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quinta-feira, 13 de outubro de 2022
terça-feira, 11 de outubro de 2022
O bebê que me salvou
Terminada a
apuração, fiquei prostrado. Vai começar tudo de novo, pensei. Os anos passados
entre ameaças, ódio, chantagens, polarização, violência, mentiras, enganos. A
vida é cheia de rudes despertares. Frase do criador do Peanuts, HQ, que havia
na sala de Thomaz Souto Correa, diretor da revista Claudia em 1966, quando lá entrei.
Depois me ergui e
fui para a cama com uma ideia fixa. Não podia beber, a diabetes
recém-descoberta me impede. Enfrentei com tranquilidade a ideia de verificar se
no Brasil existe morte assistida, aquela que liberou Godard em seu desânimo.
Mas Godard morava na Suíça. Liguei para um dos maiores advogados que conheço, o
Mariz de Oliveira, e pedi: como conseguir, como tantos fazem? E ele: 'Não conte
comigo para isso, sou a favor da vida. Posso sentar-me ao seu lado e segurar
sua mão até que isso passe, porque vai passar. Escreva, isso ajuda'.
Não morrer
assistido. No Brasil, não me dão esta escolha. A lei diz: aguente o tranco!
Sofra o que tem de sofrer! Vá a um terapeuta! Liguei, todos estavam com agendas
fechadas por cem anos. Houve quem dissesse: peça ao seu médico antidepressivos
fortes, que aliás estão faltando nas farmácias, que só nos oferecem Omega 3 e
pílulas virilizantes às toneladas. Aguente sua cruz! Dizia minha mãe piedosa,
quando o catolicismo existia - enfrente as dores que te arrasam, a melancolia
que te abate. As crenças de Maria do Rosário, minha mãe, sofreriam duríssimo
abalo ao ver como há sacerdotes de fancaria. Ninguém acredita que aquele padre
Kelmon surgido do nada seja real, tão absurdo em seu surrealismo e sua fala de
caça às bruxas. Ah, as feiticeiras de Salem, lembram-se? E dos macarthistas dos
anos 50?
Escrever outro
livro. Mas acabei de lançar um, não se começa outro, sob pena de repetir tudo,
as histórias demoram para sair da cabeça, do coração, do inconsciente. Tinha
coisas a fazer na segunda-feira, fui ao correio mandar um Sedex 10 para o
Bexiga, ou Bela Vista, São Paulo, descobri que não existe Sedex 10 para aquele
bairro central. Tão louco quanto a existência do padre candidato. Voltava para
casa pela rua Lisboa, vi uma mulher vindo com um bebê no colo. Quando ela se
aproximou, percebi que dava de mamar. Ao se aproximar, automaticamente ela
cobriu o seio com a mão, percebi e disse: 'A senhora faz uma das coisa mais
belas, amamenta, dá vida a essa criança.' E ela: 'Eu precisava sair, era hora
do mamar, vim com ele, quero que este menino cresça e um dia vote, como eu e o
pai dele votamos ontem. E ele foi conosco até a cabine, sorriu com os
barulhinhos da urna'. Segui, imaginando: será que um dia posso cruzar com este
bebê, então um jovem, em uma seção eleitoral, ambos acreditando que se possa
mudar as coisas? Melhor esperar.
O Estado de S.
Paulo, 09/10/2022
Ignácio de Loyola Brandão - Décimo ocupante da Cadeira 11 da
ABL, eleito em 14 de março de 2019 na sucessão do Acadêmico Helio Jaguaribe.
* * *
segunda-feira, 10 de outubro de 2022
Arte como esperança: Cyro de Mattos
Oscar
D’Ambrosio*
Prêmio Jorge Portugal de Literatura da Secretaria de Cultura
da Bahia (SECULTBA) de 2020, “Canto até hoje” é uma Edição Comemorativa dos
Sessenta Anos de Atividades Literárias de Cyro de Mattos. O conjunto de obras,
já publicadas e inéditas, constitui um painel da criação de um artista a favor
da liberdade e contra qualquer tipo de suplício.
Explico melhor lembrando de três sofrimentos célebres
impostos pelas divindades gregas. Tântalo, por exemplo, sofreu eternamente sem
poder comer ou beber. Mesmo rodeado de água até o pescoço, ele não podia
alcançá-la, pois, quando tentava beber, ela baixava o nível e, ao tentar pegar
frutos, os galhos das árvores estendiam-se para além dos seus braços.
Íxion, por sua vez, foi amarrado a uma roda em chamas. Em
lugar de cordas, foram utilizadas serpentes; e ele recebeu como punição girar
no calor do inferno. Assim como no Tântalo, a dor é eterna e sem possibilidade
aparente de escapatória, pois as punições divinas são justamente assim:
terríveis e permanentes.
E temos ainda Sísifo, que recebeu como castigo empurrar uma
pedra até o topo de uma montanha. Toda vez que estava chegando ao alto, a
rocha rolava novamente ao ponto de partida, tornando, assim, a atividade um
labor eterno, que se torna uma metáfora, do mesmo modo que os casos anteriores,
da estagnação do ser humano.
A poesia de Cyro de Mattos é uma resposta aos suplícios.
Contra a dor de Tântalo, que não consegue atingir o que deseja, melhor ler o
poema abaixo:
Árvore dos Frutos Dourados
O cacaueiro
é sedução
da aurora
ao crepúsculo.
Cílios,
impressões
de folhas,
a fio e prumo
segredo.
Os versos apresentam aquilo que o universal artista da
palavra baiano tem de melhor: a observação poética do cotidiano para construir
um lirismo em que as árvores de Tântalo se tornam objeto de sutil sedução e de
esperança, pois “da aurora ao crepúsculo” existem as “impressões de folhas”
nunca iguais, sempre repletas de segredos.
Os “frutos dourados” da árvore da arte também auxiliam
Íxion. Para enfrentar o seu eterno rodar marcado pelas víboras e pelo calor do
mundo subterrâneo, aponto o dístico “O Jabuti” e o haicai “Varal”, de Cyro de
Mattos:
O Jabuti
Geológicas passadas
quem tem pressa tropeça
Varal
Manhã colorida.
Voz desse mundo sem mancha.
Sonhar é preciso.
A sabedoria simbolizada pelo animal, que administra o tempo
de sua maneira toda especial, caracterizada por um vagar sem desespero pela
existência, encontra um paralelo na manutenção do sonho, que se renova a cada
manhã por mais improvável que isso possa parecer nas mais variadas situações.
Acreditar em algum tipo de futuro também é mentalmente
saudável para Sísifo. Saber que seu esforço aparentemente inútil não é só dele,
mas é de toda a humanidade, pode ser um consolo, uma pílula de realismo, como
aponta o poema...
A Relva e a Foice
Aventura solitária
humano destino ter
entre estar e ir
basta vir para sair
renascer sem fim
como um talo de capim?
Ai de mim na relva,
ais que doem na lâmina,
eu que vislumbro estrelas,
indiferentes perscrutam-me.
A aventura solitária de todo ser humano é, no fundo, a de
todo e qualquer ser vivo. Nascer é morrer em um ciclo interno, no qual o
trabalho é uma das facetas de uma caminhada existencial que muitas vezes pode
parecer não ter sentido algum, pois as estrelas indiferentes tudo olham, mas
sem se manifestar, ao menos aparentemente.
As palavras de Carlos Drummond de Andrade a Cyro de Mattos,
escritas no Rio de Janeiro, em 1980, parecem resumir bem como o poeta combate,
com suas criações, o suplício da vida:
Drummond a Cyro
Uma notícia irrompe desta árvore
e ganha o mundo: verde anúncio eterno
Certo invisível pássaro presente
murmura uma esperança a teu ouvido.
As visões (“notícias”) que surgem da existência (“árvore”),
na voz poética de Cyro de Mattos, se espalham permeadas pela natureza e pela
esperança anunciada pelos célebres olhos verdes de Pandora, a primeira mulher
do mito grego que, como o próprio nome indica, tinha todos os dons, mas também
carregava em sua célebre caixinha todos os males que nos preenchem internamente
e nos rodeiam para sempre.
O pássaro a murmurar esperanças é o poeta. O canto que Cyro
de Mattos faz até hoje é o seu dizer individual que se conecta com a sociedade
e o mundo. A obra reunida do artista da palavra é um delicado grito de crença e
de esperança no futuro que serve como bálsamo para as dores internas e externas
de Tântalo, Íxion e Sísifo, cujas agruras, em última análise, são as de todos
nós.
*Oscar D'Ambrosio é jornalista, graduado em
Letras (Português/Inglês), com especialização em Literatura Dramática
(ECA-USP), mestrado em Artes Visuais (Unesp) e doutorado e pós-doutorado no
Programa de Educação Arte e História da Cultura da Universidade Presbiteriana
Mackenzie.
* * *
sábado, 8 de outubro de 2022
quinta-feira, 6 de outubro de 2022
Nunca mais discussão
Cyro de Mattos
Aconteceu que Zé
Inácio, motorista de ônibus em Buraquinho da Felicidade, ao chegar em sua
residência, na rua da frente, do bairro Pau Miúdo, encontrou a mulher Belinha
no sofá com um desconhecido. Revoltado, ele que é mais velho do que ela uns
trinta anos, esperou que o rival saísse e partiu para tomar satisfações à
mulher infiel.
Xingando alto, sem ligar
para os vizinhos que vieram até o passeio, Belinha revidava às agressões
verbais do marido, chegando ao ponto de dizer que carinhoso era o amante,
ninguém no mundo era mais quente do que ele. Olhar de ódio, lábio inferior
mordido, mãos trêmulas, o Zé Inácio resolveu dar uma dúzia de tapas na mulher.
Ela se defendeu armada de um velho facão, não tendo medo de enfrentar o marido
traído. Vendo-se em desvantagem, ele pegou uma garrafa quebrada e atirou contra
a mulher adúltera. Ela se livrou do projétil ao se abaixar rápido, indo se proteger
por trás de uma pequena mesa. A garrafa a tingiu o filho caçula do casal,
que teve um ferimento grave na cabeça.
Chamados pelos vizinhos,
os mesmos policiais prenderam Zé Inácio em flagrante. Já mais calmo, não
esboçou qualquer reação quando recebeu a ordem de prisão e foi algemado. Ele
admitiu na delegacia que não tinha sido essa a primeira vez que encontra a
mulher com algum desconhecido em sua residência. “A vida é assim mesmo, nada se
pode fazer, cada um já entra nela pra cumprir sua sina”. Logo que saísse da
cadeia, ia pedir perdão à mulher e tentar a reconciliação.
Comentou que ainda não
sabia o que tinha se passado com ele para cometer cenas vexatórias como aquelas
diante dos vizinhos, mesmo sabendo que ela o trai, gostava muito dela. A briga
que ele teve com a mulher já era coisa do passado, a paz voltaria a reinar no
lar, “amanhã será outro dia”. Com rosas no jarro posto por Belinha em cima da
mesinha.
A pequena mesa com a
toalha branca de linho, tendo no centro o coração grande bordado de vermelho,
atravessado pela flecha dourada de Cupido. Só era usada em ocasião especial,
presente de Belinha no aniversário dele. Era a toalha que ele mais gostava,
embora a razão nunca conseguisse explicar ao coração os motivos desse querer
tanto. Também pudera! - como na musiquinha que gostava tanto de cantarolar, o
coração tem razões que a própria razão desconhece.
Além do mais, quando
morrer, não queria choro nem vela, somente uma fita amarela gravada com o nome
dela.
De agora em diante
prometia se comportar direitinho e nunca mais vai ter discussão com
a Belinha.
...................
Cyro de Mattos - escritor e poeta com prêmios literários
importantes, no Brasil e exterior. Doutor Honoris Causa da Universidade
Estadual de Santa Cruz, Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia, Pen
Clube do Brasil e Ordem do Mérito do Governo da Bahia, no grau de
Comendador.
* * *
terça-feira, 4 de outubro de 2022
04 DE OUTUBRO - Dia de São Francisco de Assis
Oração da Paz
São Francisco de Assis
Senhor, Fazei-me instrumento de vossa paz...
Onde houver ódio, que eu leve o amor;
Onde houver ofensa, que eu leve o perdão;
Onde houver discórdia, que eu leve a união;
Onde houver dúvida, que eu leve a fé;
Onde houver erro, que eu leve a verdade;
Onde houver desespero, que eu leve a esperança;
Onde houver tristeza, que eu leve a alegria;
Onde houver trevas, que eu leve a luz.
Ó Mestre, Fazei que eu procure mais...
Consolar, que ser consolado;
compreender, que ser compreendido;
Amar, que ser amado.
Pois é dando que se recebe,
É perdoando que se é perdoado,
E é morrendo que se vive para a vida eterna.
Amém!
São Francisco de Assis (1182-1226) foi um religioso
italiano, fundador da Ordem dos Franciscanos. Era filho de um rico
comerciante, mas fez votos de pobreza. Foi canonizado pelo papa Gregório IX,
dois anos depois de sua morte. É conhecido como o protetor dos animais.
* * *




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