“Aquele que tiver a real solução para esse problema que
atire a primeira pedra!
Atire no Prefeito que fechou a cidade e mandou todos para
casa.
Atire no Presidente que pede para abrir a cidade e a volta
ao trabalho.
Atire nos médicos que pedem o isolamento social para evitar
o colapso no sistema de saúde.
Atire nos economistas que pedem para voltar a rotina
prevendo um colapso financeiro.
Se voltar tudo a funcionar vai morrer quantas pessoas?
Se ficar em isolamento social vai morrer quantas empresas?
Ninguém sabe!
Quando um problema não tem solução, elegemos um culpado, um
inimigo, um vilão...
Não, a culpa não é do Prefeito!
Não, a culpa não é do Governador!
Não, a culpa não é do Presidente!
Nem dos médicos, nem dos economistas e nem do Ministro.
Eles estão tão perdidos quanto todos nós.
Tão perdidos quanto Donald Trump e todos os líderes mundiais.
Fomos pegos de surpresa sem manual de procedimentos. Cada um
acha uma coisa, mas ninguém tem certeza.
Então, quem sabe, não é a hora de parar de perder tempo
atirando pedras e dando palpites, e começar a orar mais, amar mais, chorar
mais, valorizar mais os amigos e a família.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
João.
— Glória a vós, Senhor!
Naquele tempo, Jesus foi para o monte das
Oliveiras. De madrugada, voltou de novo ao Templo. Todo o povo se reuniu
em volta dele. Sentando-se, começou a ensiná-los.
Entretanto, os mestres da Lei e os fariseus trouxeram uma
mulher surpreendida em adultério. Colocando-a no meio deles, disseram a
Jesus: “Mestre, esta mulher foi surpreendida em flagrante adultério. Moisés,
na Lei, mandou apedrejar tais mulheres. Que dizes tu?”
Perguntavam isso para experimentar Jesus e para terem motivo
de o acusar. Mas Jesus, inclinando-se, começou a escrever com o dedo no
chão. Como persistissem em interrogá-lo, Jesus ergueu-se e disse: “Quem
dentre vós não tiver pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra”. E,
tornando a inclinar-se, continuou a escrever no chão.
E eles, ouvindo o que Jesus falou, foram saindo um a um, a
começar pelos mais velhos; e Jesus ficou sozinho, com a mulher que estava lá,
no meio do povo.
Então Jesus se levantou e disse: “Mulher, onde estão eles?”
Ninguém te condenou?”
Ela respondeu: “Ninguém, Senhor”. Então Jesus lhe disse: “Eu
também não te condeno. Podes ir, e de agora em diante não peques mais”.
Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Pe. Roger Araújo:
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Conversão: passar do
desprezo ao apreço do outro
“Mestre, esta mulher foi surpreendida em flagrante
adultério” (Jo 8,4)
“Um país que empequenece seus cidadãos para que possam ser
mais dóceis em suas mãos, logo descobrirá que, com seres humanos apequenados,
nenhuma coisa grande poderá ser realizada” (Stuart Mill). Em outras palavras,
uma sociedade que “empequenece” as pessoas, nunca realizará grandes obras.
Uma afirmação assim, serve de advertência diante do nosso
contexto social, político e religioso em que vivemos, onde a intolerância, o
julgamento, o preconceito, a crítica destrutiva... assumem contornos
assustadores, humilhando os outros, ridicularizando-os, descartando-os...
Quando proferimos, contra uma pessoa ou grupos, acusações ou expressões que
ferem a reputação, estamos esvaziando nossas relações de humanismo,
desembocando na barbárie. E quando os meios de comunicação, sobretudo as redes
sociais, se colocam a serviço deste movimento desumanizador, passamos a viver
na “sociedade do desprezo”.
O espírito da acusação e de humilhação do outro, é um
espírito de morte. Este mal espírito de nosso tempo, em seu exagero
cancerígeno, aparece também, com muita frequência, na Igreja e em suas
comunidades e grupos. Por meras aparências, suspeita-se do outro, pensa-se mal
dele, condena-o no coração, marginaliza-o. Quantas pessoas já temos
“empequenecidas” em nossa opinião! Diante do desapreço generalizado é preciso
deixar ressoar em nosso interior as palavras de Jesus: “quem dentre vós não tiver
pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra”.
As “pedras na mão” são fáceis de serem encontradas também em
nossas vidas. Hoje são as pedras do WhatsApp, do twitter, das mensagens
preconceituosas, das fake-news..., que bloqueiam o futuro das pessoas através
da crítica sem piedade, do desprezo que destrói, da indiferença que congela as
relações... A arrogância também tem raízes em nosso interior; manifesta-se no
nosso pensar e agir cotidianos. Ela é a base de nossas intransigências, dos
nossos preconceitos, dos nossos dogmatismos, de nossas críticas amargas, dos
comentários maldosos... A arrogância mora no nosso desprezo e nas nossas
ironias. Ela nos paralisa.
O convite de Jesus a reconhecer nosso pecado é a única via
para que essas pedras não caiam sobre nenhum inocente e, ao mesmo tempo, nós
possamos encontrar a possibilidade da transformação e da mudança. Enquanto nos
habite este “espírito mau”, nada bom, nem grandioso poderá ser construído. Uma
sociedade que “empequenece” seus homens e mulheres não poderá ter futuro; uma
igreja que “empequenece” seus membros, através de um moralismo e um legalismo
doentio, também não poderá ser testemunha do evangelho; um grupo, dentro da
igreja, que faça o mesmo, estará traindo o modo compassivo e acolhedor de Jesus.
“A misericórdia de nosso Senhor se manifesta sobretudo
quando Ele se inclina sobre a miséria humana e demonstra sua compaixão, para
quem necessita de compreensão, cura e perdão. Tudo em Jesus fala de
misericórdia; mais ainda, Ele mesmo é a misericórdia” (Papa Francisco). A
presença misericordiosa de Jesus aparece claramente na cena da “mulher
adúltera”, relatado pelo evangelho deste domingo. Ali, a mulher é colocada no
centro, pelas autoridades religiosas que tem a lei na mão: constrangimento,
humilhação, olhares julgadores, juízo de morte... sobre ela. Vítima de
julgamento, ela está no centro da morte. Não há saída, perante a lei. Jesus, no
entanto, toma outra atitude: desloca-se para o centro das atenções e se faz
centro junto com a mulher; sua presença solidária continua deixando a mulher no
centro; porém, Ele inverte a situação dela: ela agora está no centro da
misericórdia, portanto, no centro da vida.
Jesus, com sua presença misericordiosa, inverte o sentido do
centro: antes, centro de exclusão e violência, agora, centro como ponto de
partida para nova vida. Antes, um centro atrofiado que conduzia à morte; agora,
centro expansivo, pois ativa e impulsiona a vida em direção a um novo horizonte
de sentido.
A partir desse centro, junto a Jesus, a mulher poderá ser
autora de sua nova existência; ela é movida a expandir esse centro, indo ao
encontro dos outros para testemunhar a experiência que viveu: “vai e não peques
mais”. Ela, agora, torna-se centro da vida pois recupera sua autonomia e poderá
abrir-se ao novo futuro, como oferta da misericórdia.
Vivamos a Quaresma como um novo tempo para nossa sociedade,
para a igreja, para as comunidades! Queira Deus que nos “beatifiquemos” uns aos
outros “em vida”! Só reconhecendo, com um olhar apreciativo, o profundo, o que
há de bondade no coração, a luz que cada um emite, engrandeceremos os outros e
faremos que nossa sociedade, nossa comunidade, seja cada vez maior. A cultura
do encontro, da acolhida, do apreço pelo outro, faz chegar o Reino de Deus.
Jesus sempre revelou um “olhar alternativo”, longe do
julgamento, do desprezo e da humilhação. Ele não via as pessoas através do
filtro “justos ou pecadores”, nem projetava nelas suas simpatias ou antipatias,
seus medos e suas necessidades.
Jesus sempre foi a luz, sem sombras nem exclusões. Ninguém
nunca ficou à margem da sua luz, pois seu olhar pousava sobre todo rosto, sem
diferenças de raças, línguas ou religiões. Quando Jesus se aproximava da
realidade condenada, a olhava de maneira diferente do olhar domesticado pelo
moralismo. Por isso, diante da insistência das autoridades religiosas que
argumentavam com as pedras nas mãos, Jesus faz um silêncio, tempo e espaço que
também ajudam os acusadores a olhar de outra maneira. Olhando com amor há, sim,
saída para a mulher adúltera. Se não olharmos a realidade com amor, toda a
nossa visão estará adulterada. Compreendem-no as autoridades religiosas quando
Jesus as convida a olhar a mulher com misericórdia e a partir de sua própria
realidade de pecadores. Os varões deixam cair as pedras de sua segurança e da
lei, abrindo suas mãos para acolher outra visão. Assim, a mulher é salva da
morte, da lei, de seu pecado e do cerco social que lhe negava a vida,
simbolizado nesse grupo de homens que a rodeava. Jesus olha a interioridade, ali
onde essa mulher é amada pelo Pai, e resgata sua vida dos olhares de morte que
a capturam. Nesse dia, o povo que rodeava Jesus aprendeu a olhar.
Jesus é o mestre do olhar alternativo. Precisamente porque
conhece o coração humano, Jesus acerta ao dizer: “Quem não tem pecado, que
atire a primeira pedra”. Diante destas palavras, que desnudam as atitudes
farisaicas daqueles que se achavam “justos”, todos se afastam. Ninguém é melhor
que ninguém. Com quê direito julgamos, desqualificamos e condenamos?
Texto bíblico: Jo 8,1-11
Na oração: Em muitas situações difíceis da vida, o que
salva é o olhar. Olhar com os “olhos cristificados”: eis o desafio. Não se
trata de qualquer olhar. É o olhar limpo, diáfano, que desarma, que não esconde
engano ou segundas intenções.
Contemplar o rosto do outro é sentir sua presença, sem
pré-conceitos e pré-juízos..., vendo nele o sinal da ternura de Deus. Olhar
admirado e gratuito, como aquele de Jesus, que transforma, que liberta e que se
comove diante da realidade, especialmente da frágil realidade humana.
- Seu olhar: marcado pelo peso da lei ou pelo peso do
amor?
As redes sociais e a imprensa veicularam o linchamento de
uma senhora no Guarujá(SP), informações desencontradas levaram uma turba a
cometer uma atrocidade em plena metade da segunda década do século XXI. Não
vamos aqui, caro leitor, especular a novidade do fato, pois não o há. Na
Palestina, há mais de dois mil anos, uma mulher foi pega em flagrante adultério
– para tanto, imagina-se que foi posta para fora, completamente despida. E
todos sem exceção aguardavam a ordem para o apedrejamento. Na realidade o que
se ouviu não foi uma ordem sumária de execução, mas o estabelecimento de critérios,
“quem for isento de pecado, que atire a primeira pedra” e a execução foi
cancelada.
Entretanto, Fabiane Maria de Jesus, não teve a mesma sorte. A justiça foi
feita, mesmo que com as próprias mãos. Mas por que faltou bom senso em uma
tragédia desta? Ela foi injustamente acusada de bruxaria, sequestro,
infanticídio e os boatos garantiram a “legítima defesa coletiva”, pois os
agressores usaram o argumento de que fizeram tal barbárie para proteger as
crianças. Agora fala-se em arrependimento. Voltamos aqui ao texto Pedrinhas,
rolezinhos e Revolução Francesa. No Guarujá foi feito um rolezinho e o
divertimento era trucidar uma senhora, mãe de dois filhos. É o fenômeno das
multidões, já não vimos tal situação no futebol? O fato é que o linchamento é
covarde pois garante o anonimato.
Se juridicamente, o Estado não agir de forma rápida, estas cenas tendem a se
repetir, é preciso que medidas sejam tomadas para que o monopólio da justiça
volte às mãos do Estado É fato que o Estado ainda apresenta uma conta deficitária
saúde, moradia, cultura, justiça e principalmente educação de qualidade que
aliada a cultura promove uma vida pensante. A educação pode até estar
massificada mas sua qualidade ainda é muito baixa. O resultado é que os
equipamentos culturais da grande maioria populacional, não promovem uma
reflexão sobre a notícia e para tanto; informação pura e simples, fica refém do
achismo e o “eu acho que é ela” ganha força. .
Um linchamento nos leva a refletir sobre a ausência do Estado. Gradativamente,
o poder político afastou-se das comunidades carentes, fazendo surgir zonas de
exclusão e essas lacunas sociais se agravaram nas décadas de oitenta e noventa
promovendo o surgimento de Estados embrionários como o narcotráfico e as
milícias, que promovem justiciamento à margem do Estado Democrático de Direito.
Assim, qualquer um pode cair nas mãos dos justiceiros, mas na prática a teoria
é outra e as pessoas mais pobres são e estão mais vulneráveis por conta da
lacuna da legalidade, pelo fato do braço estatal que as comunidades carentes
conhecem é a polícia. Como se vê a violência não é só um caso de polícia. É
sobretudo de política social. Não há uma fórmula capaz de, por si, assegurar a
convivência pacífica entre as pessoas. Mas é certo que sem justiça social, sem
ações contra o fosso social e sem investimentos em áreas básicas como educação
e saúde, persistirá o quadro de desigualdades, insegurança e medo que marca o
cotidiano e a realidade de todos nós.
Os políticos prometem proteger os princípios constitucionais. Atribuir culpa as
esferas Estadual. Federal, Municipal é pura generalização. O fato de o tecido
social está gangrenado pela corrupção, a educação que promove uma ética
estimuladora de cidadania e que o caldeirão da ignorância não entorne na forma
de violência como vimos. Os justiceiros surgem por conta da anomia e da
impunidade, que os tornam pessoas acima das leis e das autoridades. Temo tal
cenário, pois esta sociedade doente pode legitimar um regime autoritário que se
julgue capaz de por ordem na bagunça.
O que não seria necessário pois o império das leis (Estado Democrático de
Direito) tem remédios constitucionais como o habeas corpus que protegem o
indivíduo dos abusos estatais. Não nos falta justiça. Falta juízo e isto quem
pode nos dar é a educação. Ela deve ser prioridade porque é um fator que
contribui para o desenvolvimento do país. Essa é em geral a ideia dos que
defendem a revolução pela educação. Mas a instrução universal, por si, não
produz toda a mudança social no sentido democrático. Antes, é a mudança social profunda que permite
chegar a uma verdadeira instrução para todos. Se a sociedade é a morada do
homem, a educação é alicerce e teto dessa construção.
Agenilda Palmeira, professora
Membro da Academia Grapiúna de Letras (AGRAL) Itabuna –
Bahia.