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segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Os Pingos Nos Is - 23/11/20

CANTO DE FIRMINO ROCHA – Cyro de Mattos


                                Canto de Firmino Rocha

Cyro de Mattos

 

            Tuas penas feridas com o fuzil

                 que deram ao menino 

                teus ventos companheiros

                  redimindo as calçadas

            no gesto de estrela

                 um novo dia anuncias

                   dos longes comovidos

               nas águas dormindo

              onde o ouro vegetal

                  flora como flama eleita

                   os fragmentos colhidos

                     nos seios da madrugada

                o discurso elementar

                 de sol com borboletas

                     em tua metáfora solitária

                       ciranda de todas as relvas

                               ébria de amor por nós mesmos

                     enquanto durou a cantiga

                       nos becos o esgar dos dias

               o comentário esquivo

                    nenhum rancor ouvimos

        como conseguias

             permanecer menino?

                teu pássaro puro reluz

         nesse canto sereno

               agora legiões de anjos

                 te escutam em silêncio

                      tua hora de no eterno voar.

 

            (Do livro Os Enganos Cativantes, poemas)

 

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Cyro de Mattos é escritor e poeta com prêmios literários importantes, no Brasil e exterior. Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz, Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia, Pen Clube do Brasil e Ordem do Mérito do Governo da Bahia, no grau de Comendador

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sábado, 21 de novembro de 2020

FRADE NOMEADO CARDEAL PEDIU PARA NÃO SER ORDENADO BISPO


© ofmcap.org

 em 20/11/20

Frei Raniero Cantalamessa explicou os motivos que o levaram a pedir a dispensa e manifestou que deseja morrer usando o seu hábito franciscano

Frade nomeado cardeal pediu para não ser ordenado bispo: trata-se do frei capuchinho Raniero Cantalamessa, de 86 anos, pregador da Casa Pontifícia. Ele foi escolhido entre os 13 novos cardeais a serem criados pelo Papa Francisco neste próximo dia 28 de novembro.

Não é obrigatório ser bispo para ser cardeal, mas é a prática mais comum. Por isso, aqueles que Francisco nomeou para o cardinalato e que ainda não são bispos receberiam a ordem episcopal. O frei Cantalamessa, porém, pediu dispensa dessa ordenação.

“Já que existe essa possibilidade, pedi ao Santo Padre a dispensa da ordenação episcopal. A função do bispo, como diz o título do meu recente livro de exercícios espirituais para bispos, é ser pastor e pescador. Na minha idade, há muito pouco que eu possa fazer como pastor; por outro lado, o que poderia fazer como pescador eu posso continuar fazendo mediante o anúncio da Palavra de Deus”.

O frade manifestou ainda que deseja morrer usando o seu hábito franciscano, o que “dificilmente me seria permitido se eu fosse bispo”.

Em outubro, quando o Papa o anunciou entre os futuros novos cardeais, o frei Raniero declarou, segundo o Vatican News:

“O cardinalato será outro modo de estar perto do Papa e apoiá-lo com a oração e a palavra. Vejo a nomeação como um reconhecimento da importância da Palavra de Deus, mais do que da minha própria pessoa, já que o meu serviço à Igreja tem sido e continuará sendo, por desejo expresso do Santo Padre, praticamente só proclamar a Palavra a partir da Casa Pontifícia”.

Por ocasião das nomeações, no mês passado, o Papa Francisco pediu orações pelos novos cardeais:

“Que, confirmando a sua adesão a Cristo, eles me ajudem no meu ministério de bispo de Roma para o bem de todo o povo de Deus”.

 

https://pt.aleteia.org/2020/11/20/frade-nomeado-cardeal-pediu-para-nao-ser-ordenado-bispo/?utm_campaign=NL_pt&utm_source=daily_newsletter&utm_medium=mail&utm_content=NL_pt

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sexta-feira, 20 de novembro de 2020

NOVO LIVRO DE POESIA DE CYRO DE MATTOS É PUBLICADO EM PORTUGAL

 


                         Novo Livro de Poesia 

de Cyro de Mattos 

É Publicado em Portugal

 

A Editora Palimage, de Coimbra, Portugal, acaba de publicar O Discurso do Rio, novo livro do baiano (de Itabuna) Cyro de Mattos, reunindo trinta sonetos, com prefácio da professora doutora Graça Capinha, da Universidade de Coimbra. O livro integra a coleção Palavra Imagem, e seus poemas foram motivados pela situação atual do rio Cachoeira,  que divide a cidade natal do autor em duas partes, com suas águas poluídas hoje, como se fosse um esgoto a céu aberto, comparado ao tempo de antigamente quando havia um ambiente de beleza que habitava as suas correntes puríssimas.

Este é o quinto livro de poemas que a Editora Palimage publica de Cyro de Mattos na Coleção Palavra Imagem, que reúne poetas representativos da poesia contemporânea portuguesa.  Membro de instituições culturais importantes, como a Academia de Letras da Bahia, os outros livros desse autor baiano publicados pela Editora Palimage são Vinte Poemas do Rio, inglês-português, Ecológico, Vinte e Um Poemas de Amor e Poemas Ibero-Americanos.

 A professora Graça Capinha observa que “alguns poetas brasileiros têm a capacidade extraordinária de conseguir regressar às coisas primeiras, como se, de fato, abrir uma janela e olhar o mundo pela vez primeira fosse possível”. Acrescenta que olham com as palavras, é certo, mas, mesmo essas, parecem trazer-lhes (-nos) os primeiros sons.” Mostra assim que “Cyro de Mattos é um desses poetas e não será certamente por mero acaso que, além de poeta e ficcionista, este seja também um autor de livros para crianças. Digamos que, tratando-se de escrever sobre um rio, este só poderia assim ser: um autor-menino, de olhos lavados e bem abertos”.


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quinta-feira, 19 de novembro de 2020

O ALIENISTA CAP IV – Machado de Assis


 Uma Teoria Nova


          Ao passo que D. Evarista, em lágrimas, vinha buscando o Rio de Janeiro, Simão Bacamarte estudava por todos os lados uma certa ideia arrojada e nova, própria a alargar as bases da psicologia. Todo o tempo que lhe sobrava dos cuidados da Casa Verde era pouco para andar na rua, ou de casa em casa, conversando as gentes, sobre trinta mil assuntos, e virgulando as falas de um olhar que metia medo aos mais heroicos.

         Um dia de manhã, — eram passadas três semanas, — estando Crispim Soares ocupado em temperar um medicamento, vieram dizer-lhe que o alienista o mandava chamar.

         — Trata-se de negócio importante, segundo ele me disse, acrescentou o portador.

         Crispim empalideceu. Que negócio importante podia ser, se não alguma notícia da comitiva, e especialmente da mulher? Porque este tópico deve ficar claramente definido, visto insistirem nele os cronistas: Crispim amava a mulher, e, desde trinta anos, nunca estiveram separados um só dia. Assim se explicam os monólogos que ele fazia agora, e que os fâmulos lhe ouviam muita vez:—"Anda, bem feito, quem te mandou consentir na viagem de Cesária? Bajulador, torpe bajulador! Só para adular ao Dr. Bacamarte. Pois agora aguenta-te; anda, aguenta-te, alma de lacaio, fracalhão, vil, miserável. Dizes amém a tudo, não é? aí tens o lucro, biltre!"—E muitos outros nomes feios, que um homem não deve dizer aos outros, quanto mais a si mesmo. Daqui a imaginar o efeito do recado é um nada. Tão depressa ele o recebeu como abriu mão das drogas e voou à Casa Verde.

         Simão Bacamarte recebeu-o com a alegria própria de um sábio, uma alegria abotoada de circunspeção até o pescoço.

         — Estou muito contente, disse ele.

         — Notícias do nosso povo? perguntou o boticário com a voz trêmula.

         O alienista fez um gesto magnífico, e respondeu: —Trata-se de coisa mais alta, trata-se de uma experiência científica. Digo experiência, porque não me atrevo a assegurar desde já a minha ideia; nem a ciência é outra coisa, Sr. Soares, senão uma investigação constante.

         Trata-se, pois, de uma experiência, mas uma experiência que vai mudar a face da terra. A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente.

         Disse isto, e calou-se, para ruminar o pasmo do boticário. Depois explicou compridamente a sua ideia. No conceito dele a insânia abrangia uma vasta superfície de cérebros; e desenvolveu isto com grande cópia de raciocínios, de textos, de exemplos. Os exemplos achou-os na história e em Itaguaí mas, como um raro espírito que era, reconheceu o perigo de citar todos os casos de Itaguaí e refugiou-se na história. Assim, apontou com especialidade alguns personagens célebres, Sócrates, que tinha um demônio familiar, Pascal, que via um abismo à esquerda, Maomé, Caracala, Domiciano, Calígula, etc., uma enfiada de casos e pessoas, em que de mistura vinham entidades odiosas, e entidades ridículas. E porque o boticário se admirasse de uma tal promiscuidade, o alienista disse-lhe que era tudo a mesma coisa, e até acrescentou sentenciosamente:

         — A ferocidade, Sr. Soares, é o grotesco a sério.

         — Gracioso, muito gracioso! exclamou Crispim Soares levantando as mãos ao céu.

         Quanto à ideia de ampliar o território da loucura, achou-a o boticário extravagante; mas a modéstia, principal adorno de seu espírito, não lhe sofreu confessar outra coisa além de um nobre entusiasmo; declarou-a sublime e verdadeira, e acrescentou que era "caso de matraca". Esta expressão não tem equivalente no estilo moderno. Naquele tempo, Itaguaí, que como as demais vilas, arraiais e povoações da colônia, não dispunha de imprensa, tinha dois modos de divulgar uma notícia: ou por meio de cartazes manuscritos e pregados na porta da Câmara, e da matriz; — ou por meio de matraca. 

         Eis em que consistia este segundo uso. Contratava-se um homem, por um ou mais dias, para andar as ruas do povoado, com uma matraca na mão.

         De quando em quando tocava a matraca, reunia-se gente, e ele anunciava o que lhe incumbiam, — um remédio para sezões, umas terras lavradias, um soneto, um donativo eclesiástico, a melhor tesoura da vila, o mais belo discurso do ano, etc. O sistema tinha inconvenientes para a paz pública; mas era conservado pela grande energia de divulgação que possuía. Por exemplo, um dos vereadores, —aquele justamente que mais se opusera à criação da Casa Verde, —desfrutava a reputação de perfeito educador de cobras e macacos, e aliás nunca domesticara um só desses bichos; mas, tinha o cuidado de fazer trabalhar a matraca todos os meses. E dizem as crônicas que algumas pessoas afirmavam ter visto cascavéis dançando no peito do vereador; afirmação perfeitamente falsa, mas só devida à absoluta confiança no sistema. Verdade, verdade, nem todas as instituições do antigo regímen mereciam o desprezo do nosso século.

         — Há melhor do que anunciar a minha ideia, é praticá-la, respondeu o alienista à insinuação do boticário.

         E o boticário, não divergindo sensivelmente deste modo de ver, disse-lhe que sim, que era melhor começar pela execução.

         — Sempre haverá tempo de a dar à matraca, concluiu ele.

         Simão Bacamarte refletiu ainda um instante, e disse:

         — Suponho o espírito humano uma vasta concha, o meu fim, Sr. Soares, é ver se posso extrair a pérola, que é a razão; por outros termos, demarquemos definitivamente os limites da razão e da loucura. A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí insânia, insânia e só insânia.

         O Vigário Lopes a quem ele confiou a nova teoria, declarou lisamente que não chegava a entendê-la, que era uma obra absurda, e, se não era absurda, era de tal modo colossal que não merecia princípio de execução.

         — Com a definição atual, que é a de todos os tempos, acrescentou, a loucura e a razão estão perfeitamente delimitadas. Sabe-se onde uma acaba e onde a outra começa. Para que transpor a cerca?

         Sobre o lábio fino e discreto do alienista roçou a vaga sombra de uma intenção de riso, em que o desdém vinha casado à comiseração; mas nenhuma palavra saiu de suas egrégias entranhas.

         A ciência contentou-se em estender a mão à teologia, — com tal segurança, que a teologia não soube enfim se devia crer em si ou na outra. Itaguaí e o universo ficavam à beira de uma revolução.

 

 Fonte:

MINISTÉRIO DA CULTURA

Fundação Biblioteca Nacional

Departamento Nacional do Livro

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Machado de Assis (Joaquim Maria Machado de Assis), jornalista, contista, cronista, romancista, poeta e teatrólogo, nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 21 de junho de 1839, e faleceu também no Rio de Janeiro, em 29 de setembro de 1908. É o fundador da cadeira nº. 23 da Academia Brasileira de Letras.

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