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sábado, 14 de agosto de 2021
FLISBA PROMOVE MAPEAMENTO LITERÁRIO NO SUL DA BAHIA
O Coletivo Literário FLISBA está promovendo o mapeamento
literário dos escritores e escritoras do sul da Bahia, inclusive, daqueles que
possuem obras literárias escritas, mas que ainda não foram publicadas. Podem
também participar do mapeamento as pessoas que atuam com a literatura oral,
redes sociais entre outros suportes de divulgação dos trabalhos. O objetivo da
pesquisa é traçar o perfil da produção literária sulbaiana e colaborar com
ações que visam estimular a escrita, o apoio e articulação de estratégias para
apoiar a divulgação dos artistas que atuam com a palavra e escrita.
O sul da Bahia é uma terra fértil de escritores, inclusive,
alguns deles com destaque internacional como Jorge Amado, Adonias Filho. Seguem
a tradição literária grapiúna: Sosígenes Costa, Valdelice Pinheiro, Telmo
Padilha, Elvira Foeppel, Janete Badaró e
tantos outros escritores com origem na região.
Para Luh Oliveira, uma das responsáveis por coordenar a ação
junto ao Coletivo FLISBA, compreende que o mapeamento visa identificar “Quem somos nós? Onde moramos? Que literatura
fazemos? Quantos somos?” Para ela, “tudo
isso é importante para a visibilidade da literatura sul-baiana bem como para a
divulgação e o incentivo de escritores/as de nossa terra.”
Os interessados podem preencher o questionário por meio do seguinte link: https://bit.ly/2VJ8qTo
O preenchimento do questionário fica disponível até 08 de setembro de 2021. As informações serão tratadas e os resultados das análises serão divulgados posteriormente.
Ascom/FLISBA
* * *
‘OS VENTOS GEMEDORES’: SAGA DO BRASIL ARCAICO‘
Adelto Gonçalves*
I
No Brasil, sempre foi assim: a luta pela terra
invariavelmente produziu heróis falsos e mártires verdadeiros. E o Estado
sempre esteve ao lado dos mais fortes, aqueles que conseguiam pela força
subjugar os demais. Para aqueles que venciam, nunca faltou a falsa pena dos
escribas para legalizar suas conquistas nos papéis dos cartórios e incensá-los
na História. Ainda hoje é assim: os mandões do sertão ganham placas e viram nome
de fundações ou de ruas, avenidas ou rodovias. Já para os derrotados sobram –
quando muito – uma vala sem lápide e o esquecimento eterno.
Sempre foi assim, desde os tempos dos
chamados bandeirantes, homens mestiços, filhos de mães indígenas ou
miscigenadas, que largavam tudo na cidade de São Paulo ou em vilas como Santana
do Parnaíba e Taubaté para, a partir de Araritaguaba (hoje Porto Feliz),
seguirem em canoas à frente de uma legião de índios carijós, mulatos e negros
em busca de indígenas que pudessem ser escravizados, de ouro e pedras preciosas
e mais terras. Como arrastaram as fronteiras do Brasil para além do Tratado de
Tordesilhas, hoje, alguns desses régulos são homenageados com estátuas e
monumentos em que aparecem como homens de feições brancas, bem trajados.
Provavelmente, seguiam para os sertões descalços e quase semi-nus, como os
indígenas e africanos que comandavam.
Ainda hoje é assim. Volta e meia, algum parlamentar é
acusado de manter trabalhadores sob regime escravo em suas fazendas. De outros
dizem que, em suas terras, ninguém entra sem autorização: se alguém entrar,
ainda que involuntariamente, será recebido à bala por modernos jagunços bem
armados, enquanto o mandão desfila sua onipotência em Brasília ou mesmo em
congressos lusófonos em Lisboa. Os mandões modernos já não são grosseiros como
os de outros tempos: afáveis, conquistam o interlocutor com muita simpatia e
salamaleques.
E, assim, o mundo arcaico convive com o Brasil moderno sem
maiores sobressaltos. É esse Brasil arcaico que o leitor vai encontrar no
romance Os ventos gemedores, de Cyro de Mattos (1939), da editora
LetraSelvagem, de Taubaté-SP, em sua coleção Gente
Pobre (narrativas). Ambientada nas terras do Sul da Bahia em época que se
supõe que seja a de meados do século 20, a trama se dá no condado imaginário de
Japará, à la William Faulkner (1897-1962), região onde a mata até então
impenetrável começa a dar lugar às primeiras roças de cacau e pastos para bois
e vacas. É o cenário de Terras do Sem Fim (1943), clássico romance de
Jorge Amado (1912-2001), que, a rigor, inaugura a saga cacaueira do Sul da
Bahia.
II
Aqui, a luta pela terra coloca, de um lado, Vulcano Brás, um
régulo do sertão acostumado a mandar bater e até matar; de outro, o vaqueiro
Genaro, escolhido como líder pelos explorados, gente envelhecida precocemente
que traz a pele engelhada pelo trabalho de sol a sol. Como Almira, moradora de
um casebre, que procura entender, numa espécie de monólogo interior, como o
vaqueiro Genaro encontrou coragem para chefiar os homens no levante:
“(…) Ele havia dito que os homens estavam dispostos a
enfrentar o despotismo de Vulcano Brás, “não tenha medo, dessa vez, a gente vai
tirar o freio da boca, a argola da venta, o chicote das costas e a espora da
barriga”. Deu-lhe em seguida a notícia de que os homens queriam ele como chefe
do levante, ela então teve medo, pensou na morte a espreitar pelos cantos todos
eles, de dia e de noite”.
Depois, Almira questiona: “Que adianta fazer esta revolta,
Genaro? O lado de Vulcano Brás sempre foi mais forte”. Mas ele responde “A pior
derrota é daquele que não luta”, acrescentando que “onde ninguém faz nada
contra Vulcano Brás só a vontade dele é a única que impera, e os que se agacham
permanecem assim mesmo o tempo inteiro, trabalhando, trabalhando, sem nunca ter
nada na vida”.
Ainda hoje é assim não só Sul da Bahia, mas em todo o
Brasil: aqueles que trabalham na terra só costumam se aposentar aos 65 anos de
idade, isso quando conseguem apresentar papelada reconhecida pelos sindicatos
rurais que comprove o tempo de trabalho na roça. Para ganhar salário mínimo.
O final deste livro conta a batalha corpo a corpo entre os
jagunços de Vulcano Brás e os homens de vaqueiro Genaro e – ao contrário do que
normalmente se dá na vida real – a vitória dos explorados, apesar das baixas de
lado a lado. A vitória maior, porém, que se registra é da Literatura Brasileira
que sai desse romance mais enriquecida.
III
Nascido em Itabuna, ao Sul da Bahia, Cyro de Mattos conhece
bem a região que retratou em seu romance. Foi ali que fez os primeiros estudos,
concluindo o curso ginasial no Colégio dos Maristas, em Salvador. Depois, fez o
curso de Direito na Universidade Federal da Bahia, concluindo-o em 1962. Hoje,
é advogado aposentado, depois de militar durante mais de quatro décadas nas
comarcas da região cacaueira na Bahia. Antes, atuou como jornalista no Rio de
Janeiro, passando pelas redações do Diário de Notícias, Jornal do
Comércio e O Jornal.
Contista, ensaísta, cronista e poeta, é autor também de
livros de literatura infantojuvenil e organizador de várias antologias. Já
publicou mais de 50 livros e obteve numerosos prêmios literários. O principal
foi o Prêmio Nacional de Ficção Afonso Arinos, da Academia Brasileira de
Letras, para o livro Os Brabos (Rio de Janeiro, Civilização
Brasileira, 1979), elogiado por Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade
(1902-1987) e Alceu Amoroso Lima (1893-1983).
Sua estreia, porém, ocorreu em 1966 com o livro Berro
de fogo, em que já se anuncia a sua preocupação em denunciar “a decadente engrenagem
econômica cacaueira dominada pelo coronelismo”, como observa Nelly Novaes
Coelho, doutora professora titular de Literatura Portuguesa da Universidade de
São Paulo (USP), autora do posfácio que constitui um texto-homenagem aos 40
anos (1966-2006) da carreira literária do autor. Para a professora, “a obra de
Cyro de Mattos já conquistou seu lugar nos quadros da Literatura Brasileira
contemporânea”.
Cyro de Mattos está incluído na antologia Narradores da
América Latina, publicada na Rússia, ao lado do argentino Julio Cortázar
(194-1984) e do uruguaio Mario Benedetti (1920-2009), entre outros. Seus poemas
foram incluídos na antologia Poesia do Mundo 3, organizada por Maria Irene
Ramalho de Sousa Santos, da Universidade de Coimbra, publicada em Portugal, que
teve tradução para o inglês.
Em 2010, participou da Feira Internacional do Livro de
Frankfurt, quando autografou a antologia poética Zwanzig von Rio und
andere Gedichte, publicada pela Projekte-Verlag, de Halle, com tradução de Curt
Meyer-Clason, tradutor de Guimarães Rosa (1908-1967). E em 2013, esteve
presente ao XVI Encontro de Poetas Iberoamericanos da Fundação Cultural de
Salamanca, na Espanha. Tem livros publicados em Portugal, França, Alemanha e
Itália.
***
*Adelto Gonçalves é
doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor
de Os vira-latas da madrugada (Rio de Janeiro, José Olympio Editora,
1981; Taubaté, Letra Selvagem, 2015), Gonzaga, um poeta do
Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona
brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil,
2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Caminho, 2003), Tomás
Antônio Gonzaga (Academia Brasileira de Letras/Imprensa Oficial do Estado
de São Paulo, 2012), e Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo
Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015), entre outros. O
texto Saga do Brasil Arcaico foi publicado no jornal Pravda, de Moscou, na
edição para a língua portuguesa.
*Cyro de Mattos é premiado no Brasil, México, Portugal e
Itália. Participa de mais de 40 antologias no Brasil e exterior. Seus livros são adotados pelas escolas
brasileiras, estudados em universidade e adquiridos por programas do governo e
órgãos públicos, como Programa Nacional do Livro Didático, Programa Nacional de
Biblioteca Escolar, Fundação Luís Eduardo Magalhães e outros. A Câmara de
Vereadores do Recife adquiriu, recentemente, onze mil exemplares do livro
Lorotas, Caretas e Piruetas (Prêmio da União Brasileira de Escritores-Rio),
para distribuição nas escolas e bibliotecas. Seus livros são reeditados, como O
Menino Camelô, doze edições, Vinte Poemas do Rio, mais de vinte mil exemplares,
aprovado três anos no vestibular da Universidade Estadual de Santa Cruz,
Histórias do Mundo Que Se Foi, cinco edições, O Goleiro Leleta, três edições,
Cancioneiro do Cacau, duas edições, Os Brabos, duas edições, Oratório de Natal,
duas edições, Palhaço Bom de Briga, três edições, O Circo do Cacareco, seis
edições, e O Velho Campo da Desportiva, duas edições, dentre outros. Com Os
Ventos Gemedores conquistou o Prêmio Nacional de Romance do Pen Clube do
Brasil, um dos mais prestigiados do Brasil. Foram agraciados com este prêmio
Gilberto Freire, Érico Veríssimo, Jorge Amado, Adonias Filho, Nélida Piñon,
Carlos Nejar, Lygia Fagundes Telles, João Cabral de Melo Neto, Herberto Sales,
Dalton Trevisan, José J. Veiga, Rubem Fonseca e Ignácio Loyola Brandão, dentre
outros.
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sexta-feira, 13 de agosto de 2021
LANÇAMENTO DO LIVRO DAS ESCRITORAS MARIA LUIZA HEINE E SUEDE MAYNE
Nesse sábado, dia 14/08, às 16 horas, ocorre o lançamento do livro: “Memória e História: Lições de Um Vírus Assustador” por meio de live no Instagram: @ml_heine, com apresentação do professor Efson Lima. O livro é uma produção conjunta das professoras Maria Luiza Heine e Suede Mayne.
A professora Luiza Heine tem diversos livros publicados. Ela
é formada em filosofia e doutora em educação pela UNEB, com pesquisa no campo
da educação ambiental. A autora Suede Mayne Pereira Araújo é formada em serviço
social. Mestra em educação e especialista em saúde do trabalhador e em
Psicodrama, Profissional de Serviço Social e atua no Hospital Menandro de Faria
e no Instituto Federal da Bahia.
Segundo as autoras, o “livro surgiu como uma expressão da
insatisfação pessoal com a vida que estamos
vivendo, com as mudanças que brotaram a partir do aparecimento da Covid
19 e com a forma como muitas pessoas do país encararam o enfrentamento da
pandemia”.
O livro tem prefácio do escritor Pawlo Cidade, presidente da
Academia de Letras de Ilhéus e gestor cultural.
A obra está sendo comercializada por meio do perfil da
escritora Maria Luiza Heine no Instagram, bem como no site da Editora Via Litterarum:
https://viaeditora.com.br/acervo-literario/memoria-e-historia-licoes-de-um-virus-assustador/
no valor de R$ 30,00 mais frete. O livro
também possui versão em e-book para comercialização.
O quê: Lançamento do
“Memória e História: Lições de Um Vírus Assustador”
Autoras:
Vendas: no Instagram @ml_heine e no site Editora Via
Litterarum
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quinta-feira, 12 de agosto de 2021
ACADEMIA GRAPIÚNA DE LETRAS DÁ CONTINUIDADE A CICLO DE PALESTRAS
Por Dr. Vercil Rodrigues
A Academia Grapiúna de Letras (AGRAL), sediada na cidade de Itabuna, sul da Bahia, realizou no último dia 7/8 (sábado), às 18 horas, reunião ordinária, através da plataforma Google Meet, em função da inviabilidade de reunião presencial, por causa das medidas restritivas acerca de distanciamento social, face à Pandemia Coronavírus (Covid – 19).
O acadêmico Samuel Leandro Oliveira de Mattos, presidente da
entidade, abriu os trabalhos agradecendo a presença maciça dos acadêmicos e
convidados. E em seguida falou da importância do ciclo de palestras da AGRAL,
que foi iniciado em abril e continuará durante a sua gestão, cumprindo com isso
um dos papéis de uma academia de letras, que é fomentar a cultura lato sensu.
O ciclo palestras começou com o acadêmico Jairo Xavier
Filho, médico-cardiologista, que falou sobre “COVID 19: Fatos e boatos. Ciência
e política”. Seguido do professor-doutor em educação física Samuel Macêdo
Guimarães, “Acentuações Terapêuticas Corporais na Saúde Mental: Uma
Contemporaneidade de Saúde Pública em tempos de Pandemia”. E a do
professor-mestre Paulo Sérgio dos Santos Bonfim, “Da solidão do
"cogito" à ética da alteridade: uma nova dimensão axiológica de 'ser' humano”.
Nessa reunião, coube ao acadêmico-presidente Samuel Leandro
que proferiu palestra intitulada “Legado Cultural Árabe-Islâmico na Bahia”. Ao
final, foi aberto o momento para perguntas e discussões. Então, comentaram,
pontos da palestra, os confrades Claudio Zumaeta, que mencionou aspectos
econômicos e comerciais relacionados à expansão Islâmica, a partir da
influência do profeta Maomé na Arábia, Kleber Torres, que citou o livro de
Jorge Amado, “A descoberta da América pelos turcos”, cujo tema se irmana com o
da palestra e ratifica questões abordadas e Samuel Guimarães, que abordou aspectos
da histórica dominação cultural de um povo sobre outro e, ainda, observou que o
brasileiro conhece pouco da sua própria história. Após a apresentação, houve
manifestações de apreço ao palestrante, pela riqueza cultural apresentada na
sua explanação, sobre um capítulo da história do Brasil e da Bahia que não é
conhecido pela maioria dos brasileiros.
(Ascom /AGRAL)
* * *
CÃES MUDOS – Péricles Capanema
Péricles Capanema
O brado por liberdade e pão. Poucas semanas atrás o
povo cubano exprimiu sua indignação pela tirania de décadas que o oprime. Falta
de alimentos (fome, em português simples) e de vacinas foram o estopim próximo
para a explosão da revolta popular. Manifestantes que lutavam por liberdade e
pão acabaram presos, ameaçados, surrados. No mundo inteiro, para vergonha da
gente que presta, governos e personalidades se manifestaram não a favor do
povo, mas na defesa do governo opressor.
Favorecimento dos torcionários. Destaco quatro
reações muito significativas. Lula aprovou o regime e escreveu: “O que
está acontecendo em Cuba de tão especial pra falarem tanto? Houve uma passeata.
Inclusive vi o presidente de Cuba na passeata, conversando com as pessoas. Cuba
já sofre 60 anos de bloqueio econômico dos EUA, ainda mais com a pandemia, é
desumano”. O PT secundou as manifestações do seu morubixaba. Cuba
continua inspiração, tumor de estimação, para o PT.
Nicolás Maduro, presidente da Venezuela, elogiou também o
governo cubano: “Se os Estados Unidos e a oposição extremista querem realmente
ajudar o povo cubano, levantem imediatamente todas as sanções e o bloqueio
contra o povo cubano. Ofereço todo o apoio da República Bolivariana da
Venezuela ao povo de Cuba, ao governo revolucionário de Cuba.”
Por seu lado, a China se apressou em sustentar a tirania em
Cuba. Entre outras manifestações, em Brasília a embaixada chinesa divulgou
comunicado: “A China se opõe à interferência estrangeira nos
assuntos internos de Cuba e apoia o que Cuba tem feito na luta contra a
Covid-19″.
Finalmente, declarou o ministro das Relações Exteriores da
Rússia: “Vamos continuar apoiando Cuba em tudo, não apenas moral, ou
politicamente, não apenas por meio do desenvolvimento da cooperação
técnico-militar, mas também promovendo ativamente o comércio, projetos
econômicos que permitam à economia deste país ser mais firme diante de ataques
externos. Acredito que vamos conseguir”.
Uma poderosa voz de consolo. Em sentido contrário, o
governo dos Estados Unidos colocou-se ao lado do povo cubano: “Estamos
com o povo cubano e seu apelo alto e claro por liberdade e alívio”. Condenou
as “décadas de repressão e sofrimento econômico a que foi submetido pelo regime
autoritário cubano”. E aduziu: “O povo cubano está reivindicando
com bravura seus direitos fundamentais e universais”.
A mão que apaga e a voz que adormece. Nesse ambiente, o Papa Francisco decepcionou os católicos cubanos com declaração ambígua: “Estou muito próximo do povo cubano nesses momentos difíceis, em particular das famílias que sobretudo sofrem. Rezo ao Senhor para que ajude a construir na paz, diálogo e solidariedade uma sociedade cada vez mais justa e fraterna”.
Angústia corajosa e lúcida. Ninguém expressou melhor a decepção que dona Maria Victoria Olavarrieta [foto], cubana exilada em Miami, em mensagem ao Papa Francisco, carta amplamente divulgada (está na rede), da qual coloco aqui alguns trechos: “Os católicos cubanos, desde que começaram os protestos em Cuba, estamos esperando que o senhor levante sua voz. Dói muito que, enquanto reprimem o povo que saiu às ruas pedindo liberdade, o senhor tenha palavras para felicitar o triunfo da Argentina na Copa América. Nossa Igreja foi perseguida, ameaçada, vigiada, invadida pelos agentes de segurança do Estado. O senhor disse aos jovens: ‘Lutem por seus sonhos, mas sonhem em grande, não deixem de sonhar’.Os jovens cubanos que nasceram na ditadura e foram doutrinados, educados em escolas ateias, em uma sociedade de partido único, que cresceram — alguns comendo e se vestindo com as ajudas de seus familiares no exílio, e outros na miséria mais absoluta —, estão sonhando em ver seu país livre. O senhor os convidou a sonhar, e agora que os estão matando por gritarem seus sonhos, o senhor guarda silêncio! Tive diversos alunos venezuelanos e vi o sofrimento de seus pais, porque o senhor guardou silêncio quando assassinavam os estudantes nas ruas de Caracas. As pessoas morrem de fome na Venezuela, e o senhor não condena publicamente os responsáveis. O sangue correu na Nicarágua. O Papa fala de tudo, mas dos crimes dos ditadores e dessas três tiranias irmãs o senhor não opina. O Vigário de Cristo na Terra não deve discriminar suas ovelhas. As ovelhas vítimas dos regimes comunistas, sentimo-nos como se fôssemos suas ovelhas negras. Hoje quero ser a voz das mães cubanas que estão vendo seus filhos passar fome, que não têm remédio; quero lhe apresentar a dor das avós cujos netos foram fuzilados gritando ‘Viva Cristo Rei!’, a vergonha dos pais que não conseguem sustentar os filhos com o fruto de seu trabalho, e vivem mal, esperando as remessas enviadas por seus familiares do exterior. Apresento-lhe a tortura dos presos políticos; o ódio de irmão contra irmão que os Castros semearam; os idosos que viram partir a família que criaram, e morreram sem nunca mais verem seus filhos e netos! Nós, cubanos, nos sentimos abandonados, órfãos do Papa”.
Cães mudos. Nem há o que comentar, o texto fala mais
que qualquer glosa. Enquanto lia a mensagem da angustiada e abandonada católica
cubana, vinham-me à mente trechos bíblicos, sua elevação e ensino fortalecerão
os católicos cubanos em seu desamparo. “As suas sentinelas estão todas
cegas, todas se mostraram ignorantes; são cães mudos, que não podem ladrar, que
veem coisas vãs, que dormem, e que amam os sonhos” (Is 56,
9-10). “E, se algum de vós pedir pão a seu pai, porventura dar-lhe-á
ele uma pedra? Ou, se lhe pedir um peixe, porventura, dar-lhe-á ele, em vez de
peixe, uma serpente? Ou se lhe pedir um ovo, porventura dar-lhe-á um
escorpião?” (Lc 11, 11-12). “Eu vi a aflição do meu povo no
Egito, e ouvi o seu clamor causado pela crueza daqueles que têm a
superintendência das obras. E, conhecendo a sua dor, desci para o livrar das
mãos dos egípcios” (Ex 3, 7-8).
https://www.abim.inf.br/caes-mudos/
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