Há alguns
dias revendo o antigo classificador, com recortes de alguns jornais, encontrei
um artigo sobre Altino Serbeto de Barros, no jornal da Capital, e confesso que
fiquei comovido. Foi no período que, morando na Capital, conheci o ilustre
advogado através do meu inesquecível padrinho Josafá Lopes de Almeida. Ambos se
nutriam uma sincera admiração e cordialidade, pautando uma vida de bons
exemplos. São algumas linhas para lembrar um dos mais insignes cultores do
direito do país, aquele que faleceu aos 91 anos de idade bem vividos, na
sublimidade do sacerdócio advocatício. Percorreu os mais longínquos e inóspitos
rincões da Bahia, montado em lombo de burro, que era o comum transporte da
época; pelos sertões, passando por Juazeiro, Caetité, Ilhéus, Barreiras,
Itabuna de um a outro extremo do Estado, numa faina incansável, semeando a
justiça, como os jesuítas semeavam a fé.
Na sua
passagem pela comarca de Ilhéus, na década de 30, enfrentou as ameaças dos
coronéis, mas em pouco tempo pôs ordem nas coisas, deste jeito conquistando
admiração e respeito de toda a população.
Na
Capital, frequentava o Fórum Rui Barbosa, diariamente, onde os funcionários o
tratavam com singular reverência. Mantinha o seu escritório de advocacia na
Avenida Sete de Setembro. Possuía uma vasta biblioteca que doou à Ordem dos
Advogados.
Eis um pequeno excerto feito pelo seu discípulo apanhado do
seu feliz artigo:
"Homem simples, bondoso, corretíssimo, de profundos
conhecimentos jurídicos e vasta cultura. Ruísta incondicional. Compreensivo com
as fraquezas humanas, mas inflexível no cumprimento dos deveres: " Ao
consultório médico vão levar as misérias físicas; ao, do advogado, as misérias
morais...” Defendia com intransigência os interesses dos bem-nascidos, e, com o
mesmo empenho, os humildes e deserdados da vida, que nele encontravam o mais
fiel escudeiro nas lutas contra injustiças, do que deixou exemplos
memoráveis."
Sem dúvida, foi um grande advogado, um ilustre filho da
nossa Bahia mas ficou esquecido pelos homens. Pois, nem sequer uma simples rua
da cidade perpetua-lhe o nome.
"É que vivemos tempos de ingratidão, de profunda
inversão de valores. Afinal, como supremo consolo, a todos nos resta a vala
comum, niveladora mãe inexorável do final do destino dos homens e de suas
vaidades".
A ONU é a grande expressão do multilateralismo. O
multilateralismo começou a tomar forma no início do século 20. Resultou da
dinâmica das transformações que unificaram a humanidade, para o bem e para o
mal, tornando o mundo finito e interdependente.
Foi o que passou a exigir mecanismos institucionalizados de
cooperação entre os Estados por meio de organizações internacionais. Estas
criam tabuleiros diplomáticos que geram normas e pautas de conduta, elaboradas
coletivamente pelos Estados para regerem suas recíprocas relações. Essas pautas
e normas expressam em distintas conjunturas o possível da cooperação e do
entendimento internacional. São sempre uma contínua, porém esquiva, conquista
da razão política.
O Brasil participou dos momentos inaugurais da diplomacia
multilateral: a Conferência de Paz de Haia em 1907 e a Conferência de Paris de
1919, a qual, ao término da 1.ª Guerra Mundial, levou à criação da Sociedade
das Nações. A partir dessas experiências, o pensamento diplomático brasileiro
identificou no multilateralismo um dos caminhos para a ação da política externa
do País. Avaliou que um país como o nosso, de escala continental, sem
“excedentes de poder” – como dizia o chanceler Saraiva Guerreiro –, mas com
“interesses gerais” na dinâmica de funcionamento do mundo que o afeta, é nos
tabuleiros do multilateralismo que sua voz encontra espaço para efetiva
articulação.
No âmbito da ONU, o momento de maior significado da
articulação da voz do Brasil é o discurso de abertura dos debates anuais da
Assembleia-Geral. A prática consolidou a tradição de que cabe ao Brasil esse
discurso. É o que vem sendo feito desde 1946.
A oportunidade de ser o primeiro a falar nos debates da
Assembleia-Geral fez com que os chefes das delegações do Brasil na ONU – fossem
embaixadores credenciados, ministros das Relações Exteriores ou os próprios
presidentes da República – pronunciassem um discurso abrangente. Na avaliação
de Luiz Felipe de Seixas Corrêa, que superiormente organizou a publicação
desses discursos, antecedendo-os de uma esclarecedora análise de seus contextos
internos e externos, o que os caracteriza é uma apreciação da situação
internacional que é a moldura para a enunciação da visão brasileira do mundo e
para a subsequente apreciação das principais questões internacionais. É o que
os diferencia “da grande maioria das delegações que intervêm no debate geral,
mais preocupadas com questões tópicas” (A Palavra do Brasil nas Nações Unidas –
1946-2011, 3.ª edição).
É considerável o desafio envolvido na elaboração desse tipo de
discurso. Requer um olhar sempre atualizado sobre as mudanças da realidade
internacional e, para ser devidamente abrangente, a capacidade de captar o que
acontece no nosso contexto regional. O discurso na ONU é uma importante
oportunidade de contribuir para a definição da agenda global e, nesse âmbito,
formular como ela enseja a tradução das necessidades internas em possibilidades
externas.
O histórico dos discursos deixa entrever, como aponta Seixas
Correa, algumas dicotomias que caracterizam a formulação da política externa
brasileira. Expressam as complexas dimensões do nosso país. Entre elas:
realismo/idealismo, reivindicação/invenção, ocidentalismo/terceiro-mundismo,
democracia/autoritarismo, continuidade/mudança.
Apesar disso, não obstante mudanças de ênfase e orientações,
que provêm de distintas conjunturas internas e internacionais, há uma constante
estável que tem sua origem na singularidade do lugar que o Brasil ocupa no
mundo. No espaço de permissibilidade que o mundo nos oferece, o caminho trilhado
pelo Brasil na explicitação da sua voz está alinhado com as formulações de Rui
Barbosa em Haia: contrapor-se ao exclusivismo do poder das grandes potências e
atuar no concerto das nações não com o peso de suas armas ou com eventuais
ambições de potência, mas com a força de suas razões e a ascendência do seu
Direito.
É por isso que esses discursos se têm oposto ao
unilateralismo, sustentando os méritos do multilateralismo, e articulado a
importância da paz, da cooperação e da solução pacífica de controvérsias.
Reconhecem a heterogeneidade do sistema internacional e seu consequente
pluralismo ideológico. Por isso, sem espírito de cruzada advogam o papel das
negociações. Nas palavras do chanceler Horácio Lafer – de grande atualidade num
mundo multipolar e permeado por tensões –, no seu discurso na ONU em 1960:
“Face à inadmissibilidade de soluções bélicas, o mundo se acha confrontado com
a necessidade de ajustar, por negociação as diferenças que separam as nações. O
caminho em busca de soluções para os problemas do nosso tempo é a negociação
permanente, o propósito de sempre negociar”.
Os discursos do Brasil na ONU têm sido enunciados numa
linguagem apropriadamente diplomática. É o que confere qualidade à sua voz e ao
estilo de sua visão do mundo, que agrega substância à reputação do nosso país.
No ensinamento de Rui: “Hoje, com efeito, mais do que nunca, a vida assim moral
como econômica das nações é cada vez mais internacional. Mais do que nunca, em
nossos dias, os povos subsistem de sua reputação no exterior”.
A História não parte do zero a cada período presidencial.
Por isso, no processo de redação do discurso da ONU, usualmente se leva em
conta o que foi dito na abertura dos debates da Assembleia-Geral de 1946 até
agora e o papel das forças internas e externas que modularam a voz do Brasil. É
o que lhe dá, em distintas conjunturas, coerência, elemento da reputação
internacional e de credibilidade.
Esse é o pano de fundo que permeia o peso da
responsabilidade que deve ter o próximo discurso do Brasil na ONU, este mês.
Uma de suas exigências é preservar no âmbito mundial a reputação internacional
do nosso país.
Celso Lafer - Quinto ocupante da cadeira 14 da ABL, eleito
em 21 de julho de 2006, na sucessão de Miguel Reale, e recebido em 1º de
dezembro de 2006 pelo acadêmico Alberto Venancio Filho.
Morto em 2001, o economista e diplomata Roberto Campos
estaria hoje com 100 anos. Relembre algumas de suas melhores frases sobre
quanto o Estado estorva a vida de empresas e cidadãos, publicadas pelo Estadão:
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“O bem que o Estado pode fazer é limitado; o mal, infinito.
O que ele pode nos dar é sempre menos do que nos pode tirar.”
“Nossa Constituição é uma mistura de dicionário de utopias e
regulamentação minuciosa do efêmero.”
“Uma vez criada a entidade burocrática, ela, como a matéria
de Lavosier, jamais se destrói, apenas se transforma.”
“Continuamos a ser colônia, uma país não de cidadãos, mas de
súditos, passivamente submetidos às ‘autoridades’ – a grande diferença, no
fundo, é que antigamente a ‘autoridade’ era Lisboa. Hoje, é Brasília.”
“Todo mundo sabe que o dinheiro do governo é gasto para
sustentar universidades ruins e grátis, para classes médias que podem pagar.
Nada melhor. Garante comícios das UNEs da vida, ótima preparação para futuros
políticos analfabetos.”
“O doce exercício de xingar os americanos em nome do
nacionalismo nos exime de pesquisar as causas do subdesenvolvimento e permite a
qualquer imbecil arrancar aplausos em comícios.”
“Sou chamado a responder rotineiramente a duas perguntas. A
primeira é ‘haverá saída para o Brasil?’. A segunda é ‘o que fazer?’. Respondo
àquela dizendo que há três saídas: o aeroporto do Galeão, o de Cumbica e o
liberalismo. A resposta à segunda pergunta é aprendermos de recentes
experiências alheias.”
“O PT é um partido de trabalhadores que não trabalham,
estudantes que não estudam e intelectuais que não pensam.”
“Nossas esquerdas não gostam dos pobres. Gostam mesmo é dos
funcionários públicos. São estes que, gozando de estabilidade, fazem greves,
votam no Lula, pagam contribuição para a CUT. Os pobres não fazem nada disso.
São uns chatos.
“É divertidíssima a esquizofrenia de nossos artistas e
intelectuais de esquerda: admiram o socialismo de Fidel Castro, mas adoram
também três coisas que só o capitalismo sabe dar – bons cachês em moeda forte,
ausência de censura e consumismo burguês. São os filhos de Marx numa transa
adúltera com a Coca-Cola.”
“Fui um bom profeta. Pelo menos, melhor que Marx. Ele
previra o colapso do capitalismo; eu previ o contrário, o fracasso do
socialismo.”
“Segundo Marx, para acabar com os males do mundo, bastava
distribuir. Foi fatal. Os socialistas nunca mais entenderam a escassez.”
A vigilância como virtude necessária para a conquista do
Reino do Céu está contida na lição do Divino Mestre sobre o chefe de família
que não sabe a hora em que virá o ladrão. O fiel cristão deve, pois, estar
sempre vigilante em relação aos inimigos que o cercam, pois nunca sabe quem o
espreita, nem quando será atacado.
E o inimigo está com frequência nos lugares menos
imagináveis. Com efeito, infelizmente, como se tornou comum vê-lo — muitas
vezes com naturalidade e indiferença — nos verdadeiros absurdos que acontecem
nos templos sagrados, nas celebrações litúrgicas, onde Nosso Senhor é tratado
indevidamente na recepção da Eucaristia.
Além da ofensa a Ele, esse estado de espírito displicente
acaba por abalar a fé e a devoção na presença real de Jesus Cristo Eucarístico.
Temos ainda a brutalidade e o ódio contra o sublime Sacramento instituído por
Jesus Cristo, verdadeiras profanações dos lugares santos.
— Não constituiriam um desdobramento sinistro do que neles
ocorre no dia a dia? Para avaliarmos a sua gravidade, recorramos rapidamente à
explicação dada por Orígenes, um dos grandes teólogos do início do
cristianismo, às palavras do Evangelho.
Ele nos ensina que o pai de família representa o
entendimento do homem; sua casa, a sua própria alma; e o ladrão, o demônio.
Esse inimigo se utiliza de discursos lisonjeiros, eivados de falsidades,
mentiras e traições para iludir os corações, perverter-lhes o entendimento,
saquear suas energias e abalar suas convicções.
O ladrão vem e mina a casa, pois o pai de família dorme sem
o cuidado de guardá-la. Em seguida, mata-o sem resistência, pois o surpreendeu
dormindo, em vez de vigilante, que deveria ser a sua atitude habitual. O estado
generalizado de indolência e torpor das almas torna o terreno propício a todo
tipo de profanação.
Circulam pela internet pequenas filmagens com exemplos do
que vem ocorrendo em muitas igrejas, ou seja, de pessoas que entram na fila de
comunhão, recebem a hóstia na mão e não a consome… Lembro-me a propósito de uma
notícia proveniente da histórica cidade de Trento, no norte da Itália, em que
um comungante ao receber do celebrante a hóstia na mão, partiu-a e deu metade
para seu cachorro que o acompanhava na igreja! Em outra ocasião, um gato subiu
ao altar, na hora da comunhão, e passou a comer as partículas consagradas.
Notícias assim nos deixam estupefatos! Não há por trás de
tudo isso uma rota do crime do sacrilégio e da profanação investindo contra o
que há de mais sagrado em nossas igrejas, que é o Santíssimo Sacramento?
Sacrários são destruídos ou jogados nas ruas com as hóstias; estas são também
roubadas, incendiadas, lançadas ao chão ou em rios; vestes e objetos litúrgicos
profanados; altares quebrados, imagens destruídas…
Quem estaria por trás dessas manifestações furiosas de ódio
contra Aquele que está verdadeiramente presente na Sagrada Eucaristia sob as
espécies de pão e vinho? Sem dúvida, satanás, por meio de seus sequazes, pois a
fúria é verdadeiramente satânica.
O mesmo ódio que levou Jesus Cristo a ser condenado e
conduzido ao alto do Calvário se repete em nossos dias com as profanações dos
sacrários de nossas igrejas. O sacrilégio constitui uma cacofonia sinistra que
reverbera nas profundezas infernais, pois tanto ódio só pode provir do demônio,
o eterno derrotado.
Pretendo voltar ao assunto.
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(*) Sacerdote da Igreja do Imaculado Coração de Maria –
Cardoso Moreira (RJ).
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
Lucas.
— Glória a vós, Senhor.
Naquele tempo,os publicanos e pecadores
aproximavam-se de Jesus para o escutar. Os fariseus, porém, e os mestres
da Lei criticavam Jesus. “Este homem acolhe os pecadores e faz refeição com
eles”. Então Jesus contou-lhes esta parábola: “Se um de vós tem cem
ovelhas e perde uma, não deixa as noventa e nove no deserto, e vai atrás
daquela que se perdeu, até encontrá-la? Quando a encontra, coloca-a nos
ombros com alegria, e, chegando em casa, reúne os amigos e vizinhos, e
diz: ‘Alegrai-vos comigo! Encontrei a minha ovelha que estava perdida!’
Eu vos digo: Assim haverá no céu mais alegria por um só
pecador que se converte, do que por noventa e nove justos que não precisam de
conversão. E se uma mulher tem dez moedas de prata e perde uma, não
acende uma lâmpada, varre a casa e a procura cuidadosamente, até
encontrá-la? Quando a encontra, reúne as amigas e vizinhas, e diz:
‘Alegrai-vos comigo! Encontrei a moeda que tinha perdido!’.
Por isso, eu vos digo, haverá alegria entre os anjos de
Deus por um só pecador que se converte”. E Jesus continuou.
“Um homem tinha dois filhos. O filho mais novo disse
ao pai: ‘Pai, dá-me a parte da herança que me cabe’. E o pai dividiu os bens
entre eles. Poucos dias depois, o filho mais novo juntou o que era seu e
partiu para um lugar distante. E ali esbanjou tudo numa vida desenfreada. Quando
tinha gasto tudo o que possuía, houve uma grande fome naquela região, e ele
começou a passar necessidade. Então foi pedir trabalho a um homem do
lugar, que o mandou para seu campo cuidar dos porcos. O rapaz queira
matar a fome com a comida que os porcos comiam, mas nem isto lhe davam.
Então caiu em si e disse: ‘Quantos empregados do meu pai
têm pão com fartura, e eu aqui, morrendo de fome. Vou-me embora, vou
voltar para meu pai e dizer-lhe: Pai, pequei contra Deus e contra ti; já
não mereço ser chamado teu filho. Trata-me como a um dos teus empregados’.
Então ele partiu e voltou para seu pai. Quando ainda
estava longe, seu pai o avistou e sentiu compaixão. Correu-lhe ao encontro,
abraçou-o, e cobriu-o de beijos. O filho, então, lhe disse: ‘Pai, pequei
contra Deus e contra ti. Já não mereço ser chamado teu filho’.
Mas o pai disse aos empregados: ‘Trazei depressa a melhor
túnica para vestir meu filho. E colocai um anel no seu dedo e sandálias nos
pés. Trazei um novilho gordo e matai-o. Vamos fazer um banquete. Porque
este meu filho estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi encontrado’.
E começaram a festa. O filho mais velho estava no campo. Ao voltar, já
perto de casa, ouviu música e barulho de dança. Então chamou um dos
criados e perguntou o que estava acontecendo. O criado respondeu: ‘É teu
irmão que voltou. Teu pai matou o novilho gordo, porque o recuperou com saúde’.
Mas ele ficou com raiva e não queria entrar. O pai,
saindo, insistia com ele. Ele, porém, respondeu ao pai: ‘Eu trabalho
para ti há tantos anos, jamais desobedeci a qualquer ordem tua. E tu nunca me
deste um cabrito para eu festejar com meus amigos. Quando chegou esse
teu filho, que esbanjou teus bens com prostitutas, matas para ele o novilho
cevado’.
Então o pai lhe disse: ‘Filho, tu estás sempre comigo, e
tudo o que é meu é teu. Mas era preciso festejar e alegrar-nos, porque
este teu irmão estava morto e tornou a viver; estava perdido, e foi
encontrado”’.
Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Padre Roger
Araújo:
---
O que está perdido em meu interior?
“Encontrei a minha ovelha que estava perdida”;
“encontrei a moeda que tinha perdido”;
“este teu irmão estava perdido, e foi encontrado”
As três parábolas deste domingo (24º Dom TC), relatadas por
Lucas, condensam toda a história de nossa salvação. Elas contêm a
quinta-essência do Evangelho do Reino do Pai, proclamado por Jesus, ou seja, a
história do amor de Deus para com a humanidade. Justamente por serem o
Evangelho condensado, as parábolas contadas por Jesus devem ser incessantemente
escutadas e contempladas por todos nós. E, depois de contempladas e
experimentadas, devemos contá-las, proclamá-las e testemunhá-las, sempre de
novo, a todos os homens e mulheres que Deus ama.
Elas são as parábolas da nossa vida, da nossa história, de
cada um dos nossos caminhos. Elas são as parábolas da nossa origem e do nosso
destino. As três parábolas da misericórdia são, na verdade, as “parábolas dos
perdidos”. O que Jesus quis proclamar, ao contá-las, foi revelar a nova imagem
do Deus Pai/Mãe que, movido pelo seu amor, misericórdia, perdão, sai ao
encontro dos que estão “perdidos”. As três parábolas expressam, com uma força
insuperável, dois temas particularmente caros a Lucas e vinculados entre si: o
tema da misericórdia e do perdão oferecidos por Deus aos pecadores, a todos os
“perdidos”, e o tema da alegria do mesmo Deus quando os perdidos são
encontrados.
A trama das três parábolas é a expressão de que vivemos
permanentemente banhados pela misericórdia reconstrutora de Deus, e que se
expressa no perdão contínuo. Jesus, nestas parábolas, nos revela que Deus vai
aonde nunca antes ninguém se atrevera ir, acompanhando-nos com sua presença,
aproximando-se de nós e nos convidando à festa do seu perdão, com uma
misericórdia sem fim.
As três parábolas também revelam o caráter de defesa, feito
pelo próprio Jesus, do seu modo de vida, do seu comportamento, particularmente
do seu relacionamento com os extraviados e excluídos. O Evangelho que Jesus
proclama com palavras e ações é a Boa Nova da salvação para os perdidos; e é,
ao mesmo tempo, apelo à conversão dirigido aos que se consideravam “justos”,
mas se fechavam ao amor e ao perdão.
O que escandalizava os destinatários das três parábolas, que
se consideravam justos e cumpridores exemplares da lei de Deus, não era
propriamente a conduta dos pecadores, mas a conduta do próprio Jesus com
relação a eles: permitia que os pecadores se aproximassem dele, recebia-os de
coração aberto, tomava a iniciativa de ir ao encontro deles e sentava-se com
eles à mesma mesa.
O comportamento de Jesus é uma “parábola viva” do
comportamento de Deus com os pecadores. Os escribas e fariseus não podiam
suportar que Jesus proclamasse o Deus que acolhe e perdoa incondicionalmente a
todos, que tem um carinho especial e um amor de predileção pelos perdidos; um
Deus que sai ao encontro dos perdidos e que transborda de alegria quando os
encontra. Esse Deus “novo” anunciado por Jesus era um Deus “desconcertante”,
“escandaloso”, totalmente incompatível com o “deus legalista” dos escribas e
fariseus. Por isso, a pregação e o comportamento de Jesus eram intoleráveis
para eles.
As três parábolas nos revelam os sentimentos e as ações do
“Abba de Jesus” com relação aos filhos perdidos. Revelam-nos um Deus cheio de
ternura e de misericórdia que vai ao encontro dos perdidos, libertando-os da
exclusão e do isolamento; um Deus que exulta de alegria quando os reencontra e
que convida a todos para a festa da comunhão e da alegria pelo seu retorno.
As três parábolas de Lucas nos permitem também fazer uma
leitura em “chave de interioridade”, ou seja, “o quê está perdido, rejeitado,
escondido... dentro de mim”? Os entendidos em restauração de obras de
arte sabem que não se trata de voltar a pintar de novo a obra em questão. Nem
sequer refazê-la, com outras cores, o que parece que está perdido. Um bom
restaurador procura limpar com delicadeza e paciência cada detalhe do quadro,
com a única pretensão de trazer de novo à luz o mais original da obra. Isto é o
que Deus faz conosco, através de sua misericórdia. Limpa-nos com delicadeza em
cada esquina e dobra de nosso coração. A misericórdia de Deus atua para que
venha à luz o mais original que há em nós. Somos filhos(as) de um Deus que é
todo bondade e amor. Somos obras de arte restauradas pelo amor ativo de Deus.
Viver a experiência da misericórdia é deixar-nos reconstruir por um amor que
nos oferece a possibilidade de sentirmos novamente como filho e filhas de Deus.
Precisamos, como Deus, tomar iniciativa, aprender a
nos aproximar daquilo que está perdido e desgarrado em nós, sem julgamentos e
sem moralismos. Aproximar-nos, acolher, abraçar, colocar nos ombros, tudo o que
foi rejeitado e excluído, para pacificar nossa interioridade. Tudo aquilo
que consideramos “perdido” (fragilidades, feridas, traumas, fracassos,
crises...) tem algo a nos revelar. Nada pode ser rejeitado, tudo deve ser
acolhido pois tudo compõe a nossa história de vida. Precisamos fazer as pazes
com o que foi reprimido e afastado e que continua gerando um mal-estar
interior.
O diálogo com as ovelhas desgarradas, as moedas perdidas e o
filho pródigo, significa dirigir a atenção para as áreas reprimidas de nossa
condição humana e que foram excluídas porque centramos forças em alimentar
nossas imagens aureoladas e ideais exagerados, dominados pelo desejo de sermos
perfeitos e infalíveis (fariseus e mestres da lei). Acolher e integrar tudo o
que é humano (também o que está afastado dentro de nós) é a condição para a
verdadeira experiência de Deus.
O encontro com o que está perdido em nosso interior é
oportunidade para nos lançarmos por inteiros nos braços misericordiosos de
Deus. Pois Ele vem ao nosso encontro em nossas carências e fraquezas; Ele nos
procura através de nossos fracassos, de nossas feridas, de nossas limitações...
Deus serve-se do que está perdido em nós para abraçar-nos carinhosamente.
Portanto, o caminho para a integração e alegria interior passa pelo encontro e
acolhida de tudo aquilo que foi rejeitado, reprimido e excluído dentro de nós,
consumindo muita energia.
A espiritualidade das parábolas de Lucas nos mostra que é
exatamente em nossas feridas onde Deus encontra mais facilidade para entrar em
nossas vidas e reconstruir nossa identidade verdadeira: filhos e filhas
amados(as) com um “amor em excesso”.
“Lá onde nós fomos feridos, onde nos quebramos, aí nós
também nos abrimos para Deus” (H. Nouwen)
Poderíamos nos interrogar: o que é que Deus deseja nos
revelar por meio daquilo que está “perdido” em nós? Procurar e buscar o que
está “perdido” em nossa casa interior significa “buscar e encontrar a Deus”
exatamente em nossas paixões, em nossos traumas, em nossas feridas, em nossos
instintos, em nossa impotência e fragilidade...
Viver uma nova espiritualidade significa, então, não buscar
“ideais de perfeição”, mas dialogar com a “vida perdida” e que deseja retornar
ao lar, espaço do amor misericordioso. A partir da experiência da misericórdia
podemos reunir em nosso redil, em nossa casa, tudo o que se afastou e se
perdeu. Daqui poderá brotar nova possibilidade de vida, mais leve e mais
humana.
Texto bíblico: Lc 15
Na oração: Qual é a ovelha desgarrada do seu interior
que é preciso ir atrás dela, acolhê-la e integrá-la ao redil? Qual é a moeda
que ali se perdeu?
- apresente a Deus suas ovelhas e moedas perdidas, para que,
na luz da sua misericórdia, tudo adquira novo brilho e nova vida.
Benditos sejam os que chegam em nossa vida em silêncio,
com passos leves para não acordar nossas dores, não
despertar nossos fantasmas, não ressuscitar nossos medos.
Benditos sejam os que se dirigem a nós com leveza, com
gentileza, falando o idioma da paz para não assustar nossa alma.
Benditos sejam os que tocam nosso coração com carinho, nos
olham com respeito e nos aceitam inteiros com todos os erros e imperfeições.
Benditos sejam os que podendo ser qualquer coisa em nossa
vida, escolhem ser doação.
Benditos sejam esses seres iluminados que nos chegam como
anjo, como flor ou passarinho, que dão asas aos nossos sonhos e tendo a
liberdade de ir escolhem ficar e ser ninho.
A maioria das vezes chamamos essas pessoas de
"AMIGOS"!
O
desenvolvimento da criança é, sem dúvida, uma das maiores preocupações dos
psicólogos no seu afã diário com esta ciência complexa, que nos desafia a cada
passo. Para compreender os segredos, é inevitável tanto para os leigos e também
psicólogos, a leitura do livro DIBS: Em Busca de Si Mesmo, de autoria da
psicóloga Virgínia M. Axline, através da tradução modelar da Professora Célia
Soares Linhares, que, apaixonada pelo conteúdo do livro encantador,
transportou-o para o nosso vernáculo a fim de que todos, de maneira indistinta, tivéssemos conhecimento da vida de Dibs, - uma criança excêntrica
que não se conhecia a si mesma, sendo, ainda extremamente indócil na
convivência com os seus semelhantes. Conseguiu, então, graças ao tratamento que
a moderna Psicologia oferece, safar-se da escuridão para a vida plena de luz, e
tornar-se um homem sedutor e líder estudantil. Quem operou tal milagre foi a
autora, Virgínia M. Axline, que pontifica na Universidade Estadual de Ohio e em
Columbus exerce a sua clínica particular, servindo a todos que a procuram,
especialmente as crianças, que a atraem de maneira particular, pois, no decurso
de seus estudos e trabalho, descobriu na ludoterapia o método plausível de
debelar os complexos infantis.
Li o livro
com a maior atenção, pois o assunto empolgou extremamente o meu espírito de
psicólogo.
E, como
bem expôs o escritor Leonard Carmichael, "um dos grandes problemas de
nossa época tecnológica caracterizada por grandes aglomerados populacionais, é
a compreensão autêntica das técnicas que possibilitam mudanças duráveis na
personalidade e no comportamento”. Dibs: em busca de si mesmo, como estudo da
organização mental e da modificação de atitudes, é importante neste
contexto. Está certíssimo o prefaciador do notável livro cuja leitura
termino agora, embevecido e orgulhoso pelos sucessos que a
Psicologia alcança.
O
profissional desta área alcançará o seu objetivo por mais obscuro que seja, se
ao seu trabalho dedicar-se de corpo e alma, porque nada, neste mundo, está
perdido... Dibs é o exemplo.
ANTONIO BARACHO – Poeta, psicólogo.
Membro da Academia Grapiúna de Letras- AGRAL, ocupante da
cadeira nº 11.