Andrew
Testa/The New York Times
O escritor Kazuo Ishiguro
MAURÍCIO MEIRELES
COLUNISTA DA FOLHA
05/10/2017
O escritor nipo-britânico Kazuo Ishiguro, 62, foi anunciado,
na manhã desta quinta (5), no horário de Brasília, como o ganhador do prêmio
Nobel de Literatura deste ano.
O autor, um dos prosadores contemporâneos mais aclamados,
tem publicados no Brasil livros como "O Gigante Enterrado", "Não
me Abandone Jamais" e "Os Vestígios do Dia", que saem no país
pela Companhia das Letras.
"Vestígios..." já havia rendido ao autor o Man
Booker Prize, outro dos grandes prêmios internacionais de literatura, em 1989.
Sua editora no Brasil agora vai reimprimir "Quando Éramos Órfãos",
fora de catálogo, com uma nova capa.
O autor reuniu a imprensa em sua casa, em Londres, para uma
entrevista coletiva, na manhã desta quinta. Ele disse ter pensado, ao receber a
notícia por meio de sua agência literária, que era "fake news".
"Pensei que era boato", afirmou, sentado em um
banco no seu quintal. "Uma hora, uma moça muito gentil da Suécia me ligou
e perguntou, antes de tudo, se eu aceitaria o prêmio. Fiquei surpreso com como
eles [da Academia Sueca] foram modestos. Era como se eles estivessem me
convidando para uma festa e tivessem medo que eu recusasse o convite."
O anúncio foi dado por Sara Danius, secretária permanente da
Academia Sueca, instituição que concede o prêmio. Ela destacou que a obra de
Ishiguro tem "grande força emocional" e "desvendou o abismo sob
nossa sensação ilusório da conexão com o mundo".
Ela descreveu ainda o trabalho do autor como uma mistura de
Jane Austen e Franz Kafka. "Mas é preciso acrescentar um pouco de Marcel
Proust, misturar, mas não muito, e então se chega à escrita dele", disse.
Danius afirmou ainda que, contudo, diferentemente de Proust,
o autor não está interessado no resgate do passado, mas em explorar o que é
preciso esquecer para sobreviver —não só no plano individual, mas também
social.
Depois de premiar uma jornalista, em 2015, e um compositor,
em 2016 —escolhas vistas como ousadas—, a Academia volta a escolher um escritor
no sentido tradicional da palavra. Salman Rushdie, amigo do premiado, em entrevista
ao jornal "The Guardian", ainda brincou com a escolha: "E ele
ainda toca violão e compõe músicas. Passou por cima do Bob Dylan".
Ishiguro, que trabalhou como músico na juventude e ainda
compõe, tem parcerias famosas com a cantora de jazz Stacey Kent. Seu ídolo era
—ironicamente— Dylan, além de Leonard Cohen e Joni Mitchell.
Nascido em Nagasaki, no Japão, ele se mudou com a família
aos cinco anos, nos anos 1960, para o Reino Unido —e só voltaria a seu país de
origem 30 anos depois. Não à toa, sua obra é escrita em inglês. Depois de
trabalhar como músico, no começo da carreira, ele estudou letras e filosofia.
Depois, faria um mestrado em escrita criativa.
Como em outros anos, as casas de apostas erraram. Ishiguro
não era o favorito das listas, que incluíam Ngugi wa Thiong'o, Haruki Murakami
e Margaret Atwood, entre outros. Ele receberá como prêmio 9 milhões de coroas
suecas (R$ 3,5 milhões).
Em entrevista à Folha, no lançamento de "Quando Éramos
Órfãos", Ishiguro lembrou uma visita ao Brasil, nos anos 1990, e falou do
seu fascínio pelo conceito de "geto" —ou jeito, o jeitinho
brasileiro. O livro lançado na época, dizia, era motivado pela noção brasileira
de "soldado" (saudade).
"A nostalgia que os portugueses tinham de Portugal
quando estavam no Brasil e a que eles sentiam do Brasil quando em Portugal. Em
'Quando Éramos Órfãos' quero mostrar esse sentimento."
Ishiguro se interessou pela literatura quando tinha cerca de
dez anos, quando passou a ler obsessivamente as histórias de Sherlock Holmes.
Fazia os colegas rirem, porque tentava imitar o comportamento dos personagens
—e até usava o mesmo jeito de falar. Seu primeiro livro, "Um Pálida Visão
dos Montes" (Rocco), foi publicado em 1982.
O autor fez parte de uma geração que hoje ocupa lugar
central na literatura produzida no Reino Unido. Ele estava no grupo
selecionado, em 1983, pela "Granta", uma das grandes revistas
literárias do mundo, como os melhores jovens escritores britânicos —na lista
estavam figuras como Ian McEwan, Salman Rushdie e Martin Amis.
Seu auge chegou logo depois, em 1989, quando ganhou o Man
Booker Prize por "Os Vestígios do Dia". O romance traz um mordomo que
recorda três décadas de serviço a um lorde britânico, revelando aspectos
sombrios da história do ex-patrão, como a simpatia pelo nazismo.
Ishiguro é conhecido por passear por vários gêneros
literários, como o romance policial, o faroeste, ficção científica e a
fantasia. Seu último livro, "O Gigante Enterrado", se filia a esse
último gênero.
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Livros publicados no país
- "Os Vestígios do Dia"
Um mordomo à moda antiga se ressente pela decadência da
aristocracia britânica no entreguerras e pelo fato de ter um novo patrão que
não dá a mínima para o emaranhado de rituais que orientam sua vida.
- "Não me Abandone Jamais"
Triângulo amoroso se passa em um internato onde todos os
"alunos" são clones, produzidos com a única finalidade de servir de
peças de reposição (no caso, seus órgãos).
- "O Gigante Enterrado"
Obra trata de um velho casal que viaja por uma paisagem
traiçoeira e sem lei para tentar encontrar seu filho, enquanto tateiam a névoa
do esquecimento que parece ter se abatido sobre a terra devido a uma maldição.
- "Noturnos"
Nas cinco histórias há música e cair da noite a enquadrá-las
cenograficamente. Mas o verdadeiro tema comum apenas se revela se o título for
também tomado, metaforicamente, como alusão ao momento de esfriamento das
esperanças de o talento naturalmente se ajustar ao sucesso, cujas condições se
descobrem aleatórias, injustas e, por vezes, ridículas.
- "Quando Éramos Órfãos"
O livro fala sobre o poder do passado de determinar o
presente através da história de Christopher Banks, um garoto que fica órfão aos
nove anos de idade. Vinte anos depois, ele se torna um detetive e resolve rever
Xangai, palco da guerra entre China e Japão, fazendo com que sua busca pelos
pais seja confundida com a busca pela ordem no mundo.
- "O Desconsolado"
O renomado pianista Ryder viaja para uma pequena cidade do
leste europeu para um concerto. Lá, ele se envolve em uma briga entre o
violoncelista Christoff e o maestro bêbado Brodsky, e em todos os lamentos dos
moradores locais que desabafam frustrações e sonhos com o pianista.
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