— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
Lucas.
— Glória a vós, Senhor!
Estava chegando o tempo de Jesus ser levado para o céu.
Então ele tomou a firme decisão de partir para Jerusalém e enviou
mensageiros à sua frente.
Estes puseram-se a caminho e entraram num povoado de
samaritanos, para preparar hospedagem para Jesus. Mas os samaritanos não o
receberam, pois Jesus dava a impressão de que ia a Jerusalém.
Vendo isso, os discípulos Tiago e João disseram: “Senhor,
queres que mandemos descer fogo do céu para destruí-los?”
Jesus, porém, voltou-se e repreendeu-os. E partiram
para outro povoado.
Enquanto estavam caminhando, alguém na estrada disse a
Jesus: “Eu te seguirei para onde quer que fores”.
Jesus lhe respondeu: “As raposas têm tocas e os pássaros têm
ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça”.
Jesus disse a outro: “Segue-me”.
Este respondeu: “Deixa-me primeiro ir enterrar meu pai”.
Jesus respondeu: “Deixa que os mortos enterrem os seus
mortos; mas tu, vai anunciar o Reino de Deus”.
Um outro ainda lhe disse: “Eu te seguirei, Senhor, mas
deixa-me primeiro despedir-me dos meus familiares”.
Jesus, porém, respondeu-lhe: “Quem põe a mão no arado e olha
para trás não está apto para o Reino de Deus”.
Solenidade da Santíssima Trindade | domingo, 12 de junho de
2022
Anúncio do Evangelho (Jo 16,12-15)
— O Senhor esteja convosco.
—Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
João.
— Glória a vós, Senhor.
Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: “Tenho
ainda muitas coisas a dizer-vos, mas não sois capazes de as compreender agora.
Quando, porém, vier o Espírito da Verdade, ele vos conduzirá
à plena verdade. Pois ele não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que tiver
ouvido; e até as coisas futuras vos anunciará.
Ele me glorificará, porque receberá do que é meu e vo-lo
anunciará. Tudo o que o Pai possui é meu. Por isso, disse que o que ele
receberá e vos anunciará, é meu”.
“Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas não sois
capazes de as compreender agora” (Jo16,12)
Neste domingo (12.06.22), a Igreja celebra a Festa da
Santíssima Trindade. Parece que celebramos algo estranho e distante de
nossa compreensão. No entanto, a festa da Trindade nos mobiliza para
uma nova maneira de viver e de nos relacionar com o Deus de Jesus, cuja
presença preenche o cosmos, irrompe na nossa vida, habita criativamente no
interior de cada um de nós e é vivido em comunidade.
É preciso deixar claro que o Mistério da Trindade não é um
enigma a ser decifrado, ou seja, como conjugar três “individualidades” em
uma Unidade, mas é a proclamação de que “tudo é Relação”. A Trindade não
é uma especulação teórica sobre três pessoas “abstratas” em Deus, mas a maneira
de ser de Deus, como Amor que se expande, em si e fora de si,
de uma maneira “redentora”, inserindo-se na história da humanidade.
Assim, a Trindade não é uma simples verdade
para crer, mas a base de nossa experiência cristã. O dogma trinitário quer
expressar o mistério da Vida mesma de Deus que nos é
comunicada.
Foi a experiência cristã da ação salvadora de Deus por meio
de Jesus Cristo e no Espírito Santo que deu existência à doutrina
trinitária. Deus não é solidão, mas comunhão perfeita, pois “Deus é Amor”.
Eis aí a grande revelação que Jesus nos trouxe: a essência de Deus é Amor em estado
puro. Então, Deus não poderia fazer outra coisa senão amar. De fato, o amor não
existe se não for movimento, reciprocidade, dom, acolhida, relação e comunhão.
Não podemos definir Deus. Só podemos nos aproximar da
essência de Deus afirmando que Ele é relação, comunidade, partilha,
comunicação, intercâmbio, comunhão.... Agostinho afirmou que no Amor se
encontram três realidades: o Amante, o Amado e
o mesmo Amor.
“Deus é Amor”, circulação eterna e infinita de amor, na qual
o Amante, o Amado e o Amor se relacionam tão intensamente até “transbordar-se”
na criação do universo. A Criação é transbordamento do Amor trinitário e o ser
humano é “morada” das Três Pessoas Santíssimas.
A Trindade evoca um Deus cuja essência é caracterizada por
um movimento eterno em direção a nós, em um amor redentor. Somente na medida em
que formos capazes de amor, poderemos conhecer o Deus comunidade, ou seja,
comunhão de Pessoas.
Esta é a essência do Evangelho. A melhor notícia que um ser
humano podia receber é que Deus não o afasta de seu Amor. A Trindade nos ensina
que só vivemos quando com-vivemos.
A Bíblia nos fala de um Deus amor; amor pessoal, porque ama
a cada um de nós; amor total, universal, que não exclui ninguém; amor
preferencial, porque se inclina para o frágil; amor comunitário, porque em si
mesmo não está só, senão que é comunidade e gera comunidade entre os seres
humanos.
Deus é Amor e só amor. Percebemos, então
que, incompreensível não é Deus, mas nossa resistente e limitada capacidade de
contemplar com profundidade essa Presença que se manifesta, permanentemente, em
nossa vida e na Criação inteira.
Deus nos fez amor para o mútuo encontro,
para a doação, para a comunhão...
Fomos criados “à imagem e semelhança” do Deus
Trindade, comunhão de Pessoas (Pai-Filho-Espírito Santo). Quanto mais
unidos somos, por causa do amor que circula entre nós, mais nos
parecemos com o Deus Trindade. “Se nos amarmos uns aos
outros, Deus permanece em nós e o seu Amor em nós é perfeito” (1Jo.
4,12)
Deus colocou em nossos corações impulsos naturais que nos
levam em direção ao convívio,à cooperação, à acolhida, à solidariedade... “Só
corações solidários adoram um Deus Trinitário”.
Aqui está a grandeza e a dignidade do ser humano, criado à
imagem e semelhança do Deus Trindade. E é fácil intuir isso:
sempre que sentimos o dinamismo de amar e ser amados, sempre que sabemos
acolher e buscamos ser acolhidos, quando compartilhamos uma amizade que nos faz
crescer, quando sabemos doar e receber vida..., estamos saboreando e
visibilizando o “amor trinitário” de Deus. Esse amor que brota em nós tem n’Ele
sua fonte.
O amor intra-trinitário não é um amor excludente, um “amor
egoísta” entre três. É amor em excesso que se difunde e se expande em todas as
criaturas. Por isso, quem vive o amor inspirado pela Trindade, aprende a amar a
quem não lhe pode corresponder, sabe doar sem esperar recompensa, sente uma
grande paixão pelos mais pobres e pequenos, é capaz de entregar sua vida para
construir um mundo mais amável e digno.
Por outro lado, quem é incapaz de dar e receber amor, quem
não sabe compartilhar nem dialogar, quem só escuta a si mesmo, quem resiste
relacionar-se com os outros, quem só busca seu próprio interesse, quem só
deseja o poder, a competição e o triunfo, não pode experimentar nada da
Trindade amorosa.
O ser humano não é feito para viver só; ele
é chamado a viver em comunhão com todas as pessoas;
Como homem e como mulher trazemos esta força interior que
nos faz “sair de nós mesmos” e criar laços, construir
fraternidade, fortalecer a comunhão. Fomos feitos para o encontro e a
comunicação.
Não fomos criados para viver sós; necessitamos con-viver,
viver-com-os-outros, encontrar-nos; é essencial descobrir o
sentido e a vivência do encontro relacional com os outros, na
vida familiar, na fraternidade, na sensibilidade social para com o diferente e
o excluído.
O sentido da vida em comum com os outros é
um dom de Deus; afinal, fomos criados à imagem do Deus “encontro
intra-trinitário”.
A fraternidade, a vida em comum se
mede pelo amor, por atos e gestos de doação, por vivências de comunhão, por
experiências de partilha do mesmo ser, da mesma vida, da entrega mútua
gratuita...
O amor é olhar o outro com
olhos tão limpos, bondosos, desinteressados, tão profundos... que só desejo que
o outro seja o que é... Alegro-me de vê-lo assim, tal como
é...
O dogma da Trindade, portanto, não só nos revela como
Deus é para nós; é também revelação de quem somos nós,
ou seja, portadores do impulso relacional que se manifesta na nossa capacidade
de amar.
Se Deus é relacionamento amoroso perfeito e nós somos
criados à sua imagem e semelhança, então a doutrina da Trindade está preocupada
com a nossa vida também. Somos convidados pela graça divina a entrar neste
fluxo de relação que define o próprio ser de Deus.
O Deus de Jesus não é uma verdade para
pensar, mas uma Presença a ser vivida. Não é um ideia
para quebrar nossa cabeça, mas a base e fundamento de nossa vida.
Uma profunda vivência da mensagem cristã será sempre uma
aproximação ao mistério Trinitário.
Será, em definitiva, a busca de um encontro vivo com Deus.
Não se trata de demonstrar a existência da luz, mas de abrir os olhos para
vê-la. O verdadeiramente importante foi sempre a necessidade de viver essa presença do
Deus, comunhão de Pessoas, no interior de cada ser humano.
Jesus, o Mistério de Deus feito carne no Profeta
da Galiléia, é o melhor e único ponto de partida para reavivar uma fé simples
no Deus Comunidade de Pessoas.
Texto bíblico: Jo 16,12-15
Na oração: A Trindade não é hóspede; é a
essência do ser humano; o modo de viver de uma pessoa é revelador de quem
habita seu interior; uma pessoa compassiva, aberta, acolhedora... é sinal de
que é habitada pela Trindade amorosa.
- Quem perde o caminho de sua interioridade, distancia-se da
Trindade que é Vida e passa a viver a cultura da morte, deixando transparecer o
ódio, a violência, o preconceito, a injustiça... como modo petrificado de ser.
- Qual é a Presença que determina sua vida: a Trindade Santa
ou os dinamismos diabólicos (forças que dividem)?
Solenidade de Pentecostes | Domingo, 5 de junho de 2022
Anúncio do Evangelho (Jo 20,19-23)
— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
João.
— Glória a vós, Senhor.
Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando
fechadas, por medo dos judeus, as portas do lugar onde os discípulos se
encontravam, Jesus entrou e, pondo-se no meio deles, disse: “A paz esteja
convosco”. Depois dessas palavras, mostrou-lhes as mãos e o lado. Então os
discípulos se alegraram por verem o Senhor. Novamente, Jesus disse: “A paz
esteja convosco. Como o Pai me enviou, também eu vos envio”. E, depois de
ter dito isso, soprou sobre eles e disse: “Recebei o Espírito Santo. A
quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem não os
perdoardes, eles lhes serão retidos”.
“…soprou sobre eles e disse: ‘Recebei o Espírito
Santo’” (Jo 20,22)
A liturgia da festa de Pentecostes deste
ano nos situa no momento do encontro do Ressuscitado com seus discípulos,
literalmente “trancados” numa sala, incapazes de romper seus medos, marcados
por uma profun-da tristeza e decepção.
O Ressuscitado, ao exercer o “ofício do consolar” (S.
Inácio), desperta novo ânimo naqueles homens desolados, graças ao sopro
vital do seu Espírito, que se torna ação criadora e rompedora de tudo que
limita. O Ressuscitado não só se apresenta e fala, mas comunica a si mesmo:
entrega o seu Espírito, Aquele mesmo que o conduzia criativamente pelas
estradas da Galiléia, instaurando o novo Reinado do Pai.
Pentecostes é, para os cristãos, a festa do Espírito.
Ao dizer que Deus é Espírito, estamos dizendo que Ele não é um “ser fechado em
si”, senão abertura, ser-para-os-outros. Chamamos Deus “Espírito” porque é
força criadora e criativa, alento no qual todas as coisas e os humanos se
sustentam. Toda a realidade, perpassada pelo dinamismo divino, só tem sentido
em Deus; todas as “coisas” são em Deus. Também o ser humano: ele existe
unicamente a partir do “sopro” do Espírito divino, que lhe dá autonomia e
liberdade.
Em outras palavras, o Espírito é o espaço
aberto do amor oblativo e presença que estabelece continuamente o “cosmos” em
meio ao “caos”; é Deus mesmo como força expansiva e como fundamento de vida de
tudo e de todos, como seio maternal e fecundante no qual podemos chegar à
existência verdadeira. Por isso, o ser humano nunca vive a partir de si
nem para si mesmo; existe imerso no Espírito divino e caminhando para o futuro
(o novo nascimento) ao qual o Espírito lhe abre.
“Recebei a Ruah”, assim deve ter dito Jesus.
Em sua língua materna, Jesus chamava o Espírito de “Ruah”. É uma pobreza
falar só do “Espírito Santo” e deixar de lado a riqueza semântica da “ruah”,
que, em hebraico, tem conotações muito mais ricas que o termo latino
“spíritus”.
Assim, a expressão hebraica “Ruah”, feminino de Deus,
significa a brisa, o “pairar” de Deus sobre as águas, o sopro impetuoso que
gera vida. Alento, vento, sopro, respiração, força, fogo... com nome feminino,
que fala de maternidade e de ternura, de vitalidade e carícia.
Assim como Jesus, pela força da “Ruah”, se encarnou e se
humanizou, também nós nos fazemos cada vez mais humanos, por obra da mesma
“Santa Ruah” de Deus. Ela nos faz pressentir o quanto amados somos, que, na
comunhão, nunca estamos sozinhos, e que esta é a hora para
cada um(a) de nós e o melhor momento que nos cabe
viver. Sob o impulso da “Ruah”, vivemos todos no "horário nobre da vida”.
É a “Ruah” quem nos move a superar os esquemas atrofiados da
vida e a assumir uma causa mobilizadora, centrada no Reino anunciado por Jesus.
É Ela que nos arranca das malhas do egoísmo, liberta-nos dos interesses
mesquinhos, faz-nos caminhar no terreno firme do amor, abre novos horizontes e
nos impulsiona a assumir ideais mais elevados de felicidade e realização
pessoal.
Ela continua presente na vida de todo(a) seguidor(a) de
Jesus e no seio de sua comunidade. Continua atuando através de muitas pessoas e
organizações que se comprometem radicalmente na luta contra tudo aquilo que
rompe os vínculos, alienam e desumanizam. A “Ruah” de Deus continua atuando na
história, embora aparentemente não a percebamos. Não é necessário fazer tanto
barulho para dizer que a “Ruah” está agindo através de um discreto silêncio.
Muitas vezes, não a sentimos porque atua de maneira muito simples, através de
gestos que podem passar desapercebidos.
Portanto, viver alentados pela e na Ruah é também um convite
a harmonizar sabiamente os opostos da vida: experiência de
fortaleza/experiência de debilidade, silêncio/palavra, trabalho/descanso,
partilhar/receber, presença/ausência, conectar/desconectar, saber caminhar
acompanhados/saber estar a sós saboreando a dimensão positiva e fecunda de uma
“solitude” (solidão habitada) que enriquece nosso mundo interior e fortalece
nossas opções e compromissos.
Por outro lado, as consequências de viver sem o
Espírito-Ruah, Espírito-Sophia, são realmente desastrosas. A vida cristã sem
“Ruah” se revela como um conjunto de normas em uma instituição a mais,
carregada de moralismo, doutrina estéril e ritualismos vazios. Fica obsoleta,
porque não interpreta os sinais dos tempos, odres velhos para vinho novo.
Sempre é a “Ruah” que nos unifica, Aquela que nos convida a
superar a divergência que é fruto de nosso falso eu. Nela, a diversidade nos
enriquece.
É a “Ruah” de Deus, do amor, do comunitário e do comum, do
povo de Deus. N’Ela já não é possível permanecermos fechados, pois Ela
transpassa as paredes e quebra os ferrolhos das portas, nos faz abertos de
coração e de mente, frente às reservas e às dúvidas do temor.
Com seus dons, compreendemos que o universo é nossa casa e
nós não somos estranhos nela, que a humani-dade não caminha no vazio de uma
existência do nada, senão rumo à Casa Comum do Pai, e que a senda é a dos
irmãos na comunidade, em direção a um horizonte sempre inspirador.
O ser humano, desde sempre existe enquanto está fundamentado
(protegido e potenciado) na Ruah.
Constituído de argila, como vaso nas mãos de um
ceramista, cada um recebe o sopro ou hálito divino. É a
própria Vida de Deus, o seu sopro vital, que faz surgir o
humano do húmus da terra. É a “Ruah” de Deus, inspirado no ser humano, que o
torna realmente humano.
Cada pessoa é portadora deste sopro de Deus e
desta força misteriosa que o impulsiona à plenitude.
O sopro de Deus impresso no mais profundo
de nosso ser, está enfaixado pela fragilidade da argila.
Somos a grande combinação resultante do sopro de Deus e da
argila que nos configura.
Cada um de nós é a força criativa de Deus
impressa em cada coração. O respiro ou hálito é o símbolo da presença do
Criador em nós. Sob o signo de Adão, nós somos, em primeiro lugar, criaturas de
Deus em comunhão com as demais criaturas, participando da mesma existência
criatural. Mas, pelo sopro do próprio Deus, somos “elevados” à
condição de imagem e semelhança d’Ele.
Então, tornamo-nos “criaturas abertas ao Espírito” e,
mais ainda, “criaturas habitadas pelo Espíri-to”; somos
argila, mas argila portadora da “Ruah”, argila aberta ao céu. Tornamo-nos,
assim, imagem do mundo diante de Deus e imagem de Deus diante do mundo.
Nos relatos bíblicos, a “Ruah de Deus” se revela sempre
“rompedora”, pois é Ela que “alarga o espaço de nossa tenda interior”. É como
se derrubasse as paredes, abrisse portas e janelas e nos oferecesse espaços
amplos de encontro. Desse modo, cabe mais gente em nossas vidas e a “Ruah” nos
ajuda a descobrir a fraternidade e sororidade como um dom.
A “Ruah Santa” é aquela que faz estremecer as estruturas,
que toca nos lugares mais profundos e nossos. Ela vem como gesto de Deus que
arranca nossas vidas do porto seguro da acomodação e nos lança para os mares
abertos do novo e das surpresas. Nela, quanto mais navegamos, mais descobrimos novos
mares.
E nunca faltará o Vento ao nosso veleiro.
Texto bíblico: Jo 20,19-23
Na oração: “Vem, Santa Ruah!”: é o clamor,
o gemido, a oração universal. Melhor: é a Ruah quem clama, geme e ora no
mais profundo de seu ser e no mais profundo de tudo quanto existe. O universo é
oração.
- Deixe a Ruah fluir livremente; assim, a vida espiritual
será para você aquela vida na qual a Ruah poderá se mover sem obstáculos. Uma
espiritualidade holística que experimenta a presença d’Ela na totalidade de sua
vida, em todas as dimensões da realidade: a história, a natureza, a
interioridade, as relações humanas, a luta pela justiça, o descanso, o trabalho
etc. Todos estes são lugares onde a Ruah se manifesta.
- Como exercício prático, localize em sua vida os momentos
de profundas mudanças nos quais você se atreve a chamar “Pentecostes”, porque
lhe fizeram descobrir em seu interior, a presença da Ruah de um modo novo, mais
vivo e vigoroso; porque lhe fizeram ver as pessoas e a realidade com
reverência; porque lhe fizeram sair de visões e atitudes estreitas; porque lhe
tornaram diáfano (transparente) da presença de Deus no cotidiano de sua vida...
- Em sintonia com toda a Criação, abra espaço à presença e
voz da “Ruah” em seu coração.
Solenidade da Ascensão do Senhor | domingo, 29 de maio de
2022
Anúncio do Evangelho (Lc
24,46-53)
— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de
Jesus Cristo + segundo Lucas.
— Glória a vós, Senhor.
Naquele tempo, disse Jesus a seus
discípulos: “Assim está escrito: O Cristo sofrerá e ressuscitará dos
mortos ao terceiro dia e no seu nome serão anunciados a conversão e o
perdão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém.
Vós sereis testemunhas de tudo
isso. Eu enviarei sobre vós aquele que meu Pai prometeu. Por isso,
permanecei na cidade, até que sejais revestidos da força do alto”.
Então Jesus levou-os para fora,
até perto de Betânia. Ali ergueu as mãos e abençoou-os. Enquanto os
abençoava, afastou-se deles e foi levado para o céu. Eles o adoraram. Em
seguida voltaram para Jerusalém, com grande alegria. E estavam sempre no
Templo, bendizendo a Deus.
Jesus levou-os para fora, até perto de Betânia. Ali
ergueu as mãos e abençoou-os” (Lc 24,50)
Segundo o relato de Lucas, na Ascenção, Jesus “desaparece” em
Deus; Ele não se afasta da humanidade, mas continua presente de uma outra
maneira: junto com o Pai e o Espírito faz sua “morada” no interior de cada
pessoa.
Por isso, Jesus não deixa uma estrutura religiosa organizada
(com sua hierarquia, seus ritos, leis, doutrinas...); Ele deixa na terra
“testemunhas”, ou seja, aqueles(as) que comunicam a sua experiência de um Deus
de bondade e contagiam com seu estilo de vida centrado no modo de agir e viver
do próprio Jesus. Serão testemunhas cristificadas, trabalhando por um mundo
mais justo e humano.
Mas Jesus conhece bem os seus discípulos; sabe que eles são
frágeis e medrosos. Onde encontrarão a audácia para serem testemunhas de alguém
que foi crucificado pelo representante do Império e pelos dirigentes do Templo?
Jesus tranquiliza-os: “Eu enviarei a vós aquele que Pai prometeu”. Não
lhes vai faltar a “força do alto”. O Espírito de Deus os defenderá.
A “ausência física” de Jesus revelar-se-á, então, como
oportunidade para fazer crescer a maturidade de seus seguidores. Ele lhes deixa
o dom de seu Espírito que promoverá o crescimento responsável e adulto dos
seus. É inspirador recordar isso nesse momento em que parece crescer entre nós
o medo à criatividade, a tentação do imobilismo, a petrificação no ritualismo e
na doutrina, ou a saudade de um cristianismo pensado para outros tempos e outra
cultura.
A festa da Ascenção do Senhor nos
recorda que, terminada a presença história de Jesus, vivemos “o tempo do
Espírito”, tempo de criatividade e de crescimento responsável no seguimento de
Jesus. O Espírito não nos oferece “receitas eternas”. Ele nos dá luz e alento
para ir buscando caminhos sempre novos e alternativos para atualizar hoje o
modo de ser e agir de Jesus. Assim Ele nos conduz para a verdade completa
d’Aquele que sempre se revelou verdadeiro.
Para expressar graficamente o último desejo de Jesus, o
evangelista Lucas descreve a sua partida deste mundo de forma surpreendente:
Jesus volta ao Pai levantando as suas mãos e abençoando os
seus discípulos. É o seu último gesto. Jesus entra no mistério insondável de
Deus e sobre o mundo faz descer a sua bênção. Seus seguidores começam sua
peregrinação pelo mundo protegidos por aquela benção com a qual Jesus curava os
enfermos, perdoava os pecadores, abençoava e acariciava as crianças...
A Bênção atravessa toda a Bíblia, e quer
atravessar também nossas vidas. Ela brota do olhar primeiro e amoroso de Deus
que, admirado, viu que toda Criação era boa e preciosa. Também nossa
missão, confiada pelo Ressuscitado, consiste em recuperar este olhar, esta
benção original, sobre nós e sobre a terra; uma bênção que desperta admiração e
assombro ao perceber a bondade e beleza no interior daqueles que não são
considerados bons e dignos de beleza.
A palavra “bênção” tem um sentido amplo e direto;
procede do termo latino “benedictio” e significa “dizer
bem”. Mas, determinados pelo nosso contexto social e político que
preza pelo ódio, preconceito, maledicência, “fake news”..., a sensação que
temos é que há uma curiosidade viral, uma excitação, um prazer mórbido em
“dizer mal”, destruir reputações, emitir juízos moralistas, ferir e excluir o
outro que pensa, sente e ama de maneira diferente. Há uma “maledictio” (“mal-dizer”)
que paira em todos os meios de comunicação e redes sociais, envenenando
relações, rompendo vínculos, criando divisões. E tudo isso emerge da
interioridade petrificada das pessoas, alimentando um fúnebre processo de
desumanização. O trágico é que essas manifestações de maldição são expressas
por quem se confessa seguidor(a) d’Aquele que sempre foi presença visível da
Verdade e fonte de perene Benção. Quanta incoerência no seguimento de Jesus
Cristo!
“Não há pior patologia que essa dissipação da alma, esse
olhar cheio de pré-juizos que nos torna pequenos e amargos, esse juízo que se
deixa escravizar pelo defeito e pelo peso da imperfeição e depois não nos deixa
sair até que ignoramos a liberdade. Não há exercício mais esterilizante que
essa espécie de ressentimento expresso como anátema em relação com a vida, esse
totalitarismo da queixa que, sem nos dar conta, nos asfixia, essa incapacidade
de romper com a engrenagem da maldição sobre todos e sobre tudo, da qual nem
nós mesmos escapamos” (Cardeal Tolentino).
Somos herdeiros(as) de uma benção, herdeiros(as) da doação e
da esperança de tantos homens e mulheres que, ao longo da história, aliviaram
sofrimento, recobraram dignidades e ajudaram a viver.
Agora, somos nós a geração portadora dessa benção. Presente,
passado e futuro.
Como seguidores(as), esquecemo-nos que somos portadores(as)
da bênção de Jesus. A nossa primeira tarefa é ser testemunha da
Bondade de Deus, manter viva a esperança, não nos rendermos diante do “maledictio”.
Na Igreja de Jesus, temos esquecido que a primeira coisa a
se fazer é promover uma “pastoral da bênção”. Temos de nos sentir testemunhas e
profetas desse Jesus que passou a sua vida semeando gestos e palavras de
bênção, de bondade e de misericórdia. Assim, despertou nas pessoas da Galiléia
a esperança no Deus Salvador, abriu um horizonte de sentido. Jesus era uma
bênção visível e as pessoas reconheciam isso.
Somos chamados a ser presença de “bênção”. Que todos aqueles
que vivem situações de desamparo, de miséria, de desamor, de indefesa, de
maldição... possam sentir em nós o prolongamento da Benção do Ressuscitado;
possam sentir-se bem acolhidos, bem nomeados, bem olhados, bem-amados.
“Dizer bem”, “bendizer”, “abençoar”, é
nossa vocação primordial, porque só isso desperta a consciência de que cada um
de nós é portador(a) autorizado(a) de uma indestrutível benção, e esse é o modo
de fazer justiça ao maravilhoso milagre que é estar vivos. “Dizer bem” é
conectar-nos com aquela verdade mais profunda, que é o puro vínculo na ordem do
ser. Sem essa ancoragem compassiva na raiz do nosso ser e no nosso modo
cristificado de viver, não chegaremos a compreender verdadeiramente o enorme e
misterioso pulsar da própria existência.
Cada um de nós depende – porque a vida é dom e confirmação
reiterada do dom – daquilo que a benção desencadeia. Somos um elo na longa
corrente de bênçãos; são inúmeras as pessoas que deixaram impregnadas em nosso
coração a marca da bênção oblativa, aberta e desafiadora. Crescemos e amadurecemos
sob o impulso da “benedictio” daqueles(as) que conviveram ou convivem conosco.
E, por isso, é tão importante buscar a benção, colocar-nos
de seu lado luminoso, ativá-la e exercitá-la ao nosso redor. O tempo se ilumina
quando nos deslocamos da sombra da “maledictio” e nos re-situamos na órbita da
“benedictio”.
Assim se expressa a maravilhosa e antiga bênção
irlandesa: “Que o caminho seja brando a teus pés,/ que o vento
sopre leve em teus ombros./ Que o sol brilhe em teu rosto sem ferir-te,/ e as
chuvas caiam serenas em teus campos./ E até que eu de novo te veja,/ Deus te
guarde cada dia na palma de Sua mão”.
Texto bíblico: Lc 24,46-53
Na oração: Todo(a) seguidor(a) de Jesus é
“canal” de transmissão de Sua bênção que salva, eleva,
exalta a dignidade de cada pessoa.
- Sua presença cotidiana é reveladora de “benedictio” ou
“maledictio”, de elogio ou de maledicência, de vibração diante da nobreza do
outro ou de queixa amarga?...
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus
Cristo + segundo João.
— Glória a vós, Senhor.
Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: “Se
alguém me ama, guardará a minha palavra, e o meu Pai o amará, e nós viremos e
faremos nele a nossa morada. Quem não me ama, não guarda a minha
palavra. E a palavra que escutais não é minha, mas do Pai que me enviou.
Isso é o que vos disse enquanto estava
convosco. Mas o Defensor, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu
nome, ele vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que eu vos tenho dito.
Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; mas não a dou como o
mundo. Não se perturbe nem se intimide o vosso coração.
Ouvistes o que eu vos disse: ‘Vou, mas voltarei a vós’. Se
me amásseis, ficaríeis alegres porque vou para o Pai, pois o Pai é maior do que
eu.
Disse-vos isso, agora, antes que aconteça, para que, quando
acontecer, vós acrediteis.
— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.
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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Padre Roger
Araújo:
“Se alguém me ama, guardará minha palavra, e o
meu Pai o amará, e nós viremos e faremos nele nossa morada” (Jo
14,23)
Neste último domingo de Páscoa a liturgia, mais uma vez, nos
faz ter acesso a um trecho do discurso de despedida de Jesus, no evangelho de
S. João. Na realidade, trata-se de um “discurso pascal”, onde o evangelista
recolhe os dons principais revelados pelo Ressuscitado: vida, amor, paz, fé,
Espírito Santo.
A narração deste domingo dá destaque a uma nova presença do
Cristo Ressuscitado entre os seus seguidores e seguidoras: junto com o Pai e o Espírito,
Ele faz do interior de cada um(a) sua “morada”.
Sabemos que o ser humano é interioridade; é
sua essência, é a dimensão mais nobre e sagrada de todos. E essa interioridade
é habitada por uma Presença, sempre inspiradora e iluminadora como
o Sol.“O Sol res-plendente está sempre
dentro da alma e nada pode arrebatar sua magnificência” (S. Teresa
D’Ávila).
Presença que fala dentro de nós; presença que é Fonte de
paz; presença que, através do seu Espírito, nos inspira, nos sustenta e
desperta as melhores energias e forças mobilizadoras de nossa vida.
Os mestres espirituais chamam a esta interioridade também
de “Imago Dei” (imagem de Deus), ou a própria presença
divina em nós.
Só descobrindo o que há de Deus em nós, poderemos cair na
conta da nossa verdadeira identidade. Ele é nosso verdadeiro
ser, nosso ser profundo, nossa essência. Somos templos de Deus, presença
constante do Espírito de Deus conosco. Somos seres habitados; não estamos
sozinhos.
É próprio do ser humano mergulhar e experimentar sua profundidade. Auscultando
a si mesmo, percebe que brotam de seu “eu profundo” apelos
de compaixão, de amorização e de identificação com os outros e com o grande
Outro (Deus). Dá-se conta de uma Presença que sempre o acompanha, de um Centro
ao redor do qual se organiza a vida interior e a partir do qual se elaboram os
grandes sonhos e as significações últimas da vida.
Normalmente quando falamos de Deus nós o
imaginamos bem distante e quase inacessível. Vemos longe Aquele que está tão
perto, Aquele que trazemos dentro de nós mesmos. Vemos longe Aquele que vive e
nos dá vida cada dia. Basta um simples olhar por dentro para nos encontrar com
Ele.
Às vezes, sentimos como se tivéssemos medo de nosso próprio
mistério; temos medo de sentir que nós somos o céu de Deus; temos medo de
pensar que somos a “casa” onde vive e habita Deus.
Muitas vezes não nos damos conta dessa Presença, mas ela não
nos invade, não nos anula, não se impõe... Simplesmente se faz habitante,
presença, inspiração...
No entanto, esta é a nobreza de nosso ser: todos somos “morada”divina, porque nosso verdadeiro ser é o que há de Deus em
nós; embora a imensa maioria das pessoas não tem consciência disso ainda, não
podemos deixar de manifestar o que somos. Deus sempre habita no mais profundo
de cada um de nós; podemos ou não entrar em sintonia com essa presença para nos
deixar conduzir por ela.
Deus anda abraçado conosco e sua graça banha
suavemente todas as dobras do nosso ser e agir. Agostinho cunhará a expressão
de que Deus é “intimior intimo meo”, mais íntimo que nossa
própria intimidade. Esta presença é fonte de vida espiritual, uma vida que
pulsa dentro de nós e flui com diferentes “moções” que
nos fazem sentir perto d’Aquele que já está perto.
Em nosso coração há sempre um movimento profundo que
é manifestação da ação de Deus no mais íntimo de cada um.
Quem toma consciência de sua identidade profunda, descobre-se
habitado e amado pelo Mistério e não pode fazer outra coisa senão amar e
experimentar a comunhão com tudo e com todos. Na linguagem do quarto evangelho,
Deus é o “centro” último do nosso interior, o que constitui nossa
identidade mais profunda. A expressão do pensador Pascal - “o ser humano
supera infinitamente o ser humano” -, resume bem esta vivência da Trindade
que nos habita, nos move e nos faz transbordar em nossa mesma intimidade.
É o céu que vem tocar a terra, é Deus que se aloja no
coração humano, é o Reino que se entrelaça na configuração de nossa
convivência, é a fé que se revela como atitude de confiança inabalável.
Em Deus sempre vivemos. Em Deus nos movemos. Em Deus somos.
A Ele nunca vamos. D’Ele nunca saímos. N’Ele sempre nos encontramos. Ele está
nos gerando a cada momento (“o ser humano é criado para...).
Precisamos vivenciar a Fonte donde tudo jorra e onde tudo deságua; precisamos
caminhar à luz do Sol primordial, regressar ao seu seio luminoso.
Eis a meta derradeira do ser humano: a auto-transcendência.
Ao fazer morada em nós, Deus acende nosso desejo no desejo
d’Ele, ativa a nossa vontade na Vontade d’Ele, faz pulsar o nosso coração no
ritmo do Coração d’Ele. Ele entra com sua Liberdade nas raizes da nossa
liberdade e alarga os espaços internos para que a Vida divina atravesse todas
as dimensões de nosso ser, tornando nossa vida mais oblativa, aberta e
comprometida. Segundo José Saramago “a vida é breve, mas cabe nela
muito mais do que somos capazes de viver”.
Podemos ter acesso ao mais profundo de nós mesmos porque em
nós está a dimensão de eternidade, a dimensão “divina” que nos situa acima do
vai-e-vém das coisas, para além da superficialidade e da aparência.
Enraizados nessa Presença divina que nos habita, podemos
transitar pela história com mais sentido e inspiração. Nós nos movemos, pois,
entre transcendência e história, entre contingência e eternidade. É
no “substrato humano” que o mistério da Trindade marca
presença e age. É na “natureza humana” que Deus
constrói a Sua Tenda e, na Sua ternura, abraça a pessoa no seu todo; abrange
todas as áreas da vida.
Deus se serve das mediações humanas para revelar-se e falar ao
coração. Ele quer assumir o humano na sua totalidade. Ele deseja ser o
responsável pela “terra sagrada” da vida humana. Da parte de
cada pessoa, Ele pede, apenas, para deixá-Lo trabalhar, limpar, semear, fazer
crescer e colher os frutos. A pessoa é solicitada para que deixe espaço aberto
e livre ao plano da ação de Deus.
É nas entranhas mais profundas do ser que
Deus “toca” com a Sua bondade, ternura e misericórdia. Esta
experiência gera compromisso de viver a bondade, a ternura e a misericórdia na
missão.
Assim é a Trindade amorosa revelada por Jesus, que se deixa“transparecer” no
interior e na vida de cada um de nós. Se nos sentimos “morada de Deus”, se
verdadeiramente Deus está em nós, devemos necessaria-mente manifestá-lo
em nossa vida. Deus é amor e o melhor de nós é nosso ser amoroso; por isso,
também nós devemos ser “diáfanos”, ou seja, deixar
transparecer, em nossa vida e em nossa ação, o Deus íntimo, fundamento de nosso
ser e identificado com cada ser humano. Quem é “diáfano” também “vê” o
Deus que se deixa transparecer no outro.
Somos presença do amor de Deus no mundo. Os outros
descobrirão essa Presença em nossa vida quando manifestemos, através de nossas
atitiudes, o que de Deus há em nós: bondade, compaixão, disponibilidade,
atitude de serviço aos outros; quando, de verdade, sejamos um ser para o outro,
a partir de nosso ser amoroso. Isso significa viver já como seres
ressuscitados, uma nova humanidade; isso significa nascer de novo, nascer para
a Vida divina, eterna, definitiva. E isto, aqui e agora, sem deixar para mais
tarde.
Texto bíblico: Jo. 14,23-29
Na oração: Na oração, mergulhamos em
Deus e libertamos em nós profundidades que desconhecemos.
Se a nossa oração for um autêntico face-a-face com Deus, ela
de-verá fazer emergir à nossa consciência as profundidades
desconhecidas do nosso ser. Descobriremos recursos e dons ainda
inexplorados, que nascerão para a vida sob a ação da Graça de Deus. Ele é a
verdadeira fonte do nosso ser, mais próxima de nós do que nós de nós
mesmos.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
João.
— Glória a vós, Senhor.
Naquele tempo, Jesus apareceu de novo aos discípulos, à
beira do mar de Tiberíades. A aparição foi assim: Estavam juntos Simão
Pedro, Tomé, chamado Dídimo, Natanael de Caná da Galileia, os filhos de Zebedeu
e outros dois discípulos de Jesus.
Simão Pedro disse a eles: “Eu vou pescar”. Eles disseram:
“Também vamos contigo”.
Saíram e entraram na barca, mas não pescaram nada naquela
noite. Já tinha amanhecido, e Jesus estava de pé na margem. Mas os
discípulos não sabiam que era Jesus. Então Jesus disse: “Moços, tendes alguma
coisa para comer?” Responderam: “Não”.
Jesus disse-lhes: “Lançai a rede à direita da barca, e
achareis”. Lançaram pois a rede e não conseguiam puxá-la para fora, por causa
da quantidade de peixes. Então, o discípulo a quem Jesus amava disse a
Pedro: “É o Senhor!” Simão Pedro, ouvindo dizer que era o Senhor, vestiu sua
roupa, pois estava nu, e atirou-se ao mar. Os outros discípulos vieram com
a barca, arrastando a rede com os peixes. Na verdade, não estavam longe da
terra, mas somente a cerca de cem metros. Logo que pisaram a terra, viram
brasas acesas, com peixe em cima, e pão. Jesus disse-lhes: “Trazei alguns
dos peixes que apanhastes”.
Então Simão Pedro subiu ao barco e arrastou a rede para a
terra. Estava cheia de cento e cinquenta e três grandes peixes; e apesar de
tantos peixes, a rede não se rompeu.
Jesus disse-lhes: “Vinde comer”. Nenhum dos discípulos se
atrevia a perguntar quem era ele, pois sabiam que era o Senhor. Jesus
aproximou-se, tomou o pão e distribuiu-o por eles. E fez a mesma coisa com o
peixe.
Esta foi a terceira vez que Jesus, ressuscitado dos mortos,
apareceu aos discípulos. Depois de comerem, Jesus perguntou a Simão Pedro:
“Simão, filho de João, tu me amas mais do que estes?”
Pedro respondeu: “Sim, Senhor, tu sabes que eu te amo”.
Jesus disse: “Apascenta os meus cordeiros”. E disse de novo a Pedro:
“Simão, filho de João, tu me amas?” Pedro disse: “Sim, Senhor, tu sabes que eu
te amo”. Jesus lhe disse: “Apascenta as minhas ovelhas”. Pela terceira
vez, perguntou a Pedro: “Simão, filho de João, tu me amas?”
Pedro ficou triste, porque Jesus perguntou três vezes se ele
o amava. Respondeu: “Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que eu te amo”. Jesus
disse-lhe: “Apascenta as minhas ovelhas.
Em verdade, em verdade te digo: quando eras jovem, tu cingias
e ias para onde querias. Quando fores velho, estenderás as mãos e outro te
cingirá e te levará para onde não queres ir”. Jesus disse isso,
significando com que morte Pedro iria glorificar a Deus. E acrescentou:
“Segue-me”.
“Saíram e entraram na barca, mas não pescaram nada naquela
noite” (Jo 21,3)
A vida é constituída de momentos de luta e de
coragem, de sonhos e de esperança, de vitórias e de derrotas. Este é o material
com o qual são construídas nossas histórias, pessoais e coletivas.
Todos nós já vivemos experiências de fracassos, quando
tudo desmorona, quando tudo nos é tirado, quando perdemos o chão, quando parece
que evapora tudo aquilo sobre o qual tínhamos investido todo o nosso amor e
toda a nossa energia e criatividade.
Mas, no horizonte da Ressurreição, o fracasso tem
seu lugar. Ele pode ser percebido como chance para crescimento ou
amadurecimento, ou pode ser integrado à luz de outras experiências positivas.
Aprendemos mais pelos nossos fracassos do que pelos nossos êxitos.
O fracasso pode ser, à luz da Ressurreição, des-velador da
natureza do ser humano, que vai amadurecendo, superando o sentimento infantil
de onipotência, descendo do pedestal de sua soberba para tornar-se mais humano,
mais amoroso, mais confiante... Os fracassos podem se revelar como ocasião
privilegiada para ativar outros recursos humanos que não tiveram chance de se
expressarem.
Integrar os fracassos significa assumir as perdas ou
carências que aparecem como uma negação de vida, mas que contém potencial de
nova vida, de crescimento, de maturação pessoal. Em definitiva, de
criativida-de humana, base da evolução pessoal e social.
Em nosso contexto social, o fracasso é vivido como
uma perda de prestígio e poder. Mas se o situamos no horizonte da Ressurreição,
ele pode ser elaborado saudavelmente e, então, poderemos descobrir que o
fracasso pode ser fonte de fecundidade. A Ressurreição nos ajuda a
re-siginificar, a re-ler, a re-interpretar todos os nossos dramas, crises,
feridas, fracassos... Tudo é acolhido, tudo é integrado, tudo é mobilizado para
dar um novo passo em direção a um novo futuro de vida.
Há um relato que sempre nos impacta muito e que aparece no
capítulo 21 do evangelho de João. Trata-se da aparição do Ressuscitado aos
discípulos no lago da Galiléia.
Normalmente nosso imaginário concebe a Ressurreição como uma
grande “apoteose”; mas, se algo está ausente nas aparições do
Ressuscitado, tal como os evangelhos nos relatam, é precisamente a apoteose.
O dicionário Houaiss da língua portuguesa a define como o
ápice, o momento mais importante de um acontecimento, o apogeu, a glorificação,
o júbilo, o entusiasmo, o cume... Mas, por mais que busquemos algo disso nos
relatos pascais, não é possível encontrar nenhum rastro de semelhantes
exaltações, resplen-dores, arrebatamentos...
Ao relatar como o Ressuscitado se conectava com os seus
amigos e amigas, o que nos assombra é sua discreta maneira de fazer-se próximo,
de surpreender-lhes em seus trajetos habituais, de lhes saudar com o “Shalon”
de cada dia, de apresentar-se sob as aparências mais comuns: um trabalhador de
parques e jardins, um forasteiro desinformado a quem é preciso atualizá-lo
sobre os últimos acontecimentos, um desconhecido ocioso que, a partir da margem
do mar, pergunta como foi a pescaria.
Mas há um dado constante nos relatos das Aparições do
Ressuscitado: Ele se faz presente no meio do fracasso, da dor, da tristeza, da
ferida..., e, aos poucos, vai iluminando a situação dramática de cada pessoa ou
do grupo, vai reconstruindo vidas despedaçadas, vai abrindo horizonte de
sentido e confirmando a missão de prolongar o “movimento de vida” iniciado na
Galiléia.
No relato pascal deste domingo, o evangelista João revela
que, à primeira vista, parece que a situação dos discípulos não tinha mudado;
eles tinham perdido sua condição de seguidores, tocaram fundo na decepção que a
morte lhes produziu e atrofiaram o sonho no qual acreditavam que estavam
fundadas suas vidas.
Novamente eles se encontram junto à praia e entre redes,
como no começo; o vazio, o abandono, a solidão, a escuridão da noite, a rotina
de um trabalho cansativo e ineficaz, dominam a paisagem do texto; novamente a
dureza de cada dia, em um cotidiano sem a presença de Jesus.
Mas, um “estranho”, muito cedo, da margem do lago, atreve-se
a provocá-los, fazendo uma pergunta onde mais doía: “moços, tendes alguma
coisa para comer?”
Diante de um “não” ríspido, o Ressuscitado faz um convite
ousado: “Lançai a rede à direita da barca e achareis”. É como se
dissesse: mudem de atitude, pesquem de maneira diferente, busquem outros
lugares, saiam da rotina, sejam criativos... Também para lançar a rede existem
dois lados: um lado conhecido e rotineiro; e outro lado alternativo e novo.
Revendo o passado, os discípulos reconheceram que estavam trabalhando no lado
errado, determinados pelo peso de uma tradição que não os deixava crescer.
Saber escutar os outros sempre pode ser útil. O pior é a
auto-suficiência que leva a acreditar que sabe tudo. Até o conselho de um
desconhecido pode ser princípio do êxito.
A nova consciência transforma tudo. A vida ganha a plenitude
da rede, torna-se vida em abundância.
Uma frugal refeição e a presença que se faz companhia foram
a estratégia encontrada por Jesus para retomar o movimento de vida que fora
bloqueado pela sua paixão; ao mesmo tempo, tornam-se o ambiente favorável para
confirmar a missão dos seus mais íntimos, sobretudo de Pedro, que passara por
uma profunda experiência de fracasso: negara a amizade com Jesus.
Há algumas brasas, que recordam aquela fogueira em torno da
qual, alguns dias antes, o velho pescador jurou não conhecer Jesus, negando-o
três vezes. Agora, junto ao fogo irmão, Jesus lavará com misericórdia a
fraqueza de Pedro, transformando para sempre seu barro frágil em pedra
fiel.
O relato deste domingo (3º da Pásco) nos revela que é do
meio do fracasso que pode brotar o impulso para uma adesão mais radical Àquele
que no fracasso “desceu” ao mais “inferior” (“infernos”) da condição humana, Àquele
que “se fez fracasso” para se fazer mais solidário com todos os fracassados da
história.
Assim aconteceu com Pedro e os seus companheiros. Foi no
contexto do fracasso (morte de Jesus, retorno à profissão de pescadores,
pescaria infrutífera...) que Pedro foi perguntado três vezes sobre o “amor”.
Foi também nesse contexto que Pedro teve chance de se deixar
reconstruir em sua identidade pela presença do Ressuscitado; também por três
vezes expressa a radicalidade de seu amor à pessoa de Jesus Cristo, que se faz
visível na identificação com Ele e na confirmação de sua missão: “apascenta
minhas ovelhas”.
As perguntas de Jesus a Pedro nos revelam que a cura das
feridas emocionais é, antes de tudo, um caminho novo que envolve afeto,
amizade, amor.
Antes, um Pedro valente o suficiente para cortar a orelha do
servo do Sumo Sacerdote com a espada, mas que perde a valentia em seguida, a
ponto de negar conhecer o próprio Jesus.
O Pedro que emerge deste contato terapêutico com o
Ressuscitado é um Pedro corajoso, decidido, mas também muito mais amoroso,
humano, pronto para exercer o “ministério do cuidado” do rebanho, confiado pelo
Ressuscitado.
Texto bíblico: Jo 21,1-19
Na oração: O encontro com o Ressuscitado possibilita
re-ler a vida, ressignificar fatos, “reci-clar” perdas e feridas, “processar”
fracassos..., para sair do “fatal ponto morto” e entrar no movimento expansi-vo
da Vida.
- Diante das crises, feridas, fracassos..., qual é a sua
tendência? Tentar deletá-los através do retorno ao cotidiano normótico (voltar
a pescar)? Ou oportunidade para um despertar a outras dimensões da vida, mais
ricas e ousadas?