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quarta-feira, 5 de julho de 2023

Um Brasil menor

José Sarney

 


Éramos jovens. Nos conhecemos no Rio de Janeiro, na Rua Otaviano Hudson, onde José Aparecido mantinha uma pensão estudantil, udenista, com ramificações pela esquerda. Pertence era mais ligado a seu irmão Modesto, da UNE, onde tinha posições de liderança. Eu começava minha carreira como deputado federal, ligado a Magalhães Pinto, de quem Aparecido era secretário particular. Era um tempo em que eu chamava Pertence de "Zé Paulo", e ele a mim de "Zé"; quando nos encontrávamos e não tinha abelhudo por perto, eu repetia os tratamentos da mocidade: "Ministro Zé Paulo". E ele, "Excelência Zé". Na Presidência da República tudo isso terminou.

Pertence era uma enciclopédia de Direito. Sabia tudo, raciocinava tudo pelo lado jurídico, que aliava a uma personalidade digna, ética, honrada e sem concessões morais de nenhuma natureza.

Como advogado, competente; como juiz, impecável. Isso não prejudicava a personalidade do contador de histórias de Minas, de mineiros. Excepcional e sedutora personalidade, amigo que não deixava esta misturar-se aos seus deveres jurídicos e a sua impecável retidão.

Em 1960, fomos dos primeiros a nos mudar para Brasília. Ele vinha de Minas Gerais, onde fizera um brilhante curso de Direito, para iniciar sua extraordinária carreira de advogado. Tínhamos muitos amigos comuns, sobretudo no grupo mineiro, sempre coeso, entre eles Carlos Castello Branco — mineiro de Teresina —, Vera Brandt, Benedito Coutinho, Otto Lara Resende, Magalhães Pinto, José Aparecido de Oliveira e uma imensidão de amigos e, mais do que amigos, de admiradores de suas qualidades inexcedíveis. Tive a honra e a sorte de torná-lo meu amigo; sobretudo, ele tinha uma grande capacidade de dar conselhos quando solicitado. Eu muitas vezes me socorria a ele em momentos de dúvidas.

Ele entrou para o Ministério Público e passou um tempo no Supremo como assessor de Evandro Lins e Silva. Foi cassado em 1969 pelo regime militar e voltou à advocacia dividindo a banca com Victor Nunes Leal, também ele atingido pelo AI-5 — o autor do imperdível Coronelismo, enxada e voto era então um dos grandes nomes do Supremo Tribunal Federal —, e Cláudio Lacombe, José Guilherme Vilela, Pedro Gordilho.

Em tudo que fez na vida, José Paulo mostrou-se um predestinado. Assim, Pertence casou-se com uma extraordinária figura humana, Suely Castello Branco, pessoa de imensa bondade, formando uma família exemplar, com os filhos Pedro Paulo, Evandro e Eduardo.

Tancredo Neves o convidou para Procurador-Geral da República, deixando-me a missão de nomeá-lo para o cargo em que teve, entre outras tarefas, a de encaminhar na Constituinte as transformações do Ministério Público da União, que ele depois repetia: Golbery dizia que fundou o SNI, um monstro, e ele, o Ministério Público, uma medusa.

Dei a ele todo o meu apoio, mesmo quando, algumas vezes, deixou o governo em posição desconfortável. Ele cumpria o seu papel, eu, o meu.

Em 1989 surgiu no Supremo Tribunal Federal a vaga deixada por Oscar Dias Correia — ainda um mineiro. Indiquei José Paulo Sepúlveda Pertence. Não poderia ter indicado ninguém melhor — e orgulho-me de minhas outras indicações, todos grandes ministros: Carlos Madeira, Célio Borja, Paulo Brossard, Celso de Mello.

O Supremo era o lugar certo para o homem certo, inverto o lugar-comum para exprimir o casamento perfeito entre o homem e a Instituição. Lá ele se tornou mestre, professor e exemplo, transformando-se num dos maiores ministros que já teve o Supremo Tribunal Federal. Seu conhecimento jurídico, sua compreensão do fato julgado, sua interpretação da Constituição e do Direito, sua percepção do contraditório, sua visão de humanista, seu conhecimento da História, tudo contribuía para a perfeição do seu voto. Todos o ouviam com o respeito que se deve a um oráculo; mesmo se algum discordava, sabia que tinha pela frente uma análise difícil de superar. Com poucas exceções, seu voto era o voto vencedor. A jurisprudência saía dele mais rica — e, algumas vezes, reformada em nova e definitiva direção.

Sua palavra foi de equilíbrio, bom senso, boa direção. Conversamos muito. Era um excelente ouvinte, mas melhor ainda contador de histórias. E tinha sempre uma pontuação inteligente, de fino e preciso humor.

José Paulo Sepúlveda Pertence foi um homem de caráter irretocável, de absoluta integridade moral, com o mais arguto senso do que era justo.

Embora permaneça conosco em sua figura íntegra e irretocável, fará falta. Muita, muita falta!

O Brasil está menor.

Imirante, 04/07/2023

 

https://www.academia.org.br/artigos/um-brasil-menor

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José Sarney - Sexto ocupante da Cadeira nº 38 da ABL, eleito em 17 de julho de 1980, na sucessão de José Américo de Almeida e recebido em 6 de novembro de 1980 pelo Acadêmico Josué Montello. Recebeu os Acadêmicos Marcos Vinicios Vilaça e Affonso Arinos de Mello Franco.

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terça-feira, 4 de julho de 2023

Solene Concelebração Eucarística das Exéquias do bispo emérito Dom Cesla...

As mulheres merecem e devem ser respeitadas!

Sione porto 


 

Em nome das marias, quitérias, da penha silva 

Empoderadas, revolucionárias 

Ativistas, deixem nossas meninas serem super heroínas! 

Pra que nasça uma joana d'arc por dia! 

Como diria frida: "eu não me kahlo!” 

Junto com o bonde saio pra luta e não me abalo 

O grito antes preso na garganta já não me consome 

É pra acabar com o machismo 

E não pra aniquilar os homens 

Quero andar sozinha porque a escolha é minha 

Sem ser desrespeitada e assediada a cada esquina.” 

 

As crescentes discussões sobre direitos, garantias e representatividade das minorias sociais revelam novos conceitos e denominações, que surgiram com o intuito de explicar as origens do tratamento desigual que certos indivíduos recebem. No que tange às questões de gênero, a misoginia é um termo oriundo da Grécia antiga que voltou à luz para conceituar as relações nocivas que ocorrem entre homens e mulheres. 

Em uma breve análise do material artístico e intelectual produzido ao longo dos anos, é possível observar a forte influência dos traços culturais misóginos, machistas e sexistas na civilização ocidental. Conforme pontuado pelo historiador e professor Leandro Karnal, durante uma palestra realizada em 2017 pela comemoração ao dia da mulher, as estatuetas de Vênus de Willendorf e Vênus de Milo ou a pintura Vênus e Marte de Botticelli demonstram que os artistas supervalorizavam o corpo e a estética feminina, uma ideia que foi construída durante a antiguidade. 

As bases sociais, políticas e econômicas ocidentais foram estabelecidas na Grécia antiga, cujo sistema sócio-político delegava à mulher uma posição secundária. No período Homérico, a unidade básica da sociedade grega era o genos, um sistema familiar que se caracterizava pela máxima autoridade concedida ao pater (patriarca) da família, que ao falecer, tinha seus poderes político, social, religioso e econômico transmitidos ao filho mais velho.

Entretanto, no fim deste período, a população cresceu e a economia, essencialmente agrícola, decaiu. Houve, assim, a desintegração das comunidades gentílicas e o surgimento das cidades-Estados (ou pólis gregas), onde foi reiterada a ideia da soberania masculina. 

Neste contexto, surge o termo que definiria a base psicológica dos comportamentos masculinos nocivos em relação às mulheres. Oriunda da união entre os termos gregos "miseo" e "gyne", cujos significados são respectivamente ódio e mulheres, a palavra misoginia é usada para definir sentimentos de aversão, repulsa ou desprezo pelas mulheres e valores femininos. 

A misoginia é um sentimento de aversão patológico pelo feminino, que se traduz em uma prática comportamental machista, cujas opiniões e opiniões e atitudes visam 0 estabelecimento e a manutenção das desigualdades e da hierarquia entre os gêneros, corroborando a crença de que os homens são superiores. 

O constante estímulo de comportamentos estereotipados impacta ambos os gêneros, visto que exige amostras de uma cruel virilidade no homem e total subserviência na mulher. Quando a expectativa comportamental não ocorre, a violência eclode em uma escala ascendente de gravidade, iniciando com as piadas depreciativas, assédios, abusos, estupros e culmina com o feminicídio. 

As bases misóginas do pensamento ocidental geram a banalização da violência ao feminino que se estende pelos vários aspectos da vida da mulher, como o social, o psicológico, econômico e político, tornando difícil identificar os traços nocivos mais sutis. Desta forma, homens e mulheres reproduzem atos e expressões machistas quase que de forma inconsciente, com a mulher adotando, muitas vezes, como mecanismo de sobrevivência na cultura opressora, uma aparente passividade que não deve ser entendida como a aceitação das situações que lhe ferem a dignidade, mas sim como um mecanismo de defesa e sobrevivência. 

Por um acaso você já ouviu falar que "em briga de marido e mulher não se mete a colher"? Pois essa é uma frase que explicita um dos traços da cultura brasileira, a banalização da violência de gênero.

Surgiram obras como o Segundo Sexo e Mística Feminina, respectivamente, de Simone de Beauvoir e Betty Friedan, que impulsionaram a criação de um movimento liderado por mulheres que buscava problematizar as colocações femininas na sociedade. Assim, tem-se início a luta pela emancipação, autonomia e liberdade da mulher diante das construções idealizadas da figura feminina e de feminilidade, por direitos e igualdades políticas, sociais e econômicas através do empoderamento. 

Segundo Juliana Faria, jornalista e criadora do site Think Olga: "Uma mulher empoderada é uma mulher bem informada. Ela sabe dos seus direitos, entende o que é opressão e busca soluções para isso". Desta forma, as mulheres que defendem o movimento feminista buscam a disseminação de ideais empoderadores por todas as camadas sociais, com o acolhimento das individualidades de cada mulher e estabelecendo a união entre as diferentes correntes do movimento para seguir promovendo transformações profundas na mentalidade misógina da coletividade. 

Tivemos notícia que na Câmara de Vereadores de Itabuna, no âmbito legislativo, no exercício do mandato, um dos nossos vereadores foi deselegante e agressivo contra a Primeira-Dama do nosso município. 

No local onde ele deveria levantar a bandeira contra a misoginia, contra o racismo e contra a homofobia, ele fez o contrário, infringindo a Lei e a Ética do seu Mandato conferido pelo voto popular. 

O termo misoginia é utilizado para se referir a expressões e comportamentos que sinalizam desprezo, repulsa, desrespeito ou ódio às mulheres. 

A expressão machista utilizada fere a mulher no tocante ao gênero protegido pela lei Maria da Penha e a dignidade da pessoa humana prevista no art 140 do CPB. 

Recentemente tivemos uma exemplar atitude da Câmara de vereadores da cidade gaúcha de Montenegro no Vale do Caí. 

Pela primeira vez em sua história, a cidade gaúcha de Montenegro (Vale do Caí) tem um vereador cassado. Trata-se da vereadora Camila Oliveira (Republicanos), julgada pelos colegas com um placar de nove votos a zero. Motivo: em um vídeo gravado em seu gabinete na Câmara e divulgado nas redes sociais, ela chama de "cadelas" as mulheres com orientação política de esquerda.

 

Sione Porto, membro do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Mulher CONSEMI 

 

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Sione Porto, ex-delegada titular da DEAM de Itabuna/BA, escritora, membro da Academia de Letras de Itabuna (ALITA)

domingo, 2 de julho de 2023

Anotações sobre o Dois de Julho

Cyro de Mattos


 

          Eu era aluno do curso clássico no colégio da Bahia (Central) quando escutei de meu professor Luís Henrique Dias Tavares que a Bahia e o Brasil são inseparáveis. Meu professor era um homem de estatura pequena, mas que carregava no coração um forte amor e na razão um grande saber pelos caminhos históricos da Bahia. Observara em sala de aula, naqueles idos de 1956, que essa união insuperável procedia do fato de que o Brasil exerceu sua verdadeira independência em solo baiano. Os mares da Bahia de Todos os Santos por sua vez deram seu abraço no entorno deste solo para que os baianos se libertassem do jugo do império português.

          O movimento social e militar, iniciado em 19 de fevereiro de 1822, teve seu desfecho vitorioso em 2 de julho de 1823. O Dois de Julho tornou-se data importante para o povo baiano, que a festeja todos os anos com alma, força e vida. Celebra um movimento desejoso de incorporar a então província na unidade nacional brasileira. Um movimento assim veemente com o qual o sentimento federalista latejava verdades no espírito emancipador do povo baiano.

          A independência do Brasil na Bahia não foi feita em gabinetes e salões, aconteceu nas ruas, nos campos de batalhas, com mortos e feridos. Contou com a participação decisiva do povo como protagonista. Indígenas, escravos libertos, gente humilde das classes baixas. Figuras de comando tiveram performance significativa no desenrolar da pugna. Sobressai o general Labatut como comandante de nossas forças militares no seco, enquanto Lord Cochrane foi o responsável pela guarda da Baía de Todos os Santos.

          É imperioso mencionar a figura da mártir Joana Angélica, morta ao impedir que os portugueses tomassem o convento da Lapa. E a de Maria Quitéria, valorosa mulher que combateu os adversários portugueses no Recôncavo. Vestida numa farda de soldado, com a arma na mão, lutou com coragem incomum contra os portugueses na barra do Paraguaçu, em Santa Amaro e Cachoeira. Houve também Maria Felipa, uma negra catadeira de marisco, a mulher que comandou mulheres negras para seduzir os portugueses enquanto outras queimavam suas embarcações.

          Fala-se que, na batalha final, João das Botas, um marinheiro português que aderiu à autoridade do príncipe Pedro, com o seu conhecimento instruiu Cachoeira, Santo Amaro e São Francisco do Conde na armação e comando dos barcos para combater a frota portuguesa. Foi singular sua atuação como trunfo na guerra.

          Noutros falares, de como exatamente o corneteiro Luís Lopes tenha ficado no coração dos baianos ninguém sabe ao certo. Se a versão da história contada é verídica ou não, tudo se torna mais intrigante e ao mesmo tempo nebuloso. Sobre o assunto o que se sabe é que ele participou do conflito conhecido como a Batalha de Pirajá. Propaga-se no imaginário popular que em vez do toque de “recuar”, deu o sinal de “cavalaria avançar” e, em seguida, o de “degolar”. E quem acabou partindo em retirada foram as tropas lusitanas, imaginando que os brasileiros tinham recebido reforços.

          O movimento que deflagrou a independência do Brasil na Bahia motivou a Castro Alves, o poeta mais amado dos baianos, a escrever um poema de versos magníficos. O poema “Ode ao Dois de Julho” vem expresso com o discurso eloquente, versos nas imagens candentes da esperança e da liberdade, aparecendo juntas numa só voz que evoca a peleja da treva e do clarão. O libertário construtor de uma poética solidária sobre a escravidão dos negros africanos, agora com versos incandescentes de esperança, canta a liberdade como o sentimento mais valoroso que envolve os baianos no palco do confronto. Como noiva do sol a liberdade, essa peregrina esposa do porvir, faz-se motivo de inspiração ao estro do poeta de alta voz condoreira.

          Transcrevemos abaixo, como o final dessas anotações sobre O Dois de Julho, o poema do genial poeta baiano.

 

Ode ao Dois de Julho

 

Era no Dois de julho. A pugna imensa

Travara-se nos cerros da Bahia...

O anjo da morte pálido cosia

Uma vasta mortalha em Pirajá.

"Neste lençol tão largo, tão extenso,

"Como um pedaço roto do infinito...

O mundo perguntava erguendo um grito:

"Qual dos gigantes morto rolará?!...

 

" Debruçados do céu... a noite e os astros

Seguiam da peleja o incerto fado...

Era a tocha — o fuzil avermelhado!

Era o Circo de Roma — o vasto chão!

Por palmas — o troar da artilharia

Por feras — os canhões negros rugiam!

Por atletas — dois povos se batiam!

Enorme anfiteatro — era a amplidão!

 

Não! Não eram dois povos, que abalavam

Naquele instante o solo ensanguentado...

Era o porvir — em frente do passado,

A Liberdade — em frente à Escravidão,

Era a luta das águias — e do abutre,

A revolta do pulso — contra os ferros,

O pugilato da razão — com os erros,

O duelo da treva — e do clarão!...

 

No entanto a luta recrescia indômita...

As bandeiras — como águias eriçadas —

Se abismavam com as asas desdobradas

Na selva escura da fumaça atroz...

Tonto de espanto, cego de metralha,

O arcanjo do triunfo vacilava...

E a glória desgrenhada acalentava

O cadáver sangrento dos heróis...

............................................................................................

Mas quando a branca estrela matutina

Surgiu do espaço... e as brisas forasteiras

No verde leque das gentis palmeiras

Foram cantar os hinos do arrebol,

Lá do campo deserto da batalha 

Uma voz se elevou clara e divina:

Eras tu — Liberdade peregrina!

Esposa do porvir — noiva do sol!...

 

Eras tu que, com os dedos ensopados

No sangue dos avós mortos na guerra,

Livre sagravas a Colúmbia terra,

Sagravas livre a nova geração!

Tu que erguias, subida na pirâmide,

Formada pelos mortos do Cabrito,

Um pedaço de gládio — no infinito...

Um trapo de bandeira — n'amplidão!...

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Cyro de Mattos é escritor e poeta. Publicado por várias editoras na Europa. Premiado no Brasil, Itália, Portugal e México. Membro da Academia de Letras da Bahia. Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC).


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sábado, 24 de junho de 2023

Uma Leitora Incrível

Cyro de Mattos

 


Ao ligar o computador hoje, recebi de tão longe um e mail que me deixou feliz. Veio de uma leitora jovem de meu livro O Goleiro Leleta e Outras Fascinantes Histórias de Futebol, que me deu o Prêmio Adolfo Aizen da União Brasileira de Escritores (Rio).  O nome dela é Mariana Schleetze (marianaschleetz09@gmail.com).

Segue abaixo o que ela disse no e-mail.

 

“Olá Cyro,

Sou a Mariana, tenho 14 anos, e moro em Três Lagoas-MS.

No meu projeto de leitura, minha professora passou para nós o seu interessante livro, O goleiro Leleta, uma obra fantástica, cheia de aventuras. 

E agora preciso fazer um trabalho sobre o senhor, e fico lisonjeada de ter a oportunidade de te mandar esse E-mail, pois gostaria de saber qual foi a sua principal influência para escrever essa obra. Li nas páginas 62 e 63 um pouco sobre, mas gostaria de saber mais, e apresentar para a turma um projeto incrível.

Desde já te agradeço muito!!”

 

Olhe o que respondi:

Prezada Mariana, que boa surpresa receber o seu e mail. Penso que não fui influenciado por algum escritor em minhas histórias que têm como tema o futebol. Em O Goleiro Leleta, a história que dá título ao livro foi invenção minha, na qual o personagem principal é um menino que agarrava no gol e que atuou na partida final e mais importante do campeonato enquanto o corpo de seu pai, o fundador do time, estava sendo velado em sua casa. É uma história triste, em que tento comover o leitor infantojuvenil. Como o goleiro Leleta, eu gostava de jogar futebol nos campinhos improvisados dos terrenos baldios espalhados em minha cidade natal, Itabuna, no Sul da Bahia. Eu não era o goleiro do time de futebol de minha rua, como o personagem Leleta, mas o ponta direita do nosso time de meninos. Já a história O Bahia contra o Brasil tem muitos lances que aconteceram comigo na vida real. Fui um menino apaixonado por futebol, um dos craques do time, bom no drible e na ultrapassagem do marcador com velocidade. Confesso-lhe que como torcedor só faço lamentar agora, ando triste, muito, com meus times Vasco da Gama e o Bahia, que não me dão mais as alegrias quando conquistavam vitórias em tempos passados. Voltando ao livro O Goleiro Leleta, a história do Goleiro Galalau foi inspirada em um goleiro de estatura alta, que jogava na Liga Amadora de Futebol de minha terra. Dizia-se que ele pegava a bola com uma só mão. Eu nunca vi essa façanha dele, mas disse isso no conto como se fosse verdade, pois o escritor nada mais é do que um mentiroso de verdade. 

“A história “O dia em que vi Garrincha jogar” é autobiográfica. O Botafogo carioca jogou contra a Seleção Amadora de futebol de minha terra. Garrincha deu um show à parte com seus dribles desconcertantes. Os torcedores iam ao delírio com as jogadas sensacionais daquele jogador, que tinha a alegria nas pernas.  Eu não parava de sorrir e aplaudir o fenomenal Garrincha, vê-lo jogar em minha cidade foi como num sonho lindo, que a gente tem e nunca esquece.

“Quer uma ajuda?  Vá no Google e busque meus livros Contos Brasileiros de Futebol, antologia, e Gabriel García Márquez e Outras Crônicas. Lá você deve encontrar resenhas sobre o que escrevo sobre o mundo fascinante do futebol. Muito obrigado por se interessar por meu livro O Goleiro Leleta e Outras Histórias Fascinantes de Futebol. Fiquei lambuzado de contente, repito.

“Antes de terminar a resposta de seu e mail, vai o abraço afetivo do autor, antigo craque de bola nas peladas com meus queridos e saudosos amigos, Tombinha, Bibico, Nei Gaguinho, Daú, Porroló, Vigário, Catroca e tantos outros, que ficaram jogando bola nos campos da fumaça do tempo. Melhor dizendo, estão jogando bola lá onde o tempo dorme e continuam fazendo a vida ser cheia de boas aventuras, tornando-a como a expressão do sonho e da liberdade.

Beijos do vô Cyro.”

 


Cyro de Mattos
é ficcionista e poeta. Publicado em inglês, francês, italiano, espanhol, alemão, dinamarquês, russo. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. Membro titular da Academia de Letras da Bahia. Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. 

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segunda-feira, 19 de junho de 2023

Do livro ao grão

Ignácio de Loyola Brandão



Conheço desde criança, quando lia a Bibliotca Infantil o slogan que vinha no final dos livrinhos: “Do pinheiro ao livro, uma realização Melhoramentos.” Quando menino, voltando de trem para Araraquara passava por Caieiras eu via os extensos bosques de eucaliptos que eram transformadas em papel e depois em livros. Eram para mim tão encantados quanto as florestas das histórias de João e Maria.

Meses atrás, saí com minha mulher, para comprarmos grãos de variadas espécies. Castanhas do Pará ou de caju, frutas secas e oleaginosas, aveia, farelo de trigo e outras que Marcia mistura na perfeição de uma Bela Gil. Porque faz uma granola que a família inteira cobiça. Tem a mão, sabe as quantias certas, a temperatura exata, o tempo de forno. Muitos meses atrás, esperávamos um taxi passar na Teodoro Sampaio, quando vimos um espaço novo, aberto depois da pandemia. Noz da Terra, grãos. Vidros e mais vidros contendo tudo que precisávamos. Marcia, encantada : “Tem mais do que no mercado de Pinheiros.”

Estava cheio, esperávamos, quando alguém disse: “Loyola, o que faz aqui? Não se lembra de mim? Guilherme Felipe. Vendi muito livro para você. E já chegou outro: “E eu, então? Sou o Ricardo Souza.” Tinham sido livreiros na Cultura, naquele tempo áureo quando chegávamos e cada funcionário sabia tudo, orientava, propunha substituição correta, não tem esse, mas tem outro na mesma linha. Conheciam pessoalmente a maioria dos escritores brasileiros, se não tinha o que desejávamos, nos ajudavam, ligavam para deus e o mundo. Senti diferença na tarde em que dei ao caixa meu numero de CPF, ele digitou e perguntou: “Inguinácio?”. Naquele momento senti que algo estava se passando.

E passou. E infelizmente, deu no que deu. Vivi na Cultura, por mais de quarenta anos, alguns dos melhores momentos de minha vida. Nunca esqueço eu chegando ao meio-dia (ideia do Pedro) e sentado até dez da noite assinando livros. Ou os sábados com o Ives Gandra Martins servindo coxinhas e o Pedro Herz oferecendo uísque. Quem éramos? Lygia Fagundes Telles, Fábio Lucas, Ana Maria Martins, Marcos Rey e sua mulher Palma , Ivan Angelo, Mário Chamie, Tereza Collor, Gilberto Mansur, Bruna Lombardi, Ricardo Ramos, Joyce Cavalcanti.

Ou foram tardes papeando na mesa do café da livraria com Evandro Ferreira e Leo Lama.

Veio a pandemia, perdi contatos. Súbito este reencontro. E aqueles vindos da livraria me oferecendo agora grãos. Do livro, um alimento, ao grão, outro alimento. Faz meses que o empório me recebe e agora chegou também Flávia Wulf, que também mexia (como dizem os mineiros) com livros Do livro ao grão uma realização da necessidade. E da criatividade.

Estado de São Paulo, 18/06/2023

https://www.academia.org.br/artigos/do-livro-ao-grao

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Ignácio de Loyola Brandão - Décimo ocupante da Cadeira 11, eleito em 14 de março de 2019 na sucessão do Acadêmico Helio Jaguaribe.

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