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segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

A LITURGIA “NO ALTAR DA HIPOCRISIA”? – Luiz Sérgio Solimeo


O Papa João XXIII celebra Missa Solene na Basílica de São Pedro, no início dos anos 60

 

Luiz Sérgio Solimeo

 

No voo de volta a Roma após sua viagem ao Chipre e à Grécia, em 6 de dezembro passado, respondendo a uma pergunta de jornalistas sobre a renúncia do arcebispo de Paris, Dom Michel Aupetit, o Papa Francisco explicou:

“Eu aceitei a renúncia de Aupetit, não sobre o altar da verdade, mas sobre o altar da hipocrisia. Era isto que eu queria dizer.”1

O Papa parece ter tomado a mesma atitude em relação à liturgia tradicional da Igreja. De fato, apesar dos flagrantes absurdos litúrgicos vistos nas celebrações do novo rito imposto à Igreja em 1969, tanto ele quanto o Arcebispo Arthur Roche — o primeiro com o ‘Motu Proprio’ Traditiones Custodes e o segundo com a Responsa ad dubia — restringiram drasticamente a celebração da Missa tradicional.2

As razões dadas para tais medidas se resumem em “restaurar a unidade litúrgica” e impor a aceitação das doutrinas do Concílio Vaticano II.

Abandono do “Altar da Verdade”

Ao deixar de reconhecer que a divisão entre os fiéis em relação à liturgia se deu precisamente por causa da renúncia ao rito de tradição apostólica e da imposição de um novo rito romano da Missa, sob a égide do Concílio, abandonou-se “o altar da verdade”.

Antes dessa mudança, um católico podia viajar para quase qualquer lugar do mundo e assistir à mesma Missa, na mesma língua universal da Igreja, com as mesmas orações, paramentos e, sobretudo, com recolhimento.


O Papa Paulo VI celebra missa no Ritus Modernus imposto por ele. A “venerável tradição secular” do rito litúrgico da tradição apostólica estava abolida.

‘Ritus Modernus’ substitui ‘Ritus Romanus’

O liturgista alemão Monsenhor Klaus Gamber prefere referir-se ao rito tradicional da Missa como Ritus Romanus, e chama o novo rito do Papa Paulo VI de Ritus Modernus. Ele explica que é impreciso e até incorreto chamar o rito romano tradicional de “Missa de São Pio V” ou “Missa tridentina”. Escreve ele: “No sentido estrito, não há ‘Missa Tridentina’, pois, pelo menos na conclusão do Concílio de Trento, não houve criação de um novo ordinário da Missa; e o ‘Missal de São Pio V’ nada mais é do que o Missal da Cúria Romana, que havia visto a luz em Roma séculos antes.”3

Paulo VI anuncia um “novo rito” da Missa

Em seu discurso de 26 de novembro de 1969, anunciando a entrada em vigor na Itália (e, mais tarde, no mundo inteiro) da “Nova Missa”, o Papa Paulo VI deixou claro que essa “novidade litúrgica” não consistia em modificações litúrgicas superficiais, mas em uma mudança completa no rito da Missa, à qual ele se referiu repetidamente com expressões como o “novo rito da Missa,” ou simplesmente o “novo rito”:

“Mais uma vez queremos convidar suas almas a se voltarem para a novidade litúrgica do novo rito da Missa, que será estabelecido em nossas celebrações do Santo Sacrifício, a partir do próximo domingo, primeiro domingo do Advento, 30 de novembro.” 4

Rompendo com a tradição da Igreja

Paulo VI reconhecia que, ao impor o seu “novo rito”, estava rompendo com a tradição litúrgica da Igreja:

Novo rito da Missa: é uma mudança em uma venerável tradição secular e por isso toca no nosso patrimônio religioso hereditário, que parecia ter de gozar de uma fixidez intangível e dever trazer aos nossos lábios a oração de nossos antepassados ​​e nossos santos e nos dar o conforto de uma fidelidade ao nosso passado espiritual, que tornamos atual para transmiti-lo às gerações futuras. Compreendemos melhor nesta contingência o valor da tradição histórica e da comunhão dos santos.

Gravidade da ruptura

Essas afirmações de Paulo VI são tanto mais graves quanto o Rito Romano (a “Missa Tridentina”) é de tradição apostólica. Agora, romper com a tradição apostólica acarreta problemas teológicos extremamente graves.

Mons. Klaus Gamber escreve: “Os papas observaram repetidamente que o rito [da Missa] é fundado na tradição apostólica”. Em nota, ele cita cartas dos papas Santo Inocêncio I (402-417) e Vigílio (538-555), que fazem essa afirmação. E continua comentando as opiniões de grandes teólogos do passado, como o Cardeal Caetano (+1534) e Suárez (+1617), de que “um papa seria cismático ‘[…] se ele mudasse todos os ritos litúrgicos da da Igreja que foram confirmados pela tradição apostólica’.” 5


Monges cantando gregoriano (Iluminura medieval) – Girolamo da Milano chamado Maestro Olivetano, séc. XV.

Sacrificando o latim, o canto gregoriano e outros tesouros

Tudo na Missa agora será diferente, acrescenta Paulo VI:

“Esta mudança toca na conduta cerimonial da missa; e notaremos, talvez com algum desconforto, que as coisas no altar não acontecem mais com aquela identidade de palavras e gestos a que estávamos tão acostumados, que quase não prestávamos mais atenção neles.”

Paulo VI tinha bem ciência de que estava sacrificando o latim, essa insubstituível “língua angélica” e outros preciosos valores espirituais da Igreja:

“Aqui, é claro, será sentida a maior novidade: a da língua. O latim não será mais a língua principal da missa, mas a língua falada. Para quem conhece a beleza, o poder, a expressiva sacralidade do latim, certamente a substituição pela língua vulgar é um grande sacrifício: perdemos a linguagem dos séculos cristãos, nos tornamos quase intrusos e profanos no recinto literário da expressão sagrada, e assim perderemos grande parte desse maravilhoso e incomparável fato artístico e espiritual, que é o canto gregoriano.” E prossegue:

“Temos, de fato, motivos para lamentar, quase nos sentirmos perdidos. O que podemos colocar no lugar dessa língua angélica? Estamos abrindo mão de algo de valor inestimável.”

Resposta humana banal e prosaica

O Pontífice faz esta pergunta óbvia:

“E por que razão? Que coisa vale mais do que esses altíssimos valores da nossa Igreja?”

E responde:

“A resposta parece banal e prosaica, mas é válida, porque é humana, porque é apostólica. O entendimento da oração vale mais do que as roupas sedosas e vetustas com as quais ela foi regiamente vestida; a participação do povo vale mais, deste povo moderno saturado de palavras claras e inteligíveis, traduzíveis em sua conversa profana. Se a divina língua latina mantivesse a infância, a juventude, o mundo do trabalho e dos negócios segregados de nós, se ela fosse um diafragma opaco em vez de um cristal transparente, nós, os pescadores de almas, faríamos bem em preservar para ela o domínio exclusivo da oração e da conversação religiosa?”

Valeu a pena?

         Passado meio século, cabe perguntar: valeu a pena?

“grande sacrifício” de abandonar “a divina língua latina” e substituí-la pela “língua usada na conversa profana” aproximou da Igreja as crianças, os jovens, “o mundo do trabalho e dos negócios”?

Não. Aconteceu o contrário: as igrejas esvaziaram-se e poucos católicos agora vão à missa.

As igrejas que se enchem aos domingos e dias santos de guarda são precisamente aquelas onde se celebra a Missa segundo o Vetus Ordo, em latim, e ressoa o canto gregoriano.

Na realidade, foram a banalidade e o prosaismo introduzidos por Paulo VI na celebração da Missa que, em grande parte, afastaram os fiéis.

Conclui-se a obra demolidora iniciada por Paulo VI?


Em seu motu proprio Traditionis Custodes, de 16 de julho de 2021, e sua carta explicativa aos bispos, o Papa Francisco restringiu brutalmente e o máximo possível (com vistas a extinguir) a celebração da Santa Missa no rito tradicional, embora este seja de origem apostólica, como vimos.

Responsa ad dubia da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, assinada pelo Arcebispo Arthur Roche em 4 de dezembro de 2021, endureceu ainda mais as disposições já draconianas do Motu Proprio Traditionis Custodes.

Ao travar sua guerra total contra a liturgia tradicional da Missa, para destruir este monumento da piedade cristã, o Papa Francisco está completando o trabalho de autodemolição da “venerável tradição secular” do rito litúrgico da tradição apostólica.

Apelos foram inúteis

Na época, a notícia do abandono da liturgia tradicional latina teve um impacto profundo não apenas nos católicos praticantes, mas também nos não-católicos.

Em 1971, cinquenta intelectuais e artistas, entre católicos, não-católicos e até judeus, enviaram ao Papa Paulo VI e tornaram público um apelo implorando a manutenção da liturgia tradicional, como patrimônio da humanidade.

Entre outras coisas, a Declaração de Acadêmicos, Intelectuais e Artistas Vivendo na Inglaterra dizia:

“Se algum decreto sem sentido ordenasse a destruição total ou parcial de basílicas ou catedrais, então obviamente seriam as pessoas cultas — quaisquer que fossem suas crenças pessoais — que se levantariam horrorizadas para se opor a tal possibilidade.

“Ora, o fato é que as basílicas e as catedrais foram construídas para celebrar um rito que, até poucos meses atrás, constituía uma tradição viva. Estamos nos referindo à Missa Católica Romana. No entanto, de acordo com as últimas informações em Roma, há um plano para fazer desaparecer essa Missa até o final do ano em curso…

“Não estamos neste momento considerando a experiência religiosa ou espiritual de milhões de indivíduos. O rito em questão, em seu magnífico texto latino, também inspirou uma série de realizações inestimáveis ​​nas artes — não apenas obras místicas, mas obras de poetas, filósofos, músicos, arquitetos, pintores e escultores em todos os países e épocas. Assim, pertence à cultura universal, bem como aos clérigos e cristãos formais.”6

Apelo dos cardeais

Ainda mais críticos do que esse apelo de intelectuais e artistas, que entenderam bem o vínculo entre beleza e verdade, são os trabalhos de teólogos, padres e leigos que mostram como a nova Missa se afastou do Concílio de Trento e se aproximou do protestantismo.

Em junho de 1969, os cardeais Alfredo Ottaviani e Antonio Bacci enviaram ao Papa Paulo VI uma carta de apresentação de um estudo intitulado Breve exame crítico do Novus Ordo Missae. Sua carta contém esta afirmação muito séria:

“O Novo Ordinário representa, tanto em seu todo como nos detalhes, uma nova orientação teológica da Missa, diferente daquela que foi formulada na Sessão XXII do Concílio de Trento. Os ‘Canons’ do rito, definitivamente fixados naquele tempo, proporcionavam uma intransponível barreira contra qualquer heresia dirigida contra a integridade do Mistério”.7



Exemplo da falta de sacralidade da missa no “novo rito”: na paróquia da Natividade de Maria, em Aschaffenburg, Alemanha, no passado dia 3 de outubro. O pároco Markus Krauth celebrava oficialmente o Erntedankfest alemão, a festa anual de ação de graças a Deus pela colheita. Mas decidiu comemorá-la como Erdedankfest, substituindo a palavra “colheita” (Ernte) pela palavra “terra” (Erde). O altar foi simbolicamente um monte de terra…

Missa sem sacralidade

O novo rito perdeu aquela sacralidade e mistério que o latim lhe dava, a reverência do sacerdote diante de Deus no altar, rezando em voz baixa, como se aniquilado diante da grandeza de servir como instrumento de Nosso Senhor Jesus Cristo para consagrar e imolar a Vítima divina em forma sacramental, renovando assim o Sacrifício do Calvário.

No “novo rito” de Paulo VI, a Missa tornou-se uma tagarelice contínua, um diálogo constante e banal entre o celebrante e a assembleia, sugerindo que os fiéis concelebram com o sacerdote. Ele põe tanta ênfase na assembleia, que o Pe. Joseph de Sainte-Marie, O.C.D., observou que “ao absolutizar esse aspecto comunitário”, a nova Missa “levou ao antropocentrismo, [com] a assembleia celebrando-se a si mesma”.8

Não é de admirar, então, que tenha havido tantas aberrações e absurdos na celebração da Missa de acordo com o Novus Ordo Missae ao longo desses cinquenta anos.

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Notas:

  1. Viagem Apostólica do Papa Francisco ao Chipre e à Grécia (2-6 de dezembro de 2021). Coletiva de Imprensa durante o voo de retorno a Roma (6-12-21). https://www.vatican.va/content/francesco/pt/speeches/2021/december/documents/20211206-grecia-volodiritorno.html. Acessado em 27-12-21.
  2. Ver: Lettera Apostolica in forma di Motu «Proprio» del Sommo Pontefice Francesco «Traditionis Custodes» Sull’uso della Liturgia Romana anteriore alla Riforma del 1970. (16-7-21). https://www.vatican.va/content/francesco/it/motu_proprio/documents/20210716-motu-proprio-traditionis-custodes.html; Lettera del Santo Padre Francesco ai Vescovi di tutto il Mondo per presentare il Motu Proprio «Traditionis Custodes» Sull’uso Della Liturgia RomanaAnteriore Alla Riforma Del 1970. Roma, 16-7-21; Congregazione per il Culto Divino e la Disciplina dei Sacramenti. Responsa Ad Dubia su alcune disposizioni della Lettera Apostolica in forma di «Motu Proprio»Traditionis Custodes del Sommo PonteficeFrancesco ai Presidenti delle Conferenze dei Vescovi. https://www.vatican.va/roman_curia/congregations/ccdds/documents/rc_con_ccdds_doc_20211204_responsa-ad-dubia-tradizionis-custodes_it.html. Acessados em 27-12-21.
  3.  Monsenhor Klaus Gamber, The Reform of the Roman Liturgy: Its problems and Background, (San Juan Capistrano, Califórnia: Una Voce Press; Harrison, N.Y.: The Foundation for Catholic Reform, 1993), p. 23.
  4. Paolo VI. Udienza Generale. Mercoledì, 26 novembre 1969. “Effusione degli animi nella Assemblea Comunitaria, ricchezza del nuovo rito della Santa Messa”. https://www.vatican.va/content/paul-vi/it/audiences/1969/documents/hf_p-vi_aud_19691126.html, acessado em 22-12-21 (Tradução nossa).
  5. Monsenhor Klaus Gamber, op. cit., pp. 34-36 (grifo nosso), e nota 26. Ver também Arnaldo Xavier da Silveira, Theological and Moral Implication of the “Novus Ordo Missae”, (Cleveland, Ohio: Lumem Mariae Publications), p. 258ss.
  6. “1971 Statement by Scholars, Intellectuals, and Artists Living in England,” https://web.archive.org/web/20161020002716/http:/www.institute-christ-king.org/uploads/main/pdf/england– statement.pdf, acessado em 29-12-21.
  7.  Carta dos Cardeais Ottaviani e Bacci à Sua Santidade Papa Paulo VI. Roma, 25 de setembro, 1969. https://pelafecatolica.com/2016/05/25/breve-exame-carta-cardeais-ottaviani-bacci/ (grifo nosso), acessado em 12-01-22. O fato, sobre o qual há muita confusão, de que o Cardeal Ottaviani tenha retirado seu nome dessa iniciativa não altera a veracidade da afirmação. A crítica é comprovada pelo estudo que os Cardeais encaminharam, e também por publicações de inúmeros autores como, por exemplo, a de Arnaldo Xavier da Silveira, citada acima.
  8. P. Joseph de Sainte-Marie, O.C.D., L’Eucharistie Salut du Monde, Ed. Dominique Martin Morin (Paris: Les Éditions du Cèdre, 1982), p. 134. (Tradução nossa).

 

https://www.abim.inf.br/a-liturgia-no-altar-da-hipocrisia/

 

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quinta-feira, 12 de agosto de 2021

CÃES MUDOS – Péricles Capanema


Péricles Capanema

 

O brado por liberdade e pão. Poucas semanas atrás o povo cubano exprimiu sua indignação pela tirania de décadas que o oprime. Falta de alimentos (fome, em português simples) e de vacinas foram o estopim próximo para a explosão da revolta popular. Manifestantes que lutavam por liberdade e pão acabaram presos, ameaçados, surrados. No mundo inteiro, para vergonha da gente que presta, governos e personalidades se manifestaram não a favor do povo, mas na defesa do governo opressor.

Favorecimento dos torcionários. Destaco quatro reações muito significativas. Lula aprovou o regime e escreveu: “O que está acontecendo em Cuba de tão especial pra falarem tanto? Houve uma passeata. Inclusive vi o presidente de Cuba na passeata, conversando com as pessoas. Cuba já sofre 60 anos de bloqueio econômico dos EUA, ainda mais com a pandemia, é desumano”. O PT secundou as manifestações do seu morubixaba. Cuba continua inspiração, tumor de estimação, para o PT.

Nicolás Maduro, presidente da Venezuela, elogiou também o governo cubano: “Se os Estados Unidos e a oposição extremista querem realmente ajudar o povo cubano, levantem imediatamente todas as sanções e o bloqueio contra o povo cubano. Ofereço todo o apoio da República Bolivariana da Venezuela ao povo de Cuba, ao governo revolucionário de Cuba.”

Por seu lado, a China se apressou em sustentar a tirania em Cuba. Entre outras manifestações, em Brasília a embaixada chinesa divulgou comunicado: “A China se opõe à interferência estrangeira nos assuntos internos de Cuba e apoia o que Cuba tem feito na luta contra a Covid-19″.

Finalmente, declarou o ministro das Relações Exteriores da Rússia: “Vamos continuar apoiando Cuba em tudo, não apenas moral, ou politicamente, não apenas por meio do desenvolvimento da cooperação técnico-militar, mas também promovendo ativamente o comércio, projetos econômicos que permitam à economia deste país ser mais firme diante de ataques externos. Acredito que vamos conseguir”.

Uma poderosa voz de consolo. Em sentido contrário, o governo dos Estados Unidos colocou-se ao lado do povo cubano: “Estamos com o povo cubano e seu apelo alto e claro por liberdade e alívio”. Condenou as “décadas de repressão e sofrimento econômico a que foi submetido pelo regime autoritário cubano”. E aduziu: “O povo cubano está reivindicando com bravura seus direitos fundamentais e universais”.

A mão que apaga e a voz que adormece. Nesse ambiente, o Papa Francisco decepcionou os católicos cubanos com declaração ambígua: “Estou muito próximo do povo cubano nesses momentos difíceis, em particular das famílias que sobretudo sofrem. Rezo ao Senhor para que ajude a construir na paz, diálogo e solidariedade uma sociedade cada vez mais justa e fraterna”.


Angústia corajosa e lúcida.
Ninguém expressou melhor a decepção que dona Maria Victoria Olavarrieta [foto], cubana exilada em Miami, em mensagem ao Papa Francisco, carta amplamente divulgada (está na rede), da qual coloco aqui alguns trechos: “Os católicos cubanos, desde que começaram os protestos em Cuba, estamos esperando que o senhor levante sua voz. Dói muito que, enquanto reprimem o povo que saiu às ruas pedindo liberdade, o senhor tenha palavras para felicitar o triunfo da Argentina na Copa América. Nossa Igreja foi perseguida, ameaçada, vigiada, invadida pelos agentes de segurança do Estado. O senhor disse aos jovens: ‘Lutem por seus sonhos, mas sonhem em grande, não deixem de sonhar’.Os jovens cubanos que nasceram na ditadura e foram doutrinados, educados em escolas ateias, em uma sociedade de partido único, que cresceram — alguns comendo e se vestindo com as ajudas de seus familiares no exílio, e outros na miséria mais absoluta —, estão sonhando em ver seu país livre. O senhor os convidou a sonhar, e agora que os estão matando por gritarem seus sonhos, o senhor guarda silêncio! Tive diversos alunos venezuelanos e vi o sofrimento de seus pais, porque o senhor guardou silêncio quando assassinavam os estudantes nas ruas de Caracas. As pessoas morrem de fome na Venezuela, e o senhor não condena publicamente os responsáveis. O sangue correu na Nicarágua. O Papa fala de tudo, mas dos crimes dos ditadores e dessas três tiranias irmãs o senhor não opina. O Vigário de Cristo na Terra não deve discriminar suas ovelhas. As ovelhas vítimas dos regimes comunistas, sentimo-nos como se fôssemos suas ovelhas negras. Hoje quero ser a voz das mães cubanas que estão vendo seus filhos passar fome, que não têm remédio; quero lhe apresentar a dor das avós cujos netos foram fuzilados gritando ‘Viva Cristo Rei!’, a vergonha dos pais que não conseguem sustentar os filhos com o fruto de seu trabalho, e vivem mal, esperando as remessas enviadas por seus familiares do exterior. Apresento-lhe a tortura dos presos políticos; o ódio de irmão contra irmão que os Castros semearam; os idosos que viram partir a família que criaram, e morreram sem nunca mais verem seus filhos e netos! Nós, cubanos, nos sentimos abandonados, órfãos do Papa”.

Cães mudos. Nem há o que comentar, o texto fala mais que qualquer glosa. Enquanto lia a mensagem da angustiada e abandonada católica cubana, vinham-me à mente trechos bíblicos, sua elevação e ensino fortalecerão os católicos cubanos em seu desamparo. “As suas sentinelas estão todas cegas, todas se mostraram ignorantes; são cães mudos, que não podem ladrar, que veem coisas vãs, que dormem, e que amam os sonhos” (Is 56, 9-10). “E, se algum de vós pedir pão a seu pai, porventura dar-lhe-á ele uma pedra? Ou, se lhe pedir um peixe, porventura, dar-lhe-á ele, em vez de peixe, uma serpente? Ou se lhe pedir um ovo, porventura dar-lhe-á um escorpião?” (Lc 11, 11-12). “Eu vi a aflição do meu povo no Egito, e ouvi o seu clamor causado pela crueza daqueles que têm a superintendência das obras. E, conhecendo a sua dor, desci para o livrar das mãos dos egípcios” (Ex 3, 7-8).


https://www.abim.inf.br/caes-mudos/

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segunda-feira, 19 de julho de 2021

CATÓLICA CUBANA IMPLORA AO PAPA QUE ROMPA O SILÊNCIO E CONDENE O COMUNISMO


Que o Pastor proteja suas ovelhas e não permita que elas sejam devoradas pelo lobo…

Paulo Roberto Campos

María Victoria Olavarrieta, uma senhora católica cubana, mandou uma muito importante carta ao Papa Francisco.

Em termos respeitosos, mas firmes, ela suplica que o Pontífice — em vista dos recentes protestos em várias cidades de Cuba contra o cruel regime fidelcastrista — rompa o silêncio e condene o comunismo cubano.

Ela pede também que condene a ditadura venezuelana e a nicaraguense, que, assim como em Cuba, tiraniza suas populações, levando muitas famílias a passar fome, muitos a fugir de seus países e causar numerosas mortes.

Entre várias advertências, a Senhora María Victoria Olavarrieta chama a atenção para fato de o Papa ser sempre muito loquaz em questões de menor importância, como felicitando a Argentina pela vitória na Copa América, ou condenar o fato de pessoas jogarem garrafas de plástico no mar, mas não diz nada, por exemplo, de que, além de plástico, nas águas marítimas de Cuba haver restos de muitos cadáveres de pessoas que morreram afogadas na tentativa de escapar da tirania comunista na ilha-presídio subjugada pelos irmãos Castro.

A seguir a gravação da comovente carta e, mais abaixo, seu texto, publicado no “Diário Las Américas” (16 de julho de 2021), que, esperamos, comova também o Papa e que, por fim, ele condene firmemente o comunismo e o bolivarianismo que destroem nações irmãs na América Latina.  



https://blogdafamiliacatolica.blogspot.com/2021/07/catolica-cubana-implora-ao-papa-que.html

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TEXTO DA CARTA DA SRA. MARÍA VICTORIA OLAVARRIETA



“Católicos cubanos, desde o início dos protestos em Cuba, esperamos que levantem a voz. Dói muito que enquanto reprimem as pessoas que saíram às ruas pedindo liberdade, você tenha palavras para felicitar o triunfo da Argentina na Eurocup, fale sobre o lixo plástico nos mares e não tenha feito uma oração pública pelos mortos, os detidos , os desaparecidos e todos aqueles que estão assustados em suas casas em todo o nosso país.

Nos mares de Cuba, Santidade, além do plástico, estão os restos mortais de muitos cubanos que se afogaram tentando escapar da grande prisão em que os Castros transformaram meu país.

Nossa igreja foi perseguida, ameaçada, vigiada, invadida por agentes de segurança do Estado. No momento temos um seminarista ausente, Rafael Cruz Débora. Se os bispos cubanos têm medo de falar, de ficar ao lado do povo, eu os entendo, não sabemos as ameaças que lhes são feitas, mas você, com a imunidade que sua hierarquia lhe confere, pode falar, e nos defender.

Ontem, em Havana, tentaram recrutar um jovem que já havia completado o serviço militar obrigatório, para treiná-lo para espancar os manifestantes. Entraram em sua casa, o ameaçaram na frente dos pais e como o menino recusou, fizeram-no assinar uma carta dizendo que não iria aonde a revolução precisava dele e avisaram que quando tudo isso acontecesse ele iria para a prisão.


Isso foi ontem, hoje eles estão sendo arrastados, sem pedir nada. Pais com filhos em idade militar estão apavorados.

Você disse aos jovens: ... "Lute pelos seus sonhos, mas sonhe grande, não pare de sonhar." Os jovens cubanos que nasceram na ditadura, que foram doutrinados, educados em escolas ateístas, em uma sociedade de partido único, que cresceram, alguns comendo e se vestindo com a ajuda de suas famílias no exílio e outros na miséria absoluta, eles estão sonhando em ver seu país livre. Você os convidou a sonhar e agora que estão sendo mortos por gritarem seus sonhos, você fica em silêncio.

Você pediu a seus pastores para sentir o cheiro de ovelhas. Dos padres cubanos que se aliaram abertamente ao povo, alguns estão sendo espancados pela polícia, detidos e silenciados por seus bispos que temem por suas vidas. E sobre o assédio do governo aos bispos, você, que é o Papa, deveria saber mais do que eu.

Como dói, padre, as freiras e os padres cubanos com quem o senhor pôde falar, que olhe para o outro lado. Hoje uma freira cubana me disse que não poderia conceber que você não tivesse algumas palavras para Cuba neste momento em que o mundo inteiro fala sobre os abusos do regime. E muito baixinho, com a voz embargada de dor, quase como se falasse consigo mesma, ela sussurrou: Algum dia ela terá que enfrentar o Senhor.

Santidade, conheces a mensagem da Virgem de Fátima. O comunismo deve ser muito ruim, pois entre todas as coisas ruins do mundo, nossa Mãe queria deixar instruções de como poderíamos evitar que aquele mal se espalhasse pelo mundo.

Você teve muitos estudantes venezuelanos e viu o sofrimento de seus pais porque guardou silêncio quando os estudantes foram assassinados nas ruas de Caracas, as pessoas passam fome na Venezuela e você não condena publicamente os responsáveis.

O sangue corre na Nicarágua e o Papa fala de tudo, mas você não tem opinião sobre os crimes dos ditadores dessas três irmãs tiranias.

Santo Padre, a cristandade não precisa de um líder social nem de um diplomata, queremos um pastor, uma pedra firme onde a Igreja se possa sustentar. O vigário de Cristo na terra não deve discriminar suas ovelhas. As ovelhas vítimas dos regimes comunistas, nos sentimos como se fôssemos suas ovelhas negras.

Pedes sempre que rezemos por ti, peço que rezemos e ajamos para que não morram mais pessoas na Nicarágua, Venezuela e Cuba.

Eu gostaria de ter escrito em um tom diferente, em todos os meus artigos onde sempre o menciono, sempre o mencionei. Mas hoje quero ser a voz das mães cubanas, que veem seus filhos passarem fome, que não têm remédio, quero apresentar a dor das avós cujos netos foram baleados gritando "Viva Cristo Rei", a vergonha dos pais que não conseguem sustentar os filhos com o fruto do trabalho e vivem mal esperando as remessas enviadas por seus parentes do exterior.

Apresento a tortura dos presos políticos, o ódio de irmão contra irmão que os Castros semearam, os idosos que viram partir e morrer a família que criaram, sem nunca mais verem seus filhos e netos.

Clamamos aos céus que neste 13 de julho, enquanto nos lembramos das crianças, mulheres, homens que se afogaram no rebocador "13 de março" que o governo cubano afundou em alto mar, tínhamos que curar, sem ter o quê, as feridas que a polícia e seus cães causaram aos pacíficos manifestantes em muitas cidades de Cuba.

Nós, cubanos, nos sentimos abandonados à nossa sorte, em 62 anos não fomos capazes de nos libertar. Hoje eles enfrentam um exército armado, sem líderes e até agora, órfãos do Papa.

Papa Francisco, perdoe-me se o ofendo, mas tive que escolher entre a respeitosa aquiescência devida a um bispo e a defesa das vítimas do comunismo. Lamento saber que você é um papa comunista. O comunismo destrói a moral dos povos, sua religião, sua esperança.

Ontem em Miami, 4 Filhas da Caridade saíram para protestar nas ruas, junto com as pessoas, algumas delas idosas. Irmã Consuelo, do México e Irmã Elvira, Irmã Reinelda e Irmã Rafaela, cubana. Entre as pessoas eu ouvi dizer: Sem feno Papa, mas tem freiras. Cristo está conosco!

 

Ajude-nos, padre.

Eu continuo orando por você.

Maria Victoria Olavarrieta

Católica cubana

 

https://www.abim.inf.br/catolica-cubana-implora-ao-papa-que-rompa-o-silencio-e-condene-o-comunismo/

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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

ABORTO NÃO É UMA QUESTÃO RELIGIOSA?



Luiz Sérgio Solimeo

 

Os católicos argentinos deram um exemplo para o mundo ao lutar valentemente contra a legalização do aborto [fotos acima e abaixo]. Entretanto, eles não tiveram o apoio do papa argentino, uma vez que a agenda dele não inclui tais preocupações. Com efeito, o silêncio do Papa Bergoglio a propósito da legalização do aborto no seu país foi chocante.


Por exemplo, o Prof. José Arturo Quarracino destaca que em sua última mensagem de Natal, o Papa Francisco falou sobre os problemas de vários países, mas não disse palavra sobre a Argentina, sua terra natal. Ele ressaltou que esta indiferença confirma o que se comenta entre os bispos e padres amigos de Bergoglio, ou seja, que o aborto não é assunto tão importante como o meio ambiente ou os migrantes.1

Esse silêncio é ainda mais inexplicável considerando que o Papa tem boas relações com o presidente da Argentina, Alberto Fernández. Este, pouco depois de ser eleito, foi calorosamente recebido por Francisco [foto ao lado].


Por sua vez o Prof. Rubén Peretó Rivas escreveu: “O presidente argentino, Alberto Fernández, foi quem promoveu a lei e se comprometeu a pressionar pessoal e insistentemente vários legisladores para que mudassem de voto e permitissem sua aprovação [do aborto]. É o mesmo presidente que foi saudado com complacência e largos sorrisos pelo Sumo Pontífice em 31 de janeiro de 2020, o mesmo que naquele dia assistiu à missa celebrada pelo Arcebispo Marcelo Sánchez Sorondo para ele e seus acompanhantes na cripta da Basílica do Vaticano — onde se encontra o túmulo de São Pedro — onde comungou com a sua concubina, a ex-showgirl Fabiola Yañez”.2 Afinal, estamos no tempo de Amoris Laetitia

O Papa Francisco, em cartas privadas às pessoas que o consultaram sobre o seu pronunciamento de o aborto não ser principalmente uma questão religiosa religiosa, repetiu a sua declaração.3 Essa postura sugere que não se deve empreender uma luta religiosa para bloquear a legalização desse pecado grave. Numa dessas cartas — embora privada, foi publicada pela Conferência Episcopal Argentina — o Papa afirmou: “A [uma carta] me perguntando sobre o problema do aborto, eu respondi […] [que] o assunto do aborto não é principalmente uma questão religiosa, mas humana, uma questão de ética humana anterior a qualquer confissão religiosa”.4

E prosseguiu sugerindo que argumentos não religiosos sejam usados na luta contra o aborto: “Sugiro que você se faça duas perguntas: — É justo eliminar uma vida humana para resolver um problema? — É justo contratar um assassino para resolver um problema?”5      Uma coisa é utilizar tanto argumentos religiosos quanto os de bom senso. Outra é dizer que o aborto não é principalmente uma questão religiosa.

Em questões morais, como o aborto, o argumento mais decisivo é o religioso, pois coloca a pessoa diante de seu destino eterno, seu fim último. Isso é especialmente verdadeiro em um país católico como a Argentina. Afirmar que o aborto não é fundamentalmente uma questão religiosa é negar que ele, acima de tudo, é uma grave ofensa a Deus. É a morte deliberada de um ser humano inocente. É um dos quatro pecados que clamam ao Céu por vingança.6

Além disso, o aborto vai contra a infinita sabedoria de Deus ao vincular a relação sexual natural à procriação da humanidade. Também vai contra Sua adorável vontade, que determina que o ato sexual deve ser realizado apenas no casamento e sem interferências que o tornem infrutífero. O aborto é, portanto, uma revolta contra Deus, “aversio a Deo, conversio ad creaturam” — afastar-se de Deus, voltar-se para algum bem criado — como Santo Agostinho definiu o pecado.7


A mulher que procura um aborto voluntariamente, e a equipe médica que o pratica, pecam por ação. Quem deveria se opor à legalização do aborto e não o faz, peca por omissão. Santo Tomás de Aquino afirma que ser negligente em “um ato ou circunstância necessária à salvação é um pecado mortal”.8 O aborto é um pecado mortal extremamente grave. Além de uma ofensa grave contra Deus, tem consequências na vida moral e social de um povo.

Assim, aqueles cuja missão é guiar, sobretudo espiritualmente, e não se opõem de modo ativo ao aborto, mas se limitam a declarações ambíguas ou oposição branda, desproporcional à situação, cometem um pecado grave. Sua omissão contribui para que o pecado do aborto provocado se generalize. Ajuda a fazer com que o crime pareça “normal”, levando muitos a pecar.

O Papa São Félix III já advertia no século V, que “um erro ao qual não se opõe, é considerado aprovado; uma verdade defendida de modo minimalista, é abolida […]. Quem não se opõe a um crime evidente, está sujeito à suspeita de secreta cumplicidade”.9

As autoridades religiosas que não combateram a legalização do aborto neste país católico como era seu dever, devem prestar contas a Deus por sua responsabilidade neste pecado nacional. “Que fizeste? A voz do sangue de teu irmão clama da terra por mim” (Gênesis 4,10).

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Notas:

  1. Marco Tossati, “Quarracino. Aborto en Argentina: la Indiferencia del Papa Bergoglio,” Stilum Curiae, Dec. 26, 2020, https://www.marcotosatti.com/2020/12/26/quarracino-aborto-en-argentina-la-indiferencia-del-papa-bergoglio/.
  2. See Aldo Maria Valli, “L’aborto in Argentina e gli amici di papa Francesco,” AldoMariaValli.it, Dec. 30, 2020, https://www.aldomariavalli.it/2020/12/30/laborto-in-argentina-e-gli-amici-di-papa-francesco/. “Presidente argentino concubino y abortista recibe la Comunión en el Vaticano (Vídeo)”, https://gloria.tv/post/hwVfRJqDfVYR343VMcFmfztU8, acessado em 13 de Jan.de 2021.
  3. Elisabetta Piqué, “Fuerte condena del papa Francisco al aborto: ‘¿es justo cancelar una vida humana para resolver un problema?’” La Nación, Jan. 10, 2021, https://www.lanacion.com.ar/politica/fuerte-condena-del-papa-al-aborto-es-nid2566081.
  4. Conferencia Episcopal Argentina, “Carta del Papa Francisco a sus alumnos y compañeros de colegio,” Episcopado.org, Dec. 5, 2020, https://episcopado.org/contenidos.php?id=2707&tipo=unica.
  5. Ibid.
  6. “8. P: Quais são os pecados que bradam ao Céu e pedem a Deus por vingança? – R: Os pecados que bradam ao Céu e clamam a Deus por vingança são quatro: 1º. Homicídio voluntário; 2º. Pecado impuro contra a natureza; 3º. Opressão dos pobres, principalmente órfãos e viúvas; 4º. Não pagar o salário a quem trabalha. P: Por que se diz que estes pecados pedem vingança a Deus? Porque o diz o Espírito Santo, e porque a sua malícia é tão grave e manifesta, que provoca o mesmo Deus a puni-los com os mais severos castigos” (Catecismo Maior de São Pio X, Diocese de Campos, RJ).
  7. Battista Mondin, Dizionario Enciclopedico del Pensiero di San Tommaso d’Aquino (Bologna: Edizione Studio Domenicano, 1991), 445.
  8. Summa Theologiae, II–II, q. 54, a.3, c.
  9. Citado por Leão XIII na Encíclica Inimica vis (Sobre a Maçonaria), 8 Dez.1892, no. 7. http://www.vatican.va/content/leo-xiii/en/encyclicals/documents/hf_l-xiii_enc_08121892_inimica-vis.html

 

https://www.abim.inf.br/aborto-nao-e-uma-questao-religiosa/

 

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quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

EXCLUSÃO E EMPOBRECIMENTO – Péricles Capanema

13 de janeiro de 2021


Péricles Capanema

 

No dia 21 de dezembro, o Papa Francisco em mensagem de Natal para a Cúria Romana repentinamente desfechou: “E recordo o que dizia aquele santo bispo brasileiro: ‘Quando me ocupo dos pobres, dizem de mim que sou um santo; mas, quando me pergunto e lhes pergunto: ‘Por que tanta pobreza?”, chamam-me ‘comunista’”.

Também vou recordar, apontando evidências. O “santo bispo brasileiro” a quem ele se refere é Dom Hélder Câmara (1909 – 1999) [foto acima]. E a frase lembrada não passa de uma “boutade” de Dom Hélder, frasista conhecido, foi pirueta para escapar de censura pertinente de que sua ação favorecia o comunismo.

A alusão inesperada do Papa Francisco — é penoso constatar, contudo inevitável, incoercível a lógica, foi propaganda mundial para Dom Hélder, com reflexo caloroso também para o comunismo, nomeado sem reservas como movimento que luta pelos pobres — suscitou esperada alegria na esquerda. Apenas como exemplo, festejou-a Fernando Haddad, candidato derrotado do PT nas últimas eleições presidenciais: “Dom Hélder foi citado pelo Papa Francisco na sua mensagem de Natal. Não poderia ser mais inspirador”. Inspirador aqui significa animador. Em sentido contrário, tais palavras contristaram os setores que temem a ascensão do petismo. Desconcertaram, jogaram muitos no desânimo.

De passagem, em perspectiva ampla, a alusão do Pontífice é de molde a agravar a exclusão social, racha a sociedade ainda mais, piora as perspectivas para os menos favorecidos. Na prática, agride a causa dos pobres e bafeja estruturas de opressão. Falarei sobre isso abaixo.

Agora, recordações esclarecedoras, pingo sobre alguns dos principais iis. Dom Hélder teve carreira versátil. Integralista desenvolto nos primeiros anos de sacerdócio (ordenado em 1931), acabou aclamado por correntes de esquerda no mundo inteiro por sua ação contínua a favor da pauta dela, em especial nos anos de episcopado (sagrado em 1952). Aliás, não saiu do integralismo batendo a porta: “Nunca rompi com o integralismo”, observou em 1983.

Assim, depois de alguns anos como ativista saliente do integralismo, migrou resolutamente para se transformar no Brasil no mais decisivo promotor da agenda do progressismo e do esquerdismo nas fileiras do Clero e do Episcopado.


Ainda na década de 30 Dom Hélder se aproximou do ideário e das propostas de Jacques Maritain (1882-1973), pensador de grande influência na Ação Católica brasileira. O filósofo francês, corifeu do liberalismo católico, promovia a junção das doutrinas da Revolução Francesa com o ensinamento da Igreja, expressa de forma concisa em sua formulação “sociedade laica, vitalmente cristã”. Já não se procuraria a ordem temporal cristã, ideal de restauração, mas se aceitaria (ou pelo menos se toleraria) a sociedade nascida da Revolução Francesa, objetivo de acomodação. Nela, na sociedade laica, moldada pelo racionalismo, buscar-se-ia insuflar uma vida evangélica.

A Ação Católica no Brasil, influenciada pelo maritainismo, da qual Dom Hélder foi assistente geral e grande impulsionador, está nas nascentes da esquerdização do Clero e do laicato. Neste quadro, Dom Hélder foi ainda o motor da criação da CNBB, da qual foi secretário-geral por muitos anos entre 1952 e 1964. A entidade, todos sabem, tornou-se correia de transmissão das palavras de ordem da esquerda brasileira, do PT tem sido fiel e disciplinada companheira de viagem nos últimos lustros. Da Ação Católica nasceu a JUC; no caldo de cultura da mencionada organização universitária surgiu a AP, marxista e guerrilheira — e aqui lembro o fato apenas como ilustração de realidade generalizada nos ambientes da Ação Católica. Ali também medraram a JEC, JOC, JAC, todas favorecedoras de programas de esquerda radicalizados. O mais simbólico rebento da JEC é frei Betto. Do mesmo modo, daí vieram as comunidades eclesiais de base (CEBs), ali teve seu começo a Teologia da Libertação. Para a gestação e nutrição de todas essas entidades e correntes doutrinárias que pululavam no seio da Igreja Católica colaborou Dom Hélder. E por isso, era natural, tornou-se a figura símbolo do esquerdismo católico no Brasil. O PT fincou um de seus esteios em dito universo agitado — as CEBS e a esquerda católica em geral. As outras duas estacas foram o movimento sindical e a esquerda universitária.

“Pelos frutos os conhecereis”, não pelas palavras. Os frutos pestilenciais estão à vista, corrupção, roubalheira e empobrecimento causados pelos anos do PT no poder. E apoio às tiranias na América Latina, Cuba, Venezuela, Nicarágua, onde, em situação totalitária, perpetuam a miséria.

Se a mencionada corrente voltar ao poder entre nós, trabalhará para fazer do País, logo que possível, uma cópia da Venezuela ou de Cuba. Para tanto, temos visto já atuando agora a CNBB, a CPT e o MST, todos ligados umbilicalmente à esquerda católica. Nas raízes estão Jacques Maritain, a Ação Católica e o ativismo de Dom Hélder.

O que tal movimento trouxe para os pobres em todos os lugares em que venceu? Somente atraso, destruição dos horizontes de crescimento, agravamento da pobreza. O que mais? Estruturas de opressão na sociedade e no Estado. E exclusão social. Onde se instalou se pavoneia arrogante a casta dirigente e padece manietado décadas afora o povo oprimido, os excluídos. E não nos iludamos, é cenário trágico de retrocesso obscurantista, mas possível, de alto a baixo, toda a América Latina está agora ameaçada por tais programas de destruição. A atuação de Dom Hélder os beneficiou de forma relevante e por isso multidões de católicos estão perplexos com seu elogio pelo Papa Francisco.

https://www.abim.inf.br/exclusao-e-empobrecimento/

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sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

HOMILIA DO PAPA NA NOITE DE NATAL DE 2020

 




Texto completo da homilia do Papa Francisco:


"Nesta noite, cumpre-se a grande profecia de Isaías: «Um menino nasceu para nós, um filho nos foi dado» (Is 9, 5).

Um filho nos foi dado. Com frequência se ouve dizer que a maior alegria da vida é o nascimento duma criança. É algo de extraordinário, que muda tudo, desencadeia energias inesperadas e faz ultrapassar fadigas, incômodos e noites sem dormir, porque traz uma felicidade indescritível na posse da qual nada é demasiado pesado. Assim é o Natal: o nascimento de Jesus é a novidade que nos permite renascer dentro, cada ano, encontrando n’Ele força para enfrentar todas as provações. Sim, porque Jesus nasce para nós: para mim, para ti, para cada um. A preposição «para» reaparece várias vezes nesta noite santa: «um menino nasceu para nós», profetizou Isaías; «hoje nasceu para nós o Salvador», repetimos no Salmo Responsorial; Jesus «entregou-Se por nós» (Tit 2, 14), proclamou São Paulo; e, no Evangelho, o anjo anunciou «hoje nasceu para vós um Salvador» (Lc 2, 11).

Mas, esta locução «para nós» que nos quer dizer? Que o Filho de Deus, o Bendito por natureza, vem fazer-nos filhos benditos por graça. Sim, Deus vem ao mundo como filho para nos tornar filhos de Deus. Que dom maravilhoso! Hoje Deus deixa-nos maravilhados, ao dizer a cada um de nós: «Tu és uma maravilha». Irmã, irmão, não desanimes! Estás tentado a sentir-te como um erro? Deus diz-te: «Não é verdade! És meu filho». Tens a sensação de não estar à altura, temor de ser inapto, medo de não sair do túnel da provação? Deus diz-te: «Coragem! Estou contigo». Não o diz com palavras, mas fazendo-Se filho como tu e por ti, para te lembrar o ponto de partida de cada renascimento teu: reconhecer-te filho de Deus, filha de Deus. Este é o coração indestrutível da nossa esperança, o núcleo incandescente que sustenta a existência: por baixo das nossas qualidades e defeitos, mais forte do que as feridas e fracassos do passado, os temores e ansiedades face ao futuro, está esta verdade: somos filhos amados. E o amor de Deus por nós não depende nem dependerá jamais de nós: é amor gratuito, pura graça. Esta noite «manifestou-se – disse-nos São Paulo – a graça de Deus» (Tit 2, 11). Nada é mais precioso!

Um filho nos foi dado. O Pai não nos deu uma coisa qualquer, mas o próprio Filho unigênito, que é toda a sua alegria. Todavia, ao considerarmos a ingratidão do homem para com Deus e a injustiça feita a tantos dos nossos irmãos, surge uma dúvida: o Senhor terá feito bem em dar-nos tanto? E fará bem em confiar ainda em nós? Não estará Ele a sobrestimar-nos? Sim, sobrestima-nos; e fá-lo porque nos ama a preço da sua vida. Não consegue deixar de nos amar. É feito assim, tão diferente de nós. Sempre nos ama, e com uma amizade maior de quanta possamos ter a nós mesmos. É o seu segredo para entrar no nosso coração. Deus sabe que a única maneira de nos salvar, de nos curar por dentro, é amar-nos. Sabe que só melhoramos acolhendo o seu amor incansável, que não muda, mas muda-nos a nós. Só o amor de Jesus transforma a vida, cura as feridas mais profundas, livra do círculo vicioso insatisfação, irritação e lamento.

Um filho nos foi dado. Na pobre manjedoura de um lúgubre estábulo, está precisamente o Filho de Deus. E aqui levanta-se outra questão: porque veio Ele à luz durante a noite, sem um alojamento digno, na pobreza e enjeitado, quando merecia nascer como o maior rei no mais lindo dos palácios? Por quê? Para nos fazer compreender até onde chega o seu amor pela nossa condição humana: até tocar com o seu amor concreto a nossa pior miséria. O Filho de Deus nasceu descartado para nos dizer que todo o descartado é filho de Deus. Veio ao mundo como vem ao mundo uma criança débil e frágil, para podermos acolher com ternura as nossas fraquezas. E para nos fazer descobrir uma coisa importante: como em Belém, também conosco Deus gosta de fazer grandes coisas através das nossas pobrezas. Colocou toda a nossa salvação na manjedoura de um estábulo, sem temer as nossas pobrezas. Deixemos que a sua misericórdia transforme as nossas misérias!

Eis o que quer dizer um filho nasceu para nós. Mas há ainda um «para» que o anjo disse aos pastores: «Isto servirá de sinal para vós: encontrareis um menino (…) deitado numa manjedoura» (Lc 2, 12). Este sinal – o Menino na manjedoura – é também para nós, para nos orientar na vida. Em Belém, que significa «casa do pão», Deus está numa manjedoura, como se nos quisesse lembrar que, para viver, precisamos d’Ele como de pão para a boca. Precisamos de nos deixar permear pelo seu amor gratuito, incansável, concreto. Mas quantas vezes, famintos de divertimento, sucesso e mundanidade, nutrimos a vida com alimentos que não saciam e deixam o vazio dentro! Disto mesmo Se lamentava o Senhor, pela boca do profeta Isaías: enquanto o boi e o jumento conhecem a sua manjedoura, nós, seu povo, não O conhecemos a Ele, fonte da nossa vida (cf. Is 1, 2-3). É verdade: insaciáveis de ter, atiramo-nos para muitas manjedouras vãs, esquecendo-nos da manjedoura de Belém. Esta manjedoura, pobre de tudo, mas rica de amor, ensina que o alimento da vida é deixar-se amar por Deus e amar os outros. Dá-nos o exemplo Jesus: Ele, o Verbo de Deus, é infante; não fala, mas oferece a vida. Nós, ao contrário, falamos muito, mas frequentemente somos analfabetos em bondade.

Um filho nos foi dado. Quem tem uma criança pequena, sabe quanto amor e paciência são necessários. É preciso alimentá-la, cuidar dela, limpá-la, ocupar-se da sua fragilidade e das suas necessidades, muitas vezes difíceis de compreender. Um filho faz-nos sentir amados, mas ensina também a amar. Deus nasceu menino para nos impelir a cuidar dos outros. Os seus ternos gemidos fazem-nos compreender como tantos dos nossos caprichos são inúteis. O seu amor desarmado e desarmante lembra-nos que o tempo de que dispomos não serve para nos lamentarmos, mas para consolar as lágrimas de quem sofre. Deus vem habitar perto de nós, pobre e necessitado, para nos dizer que, servindo aos pobres, amá-Lo-emos a Ele. Desde aquela noite, como escreveu uma poetisa, «a residência de Deus é próxima da minha. O mobiliário é o amor» (E. DICKINSON, Poems, XVII).

Um filho nos foi dado. Sois Vós, Jesus, o Filho que me torna filho. Amais-me como sou, não como eu me sonho. Abraçando-Vos, Menino da manjedoura, reabraço a minha vida. Acolhendo-Vos, Pão de vida, também eu quero dar a minha vida. Vós que me salvais, ensinai-me a servir. Vós que não me deixais sozinho, ajudai-me a consolar os vossos irmãos, porque, a partir desta noite, são todos meus irmãos."

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quinta-feira, 12 de novembro de 2020

FRATELLI TUTTI - José Antonio Ureta

 11 de novembro de 2020

 


Na nova encíclica, o Papa Francisco propõe uma fraternidade universal naturalista, condenada por São Pio X

  • José Antonio Ureta*

 

Fratelli Tutti não parece uma encíclica, e sim a continuação do diálogo que desde o início de seu pontificado o Papa Francisco vem mantendo com agnósticos como Eugenio Scalfari, Dominique Wolton ou Carlo Petrini, na tentativa de levá-los a crer que a modernidade ateia é compatível com a doutrina católica.

As encíclicas dos pontífices anteriores recolhiam nas verdades eternas, contidas na Revelação divina, os ensinamentos aplicáveis ​​à situação concreta da conjuntura eclesial ou temporal. Pelo contrário, a nova encíclica se apresenta como um “espaço de reflexão sobre a fraternidade universal” (nº 286) e propõe uma infinidade de análises exclusivamente humanas como denominador comum aceitável por todos, apesar das divergências religiosas ou filosóficas. Não por acaso ela é “dirigida a todas as pessoas de boa vontade, portanto muito além das suas convicções religiosas” (nº 56).

Essa procura do denominador comum com o agnosticismo é evidente na passagem da encíclica sobre “o consenso e a verdade”, onde sublinha ser a dignidade inalienável de toda criatura humana “uma verdade que corresponde à natureza humana, independentemente de qualquer transformação cultural” (nº 213). E acrescenta: “Aos agnósticos este fundamento poder-lhes-á aparecer como suficiente para conferir aos princípios éticos basilares e não negociáveis uma validade universal de tal forma firme e estável que consiga impedir novas catástrofes. Para os crentes, a natureza humana, fonte de princípios éticos, foi criada por Deus, que em última análise confere um fundamento sólido a estes princípios”. Talvez para evitar qualquer suspeita de proselitismo religioso, esclarece que “isto não estabelece um fixismo ético nem abre a estrada à imposição dum sistema moral, uma vez que os princípios morais fundamentais e universalmente válidos podem dar lugar a várias normativas práticas. Por isso, fica sempre um espaço para o diálogo” (nº 214). [os destaques em negrito, acima e abaixo, são meus].

Nessa busca de um denominador comum com o agnosticismo, o Papa Francisco — nesta encíclica, com 170 citações a si mesmo, 43 citações de seus antecessores, e apenas 20 de padres e doutores da Igreja — omite completamente pressupostos e mesmo conceitos de natureza sobrenatural; e, de modo particular, considerações religiosas especificamente cristãs. A encíclica Fratelli Tutti (“Todos Irmãos”) adota uma linguagem naturalista e inter-religiosa. Praticamente foram nela omitidos pressupostos básicos das exortações dos papas anteriores a respeito das questões sociais: a vocação sobrenatural do homem, a ferida introduzida pelo pecado no mundo, a necessidade da Redenção de Nosso Senhor Jesus Cristo, além da omissão do papel salvífico da Igreja, da graça divina como requisito para o aperfeiçoamento individual e o progresso social, e da lei natural como fundamento da ordem internacional.

O naturalismo e o interconfessionalismo estão particularmente evidentes na ideia fundamental da encíclica, que é o “novo sonho de fraternidade e amizade social” (nº 6) e o consequente “anseio mundial de fraternidade” (nº 8), que Francisco quer fazer renascer a partir do reconhecimento por todos da dignidade de cada pessoa humana, sem nenhuma referência a Deus, salvo numa passagem que é quase um pedido de perdão por fazê-la: “Como crentes pensamos que, sem uma abertura ao Pai de todos, não pode haver razões sólidas e estáveis ​​para o apelo à fraternidade (nº 272). Como crentes, aliás, não apenas “pensamos que”, mas “cremos”; ou seja, damos firme adesão a uma verdade revelada!

 A parábola do Bom Samaritano é interpretada em clave puramente humanista [O Bom Samaritano – Domenico Fetti (1622). Museu Nacional Thyssen-Bornemisza, Madri].


Mesmo a parábola do Bom Samaritano é interpretada em clave puramente humanista. Segundo o Papa, ela “revela-nos uma característica essencial do ser humano, frequentemente esquecida: fomos criados para a plenitude, que só se alcança no amor” (nº 68). Jesus “confia na parte melhor do espírito humano e, com a parábola, anima-o a aderir ao amor, reintegrar o ferido e construir uma sociedade digna de tal nome” (nº 71)O caráter laico desse amor é acentuado pela consideração de que uma pessoa de fé pode “sentir-se perto de Deus e julgar-se com mais dignidade do que os outros”, enquanto paradoxalmente “às vezes, quantos dizem que não acreditam podem viver melhor a vontade de Deus do que os crentes” (nº 74).

Este amor ao próximo não procede necessariamente do amor a Deus. A palavra “caridade” é utilizada 33 vezes na encíclica, mas nunca está associada à “amizade do homem para com Deus”, no que essencialmente ela consiste (São Tomás de Aquino, Summa, II-II, q.23, a.1, resp.); de onde segue-se que “a razão para amar o próximo é Deus” (Ibid. q.25, a.1, resp.). O menoscabo desse caráter principalmente vertical da caridade chega ao ponto de se afirmar que aquilo que orienta os atos das virtudes morais (como a fortaleza, a sobriedade, a operosidade etc.) é “a medida em que eles realizam um dinamismo de abertura e união para com outras pessoas” (nº 91), fazendo silêncio sobre o amor a Deus.


Devido ao seu naturalismo interconfessional, Fratelli Tutti parece enquadrar-se amplamente no julgamento crítico dos escritos do Le Sillon pelo Papa São Pio X, na encíclica Notre charge apostolique, na qual mostrou que esse movimento promoveu um conceito de fraternidade não católica:

“Esta mesma doutrina católica nos ensina também que a fonte do amor do próximo se acha no amor de Deus, pai comum e fim comum de toda a família humana, e no amor de Jesus Cristo, do qual nós somos membros, a ponto de que consolar um infeliz é fazer o bem ao próprio Jesus Cristo. Qualquer outro amor é ilusão ou sentimento estéril e passageiro. Certamente, a experiência humana aí está nas sociedades pagãs ou leigas de todos os tempos, para provar que, em certos momentos, a consideração dos interesses comuns ou da semelhança de natureza pesa muito pouco diante das paixões e das concupiscências do coração. Não, Veneráveis Irmãos, não existe verdadeira fraternidade fora da caridade cristã, que, pelo amor de Deus e de seu Filho Jesus Cristo nosso Salvador, abrange todos os homens, para os consolar a todos, e para os conduzir todos à mesma fé e à mesma felicidade do Céu. Separando a fraternidade da caridade cristã assim entendida, a democracia [promovida por Le Sillon], longe de ser um progresso, constituiria um desastroso recuo para a civilização” (§ 24, destaque nosso).

A mesma encíclica de São Pio X fornece a luz necessária para salientar outro aspecto condenável da Fratelli Tutti: a promoção de uma síntese relativista da coexistência dos contrários; que, por meio do diálogo, deve servir de apoio à fraternidade universal e à amizade social. O modelo de uma “cultura do encontro” (mencionada seis vezes no texto) e do “diálogo” (mencionado 46 vezes) seria São Francisco, que “não fazia guerra dialética impondo doutrinas”, mas era sim um verdadeiro pai na medida em que “aceita[va] aproximar-se das outras pessoas com o seu próprio movimento, não para retê-las no que é seu, mas para ajudá-las a serem mais elas mesmas” (nº 4).

Hoje, ao contrário, “predomina o costume de denegrir rapidamente o adversário, aplicando-lhe atributos humilhantes, em vez de se enfrentarem num diálogo aberto e respeitoso, onde se procure alcançar uma síntese que vá mais além” (nº 201). Com efeito, devemos pensar que “as diferenças são criativas, criam tensão e, na resolução duma tensão, está o progresso da humanidade” (nº 203).

O relativismo filosófico e o interconfessionalismo religioso de Fratelli Tutti se estendem igualmente às relações entre a Igreja Católica e as outras religiões. Na foto o Papa Francisco com a líder da igreja luterana sueca, na sua visita a esse país.


Para o Papa Francisco, isto não seria relativismo, pois permanece válida uma verdade objetiva: que todo ser humano é sagrado (nº 207), e que os direitos humanos são invioláveis (nº 209) e um valor permanente, transcendente e não negociável (nº 211 e nº 273). Quanto ao resto, o que chamamos de “verdade” (as aspas são da encíclica!) é “antes de mais nada, a busca dos fundamentos mais sólidos que estão na base das nossas opções e também das nossas leis” (nº 208). Por isso, “numa sociedade pluralista, o diálogo é o caminho mais adequado para se chegar a reconhecer aquilo que sempre deve ser afirmado e respeitado e que ultrapassa o consenso ocasional” (nº 211). Daí nasce uma cultura do encontro que é “um estilo de vida que tende a formar aquele poliedro que tem muitas faces, muitos lados, mas todos compõem uma unidade rica de matizes […] uma sociedade onde as diferenças convivem integrando-se, enriquecendo-se e iluminando-se reciprocamente” (nº 215). Isto implica, de um lado, “o hábito de reconhecer, ao outro, o direito de ser ele próprio e de ser diferente” (nº 218); e, do outro lado, “um pacto cultural” que “implica também aceitar a possibilidade de ceder algo para o bem comum”, já que “ninguém será capaz de possuir toda a verdade nem satisfazer a totalidade dos seus desejos, porque uma tal pretensão levaria a querer destruir o outro, negando-lhe os seus direitos” (nº 221). Trata-se do realismo dialogante “por parte de quem pensa que deve ser fiel aos seus princípios, mas reconhecendo que o outro também tem o direito de procurar ser fiel aos dele” (idem); e permite sonhar juntos “como uma única humanidade, como caminhantes da mesma carne humana, como filhos desta mesma terra que nos alberga a todos, cada qual com a riqueza da sua fé ou das suas convicções, cada qual com a própria voz, mas todos irmãos” (nº 8).

Para Francisco, isso não é sincretismo nem absorção de um pelo outro, mas uma aposta “na resolução num plano superior que preserva em si as preciosas potencialidades das polaridades em contraste” (nº 245), que parece uma forma particular de dialética hegeliana em que a síntese permanece como horizonte inatingível.

É fácil perceber que tudo isso não se coaduna com o ensinamento com que São Pio X condenou o movimento Le Sillon, por ter-se distanciado da doutrina católica: “O mesmo acontece com a noção da fraternidade, cuja base eles colocam no amor dos interesses comuns, ou, além de todas as filosofias e de todas as religiões, na simples noção de humanidade, englobando assim no mesmo amor e numa igual tolerância todos os homens com todas as suas misérias, tanto as intelectuais e morais quanto as físicas e temporais. Ora, a doutrina católica nos ensina que o primeiro dever da caridade não está na tolerância das convicções errôneas, por sinceras que sejam, nem na indiferença teórica ou prática pelo erro ou o vício em que vemos mergulhados nossos irmãos, mas no zelo pela sua restauração intelectual e moral, não menos que pelo seu bem-estar material” (§ 23).

O relativismo filosófico e o interconfessionalismo religioso de Fratelli Tutti se estendem igualmente às relações entre a Igreja Católica e as outras religiões. Visto que consideram “cada pessoa humana como criatura chamada a ser filho ou filha de Deus”, as várias religiões “oferecem uma preciosa contribuição para a construção da fraternidade e a defesa da justiça na sociedade” (nº 271). Neste aspecto, todas as religiões seriam iguais: “A partir da nossa experiência de fé e da sabedoria que se vem acumulando ao longo dos séculos e aprendendo também das nossas inúmeras fraquezas e quedas, como crentes das diversas religiões sabemos que tornar Deus presente é um bem para as nossas sociedades” (nº 274).

Também a Bíblia se enquadra nesta equiparação, porque para Francisco todos os “textos religiosos clássicos podem oferecer um significado para todas as épocas, possuem uma força motivadora” (nº 275)E mais adiante acrescenta: “Outros bebem doutras fontes. Para nós, este manancial de dignidade humana e fraternidade está no Evangelho de Jesus Cristo” (nº 277).

Ademais, Deus não tem opção preferencial pelos batizados em geral (que são os únicos verdadeiros filhos de Deus), nem pelos fiéis católicos, membros do seu Corpo místico, em particular, mas antes “o amor de Deus é o mesmo para cada pessoa, seja qual for a religião. E se é um ateu, é o mesmo amor” (nº 281).

Desses pressupostos religiosos e filosóficos — que seriam um denominador comum aceitável por todos os homens — a encíclica Fratelli Tutti extrai principalmente duas consequências práticas, que darão origem a um mal-estar que alargará ainda mais a brecha entre o Papa Francisco e uma grande parte dos fiéis católicos. Trata-se de: 1) a promoção da imigração como condição para uma sociedade aberta; 2) um governo mundial para a solução dos problemas globais.

Para Francisco, “o amor que se estende para além das fronteiras está na base daquilo que chamamos “amizade social” em cada cidade ou em cada país”, condição para “uma verdadeira abertura universal” (nº 99)Tal universalismo não se confunde com a globalização desses últimos anos, que promove “o domínio homogêneo, uniforme e padronizado duma única forma cultural imperante” (nº 144)mas ele constrói uma sociedade poliédrica “onde ao mesmo tempo que cada um é respeitado no seu valor, ‘o todo é mais que a parte, sendo também mais do que a simples soma delas’” (nº 145)Como no caso do diálogo, para o Papa “uma sã abertura nunca ameaça a identidade, porque, ao enriquecer-se com elementos doutros lugares, uma cultura viva não faz uma cópia nem mera repetição, mas integra as novidades segundo modalidades próprias. Isto provoca o nascimento duma nova síntese que, em última análise, beneficia a todos” (nº 148).

Imigrantes derrubam uma barreira para
entrar na Grécia.
A encíclica condiciona a soberania das nações
sobre seu próprio território: “cada país é também do estrangeiro, já que os bens dum território não devem ser negados a uma pessoa necessitada que provenha doutro lugar”
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Para isso é preciso “pensar e gerar um mundo aberto” (é o título do capítulo 3 da encíclica), onde vigorem “direitos sem fronteiras” (é o subtítulo de uma seção), pois “ninguém pode ser excluído; não importa onde tenha nascido, e menos ainda contam os privilégios que outros possam ter porque nasceram em lugares com maiores possibilidades. Os confins e as fronteiras dos Estados não podem impedir que isto se cumpra” (nº 121)Visto que a destinação universal dos bens da terra não só transforma a propriedade privada numa mera função social — “quem possui uma parte é apenas para a administrar em benefício de todos” (nº 122) —mas também condiciona a soberania das nações sobre seu próprio território, pela qual “cada país é também do estrangeiro, já que os bens dum território não devem ser negados a uma pessoa necessitada que provenha doutro lugar” (nº 124).

Na realidade, os bens de qualquer país devem estar à disposição não só dos estrangeiros que sofrem extrema necessidade, mas também dos que querem apenas melhorar sua situação. Porque “é nosso dever respeitar o direito que tem todo o ser humano de encontrar um lugar onde possa não apenas satisfazer as necessidades básicas dele e da sua família, mas também realizar-se plenamente como pessoa” (nº 129). Isso significaria que qualquer pessoa que se considere um novo Picasso ou um novo Einstein teria o direito de exigir sua mudança para Paris ou Massachusetts, a fim de desenvolver plenamente os seus talentos artísticos ou científicos na Écôle des Beaux Arts ou no MIT!

Hoje muitíssimos emigram apenas para buscar um futuro melhor nos países ricos. Nesta nova encíclica — ao contrário do que alhures já disse de passagem — o Papa Francisco não se preocupa com o trauma que isso provoca no país de acolhida, nem com o direito de cada país em regular o fenômeno migratório de acordo com as suas respectivas possibilidades. Ele se limita a dizer que “a chegada de pessoas diferentes, que provêm dum contexto vital e cultural distinto, transforma-se num dom” e “numa oportunidade de enriquecimento e desenvolvimento humano integral para todos” (nº 133). E insiste: “Se forem ajudados a integrar-se, os imigrantes são uma bênção, uma riqueza e um novo dom, que convida a sociedade a crescer” (nº 135).

Não há referência ao risco de imigração massiva e desestabilizadora, como é o caso atualmente na Europa, onde um forte componente muçulmano rejeita integrar-se, a tal ponto que o presidente Macron teve de lançar uma iniciativa contra o “separatismo islâmico” nas periferias urbanas, onde nem mesmo a polícia pode entrar…

Para Francisco, ao contrário, é necessário destacar o risco dos “narcisismos bairristas”, que “escondem um espírito fechado que, devido a uma certa insegurança e medo do outro, prefere criar muralhas defensivas para sua salvaguarda” e “encerra-se obsessivamente numas poucas ideias, costumes e seguranças” (nº 146). A vida local “torna-se estática e adoece” (idem), pois “os outros são, constitutivamente, necessários para a construção duma vida plena” (nº 150).

Resultado da resposta histérica da OMS e dos governos aos desafios da covid-19, surge o espectro de uma ditadura mundial, primeiro sanitária e depois política.


Portanto, as migrações não são apenas boas em si mesmas, mas “constituirão uma pedra angular do futuro do mundo” (nº 40). A crise de saúde da covid-19 é a grande oportunidade de sair da “autoproteção egoísta”“oxalá já não existam ‘os outros’, mas apenas um ‘nós’”, para que “a humanidade renasça com todos os rostos, todas as mãos e todas as vozes, livre das fronteiras que criamos” (nº 35), pois “a verdadeira qualidade dos diferentes países do mundo mede-se por esta capacidade de pensar não só como país, mas também como família humana” (nº 141).

Mas “para se tornar possível o desenvolvimento duma comunidade mundial capaz de realizar a fraternidade a partir de povos e nações que vivam a amizade social” (nº 154), é necessário “fazer crescer não só uma espiritualidade da fraternidade, mas também e ao mesmo tempo uma organização mundial mais eficiente” (nº 165). Neste contexto, torna-se indispensável “a maturação de instituições internacionais mais fortes e eficazmente organizadas, com autoridades designadas de maneira imparcial por meio de acordos entre governos nacionais e dotadas de poder de sancionar”. Não uma “autoridade mundial” pessoal, mas instituições “dotadas de autoridade para assegurar o bem comum mundial” (nº 172). Visto que o parágrafo seguinte é dedicado à necessidade de uma reforma da ONU, deve-se entender que, no espírito de Francisco, seja esta organização a responsável para exercer esse papel. Daí ser necessário “evitar que esta Organização seja deslegitimada” (nº 173).

Numa situação em que crises econômicas e sociais gravíssimas emergem no horizonte, resultado da resposta histérica da OMS e dos governos aos desafios da covid-19, surge o espectro de uma ditadura mundial, primeiro sanitária e depois política. Esta não é uma perspectiva imaginária, produto de uma mente “conspiratória”, mas a realização do sonho iluminista de uma República Universal, incubada nas lojas maçônicas já antes da Revolução Francesa, indiretamente evocada na encíclica por meio da reprodução da trilogia “liberdade, igualdade, fraternidade” em um de seus subtítulos (nº 103).


Não é sem propósito evocar a maçonaria no final desta visão sintética da encíclica Fratelli Tutti. A edição de janeiro da revista New Hiram, órgão trimestral do Grande Oriente da Itália, publicou um artigo de Pierluigi Cascioli com um comentário elogioso do documento Fraternidade humana para a paz mundial e convivência comum, assinado em Abu Dhabi pelo Papa Francisco e pelo Imam Ahmed el-Tayeb. Esse documento foi, aliás, a principal fonte de inspiração para a elaboração da nova encíclica (nº 5), que incorporou várias passagens dessa declaração conjunta.

Segundo Cascioli, os valores da fraternidade universal contidos no documento “podem ser perfeitamente compartilhados por outros, sobre a base de um ‘mínimo denominador comum’ constituído pela razão”, já que “cada ser humano tem uma infinita dignidade”. E insiste no fato de que “os maçons, que têm o centro de gravidade na fraternidade, não poderão eximir-se de lidar com este documento”.

A Grande Loja da Espanha não se eximiu desse desafio em relação à encíclica Fratelli Tutti, e publicou a seguinte declaração, que não pode deixar de surpreender os fiéis:

“Há 300 anos se deu o nascimento da Maçonaria moderna. O grande princípio desta escola iniciática não mudou em três séculos: a construção de uma fraternidade universal onde os seres humanos se chamem irmãos uns dos outros, para além de seus credos concretos, de suas ideologias, de sua cor de pele, sua classe social, língua, cultura ou nacionalidade. Este sonho fraterno se chocou com o integrismo religioso que, no caso da Igreja Católica, propiciou duríssimos textos de condenação à [doutrina da] tolerância da Maçonaria no século XIX. A última encíclica do Papa Francisco demonstra quão distante está a atual Igreja Católica de suas antigas posições. Em ‘Fratelli tutti’, o Papa abraça a Fraternidade Universal, o grande princípio da Maçonaria moderna.

Dom Gilberto Pastana, bispo de Crato; Dom Roberto Ferrería, bispo diocesano de Campos; Dom Canísio Klaus, bispo de Sinop; ou Dom Denis Lara, bispo emérito de Itabira e assessor jurídico da CNBB, podem ser novamente convidados por alguma loja maçônica para palestrarem numa Magna Branca (é como os maçons denominam suas sessões abertas para não iniciados). Neste caso, poderão limitar-se a uma leitura extensa da Fratelli Tutti, e terão garantida uma ovação unânime.

Nosso Senhor, junto com a entrega das chaves da Igreja a São Pedro, também prometeu a preservação d’Ela até o fim dos tempos.


Na igreja, no entanto, os fiéis verterão lágrimas diante do Crucificado, pensando quão verdadeiras foram as palavras de Paulo VI quando disse que a fumaça de Satanás penetrou na Igreja.

Penetrou no templo sagrado, mas não o destruirá, pois temos a certeza da promessa divina: “as portas do inferno não prevalecerão” (Mt 16, 18). A vitória final será da Santa Igreja Católica Apostólica Romana e da verdadeira fraternidade cristã fundada no amor de Deus e de Jesus Cristo, sob o olhar maternal de Maria Santíssima.

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Fonte: Revista Catolicismo, Nº 839, Novembro/2020.

https://www.abim.inf.br/fratelli-tutti/

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