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quarta-feira, 10 de julho de 2019

VISÃO DE UM CEGO – Jaécio Matos


Poema inspirado no filme: "A música do silêncio" ( história de vida do cantor italiano Andréa Bocceli)


Visão de um cego

Sentir é melhor que enxergar.
Eu sei que a vida é uma coisa boa
Mas, sei também o que pode atormentar.
Vejo você agora com meus olhos brilhantes.
Não me enganam as aparências.
Sinto a tua beleza valorizar meus instantes.
Em cada noite o céu fica claro pra mim
Pois, apesar da distância, enxergo estrelas.
A sensibilidade está nos olhos da alma.
O feio aparece quando a alma desvanece.
Do sentimento bom, brota a vida nos olhos
Pois, se é amor, a visão da alma prevalece.
A visão de um cego que sente é recompensa
Quando não pensa ele com olhos carnais
Querendo só ver o belo naquilo que satisfaz
Ela é a lucidez do seu coração
Ela é a razão de sua existência
Ela é a bula daquela panaceia
Ela é a bússola daquele labirinto
Ela é o caminho iluminado que lhe apraz.

Jaécio Matos - Poeta

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AS PROEZAS DO SONETO - Cyro de Mattos


As Proezas do Soneto
Cyro de Mattos

           A poesia permite ao homem realizar-se como um ser mágico, que consegue retirar a cegueira da matéria.  A poesia está em tudo. Procure bem, você a encontra.  Não esqueça que só o poeta a ergue no poema como testemunho de sua experiência perante a existência. Nessa corrente energética que emana da natureza humana, o soneto acontece como uma festa prazerosa de poucas estrofes.  Trata-se de uma forma fixa de poema com quatorze versos, dispostos em dois quartetos e dois tercetos. O último verso é tido como “chave de ouro”, devendo surpreender e encantar com a sua revelação no desfecho.

          Combatido pelos vanguardistas, os protagonistas da Semana da Arte Moderna de 22 não lhe pouparam depreciações, alardeando naquele movimento a indignação de “fora a gaiola” contra o indefeso poema breve, além de outras referências nada agradáveis. Sua febre imperceptível fez com que atravessasse séculos, permanecesse até hoje, reverenciado com fidelidade por poetas modernos, com vistas a atingir o nível superior da alma. Esse breve espaço operacional da criatividade assim vem sustentando o ser em estado súbito da comoção.

          A língua portuguesa ganhou em beleza e modulações rítmicas com o verso decassílabo.  Considerado como o mais melodioso e harmonioso, é usado no soneto.  Apesar disso, é dado ao poeta que cultiva o soneto a alcunha de soneteiro, sonetoso e sonetifero. O exímio sonetista baiano João Carlos Teixeira Gomes registra uma série de expressões em desfavor das andanças do  rejeitado  poema de quatorze versos:  “refúgio da decadência”, “gaiola da inspiração”, “bestialógico acadêmico”, “muleta da má poesia”, “cabresto da criatividade”, “onanismo poético”, “barbitúrico para insônia”, “sucedâneo de palavras cruzadas”, “museu do bolor  formalista”, “chavão de segunda ordem”,  “formalismo oco e vazio”, “museu de velharias passadistas” .

          Não obstante o comportamento contundente dos que desfazem de imbatível criatura nanica, sua garra permite que continue de pé, ínfimo caminhante do sol e da chuva   nos seus modestos passos de quatorze versos, buscando em sua peripécia métrica e feiticeira do imaginário atingir o ponto máximo do encanto na alma do receptor.   Segue indiferente às acusações e atropelos da legião de fanáticos, que não o aceitam, sob qualquer hipótese. Teima em habitar com seus lampejos líricos a floresta dos poemas maiores, de poetas célebres com suas criações em versos longos, eloqüente quantidade de estrofes.

          É dado a formar uma sequência quando vários poemas são ligados entre si por uma concepção e execução magistrais do tema, como se deu com os cento e cinquenta e quatro sonetos de Shakespeare. Outra de suas proezas quando escrito em sequência é formar a coroa de sonetos, uma forma poética composta por 15 sonetos, que têm ligação entre si por um tema. Os primeiros e últimos versos são versos de um outro (décimo quinto) soneto, denominado soneto-base, ou soneto-síntese.

          O soneto em mãos seguras de mestres arrebata delírios, alimenta paixões, cultiva ilusões, carrega fardos, cai em desterros, colhe perdas, ergue perjuros, dissemina encantos, enfeitiça nos vazios. Incrível, abre-se à participação de um acontecimento raro, rico, exuberante. Transmuda-se em uma festa de imagens opulentas, faz-se comunhão do saber aliado à beleza, espalha na vida as suas sementes nas zonas encantatórias da beleza com síntese.

          É visível que o seu procedimento fulgurante faz pensar no homem como resultado de outro ser, pleno de brilho na dimensão forjada de transcendência com base em apetites e desejos. Dotado dessa voz estranha, em cuja inspiração tira o homem de si mesmo para ser tudo o que é, percebemos que o desejo posto na festa lustrada com ritmos de versos esplêndidos é de algo que se confunde com cada um de nós. Visto como evocação, recriação de uma experiência, eis que ressurge de uma senda que está dentro do lado noturno de nós mesmos. Convém lembrar que essa imagem do mundo transmitida em poema com o formato breve, rígido, pode causar ao poeta a indiferença aos seus sonhos constrangidos, abafados no clamor de seus gemidos.

          Sonoridade que serve como vínculo do verso para salientar a significação da vida, unidade rítmica que sustenta a ideia fluindo  no texto como música,  ardência que soa na rima com vibrações da palavra tradutora de inventiva rumorosa,  da qual emana com luzeiros e fulgores, procedidos como hábitos e atitudes, o  poeta eficaz aceita no soneto o desafio de exibir-se com indumentária repetitiva de inclinações breves. 

          No resultado final da imagem, o soneto, esse feitiço que perdura além do tempo, presta-se à natureza diversa dos humanos, ao fogo do amor, que cresce como luz na treva.

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Cyro de Mattos é jornalista, cronista, contista, romancista, poeta e autor de livros para crianças. Publicado em Portugal, Itália, França, Espanha, Alemanha, Rússia, Dinamarca, México e Estados Unidos. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia, Academia de Letras de Ilhéus e Academia de Letras de Itabuna. Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz.

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