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domingo, 31 de dezembro de 2017

RECEITA DE ANO NOVO – Drummond (com vídeo)

30 Dec 2017
A Magia da Poesia >> Desde 1999, este projeto divulga poemas de grandes poetas sem erros ou falsas autorias. >>

 Ligue o vídeo abaixo:
Receita de Ano Novo

Para você ganhar belíssimo Ano Novo

cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo

que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.


(Discurso de primavera e algumas sombras. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1979, p. 115)


A Magia da Poesia deseja Boas Festas e um inspirado ano novo a todos os leitores que nos acompanharam neste ano. Obrigado não só pela leitura, mas também pelos comentários e por apoiarem a divulgação de poemas sem falsas autorias. Que o próximo ano venha cheio de poesia (sem erros)!

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NOOSFERA -Teilhard de Chardin

Noosfera...

Pode-se dizer que seja o produto coletivo e aditivo de um milhão de anos de pensamento do ser humano. Pode-se dizer também que seja o pulsar dos passos da humanidade rumo ao infinito face à ressonância das vibrações da luz do conhecimento.

Palavra de origem Grega
Palavra que representa o círculo psíquico!
NOOS = MENTE
(alma, espírito, pensamento, consciência)

SPHERA = CÍRCULO
(corpo limitado por uma superfície redonda)

A NOOSFERA seria a terceira etapa no desenvolvimento do Planeta Terra, depois da GEOSFERA - matéria inanimada e da BIOSFERA - vida biológica. Assim como há a atmosfera, a geosfera e biosfera, existe também a Noosfera ou esfera das ideias, formado por produtos culturais, pelo espírito, linguagens, teorias e conhecimentos. Todos nós alimentamos a Noosfera quando pensamos e nos comunicamos. Assim como o surgimento da vida – Biosfera - transformou significativamente a Geosfera, o surgimento do conhecimento humano - e os consequentes efeitos das ciências aplicadas sobre a natureza - alterou igualmente a Biosfera.

Pode-se perguntar se 'A caminhada da Humanidade’ não se enganou de estrada, pois ela parece caminhar em direção a uma Era onde o Espírito está sendo colocado a serviço da Matéria.

Percebe-se um desespero na busca de soluções para os conflitos da Terra, na busca de falsas ideologias que destroem a reflexão, na busca de soluções para afastar as forças negativas do totalitarismo, da desintegração, da repulsão, da materialização...

Percebe-se um desespero na busca da PAZ SOBRE A TERRA!

Desespero não percebido na busca da PAZ DENTRO DE SI MESMO.

O homem pensante de hoje interioriza-se, curvando-se sobre si mesmo em busca de maior Individualização. Ele tende a se isolar e procura tornar-se mais solitário para Ser mais profundamente. Pelo excesso de sua individualização e de sua luta pela vida, ele se engana, sucumbindo facilmente à simples sobrevivência... Então sonha em fugir do Planeta Terra, em busca de outras formas de vida, ou outras dimensões de existência... Fugindo de si mesmo.

É primordial perceber e entender que a humanidade converge para um encontro de ordem espiritual, buscando confiança no grande e trabalhoso processo da evolução, que, tendo conseguido criar os seres humanos com tantos cuidados, NÃO PODE SER CONCEBIDA como tendo se organizado ao acaso. É primordial perceber e entender que existe uma evolução dirigida, consciente de si mesma. É primordial perceber e entender que existe um Motor que orienta a humanidade e a atrai para Si. Esse Motor é Deus! Princípio gerador e ao mesmo tempo final, que dá ao Homem o pensamento, a consciência, a alma, a fé e a energia do Amor... para continuar seu caminho de paz e de construção de um futuro digno para a Humanidade.

"Gotas de Crystal" <gotasdecrystal@gmail..com>.
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Pierre Teilhard de Chardin (1881-1995): Jesuíta francês, pensador da condição humana e grande místico contemporâneo. Reconhecido pela originalidade de pensamento, foi contestado filosoficamente e considerado um herege, sendo impedido pelo Vaticano de lecionar no começo da década de 1950. Sua "reabilitação" com a Santa Sé ocorreu em maio 1981, quando o cardeal Agostino Casaroli, secretário de Estado do Vaticano, enviou uma carta ao reitor do Instituto Católico de Paris enaltecendo o trabalho de Teilhard de Chardin. Seu pensamento apresentava uma visão que integrava ciência e teologia e sua principal obra, O Fenômeno Humano (1955), explica sua visão sobre a história do Universo. É autor, entre outras, de Lugar do Homem no Universo, O Meio Divino, A Minha Fé, Reflexões e Orações no Espaço-Tempo e Sobre a Felicidade.

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PALAVRA DA SALVAÇÃO (59)

Sagrada Família: Jesus, Maria, José – Domingo 31/12/2017

Anúncio do Evangelho (Lc 2,22-40)

— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Lucas.
— Glória a vós, Senhor.

Quando se completaram os dias para a purificação da mãe e do filho, conforme a Lei de Moisés, Maria e José levaram Jesus a Jerusalém, a fim de apresentá-lo ao Senhor. Conforme está escrito na Lei do Senhor: “Todo primogênito do sexo masculino deve ser consagrado ao Senhor”. Foram também oferecer o sacrifício — um par de rolas ou dois pombinhos — como está ordenado na Lei do Senhor.
Em Jerusalém, havia um homem chamado Simeão, o qual era justo e piedoso, e esperava a consolação do povo de Israel. O Espírito Santo estava com ele e lhe havia anunciado que não morreria antes de ver o Messias que vem do Senhor.
Movido pelo Espírito, Simeão foi ao Templo. Quando os pais trouxeram o menino Jesus para cumprir o que a Lei ordenava, Simeão tomou o menino nos braços e bendisse a Deus: “Agora, Senhor, conforme a tua promessa, podes deixar teu servo partir em paz; porque meu olhos viram a tua salvação, que preparaste diante de todos os povos: luz para iluminar as nações e glória do teu povo Israel”. O pai e a mãe de Jesus estavam admirados com o que diziam a respeito dele.
Simeão os abençoou e disse a Maria, a mãe de Jesus: “Este menino vai ser causa tanto de queda como de reerguimento para muitos em Israel. Ele será um sinal de contradição. Assim serão revelados os pensamentos de muitos corações. Quanto a ti, uma espada te transpassará a alma”.
Havia também uma profetisa, chamada Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser. Era de idade muito avançada; quando jovem, tinha sido casada e vivera sete anos com o marido. Depois ficara viúva, e agora já estava com oitenta e quatro anos. Não saía do Templo, dia e noite servindo a Deus com jejuns e orações. Ana chegou nesse momento e pôs-se a louvar a Deus e a falar do menino a todos os que esperavam a libertação de Jerusalém.
Depois de cumprirem tudo, conforme a Lei do Senhor, voltaram à Galileia, para Nazaré, sua cidade. O menino crescia e tornava-se forte, cheio de sabedoria; e a graça de Deus estava com ele.
— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor!
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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Pe. Roger Araújo:

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FAMÍLIA: PEQUENA IGREJA
          Ao celebrarmos a Sagrada Família, nossa atenção se volta também para nossas famílias. As famílias hoje conhecem muitas dificuldades e desafios, mas também alegrias e esperanças. O papa Francisco nos lembra:

            “Como é importante às famílias caminhar juntos e ter a mesma meta em vista! Sabemos que temos um percurso comum a realizar, onde encontramos dificuldades, mas também momentos de alegria e consolação. Nesta peregrinação, partilhamos também os momentos da oração. Que poderá haver de mais belo, para um pai e uma mãe, do que abençoar os filhos ao início do dia e na sua conclusão? Fazer na sua fronte o sinal da cruz, como no dia do batismo? Não será esta a oração mais simples que os pais fazem pelos seus filhos? Abençoá-los, isto é, confiá-los ao Senhor, como fizeram os pais de Jesus. Como é importante, para a família, encontrar-se também para um breve momento de oração antes de tomar as refeições juntos, a fim de agradecer ao Senhor por estes dons e aprender a partilhar o que se recebeu com quem está mais necessitado (…). O perdão é a essência do amor, ele é fundamental na família. Ai de nós se Deus não nos perdoasse! É no seio da família que as pessoas são educadas para o perdão (…). Não percamos a confiança na família! É bom abrir sempre o coração uns aos outros, sem nada esconder. Onde há amor, também há compreensão e perdão”.

            Rezemos com frequência a bela oração que se encontra no final da exortação apostólica Amoris Laetitia:

“Jesus, Maria e José, em vós contemplamos o esplendor do verdadeiro amor; confiantes, a vós nos consagramos.
Sagrada Família de Nazaré, tornai também as nossas famílias em lugares de comunhão e cenáculos de oração, autênticas escolas do evangelho e pequenas igrejas domésticas.
Sagrada Família de Nazaré, que nunca mais haja nas famílias episódios de violência, de fechamento e divisão; e quem tiver sido ferido ou escandalizado seja rapidamente consolado e curado.
Sagrada Família de Nazaré, fazei que todos nos tornemos conscientes do caráter sagrado e inviolável da família, da sua beleza no projeto de Deus.
Jesus, Maria e José, ouvi-nos e acolhei a nossa súplica. Amém”.

Pe. Nilo Luza, ssp


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sábado, 30 de dezembro de 2017

A FALTA QUE FAZ O HUMOR - Zuenir Ventura

A falta que faz o humor


Vivo dizendo que não sou nostálgico, que, como Paulinho da Viola, “meu tempo é hoje”, que o importante é curtir o momento, carpe diem, essas coisas. Mas tenho recaídas, como a do último fim de semana, com a morte de Luiz Carlos Maciel, que me encheu de pesar e de recordações da época em que ele foi, como grande pensador, o guru de uma geração. Eram os anos de chumbo, tempos difíceis — de censura, prisões, tortura e morte — e curiosamente de grande efervescência artística, a ponto de alguns acharem até hoje que a repressão estimulava a criatividade, quando na verdade era apesar, não por causa dela, que se criava tanto.

Maciel foi responsável por divulgar a contracultura daqui e do exterior na sua coluna Underground, que assinava no “Pasquim”, um fenômeno jornalístico que contava com Tarso de Castro, Sérgio Cabral pai, Ziraldo, Millôr, Jaguar, Francis, Ivan Lessa, Sérgio Augusto para dar dor de cabeça à ditadura. Não a derrubou, mas ridicularizou-a com a sua principal arma, o riso, deixando a lição de que, no entanto, é preciso cantar e não perder a graça. 

Até então, pasquim significava panfleto, qualquer publicação sem qualificação e importância. Com humor e irreverência, o novo jornal subverteu forma e conteúdo, linguagem e conceito do que existia no mercado da informação. A ironia, a sátira, a paródia, o disfarce e o deboche foram usados contra a hipocrisia e o cinismo do poder dominante. Esse jornaleco de nome e cara fora de uso descolonizou um modelo de imprensa que era a transposição mimética do ideal francês ou americano.

A falta de seriedade, a conduta gaiata, anárquica, desorientaram os censores, cujos mecanismos foram apanhados de surpresa por um inesperado veículo alternativo sem declarada intenção política, mas que respondia a uma demanda reprimida. Com uma ousada tiragem inicial de 20 mil exemplares, em poucos meses vendia incríveis 200 mil e passava a influenciar costumes e a lançar modismos.

Se o tropicalismo, outro sucesso da época, pretendia ser uma alegoria do Brasil, o “Pasquim” foi uma paródia. Aquele jogava com o absurdo; este, com o ridículo. Se a ditadura era carrancuda, sempre de cara amarrada, uma das maneiras de se opor era fazendo rir dela. Existia, por exemplo, uma “esquerda festiva” apostando na alegria e capaz de assumir piadas politicamente incorretas como essa de autogozação em plena Guerra Fria: “o capitalismo é a exploração do homem pelo homem. O comunismo é o contrário”.

Daqueles anos de sufoco político, de que há tanto a rejeitar, ficou pelo menos uma lição para estes nossos tempos irascíveis e sem graça: é possível resistir sem perder o humor.

O Globo, 13/12/2017

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Zuenir Ventura - Sétimo ocupante da Cadeira n.º 32 da ABL, foi eleito no dia 30 de outubro de 2014, na sucessão do Acadêmico Ariano Suassuna, e recebido no dia 6 de março de 2015, pela Acadêmica Cleonice Berardinelli.

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JESUS - Raul Teixeira

Jesus

Chegou ao mundo nos braços de uma tecelã e de um modesto carpinteiro, cercado pela moldura da natureza em festa.

A Sua vida se desenvolveu, desde cedo, demonstrando a que viera, quando dialogou com os doutores do templo, aos 12 anos de idade, conforme rezam as tradições.
Conviveu com todos os tipos de criaturas, exaltando a simplicidade e a alegria de viver, a fidelidade ao bem e a fraternidade, a responsabilidade nos atos e o amor.

Falou sobre o bem, sentindo-o.

Ensinou o bem, vivenciando-o e a ele se entregando.

Passou pela Terra como a brisa que sopra na primavera, deixando o aroma da Sua passagem, numa verdadeira floração de bênçãos variadas.

Esteve no mundo como um marco de permanente esperança, insuflando coragem nas almas aterradas de pavor ante as próprias deficiências.

Viveu no planeta entre a luz do Céu e as almas umbrosas da Terra, buscando levantar o coração humano para as altitudes felizes, onde vibram os seres angélicos dos quais Ele fazia parte.

Aquilo que afirmou como fundamental à alegria e à paz tratou de expressar em Sua vida, na condição de Modelo e de Guia de todos nós, por isso amou os Seus e por eles deu a própria vida; atendeu às necessidades das almas enfermas que O buscaram; ofereceu a água fresca da Sua dedicação, a fim de que não mais sede tivesse quem dela bebesse; saciou a fome de entendimento, de conhecimento e de carinho, tudo havendo transformado no sublime pão da vida; apresentou-Se atencioso e verdadeiro para com Seus discípulos, ajustado à posição de Mestre inigualável.

Acompanhando os movimentos da Humanidade através das eras, identificamos nobres e respeitáveis almas que, na postura de líderes ou de condutores sociais, pregaram o bem, o bom e o belo para os seus liderados, que os exalçam pelos tempos afora.

Quando, diante da indagação de Allan Kardec aos Imortais acerca de qual era o Espírito mais perfeito oferecido ao mundo, para servir de Guia e Modelo à Humanidade, os Mentores planetários ripostaram dizendo que era Jesus.

Como Ele foi, então, o maior dentre todos os que à Terra foram enviados para anunciar o Reino dos Céus aos aturdidos filhos do Grande Pai, isso significa que todos os demais, por mais dignos e respeitáveis que tenham sido, são, contudo, menores do que Ele. Mensageiros da Divindade, todos os demais vieram atender aos programas do Criador atidos às épocas, às culturas, às inclinações morais. Jesus, porém, trouxe os matizes da Lei que a todos alcança, sem choques essenciais com nenhum deles, embora o formato próprio às realidades psico-antropológico-sociais de cada um.

Somente Jesus Cristo conseguiu ensinar e exemplificar com Seu viver as lições que nos passou, e se hoje, quando evocamos o Seu luminoso Natal, nos vemos engolfados nessas ondas de felicidade, é porque o Senhor de Nazaré, mais e melhor do que qualquer outro, transformou-Se em Caminho, em Verdade e em Vida para todos nós, em todos os tempos e em todas as dimensões da vida terrestre.

Mensagem psicografada pelo médium Raul Teixeira, na Sociedade Espírita Fraternidade, Niterói-RJ.

Raul Teixeira - Natural da cidade de Niterói, no Rio de Janeiro, Raul Teixeira é licenciado em Física pela Universidade Federal Fluminense, Mestre em Educação pela mesma universidade e Doutor em Educação pela Universidade Estadual Paulista. Professor aposentado da Universidade Federal Fluminense.

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NUMA NOITE ANTIGA DE NATAL – Ariston Caldas

Numa Noite Antiga de Natal


            A noite de Natal seria um bom cenário para o pedido. Ótimo mesmo.

            Júlio Braga pensou assim debruçado à janela, cruzando os dedos, olhando para o pequeno jardim em frente cheio de flores amarelas desabrochadas, havia pouco do amanhecer.

            Ele propusera isso a Isolda e o ato seria em forma de surpresa para seu Clemente e dona Elza, pais da menina,  mesmo sabendo-os difíceis para esse tipo de consentimento. A proposta, logo aceita pela moça, seria uma celebração importante para marcar o primeiro aniversário do namoro deles.

            Júlio juntava o cenário  de acontecimentos novos com ocorrências passadas, lembrava do primeiro encontro, tardinha caindo, o parque de diversão regurgitando de gente, carrossel girando, uma roda-gigante, barraquinhas, auto-falantes, ele no meio, circulando, de olho em Isolda na dita roda-gigante, abismado com as pernas dela abrindo e fechando, sem modo,  mostrando-se desapercebida, cabelo voando pelo vento.

            A proposta dele para  o namoro veio no dia seguinte, aceita por ela depois de muito lenga-lenga. Ele não lhe fazia o tipo desejado – branco demais, lábios finos, cabelo escorrido grudado de vaselina. Mas, moço de futuro, sério, de boa família, educado, bem de dinheiro. Verdade que ela, com somente 13 anos, não ia deslindar essas conceituações advindas de conversa fiada de quem quer que fosse. Como avisar o acontecimento do pedido aos pais de Isolda, particularmente a seu Clemente! Uma parada.

            Bom mesmo seria uma surpresa, tudo ocorrer sem nenhum aviso. O pior era que ele não tinha nenhuma intimidade com os familiares da menina. O Natal aproximava-se, Júlio contava os dias nos dedos, pensativo. E Isolda, meio assustada: “terei condições de casar agora?” Lembrava-se dos estudos, do cabelo liso de Júlio, dos beiços finos, da idade dela, 13 anos. Mas ele era um sujeito digno, de boa família, coisa e tal. Poderia haver, também, a rejeição dos pais dela, mas ainda pela idade, não tanto pela figura do rapaz que tinha boa condição social, participação ativa nos melhores meios do lugar.

            Quem achou a solução para o problema foi Susana, amiga de Isolda e da família dela. Susana entraria de braço dado com Júlio e o apresentaria aos pais de Isolda, explicando o objetivo da estranha visita. Júlio aceitara a ideia, Isolda, também.

            Chegou o dia, chegou a noite de Natal. Os pais de Isolda, como se soubessem do acontecimento do pedido, iluminaram a residência de ponta a ponta; montaram um presépio e prepararam uma ceia invejável; convidaram parentes e amigos. Isolda, sabendo de tudo, vestiu um conjunto chique, calçou sapatos novos e fez um penteado exuberante.

            Próximo à ceia e à missa, Júlio apareceu na porta da rua, de braço dado com Susana. Uma surpresa para seu Clemente, para dona Elza, não pela presença de Susana, mas pela cara de Júlio, sujeito quase desconhecido ou pelo menos sem  nenhuma intimidade com a família, mesmo namorando com Isolda; mas era uma amizade de encontros espaçados, pelos jardins, nas esquinas, ele nem chegava na ponta  do passeio de seu Clemente. Susana, sim, fora convidada. Isolda assustou-se, chegou a ficar pálida, amuando-se a um canto da sala, sem acreditar no que via, imaginando no que ia dar aquela encrenca. Noivar, 13 anos. Os estudos!

            Novamente Natal. Júlio Braga olhava, agora, umas nuvens vermelhas ofuscando o sol que se escondia. Faltava uma semana. “Será que a missa var ser com chuva?” Indagava-se debruçado à janela de outra casa em outro lugar, sem o jardim em frente com flores amarelas; os dedos cruzados, grossos, cabeludos nas juntas. Onde andaria Isolda? 13 anos naquele tempo, dentro de um conjunto vaporoso, penteado exuberante;  numa roda-gigante, as pernas abrindo e fechando, sem modo. Seu Clemente disse não ao pedido, sisudo, sangue subindo, irritado, bruto. Dona Elza retraiu-se, obediente, silenciosa, entrou para  um quardo onde devera ter chorado algumas lágrimas.

            Júlio envelheceu e não casou; as pernas encurvaram formando um arco, os pés balofos nuns chinelões esparrados, o cabelo escorrido de antigamente, sumiu, dando lugar a uma calva imensa alumiando sem auxílio de vaselina. Ele lembrava, de súbito, desse passado distante, conferindo-o com o presente, perdendo-se entre conjecturas. Tudo aflorou, assim, ao ouvir uma música de Natal repetida nem sabia quantas vezes através do tempo retratando Isolda com treze anos, seu Clemente, dona Elza que teria chorado trancada num quarto, depois da bronca do marido. Eram figuras ofuscadas por meio século, como se fossem personagens de uma estória de ficção.

            Olhou novamente para a vermelhidão do céu enquanto as imagens iam sumindo de sua cabeça, uma a uma, como sombras.


(LINHAS INTERCALADAS)
Ariston Caldas

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Ariston Caldas nasceu em Inhambupe, norte da Bahia,  em 15 de dezembro de 1923. Ainda menino, veio para o Sul do estado, primeiro Uruçuca, depois Itabuna. Em 1970 se mudou para Salvador onde residiu por 12 anos. Jornalista de profissão, Ariston trabalhou nos jornais A Tarde, Tribuna da Bahia e Jornal da Bahia e fundou o periódico Terra Nossa, da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado da Bahia; em Itabuna foi redator da Folha do Cacau, Tribuna do Cacau, Diário de Itabuna, dentre outros. Foi também diretor da Rádio Jornal.

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sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

DOM CESLAU STANULA - O Reveillon

O Reveillon

E,ntre mil e tantas “preocupações” para alguns, no fim do ano é O Réveillon.
Como se vestir?
Onde passar: em casa, na chácara, no clube, nos lugares turísticos, no Rio de Janeiro?

O que significa réveillon?
A palavra réveillon vem do francês e significa: vigília, ceia natalina ou no fim do ano, ou simplesmente ceia. Na França hoje significa a ceia realizada na vigília do Natal ou no fim do ano... Aos poucos, no Brasil, (a partir do século XX) cristalizou-se o seu significado: é a festa da passagem do ano.

Mas o mais importante, que não pode ser esquecido no Réveillon é a gratidão.
Gratidão a Deus por tudo o que temos e fomos durante o ano que finda.
A Bíblia diz que tudo o que temos vem de Deus. (Lc 12,30-32). Por isso antes de tudo, se és católico, passe na Igreja, agradeça a Deus. Se és cristão, concentre-se e faça uma oração de gratidão.
Depois vai ao Réveillon.
Na passagem de ano, quando os fogos apagarão, e o estrondo de bombas silenciarem, por um instante, silencie o seu coração, abrace a sua família, eleve o espírito a Deus, entregando os destinos do ano 2018 e Ele. Faça esta experiência e serás feliz.

Um feliz Ano Novo. Com a oração por você e sua família, e a benção de Deus. Uma Feliz Noite do Reveillon.
Até o ano que vem 2018.
Dom Ceslau.

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(Obrigado por me terem permitido entrar este ano, na sua intimidade por meio desta rede WhatsApp. Caso não quiser que continue com esta mensagem, só avise. Obrigado).

Dom Ceslau Stanula – Bispo Emérito da Diocese de  Itabuna, escritor, membro da Academia Grapiúna de Letras-AGRAL.


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ITABUNA CENTENÁRIA UM POEMA: A Felicidade é bela – Geraldo Maia

A felicidade é bela

É tão belo quando

chegas de dentro do silêncio
Para a infinita solidão de meus braços
É tão bonito quando
irrompes inquieta
De dentro desse sonho
azul sem janelas
Parece um pássaro
depois de esquecer
nas esquinas sua pétala de
vento
Um pequeno mar solto no
vazio que em
meus olhos tua
ausência plantou feito
um cálice cego e mais
belo ainda é
quando chegas
Feito um milagre com asas 
Em meu coração
louco de espera
E tua entrega ecoa
num clarão desnudo
É lindo quando teu
corpo sussurra
No dialeto da ternura a tradução da
saudade
Que meus dedos
recitam verso a verso
Até que esteja
escrito
no inverso de
tua pele
O poema estranho e
selvagem
da felicidade.

 
Geraldo Maia, poeta 
Estudou Jornalismo na instituição de ensino PUC-RIO (incompleto)
Estudou na instituição de ensino ESCOLA DE TEATRO DA UFBA
Coordenou Livro, Leitura e literatura na empresa Fundação Pedro Calmon
Trabalha na empresa Folha Notícias,
Filho de Itabuna/BA/BRASIL, reside em Louveira /SP.


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quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

UM LIVRO QUE VEM TRANSFORMANDO HISTÓRIAS DA AUTORA MICHELE STRINGHINI

Por Shirley M. Cavalcante (SMC)

A escritora Michele Stringhini da Silva nasceu em 1980, na serra gaúcha, Rio Grande do Sul. Estilista formada em Estilismo e Figurinismo pela Escola de Moda Profissional (EMP), São Paulo, é poetisa, compositora musical (com músicas registradas) e empreendedora (lojas on-line). Michele está no último semestre do curso de Letras – Português/Inglês pela Universidade Braz Cubas (UBC) – São Paulo.

É esposa de pastor, casada com Euclevos A. Stringhini da Silva, e o acompanha ministerialmente. Conheceu verdadeiramente a pureza e a pregação da Palavra de Deus, vivenciando assim experiências com o Espírito Santo, por meio da revelação da Palavra, da oração e do louvor. É apaixonada pela simplicidade da vida e pela arte de escrever, pois escrever livros, poesias e letras musicais é mais que um prazeroso hobby, é um chamado para amar. Ama estudar e tem forte interesse por língua estrangeira (é estudante do idioma finlandês), como também, moda, fotografia e artesanato; enfim, ama a natureza e conhecer novos lugares.

“A jovem se depara com as limitações da sabedoria humana, pois a alma é território exclusivo. E somente quem criou a alma pode manifestar a cura infalível, a cura que vem do Amor infalível.”

Boa Leitura!

Escritora Michele Stringhini, é um prazer contarmos com sua participação na revista Divulga Escritor. Conte-nos, o que a inspirou a escrever o livro “Elixir do Amor – a cura infalível do amor”?

Michele Stringhini – Shirley, primeiramente agradeço a oportunidade. Sempre tive  interesse em publicar um livro,pois escrevo desde os 15 anos de idade e primo por transmitir uma mensagem inspiradora que possa ajudar alguém.O leitor pode se identificar com a história em partes ou tê-la como um exemplo de alerta;ou como conteúdo que agregue valor ao seu caráter e seja reconhecida como uma obra que possa ser indicada a outra pessoa.Assim, terei cumprido o mais belo propósito,que é ter feito o bem a alguém. E com esse intuito fervoroso em meu coração – do importar-se com a dor alheia e/ou fazer que aquele coração que se massacrava diariamente consiga ser desvencilhado de algum fato passado– esta obra tem por objetivo servir de mola propulsora e corajosa, acreditar na força do Amor Divino, aceitando o perdão de Deus, e ensinar a perdoar, pois a história é um testemunho de vida. Afinal, só o Amor cura e tem a capacidade de sarar todas as feridas da alma.

Quais temáticas estão abordadas nesta obra literária?
Michele Stringhini – Romance, drama, suspense e não ficção.

Apresente-nos a obra.
Michele Stringhini – “Elixir do Amor – a cura infalível do amor”é baseado em fatos reais e compartilha a transformação de vida da jovem Milena Minchillo, que sofreu duas tentativas de estupro, é enganada e invejada por falsas amizades, mergulhada num estado depressivo profundo, sofrendo com problemas espirituais e opressões malignas. Milena se vê na necessidade de buscar a solução para problemas, tanto espirituais emocionais ou familiares. Sente a carência de sua alma ferida ser curada. A jovem se depara com as limitações da sabedoria humana, pois a alma é território exclusivo. E somente quem criou a alma pode manifestar a cura infalível, a cura que vem do Amor infalível.

Sendo um livro baseado em acontecimentos reais, apresente-nos os principais desafios para a escrita do enredo que compõe o livro.

Michele Stringhini – Este livro foi escrito em três dias e meio. Meu esposo e eu estávamos em consagração em prol da igreja e entre outros propósitos particulares. O meu maior Ajudador em todo o desenvolvimento do livro até a sua conclusão foi Deus. (Essa história eu queria ter escrito antes, mas não me sentia preparada pelo fato de ser baseada em situações reais, e simplesmente pelo cuidado de preservar a vítima.) E essa consagração foi baseada no livro de Apocalipse 11:11, que fala sobre os 3 dias e meio.A revelação foi a seguinte: em três dias e meio Deus restauraria aquela área da vida ou manifestaria o sonho (projeto) desejado havia tanto tempo. Está consumado: “Escrevi o livro em 3 dias e meio!”. Deus me fazia perder o sono, eu ia para o notebook e acrescentava o que precisava. Após essa consagração, 7 dias se passaram, nenhuma linha ou letra de inspiração, só na semana seguinte retornou o ânimo (vontade) de outros versículos serem adicionados e rever o conteúdo.

Qual a mensagem que deseja transmitir ao leitor pela leitura do enredo que compõe a trama?

Michele Stringhini – O conteúdo do livro em si não é para criar doutrina alguma, nem expor a situação alheia ou vivida de maneira humilhante, nem condenar, nem castigar, mas promover o perdão de Deus. Contudo, os nomes dos personagens foram alterados; apenas vêm para despertar sincero perdão, tirar aprendizado dos erros, tirar lições da falta de sabedoria e da falta de entendimento. Com certeza, não existe caso irreversível para Deus; existe uma nova oportunidade, quando essa pessoa está disposta e aceita essa oportunidade. O conteúdo está recheado de experiências com Deus em Sua Palavra; claro, baseadas em acontecimentos reais que vão alimentar a fé, tornar-lhe (o leitor) mais sentinela. Por que não aprender com os erros e acertos de alguém? É apenas para a edificação, independentemente do credo ou religião. Conheça o amor transformador!

O que mais chamou sua atenção enquanto escrevia o livro?

Michele Stringhini – O que mais me chamou a atenção enquanto escrevia o livro foi que cada desenrolar da história encaixava-se como um quebra-cabeça; cada “pecinha” deixava a história mais envolvente e reveladora, mais empolgante, mais recheada de emoção e expressão. Cada instante foi análogo à gestação de um bebê no ventre da sua mãe; “sentindo as dores, os chutes, os enjoos, as alegrias e as ansiedades”, um mix de emoções num curto espaço de tempo (em 3 dias e meio escrevi esta obra). Escrevi com tamanha liberdade e otimismo, que as palavras fluíam como águas agitadas, sem me afogar nelas. Essa experiência foi ímpar, com sabor de bis. Sou grata ao Deus Todo-Poderoso por essa experiência! “Elixir do Amor – a cura infalível do amor” é o meu primogênito.

Onde podemos comprar seu livro?

Michele Stringhini – Livro impresso: www.clubedeautores.com.brwww.submarino.com.brwww.americanas.com.br. E-book: www.saraiva.com.br .

Quais os seus principais objetivos como escritora? Soube que você já tem novos livros no prelo para 2018; apresente-nos seus novos projetos literários.

Michele Stringhini – O gosto pela escrita começou desde a minha adolescência; de lá pra cá, escrever é missão, é cumprir parte do meu chamado. Sinto vontade de escrever livros voltados ao público infanto-juvenil e criar histórias em quadrinhos. Os meus novos livros para lançamento em 2018 são: “Tempo para a poesia – poesias que transportam memórias” – 1ª edição e “Pronta para Dançar! – no ritmo da fé”, inspirado em uma história real – 1ª edição. 

Pois bem, estamos chegando ao fim da entrevista. Muito bom conhecer melhor a escritora Michele Stringhini. Agradecemos sua participação na Revista Divulga Escritor. Que mensagem você deixa para nossos leitores?

Michele Stringhini – Carinhosamente, saliento como forma de mensagem um trecho que consta em meu livro:
“O amor sempre vence a dor, o amor vence o pecado, o amor sempre age com a verdade, o amor sempre traz esperança, o amor sempre traz reconciliação, o amor segundo o amor de Deus, aquele amor incondicional, está à disposição de todo aquele que precisa de perdão, de todo aquele que precisa de uma nova chance, seja ele culpado ou inocente. Para esse amor não existe caso perdido, por mais que alguém tenha ido longe demais. O amor, segundo Deus, faz-nos perdoar até o pior transgressor, faz perdoar a nós mesmos; faz o outro, o ofensor ser livre e aprender a depender desse amor, assim, viver em novidade de vida.”
(Aquele que não ama não conhece Deus; porque Deus é amor – João 4:8 – ACF).

Divulga Escritor, unindo você ao mundo através da Literatura




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FELIZ NATAL, VOTOS DE FESTAS SÉRIAS – Péricles Capanema

28 de dezembro de 2017 
Péricles Capanema

Anima ouvir “Feliz Natal”! Soa agradável Natal de muita saúde e paz. “Santo Natal”, expressão afável, cada vez menos comum. Escutei sem-número de vezes votos de alegre Natal. Óbvio, jamais me deram votos de tristes festividades natalinas.

E nem de sério Natal. Cairia estranho, poderia parecer censura a um brincalhão. Pensando bem, nem tão estranho assim. Pelo menos uma vez, gostaria que alguém me tivesse dito: “um sério Natal”.

Desejar “Feliz Natal” é querer as festas em ambiente leve. “Sério Natal”, que continuem presentes as graves questões que povoam a vida de cada um de nós. Gravidade e leveza não se excluem, nunca se excluíram, complementam-se. Leveza sem gravidade despenca para a leviandade.

Gravidade sem leveza descamba para caturrice. Sábia é a pessoa que alia leveza e gravidade. Minha ambição hoje é alcandorar a seriedade, raiz da sabedoria, caminho para a felicidade. Se conseguir bem, será brilhante bola vermelha na árvore da sala, meu presente de Natal para os leitores.

Já no começo, faz falta acabar com a confusão entre alegria e felicidade. Em geral, as pessoas querem ser vistas alegres para assim parecer felizes. E é comum um abismo entre as duas realidades. Le bonheur n’est pas gai (a felicidade não é alegre), frase que retumbou mundo afora, resumia o filme Le Plaisir, baseado em três contos de Guy de Maupassant.

Continuando no tema, mudo o cenário. Li, faz pouco, o mesmo por aqui: “Sou alegre, mas não feliz”, lamento de Dadá Maravilha, o futebolista folgazão. O mais alegre dos jogadores se vê como um infeliz. Uma mãe que trabalha de sol a sol para pagar os estudos da filha aplicada pode não estar alegre, mas será intensamente feliz, animada com o cumprimento do dever e por abrir boas perspectivas para a moça.

Todos percebem, o esforço e o dever estão mais ligados à felicidade que à alegria. Enfim, são várias as formas de alegria. A felicidade pode ser alegre, pode estar triste, pode brilhar num rosto esgotado. Um menino brincando sozinho com um carrinho em geral tem semblante sério e feliz. Nietzsche afirmava, o homem se torna maduro quando reencontra a seriedade que tinha quando brincava em criança.

Temos aqui, não a procura, mas o reencontro de um tempo às vezes perdido durante a adolescência e a juventude. O Natal autêntico tem isso, festa familiar com nota infantil séria. A alegria natalina — calma, temperante, esperançosa, entendendo o sofrimento — é átrio para entrar no palácio da felicidade.

Sem seriedade, não alcançamos ser felizes. A alegria contemporânea desembesta para o rumo oposto.
Para esconder a infelicidade, procura saída artificial, aparece vestida com roupagem extravagante. Basta examinar os role models atuais, celebridades do entretenimento em primeiro lugar, a mais de outras nos mais variados espaços da vida humana.Inautênticos, estadeiam estilos de vida estapafúrdios, sorrisos exagerados, risadas desatinadas. Ali pululam as drogas, o suicídio, as separações matrimoniais contínuas, tanta coisa mais. O que são em suas representações enganadoras? Embusteiros, alguns geniais, juntos na promoção de uma fraude.

O bem não faz barulho e o barulho não faz bem, escreveu São Francisco de Sales, o suave doutor da Igreja. Discreta, a verdadeira felicidade pode conviver com a tristeza, a dor, o fracasso; também com a alegria, os êxitos, as grandes conquistas. Mas sempre se manifestará veraz. Assoma agora à porta uma irmã da seriedade, a autenticidade, saudemo-la.

Verazes, autênticos e sérios caminhemos até a manjedoura onde dorme placidamente o Menino-Deus. Súplices, peçamos a Ele que nos sustente em todos os passos da peregrinação ao encontro da Felicidade infinita.



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Péricles Capanema

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quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

NASCEU HOJE, IRMÃOS, O NOSSO SALVADOR! – Dom Ceslau Stanula II

26/12/2017
S. Agostinho (+430) na sua homilia natalina fala:

«Hoje nasceu para nós o Salvador.
 Nasceu, portanto, para todo o mundo o verdadeiro sol.
Deus Fez-se homem para que o homem se fizesse Deus.
Para que o escravo se tornasse senhor, Deus assumiu a condição de servo.
Habitou na terra o morador do céu para que o homem, habitante da terra, pudesse encontrar morada nos céus».

Com a minha benção e oração. Boa Noite, Feliz Natal.
Dom Ceslau
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27/12/2017
S. Inácio, bispo e mártir de Antioquia, (+ 100), contemplando o mistério do Natal, expressa, figuradamente, a alegria até dos astros  no céus quando a  Estrela Guia  aparece:

“Mistérios clamorosos que se realizaram no silêncio de Deus”.

«No firmamento brilhou uma estrela maior do que todas as outras!
A sua luz era indescritível.
A sua novidade causou estranheza.
Mas todos os demais astros, incluindo o Sol e a Lua, fizeram coro à Estrela.
Esta, porém, ia arremessando a sua luz por sobre todos os demais.
Houve, por isso, agitação.
Donde lhes viria tão estranha novidade?
Desde então, desfez-se toda a magia; suprimiram-se todas as algemas do mal.
Dissipou-se toda a ignorância; o primitivo reino corrompeu-se, quando Deus se manifestou humanamente (no presépio) para a novidade de uma vida eterna».

Com a minha benção e oração.
Feliz Natal e o Ano Novo cheio de realizações com constante presença de Deus.
Dom Ceslau

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Dom Ceslau Stanula – Bispo Emérito da Diocese de  Itabuna, escritor, membro da Academia Grapiúna de Letras-AGRAL.

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NEM TÃO SIMPLES - Ana Maria Machado

Nem tão simples

"Simples assim. Entendeu ou quer que eu desenhe?”

A toda hora estamos esbarrando em variantes dessa atitude arrogante, seja em comentários na internet ou em palpites que surgem em conversas ao vivo, com a pretensão de calar o outro. Por vezes, vem revestida de um tom teórico peremptório, cheio de ecos intelectuais, a insinuar que qualquer discordância é estúpida. Nem por isso deixa de ser uma forma de ofensa, a chamar o outro de burro.

No entanto, o que a história do pensamento nos mostra é bem diferente. Sempre foi um trajeto calcado em dúvidas e hesitações, por mais que o processo da busca do conhecimento se faça com certa teimosia e algumas raras certezas muito bem focadas — de que Galileo é um bom exemplo. Mas a honestidade que marca a ânsia de saber convive com a admissão das inseguranças que abrem portas, desde o axioma socrático do “só sei que nada sei”, passando pela dúvida metódica cartesiana, até os princípios da complexidade que Edgar Morin aponta ao sublinhar as incertezas que caracterizam nosso tempo.

Neste momento em que os eleitores brasileiros sentem a necessidade de analisar a nossa atual crise com algum exame que vá além da superfície imediata, pode valer a pena lembrar que nada é “simples assim”. Não dá para resumir num mero desenho. Mas convém admitir que grande parte do retrocesso que aí está a nos assombrar é fruto de uma complexa conivência da nossa sociedade. A tal omissão dos bons que permite a expansão do crime e da injustiça. Às vezes por comodismo, às vezes por simplismo, às vezes por recusa a admitir o próprio engano. E como fomos enganados...

Votando em Lula, Dilma, Aécio, Cabral, Cunha ou Renan, e tantos outros, fomos engambelados por belas palavras, fartas promessas e bom mocismo. Como se tudo fosse simples assim. Só que não é. Convém não esquecer. É preciso admitir que fomos traídos. Transformar o arrependimento em alguma sabedoria. Aprender com os erros, para não repeti-los. Ao menos, tentando escolher melhor o futuro Congresso.

Não que a sociedade tenha ficado apática e de braços cruzados. Movimentos sociais se organizaram e reivindicaram. Manifestos e abaixo-assinados se espalharam pela internet. Conseguiram gerar fatos concretos e positivos, como a Lei da Ficha Limpa. Ou sugerir as Dez Medidas contra a Corrupção.

Mas agora se assiste a um retrocesso que tem como objetivo atrapalhar toda e qualquer melhoria nessa área. E em outras.

O fato de não se fazer uma reforma eleitoral tem muito a ver com isso. Continua havendo uma proliferação de partidos que seria cômica se não fosse trágica — mas que é muito eficiente em atrapalhar a governabilidade e estimular esse abominável balcão de negócios no Congresso. Os exemplos se multiplicam.

A análise racional mostra que é indispensável para as futuras gerações que se faça já a reforma da Previdência, cujo desequilíbrio paralisa investimentos em saúde, educação, saneamento. No entanto, aí estão os políticos barganhando e impedindo que ela se faça, mesmo reduzida, desvirtuada e insuficiente.

Em outro âmbito, a recusa em fazer a reforma eleitoral (tanto no Legislativo quanto no Judiciário) prorroga a existência desordenada de partidos e ameaça recuos na Lei da Ficha Limpa ou na determinação do STF de que a pena comece a ser cumprida após decisão em segunda instância. E continuamos sujeitos a esse Congresso tecido de políticos corruptos, incapaz de dar um mínimo passinho à frente que faça avançar alguns milímetros.

A isenção fiscal para igrejas resulta em bancadas religiosas retrógradas que esgrimem argumentos autoritários para impor à nação atitudes e comportamentos medievais. A degradação pública e o opróbrio são amplamente utilizados nos linchamentos morais a que assistimos a todo momento. Já chegamos ao ponto de literalmente queimar bruxas — ainda que por enquanto nos limitando ao simbolismo de bonecos que as representem, como se viu no caso da filósofa Judith Butler. Mas nem sempre é só simbólico: a dona de casa Fabiane Maria de Jesus foi linchada até a morte no Guarujá a partir de uma falsa acusação, na internet, de sequestrar crianças para magia negra. Uniu-se a reles mentira com a sanha de condenar sem apurar. Males atuais.

Tudo isso desvia da justiça necessária. Vemos todo dia as tentativas de retrocesso que impedem a punição de culpados de corrupção, na Lava-Jato ou fora dela. Vale tudo, a começar pela manutenção do foro privilegiado para milhares de políticos — e agora se fala em estendê-lo a ex-presidentes.

O discurso para a aparente justificativa é sedutor: alardeia a garantia de direitos dos investigados e acusados (que têm mesmo de ser garantidos). Mas esquece a garantia do direito da sociedade, de não ver perpetuada a impunidade de criminosos por meio de manobras e chicanas.

Esses diversos fios se tecem em tramas e tramoias. Pelo menos, fiquemos atentos para perceber a complexidade do mecanismo. Há que abrir os olhos para votar melhor no futuro. Nada se resume a um “simples assim”.

O Globo, 09/12/2017


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Ana Maria Machado - Sexta ocupante da Cadeira nº 1 da ABL, eleita em 24 de abril de 2003, na sucessão de Evandro Lins e Silva e recebida em 29 de agosto de 2003 pelo acadêmico Tarcísio Padilha. Presidiu a Academia Brasileira de Letras em 2012 e 2013.

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