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domingo, 26 de junho de 2022

PALAVRA DA SALVAÇÃO (268)



13º Domingo do Tempo Comum – 26 de junho de 2022

Anúncio do Evangelho (Lc 9,51-62)

— O Senhor esteja convosco.

— Ele está no meio de nós!

— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Lucas.

— Glória a vós, Senhor!

Estava chegando o tempo de Jesus ser levado para o céu. Então ele tomou a firme decisão de partir para Jerusalém e enviou mensageiros à sua frente.

Estes puseram-se a caminho e entraram num povoado de samaritanos, para preparar hospedagem para Jesus. Mas os samaritanos não o receberam, pois Jesus dava a impressão de que ia a Jerusalém.

Vendo isso, os discípulos Tiago e João disseram: “Senhor, queres que mandemos descer fogo do céu para destruí-los?”

Jesus, porém, voltou-se e repreendeu-os. E partiram para outro povoado.

Enquanto estavam caminhando, alguém na estrada disse a Jesus: “Eu te seguirei para onde quer que fores”.

Jesus lhe respondeu: “As raposas têm tocas e os pássaros têm ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça”.

Jesus disse a outro: “Segue-me”.

Este respondeu: “Deixa-me primeiro ir enterrar meu pai”.

Jesus respondeu: “Deixa que os mortos enterrem os seus mortos; mas tu, vai anunciar o Reino de Deus”.

Um outro ainda lhe disse: “Eu te seguirei, Senhor, mas deixa-me primeiro despedir-me dos meus familiares”.

Jesus, porém, respondeu-lhe: “Quem põe a mão no arado e olha para trás não está apto para o Reino de Deus”.

— Palavra da Salvação.

— Glória a vós, Senhor.

https://liturgia.cancaonova.com/pb/

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Ligue o link abaixo e acompanhe a reflexão do Pe. Donizete Ferreira, Sacerdote da Comunidade Canção nova:



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domingo, 12 de junho de 2022

PALAVRA DA SALVAÇÃO (267)


Solenidade da Santíssima Trindade | domingo, 12 de junho de 2022

Anúncio do Evangelho (Jo 16,12-15)

— O Senhor esteja convosco.

—Ele está no meio de nós.

— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo João.

— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: “Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas não sois capazes de as compreender agora.

Quando, porém, vier o Espírito da Verdade, ele vos conduzirá à plena verdade. Pois ele não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido; e até as coisas futuras vos anunciará.

Ele me glorificará, porque receberá do que é meu e vo-lo anunciará. Tudo o que o Pai possui é meu. Por isso, disse que o que ele receberá e vos anunciará, é meu”.

— Palavra da Salvação.

— Glória a vós, Senhor.

https://liturgia.cancaonova.com/pb/

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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Pe. Donizete Ferreira, Sacerdote da Comunidade Canção Nova:


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A Santíssima Trindade é a melhor comunidade

 


“Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas não sois capazes de as compreender agora” (Jo16,12)

Neste domingo (12.06.22), a Igreja celebra a Festa da Santíssima Trindade. Parece que celebramos algo estranho e distante de nossa compreensão. No entanto, a festa da Trindade nos mobiliza para uma nova maneira de viver e de nos relacionar com o Deus de Jesus, cuja presença preenche o cosmos, irrompe na nossa vida, habita criativamente no interior de cada um de nós e é vivido em comunidade.

É preciso deixar claro que o Mistério da Trindade não é um enigma a ser decifrado, ou seja, como conjugar três “individualidades” em uma Unidade, mas é a proclamação de que “tudo é Relação”. A Trindade não é uma especulação teórica sobre três pessoas “abstratas” em Deus, mas a maneira de ser de Deus, como Amor que se expande, em si e fora de si, de uma maneira “redentora”, inserindo-se na história da humanidade.

Assim, a Trindade não é uma simples verdade para crer, mas a base de nossa experiência cristã. O dogma trinitário quer expressar o mistério da Vida mesma de Deus que nos é comunicada. 

Foi a experiência cristã da ação salvadora de Deus por meio de Jesus Cristo e no Espírito Santo que deu existência à doutrina trinitária. Deus não é solidão, mas comunhão perfeita, pois “Deus é Amor”. Eis aí a grande revelação que Jesus nos trouxe: a essência de Deus é Amor em estado puro. Então, Deus não poderia fazer outra coisa senão amar. De fato, o amor não existe se não for movimento, reciprocidade, dom, acolhida, relação e comunhão.

Não podemos definir Deus. Só podemos nos aproximar da essência de Deus afirmando que Ele é relação, comunidade, partilha, comunicação, intercâmbio, comunhão.... Agostinho afirmou que no Amor se encontram três realidades: o Amante, o Amado e o mesmo Amor.

“Deus é Amor”, circulação eterna e infinita de amor, na qual o Amante, o Amado e o Amor se relacionam tão intensamente até “transbordar-se” na criação do universo. A Criação é transbordamento do Amor trinitário e o ser humano é “morada” das Três Pessoas Santíssimas.

A Trindade evoca um Deus cuja essência é caracterizada por um movimento eterno em direção a nós, em um amor redentor. Somente na medida em que formos capazes de amor, poderemos conhecer o Deus comunidade, ou seja, comunhão de Pessoas.

Esta é a essência do Evangelho. A melhor notícia que um ser humano podia receber é que Deus não o afasta de seu Amor. A Trindade nos ensina que só vivemos quando com-vivemos.

A Bíblia nos fala de um Deus amor; amor pessoal, porque ama a cada um de nós; amor total, universal, que não exclui ninguém; amor preferencial, porque se inclina para o frágil; amor comunitário, porque em si mesmo não está só, senão que é comunidade e gera comunidade entre os seres humanos.

Deus é Amor e só amor. Percebemos, então que, incompreensível não é Deus, mas nossa resistente e limitada capacidade de contemplar com profundidade essa Presença que se manifesta, permanentemente, em nossa vida e na Criação inteira.

Deus nos fez amor para o mútuo encontro, para a doação, para a comunhão...

Fomos criados “à imagem e semelhança” do Deus Trindade, comunhão de Pessoas (Pai-Filho-Espírito Santo). Quanto mais unidos somos, por causa do amor que circula entre nós, mais nos parecemos com o Deus Trindade. “Se nos amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós e o seu Amor em nós é perfeito” (1Jo. 4,12)

Deus colocou em nossos corações impulsos naturais que nos levam em direção ao convívio, à cooperação, à acolhida, à solidariedade... “Só corações solidários adoram um Deus Trinitário”. 

Aqui está a grandeza e a dignidade do ser humano, criado à imagem e semelhança do Deus Trindade. E é fácil intuir isso: sempre que sentimos o dinamismo de amar e ser amados, sempre que sabemos acolher e buscamos ser acolhidos, quando compartilhamos uma amizade que nos faz crescer, quando sabemos doar e receber vida..., estamos saboreando e visibilizando o “amor trinitário” de Deus. Esse amor que brota em nós tem n’Ele sua fonte.

O amor intra-trinitário não é um amor excludente, um “amor egoísta” entre três. É amor em excesso que se difunde e se expande em todas as criaturas. Por isso, quem vive o amor inspirado pela Trindade, aprende a amar a quem não lhe pode corresponder, sabe doar sem esperar recompensa, sente uma grande paixão pelos mais pobres e pequenos, é capaz de entregar sua vida para construir um mundo mais amável e digno.

Por outro lado, quem é incapaz de dar e receber amor, quem não sabe compartilhar nem dialogar, quem só escuta a si mesmo, quem resiste relacionar-se com os outros, quem só busca seu próprio interesse, quem só deseja o poder, a competição e o triunfo, não pode experimentar nada da Trindade amorosa. 

O ser humano não é feito para viver só; ele é chamado a viver em comunhão com todas as pessoas;

Como homem e como mulher trazemos esta força interior que nos faz “sair de nós mesmos” e criar laços, construir fraternidade, fortalecer a comunhão. Fomos feitos para o encontro e a comunicação.

Não fomos criados para viver sós; necessitamos con-viver, viver-com-os-outros, encontrar-nos; é essencial descobrir o sentido e a vivência do encontro relacional com os outros, na vida familiar, na fraternidade, na sensibilidade social para com o diferente e o excluído.

O sentido da vida em comum com os outros é um dom de Deus; afinal, fomos criados à imagem do Deus “encontro intra-trinitário”.

fraternidade, a vida em comum se mede pelo amor, por atos e gestos de doação, por vivências de comunhão, por experiências de partilha do mesmo ser, da mesma vida, da entrega mútua gratuita...

amor é olhar o outro com olhos tão limpos, bondosos, desinteressados, tão profundos... que só desejo que o outro seja o que é... Alegro-me de vê-lo assim, tal como é... 

O dogma da Trindade, portanto, não só nos revela como Deus é para nós; é também revelação de quem somos nós, ou seja, portadores do impulso relacional que se manifesta na nossa capacidade de amar.

Se Deus é relacionamento amoroso perfeito e nós somos criados à sua imagem e semelhança, então a doutrina da Trindade está preocupada com a nossa vida também. Somos convidados pela graça divina a entrar neste fluxo de relação que define o próprio ser de Deus.

Deus de Jesus não é uma verdade para pensar, mas uma Presença a ser vivida. Não é um ideia para quebrar nossa cabeça, mas a base e fundamento de nossa vida.

Uma profunda vivência da mensagem cristã será sempre uma aproximação ao mistério Trinitário.

Será, em definitiva, a busca de um encontro vivo com Deus. Não se trata de demonstrar a existência da luz, mas de abrir os olhos para vê-la. O verdadeiramente importante foi sempre a necessidade de viver essa presença do Deus, comunhão de Pessoas, no interior de cada ser humano.

Jesus, o Mistério de Deus feito carne no Profeta da Galiléia, é o melhor e único ponto de partida para reavivar uma fé simples no Deus Comunidade de Pessoas.

Texto bíblico:  Jo 16,12-15

Na oração: A Trindade não é hóspede; é a essência do ser humano; o modo de viver de uma pessoa é revelador de quem habita seu interior; uma pessoa compassiva, aberta, acolhedora... é sinal de que é habitada pela Trindade amorosa.

- Quem perde o caminho de sua interioridade, distancia-se da Trindade que é Vida e passa a viver a cultura da morte, deixando transparecer o ódio, a violência, o preconceito, a injustiça... como modo petrificado de ser.

- Qual é a Presença que determina sua vida: a Trindade Santa ou os dinamismos diabólicos (forças que dividem)?

 


Pe. Adroaldo Palaoro sj

https://centroloyola.org.br/revista/outras-palavras/espiritualidade/2592-a-santissima-trindade-e-a-melhor-comunidade

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domingo, 5 de junho de 2022

PALAVRA DA SALVAÇÃO (266)



Solenidade de Pentecostes | Domingo, 5 de junho de 2022


Anúncio do Evangelho (Jo 20,19-23)

— O Senhor esteja convosco.

— Ele está no meio de nós.

— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo João.

— Glória a vós, Senhor.

Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas, por medo dos judeus, as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, Jesus entrou e, pondo-se no meio deles, disse: “A paz esteja convosco”. Depois dessas palavras, mostrou-lhes as mãos e o lado. Então os discípulos se alegraram por verem o Senhor. Novamente, Jesus disse: “A paz esteja convosco. Como o Pai me enviou, também eu vos envio”. E, depois de ter dito isso, soprou sobre eles e disse: “Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem não os perdoardes, eles lhes serão retidos”.

— Palavra da Salvação.

— Glória a vós, Senhor.

https://liturgia.cancaonova.com/pb/

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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Pe. Donizete Ferreira, Sacerdote da Comunidade Canção Nova:


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O vento (santa Ruah) sopra a teu favor

 


“…soprou sobre eles e disse: ‘Recebei o Espírito Santo’” (Jo 20,22) 

 

A liturgia da festa de Pentecostes deste ano nos situa no momento do encontro do Ressuscitado com seus discípulos, literalmente “trancados” numa sala, incapazes de romper seus medos, marcados por uma profun-da tristeza e decepção.

O Ressuscitado, ao exercer o “ofício do consolar” (S. Inácio), desperta novo ânimo naqueles homens desolados, graças ao sopro vital do seu Espírito, que se torna ação criadora e rompedora de tudo que limita. O Ressuscitado não só se apresenta e fala, mas comunica a si mesmo: entrega o seu Espírito, Aquele mesmo que o conduzia criativamente pelas estradas da Galiléia, instaurando o novo Reinado do Pai.

Pentecostes é, para os cristãos, a festa do Espírito. Ao dizer que Deus é Espírito, estamos dizendo que Ele não é um “ser fechado em si”, senão abertura, ser-para-os-outros. Chamamos Deus “Espírito” porque é força criadora e criativa, alento no qual todas as coisas e os humanos se sustentam. Toda a realidade, perpassada pelo dinamismo divino, só tem sentido em Deus; todas as “coisas” são em Deus. Também o ser humano: ele existe unicamente a partir do “sopro” do Espírito divino, que lhe dá autonomia e liberdade.

Em outras palavras, o Espírito é o espaço aberto do amor oblativo e presença que estabelece continuamente o “cosmos” em meio ao “caos”; é Deus mesmo como força expansiva e como fundamento de vida de tudo e de todos, como seio maternal e fecundante no qual podemos chegar à existência verdadeira. Por isso, o ser humano nunca vive a partir de si nem para si mesmo; existe imerso no Espírito divino e caminhando para o futuro (o novo nascimento) ao qual o Espírito lhe abre. 

Recebei a Ruah”, assim deve ter dito Jesus. Em sua língua materna, Jesus chamava o Espírito de “Ruah”.  É uma pobreza falar só do “Espírito Santo” e deixar de lado a riqueza semântica da “ruah”, que, em hebraico, tem conotações muito mais ricas que o termo latino “spíritus”.

Assim, a expressão hebraica “Ruah”, feminino de Deus, significa a brisa, o “pairar” de Deus sobre as águas, o sopro impetuoso que gera vida. Alento, vento, sopro, respiração, força, fogo... com nome feminino, que fala de maternidade e de ternura, de vitalidade e carícia.

Assim como Jesus, pela força da “Ruah”, se encarnou e se humanizou, também nós nos fazemos cada vez mais humanos, por obra da mesma “Santa Ruah” de Deus. Ela nos faz pressentir o quanto amados somos, que, na comunhão, nunca estamos sozinhos, e que esta é a hora para cada um(a) de nós e o melhor momento que nos cabe viver. Sob o impulso da “Ruah”, vivemos todos no "horário nobre da vida”. 

É a “Ruah” quem nos move a superar os esquemas atrofiados da vida e a assumir uma causa mobilizadora, centrada no Reino anunciado por Jesus. É Ela que nos arranca das malhas do egoísmo, liberta-nos dos interesses mesquinhos, faz-nos caminhar no terreno firme do amor, abre novos horizontes e nos impulsiona a assumir ideais mais elevados de felicidade e realização pessoal.

Ela continua presente na vida de todo(a) seguidor(a) de Jesus e no seio de sua comunidade. Continua atuando através de muitas pessoas e organizações que se comprometem radicalmente na luta contra tudo aquilo que rompe os vínculos, alienam e desumanizam. A “Ruah” de Deus continua atuando na história, embora aparentemente não a percebamos. Não é necessário fazer tanto barulho para dizer que a “Ruah” está agindo através de um discreto silêncio. Muitas vezes, não a sentimos porque atua de maneira muito simples, através de gestos que podem passar desapercebidos. 

Portanto, viver alentados pela e na Ruah é também um convite a harmonizar sabiamente os opostos da vida: experiência de fortaleza/experiência de debilidade, silêncio/palavra, trabalho/descanso, partilhar/receber, presença/ausência, conectar/desconectar, saber caminhar acompanhados/saber estar a sós saboreando a dimensão positiva e fecunda de uma “solitude” (solidão habitada) que enriquece nosso mundo interior e fortalece nossas opções e compromissos.

Por outro lado, as consequências de viver sem o Espírito-Ruah, Espírito-Sophia, são realmente desastrosas. A vida cristã sem “Ruah” se revela como um conjunto de normas em uma instituição a mais, carregada de moralismo, doutrina estéril e ritualismos vazios. Fica obsoleta, porque não interpreta os sinais dos tempos, odres velhos para vinho novo.

Sempre é a “Ruah” que nos unifica, Aquela que nos convida a superar a divergência que é fruto de nosso falso eu. Nela, a diversidade nos enriquece.

É a “Ruah” de Deus, do amor, do comunitário e do comum, do povo de Deus. N’Ela já não é possível permanecermos fechados, pois Ela transpassa as paredes e quebra os ferrolhos das portas, nos faz abertos de coração e de mente, frente às reservas e às dúvidas do temor.

Com seus dons, compreendemos que o universo é nossa casa e nós não somos estranhos nela, que a humani-dade não caminha no vazio de uma existência do nada, senão rumo à Casa Comum do Pai, e que a senda é a dos irmãos na comunidade, em direção a um horizonte sempre inspirador. 

O ser humano, desde sempre existe enquanto está fundamentado (protegido e potenciado) na Ruah.

Constituído de argila, como vaso nas mãos de um ceramista, cada um recebe o sopro ou hálito divino. É a própria Vida de Deus, o seu sopro vital, que faz surgir o humano do húmus da terra. É a “Ruah” de Deus, inspirado no ser humano, que o torna realmente humano.

Cada pessoa é portadora deste sopro de Deus e desta força misteriosa que o impulsiona à plenitude.

sopro de Deus impresso no mais profundo de nosso ser, está enfaixado pela fragilidade da argila.

Somos a grande combinação resultante do sopro de Deus e da argila que nos configura.

Cada um de nós é a força criativa de Deus impressa em cada coração. O respiro ou hálito é o símbolo da presença do Criador em nós. Sob o signo de Adão, nós somos, em primeiro lugar, criaturas de Deus em comunhão com as demais criaturas, participando da mesma existência criatural. Mas, pelo sopro do próprio Deus, somos “elevados” à condição de imagem e semelhança d’Ele.

Então, tornamo-nos “criaturas abertas ao Espírito” e, mais ainda, “criaturas habitadas pelo Espíri-to”; somos argila, mas argila portadora da “Ruah”, argila aberta ao céu. Tornamo-nos, assim, imagem do mundo diante de Deus e imagem de Deus diante do mundo. 

Nos relatos bíblicos, a “Ruah de Deus” se revela sempre “rompedora”, pois é Ela que “alarga o espaço de nossa tenda interior”. É como se derrubasse as paredes, abrisse portas e janelas e nos oferecesse espaços amplos de encontro. Desse modo, cabe mais gente em nossas vidas e a “Ruah” nos ajuda a descobrir a fraternidade e sororidade como um dom.

A “Ruah Santa” é aquela que faz estremecer as estruturas, que toca nos lugares mais profundos e nossos. Ela vem como gesto de Deus que arranca nossas vidas do porto seguro da acomodação e nos lança para os mares abertos do novo e das surpresas. Nela, quanto mais navegamos, mais descobrimos novos mares.

E nunca faltará o Vento ao nosso veleiro.

Texto bíblico:  Jo 20,19-23

Na oração: “Vem, Santa Ruah!”: é o clamor, o gemido, a oração universal. Melhor: é a Ruah quem clama, geme e ora no mais profundo de seu ser e no mais profundo de tudo quanto existe. O universo é oração.

- Deixe a Ruah fluir livremente; assim, a vida espiritual será para você aquela vida na qual a Ruah poderá se mover sem obstáculos. Uma espiritualidade holística que experimenta a presença d’Ela na totalidade de sua vida, em todas as dimensões da realidade: a história, a natureza, a interioridade, as relações humanas, a luta pela justiça, o descanso, o trabalho etc. Todos estes são lugares onde a Ruah se manifesta.

- Como exercício prático, localize em sua vida os momentos de profundas mudanças nos quais você se atreve a chamar “Pentecostes”, porque lhe fizeram descobrir em seu interior, a presença da Ruah de um modo novo, mais vivo e vigoroso; porque lhe fizeram ver as pessoas e a realidade com reverência; porque lhe fizeram sair de visões e atitudes estreitas; porque lhe tornaram diáfano (transparente) da presença de Deus no cotidiano de sua vida...

- Em sintonia com toda a Criação, abra espaço à presença e voz da “Ruah” em seu coração.


Pe. Adroaldo Palaoro sj

https://centroloyola.org.br/revista/outras-palavras/espiritualidade/2591-o-vento-santa-ruah-sopra-a-teu-favor

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domingo, 29 de maio de 2022

PALAVRA DA SALVAÇÃO (265)

 


Solenidade da Ascensão do Senhor | domingo, 29 de maio de 2022

 

Anúncio do Evangelho (Lc 24,46-53)

— O Senhor esteja convosco.

— Ele está no meio de nós.

— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Lucas.

— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: “Assim está escrito: O Cristo sofrerá e ressuscitará dos mortos ao terceiro dia e no seu nome serão anunciados a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém.

Vós sereis testemunhas de tudo isso. Eu enviarei sobre vós aquele que meu Pai prometeu. Por isso, permanecei na cidade, até que sejais revestidos da força do alto”.

Então Jesus levou-os para fora, até perto de Betânia. Ali ergueu as mãos e abençoou-os. Enquanto os abençoava, afastou-se deles e foi levado para o céu. Eles o adoraram. Em seguida voltaram para Jerusalém, com grande alegria. E estavam sempre no Templo, bendizendo a Deus.

— Palavra da Salvação.

— Glória a vós, Senhor.

https://liturgia.cancaonova.com/pb/

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Ascenção: bênção que se espalha sobre a humanidade

 


Jesus levou-os para fora, até perto de Betânia. Ali ergueu as mãos e abençoou-os” (Lc 24,50) 

Segundo o relato de Lucas, na Ascenção, Jesus “desaparece” em Deus; Ele não se afasta da humanidade, mas continua presente de uma outra maneira: junto com o Pai e o Espírito faz sua “morada” no interior de cada pessoa.

Por isso, Jesus não deixa uma estrutura religiosa organizada (com sua hierarquia, seus ritos, leis, doutrinas...); Ele deixa na terra “testemunhas”, ou seja, aqueles(as) que comunicam a sua experiência de um Deus de bondade e contagiam com seu estilo de vida centrado no modo de agir e viver do próprio Jesus. Serão testemunhas cristificadas, trabalhando por um mundo mais justo e humano.

Mas Jesus conhece bem os seus discípulos; sabe que eles são frágeis e medrosos. Onde encontrarão a audácia para serem testemunhas de alguém que foi crucificado pelo representante do Império e pelos dirigentes do Templo? Jesus tranquiliza-os: “Eu enviarei a vós aquele que Pai prometeu”. Não lhes vai faltar a “força do alto”. O Espírito de Deus os defenderá. 

A “ausência física” de Jesus revelar-se-á, então, como oportunidade para fazer crescer a maturidade de seus seguidores. Ele lhes deixa o dom de seu Espírito que promoverá o crescimento responsável e adulto dos seus. É inspirador recordar isso nesse momento em que parece crescer entre nós o medo à criatividade, a tentação do imobilismo, a petrificação no ritualismo e na doutrina, ou a saudade de um cristianismo pensado para outros tempos e outra cultura.

A festa da Ascenção do Senhor nos recorda que, terminada a presença história de Jesus, vivemos “o tempo do Espírito”, tempo de criatividade e de crescimento responsável no seguimento de Jesus. O Espírito não nos oferece “receitas eternas”. Ele nos dá luz e alento para ir buscando caminhos sempre novos e alternativos para atualizar hoje o modo de ser e agir de Jesus. Assim Ele nos conduz para a verdade completa d’Aquele que sempre se revelou verdadeiro. 

Para expressar graficamente o último desejo de Jesus, o evangelista Lucas descreve a sua partida deste mundo de forma surpreendente: Jesus volta ao Pai levantando as suas mãos e abençoando os seus discípulos. É o seu último gesto. Jesus entra no mistério insondável de Deus e sobre o mundo faz descer a sua bênção. Seus seguidores começam sua peregrinação pelo mundo protegidos por aquela benção com a qual Jesus curava os enfermos, perdoava os pecadores, abençoava e acariciava as crianças...

Bênção atravessa toda a Bíblia, e quer atravessar também nossas vidas. Ela brota do olhar primeiro e amoroso de Deus que, admirado, viu que toda Criação era boa e preciosa. Também nossa missão, confiada pelo Ressuscitado, consiste em recuperar este olhar, esta benção original, sobre nós e sobre a terra; uma bênção que desperta admiração e assombro ao perceber a bondade e beleza no interior daqueles que não são considerados bons e dignos de beleza. 

A palavra “bênção” tem um sentido amplo e direto; procede do termo latino “benedictio” e significa “dizer bem”. Mas, determinados pelo nosso contexto social e político que preza pelo ódio, preconceito, maledicência, “fake news”..., a sensação que temos é que há uma curiosidade viral, uma excitação, um prazer mórbido em “dizer mal”, destruir reputações, emitir juízos moralistas, ferir e excluir o outro que pensa, sente e ama de maneira diferente. Há uma “maledictio” (“mal-dizer”) que paira em todos os meios de comunicação e redes sociais, envenenando relações, rompendo vínculos, criando divisões. E tudo isso emerge da interioridade petrificada das pessoas, alimentando um fúnebre processo de desumanização. O trágico é que essas manifestações de maldição são expressas por quem se confessa seguidor(a) d’Aquele que sempre foi presença visível da Verdade e fonte de perene Benção. Quanta incoerência no seguimento de Jesus Cristo!

“Não há pior patologia que essa dissipação da alma, esse olhar cheio de pré-juizos que nos torna pequenos e amargos, esse juízo que se deixa escravizar pelo defeito e pelo peso da imperfeição e depois não nos deixa sair até que ignoramos a liberdade. Não há exercício mais esterilizante que essa espécie de ressentimento expresso como anátema em relação com a vida, esse totalitarismo da queixa que, sem nos dar conta, nos asfixia, essa incapacidade de romper com a engrenagem da maldição sobre todos e sobre tudo, da qual nem nós mesmos escapamos” (Cardeal Tolentino).

Somos herdeiros(as) de uma benção, herdeiros(as) da doação e da esperança de tantos homens e mulheres que, ao longo da história, aliviaram sofrimento, recobraram dignidades e ajudaram a viver.

Agora, somos nós a geração portadora dessa benção. Presente, passado e futuro.

Como seguidores(as), esquecemo-nos que somos portadores(as) da bênção de Jesus. A nossa primeira tarefa é ser testemunha da Bondade de Deus, manter viva a esperança, não nos rendermos diante do “maledictio”.

Na Igreja de Jesus, temos esquecido que a primeira coisa a se fazer é promover uma “pastoral da bênção”. Temos de nos sentir testemunhas e profetas desse Jesus que passou a sua vida semeando gestos e palavras de bênção, de bondade e de misericórdia. Assim, despertou nas pessoas da Galiléia a esperança no Deus Salvador, abriu um horizonte de sentido. Jesus era uma bênção visível e as pessoas reconheciam isso.

Somos chamados a ser presença de “bênção”. Que todos aqueles que vivem situações de desamparo, de miséria, de desamor, de indefesa, de maldição... possam sentir em nós o prolongamento da Benção do Ressuscitado; possam sentir-se bem acolhidos, bem nomeados, bem olhados, bem-amados.

“Dizer bem”, “bendizer”, “abençoar”, é nossa vocação primordial, porque só isso desperta a consciência de que cada um de nós é portador(a) autorizado(a) de uma indestrutível benção, e esse é o modo de fazer justiça ao maravilhoso milagre que é estar vivos. “Dizer bem” é conectar-nos com aquela verdade mais profunda, que é o puro vínculo na ordem do ser. Sem essa ancoragem compassiva na raiz do nosso ser e no nosso modo cristificado de viver, não chegaremos a compreender verdadeiramente o enorme e misterioso pulsar da própria existência.

Cada um de nós depende – porque a vida é dom e confirmação reiterada do dom – daquilo que a benção desencadeia. Somos um elo na longa corrente de bênçãos; são inúmeras as pessoas que deixaram impregnadas em nosso coração a marca da bênção oblativa, aberta e desafiadora. Crescemos e amadurecemos sob o impulso da “benedictio” daqueles(as) que conviveram ou convivem conosco.

E, por isso, é tão importante buscar a benção, colocar-nos de seu lado luminoso, ativá-la e exercitá-la ao nosso redor. O tempo se ilumina quando nos deslocamos da sombra da “maledictio” e nos re-situamos na órbita da “benedictio”.

Assim se expressa a maravilhosa e antiga bênção irlandesa: “Que o caminho seja brando a teus pés,/ que o vento sopre leve em teus ombros./ Que o sol brilhe em teu rosto sem ferir-te,/ e as chuvas caiam serenas em teus campos./ E até que eu de novo te veja,/ Deus te guarde cada dia na palma de Sua mão”. 

Texto bíblico:  Lc 24,46-53 

Na oração: Todo(a) seguidor(a) de Jesus é “canal” de transmissão de Sua bênção que salva, eleva, exalta a dignidade de cada pessoa.

- Sua presença cotidiana é reveladora de “benedictio” ou “maledictio”, de elogio ou de maledicência, de vibração diante da nobreza do outro ou de queixa amarga?...

 


Pe. Adroaldo Palaoro sj

https://centroloyola.org.br/revista/outras-palavras/espiritualidade/2579-ascencao-bencao-que-se-espalha-sobre-a-humanidade

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domingo, 22 de maio de 2022

PALAVRA DA SALVAÇÃO (264)



6º Domingo da Páscoa | 22/05/2022


 Anúncio do Evangelho (Jo 14,23-29)

— O Senhor esteja convosco.

— Ele está no meio de nós.

— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo João.

— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: “Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e o meu Pai o amará, e nós viremos e faremos nele a nossa morada. Quem não me ama, não guarda a minha palavra. E a palavra que escutais não é minha, mas do Pai que me enviou.

Isso é o que vos disse enquanto estava convosco. Mas o Defensor, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, ele vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que eu vos tenho dito.

Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; mas não a dou como o mundo. Não se perturbe nem se intimide o vosso coração.

Ouvistes o que eu vos disse: ‘Vou, mas voltarei a vós’. Se me amásseis, ficaríeis alegres porque vou para o Pai, pois o Pai é maior do que eu.

Disse-vos isso, agora, antes que aconteça, para que, quando acontecer, vós acrediteis.

— Palavra da Salvação.

— Glória a vós, Senhor.


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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Padre Roger Araújo:


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A nobreza de ser morada da Trindade

 


 “Se alguém me ama, guardará minha palavra, e o meu Pai o amará, e nós viremos e faremos nele nossa morada” (Jo 14,23)

Neste último domingo de Páscoa a liturgia, mais uma vez, nos faz ter acesso a um trecho do discurso de despedida de Jesus, no evangelho de S. João. Na realidade, trata-se de um “discurso pascal”, onde o evangelista recolhe os dons principais revelados pelo Ressuscitado: vida, amor, paz, fé, Espírito Santo.

A narração deste domingo dá destaque a uma nova presença do Cristo Ressuscitado entre os seus seguidores e seguidoras: junto com o Pai e o Espírito, Ele faz do interior de cada um(a) sua “morada”. 

Sabemos que o ser humano é  interioridade; é sua essência, é a dimensão mais nobre e sagrada de todos. E essa interioridade é habitada por uma Presença, sempre inspiradora e iluminadora como o Sol.“O Sol res-plendente está sempre dentro da alma e nada pode arrebatar sua magnificência” (S. Teresa D’Ávila).

Presença que fala dentro de nós; presença que é Fonte de paz; presença que, através do seu Espírito, nos inspira, nos sustenta e desperta as melhores energias e forças mobilizadoras de nossa vida.

Os mestres espirituais chamam a esta interioridade também de “Imago Dei” (imagem de Deus), ou a própria presença divina em nós.

Só descobrindo o que há de Deus em nós, poderemos cair na conta da nossa verdadeira identidade. Ele é nosso verdadeiro ser, nosso ser profundo, nossa essência. Somos templos de Deus, presença constante do Espírito de Deus conosco. Somos seres habitados; não estamos sozinhos.

É próprio do ser humano mergulhar e experimentar sua profundidade. Auscultando a si mesmo, percebe que brotam de seu “eu profundo” apelos de compaixão, de amorização e de identificação com os outros e com o grande Outro (Deus). Dá-se conta de uma Presença que sempre o acompanha, de um Centro ao redor do qual se organiza a vida interior e a partir do qual se elaboram os grandes sonhos e as significações últimas da vida. 

Normalmente quando falamos de Deus nós o imaginamos bem distante e quase inacessível. Vemos longe Aquele que está tão perto, Aquele que trazemos dentro de nós mesmos. Vemos longe Aquele que vive e nos dá vida cada dia. Basta um simples olhar por dentro para nos encontrar com Ele.

Às vezes, sentimos como se tivéssemos medo de nosso próprio mistério; temos medo de sentir que nós somos o céu de Deus; temos medo de pensar que somos a “casa” onde vive e habita Deus.

Muitas vezes não nos damos conta dessa Presença, mas ela não nos invade, não nos anula, não se impõe... Simplesmente se faz habitante, presença, inspiração...

No entanto, esta é a nobreza de nosso ser: todos somos “morada” divina, porque nosso verdadeiro ser é o que há de Deus em nós; embora a imensa maioria das pessoas não tem consciência disso ainda, não podemos deixar de manifestar o que somos. Deus sempre habita no mais profundo de cada um de nós; podemos ou não entrar em sintonia com essa presença para nos deixar conduzir por ela.

Deus anda abraçado conosco e sua graça banha suavemente todas as dobras do nosso ser e agir. Agostinho cunhará a expressão de que Deus é “intimior intimo meo”, mais íntimo que nossa própria intimidade. Esta presença é fonte de vida espiritual, uma vida que pulsa dentro de nós e flui com diferentes “moções” que nos fazem sentir perto d’Aquele que já está perto.

Em nosso coração há sempre um movimento profundo que é manifestação da ação de Deus no mais íntimo de cada um.

Quem toma consciência de sua identidade profunda, descobre-se habitado e amado pelo Mistério e não pode fazer outra coisa senão amar e experimentar a comunhão com tudo e com todos. Na linguagem do quarto evangelho, Deus é o “centro” último do nosso interior, o que constitui nossa identidade mais profunda. A expressão do pensador Pascal - “o ser humano supera infinitamente o ser humano” -, resume bem esta vivência da Trindade que nos habita, nos move e nos faz transbordar em nossa mesma intimidade.

É o céu que vem tocar a terra, é Deus que se aloja no coração humano, é o Reino que se entrelaça na configuração de nossa convivência, é a fé que se revela como atitude de confiança inabalável.

Em Deus sempre vivemos. Em Deus nos movemos. Em Deus somos. A Ele nunca vamos. D’Ele nunca saímos. N’Ele sempre nos encontramos. Ele está nos gerando a cada momento (“o ser humano é criado para...).  Precisamos vivenciar a Fonte donde tudo jorra  e onde tudo deságua; precisamos caminhar à luz do Sol primordial, regressar ao seu seio luminoso.

Eis a meta derradeira do ser humano: a auto-transcendência

Ao fazer morada em nós, Deus acende nosso desejo no desejo d’Ele, ativa a nossa vontade na Vontade d’Ele, faz pulsar o nosso coração no ritmo do Coração d’Ele. Ele entra com sua Liberdade nas raizes da nossa liberdade e alarga os espaços internos para que a Vida divina atravesse todas as dimensões de nosso ser, tornando nossa vida mais oblativa, aberta e comprometida. Segundo José  Saramago “a vida é breve, mas cabe nela muito mais do que somos capazes de viver”. 

Podemos ter acesso ao mais profundo de nós mesmos porque em nós está a dimensão de eternidade, a dimensão “divina” que nos situa acima do vai-e-vém das coisas, para além da superficialidade e da aparência.

Enraizados nessa Presença divina que nos habita, podemos transitar pela história com mais sentido e inspiração. Nós nos movemos, pois, entre transcendência e história, entre contingência e eternidade. É no “substrato humano” que o mistério da Trindade marca presença e age. É na “natureza humana” que Deus constrói a Sua Tenda e, na Sua ternura, abraça a pessoa no seu todo; abrange todas as áreas da vida.

Deus se serve das mediações humanas para revelar-se e falar ao coração. Ele quer assumir o humano na sua totalidade. Ele deseja ser o responsável pela “terra sagrada” da vida humana. Da parte de cada pessoa, Ele pede, apenas, para deixá-Lo trabalhar, limpar, semear, fazer crescer e colher os frutos. A pessoa é solicitada para que deixe espaço aberto e livre ao plano da ação de Deus.

É nas entranhas mais profundas do ser que Deus “toca” com a Sua bondade, ternura e misericórdia. Esta experiência gera compromisso de viver a bondade, a ternura e a misericórdia na missão.

Assim é a Trindade amorosa revelada por Jesus, que se deixa “transparecer” no interior e na vida de cada um de nós. Se nos sentimos “morada de Deus”, se verdadeiramente Deus está em nós, devemos necessaria-mente  manifestá-lo em nossa vida. Deus é amor e o melhor de nós é nosso ser amoroso; por isso, também nós devemos ser “diáfanos”, ou seja, deixar transparecer, em nossa vida e em nossa ação, o Deus íntimo, fundamento de nosso ser e identificado com cada ser humano.  Quem é “diáfano” também “vê” o Deus que se deixa transparecer no outro.

Somos presença do amor de Deus no mundo. Os outros descobrirão essa Presença em nossa vida quando manifestemos, através de nossas atitiudes, o que de Deus há em nós: bondade, compaixão, disponibilidade, atitude de serviço aos outros; quando, de verdade, sejamos um ser para o outro, a partir de nosso ser amoroso. Isso significa viver já como seres ressuscitados, uma nova humanidade; isso significa nascer de novo, nascer para a Vida divina, eterna, definitiva. E isto, aqui e agora, sem deixar para mais tarde. 

Texto bíblico:  Jo. 14,23-29

Na oração: Na oração, mergulhamos em Deus e libertamos em nós profundidades que desconhecemos.

Se a nossa oração for um autêntico face-a-face com Deus, ela de-verá fazer emergir à nossa consciência as profundidades desconhecidas do nosso ser. Descobriremos recursos e dons ainda inexplorados, que nascerão para a vida sob a ação da Graça de Deus. Ele é a verdadeira fonte do nosso ser, mais próxima de nós do que nós de nós mesmos.


Pe. Adroaldo Palaoro sj

https://centroloyola.org.br/revista/outras-palavras/espiritualidade/2574-a-nobreza-de-ser-morada-da-trindade

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domingo, 1 de maio de 2022

PALAVRA DA SALVAÇÃO (263)



3º Domingo da Páscoa – 01/05/2022


Anúncio do Evangelho (Jo 21,1-19)

— O Senhor esteja convosco.

— Ele está no meio de nós.

— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo João.

— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, Jesus apareceu de novo aos discípulos, à beira do mar de Tiberíades. A aparição foi assim: Estavam juntos Simão Pedro, Tomé, chamado Dídimo, Natanael de Caná da Galileia, os filhos de Zebedeu e outros dois discípulos de Jesus.

Simão Pedro disse a eles: “Eu vou pescar”. Eles disseram: “Também vamos contigo”.

Saíram e entraram na barca, mas não pescaram nada naquela noite. Já tinha amanhecido, e Jesus estava de pé na margem. Mas os discípulos não sabiam que era Jesus. Então Jesus disse: “Moços, tendes alguma coisa para comer?” Responderam: “Não”.

Jesus disse-lhes: “Lançai a rede à direita da barca, e achareis”. Lançaram pois a rede e não conseguiam puxá-la para fora, por causa da quantidade de peixes. Então, o discípulo a quem Jesus amava disse a Pedro: “É o Senhor!” Simão Pedro, ouvindo dizer que era o Senhor, vestiu sua roupa, pois estava nu, e atirou-se ao mar. Os outros discípulos vieram com a barca, arrastando a rede com os peixes. Na verdade, não estavam longe da terra, mas somente a cerca de cem metros. Logo que pisaram a terra, viram brasas acesas, com peixe em cima, e pão. Jesus disse-lhes: “Trazei alguns dos peixes que apanhastes”.

Então Simão Pedro subiu ao barco e arrastou a rede para a terra. Estava cheia de cento e cinquenta e três grandes peixes; e apesar de tantos peixes, a rede não se rompeu.

Jesus disse-lhes: “Vinde comer”. Nenhum dos discípulos se atrevia a perguntar quem era ele, pois sabiam que era o Senhor. Jesus aproximou-se, tomou o pão e distribuiu-o por eles. E fez a mesma coisa com o peixe.

Esta foi a terceira vez que Jesus, ressuscitado dos mortos, apareceu aos discípulos. Depois de comerem, Jesus perguntou a Simão Pedro: “Simão, filho de João, tu me amas mais do que estes?”

Pedro respondeu: “Sim, Senhor, tu sabes que eu te amo”. Jesus disse: “Apascenta os meus cordeiros”. E disse de novo a Pedro: “Simão, filho de João, tu me amas?” Pedro disse: “Sim, Senhor, tu sabes que eu te amo”. Jesus lhe disse: “Apascenta as minhas ovelhas”. Pela terceira vez, perguntou a Pedro: “Simão, filho de João, tu me amas?”

Pedro ficou triste, porque Jesus perguntou três vezes se ele o amava. Respondeu: “Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que eu te amo”. Jesus disse-lhe: “Apascenta as minhas ovelhas.

Em verdade, em verdade te digo: quando eras jovem, tu cingias e ias para onde querias. Quando fores velho, estenderás as mãos e outro te cingirá e te levará para onde não queres ir”. Jesus disse isso, significando com que morte Pedro iria glorificar a Deus. E acrescentou: “Segue-me”.

— Palavra da Salvação.

— Glória a vós, Senhor.

http://liturgia.cancaonova.com/pb/

 

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Ligue o vídeo abaixo, e acompanhe a reflexão do Pe. Donizete Ferreira, sacerdote da Comunidade Canção Nova:


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A Ressurreição revela sua força transformadora nos fracassos

 


Imagem: Sieger Koder

 

“Saíram e entraram na barca, mas não pescaram nada naquela noite” (Jo 21,3) 

vida é constituída de momentos de luta e de coragem, de sonhos e de esperança, de vitórias e de derrotas. Este é o material com o qual são construídas nossas histórias, pessoais e coletivas.

Todos nós já vivemos experiências de fracassos, quando tudo desmorona, quando tudo nos é tirado, quando perdemos o chão, quando parece que evapora tudo aquilo sobre o qual tínhamos investido todo o nosso amor e toda a nossa energia e criatividade.

Mas, no horizonte da Ressurreição, o fracasso tem seu lugar. Ele pode ser percebido como chance para crescimento ou amadurecimento, ou pode ser integrado à luz de outras experiências positivas. Aprendemos mais pelos nossos fracassos do que pelos nossos êxitos.

O fracasso pode ser, à luz da Ressurreição, des-velador da natureza do ser humano, que vai amadurecendo, superando o sentimento infantil de onipotência, descendo do pedestal de sua soberba para tornar-se mais humano, mais amoroso, mais confiante... Os fracassos podem se revelar como ocasião privilegiada para ativar outros recursos humanos que não tiveram chance de se expressarem.

Integrar os fracassos significa assumir as perdas ou carências que aparecem como uma negação de vida, mas que contém potencial de nova vida, de crescimento, de maturação pessoal. Em definitiva, de criativida-de humana, base da evolução pessoal e social.

Em nosso contexto social, o fracasso é vivido como uma perda de prestígio e poder. Mas se o situamos no horizonte da Ressurreição, ele pode ser elaborado saudavelmente e, então, poderemos descobrir que o fracasso pode ser fonte de fecundidade. A Ressurreição nos ajuda a re-siginificar, a re-ler, a re-interpretar todos os nossos dramas, crises, feridas, fracassos... Tudo é acolhido, tudo é integrado, tudo é mobilizado para dar um novo passo em direção a um novo futuro de vida.

Há um relato que sempre nos impacta muito e que aparece no capítulo 21 do evangelho de João. Trata-se da aparição do Ressuscitado aos discípulos no lago da Galiléia.

Normalmente nosso imaginário concebe a Ressurreição como uma grande “apoteose”; mas, se algo está ausente nas aparições do Ressuscitado, tal como os evangelhos nos relatam, é precisamente a apoteose.

O dicionário Houaiss da língua portuguesa a define como o ápice, o momento mais importante de um acontecimento, o apogeu, a glorificação, o júbilo, o entusiasmo, o cume... Mas, por mais que busquemos algo disso nos relatos pascais, não é possível encontrar nenhum rastro de semelhantes exaltações, resplen-dores, arrebatamentos...

Ao relatar como o Ressuscitado se conectava com os seus amigos e amigas, o que nos assombra é sua discreta maneira de fazer-se próximo, de surpreender-lhes em seus trajetos habituais, de lhes saudar com o “Shalon” de cada dia, de apresentar-se sob as aparências mais comuns: um trabalhador de parques e jardins, um forasteiro desinformado a quem é preciso atualizá-lo sobre os últimos acontecimentos, um desconhecido ocioso que, a partir da margem do mar, pergunta como foi a pescaria.

Mas há um dado constante nos relatos das Aparições do Ressuscitado: Ele se faz presente no meio do fracasso, da dor, da tristeza, da ferida..., e, aos poucos, vai iluminando a situação dramática de cada pessoa ou do grupo, vai reconstruindo vidas despedaçadas, vai abrindo horizonte de sentido e confirmando a missão de prolongar o “movimento de vida” iniciado na Galiléia.

No relato pascal deste domingo, o evangelista João revela que, à primeira vista, parece que a situação dos discípulos não tinha mudado; eles tinham perdido sua condição de seguidores, tocaram fundo na decepção que a morte lhes produziu e atrofiaram o sonho no qual acreditavam que estavam fundadas suas vidas.

Novamente eles se encontram junto à praia e entre redes, como no começo; o vazio, o abandono, a solidão, a escuridão da noite, a rotina de um trabalho cansativo e ineficaz, dominam a paisagem do texto; novamente a dureza de cada dia, em um cotidiano sem a presença de Jesus.

Mas, um “estranho”, muito cedo, da margem do lago, atreve-se a provocá-los, fazendo uma pergunta onde mais doía: “moços, tendes alguma coisa para comer?”

Diante de um “não” ríspido, o Ressuscitado faz um convite ousado: “Lançai a rede à direita da barca e achareis”. É como se dissesse: mudem de atitude, pesquem de maneira diferente, busquem outros lugares, saiam da rotina, sejam criativos... Também para lançar a rede existem dois lados: um lado conhecido e rotineiro; e outro lado alternativo e novo. Revendo o passado, os discípulos reconheceram que estavam trabalhando no lado errado, determinados pelo peso de uma tradição que não os deixava crescer.

Saber escutar os outros sempre pode ser útil. O pior é a auto-suficiência que leva a acreditar que sabe tudo. Até o conselho de um desconhecido pode ser princípio do êxito.

A nova consciência transforma tudo. A vida ganha a plenitude da rede, torna-se vida em abundância.

Uma frugal refeição e a presença que se faz companhia foram a estratégia encontrada por Jesus para retomar o movimento de vida que fora bloqueado pela sua paixão; ao mesmo tempo, tornam-se o ambiente favorável para confirmar a missão dos seus mais íntimos, sobretudo de Pedro, que passara por uma profunda experiência de fracasso: negara a amizade com Jesus.

Há algumas brasas, que recordam aquela fogueira em torno da qual, alguns dias antes, o velho pescador jurou não conhecer Jesus, negando-o três vezes. Agora, junto ao fogo irmão, Jesus lavará com misericórdia a fraqueza de Pedro, transformando para sempre seu barro frágil em pedra fiel. 

O relato deste domingo (3º da Pásco) nos revela que é do meio do fracasso que pode brotar o impulso para uma adesão mais radical Àquele que no fracasso “desceu” ao mais “inferior” (“infernos”) da condição humana, Àquele que “se fez fracasso” para se fazer mais solidário com todos os fracassados da história.

Assim aconteceu com Pedro e os seus companheiros. Foi no contexto do fracasso (morte de Jesus, retorno à profissão de pescadores, pescaria infrutífera...) que Pedro foi perguntado três vezes sobre o “amor”.

Foi também nesse contexto que Pedro teve chance de se deixar reconstruir em sua identidade pela presença do Ressuscitado; também por três vezes expressa a radicalidade de seu amor à pessoa de Jesus Cristo, que se faz visível na identificação com Ele e na confirmação de sua missão: “apascenta minhas ovelhas”.

As perguntas de Jesus a Pedro nos revelam que a cura das feridas emocionais é, antes de tudo, um caminho novo que envolve afeto, amizade, amor.

Antes, um Pedro valente o suficiente para cortar a orelha do servo do Sumo Sacerdote com a espada, mas que perde a valentia em seguida, a ponto de negar conhecer o próprio Jesus.

O Pedro que emerge deste contato terapêutico com o Ressuscitado é um Pedro corajoso, decidido, mas também muito mais amoroso, humano, pronto para exercer o “ministério do cuidado” do rebanho, confiado pelo Ressuscitado. 

Texto bíblico:  Jo 21,1-19

Na oração: O encontro com o Ressuscitado possibilita re-ler a vida, ressignificar fatos, “reci-clar” perdas e feridas, “processar” fracassos..., para sair do “fatal ponto morto” e entrar no movimento expansi-vo da Vida.

- Diante das crises, feridas, fracassos..., qual é a sua tendência? Tentar deletá-los através do retorno ao cotidiano normótico (voltar a pescar)? Ou oportunidade para um despertar a outras dimensões da vida, mais ricas e ousadas?


Pe. Adroaldo Palaoro sj

https://centroloyola.org.br/revista/outras-palavras/espiritualidade/2565-a-ressurreicao-revela-sua-forca-transformadora-nos-fracassos

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