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segunda-feira, 5 de agosto de 2019

CRISTANDADE E OCIDENTE - Péricles Capanema


3 de agosto de 2019
Péricles Capanema

A Cristandade tem inspiração e raiz longínqua no Império Romano, espaço de convivência civilizada do mundo antigo, do qual foi aperfeiçoamento. Tendo como objeto ser espaço da convivência virtuosa de povos sob a luz de Cristo, começou a surgir como forte realidade histórica com Carlos Magno (742-814), seu maior símbolo. Firmou-se muito tempo depois no Sacro Império Romano Alemão, a mais importante realização de tal ideal.

Território, direito e senso de governo marcaram o império sob Roma. O mesmo, proportione servata, valeu para a Cristandade. Agrupava as nações cristãs. O direito, muito variado, aperfeiçoava-se seguindo as trilhas do consuetudinário e do Direito Romano. O governo, via de regra, — por longo período imerso em atmosfera pré e supranacional — agia consoante o princípio de subsidiariedade, embora sua explicitação só viesse séculos depois. Georg Schmidt o chamou de Império-Estado complementário (poderia ser chamado de Império-Estado subsidiário). Enfim, a Cristandade foi realização valiosa, ainda que insuficiente e até em pontos defeituosa, da ordem temporal cristã. Infelizmente, sua luz foi se apagando, até que em 1806 se extinguiu. Deixou enorme saudade, restou fulgurando como ideal no horizonte da Europa cristã.

Anos atrás ouvi do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira: “Em relação à Igreja, eu sou como o judeu em relação ao Templo. Amo o Templo, amo as ruínas do Templo, e se essas ruínas se converterem em pó, amarei o pó que resultou dessas ruínas”. Analogamente, para um católico imbuído da convicção de como importa existir uma ordem temporal cristã, tais palavras se aplicam por inteiro à Cristandade. Até o pó dela merece amor. É também dele a proclamação: “Quando ainda muito jovem, considerei enlevado as ruínas da Cristandade, a elas entreguei meu coração, voltei as costas ao meu futuro, e fiz daquele passado carregado de bênçãos, o meu porvir”.

Aqui vou levantar ponto essencial, sem o qual inexistiria a Cristandade. Os povos que a compunham tinham convicção de que seus interesses maiores eram a preservação e aperfeiçoamento daquele estado de coisas. Em segundo plano, vinham os interesses nacionais, regionais, corporativos, familiares, pessoais. Talvez o mais relevante exemplo de defesa da Cristandade tenha sido São Pio V (1504 – 1572), Papa a partir de 1566. Articulou enorme aliança militar destinada a formar a armada que derrotou os turcos em Lepanto em 1571, preservando uma Europa onde ainda eram vivos os restos da Cristandade. Em sentido contrário, tantas vezes os agredindo, temos o longo trajeto da chamada aliança franco-otomana, que começou em 1536 entre Francisco I e Solimão, o Magnífico. Começavam a prevalecer os interesses do Estado-nação, os da Cristandade iam para o fundo do palco.

No século XX e XXI, eco precioso, se quisermos ruínas veneráveis, da Cristandade foi o que se chamou o Ocidente cristão e, mais recentemente, apenas Ocidente. Nessa acepção de Ocidente, que não é geográfica, estão por exemplo, Japão, Coréia do Sul, Cingapura.

Escrevia cima, o Império Romano foi espaço de convivência do mundo civilizado. O Ocidente é o espaço de convivência de princípios básicos do que se poderia chamar a civilização cristã; se quisermos, da ordem temporal cristã. Nos dias presentes, vigência de liberdades na vida pública e privada, economia de mercado. E nesse sentido, hoje, um espírito bem formado deve colocar os interesses ocidentais, de momento enormemente ameaçados, na frente dos interesses de qualquer país, mesmo o seu. Adversárias dos princípios ocidentais no século XX e XXI foram as potências totalitárias e coletivistas, entre outras, a Alemanha nazista, a Rússia soviética e agora a China comunista.

Fiz longa introdução para entrar fácil no assunto do artigo: no tratado de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul. É amazônico, inclui concorrência, serviços, investimentos, temas ambientais, desenvolvimento sustentável, compras de governo, propriedade intelectual. Muita coisa ainda. O governo brasileiro, estimativa inicial, prevê que em 15 anos as exportações brasileiras para a União Europeia terão um acréscimo de US$100 bilhões de dólares anuais. E haverá grande aumento de investimentos da UE no Brasil. O acordo trará ao Brasil prosperidade, maior renda, geração de empregos.

O caminho até a implementação final será longo, cheio de obstáculos. Teremos muita discussão nos meios de divulgação e nos parlamentos dos 28 países que compõem a União Europeia (e também no Parlamento Europeu). Haverá debates nos países do Mercosul. Os assuntos devem ser tratados e resolvidos. Não são o foco de meu artigo.

Meu foco é outro. O Brasil está perigosamente dependente da China, vamos escorregando para a condição de efetivo, ainda que não confessado, protetorado chinês. Não só o Brasil, igualmente a Argentina, Uruguai, Paraguai. O acordo com a União Europeia, pelo menos em patê, nos tira de tal dependência, aumenta a efetividade de nossa independência e soberania. E das outras nações, acima mencionadas. Seria conveniente aproximação semelhante com os Estados Unidos e Japão. Estão em jogo gravíssimos interesses ocidentais.

Sintomas reveladores. A esquerda europeia está furiosa. A esquerda brasileira rosna (sempre silenciosa em relação à aproximação com a China). O candidato kirchnerista Alberto Fernández, saindo da visita a Lula, declarou que, se eleito, vai rediscutir o acordo. Querem de todo modo explodi-lo, apesar da pobreza que daí seguirá. Pelo que vi nos meios de divulgação, nem na Europa, nem aqui, ninguém sublinha que o mais importante do acordo é o fortalecimento dos interesses ocidentais. É.



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10 DE AGOSTO: DIA DE JORGE AMADO – barba



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(Bahia, 1985 – barba)

             Márcio Tavares d’Amaral, filósofo e poeta, ilustre professor universitário, grave catedrático, letrado familiar de Joyce e de Kafka, incorrigível líder estudantil, saudoso das passeatas e das molequeiras, com as mãos sobre a boca imita sons de saxofone, as sirenes dos carros de polícia e das ambulâncias, com acento alfacinha canta músicas de protesto de Sérgio Godinho. Está hospedado na casa do Rio Vermelho com Teresa, flor dos Costa, conversamos enquanto ele faz a barba.

            Conversa longa, Márcio não leva menos de meia hora a barbear-se: um dia demorei apenas vinte e cinco minutos, mas aconteceu somente naquela vez, me diz. Eu não gasto mais de cinco minutos, admiro-me de diferença tamanha, Márcio me explica:

            - Você conhece o verbo escanhoar? É o que eu uso. Você conjuga outro: raspar a barba, para ser sincero uma xucrice.

            Conto-lhe que Graciliano Ramos fazia a barba com navalha antiga, nunca usou gilete. Os olhos de Márcio se iluminam:

            - Isso é o supra-sumo, não chego a tanto.

            Barba escanhoada, Márcio aproxima-se do muro, desata a sirena da polícia na rua Alagoinhas: vizinhos saem portas a fora a ver o que ocorre. O riso de Teresa tranquiliza os passarinhos.


(NAVEGAÇÃO DE CABOTAGEM)
Jorge Amado

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            “Sou de um tempo em que ao ouvir bater na porta se dizia: Se é de paz pode entrar. Quem bate à porta é de paz e de amizade, o ator Zé Trindade, artista de cinema e de televisão, celebridade desde os tempos das chanchadas, agora percorre o interior do país, faz a alegria das plateias das cidadezinhas.

            Com as empregadas da casa aprendo a humildade, a não me vangloriar, a importância é sempre relativa, dou-me conta. Ouço a cozinheira Agripina dizer a Eunice*, que vem lhe informar quem chamou à porta e ela fez entrar:

            - Zé Trindade? Não me diga! Seu Jorge é mesmo importante, é amigo de Zé Trindade.

             Tem razão. Zé Trindade na TV, na tela do cinema, no rádio, em pessoa é ídolo popular queiram ou não os elitistas da cultura, uns bestalhões, sua amizade me dá status, importância. Agripina, Eunice, Detinha vêm espiá-lo do corredor, a meu convite entram na sala, se aproximam deslumbradas, estendem as mãos a Zé Trindade, ele as abraça, repete um bordão de rádio, careta cômica de televisão, o riso se espraia.

 *Eunice Ferreira, arrumadeira na
 casa de JA
           
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JORGE AMADO - Quinto ocupante da Cadeira 23 da ABL, eleito em 6 de abril de 1961, na sucessão de Otávio Mangabeira e recebido pelo Acadêmico Raimundo Magalhães Júnior em 17 de julho de 1961. Recebeu os Acadêmicos Adonias Filho e Dias Gomes.

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A RESPEITO DA NATUREZA CRIADA POR DEUS, ALGUMAS FRASES QUE ECOLOGISTAS ODEIAM


4 de agosto de 2019



“A criação, admirável e harmoniosa, Deus não a fez senão para o homem. E se a fez tão maravilhosa, tão grande, diversificada, rica, útil, benéfica para alimentar o corpo e conduzir a alma a Deus, é por causa do homem”
(São João Crisóstomo)

“As coisas na face da Terra foram criadas por causa do homem, para ajudá-lo a conseguir o seu fim; por isso, devemos usá-las ou abster-nos delas, na medida em que conduzem o homem ao seu fim ou dele o afastam”
(Santo Inácio de Loyola)

“Um pintor deve começar o quadro com um banho de negro à tela, porque todas as coisas na natureza são escuras quando não estão expostas à luz”
(Leonardo da Vinci)

“Deus fez as coisas da natureza como um bom pai faz com o filho: deu um caderno com os desenhos impressos, mas sem cor, e também deu os lápis de cor para o filho pintar”
(Plinio Corrêa de Oliveira)

“Desde a criação do mundo, as perfeições invisíveis de Deus, o seu sempiterno poder e divindade, se tornam visíveis à inteligência por suas obras”
(São Paulo, Apóstolo)



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