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sábado, 11 de julho de 2020

A LEI DA INÉRCIA E O RETORNO À MISSA - Tom Hoopes


Miguel MEDINA | AFP

          A lei da inércia e o retorno à Missa

Tom Hoopes | Jul 09, 2020

Apesar de todo o seu poder, a inércia não é a maior força do universo. Nosso livre-arbítrio é mais forte. Por isso, precisamos vencer a inércia e voltarmos – com segurança – à Missa

Muitas paróquias estão, gradualmente, retomando as Missas com a presença dos fiéis. Mas muitos católicos não querem, por enquanto, retornar às igrejas (e não deveriam ser julgados por isso).

Todos deveriam compreender quão variadas são as circunstâncias das pessoas com familiares em grupos de risco, restrições de viagem, confusão sobre como se inscrever ou se poderão realmente participar da Missa por causa do número reduzido de fiéis.

Porém, penso que precisamos fazer grandes esforços para incentivar as pessoas a voltarem à Missa dominical, porque assim, estaremos enfrentando uma das mais poderosas forças do universo: a lei da inércia.

Os vendedores vêm falando sobre a lei da inércia há anos. Tudo começou com uma maçã caindo na cabeça de Isaac Newton. Ele se perguntou sobre isso, estudou e escreveu suas leis do movimento.

A primeira lei de Newton – a “lei da inércia” – diz que um objeto em repouso permanece em repouso e um objeto em movimento permanece em movimento, a menos que seja acionado por outra força.

Os vendedores sabem disso – e colocam esse princípio em prática. Eles sabem que ninguém quer agir por si só, então fazem com que você sinta que precisa do que eles estão vendendo para manter seu nível de conforto, prazer ou estilo de vida.

Na vida espiritual, temos a lei do hábito, que pode ser virtude ou vício. O Papa Francisco contou a história heróica dos católicos da Tunísia, cujo hábito de participar da Missa levou a um profundo encontro com Cristo. Quando o imperador Diocleciano tentou forçá-los a parar suas reuniões, um deles disse: “Não podemos viver sem o Domingo”. Os mártires de Abitene morreram na Missa.

Todos nós podemos conseguir isso. Como as virtudes “são adquiridas e fortalecidas pela repetição de bons atos morais” (Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, 378), precisamos apenas continuar fazendo a coisa certa.

Portanto, agora é a hora perfeita para a Igreja convidar fervorosamente as pessoas a voltarem, com segurança, à Missa.

Pense em quão perfeitas são as circunstâncias. A mensagem católica sempre foi: “Vá à Missa porque você precisa da Eucaristia”. Essa é uma mensagem poderosa, mas agora você não precisa ir à Missa. Então, por que você iria?

Volte à Missa porque o mundo está mais assustador do que nunca, e se você conseguiu manter sua paz de espírito sem Deus antes, certamente precisará dele agora, precisará de sua sabedoria, das Escrituras e de sua presença real na Comunhão.

Volte à Missa porque a pandemia varreu todos os ídolos. Tudo o que imaginávamos ser digno de esperança, agora sabemos que não é. Somente Deus traz esperança.

“Volte à Missa mesmo que isso pareça um risco”, diz meu arcebispo (mas viva primeiro a caridade, para si e para os outros). Ele ainda lembra que a Missa se tornou muito segura, mas apontou que os católicos se arriscam a receber Cristo há séculos.

Volte à Missa, mesmo que não queira. Talvez especialmente se você não quiser.

Eu poderia continuar com inúmeras razões para te convencer a volta à Missa de domingo. Mas minha esposa diz que a Igreja agora precisa de uma mensagem simples, como o lema “Just do it” da Nike.

Apesar de todo o seu poderoso poder, a inércia não é, em última análise, a maior força do mundo. Nosso livre-arbítrio é mais forte. Assim como basta dar um tapa em uma maçã para ela cair, você também pode ligar para a secretaria da paróquia para ver como a Missa funciona agora – ou ligar para as pessoas que ainda não viu na Missa, conversar com elas e convidá-las. Diga a elas que você ficará feliz em vê-las novamente na igreja.


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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

A LEI E OS DRAMAS HUMANOS - João Baptista Herkenhoff

A lei e os dramas humanos


O jurista não lida com pedras de um xadrez, mas com pessoas, dramas e angústias humanas


          Em outros tempos o cidadão comum supunha que o território do Direito e da Justiça fosse cercado por um muro. Só os iniciados – os que tinham consentimento dos potentados – poderiam atravessar a muralha. O avanço da cidadania, nos últimos tempos de Brasil, modificou substancialmente este panorama.

           O mundo do Direito não é apenas o mundo dos advogados e outros profissionais da seara jurídica. Todas as pessoas, de alguma forma, acabam envolvidas nisto que poderíamos chamar de "universo jurídico".  Daí a legitimidade da participação do povo nessa esfera da vida social.

           Cidadãos ou profissionais, todos estamos dentro dessa nau. De minha parte foi como profissional que fiz a viagem.
Comecei como advogado, integrei depois o Ministério Público. Após cumprir o rito de passagem, vim a ser Juiz de Direito porque a magistratura era mesmo o meu destino. Eu seria juiz no Espírito Santo, como juiz foi, não no Espírito Santo, meu avô pernambucano – Pedro Carneiro Estellita Lins. Esse avô, estudioso e doce, exerceu tamanho fascínio sobre mim que determinou a escolha profissional que fiz.

            Meu caminho, nas sendas do Direito, foi marcado de sofrimento em razão de conflitos íntimos.

            Sempre aprendi que o juiz está submetido à lei. E continuo seguro de que este princípio é verdadeiro. Abolíssemos a lei como limitação do poder e estaria instaurado o regime do arbítrio.

            Não obstante a aceitação de que o "regime de legalidade" é uma conquista do Direito e da Cultura, esta premissa não deve conduzir à conclusão de que os juízes devam devotar à lei um culto idólatra.

            Uma coisa é a lei abstrata e geral. Outra coisa é o caso concreto, dentro do qual se situa a condição humana.

            À face do caso concreto a difícil missão do juiz é trabalhar com a lei para que prevaleça a Justiça.

            Não foram apenas os livros que me ensinaram esta lição, mas também a vida, a dramaticidade de muitas situações.

            Há uma hierarquia de valores a ser observada.

            Não é num passe de mágica que se faz a travessia da lei ao Direito. Muito pelo contrário, o caminho é difícil. Exige critério, sensibilidade e ampla cultura geral ao lado da cultura simplesmente jurídica.

            O jurista não lida com pedras de um xadrez, mas com pessoas, dramas e angústias humanas. Não é através do manejo dos silogismos que se desvenda o Direito, tantas vezes escondido nas roupagens da lei. O olhar do verdadeiro jurista vai muito além dos silogismos.

            Da mesma forma que os cidadãos em geral não podem fechar os olhos para as coisas do Direito, o estudioso do Direito não pode limitar-se ao estreito limite das questões jurídicas. O jurista que só conhece Direito acaba por ter do próprio Direito uma visão defeituosa e fragmentada.

             Estamos num mundo de intercâmbio, diálogo, debate.

             Se quisermos servir ao bem comum, contribuir com o nosso saber para o avanço da sociedade, impõe-se que abramos nosso espírito a uma curiosidade variada e universal.


João Baptista Herkenhoff, 81 anos, magistrado aposentado, é Professor da Faculdade Estácio de Sá de Vila Velha (ES) e escritor. Autor do livro Dilemas de um juiz: a aventura obrigatória (Rio, GZ Editora, 2009).



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