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terça-feira, 13 de novembro de 2018

ITABUNA CENTENÁRIA, UM POEMA: O PERDÃO – Catulo da Paixão Cearense


O Perdão
(A Bastos Tigre)

Ligue o vídeo abaixo e leia o poema do Catulo da Paixão Cearense sob o fundo musical de “Ontem ao Luar” de sua autoria:


João Carreiro era um carreiro,
proprietário de um carro
e de uma junta de bois.
Com a dona Chica Constança,
com quem se casou depois,
recebeu-os como herança,
do falecido Ramalho,
seu padrinho e seu avô.
(“Avô? Mas avô de quem?
Já estou contando na certa
com a tua interrogação!)

A pena não se explicou.

Mas tudo fica explicado
numa breve explicação: -
o velho, o avô falecido,
era o da moça!... (Percebe?
Não era avô do João!)
O velho, que já sabia
que o rapaz gostava dela,
e ela, - do rapagão,
não tendo mais que deixar,
morrendo, deixou-lhe a neta
e mais os bois e o carrão.

A Constança, com franqueza,
a neta do Zé Ramalho,
não era a flor da beleza,
mas era a flor do trabalho.

Todo o tesouro, a fortuna,
todo o bem do João Carreiro,
desse homem trabalhador,
todo o afeto, o seu amor,
todo o seu grande ideal,
era a Constança, o seu carro,
a bela junta de bois
que estava lá no curral,
e o seu templo – a sua choça
a casa mais conhecida
de toda gente da roça.

Dizem mesmo algumas bocas
que o nosso belo carreiro
foi um tanto interesseiro,
porque se casou, primeiro
pelo carro e pelos bois...
- Mas não amava a Constança?!
- Amava... Mas todos dizem
que o amor veio depois.

Quem visse aqueles carinhos
com que tratava o seu gado,
ficava desconfiado!

Os bois não eram crianças,
mas também não eram velhos,
pois quando inchavam nas pernas,
para fazerem aparro,
e arrancavam do lameiro
as duas rodas do carro,
com os nervos dos seus pescoços...
eram bem moços... bem moços!...

Um chamava-se Laranjo,
e era um boi arreliado,
forçudo, mas preguiçoso:
o outro era o Beija-Flor,
que era também de vigor,
mas muito manso e amoroso.

Para pegar o Laranjo
e botá-lo no varão,
era um trabalho estupendo,
eram horas de canseiras;
pois quando o boi pressentia
que o dono vinha agarrá-lo,
corria, como um cavalo,
pelas matas e capoeiras.

Ao passo que o Beija-Flor,
carinhoso, terno e leal,
bastava ouvir o seu grito,
acorria logo aflito,
para encostar-se ao varal.

Enquanto para o Laranjo
fazer uma simples coisa
era preciso que o dono
se esfalfasse de gritar,
o Beija, sempre fagueiro,
obedecia ao carreiro
por um simplíssimo olhar.

Tudo o que o dono dizia,
gesticulando ou falando,
o Beija-Flor entendia.

Quando a carroça caía
num caldeirão do caminho,
o Beija-Flor já sabia
o que tinha de fazer,
sem auxílio do varão.

E quando o outro fingia
que estava fazendo força
para arrancar a carroça
de dentro do caldeirão,
num gemido que soltava,
parece que assim falava:

“O Laranjo está fingindo!
“Não está puxando, nhôr, não!”

Então o cabra levava
tanta varada e ferrão,
que o sangue logo espirrava,
a ensanguentar todo o chão.

À noite daquele dia,
o Laranjo recebia
metade só da ração.
E ainda mais: por pirraça,
na noite daquele dia,
O Beija-Flor só comia
o raro capim mimoso,
que é o novinho e o mais gostoso!

Mas o boi não se emendava,
porque gostava da turra!
Já tinha o ventre lanhado
e o pescoço encalombado
de chupitar tanta surra!

De uma feita, numa luta,
num combate desastrado,
o Laranjo ia matando
o pobre Beija!... Que horror!!!

O diabo tinha ciúme
té mesmo do Beija-Flor!

Foi um combate horroroso!...
Foi um prélio desigual!...

Em menos de dois minutos,
era uma vez um curral!

João que estava sesteando
lá dentro, em sua tapera,
ouvindo aqueles gemidos,
veio saber  que era.

Ao ver os dois animais
com os chifres emaranhados,
como dois alucinados,
e vendo que o Beija-Flor
não lhe levava vantagem,
e já ia, pouco a pouco,
arrefecendo a coragem...
ficou tão doido, tão louco,
que dando um murro tremendo
no vazio do rival,
recebeu, como resposta,
do Laranjo renegado
uma chifrada fatal!!

O golpe foi tão violento
que o homem titubeou,
e, como se fosse um morto,
quase morto ali ficou.

Quando, mais tarde, a mulher
deu ali com o seu marido,
com a rigidez de um cadáver,
naquele chão estendido,
num berreiro abriu a boca,
e lá foi dona Constança,
correndo, como uma louca,
em altos gritos aflitos,
alarmando a vizinhança!

Foi, sem exageração,
qual se tivesse explodido
a cratera de um vulcão!
Pois tanta gente saía
de toda parte a gritar,
que até parece que o mundo,
num incêndio pavoroso,
ia de vez se acabar!

Nos braços dos seus amigos,
num abrir e fechar de olhos,
João Carreiro, inanimado,
foi pra casa carregado,
enquanto foram chamar
a toda pressa o doutor,
o médico do lugar.

Em menos de dez minutos,
já se via a tigelinha,
a brivana do doutor,
muito bem arreadinha,
na porta do vitimado,
pataleando, a rinchar.

Ouvia-se o palpitar
de todos os corações,
quando o doutor se acercou
do leito do moribundo!
E quando, depois do exame,
num sorriso comovido,
disse aos íntimos: “Perdido”,
foi um silêncio profundo!!

O doutor se retirando,
e dando na brivaninha
um leve, pequeno açoite,
proferiu esta sentença: -
“Não passará desta noite”!

Desde o instante da chifrada,
o pobre do João Carreiro
tinha perdido o sentido!!...

Tinha a palavra perdido!!...

Mas, às três horas da tarde,
indo-lhe alguém perguntar
se, antes do seu trespasse,
queria que se matasse
o boi, que já estava preso
no ranchão lá do curral,
recuperando os sentidos,
em voz baixinha falando,
disse, quase soluçando:

“Deixem viver o animal!...
“Matá-lo?! Matá-lo?! Não!!
“É preciso que ele viva,
“para poder perdoar
“toda a minha ingratidão!

“Se eu quisesse me vingar
“dos coices e ponta-pés
“dos homens, desses cruéis
“que escoucearam minh’alma,
“talvez por muito os amar...
“tinha muito que matar!!

“Entre o grande racional
“e o pobre desse animal,
“qual foi mais atroz? Qual foi?!

“Amigos!... Se eu fosse boi...”

Ia dizer uma coisa,
Mas já não pôde falar!

A tarde se despedia!

A torre da Capelinha,
que em sua triste alegria
ao pé do monte floria,
sonorizava no bronze
as lágrimas soluçadas
na hora da Ave-Maria!!

Lá, no fundo do curral,
como longínquo trovão,
veio um profundo mugido,
num grito de maldição,
ou no perdão de um conforto!

O que seria?! O Perdão?!

Quem sabe?!

Só Deus e o morto!!!...


(POEMAS BRAVIOS)
Catulo da Paixão Cearense
.....................
            A musa de Catullo Cearense fala intimamente à alma e ao coração do nosso povo. Em cada estrofe desse poeta singular e milagroso, sente-se palpitar e estremecer o ideal amoroso, a tradição lírica da raça.
            Eis porque as inteligências solares, como Ruy Barbosa, exaltam com tanto carinho os versos límpidos, puros e singelos desse maravilhoso trovador do Sonho e da Beleza, que é Catullo Cearense.

                                                                                                                          Bezerra de Freitas


* * *

LEMBRANÇAS DE SEU AFONSO – Ariston Caldas

Lembranças de seu Afonso

É, a vida é um mundéu, o tempo vai passando, passando, e quando a gente percebe, adeus mocidade!

            Seu Afonso pensava assim deitado numa espreguiçadeira na varanda do fundo, olhando uns assanhaços saltando entre as folhas do mamoeiro rente à cerca. Imagens antigas passavam  súbitas por sua cabeça às volta com boiadas pelos gerais do Oeste baiano, embarbelado, gibão e caneleiras, tudo de couro cru.

            Quando ele passava conduzindo uma boiada, os moradores fechavam as portas e se acotovelavam pelas janelas; posudo num cavalo alazão de crinas largas, ele aboiava e fazia cabriolas. Conhecia toda a redondeza, tinha uma namorada em Ibotirama, “cabocla bonita e cheirosa”. Nem perdia festa de rua, os bailes animados por todo canto. “Tempo bom”, refletia entre sombras antigas, esquecendo os assanhaços saltando pelas folhas do mamoeiro.

            Meditou haver passado toda sua juventude por aquelas bandas desertas  sem asfalto, sem iluminação elétrica; tinha saudade dos banhos  no rio São Francisco cheio de piranhas; nem tinha medo das piranhas; saudade dos jardins de Ibotirama assim de garotas; do mulherio, as meninas decotadas pelas esquinas  depois das dez da noite, Terezinha tinha 19 anos, já de peitos murchos e a dentadura falhada, mas bonita de dar gosto.  As unhas de Lurdes pareciam de um gavião, cabelos fofos, negros e ondulados; quando a conhecera ela usava um vestido branco e ligado. “Uma novilha”. Gostava de Lurdes, tomava cerveja com ela e fizeram uma vez  havia muito tempo. Agora, fora vê-la novamente, depois de uma vaquejada; ela bebia com dois sujeitos; ao notá-lo, afastou-se  deles e o abraçou, puxando-o depois para o quarto ao lado. Um dos sujeitos era meio-gordo e baixo, de costeletas longas, boina preta e meio de banda na cabeça, o outro, mulato espadaúdo, calça até a boca do estômago sustentada por uns suspensórios largos formando um xis nas costas; cabelo de escadinhas partido no meio. Os dois passaram a noite num converseiro infeliz: “mulher vagabunda, bandida, merece uma surra bem dada; isso não se faz com ninguém, somos moleques!” Diziam, entre outras lamúrias. Notou depois que eles se referiam a Lurdes; não gostaram do chamego dela, ainda o rebocando para dentro do quarto; tomou as primeiras providências puxando da cintura um parabélum e colocando-o sobre a banquinha de cabeceira; deitou-se nu e passou a acarinhar o corpo de Lurdes estirada na cama, mas de olho nos dois.

            Uma abstinência súbita tomou-lhe o corpo de cima a baixo, o rosto queimava. “Estes caras enchem o saco”, Lurdes falou alisando-lhe o rosto queimando, parecendo ter febre. “Você está quente”,  disse ela; depois, desapontada, virou-se para a parede e dormiu.

            Os dois sujeitos se foram embora ao amanhecer. Certamente temiam o chapéu embarbelado, a couraça, o rebenque encastoado e, principalmente, o parabélum pendurado à cintura. “Se eles tentassem uma investida contra mim ou contra Lurdes, eu os queimaria na bala, sem dúvida”.

            Muita apreensão furando o juízo;  a certa altura pensou vestir a calça, ir a eles e indagá-los: o que há, companheiros! Querem calar a boca para que eu possa dormir? Lurdes garantia que nada tinha a ver com eles; provaria ser um homem de verdade! O corpo dela era todo branco na turvação do quarto, espalhado sobre a cama; a momentos,  ele acarinhava os seios dela, a barriga delgada; depois descia uma mão lhe apalpando p púbis de pelo espesso, macio; mas o entusiasmo não chegava, o rosto pegando fogo, os nervos esfarelados. Lurdes até se esforçou;  “você é muito bonito, andava doida para este encontro”, dizia, passando as mãos pelos peitos cabeludos dele, arfando, pelo cangote de boi zebu; depois passou a lambe-lo de cima a baixo, mas o calor parecia assar-lhe o rosto, todo o corpo; nunca havia experimentado reação assim.

            Os dois sujeitos não paravam a goela e o baixinho, que parecia o dono de tudo, falava mais alto,  todo cheio de costeletas,  vermelho, agitado, de boina preta atravessada; sujeito metido a trunfo. Quase se decidiu a sair do quarto, com o parabélum e meter-lhe o cano na testa:  “Cale a boca, filho da puta!” Mas não saiu.

            O sol já estava alto quando se afastou, deixando Lurdes que ainda dormia. Até hoje ele sentia raiva dos dois sujeitos, mais ainda do baixinho de costeletas longas e boina preta. “Moleque enjoado merecia uns tapas pelas fuças.

            Naquele tempo tudo era diferente de hoje, concluiu seu Afonso voltando a dar atenção para os assanhaços que se despediam em bandos do mamoeiro, numa desfilada espetacular, em direção a um bosque verde-escuro, para as bandas do Sul.


(LINHAS INTERCALADAS – 2ª Edição, 2004)
Ariston Caldas

* * *