Total de visualizações de página

sábado, 20 de abril de 2019

QUEIMA DO JUDAS - Cyro de Mattos



Queima do Judas
            Cyro de Mattos*

            O sábado era o dia em que mais gostava na Semana Santa. Amanhecia alegre porque Jesus Cristo ressuscitava nesse dia. Já podia cantar marchinhas no banheiro lá em casa quando fosse escovar os dentes e tomar banho. Já podia beber leite no café da manhã e comer carne de gado, porco, carneiro ou galinha na refeição do almoço. Podia jogar bola no campinho da beira-rio, pescar, nadar e mergulhar no rio Cachoeira. Se quisesse, podia ir assistir ao último episódio do seriado de Flash Gordon na matinê do Cine Itabuna.

            A cidade voltava a ter sua vida normal, os comerciantes abriam as portas de suas lojas, as pessoas caminhavam na rua, ora apressadas, ora tranquilas. A feira atrás da estação do trem voltava a fazer sua festa, com vozes que não paravam de falar, as pessoas comprando tudo que podia se imaginar. O padre Nestor celebrava a missa das sete com entusiasmo na igreja de Santo Antônio cheia de fiéis. Depois que dava a bênção final, bradava que Cristo estava vivo, era o verdadeiro e único rei dos cristãos, reinou e sempre haveria de reinar, ressuscitava para o bem da vida, aleluia!

            A queima do Judas acontecia nos bairros populares. Para minha alegria e surpresa, dessa vez o Judas ia ser queimado lá na rua do Quartel Velho. Quem preparou o boneco de palha, cheio de bombas na cabeça, tronco e membros, foi seu Filó, o dono da casa que vendia ferro e alumínio na rua do comércio.  À noite, por volta das 19 horas, já havia muita gente diante do Judas pendurado no poste.

            Seu Filó começou a ler o testamento do Judas por volta das 20 horas.

A cabeça vai pra seu Ribeiro,
A dele nunca prestou mesmo,
A do burro vale mais dinheiro.
As mãos espertas e macias
Dou pro açougueiro Berilo
Roubar melhor no quilo,
Cada nádega é pra seu Augusto
Comer gostoso e soltar arroto,
As pernas finas e compridas
Deixo pro João Monteiro
Andar pra frente e ligeiro,
O chapéu grande de palha
É pro prefeito usar sem as galhas,
A calça velha, a camisa rasgada,
O paletó com a gravata preta
Vão vestir o Zeca Hemetério
Quando viajar pro cemitério,
Os sapatos furados sem cadarço
Dou pra Luís Bernardo calçar
Quando tiver são ou bêbado,
É da meninada minha barriga
Cheia de doces e lombriga,
O charutão é de seu Tonico,
Bom proveito quando for ao circo,
O dinheiro vai pro seu Aleixo
Gastar no jogo do bicho,
O par de meias com chulé
É pro padre Nestor fazer rapé,
O que precisa Maria Padeira
É um bocado de pele grossa
Pra ela fazer uma peneira,
Já uma parte da peitaça
É pra Dona Maria Graça,
Se ainda sobrar algum osso
É pra dona Joanísia botar
Na sopa de seu Lindolfo.

            Começava a ser queimado pelos pés, aí o que se ouvia eram os estouros de cada bomba arrancando os pedaços do traidor de Jesus Cristo. Eram lançados para todos os lados. Os estouros das bombas misturavam-se com gaiatices, sorrisos, gritaria de gente grande e pequena.

            Alguns dos moradores da rua achavam graça quando tomavam conhecimento de que tinham figurado como herdeiros no testamento do Judas. Outros ficavam aborrecidos, evitando se encontrar com seu Filó na rua, durante algumas semanas. Seu Ribeiro, o agente dos correios, exigiu que ele lhe pedisse desculpa, se ainda quisesse tê-lo como amigo e bom vizinho. O prefeito Nazário pensou até em processar seu Filó, velho companheiro de partido. Achava que sua fiel esposa Maria Santinha não merecia ser ofendida por tão grande mentira, mesmo que se tratasse de uma brincadeira inventada por seu Filó no testamento de Judas. Não levou a ideia adiante porque as eleições municipais iam ocorrer naquele ano. Queria ser reeleito como prefeito. E ele bem sabia que seu Filó era o seu melhor cabo eleitoral na cidade.  

*Cyro de Mattos 
é escritor de contos, crônicas, romance, poemas, literatura infantojuvenil, ensaio e memorialista. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia. Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Possui prêmios literários importantes. Também é editado no exterior.

* * *

O MONSTRUOSO CRIME PROFISSIONAL DE PILATOS


20 de abril de 2019
A infame condenação de Jesus à morte por crucifixão
Catolicismo, Nº 820, Abril/2019

Na obra Jesus Cristo, Vida, Paixão e Triunfo, do redentorista francês Pe. Augustin Berthe, selecionamos para uso de nossos leitores nesta Semana Santa trechos que narram a conspiração articulada para se condenar Nosso Senhor Jesus Cristo.

Na edição de Semana Santa de 2018 [capa acima], reproduzimos alguns trechos desse extraordinário livro, todos concernentes à prisão de Nosso Senhor no Horto das Oliveiras e ao início de seu arbitrário julgamento orquestrado pelo Sinédrio, que era o conciliábulo dos anciãos judeus, dirigido por Anás e Caifás. Não tinham esses líderes do povo judeu poder para promulgar sentença de morte, mas apenas de prisão e flagelação. Por isso enviaram o Divino Redentor ao então governador romano na Judeia, Pôncio Pilatos, a fim de ser condenado.

A narrativa do Pe. Berthe prossegue no artigo de capa deste número de Catolicismo, onde se ressalta a vacilação e insuficiência de coragem de Pilatos para enfrentar o populacho açulado pelos chefes do Sinédrio. Depois de várias tentativas inúteis para eximir-se de tamanha responsabilidade — a flagelação, a coroação de espinhos, a libertação de Barrabás — esse juiz fraco e subalterno consentiu em cometer o crime profissional mais monstruoso de toda a História, condenando Jesus à morte por crucifixão.

Nosso Divino Redentor continua sendo escarnecido hoje em todo o mundo. Seus ensinamentos são cada vez mais desprezados, a Santa Igreja por Ele instituída é humilhada e passa por um misterioso processo de autodemolição. Por obra de Satanás, muitos ousam zombar e blasfemar contra o Salvador. Nos recentes dias de carnaval, por exemplo, houve graves ocorrências de ultrajes a Ele, como a abjeta blasfêmia perpetrada pela Escola de Samba Gaviões da Fiel. Não se contentando com as suas abomináveis imoralidades exibidas publicamente, apresentou no sambódromo alguém no papel de Jesus Cristo sendo escarnecido, chutado, pisado e arrastado pelo chão por personagens fantasiados de demônios.

Assim a Paixão de Nosso Senhor, depois de 2.000 anos, se repete em todo o mundo à vista de todos. A fim de nos contrapormos a essa onda de incredulidade, ingratidão e ultrajes contra Deus, devemos seguir o exemplo da Santíssima Virgem, a Mãe Dolorosa, que durante toda a Paixão acompanhou os passos de seu Divino Filho e o consolou na Via Crucis. A Ela, que foi corredentora do gênero humano, supliquemos essa graça.

Na esperança de que essas considerações, bem como a leitura de nossa matéria de capa, sirvam de tema para meditação nesta Semana Santa, enviamos aos nossos leitores e às suas famílias os votos de Santa Páscoa, com especiais bênçãos de Nosso Senhor Jesus Cristo Ressurreto.

A íntegra da referida matéria encontra-se disponível em nosso site: www.catolicismo.com.br




* * *