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terça-feira, 9 de abril de 2019

O PODER DA GRAÇA DE DEUS – Plinio Maria Solimeo


9 de abril de 2019
Plinio Maria Solimeo

A graça de Deus — que nunca falta a ninguém — no mais das vezes segue cursos inesperados e misteriosos e em circunstâncias das mais adversas a fim de conduzir alguém ao conhecimento não apenas da verdade, mas da verdadeira religião.

Nesse sentido, detenho-me no caso de um rapaz que enfrentara situações como a de ter nascido num país maciçamente muçulmano como o Irã, ademais de ter uma mãe ateia, para depois chegar até a Igreja Católica.

Isso ocorreu com Allen Hooreh [foto acima], nascido em 1982. Sua mãe, comunista convicta, se separou cedo do marido. Mãe e filho foram obrigados a deixar o Irã ao ser descoberto que ela fazia parte de uma organização que atentava contra o regime. Depois de breve estadia na Europa, mudaram-se para Bethesda, no estado de Maryland, Estados Unidos.

Essa mãe educou o filho como se Deus e a religião não existissem, de maneira que seu filho Allen não recebera formação religiosa alguma, nem mesmo a muçulmana que vigora em seu país de origem. Entretanto, ao crescer, o rapaz começou a se preocupar com questões filosóficas.

Bom observador e aplicado, começou a analisar a complexidade das leis da física e da criação, a beleza nelas subjacentes, bem como a sua ordem exemplar, levando-o a considerar a necessidade de haver uma inteligência por trás de tudo aquilo, que tudo criou e dirigia, até concluir que só poderia ser Deus.

Sem saber, e levado apenas pela reta razão, Allen fazia o mesmo raciocínio do insuperável São Tomás de Aquino ao analisar as vias para se chegar ao conhecimento de Deus:

“No mundo, algumas coisas se operam por causa de seu fim; entretanto, estas coisas não atingem seu fim por acaso; ora, estas coisas não tendem para um fim a não ser que estejam sendo dirigidas por algo inteligente; logo, existe esse algo inteligente, que é Deus, que dirige as coisas a um fim”.

Assim, com os dados da mera razão natural, esse pagão de consciência reta pôde chegar ao conhecimento de Deus analisando a natureza criada:

Tudo funciona em uma harmonia inacreditável. Quem contempla uma rosa, por exemplo, pode perceber a sua perfeição e beleza, podendo exclamar: “Ela está desenhada de forma tão primorosa, e projetada em todos os níveis, que não é possível ter-se feito sozinha, logo há um deus por trás dela”.

Chegando assim à crença de um deus em tese, Allen via a necessidade de aprofundar esse conhecimento. Para isso chegou a visitar algumas igrejas, mas ficou decepcionado por constatar que em nenhuma delas se praticava o que era ensinado.

Foi então que, entrando para a faculdade, ele foi iniciado na meditação budista. O jovem utilizou os métodos dados como uma maneira de controlar os seus pensamentos. Mas aos poucos, analisando-os, começou a se dar conta que havia neles um nível crescente de complexidade. Isso porque 90% deles eram negativos.

Procurou em vão estimular pensamentos mais positivos, mas descreveu o seu esforço como algo semelhante à tentativa de amparar com uma das mãos uma parede que se desmorona, e, com a outra procurar ser mais compassivo e amoroso.

Isso o levou à pergunta: — “De onde me vem toda essa complexidade maligna.” Entendeu que, por trás dela havia uma mente que não era a sua, concluindo ser o demônio, tendo chegado a afirmar que acreditou na existência do demônio antes mesmo de crer na divindade de Cristo.

Allen notou, além desses pensamentos negativos, haver nele igualmente uma voz boa, que nunca discutia com ele, mas simplesmente lhe inspirava o que devia fazer. Quanto mais se entregava a ela tanto mais percebia os truques do demônio para dela o afastar.

Foi quando procurou o seu melhor amigo, Roberto, que era católico, confidenciando-lhe o que vinha experimentando interiormente. O amigo por sua vez lhe perguntou o que ele sentia quando pensava na Igreja Católica.

O iraniano fez uma lista na qual todas as coisas eram negativas. Como resposta, Roberto disse para ele que por meio daquele depoimento podia perceber os truques do diabo que lhe assediava, mas não lhe perguntou a razão pela qual todos os seus pensamentos sobre a Igreja Católica eram negativos.

Isso fez Allen pensar. Resolveu então, como um militar que devesse derrubar o oponente, entrar na luta e tomar o poder, tendo chegado à conclusão de tratar-se do diabo tentando afastá-lo da Igreja Católica. E, como ele o odiava, decidiu dar uma chance à Igreja.

Quando disse isso a Roberto, este começou a procurar entre as igrejas da região de Washington uma que pudesse responder às inquietudes filosóficas de Allen. Chegou assim à paróquia de Nossa Senhora da Misericórdia [foto ao lado], em Potomac, Maryland. Por sugestão do amigo, o jovem nela se inscreveu para o Curso de Iniciação Cristã para Adultos.

Agora como catecúmeno, Allen compreendeu que deveria começar a rezar. E comentou que sempre tivera um relacionamento indireto com Deus por meio das coisas criadas, mas a partir daquele momento deveria fundamentá-lo como amor.

A dificuldade para ter um relacionamento amoroso com Deus, seguramente se encontrava no fato de ele nunca ter tido um pai com quem pudesse se relacionar com afeição própria de filho. Por isso disse a Nosso Senhor: “Por favor, abra o meu coração. Mostre-me o que é dar e receber amor”.

É preciso dizer que, enquanto isso se passava com Allen, seu amigo Roberto, como verdadeiro apóstolo rezava e encomendava missas nas intenções dele.

O Curso de Iniciação Cristã que Allen frequentava era, como é comum nas igrejas americanas, ortodoxo, sólido e convincente, de maneira que o levou a respeitar a tradição apostólica da Igreja, e alimentou sua capacidade de aprender os ensinamentos que os teólogos lhe transmitiam. Compreendeu então que a Igreja era como o tronco de uma árvore, cujas raízes eram Nosso Senhor Jesus Cristo e os apóstolos.

Final da história. Allen Hooreh será batizado na vigília da Páscoa deste ano, e escolheu a mãe de Roberto, Renata, para ser a sua madrinha. Sobre isso ele afirmou: “Sempre senti que Roberto era um irmão para mim; e agora que sua mãe será minha madrinha, este sentimento de união ficará ainda mais sólido no âmbito espiritual”.

Em meio à terrível crise pela qual passa a Igreja, ferida por tantos escândalos e confusões em todos os níveis, têm sentido tornar-se católico? Allen não recuou ante a pergunta. Com muito espírito de fé e muita propriedade, esse neo-convertido respondeu:

— “Particularmente penso que a Igreja precisa de pessoas que venham a ela e a Cristo com amor. Não é hora de deixá-la, mas de ser uma força para o bem. Se eu puder ser uma ferramenta para que o Reino na Terra reflita o Reino dos Céus, é o que quero fazer”.

Fontes:

– Religionenlibertad, disponível



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segunda-feira, 8 de abril de 2019

DIÁRIO DE VIAGEM - Francisco Benício dos Santos (14)


BORDO DO Pedro II

31º DIA (Final)

Post anterior - clique no link abaixo: 

Isauro:
- Não nos faça uma conferência. Olhe, querida, que os nossos digníssimos ouvintes já devem estar com Morfeu a lhes rondar os sentidos...
- Não, é cedo. Morfeu está no salão do baile ao lado do casal de sírios.
-Magnífica está a limonada, pena que não sirva para os mistérios do santo sacrifício da missa; isto faria mais bem e saberia melhor aos santos abades. Eles preferem, porém, a limonada da parra. Dá-lhes sonhos, dá-lhe ilusões!
- E dá-lhe irreverência – rematou a embaixatriz.
Doutor Hidalgo:
- Sempre brigona e inquisitorial a minha cara-metade!

Nísia:
- Como percebo Deus: A humanidade que vem percorrendo toda escala dos seres da criação, desde o infusório ao leão e deste ao homem, cedo compreendeu eu precisava de um ser que o protegesse e daí começou adorando animais, aves, répteis, o sol e, por último, criou um nome com a evolução, para defini-lo.
Chamou-o Deus, Alá, Júpiter, Pam, etc.

Foi o medo quem criou este nome e as religiões tomaram conta deles e fantasiaram ao ponto de tecerem uma teia complicada dando lugar às milhares de definições e, com elas, as milhares de obras, todas com um único fim de manter a humanidade na sua milenar ignorância, tornando-a escrava do medo.

Criaram o inferno com as suas penas eternas, os dogmas, os mistérios, as divindades e uma corte celestial do feitio das casas reinantes da terra, com ministros, anjos, serafins e até virgens!
Depois veio a inquisição. A golpes de torturas obrigava a toda a população a acreditar nos seus dogmas ou então seria mandada em nome de Deus para a casa do outro Deus de igual poder ; o Satanás. E foram milhões de seres imolados por esta infame e sacrílega instituição que, segundo ela, estão povoando outros infernos, eternamente, sem outra culpa senão a de não acreditar, por exemplo, que o papa é Deus e que o inferno e o purgatório são lugares reais. Ora, isto é apenas infantil! Sem que queira embrenhar-me nos mundos metafísicos, os deixo de lado e vou dizer o que penso sobre Deus...

Admiro Deus em tudo quanto no universo existe.
O Todo dentro do Todo.
Ao surgir do sol, quando os seus raios cheios de luz, calor e eletricidade, penetram em todos os lugares; nas choupanas, nas tocas, nas florestas, nos ninhos, nos lagos, nos rios, nos mares, no solar, nos palácios, nas igrejas, nas academias, nas roças dos lavradores, nos campos, no leito do moribundo, no berço de recém-nascido.
Aí vejo Deus... a sua imagem com a sua bondade, com a sua justiça, com a onisciência...

Vejo Deus em tudo que palpita, que vibra!
Quando contemplo o céu estrelado e ponteado de sóis, de lua, de planetas, de cometas, de nebulosas, de Via-Láctea, nestas noites lindas do céu do Brasil, sem nuvens, de um azul profundo e suavíssimo, eu fico admirada, enlevada, agradecida na contemplação do Cosmo-Deus que naquele conjunto harmonioso, vibra, palpita e observa as diversas humanidades contadas  aos trilhões que naqueles mundos vivem, vibram, trabalham, gozam e rendem culto à harmonia, à fraternidade, à justiça e ao amor que é, em síntese, o único nome que define Deus. Sim... que define Deus!
 Porque Deus é amor.

Não esse amor humano, egoísta, falso, não esse amor-desejo, amor-paixão, amor-instinto, amor-sensualidade, mas amor-sentimento, amor-altruísmo, amor-desprendimento, amor-justiça, amor-bondade, amor-perfeição.
Eu vejo e sinto Deus-Amor dentro de mim, dentro da humanidade.

Deus-Amor está no desabrochar da flor, no germinar da semente, no perpassar da brisa, nos movimentos dos oceanos, nos estampidos dos trovões, no movimento dos astros, no brilho dos sóis, na magnitude das noites enluaradas. Está também no silvo do réptil, no canto do passarinho, no lamento do injustiçado, nas dores do doente, no leito do moribundo, no berço do infantil, nos soluços da mãe, no grito de dor do desesperado.
Deus está em tudo. Está dentro de nós, de nossa consciência, nos nossos atos.

Por isso, admiro-o pelas suas obras. Ele é tal imenso sol , de tamanho absolutamente incompreensível aos nossos sentidos, que emite chispas, fagulhas e estas fagulhas seguem universo a fora, descrevendo órbitas, limando-se, polindo-se, aprendendo e fazendo outras iguais evoluírem e nessa trajetória de milênios, retornará ao sol de onde saiu, unindo-se a Ele e com Ele se confundindo.
 É assim que eu compreendo Deus!

Falou doutamente.
Pena que a madame não ouvisse a sua dissertação. Rezava ave-marias e ladainhas castelhanas “inacianas”.

- Sei que tudo isto nada representa, sei que a Igreja está com a verdade e que o munto está cheio de fantasias e de descrenças.
- Bem, agora vamos repousar. Buenas noites...

Desperto às cinco horas.
As costas e os contornos da capital estão à vista.
O pessoal de bordo está lavando o convés.
O sol vem surgindo do mar, lançando reflexos sobre as águas.
Um marinheiro vem içar a bandeira nacional no mastro do Bagé, e, ao fazê-lo, o sol vai beijando o verde-amarelo das nossas cores, ao balanço do terreal fresco e macio, fazendo-a ondular enlaçada de reflexos dos seus raios violáceos...
Senti-me poeta e relembrando o cearense Paulo Ney, declamei-lhe os versos:

“Auriverde pendão da minha terra
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que à luz do sol encerra
As promessas divinas da esperança!”

- Bravo, bravíssimo! Estás poeta?!
Era Nísia que me despertava  do meu êxtase, como uma deusa seráfica, radiante de beleza e encantos...
Não me contive.
Beijei-a apaixonadamente...
...afinal, éramos humanos.

O sol inflamava as águas e o casario da cidade com as reverberações dos seus lampejos.
O farol ainda emitia tênues lampejos de três cores a despedir-se da noite, incendiando os fios elétricos.
As luzes da cidade já se apagaram.
Apenas o verde-escuro da cidade-Pomar vai se iluminando de claridades solares.
O navio vai mansamente transpondo a barra.
Alvoroço à bordo.
Muita gente no cais.
Conhecidos acenam sorrindo.
Famílias dos congressistas.
Convidados.
Curiosos.
Amigos.
O cais está apinhado como se fosse dia de chegada de algum figurão oficial.
Os carregadores conhecidos abrem os dentes alvíssimos, destacando-se do preto da cara e do azul da vestimenta.

Meu pai.
Minha mãe!
Pedrito!
Até Frutuoso e Massimo estão no cais.
Diviso-os, saúdo-os com o lenço.
Nísia e eu saltamos juntos.
Abraços fortes, congratulações, alegrias.
Rumo à chácara.
 ...............
CONCLUSÃO

Meus pais ambientados e afeitos à nova vida.
A chácara fora magnífico negócio.
Frutuoso superintende o pomar e a horta.
Massimo, o estábulo e a capineira.
Tudo em progresso e rendendo lucros.

Eu e Nísia casamos.
Não houve festas. Tudo feito e realizado numa simplicidade wagneriana.
Somos felicíssimos.
Montamos consultório na cidade e vivemos dos labores da nossa profissão, que nos enche de entusiasmo e convida-nos a prosseguir.

Pedrito, juntando o útil ao agradável, também casou-se.
Hoje é genro e sócio do senhor Castro.
Sob o mesmo teto paterno, na casa ampla da chácara, vivem agora três casais. Dois deles sem filhos, por enquanto...

                                    Finalmente,
A árvore plantada pelo Velho Martinho transportou-se para terreno fértil e profundo.
Frondou, e novos galhos virentes e robustos surgiram impetuosamente.
                                   
                                     (Ponto Final)

NOTA.
         Entrou a minha historinha por
         Uma porta e saiu na outra,
        Agora... Julinha...
        ... que me conte outra.

27/01/1941
F. B. Santos

(AQUARELAS E RECORDAÇÕES Capítulo XXII) –Francisco Benício dos Santos

Postagem final

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Para facilitar sua leitura, ICAL publica abaixo os links de postagens do capítulo XXII – DIÁRIO DE VIAGEM:

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O QUE PENSAR DA DECLARAÇÃO DO PAPA EM ABU DHABI?


7 de abril de 2019

Entendida em seu sentido literal e natural, é absolutamente inaceitável por um católico uma passagem da declaração firmada pelo Papa Francisco, em comum com o líder maometano de Al-Azhar. A respeito, leia as considerações do Padre David Francisquini publicadas na revista Catolicismo Nº 820, Abril/2019.

Pergunta — Li nos jornais que o Papa Francisco assinou em Abu Dhabi uma declaração comum com o Grande Imã da universidade Al-Azhar, do Egito, onde afirma que “o pluralismo e as diversidades de religião, de cor, de sexo, de raça e de língua fazem parte daquele sábio desígnio divino com que Deus criou os seres humanos”. Conversando com um colega de faculdade, que também ficara surpreso, ele me disse ter lido na Internet que essa afirmação podia ter um sentido correto, se interpretada em referência a uma vontade de Deus – não positiva, mas apenas permissiva — uma vez que Ele colocou no coração do homem o desejo de conhecê-lo, do qual derivaria a multiplicidade de religiões. Como a explicação tem aparência de verdade, mas não me deixou muito convencido, pergunto o que se deve pensar dela, assim como da declaração assinada pelo Papa.

Resposta — Várias pessoas me manifestaram a mesma perplexidade pelo conteúdo da declaração transcrita pelo consulente. Respondendo a esta pergunta, poderei esclarecer outros leitores de Catolicismo que tenham ficado igualmente confundidos.

Entendida em seu sentido literal e natural, é absolutamente inaceitável por um católico essa passagem da declaração firmada pelo Papa Francisco, em comum com o líder maometano de Al-Azhar. Ela contradiz não somente a verdade revelada da unicidade e universalidade salvífica de Nosso Senhor Jesus Cristo e da Igreja Católica, mas também a simples razão natural.

Com efeito, as dezenas de milhares de religiões existentes no mundo são todas contraditórias umas com as outras. Muitas dessas, cuja origem é comum, resultaram precisamente de divergências entre os seus seguidores.

Quanto à própria Pessoa de Deus, as oposições entre as várias religiões são abissais: algumas dizem que Deus é um Ser pessoal e transcendente, outras afirmam que Ele seria apenas uma energia imanente; sustentam umas que existe um só Deus, e para outras haveria uma pluralidade de deuses; afirmam muitas que em Deus há unidade de substância e trindade de Pessoas, outras consideram isso politeísmo e idolatria.

Deus não é relativista, mas a Verdade eterna

Dessa diversidade de crenças a respeito do próprio Deus nascem numerosas práticas e proibições, também contraditórias umas com as outras: para alguns, venerar imagens é piedoso e salutar, enquanto para outros isso é idolatria; para alguns o vinho é bom e até santo (pois é consagrado na missa), para outros é pecado tomar álcool; para alguns o matrimônio pode ser estabelecido apenas entre um só homem e uma só mulher, para outros é lícita a poligamia; para alguns o casamento é indissolúvel, para outros o divórcio é lícito.

As páginas desta revista seriam insuficientes para enumerar todas as divergências que se encontram nas principais religiões. Sendo absolutamente contraditórias entre si, elas não podem ser todas verdadeiras. Ora, se Deus é infinitamente sábio — o que se deduz facilmente, vendo a perfeição e harmonia de toda a Criação — é contrário à razão imaginar que Ele tenha criado ou favorecido essas contradições entre as religiões. Se o fizesse, Deus seria ilógico ou esquizofrênico, no entanto Ele é a Verdade eterna; ou seria completamente relativista, não se tomando a sério a Si mesmo, mas isto é absolutamente oposto à sua santidade.

Só uma religião pode ser verdadeira

Do ponto de vista da Revelação, é igualmente inaceitável a ideia de uma pluralidade de religiões, supostamente desejada por Deus. Para prová-lo, basta reproduzir as seguintes palavras do Papa Pio XI, ao condenar o indiferentismo religioso, contrário à verdadeira promoção da unidade de religião:

“Só uma religião pode ser verdadeira — a que foi revelada por Deus. Fomos criados por Deus, Criador de todas as coisas, para este fim: conhecê-Lo e servi-Lo. O nosso Criador possui, portanto, pleno direito de ser servido. […] No decurso dos tempos, desde os primórdios do gênero humano até a vinda e a pregação de Jesus Cristo, Ele próprio ensinou ao homem, naturalmente dotado de razão, os deveres que dele seriam exigidos para com o Criador: ‘Em muitos lugares e de muitos modos, antigamente, falou Deus aos nossos pais pelos profetas; ultimamente, nestes dias, falou-nos por seu Filho’ (Heb 1, 1).

“Está claro, portanto, que a religião verdadeira não pode ser outra senão a que se funda na palavra revelada de Deus; começando a ser feita desde o princípio, essa revelação prosseguiu sob a Lei Antiga, e o próprio Cristo completou-a sob a Nova Lei.

“Portanto, se Deus falou — e pela fé histórica comprova-se ter Ele realmente falado — não há quem não veja ser dever do homem acreditar, de modo absoluto, em Deus que se revela, e obedecer integralmente a Deus que impera. Mas, para a glória de Deus e para a nossa salvação, em relação a uma coisa e outra o Filho Unigênito de Deus instituiu na Terra a sua Igreja” (Encíclica Mortalium animos, n° 7).


“Fora da Igreja não há salvação”: Formulada de modo positivo, significa que toda a salvação vem de Cristo-Cabeça pela Igreja, que é o seu Corpo. […] É por isso que não se podem salvar aqueles que — não ignorando que Deus, por Jesus Cristo, fundou a Igreja Católica como necessária — se recusam a entrar nela ou a nela perseverar.

Que compatibilidade pode haver entre Cristo e Belial?

Foi em nome dessas verdades de fé que o Papa Pio XI, nesse mesmo documento, proibiu a participação de católicos em reuniões onde fossem admitidos “promiscuamente, todos: pagãos de todas as espécies, fiéis de Cristo, os que infelizmente se afastaram de Cristo e os que, obstinada e pertinazmente, contradizem a sua natureza divina e a sua missão”. O mencionado Papa diz que tais assembleias são reprováveis, pois “se fundamentam na falsa opinião dos que julgam que todas as religiões são, mais ou menos, boas e louváveis, pois manifestam e significam, embora de maneira diferente, aquele sentido inato e natural pelo qual somos levados para Deus e reconhecemos obsequiosamente o seu império” (idem, n° 3). Precisamente essa é a falsa opinião subscrita pelo Papa Francisco no documento de Abu Dhabi, subentendida na frase “o pluralismo e as diversidades de religião, de cor, de sexo, de raça e de língua fazem parte daquele sábio desígnio divino com que Deus criou os seres humanos”.

Como vimos acima, não se pode afirmar de maneira alguma que a diversidade de religiões seja desejável, posto que ela é, de um lado, fruto do pecado e da malícia dos homens; e de outro lado ela é o resultado da ação de Satanás. Por esse motivo o Salmo 95 afirma que “os deuses dos pagãos são demônios”; e São Paulo pergunta na Segunda Epístola aos Coríntios: “Que compatibilidade pode haver entre Cristo e Belial?” (6, 15). Belial é a personificação bíblica do mal e dos ídolos do paganismo.

Creio na Igreja, una, santa, católica e apostólica

Em relação à outra pergunta do missivista, respondemos que não é razoável interpretar benignamente essa frase, como significando que Deus tolera as falsas religiões, da mesma forma como o semeador da parábola tolera até a colheita o joio colocado pelo inimigo. O texto subscrito pelo Papa Francisco inclui numa mesma frase coisas boas e desejadas por Deus — sexo, cor, raça e linguagem — e também o pluralismo e a diversidade das religiões, como se estas fossem também coisas boas e desejadas por Deus.

Algumas diversidades foram positivamente desejadas por Deus. Por exemplo, a diversidade de sexo, mencionada no próprio relato da Bíblia sobre a criação do mundo como tendo sido criada e desejada por Deus: “Deus criou o homem à sua imagem; criou-o à imagem de Deus, criou o homem e a mulher” (Gn. 1, 27).

A “confusão das línguas” foi o resultado de um castigo de Deus, pelo fato de os homens quererem construir uma torre (Babel) que chegasse até o Céu. Ainda assim, ela foi positivamente desejada e causada por Deus, sendo em si mesma uma coisa boa.

A diversidade de cor e de raças é também, evidentemente, boa em si mesma.

Ao colocar a diversidade de religiões junto com essas outras diversidades boas em si mesmas, positivamente desejadas pelo Criador, o texto só poderia ser interpretado como sendo querida também por Deus a diversidade das religiões, como um bem para a humanidade. A contraprova de que esse seja o sentido natural do texto é que ninguém teria a ideia rústica de juntar numa mesma frase os desígnios positivos e os desígnios apenas permissivos de Deus (aquilo que Ele não deseja, mas tolera) e escrever, por exemplo: A diversidade de raças e o extermínio dos judeus em Auschwitz ‘fazem parte daquele sábio desígnio divino com que Deus criou os seres humanos’…

Posto que o sentido natural do texto é mesmo de que as diversidades de religiões fariam parte de um desígnio divino positivo, devemos desejar que o Papa Francisco faça uma retratação desse documento conjunto e professe de modo inequívoco sua fé no nono artigo do Credo: “Creio na Igreja, una, santa, católica e apostólica”, incluindo na sua profissão aquilo que o Catecismo da Igreja Católica ensina sobre a sentença “Fora da Igreja não há salvação”, tantas vezes repetida pelos Santos e Padres da Igreja: “Formulada de modo positivo, significa que toda a salvação vem de Cristo-Cabeça pela Igreja, que é o seu Corpo. […] É por isso que não se podem salvar aqueles que — não ignorando que Deus, por Jesus Cristo, fundou a Igreja Católica como necessária — se recusam a entrar nela ou a nela perseverar” (n° 846).



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domingo, 7 de abril de 2019

SÃO TOMÁS DE AQUINO


 Somos de vidro, também de pedra, água e areia...

Viajantes do tempo. O remetente e o destinatário. 

Tudo que jogamos contra o vento vem ao nosso encontro.

Somos o próprio reflexo que vemos no espelho e além dele.

Somos a vida e a morte. O tudo e também o nada.

Somos idealizadores. Sonhadores. Propagadores.

Feitos de inocência num mundo de regras.

Maldosos ou bondosos - no tempo exato...

Ora oferecemos riscos, ora somos a mais perfeita das ternuras.

O ponto de encontro está em cada um de nós. Encontrar-se é o desafio.

Entender-se sagrado é o caminho. Enxergar além de, é o que falta.

Permitir-se acolher o irmão e entender que ele é tão frágil e tão forte como nós é a meta. Que ninguém é melhor do que ninguém. No final das contas somos pó...

Nem sempre intactos. Nem sempre puros...

O importante é buscar, olhar para dentro de si e observar que o mundo é benção, que somos filhos da Graça - temos a divindade dentro de nós...

"Sejamos gratos às pessoas que nos proporcionam felicidade, são elas os adoráveis jardineiros que nos fazem florir a alma."


(São Tomás de Aquino)

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EXTORSÃO INDÍGENA – Eugenio Trujillo Villegas*


7 de abril de 2019

Eugenio Trujillo Villegas*


O sudoeste da Colômbia continua inexplicavelmente paralisado, situação que persiste há quase um mês. O exército, a polícia, o governo e o presidente da república tornaram-se meros observadores de uma das mais espantosas chantagens ocorridas no país, sem nada fazer para evitá-la. Com efeito, menos de 300 mil indígenas do Departamento de Cauca colocaram as instituições colombianas de joelhos e exigem furibundamente uma série de disparates que nenhum Estado legítimo pode aceitar.

Entre os absurdos, pedem que nunca mais se fumigue plantações de coca com glifosato; que helicópteros e aviões das Forças Armadas fiquem proibidos de sobrevoar áreas indígenas; que o governo aumente mais três trilhões de pesos/ano — cerca de um bilhão de dólares — os subsídios concedidos às comunidades indígenas, para que possam continuar a viver sem trabalhar; que 49.000 hectares de terras produtivas, pertencentes a particulares, sejam desapropriados e entregues aos concelhos indígenas; que seja proibidaa extração de petróleo por fracking no país; que se restrinja a mineração em larga escala; que a impunidade seja garantida aos indígenas que cometeram crimes durante os protestos; e, finalmente, como demonstração do delírio de suas pretensões, que o senhor Juan Guaidó não seja reconhecido como presidente da Venezuela…

A análise mais elementar dos fatos mostra que os índios não estão sozinhos, e nem foram eles os autores dessas exigências absurdas. Forças sinistras com grande poder destrutivo encontram-se por trás deste protesto, dirigindo, ordenando e estabelecendo o seu curso, com óbvios interesses subversivos, a fim de liquidar com a unidade nacional e levar o país ao caos, à anarquia, à tomada do poder pela esquerda marxista, ansiosa por trilhar os passos do chavismo e do castrismo.

O país assistiu tudo isso às claras, pois seus fautores sequer tiveram a precaução de se disfarçar. Nas mesas de negociação, junto aos representantes do Estado, estavam os “honoráveis” deputados das FARC para estimular e dirigir o protesto. Compareceu também aí para negociar o incendiário senador Gustavo Petro, com a sua apavorante comitiva de ódio da autoproclamada Colômbia Humana.

Como ele mesmo disse, no dia em que perdeu a eleição presidencial, sua intenção é de queimar o país, derrubar o presidente legítimo e tomar o poder pela força e implantar uma ditadura como a de Maduro, Castro e Ortega, seus amigos íntimos e fiéis seguidores, e assim impor a revolução bolivariana na Colômbia.

Nesta tentativa de destruir o país existem outros vermes além dos já mencionados. Há as FARC (Fuerzas Armadas Revolucionarias de Colombia), supostamente pacificadas, com as suas armas reluzentes, que segundo Santos teriam sido entregues à ONU… E há também o ELN (Ejército de Liberación Nacional), que não quer saber de negociações, mas sim das mancadas do Estado, alcançadas aqui com extrema facilidade. E existem também os numerosos cartéis de drogas que abundam nas Américas, porque é exatamente nessa região de concelhos indígenas onde a coca é cultivada. Igualmente estão presentes os proprietários das rotas de droga produzida em outras regiões que depois é levada para o Oceano Pacífico, de onde é remetida ao seu destino final: os EUA.

E como se isso não fosse um quadro assustador, agora prometem que muitas outras comunidades indígenas em diferentes regiões, e também as chamadas negritudes e outras minorias raciais manipuladas pela subversão, querem aderir à greve a fim de estendê-la ao país inteiro.

É fato que para este objetivo a mobilização já começou em vários departamentos. O que é chamado de “protesto pacífico” já começou a matar policiais, soldados e opositores; dinamitar pontes e estradas; aterrorizar cerca de 50 milhões de colombianos, que espantados assistem a aplicação do “processo de paz”, imposto por meio do engano e manipulação do ex-presidente Santos, ao conceder aos guerrilheiros espaços de impunidade para os protestos ilegais como o atual.

Tal situação paralisa cinco departamentos colombianos nos quais já há falta de comida, de suprimentos médicos urgentes, de combustíveis e muitas outras necessidades básicas. Até quando? Ninguém sabe… Há muitas questões óbvias em meio à emergência que estão sem resposta. Onde está o presidente? E os ministros? E a polícia? E o exército?

Não vemos as autoridades legítimas atenderem o clamor dos milhões de afetados, pois impedidos de ir a suas propriedades, levar seus produtos agrícolas para alimentar a população colombiana, exercer o seu direito ao trabalho, à mobilização, ao comércio, à indústria, educação, saúde e vida. Tudo isso desapareceu do horizonte dos direitos dos cidadãos para que seja imposta a ditadura das minorias subversivas.

Se existe algum exemplo atual de violação dos direitos humanos é este que estamos testemunhando. No entanto, aqueles que pregam tanto a defesa desses direitos, agora ficam em silêncio. Para essas pessoas perversas, os direitos humanos nada mais são do que um instrumento de guerra em favor da revolução marxista.

Enquanto as pessoas estão morrendo de fome nos paraísos comunistas, eles só querem destruir a economia de livre mercado que produz riqueza, e também torna possível a generosa ajuda que salva muitas vidas mesmo nos países comunistas.

Mas não apenas os comunistas hipócritas se calam. Muitos líderes religiosos e empresariais também estão calados e intimidados. Os bispos, os líderes dos sindicatos, os políticos, pouco ou nada dizem sobre isso. E devido a esse silêncio, as chamas se espalham e o perigo apenas aumenta.

Colômbia! Acorde! Esta é a paz mentirosa que nos prometeram! Votamos contra isto no referendo, elegemos Duque presidente para nos salvar dessa tragédia e, apesar de tudo isso, contra a nossa vontade, arrastam-nos para o cadafalso do socialismo. É para lá que eles estão nos levando!

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(*) O autor é diretor da Sociedad Colombiana de Tradición y Acción. Matéria traduzida do original castelhano por Paulo Henrique Chaves.


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PALAVRA DA SALVAÇÃO (125)



 5º Domingo da Quaresma – 07/04/2019

Anúncio do Evangelho (Jo 8,1-11)

— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós!
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo João.
— Glória a vós, Senhor!

Naquele tempo, Jesus foi para o monte das Oliveiras. De madrugada, voltou de novo ao Templo. Todo o povo se reuniu em volta dele. Sentando-se, começou a ensiná-los.
Entretanto, os mestres da Lei e os fariseus trouxeram uma mulher surpreendida em adultério. Colocando-a no meio deles, disseram a Jesus: “Mestre, esta mulher foi surpreendida em flagrante adultério. Moisés, na Lei, mandou apedrejar tais mulheres. Que dizes tu?”
Perguntavam isso para experimentar Jesus e para terem motivo de o acusar. Mas Jesus, inclinando-se, começou a escrever com o dedo no chão. Como persistissem em interrogá-lo, Jesus ergueu-se e disse: “Quem dentre vós não tiver pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra”. E, tornando a inclinar-se, continuou a escrever no chão.
E eles, ouvindo o que Jesus falou, foram saindo um a um, a começar pelos mais velhos; e Jesus ficou sozinho, com a mulher que estava lá, no meio do povo.
Então Jesus se levantou e disse: “Mulher, onde estão eles?” Ninguém te condenou?”
Ela respondeu: “Ninguém, Senhor”. Então Jesus lhe disse: “Eu também não te condeno. Podes ir, e de agora em diante não peques mais”.

— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.

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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Pe. Roger Araújo:

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Conversão: passar do desprezo ao apreço do outro
“Mestre, esta mulher foi surpreendida em flagrante adultério” (Jo 8,4)

“Um país que empequenece seus cidadãos para que possam ser mais dóceis em suas mãos, logo descobrirá que, com seres humanos apequenados, nenhuma coisa grande poderá ser realizada” (Stuart Mill). Em outras palavras, uma sociedade que “empequenece” as pessoas, nunca realizará grandes obras.

Uma afirmação assim, serve de advertência diante do nosso contexto social, político e religioso em que vivemos, onde a intolerância, o julgamento, o preconceito, a crítica destrutiva... assumem contornos assustadores, humilhando os outros, ridicularizando-os, descartando-os... Quando proferimos, contra uma pessoa ou grupos, acusações ou expressões que ferem a reputação, estamos esvaziando nossas relações de humanismo, desembocando na barbárie. E quando os meios de comunicação, sobretudo as redes sociais, se colocam a serviço deste movimento desumanizador, passamos a viver na “sociedade do desprezo”.

O espírito da acusação e de humilhação do outro, é um espírito de morte. Este mal espírito de nosso tempo, em seu exagero cancerígeno, aparece também, com muita frequência, na Igreja e em suas comunidades e grupos. Por meras aparências, suspeita-se do outro, pensa-se mal dele, condena-o no coração, marginaliza-o. Quantas pessoas já temos “empequenecidas” em nossa opinião! Diante do desapreço generalizado é preciso deixar ressoar em nosso interior as palavras de Jesus: “quem dentre vós não tiver pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra”.

As “pedras na mão” são fáceis de serem encontradas também em nossas vidas. Hoje são as pedras do WhatsApp, do twitter, das mensagens preconceituosas, das fake-news..., que bloqueiam o futuro das pessoas através da crítica sem piedade, do desprezo que destrói, da indiferença que congela as relações... A arrogância também tem raízes em nosso interior; manifesta-se no nosso pensar e agir cotidianos. Ela é a base de nossas intransigências, dos nossos preconceitos, dos nossos dogmatismos, de nossas críticas amargas, dos comentários maldosos... A arrogância mora no nosso desprezo e nas nossas ironias. Ela nos paralisa.

O convite de Jesus a reconhecer nosso pecado é a única via para que essas pedras não caiam sobre nenhum inocente e, ao mesmo tempo, nós possamos encontrar a possibilidade da transformação e da mudança. Enquanto nos habite este “espírito mau”, nada bom, nem grandioso poderá ser construído. Uma sociedade que “empequenece” seus homens e mulheres não poderá ter futuro; uma igreja que “empequenece” seus membros, através de um moralismo e um legalismo doentio, também não poderá ser testemunha do evangelho; um grupo, dentro da igreja, que faça o mesmo, estará traindo o modo compassivo e acolhedor de Jesus. 

“A misericórdia de nosso Senhor se manifesta sobretudo quando Ele se inclina sobre a miséria humana e demonstra sua compaixão, para quem necessita de compreensão, cura e perdão. Tudo em Jesus fala de misericórdia; mais ainda, Ele mesmo é a misericórdia” (Papa Francisco). A presença misericordiosa de Jesus aparece claramente na cena da “mulher adúltera”, relatado pelo evangelho deste domingo. Ali, a mulher é colocada no centro, pelas autoridades religiosas que tem a lei na mão: constrangimento, humilhação, olhares julgadores, juízo de morte... sobre ela. Vítima de julgamento, ela está no centro da morte. Não há saída, perante a lei. Jesus, no entanto, toma outra atitude: desloca-se para o centro das atenções e se faz centro junto com a mulher; sua presença solidária continua deixando a mulher no centro; porém, Ele inverte a situação dela: ela agora está no centro da misericórdia, portanto, no centro da vida. 

Jesus, com sua presença misericordiosa, inverte o sentido do centro: antes, centro de exclusão e violência, agora, centro como ponto de partida para nova vida. Antes, um centro atrofiado que conduzia à morte; agora, centro expansivo, pois ativa e impulsiona a vida em direção a um novo horizonte de sentido.

A partir desse centro, junto a Jesus, a mulher poderá ser autora de sua nova existência; ela é movida a expandir esse centro, indo ao encontro dos outros para testemunhar a experiência que viveu: “vai e não peques mais”. Ela, agora, torna-se centro da vida pois recupera sua autonomia e poderá abrir-se ao novo futuro, como oferta da misericórdia.

Vivamos a Quaresma como um novo tempo para nossa sociedade, para a igreja, para as comunidades! Queira Deus que nos “beatifiquemos” uns aos outros “em vida”! Só reconhecendo, com um olhar apreciativo, o profundo, o que há de bondade no coração, a luz que cada um emite, engrandeceremos os outros e faremos que nossa sociedade, nossa comunidade, seja cada vez maior. A cultura do encontro, da acolhida, do apreço pelo outro, faz chegar o Reino de Deus.

Jesus sempre revelou um “olhar alternativo”, longe do julgamento, do desprezo e da humilhação. Ele não via as pessoas através do filtro “justos ou pecadores”, nem projetava nelas suas simpatias ou antipatias, seus medos e suas necessidades.

Jesus sempre foi a luz, sem sombras nem exclusões. Ninguém nunca ficou à margem da sua luz, pois seu olhar pousava sobre todo rosto, sem diferenças de raças, línguas ou religiões. Quando Jesus se aproximava da realidade condenada, a olhava de maneira diferente do olhar domesticado pelo moralismo. Por isso, diante da insistência das autoridades religiosas que argumentavam com as pedras nas mãos, Jesus faz um silêncio, tempo e espaço que também ajudam os acusadores a olhar de outra maneira. Olhando com amor há, sim, saída para a mulher adúltera. Se não olharmos a realidade com amor, toda a nossa visão estará adulterada. Compreendem-no as autoridades religiosas quando Jesus as convida a olhar a mulher com misericórdia e a partir de sua própria realidade de pecadores. Os varões deixam cair as pedras de sua segurança e da lei, abrindo suas mãos para acolher outra visão. Assim, a mulher é salva da morte, da lei, de seu pecado e do cerco social que lhe negava a vida, simbolizado nesse grupo de homens que a rodeava. Jesus olha a interioridade, ali onde essa mulher é amada pelo Pai, e resgata sua vida dos olhares de morte que a capturam. Nesse dia, o povo que rodeava Jesus aprendeu a olhar. 

Jesus é o mestre do olhar alternativo. Precisamente porque conhece o coração humano, Jesus acerta ao dizer: “Quem não tem pecado, que atire a primeira pedra”. Diante destas palavras, que desnudam as atitudes farisaicas daqueles que se achavam “justos”, todos se afastam. Ninguém é melhor que ninguém. Com quê direito julgamos, desqualificamos e condenamos? 

Texto bíblico:  Jo 8,1-11

Na oração: Em muitas situações difíceis da vida, o que salva é o olhar. Olhar com os “olhos cristificados”: eis o desafio. Não se trata de qualquer olhar. É o olhar limpo, diáfano, que desarma, que não esconde engano ou segundas intenções.
Contemplar o rosto do outro é sentir sua presença, sem pré-conceitos e pré-juízos..., vendo nele o sinal da ternura de Deus. Olhar admirado e gratuito, como aquele de Jesus, que transforma, que liberta e que se comove diante da realidade, especialmente da frágil realidade humana.

- Seu olhar: marcado pelo peso da lei ou pelo peso do amor? 

Pe. Adroaldo Palaoro sj

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