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terça-feira, 28 de março de 2017

TEXTO PRODUZIDO PELO ESCRITOR CYRO DE MATTOS SOBRE A ENTREVISTA DE HÉLIO PÓLVORA À CRÍTICA LITERÁRIA GERANA DAMULAKIS.

Este texto foi postado na ICAL há 2 anos

(Clique no link abaixo e veja a entrevista de Hélio Pólvora à crítica literária Gerana Damulakis):

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Carta do escritor Cyro de Mattos para a poetisa Eglê Machado

"Cara Eglê,

Não conhecia essa entrevista. A Gerana Damulakis, crítica conceituada na  Bahia,  tem escrito sempre sobre meus livros. Nunca me falou dessa entrevista. Por sinal, ela incluiu um conto meu, Inocentes e Selvagens, que me deu meu primeiro premio literário de expressão, o Internacional Miguel de Cervantes, para escritores brasileiros e portugueses, em 1966, na Antologia Panorâmica do Conto Baiano,  que ela organizou. E também prefaciou a segunda edição de meu livro Os Brabos, novelas, Prêmio Nacional Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras. 

Não se pode deixar de considerar que poucas  são as pessoas hoje  que gostam de ler a boa literatura. Pessoas que se dizem escritores nessa terra, por exemplo, deixando o pudor de lado,  poucos me leem. E os que estão começando nem sequer me enviam seus livros, com raríssima exceção.  Os escritores dessas bandas ou os que andam nessa praia das letras como tal  procuram mais encobrir ou agredir, sempre desfazer, excluir  para a afirmação pessoal. Usam a estratégia da omissão, de ocultar, torcer o nariz,  para relegar ao exílio ou ao esquecimento o autor aclamado pela crítica nacional, com várias reedições.   Não conhecem, também,  a valorosa escritora Itabunense Sonia Coutinho, contista e romancista das melhores no século XX,  no mesmo nível do Hélio. Muitos não conhecem nem mesmo  o trabalho intenso e extenso do Hélio Pólvora. Muitos acionam o  alarme quando o herói  está morto, assim é mais fácil pongar nas glórias do que partiu. 

Como é que um escritor da grandeza de Hélio Pólvora não ocupou uma cadeira na Academia Brasileira de Letras? Na sessão da saudade,  na Academia de Letras da Bahia, para homenagear a memória de João Ubaldo, no ano passado,  eu fiz essa  pergunta, finalizando minha fala. Sugeri que o nome do Hélio Pólvora fosse indicado para substituir o de João Ubaldo na Academia Brasileira de Letras, antes que fosse tarde. Hélio partiu e não teve, sem fazer favor, o reconhecimento e ser um  dos membros da Academia Brasileira de Letras. 

Você é uma exceção, cara Eglê.  Gosta de literatura, de bons autores, prestigia o que tem qualidade, divulgando no seu prestigioso blog.  Ao contrário, existem aqui e lá fora até os que tentam se apropriar da criação literária alheia,  na sanha de competir para sufocar e aparecer...

Sou admirador da obra de Hélio Pólvora, há muito tempo. Organizamos juntos a antologia ‘Contos Brasileiros de Bichos, publicada em 1968, a única no Brasil até hoje sobre o assunto, pelo menos com o número extenso de excelentes contistas que escreveram sobre o assunto. Os três mil exemplares da tiragem pela editora Bloch esgotaram-se rapidamente.  Hélio prefaciou meu primeiro livro. Foi generoso. O livro meu de estreia tem mais baixos do que altos. Retirei-o há anos de minha bibliografia. Ele enxergou em excesso  as avançadas qualidades da obra do estreante. Ele soube que eu nunca perdoei esse gesto dele.  Esse tipo de gesto amigo às vezes prejudica porque ilude, não ajuda.

Quanto à entrevista da Gerana Damulakis com o Hélio, que você teve a delicadeza costumeira de enviar, é maravilhosa, cheia de substância, erudição, observações lúcidas sobre a vida e a literatura. Diria sem medo de exagerar que a literatura foi a crença do Hélio Pólvora. Assim a entrevista não me surpreende quando se trata de Hélio Pólvora. Apenas estranhei ele não citar Adonias Filho como um dos grandes de suas afinidades eletivas. Ele que já escreveu textos primorosos sobre esse escritor grandão de nossa região. Isso acontece. A pesquisadora Nelly Novaes Coelho, professora emérita da USP, escreveu um livro de mais de 900 páginas sobre os melhores autores do século passado, fruto de estudos em mais de vinte anos. Seu monumental ‘Escritores Brasileiros do Século XX’, Editora Letra Selvagem, SP, 2014,  não traz uma linha sobre a boa literatura de Hélio Pólvora, sendo ela uma erudita, conhecedora profunda de nossa literatura, em todos os tempos. Estranhei. Dedicou mais de dez páginas sobre minha obra de contista e novelista no seu livro quando deveria se debruçar sobre a obra do escritor Hélio Pólvora, com mais volumes  e qualidades. Prova de que não somos completos e que a vida é falha. Escrevemos na tentativa de torná-la completa, inaugurar novos sentidos. E não conseguimos nesse mistério que é a vida, ficamos perdidos no labirinto de Orfeu  entre o primeiro vagido e o último suspiro.

Quando escrevo, morro; se não escrevo, morro também. (Gabriel Garcia Márquez)

Se quiser pode publicar essa conversa que acabo de ter com você. 
Abraços,
Cyro de Mattos"

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CARTA DE CAYMMI PARA JORGE AMADO: (Para quem não lembra o que é uma carta)

Carta de Caymmi para Jorge Amado


“Jorge, meu irmão, são onze e trinta da manhã e terminei de compor uma linda canção para Yemanjá, pois o reflexo do sol desenha seu manto em nosso mar, aqui na Pedra da Sereia. Quantas canções compus para Janaína, nem eu mesmo sei, é minha mãe, dela nasci.

Talvez Stela saiba, ela sabe tudo, que mulher, duas iguais não existem, que foi que eu fiz de bom para merecê-la? Ela te manda um beijo, outro para Zélia e eu morro de saudade de vocês.

Quando vierem, me tragam um pano africano para eu fazer uma túnica e ficar irresistível.

Ontem saí com Carybé, fomos buscar Camafeu na Rampa do Mercado, andamos por aí trocando pernas, sentindo os cheiros, tantos, um perfume de vida ao sol, vendo as cores, só de azuis contamos mais de quinze e havia um ocre na parede de uma casa, nem te digo. Então ao voltar, pintei um quadro, tão bonito, irmão, de causar inveja a Graciano. De inveja, Carybé quase morreu e Jenner, imagine!, se fartou de elogiar, te juro. Um quadro simples: uma baiana, o tabuleiro com abarás e acarajés e gente em volta.

Se eu tivesse tempo, ia ser pintor, ganhava uma fortuna. O que me falta é tempo para pintar, compor vou compondo devagar e sempre, tu sabes como é, música com pressa é aquela droga que tem às pampas sobrando por aí. O tempo que tenho mal chega para viver: visitar Dona Menininha, saudar Xangô, conversar com Mirabeau, me aconselhar com Celestino sobre como investir o dinheiro que não tenho e nunca terei, graças a Deus, ouvir Carybé mentir, andar nas ruas, olhar o mar, não fazer nada e tantas outras obrigações que me ocupam o dia inteiro. Cadê tempo pra pintar?

Quero te dizer uma coisa que já te disse uma vez, há mais de vinte anos quando te deu de viver na Europa e nunca mais voltavas: a Bahia está viva, ainda lá, cada dia mais bonita, o firmamento azul, esse mar tão verde e o povaréu. Por falar nisso, Stela de Oxóssi é a nova iyalorixá do Axé e, na festa da consagração, ikedes e iaôs, todos na roça perguntavam onde anda Obá Arolu que não veio ver sua irmã subir ao trono de rainha?

Pois ontem, às quatro da tarde, um pouco mais ou menos, saí com Carybé e Camafeu a te procurar e não te encontrando, indagamos: que faz ele que não está aqui se aqui é seu lugar? A lua de Londres, já dizia um poeta lusitano que li numa antologia de meu tempo de menino, é merencória. A daqui é aquela lua. Por que foi ele para a Inglaterra? Não é inglês, nem nada, que faz em Londres? Um bom filho-da-puta é o que ele é, nosso irmãozinho.

Sabes que vendi a casa da Pedra da Sereia? Pois vendi. Fizeram um edifício medonho bem em cima dela e anunciaram nos jornais: venha ser vizinho de Dorival Caymmi. Então fiquei retado e vendi a casa, comprei um apartamento na Pituba, vou ser vizinho de James e de João Ubaldo, daquelas duas ‘línguas viperinas, veja que irresponsabilidade a minha.

Mas hoje, antes de me mudar, fiz essa canção para Yemanjá que fala em peixe e em vento, em saveiro e no mestre do saveiro, no mar da Bahia. Nunca soube falar de outras coisas. Dessas e de mulher. Dora, Marina, Adalgisa, Anália, Rosa morena, como vais morena Rosa, quantas outras e todas, como sabes, são a minha Stela com quem um dia me casei te tendo de padrinho.

A bênção, meu padrinho, Oxóssi te proteja nessas inglaterras, um beijo para Zélia, não esqueçam de trazer meu pano africano, volte logo, tua casa é aqui e eu sou teu irmão Caymmi”.




(Enviado do meu smartphone Samsung Galaxy).

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