses juízos e tenta entender-lhes a razão.

São Gregório Magno [quadro ao lado], convidando-nos a investigar as razões da obra divina, declara: “Quem, nas obras de Deus, não descobre a razão pela qual Deus as faz, encontrará em sua maldade e baixeza motivos suficientes para explicar por que suas indagações são em vão”[12].

A filosofia e a teologia modernas, sob a influênciasobretudo de Hegel, substituíram os juízos de Deus pelos da História. O princípio de que a Igreja julga a História é invertido. De acordo com a Nouvelle théologie, não é a Igreja que julga a História, mas a História que julga a Igreja, porque a Igreja não transcende a História, mas é imanente, interna a ela.

Quando o cardeal Carlo Maria Martini, em sua última entrevista, afirmou que “a Igreja está 200 anos atrasada” em relação à História, ele tomou a História como critério de julgamento da Igreja. Quando o Papa Francisco, em sua saudação de Natal de 21 de dezembro de 2019, faz suas as palavras do cardeal Martini, ele julga a Igreja em nome da História, revertendo o que deveria ser o critério católico de julgamento.

A História é realmente uma criatura de Deus, como a natureza, como tudo o que existe, porque nada do que existe é subtraído de Deus. Tudo o que acontece na História é previsto, regrado e ordenado por Deus desde toda a eternidade.

Portanto, para o filósofo da História, todo discurso só pode começar com Deus e terminar com Deus: Deus não apenas existe, mas toma conta das criaturas e recompensa ou castiga os seres racionais de acordo com os méritos e as falhas de cada um. O Catecismo de São Pio X ensina: “Deus recompensa o bem e castiga o mal porque é justiça infinita”.

A justiça — explicam os teólogos — é uma das infinitas perfeições de Deus[13]. A misericórdia infinita de Deus pressupõe sua justiça infinita.

Entre os católicos, a ideia de justiça, como a do juízo divino, é frequentemente repelida. No entanto, a doutrina da Igreja ensina a existência de um juízo particular que se segue à morte de cada um, com a retribuição imediata às almas e um julgamento universal em que anjos e homens serão julgados por pensamentos, palavras, obras, omissões.

A Teologia da História afirma que Deus recompensa e pune não apenas os homens, mas coletividades e grupos sociais: famílias, nações, civilizações. Mas enquanto os homens têm sua recompensa ou seu castigo, às vezes na Terra, mas sempre na eternidade, as nações, sem vida eterna, são punidas ou recompensadas apenas na Terra.

Deus é justo e recompensador, e dá a cada qual o que lhe corresponde: não castiga apenas as pessoas individuais como também atribula famílias, cidades, nações, pelos pecados que são cometidos lá. Terremotos, fome, epidemias, guerras, revoluções sempre foram considerados punições divinas. Como escreve o padre Pedro de Ribadaneira (1527-1611), “guerras e pragas, secas e fomes, incêndios e todas as outras calamidades desastrosas são punições pelos pecados do povo”[14].

Em 5 de março, o bispo de uma importante diocese italiana cujo nome não menciono, disse: “Uma coisa é certa: esse vírus não foi enviado por Deus para punir a humanidade pecadora. É um efeito da natureza em sua característica de madrasta. Mas Deus enfrenta esse fenômeno conosco e provavelmente nos fará entender, no fim, que a humanidade é uma aldeia global”.

Esse bispo italiano não renuncia ao mito da “aldeia global” nem à religião da natureza de Pachamama e de Greta Thurnberg, mesmo que para ele a “Grande Mãe” possa se tornar “madrasta”. Mas, acima de tudo, rejeita fortemente a ideia de que a epidemia de coronavírus ou qualquer outro desastre coletivo possa ser uma punição para a humanidade. O vírus, segundo o bispo, é apenas um efeito da natureza. Mas quem criou, regula e dirige a natureza? Deus é o Autor da natureza, com suas forças e suas leis e tem o poder de organizar o mecanismo das forças e leis da natureza para produzir um fenômeno de acordo com as exigências de sua justiça ou de sua misericórdia. Deus, que é a causa primeira de tudo que existe, sempre usa causas segundas para realizar seus planos. Quem tem espírito sobrenatural não se detém na superfície, mas tenta entender o plano de Deus escondido sob a força aparentemente cega da natureza.

O grande pecado contemporâneo é a perda da fé dos homens da Igreja: não deste ou daquele homem da Igreja, mas dos homens da Igreja como um todo, com algumas exceções graças às quais a Igreja não perde a sua visibilidade. Essa infidelidade produz a cegueira da mente e o endurecimento do coração, a indiferença diante da violação da ordem divina do universo.

É uma indiferença que esconde o ódio contra Deus. Como ela se manifesta? Não diretamente. Esses clérigos são covardes demais para desafiar diretamente a Deus. Eles preferem expressar seu ódio para com aqueles que ousam falar de Deus, e aqueles que ousam falar de castigo de Deus são apedrejados, um rio de ódio se derrama contra eles.

Esses homens da Igreja, apesar de professarem verbalmente acreditar em Deus, na verdade vivem imersos no ateísmo prático. Eles despojam Deus de todos os seus atributos, reduzindo-O a puro “ser”, isto é, a nada. Tudo o que acontece é para eles fruto da natureza emancipadade seu Autor, e somente a ciência, e não a Igreja é capaz de decifrar suas leis.

Contudo, não apenas a sã teologia, mas o próprio sensus fidei ensina que todos os males físicos e materiais que não provêm do homem dependem da vontade de Deus. “Tudo o que acontece aqui contra a nossa vontade — escreve Santo Afonso de Ligório —, sabei que isso não acontece senão pela vontade de Deus, como diz Santo Agostinho”[15].

Em 19 de julho, a liturgia da Igreja comemora o bispo de São Lopo de Troyes (383-478). Ele era irmão de São Vicente de Lérins, cunhado de São Hilário de Arles, pertencente a uma família de antiga nobreza senatorial, mas acima de tudo de grande santidade.

Durante seu longo episcopado — 52 anos — a Gália foi invadida pelos hunos. Átila, à frente de um exército de quatro mil homens, atravessou o Reno, devastando tudo o que encontrava em seu caminho. Quando ele chegou diante da cidade de Troyes, o bispo Lopo, revestido das roupas pontifícias e seguido pelo clero em procissão, encontrou Átila e perguntou: “Quem és tu que ameaças esta cidade?”. A resposta foi: “Não sabeis quem sou? Eu sou Átila, rei dos hunos, chamado o flagelo de Deus ”. “E então seja o flagelo bem-vindo de Deus, porque merecemos os flagelos divinos, por causa de nossos pecados. Mas, se for possível, desfira seus golpes apenas na minha pessoa, e não em toda a cidade.”

Os hunos entraram na cidade de Troyes, mas por vontade divina foram cegados e a atravessaram sem dar-se conta nem ferir ninguém.

Hoje, os bispos não somente não falam de flagelos divinos, mas também não convidam os fiéis a rezar a Deus para libertá-los da epidemia. Há uma coerência nisso. Quem reza pede de fato a Deus para intervir em sua própria vida e, portanto, nas coisas do mundo, para ser protegido do mal e obter bens espirituais e materiais. Mas por que Deus ouviria nossas orações se Ele não está interessado no universo que criou?

Se, pelo contrário, Deus pode com milagres mudar as leis da natureza, evitando o sofrimento e a morte de um homem, ou a hecatombe de uma cidade, Ele também pode decidir o castigo de uma cidade ou de um povo, porque pecados coletivos atraem punições coletivas. “Pelos pecados — diz São Carlos Borromeu – Deus permitiu que o incêndio da peste se difundisse em cada setor em Milão.“[16]. E São Tomás de Aquino explica: “Quando todo o povo peca, deve–se tirar vingança dele, ou totalmente, como no caso dos egípcios que, perseguindo os filhos de Israel, ficaram submersos no Mar Vermelho; e também no dos sodomitas, que pereceram todos — o que se lê na Escritura. Ou em grande parte do povo, como no caso dos que adoraram o bezerro.“[17]

Na véspera da segunda sessão do Concílio Vaticano I, em 6 de janeiro de 1870, São João Bosco teve uma visão na qual lhe foi revelado que “a guerra, a praga, a fome são os flagelos com os quais o orgulho e a malícia dos homens serão atingidos”. Assim disse o Senhor: “Vós, sacerdotes, por que não correis chorando entre o vestíbulo e o altar, invocando a suspensão dos flagelos? Por que não pegais o escudo da fé e caminhais por cima dos telhados, nas casas, nas ruas, nas praças, em todo lugar, até inacessível, para levar a semente da minha palavra? Vós ignorais que esta é a terrível espada de dois gumes que derruba meus inimigos e que quebra a ira de Deus e dos homens?”[18].

Hoje os sacerdotes estão calados, os bispos estão calados, o Papa está calado.

Praça de São Pedro inteiramente vazia…

Estamos nos aproximando da Semana Santa e da Páscoa. E, pela primeira vez, talvez em muitos séculos na Itália, as igrejas estarão fechadas, as missas suspensas, até a Basílica de São Pedro estará fechada. As cerimônias pascais urbe et orbi não reunirão peregrinos de todo o mundo. Deus também pune por “subtração”, diz São Bernardino de Siena, e hoje Deus parece ter quase subtraído as igrejas da Mãe de todas as igrejas, da mão do supremo Pastor, enquanto o povo católico tateia confuso no escuro, desprovido daquela verdade clara que da Basílica de São Pedro deve iluminar o mundo. Como não ver no que o coronavírus está produzindo um resultado simbólico da autodemolição da Igreja?

Judicia Dei abyssus multa. Devemos ter certeza de que o que acontece não prefigura o sucesso dos filhos das trevas, mas a sua derrota, porque, como explica o Padre Carlo Ambrogio Cattaneo, da Companhia de Jesus (1645-1705), o número de pecados, de um homem ou de um povo, é contado[19]Venit dies iniquitate praefinita, diz o profeta Ezequiel (21, 2): Deus é misericordioso, mas há um último pecado que Deus não tolera e que provoca seu castigo.

Além disso, de acordo com um princípio da Teologia da História cristã, o centro da História não são os inimigos da Igreja, mas os santos. Omnia sustineo propter electos (II Tim. 2, 10), diz São Paulo. A História gira em torno dos eleitos. E a História depende dos desígnios impenetráveis ​​da Divina Providência.

Na História, atuam homens, grupos, sociedades organizadas, públicas ou secretas, que se opõem à Lei de Deus, que se esforçam para destruir tudo o que é ordenado a Deus. Eles podem obter sucessos aparentes, mas sempre serão derrotados.

O cenário que temos diante de nós é apocalíptico, mas Pio XII nos recorda que no Apocalipse (6, 2) São João, “não olhou apenas as ruínas causadas pelo pecado, guerra, fome e morte; Ele também viu pela primeira vez a vitória de Cristo. E, de fato, o caminho da Igreja através dos séculos é, sim, uma via sacra, mas também é em cada momento uma marcha triunfal. A Igreja de Cristo, os homens de fé e de amor cristão são sempre aqueles que, a uma humanidade sem esperança, trazem a luz, a redenção e a paz. Iesus Christus heri et hodie, ipse et in saecula (Hebr. 13, 8). Cristo é vosso guia, de vitória em vitória. Segui-O.”[20]

Nossa Senhora de Fátima profetizou o cenário de nosso tempo e garantiu seu triunfo. Com a humildade de quem é ciente de que nada pode com suas próprias forças, mas também com a confiança de quem sabe que tudo pode com a ajuda de Deus, não retrocedamos e nos consagremos a Maria na trágica hora dos acontecimentos anunciados pela Mensagem de Fátima.

[1] Francesco Sisci,Il Sussidiario.net,9 marzo 2020.
[2]Stefano Feltri,Il Fatto quotidiano, 4 marzo 2020.
[4]Pierre Gaxotte,La Révolution française,Complexe, Paris 1988, pp. 93-128.
[5]Renato Cristin,I padroni del caos,Liberlibri, Macerata 2017.
[6]Laura Spinney,1918. L’influenza spagnola. La pandemia che cambiò il mondo,Marsilio, Venezia 1918, p. 187.
[7]Barbara Tuchman,A distant Mirror. The Calamitous Fourteenth Century,Macmillan Publishers, Londra 1995.
[8]Roberto S. Lopez,La nascita dell’Europa. Secoli V-XIV, Einaudi, Torino 1966, p. 427.
[9] Ivi, p. 133.
[10]Ruggero Romano-Alberto Tenenti,Alle origini del mondo moderno 1350-1550, Feltrinelli, Milano 1967, pp. 16-26.
[11]San Bernardino,Opera omnia, Sermo 46, Feria quinta post dominicam de Passione, vol. II, pp. 84-85.
[12]S. Gregorio Magno,Moralia,Lib. IX, cap. I.
[13]Réginald Garrigou-Lagrange,Dieu, son existence et sa nature, Beauchesne, Paris 1950, pp. 440-463.
[14]Pietro Ribadaneira, La tribolazione e i suoi conforti, Civiltà Cattolica, Roma 1914, p. 207.
[15]S. Alfonso Maria de’Liguori,Uniformità alla volontà di Dio, Francavilla, Paoline 1968, p. 33.
[16]S. Carlo Borromeo,Memoriale al suo diletto popolo della città di Milano, Stamperia Michele Tini, Roma 1579, p. 44.
[17]S. Tommaso d’Aquino,Summa Theologica,IIª-IIae q. 108 a. 1 ad 5.
[18] Cfr. Memorie biografiche del venerabile don Giovanni Bosco. Raccolte del sac. Salesiano Giovanni Battista Lemoyne, edizione extra commerciale, vol. IX, Tipografia S.A.I.D. “Buona Stampa”, Torino 1917, p. 782.
[19]Carlo Ambrogio Cattaneo s.j., L’esercizio della buona morte, in Opere, vol. II, Boniardi, Milano 1867, pp. 169-170.
[20]Pio XII, Discorso del 12 settembre 1948 in Discorsi e Radiomessaggi, X (1948-1949), p. 212.



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sábado, 24 de agosto de 2019

O “SUICÍDIO ASSISTIDO” DA IGREJA E DA SOCIEDADE – Roberto de Mattei


22 de agosto de 2019

Roberto de Mattei *

Toda a atenção destes dias na Itália está concentrada na crise política. Mas há outra crise, mais grave e mais extensa, que constitui o âmago profundo da crise política: é a crise religiosa e moral do Ocidente. A crise política é visível, entra através de nossa mídia em nossas casas, e até mesmo um olho ou ouvido distraído a percebe. A crise religiosa e moral só a percebem aqueles que têm uma sensibilidade espiritual desenvolvida. Quem está imerso no materialismo da vida contemporânea possui uma capacidade refinada para captar o prazer dos sentidos, mas fica espiritualmente obnubilado, se não completamente cego. A crise religiosa e moral é uma crise que ocorre quando o homem perde de vista seu objetivo final e os critérios que devem orientar suas ações. A sociedade mergulha no agnosticismo, se dissolve e morre.

Na Itália, por exemplo, a crise do governo nos faz esquecer um compromisso importante. Está prevista para 24 de setembro uma audiência do Tribunal Constitucional a fim de julgar a legitimidade do artigo 580 do Código Penal, que pune o crime de instigar ou ajudar o suicídio. O supremo corpo jurídico do Estado italiano convidou o Parlamento a promulgar uma nova lei até essa data, caso contrário será o próprio Tribunal que definirá o roteiro. Mas a Corte já declarou que em alguns casos o suicídio pode ser admitido (e, portanto, “assistido” no nível médico e administrativo), porque “a proibição absoluta da ajuda ao suicídio acaba limitando a liberdade de autodeterminação do paciente na escolha de terapias, incluindo as destinadas a libertá-lo do sofrimento” (Portaria nº 207, de 16 de novembro de 2018). A autodeterminação do indivíduo é a regra suprema de uma sociedade que ignora a existência de uma lei moral inscrita no coração de cada homem, à qual os homens e as sociedades devem obedecer se quiserem evitar a autodestruição.

A crise política em curso parece excluir a possibilidade de que o Parlamento possa enfrentar a questão do suicídio até setembro e, portanto, é provável que o Tribunal Constitucional inflija um novo e sério golpe ao direito à vida, rumo a uma completa liberalização da eutanásia. Após o testamento biológico, um novo passo adiante será dado no caminho da cultura da morte que caracteriza a sociedade contemporânea.

O suicídio assistido é a ajuda médica, psicológica e burocrática aos que decidiram morrer. É um crime moral como a eutanásia. A lei natural e divina proíbe o suicídio porque o homem não é o dono de sua vida, como não o é da vida dos outros. O suicídio é um ato supremo de rebelião contra Deus porque, como ensina a filosofia tradicional, não pode haver ato de maior domínio do que querer destruir algo que não nos pertence (Victor Cathrein SJ, Philosophiamoralis, Roma, Herder 1959, p. 344). No suicídio parece realizar-se o destino do homem moderno, incapaz de se elevar além do horizonte terrestre de sua própria existência, prisioneiro de sua própria imanência. O homem destrói a si mesmo quando rejeita o peso da própria existência, que todos são chamados a suportar.

O suicídio é praticado não só pelos homens, mas também pelas nações, pelas civilizações, e intentado até mesmo pela Igreja, considerada na humanidade dos homens que a compõem. A Igreja vive há mais de 50 anos um processo suicida que Paulo VI definiu como “autodemolição” (discurso no Seminário Lombardo de Roma em 7 de dezembro de 1968). Essa autodemolição hoje poderia ser chamada de verdadeiro “suicídio assistido” da Igreja. Assistido porque induzido e favorecido por aqueles fortes poderes que sempre combateram a Igreja.

O documento preparatório do Sínodo dos Bispos sobre a Amazônia, com o culto da Natureza substituindo o da Santíssima Trindade, a abolição do celibato eclesiástico e a negação do caráter sacramental e hierárquico do Corpo Místico de Cristo, é o último exemplo desse suicídio assistido causado pelos líderes da Igreja e encorajado por seus inimigos. O Instrumentum laboris sobre a Amazônia, disse o cardeal Walter Brandmüller, “acusa o sínodo dos bispos e, em última análise, o Papa de uma grave violação do ‘depositum fidei’, o que significa, como consequência, a autodestruição da Igreja”.

Os católicos minimalistas propõem como alternativa ao suicídio assistido a sedação profunda, através da qual a morte do paciente é alcançada indiretamente, mas de modo também inexorável. Nós não pertencemos a este grupo. Não somos capazes, por conta própria, de salvar os doentes, porque só há um médico que pode fazê-lo em qualquer momento: Aquele que fundou a Igreja, que A dirige e prometeu que Ela não perecerá. Este doutor de almas e corpos é Jesus Cristo (Mateus 8, 5-11). A Igreja e a sociedade Lhe pertencem e nenhum renascimento é possível fora do retorno à Sua lei.
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(*) Fonte: “Corrispondenza romana”, 21-8-2019. Matéria traduzida do original italiano por Hélio Dias Viana.


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sexta-feira, 31 de agosto de 2018

“EU NÃO VOU DIZER UMA PALAVRA SOBRE ISSO”

31 de agosto de 2018 
♦  Roberto de Mattei *

“Eu não vou dizer uma palavra sobre isso.” Com esta frase, pronunciada em 26 de agosto de 2018 no voo de volta de Dublin a Roma, o Papa Francisco [foto abaixo] reagiu às impressionantes revelações do arcebispo Carlo Maria Viganò [foto acima], que o colocavam diretamente em causa. Para a jornalista Anna Matranga (NBC), que lhe perguntara se era verdade o que foi escrito pelo ex-núncio nos Estados Unidos, o Papa respondeu: “Li essa declaração esta manhã. Eu a li e sinceramente tenho que lhe dizer isso, para você e para todos aqueles que estão interessados: leia, cuidadosamente, a declaração e faça seu próprio julgamento. Não vou dizer uma palavra sobre isso. Eu acredito que a declaração fala por si, e você tem capacidade jornalística suficiente para tirar conclusões. É um ato de confiança: quando tiver passado algum tempo e você tiver tirado conclusões, talvez eu fale. Mas eu gostaria que sua maturidade profissional fizesse esse trabalho: vai te fazer bem, de verdade. Fica bem assim.”

Um arcebispo rompe o clima de silêncio e conivência e denuncia, com nomes e circunstâncias específicos, a existência de uma corrente filo-homossexual favorável a subverter a doutrina católica em relação à homossexualidade” e a presença de “redes de homossexuais difundidas atualmente em muitas dioceses, seminários, Ordens religiosas, etc.”, que “encobrem o segredo e a mentira com o poder dos tentáculos de um polvo e esmagam vítimas inocentes, vocações sacerdotais e estrangulam toda a Igreja”. Diante dessa voz corajosa que rompe o silêncio, o Papa Francisco se cala e confia aos meios de comunicação de massa a tarefa de julgar segundo seus critérios políticos e mundanos, muito diferentes dos critérios religiosos e morais da Igreja. Um silêncio que parece ainda mais grave do que os escândalos revelados pelo arcebispo Viganò.

Esta lepra se desenvolveu após o Concílio Vaticano II [foto abaixo, à dir.], como resultado de uma nova teologia moral que negava os absolutos morais e reivindicava o papel da sexualidade fora do casamento, hétero e homossexual, considerada como um fator de crescimento e desenvolvimento da pessoa humana. A homossexualização da Igreja se espalhou nos anos setenta e oitenta do século XX, como testemunha o livro, meticulosamente documentado, do padre Enrique Rueda, The Homosexual Network: Private Lives And Public Policy [A rede homossexual: vidas privadas e políticas públicas], publicado em 1982 [foto abaixo, à esq.].

Para se entender como a situação não fez desde então senão agravar-se, é essencial ler o estudo Homossexualidade e sacerdócio — O nó górdio dos católicos? (PoznańTheological Studies, 31, 2017, pp. 117-143), pelo Prof. Andrzej Kobylinski, da Universidade Cardeal Stefan Wyszynskide Varsóvia (https://journals.indexcopernicus.com/api/file/viewByFileId/261531.pdf). Kobylinski cita um livro intitulado The Changing Face of the Priesthood: A Reflectionon the Priest’sCrisis of Soul [A face mutante do sacerdócio: uma reflexão sobre a crise de alma do sacerdote], de Donald Cozzens, Reitor do Seminário em Cleveland, Ohio, onde o autor diz que, no início do século XXI, o sacerdócio tornou-se uma “profissão”, eminentemente exercida por homossexuais, podendo-se falar de um “êxodo heterossexual do sacerdócio”.

Há um caso emblemático que Kobylinski recorda — aquele do arcebispo de Milwaukee (Wisconsin), Rembert Weakland, aclamado expoente da corrente progressista e “liberal” americana: “Weakland encobre, há décadas, casos de abuso sexual de padres, apoiando uma visão da homossexualidade contrária à do Magistério da Igreja Católica. No final do exercício episcopal, ele também deu um desfalque enorme, roubando quase meio milhão de dólares dos cofres de sua arquidioce separa pagar seu ex-parceiro que o acusava de assédio sexual. Em 2009, Weakland fez o seu ‘coming out’, publicando uma autobiografa intitulada A Pilgrimin a Pilgrim Church [Um peregrino em uma Igreja peregrina], na qual ele admitiu ser homossexual e ter tido durante décadas relações sexuais seguidas com muitos parceiros. Em 2011, a Arquidiocese de Milwaukee foi forçada a declarar falência, devido ao alto custo das indenizações devidas às vítimas de padres pedófilos”.

Em 2004 apareceu o John Jay Report [título baseado no nome da seção especializada em justiça penal da Universidade da Cidade de Nova Iorque, que o preparou], documento preparado a pedido da Conferência Episcopal Americana, no qual foram analisados todos os casos de abuso sexual de menores por padres e diáconos católicos nos EUA nos anos 1950-2002. “Este documento de quase 300 páginas tem um valor informativo extraordinário — escreve Kobyliński. O John Jay Report demonstrou a ligação entre a homossexualidade e o abuso sexual de menores pelo clero católico. De acordo com o relatório de 2004, na grande maioria dos casos de abuso sexual, não é uma questão de pedofilia, mas de efebofilia, ou seja, uma perversão que não consiste em atração sexual pelas crianças, mas por adolescentes na puberdade. O John Jay Report mostrou que cerca de 90% dos padres condenados por abuso sexual infantil são padres homossexuais”.

Portanto, o escândalo de McCarrick não é senão o último ato de uma crise que vem de longe. No entanto, na Carta do Papa ao Povo de Deus, e ao longo de sua jornada na Irlanda, o Papa Francisco nunca denunciou essa desordem moral. O Papa acredita que no abuso sexual pelo clero o principal problema não é a homossexualidade, mas o clericalismo. Referindo-se a esses abusos, o historiador progressista Alberto Melloni escreve que “Francisco finalmente confronta o crime no plano eclesiológico: e o confia àquele agente teológico que é o povo de Deus. Ao povo Francisco diz sem rodeios que é o‘clericalismo’ que incubou essas atrocidades, não um excesso ou uma insuficiência de moral” (La Repubblica, 21 de agosto de 2018).

“Lecléricalisme, voilà l’ennemi!” — “O clericalismo, eis o inimigo!” A famosa frase pronunciada em 4 de maio de 1876 na Câmara de Deputados francesa por Léon Gambetta (1838-1882), um dos expoentes máximos do Grande Oriente da França, poderia ser adotada pelo Papa Francisco. Essa frase, no entanto, é considerada a palavra de ordem do laicismo maçônico do século XIX e foi por sua aplicação que os governos da Terceira República Francesa realizaram nos anos seguintes um programa político “anticlerical” que teve como etapas a laicização completa do ensino, a expulsão dos religiosos do território nacional, o divórcio, a abolição da concordata entre a França e a Santa Sé.

O clericalismo de que fala o Papa Francisco é aparentemente diferente, mas no final das contas ele corresponde àquela concepção hierárquica tradicional da Igreja, que foi combatida ao longo dos séculos pelos galicanos, pelos liberais, pelos maçons e pelos modernistas. Para reformar a Igreja, purificando-a do clericalismo, o sociólogo italiano Marco Marzano sugere ao Papa Francisco este caminho: Pode-se, por exemplo, começar a retirar completamente dos párocos o governo das paróquias, privando-os das funções de governo (financeiro e pastoral) absoluto e monocrático das quais se beneficiam hoje. Introduzindo um elemento importante de democracia, poder-se-ia tornar os bispos elegíveis. Poder-se-ia fechar os seminários, instituições da Contra-Reforma nas quais o clericalismo como espírito de casta é ainda hoje exaltado e cultivado, substituindo-os por estruturas de formação abertas e transparentes. Pode-se, sobretudo, suprimir a regra sobre a qual o clericalismo na maioria das vezes se funda hoje (e que é também a base da grande maioria dos crimes sexuais do clero), que é o celibato obrigatório. É justamente a suposta castidade do clero, com todo o corolário de pureza e sacralidade sobre-humana que a acompanha, que estabelece a premissa principal do clericalismo” (Il Fatto quotidiano, 25 de agosto, 2018).

Quem quer eliminar o clericalismo, quer de fato destruir a Igreja. E se, em vez disso, se entende o clericalismo como o abuso de poder exercido pelo clero quando abandona o espírito do Evangelho, não há clericalismo pior do que o daqueles que renunciam a estigmatizar pecados gravíssimos como a sodomia e deixam de recordar que a vida cristã deve necessariamente terminar no céu ou no inferno.

Nos anos seguintes ao Vaticano II, grande parte do clero abandonou o ideal da realeza social de Cristo e aceitou o postulado da secularização como um fenômeno irreversível. Mas quando o Cristianismo se submete ao laicismo, o Reino de Cristo é transformado em um reino mundano e reduzido a uma estrutura de poder. O espírito militante é substituído pelo espírito do mundo. E o espírito do mundo impõe silêncio sobre o drama que a Igreja está vivendo atualmente.
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(*) Fonte: “Corrispondenza romana”, 29-8-2018. Matéria traduzida do original italiano por Hélio Dias Viana.

http://www.abim.inf.br/eu-nao-vou-dizer-uma-palavra-sobre-isso/#.W4lzR85KjIU

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sexta-feira, 21 de abril de 2017

O ESCÂNDALO DOS NOSSOS TEMPOS - Roberto de Mattei

21 de abril de 2017
Roberto de Mattei (*)


O mundo está cheio de escândalos, e Jesus diz: “Ai do mundo por causa dos escândalos” (Mt 18, 7). O escândalo, de acordo com a moral católica, é o comportamento daqueles que causam o pecado ou a ruína espiritual de seu próximo (Catecismo da Igreja Católica n° 2284).

Não basta abster-se de fazer aquilo que em si mesmo é pecado, mas é preciso evitar aquilo que, não sendo pecado, põe os outros em perigo de pecar; e o Dicionário de teologia moral dos cardeais Roberti e Palazzini ensina que isso é especialmente obrigatório para aqueles que têm uma posição elevada no mundo ou na Igreja (Editrice Studium, Roma 1968, p.1479).

As formas mais graves de escândalo são hoje a publicidade, a moda, a apologia que a mídia faz da imoralidade e da perversão, as leis que aprovam a violação dos mandamentos divinos, como aquelas que introduziram o aborto e as uniões civis homossexuais.

A Igreja sempre considerou escândalo também o recasamento civil dos divorciados. João Paulo II, na Familiaris consortio, indica o escândalo que dão os divorciados recasados como uma das razões pelas quais eles não podem receber a Sagrada Comunhão. De fato, “se se admitissem estas pessoas à Eucaristia, os fiéis seriam induzidos em erro e confusão acerca da doutrina da Igreja sobre a indissolubilidade do matrimônio” (nº. 84).

O cânon 915 do Código de Direito Canônico afirma: “Não sejam admitidos à sagrada comunhão os excomungados e os interditos, depois da aplicação ou declaração da pena, e outros que obstinadamente perseverem em pecado grave manifesto.”

Uma declaração do Pontifício Conselho para os Textos Legislativos reafirmou a proibição contida nesse cânone contra aqueles que pretendem que tal regra não se aplica ao caso dos divorciados recasados. A declaração afirma: “No caso concreto da admissão dos fiéis divorciados novamente casados à Sagrada Comunhão, o escândalo, concebido qual ação que move os outros para o mal, diz respeito simultaneamente ao sacramento da Eucaristia e à indissolubilidade do matrimônio. Tal escândalo subsiste mesmo se, lamentavelmente, um tal comportamento já não despertar alguma admiração: pelo contrário, é precisamente diante da deformação das consciências, que se torna mais necessária por parte dos Pastores, uma ação tão paciente quanto firme, em tutela da santidade dos sacramentos, em defesa da moralidade cristã e pela reta formação dos fiéis” (Pontifício Conselho para os Textos legislativos, Declaração sobre a admissibilidade à Sagrada Comunhão dos divorciados recasados, 24/06/2000, em Communicationes, 32 [2000], pp. 159-162).

Após a promulgação da Exortação pós-sinodal Amoris laetitia, aquilo que sempre representou um escândalo para o Magistério da Igreja passou a ser considerado um comportamento aceitável, que merece ser acompanhado com compreensão e misericórdia. Monsenhor Pietro Maria Fragnelli, bispo de Trapani e presidente da Comissão para a família, os jovens e a vida, da Conferência Episcopal Italiana, disse em uma entrevista de 10 de Abril à agência SIR (dos bispos), dedicada ao documento do Papa Francisco, que “a recepção da exortação apostólica na diocese está crescendo, no sentido de se procurar entrar cada vez mais no espírito profundo da Amoris laetitia, que pede de nós uma nova mentalidade face ao amor em geral, vinculado à família e à vida de família”.

Para transformar a mentalidade do mundo católico, a Conferência Episcopal Italiana está empenhada numa assídua obra de promoção de conferências, seminários, cursos para noivos ou para casais em crise, mas, sobretudo, como escreve a agência dos bispos, a fim de promover “uma mudança de estilo para sintonizar a pastoral familiar ao modelo de Bergoglio”. De acordo com Mons. Fragnelli, “pode-se dizer claramente que começou uma mudança de mentalidade, tanto do episcopado, quanto das nossas dioceses, como algo que tem de ser feito, vivido e procurado em conjunto. Pode-se dizer: trabalho em andamento”.

Os “trabalhos em andamento” consistem na “deformação das consciências” denunciada há poucos anos atrás pelo Pontifício Conselho para os Textos Legislativos, ou seja, adotar uma mentalidade que nega, no plano da práxis, a santidade dos sacramentos e a moralidade cristã.

Em 25 de fevereiro último, falando em um curso de formação para os párocos, o Papa Bergoglio os convidou a se tornarem “próximos, com o estilo próprio do Evangelho, no encontro e no acolhimento daqueles jovens que preferem conviver sem se casar. Nos planos espiritual e moral, eles se encontram entre os pobres e os pequeninos, dos quais a Igreja, nos passos do seu Mestre e Senhor, quer ser uma mãe que não abandona, mas que se aproxima e cuida deles”.

De acordo com a agência SIR, os casais conviventes — com ou sem filhos — representam atualmente 80% daqueles que participaram, na Itália, dos cursos de preparação para o casamento em 2016. Ninguém recorda a esses conviventes que eles vivem em situação de pecado grave. A própria expressão “casais irregulares” é proibida. Em 14 de janeiro, o “Osservatore Romano” publicou as orientações pastorais dos dois bispos malteses, D. Charles Scicluna (arcebispo de Malta, ex-promotor de justiça da Congregação para a Doutrina da Fé), e D. Mario Grech (Gozo). “Através do processo de discernimento — dizem eles — precisamos avaliar o grau de responsabilidade moral em determinadas situações, dando a devida consideração aos condicionamentos e às circunstâncias atenuantes”. Por causa desses “condicionamentos e circunstâncias atenuantes, o Papa ensina que ‘já não é possível dizer que todos os que estão numa situação chamada ‘irregular’ vivem em estado de pecado mortal, privados da graça santificante”.

A consequência é que “se, como resultado do processo de discernimento, empreendido com ‘humildade, reserva, amor à Igreja e a seu ensinamento, na busca sincera da vontade de Deus e com o desejo de alcançar uma resposta a ela mais perfeita’ (AL 300), uma pessoa separada ou divorciada que vive uma nova relação consegue com clara e informada consciência, reconhecer e crer que ela ou ele estão em paz con Deus, ela ou ele não podem ser impedidos de participar dos sacramentos da Reconciliação ou Eucaristia”.

Um ano após a promulgação da Amoris laetitia, o “modelo Bergoglio” que vem sendo imposto é o acesso dos divorciados recasados a todos os sacramentos. A coabitação não constitui escândalo. Mas, para o Papa Francisco, o escândalo — mais ainda, o principal escândalo do nosso tempo — é a desigualdade econômica e social.

Em carta dirigida no Domingo de Páscoa ao bispo de Assis-Nocera Umbra, D. Domenico Sorrentino, o Papa Bergoglio disse que os pobres são “um testemunho da escandalosa realidade de um mundo marcado pela desproporção entre o gigantesco número de pobres, amiúde privados do estritamente necessário, e a minúscula parcela de endinheirados que detêm a maior parte da riqueza e pretendem determinar os destinos da humanidade. Infelizmente, a dois mil anos do anúncio do Evangelho e após oito séculos do testemunho de Francisco, estamos diante de um fenômeno de ‘iniquidade global’ e de ‘economia que mata’”.

O antagonismo moral entre o bem e o mal é substituído pela oposição sociológica entre riqueza e pobreza. A desigualdade social passa a ser um mal pior que o assassinato de milhões de nascituros e o oceano de impureza que submerge o Ocidente. Como não compartilhar o que escreveu o cardeal Gerhard L. Müller, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, no livro-entrevista Esperança da Família: “O maior escândalo que pode dar a Igreja não é o fato de que dentro dela existam pecadores, mas que deixe de chamar pelo nome a diferença entre o bem e o mal e passe a relativizá-la, que pare de explicar o que é o pecado ou finja justificá-lo em nome de uma alegada maior proximidade e misericórdia para com o pecador”.

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(*) Fonte: “Corrispondenza romana”, Roma, 19-4-2017. Matéria traduzida do original italiano por Hélio Dias Viana.

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quinta-feira, 13 de abril de 2017

É UMA GUERRA DE RELIGIÃO – Roberto de Mattei

12 de abril de 2017
Roberto de Mattei (*)

Atentado terrorista perpetrado por islamitas em igreja, no Domingo de Ramos (9-4-17), na cidade egípcia de Tanta

Os massacres de Tanta [foto acima] e Alexandria são um brusco chamado à realidade para o Papa Francisco, na véspera de sua viagem ao Egito. Os atentados no Oriente Médio e na Europa não são desastres naturais, evitáveis com encontros ecumênicos, como o que o Pontífice terá em 28 de abril com o Grande Imã de Al-Azhar, mas são episódios que nos lembram a existência na Terra de divisões ideológicas e religiosas profundas que só podem ser remediadas pelo retorno à verdade. E a primeira verdade a recordar, se não se quiser mentir para si mesmo e para o mundo, é que os autores dos atentados do Cairo, como de Estocolmo e de Londres, não são desequilibrados ou psicopatas, mas portadores de uma visão religiosa que desde o século VII combate o Cristianismo. Não só a Europa, mas o Ocidente e o Oriente cristão, definiram ao longo dos séculos a sua própria identidade defendendo-se de ataques do Islã, que nunca renunciou à sua hegemonia universal.

Diversa é a análise do Papa Bergoglio, que na homilia do Domingo de Ramos reiterou sua proximidade com aqueles que “sofrem com um trabalho de escravos, sofrem com os dramas familiares, as doenças [...] Sofrem por causa das guerras e do terrorismo, por causa dos interesses que se movem por detrás das armas que não cessam de matar”. Erguendo os olhos por cima do papel, o Papa acrescentou que reza também pela conversão do coração “daqueles que fabricam e traficam as armas”. O Papa repetiu o que tem declarado muitas vezes: não é o Islã em si mesmo, e nem o seu desvio que ameaça a paz do mundo, mas os “interesses econômicos” dos traficantes de armas. Na entrevista com o jornalista Henrique Cymerman, publicada no diário catalão “La Vanguardia” em 12 de junho de 2014, O Papa Francisco disse: “Descartamos toda uma geração para manter um sistema econômico que não se sustenta mais, um sistema para sobreviver deve fazer a guerra, como sempre fizeram os grandes impérios. Mas, já que não se pode fazer a terceira guerra mundial, então se fazem guerras locais. O que isso significa? Que se fabricam e vendem armas e, assim, fazendo os balanços das economias idólatras, as grandes economias mundiais que sacrificam o homem aos pés do ídolo de dinheiro, obviamente se curam.”

O Papa não parece acreditar que se possa escolher entre viver e morrer para realizar um sonho político ou religioso. O que moveria a História seriam os interesses econômicos, que antes eram os da burguesia contra o proletariado, e hoje são os das multinacionais e dos países capitalistas contra “os pobres da terra”.

A essa visão dos acontecimentos, que provém diretamente do economicismo marxista, contrapõe-se atualmente a geopolítica do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e do presidente da Federação Russa, Vladimir Putin. Trump e Putin redescobriram os interesses nacionais dos seus respectivos países, e no tabuleiro do Oriente Médio travam uma dura partida no jogo diplomático e midiático, não excluindo transpô-la para o plano militar. O Islã agita por sua vez o espectro da guerra religiosa no mundo.

Quais são as palavras que, na véspera da Santa Páscoa, os fiéis esperam do Chefe da Igreja Católica? Esperamos ouvi-lo dizer que as verdadeiras causas das guerras não são nem de ordem econômica, nem de ordem política, mas acima de tudo de ordem religiosa e moral. Que as guerras têm suas origens mais profundas nos corações dos homens e sua raiz última no pecado. Que foi para redimir o mundo do pecado que Jesus Cristo sofreu a sua Paixão, que é agora também a Paixão de uma Igreja perseguida em todo o mundo.

Na oração pela paz que compôs em 8 de setembro de 1914, assim que eclodiu o primeiro conflito mundial, Bento XV exortou a implorar privada e publicamente “a Deus, árbitro e dominador de todas as coisas, para que, lembrando-se de sua misericórdia, afaste este flagelo da ira com o qual faz justiça pelos pecados dos povos. Imploremos que, nas nossas orações, nos assista e ajude a Virgem Mãe de Deus, cujo felicíssimo nascimento, que celebramos neste mesmo dia, refulja para o transviado gênero humano como aurora da paz, devendo Ela dar à luz Aquele no qual o eterno Pai queria reconciliar todas as coisas ‘ao preço do próprio sangue na cruz, restabeleceu a paz a tudo quanto existe na terra e nos céus’ (Col. 1, 20)”.

É um sonho imaginar que um Papa venha a dirigir à humanidade palavras deste quilate, em uma situação internacional tempestuosa como a que vivemos hoje?

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(*) Fonte: “Il Tempo”, Roma, 10-4-2017. Matéria traduzida do original italiano por Hélio Dias Viana.

http://www.abim.inf.br/e-uma-guerra-de-religiao/#.WO8TEfkrLIV


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