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quinta-feira, 29 de setembro de 2016

DIANTE DA ETERNIDADE - Lourenço Sanches

Diante da Eternidade- Lourenço Sanches


        Diante do horizonte mais amplo de nossas vidas, face sua eternidade, se nos conscientizarmos mais do quão a existência física é curta, efêmera, certamente pensaremos melhor antes de jogar fora as oportunidades que nos são dadas para sermos felizes, e de também nos dedicarmos a promover a felicidade dos outros. Não sabemos por quanto tempo, sejam anos ou dias, poderemos desfrutar da convivência com nossos familiares, amigos, colegas de trabalho, enfim todas as pessoas que fazem parte de nosso circulo de relacionamento...

        Afinal, muitos de nós somos “chamados” por Deus ainda muito cedo, inesperadamente... E não podemos prever como e nem quando isso ocorrerá a cada um de nós... Alguns sequer chegam a nascer... vendo interromper sua efêmera jornada na matéria ainda no ventre materno... Alguns “nos deixam” antes mesmo de atingir a maturidade... Outros um pouco mais tarde... Dentre todos, felizmente, há os que conseguem bem aproveitar sua existência, acumulando em sua “bagagem” experiências enriquecedoras que os acompanharão no seu retorno à “Pátria Celeste”.

        De fato, não sabemos por quanto tempo ainda faremos parte do mundo visível, nem quando será chegada a “nossa hora da partida”, e tampouco o momento da despedida de ninguém! Em decorrência dessa nossa verdadeira “alienação” de consciência relativa a valorização que devemos conferir à esta nossa vida, aos seus objetivos maiores, e de nossa responsabilidade perante o Pai, nos despreocupamos e negligenciamos com os esforços e com a cuidadosa atenção que devemos ter... Para com nós mesmos... E para com todos que nos cercam ! Nos deixamos influenciar pelo nosso “orgulho ferido”, nos desequilibramos e permitimos ser emocionalmente afetados pela supervalorização que damos à insignificâncias,  naturais do cotidiano e do convívio entre as pessoas. E acabamos por nos aborrecer desnecessariamente.

        Muitas vezes nos calamos quando deveríamos falar e falamos além do necessário quando o recomendável seria permanecer em silêncio. Exigimos “compreensão” para com nossas “pequenas falhas”, mas nem sempre agimos amorosamente com o que pré-julgamos se constituir  nos “grandes erros” dos outros... Julgamos com a severidade que não queremos nos seja aplicada e exigimos total complacência para conosco!     Infelizmente essa é a “justiça” aceita pelo nosso atual nível de evolução. Diante dessa realidade a pautar nossos passos, desperdiçamos tempo por demais precioso. Às vezes nos permitimos a anos de desencontros e de “desamor”! Evitamos o contato, não oferecemos o aconchego, o carinho e o abraço fraterno que tanto nossa alma pede e que confessamos à intimidade de nosso travesseiro, tudo porque nosso orgulho e insensatez impedem essa aproximação...

        Não damos um beijo amoroso porque nossa altivez o impede murmurando que não estamos habituados a essas “demonstrações” e tampouco manifestamos nosso querer bem, nosso amor, porque achamos que “o outro” já deve saber o que nós sentimos. Perdemos a maravilhosa oportunidade de amar e “bloqueamos” o amor que tanto clamamos e que nos seria destinado, impedindo que ele chegue até nós! E assim deixamos transcorrer o tempo permanecendo taciturnos e “fechados” em nosso orgulho, enraizando na alma - cada vez mais - a nossa intransigência, nossa amargura para com os outros e, sem nos darmos conta, para conosco mesmo. No “mundo consumista” em que vivemos atualmente, reclamamos daquilo que não temos ou então achamos que não temos o suficiente. Cobramos muito... Dos outros... Da vida... E de nós mesmos! Desgastamos-nos com frustrações e angústias... Costumamos comparar nossas vidas com as daqueles que materialmente possuem mais do que nós. E se experimentássemos nos comparar com aqueles que possuem menos? Seguramente essa nova avaliação nos surpreenderia, fazendo uma enorme diferença!

        E com isso o tempo vai passando... Passamos pela vida sem ter aproveitado a “oportunidade” do aprendizado e da prática da Lei do Amor que Jesus nos ensinou. Subsistimos sofrendo e nos “arrastando” porque não “ousamos contrariar” nosso amor próprio... Até que, finalmente, “acordamos” e olhamos para trás; muitas vezes tarde demais para a presente vida material... E então nos perguntamos: E agora? Agora...   Já... hoje! Ainda é tempo de reconstruir, de dar o abraço amigo, de dizer uma palavra carinhosa, de agradecer a Deus por nossa vida, por tudo aquilo que nos cerca e pelo que a Misericórdia Divina nos disponibiliza para desfrutarmos, material e espiritualmente. Nunca se é velho demais, ou jovem demais, para se rever posições, para perdoar, para sermos perdoados e para amar; dizer uma palavra gentil ou fazer um gesto carinhoso. Não se permita ficar preso aos “tropeços” do passado. O que passou, passou e já produziu suficientes “danos”... Impeça que permaneça indefinidamente a causar estragos em sua vida! As experiências vividas serviram para nosso aprendizado. Agora é o momento de pensarmos no “daqui para frente”, em nosso futuro... E ele poderá ser do tamanho de nossos sonhos!

        Não tarde em buscar a reconciliação com seus “companheiros de jornada”, e principalmente para com sua própria essência, e aproveite... Ainda há tempo para exalar o amor fraterno ao seu derredor, harmonizar sua alma e voltar a sorrir...! Ainda há tempo de voltar-se para nosso Pai, o Deus de Amor que nos criou e agradecer pela vida, rogando pelas forças que nos faltam para fazermos, o quanto antes, a “Reforma Intima” necessária à nossa vida, desde já e para toda a eternidade! Reflita...  E não perca mais tempo!


Enviado por: " Gotas de Crystal" ppscrystal@yahoo.com.br


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POEMINHA HÍBRIDO - Efigênia Oliveira

Poeminha Híbrido 
Sou mulher artesanal

de faces, de fases!
Ora na penumbra, ora no lume.
Não importa, apenas sou.
Nas fases sou flor e sou espinho,
Nas faces trago sorrisos,
rubores, amores e temores. 
Quando nasci, um anjo sorridente,
disse tocando trombeta:
Vai menina, 
carregar teus fardos,
cumprir teus fados,
que hás de tecer
em sonora poesia. 

Efigênia Oliveira
Co-autora do livro VIOLETA LILÁS


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quarta-feira, 28 de setembro de 2016

SESSÃO DA SAUDADE: Para a AGRAL - Oscar Benício dos Santos

Para a AGRAL

Com a Sessão da Saudade
a Agral homenageou Jaó,
esse sentimento que me invade
e deixa-me tristonho e só. 

E agora na soledade
soturno de fazer dó,
imploro com sobriedade,
embora sabendo-a já, pó. 

Agradeço à Academia, 
q’é de Letras, mais filosofia,
lembrando as da Grécia Antiga.

Não se mensura o valor
pelo tempo, mas o teor
q’a Instituição abriga.



Oscar Benício Dos Santos
Salvador, 28, set, 2016

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terça-feira, 27 de setembro de 2016

PORTEIRO DO PUTEIRO: UMA LIÇÃO PARA TODOS!

Porteiro do puteiro!


Não havia no povoado pior emprego do que ‘porteiro da zona’.
Mas que outra coisa poderia fazer aquele homem?
O fato é que nunca tinha aprendido a ler nem escrever, não tinha nenhuma outra atividade ou ofício.
Um dia, entrou como gerente do puteiro um jovem cheio de ideias, criativo e empreendedor, que decidiu modernizar o estabelecimento.
Fez mudanças e chamou os funcionários para as novas instruções.
Ao porteiro disse:
– A partir de hoje, o senhor, além de ficar na portaria, vai preparar um relatório semanal onde registrará a quantidade de pessoas que entram e seus comentários e reclamações sobre os serviços.
– Eu adoraria fazer isso, senhor, balbuciou – Mas eu não sei ler nem escrever.
– Ah! Quanto eu sinto! Mas se é assim, já não poderá seguir trabalhando aqui.
– Mas senhor, não pode me despedir, eu trabalhei nisto a minha vida  inteira, não sei fazer outra coisa.
– Olhe, eu compreendo, mas não posso fazer nada pelo senhor. Vamos dar-lhe uma boa indenização e espero que encontre algo que fazer. Eu sinto muito e que tenha sorte.
Dito isso, deu meia volta e foi embora. O porteiro sentiu como se o mundo desmoronasse. Que fazer?
Lembrou que no prostíbulo, quando quebrava alguma cadeira ou mesa, ele a arrumava, com cuidado e carinho.
Pensou que esta poderia ser uma boa ocupação até conseguir um emprego.
Mas só contava com alguns pregos enferrujados e um alicate mal conservado.
Usaria o dinheiro da indenização para comprar uma caixa de ferramentas completa.
Como o povoado não tinha casa de ferragens, deveria viajar dois dias em uma mula para ir ao povoado mais próximo para realizar a compra. E assim fez.
No seu regresso, um vizinho bateu à sua porta:
– Venho perguntar se você tem um martelo para me emprestar.
– Sim, acabo de comprá-lo, mas eu preciso dele para trabalhar, já que…
– Bom, mas eu o devolverei amanhã bem cedo.
– Se é assim, está bem.
Na manhã seguinte, como havia prometido, o vizinho bateu à porta e disse:
– Olha, eu ainda preciso do martelo. Porque você não o vende para mim?
– Não, eu preciso dele para trabalhar e além do mais, a casa de ferragens  mais próxima está a dois dias de viagem, de mula.
– Façamos um trato – disse o vizinho.
Eu pagarei os dias de ida e volta, mais o preço do martelo, já que você está sem trabalho no momento. Que lhe parece?
Realmente, isto lhe daria trabalho por mais dois dias. Aceitou.
Voltou a montar na sua mula e viajou.
No seu regresso, outro vizinho o  esperava na porta de sua casa.
– Olá, vizinho. Você vendeu um martelo a nosso amigo.
Eu necessito de algumas ferramentas, estou disposto a pagar-lhe seus dias de viagem,  mais um pequeno lucro para que você as compre para mim, pois não disponho de tempo para viajar para fazer compras.
Que lhe parece?
O ex-porteiro abriu sua caixa de ferramentas e seu vizinho escolheu um alicate, uma chave de fenda, um martelo e uma talhadeira. Pagou e foi embora. E nosso amigo guardou as palavras que escutara: ‘não disponho de tempo para viajar para fazer compras’.
Se isto fosse certo, muita gente poderia necessitar que ele viajasse para trazer as ferramentas.
Na viagem seguinte, arriscou um pouco mais de dinheiro, trazendo mais ferramentas do que as que já havia  vendido.
De fato, poderia economizar algum tempo em viagens.
A notícia começou a  se espalhar pelo povoado e muitos, querendo economizar a viagem, faziam  encomendas.
Agora, como vendedor de ferramentas, uma vez por semana viajava e trazia o que precisavam seus clientes.
Com o tempo, alugou um galpão para estocar as ferramentas e alguns meses depois,  comprou uma vitrine e um balcão e transformou o galpão na primeira  loja de ferragens do povoado. Todos estavam contentes e compravam dele.
Já não viajava, os fabricantes lhe enviavam os pedidos. Ele era um bom cliente. Com o tempo, as pessoas dos povoados vizinhos preferiam comprar na sua loja de ferragens, a ter de gastar dias em viagens.
Um dia ele lembrou de um amigo seu que era torneiro e ferreiro e pensou que este poderia fabricar as cabeças dos martelos.
E logo, por que não, as chaves de fendas, os alicates, as talhadeiras, etc …
E após foram os pregos e os parafusos…
Em poucos anos, ele se transformou, com seu trabalho, em um rico e próspero fabricante de ferramentas.
Um dia decidiu doar uma escola ao povoado.
Nela, além de ler e escrever,  as crianças aprenderiam algum ofício.
No dia da inauguração da escola, o prefeito lhe entregou as chaves da cidade, o abraçou e disse:
– É com grande orgulho e gratidão que lhe pedimos que nos conceda a honra de colocar a sua assinatura na primeira página do livro de atas desta nova escola.
– A honra seria minha, disse o homem. Seria a coisa que mais me daria prazer, assinar o livro, mas eu não sei ler nem escrever, sou  analfabeto.
– O Senhor? disse incrédulo o prefeito. O senhor construiu um  império industrial sem saber ler nem escrever? Estou abismado. Eu pergunto:
– O que teria sido do senhor se soubesse ler e escrever?
– Isso eu posso responder, disse o homem com toda a calma: – Se eu soubesse ler e escrever… ainda seria o Porteiro do puteiro.
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Essa história é verídica, e refere-se a um grande industrial chamado… Valentin Tramontina, fundador das Indústrias Tramontina, que hoje tem 10 fábricas, 5.500 empregados, produz 24 milhões de unidades variadas por mês e exporta com marca própria para mais de 120 países – é a única empresa genuinamente brasileira nessa condição. A cidadezinha citada é Carlos Barbosa, e fica no interior do Rio Grande do Sul.
Geralmente as mudanças são vistas como adversidades.
As adversidades podem  ser bênçãos.
As crises estão cheias de oportunidades.
Se alguém lhe bloquear a porta, não gaste energia com o confronto, procure as janelas.
Lembre-se da sabedoria da água: ‘A água nunca discute com seus obstáculos, mas os contorna’.
Que a sua vida seja cheia de vitórias, não importa se são grandes ou pequenas, o importante é comemorar cada uma delas.
04/05/2012
Haroldo Wittitz: Editor and Publisher

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A BICHARADA - João de Paula

A Bicharada

Somos todos bichados e nada mais

 Quem gosta de ser chamado de bicho?
Quem gosta de ser chamado de bicha ?
Quem gosta de ser comparado a bicho ou a bicha ?
Quem quer ser animal mortal?
Quem quer fazer parte do mundo da bicharada?
Bicho, tu tá é doido, né ? Pior, ainda, é ser bicho feio, mau, horripilante, mutável, deformado e com o encantamento de ser perfeito.
Na verdade ninguém quer ser bicho ou bicha nenhuma...

Quer ser “tapuru”...
Quer ser verme...
Quer ser micróbio...
Quer ser lama...
Quer ser pó...

Ninguém quer ser algo que fede, que desmorona, que será extinto, que seja animal dócil, que seja animal selvagem, que seja mortal. 

Ninguém quer conhecer a verdade, conhecer nenhum motivo e o conhecimento do porquê nascemos, crescemos, vivemos: e que vamos deixar de viver neste nível e plano terrestre; e vamos retornar as nossas origens e essências.
Vivemos num eterno encantamento !

Vivemos num mundo em que a verdade dói!
Vivemos como animais!
Vivemos num mundo de vida e morte, mundo de sofrimento, conflito, doença, guerra, decepção, competição, ignorância, orgulho, inveja, imponência e poder, porque estamos encantados com o mundo que vemos e que temos incluso em nossa consciência.

Preferimos o encantamento do que o desencantamento !

Preferimos o falso elogio do que a verdade tal como ela é !
Preferimos o encanto e o encantamento de sermos chamados de anjos bons:
- Amados de Deus,
- Anjinhos perfeitos,
- Boa alma,
- Boa prosa,
- Bom cristão,
- Boa criatura e uma pessoa imortal pelos feitos que fazemos ao invés de chegarmos à razão de que somos animais racionais e mortais, que retornaremos de onde viemos com toda a transformação do eletro magnético de que somos constituídos: bons e maus.
Precisamos ser bons e precisamos conhecer a cultura racional, para voltarmos ao mundo dos viventes puros, limpos e cristalinos em outro astral, em outra planície. Por isso, tenho dito que a vida é algo mais do que aquilo que os nossos olhos vêem.

Desejos de poder e riqueza, poder e estatus, desejos de ser importante, uns melhores do que os outros, desejos de ser o primeiro, desejos de ser o melhor são conceitos de vida terena; conceitos, desejos e procedimentos que ultrapassam as virtudes de ser singelo e puro. sem as ambições e as maldades que residem em nossa formação.

Na verdade, hoje ou amanhã, retornaremos as nossas origens, as nossas essenciais ao mundo de onde viemos.

Quem gosta de ser chamado de bicho?

Quem gosta de ser chamado de bicha ?
Quem gosta de ser comparado a bicho ou a bicha ?
Quem quer ser animal mortal?
Quem quer fazer parte do mundo da bicharada?
Bicho, tu tá é doido, né ? Pior, ainda, é ser bicho feio, mau, horripilante, mutável, deformado e com o encantamento de ser perfeito.

João Batista de Paula 
Escritor e Jornalista

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SESSÃO DE SAUDADE em homenagem à acadêmica Jasmínea Benício dos Santos Midlej


ACADEMIA GRAPIÚNA DE LETRAS - AGRAL

SESSÃO DE SAUDADE em homenagem à acadêmica Jasmínea Benício dos Santos Midlej


“Alma minha gentil, que te partiste
tão cedo desta vida, descontente,
repousa lá no céu eternamente.
E viva eu cá na terra sempre triste!!”
(Luiz de Camões)
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JASMÍNEA BENÍCIO DOS SANTOS MIDLEJ, poetisa, nasceu no dia 25 de março de 1922 e faleceu no dia 03 de julho de 2016
Quinta dos 11 filhos do casal Francisco Benício e dona Loura, Jaó nasceu em Itabuna. Segundo relato de seu pai era uma menina muito linda, razão pela qual ele, inspirado, denominou-a Jasmínea “de jasmim”. Seus irmãos mais velhos foram Marília, Sílvio, Franlaide e Adélcio. Depois vieram Dirceu, Francisco, Pio, Itazil, Nélia e Oscar.
Jasmínea foi Formada em Secretariado, também formou-se em Educação Musical. Tocava Piano. Na década de 1950 fez parte da Orquestra Sinfônica da Bahia onde tocava violino. Jasmínea é membro de uma família de literatos: seu pai, Cel. Chico Benício, desbravador da região foi um grande historiador, com publicações póstumas, sua irmã Marília publicou 3 livros de crônicas, novelas e contos, seu irmão Oscar contou em versos parnasianos a saga do cacau no livro CACAU EM VERSOS lançado pela Editus, e seu irmão Itazil figurou no quadro de membros efetivos da Academia de Letras da Bahia-ALB).
Jasmínea, teve cinco livros publicados: “A vida cantada de Francisco Benício”, “Minha Rosa Vermelha”, “Devaneios e Saudade”, “Senhoras de Itabuna que se destacaram socialmente” e  “Personagens Populares que marcaram o dia a dia de Itabuna”.
Foi membro efetivo da Academia Grapiúna de Letras (AGRAL) e ocupou com muita dignidade a Cadeira 24, que tem como patrono Jorge Emílio Medauar.
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Eu me tornei amiga da Jaó a partir de 2010 quando criei o site ITABUNA CENTENÁRIA e procurava na Internet a autora do livro de crônicas ‘CARROSSEL’, Marília Benício dos Santos; alguém me deu uma dica, eu telefonei, marquei uma visita e fui à casa da escritora situada à Rua Barão do Rio Branco. Não foi necessário tocar a campainha; a porta da casa construída pelo pioneiro de Itabuna Francisco Benício dos Santos já estava aberta a nossa espera. Uma mocinha simpática anunciou: dona  Jaó, temos  visitas. Em poucos segundos surgiu à nossa frente duas belas e finas senhoras. Minha acompanhante  que já as conhecia, pois há alguns anos havia morado na mesma rua disse-me discretamente: a mais velha é Marília, a morena é Jasmínea!
Gente, enfim eu estava frente a frente com a minha escritora predileta, Marília! – minha escritora predileta, que  eu nem ao menos sabia se ainda era viva.
Eu a abracei e ela com naturalidade retribuiu esse abraço. Parecia já me conhecer. Jasmínea, sua irmã nos saudou com  educação e deferência de grande anfitriã. Mas eu não me demorei falando com Jaó, que logo encetou uma conversa animada com minha acompanhante a quem já conhecia. Bom pra mim.
Meu interesse ali era Marília e ela me olhava suavemente por trás de óculos enormes. Aquele cabelo cinzento, curto, ralo, bem penteado... Em menos de dez minutos acho que abracei Marília umas cinco vezes e ela aceitava o meu gesto sem estranhar como seria natural. Quebrando o encanto, Jaó nos ofereceu um chá. Marilia subiu as escadas nos convidou e nós a seguimos; Jaó subiu logo atrás com sua xícara fumegante. Notamos que a extremidade de cada degrau  era  ornado com uma peça antiga (campainha, vasos de ferro ou bronze, até um estribo de montaria em metal). Lá em cima havia uma mistura bem organizada do antigo e do moderno, tudo muito limpo e sem aquela escuridão que sempre existe em casas antigas. Na verdade o interior da casa das Benicio dos Santos é bem moderno com toques do passado. Piso das salas e escadas em mármore, janelas tipo basculantes em alumínio. Somente algumas peças da mobília, os estreitos corredores e a fachada fazem lembrar uma construção antiga. Sentamo-nos defronte a uma estante meio desarrumada, sinal que os livros ali não estavam só como adorno. Conversamos sobre livros e autores, as irmãs responderam todas as nossas perguntas e serviram um lanche.
 Hoje eu moro aqui com Jaó, porque é necessário, só temos uma à outra, disse-me Marília.
E Jaó passou a conversar comigo. Contou-me que a irmã Marilia desejava muito  ir para um convento, ser freira, mas teve seu plano frustrado pelo pai que a chamou e perguntou-lhe: filha, o que foi que eu te fiz? Por que queres nos deixar, ir-se esconder num convento? Poderás servir a Deus aqui mesmo, do nosso lado. E sua irmã Marília não mais tocou no assunto...
Jaó mostrou-me o seu álbum do casamento com Maurício Manuel Midlej, o grande amor de sua vida, disse-me que ele se foi muito cedo. Eu percebia a emoção daquela mulher a cada página do  álbum que eu virava. Ela casou-se em 1968, usando um vestido curto, branco, com gola rolê, trazia por véu uma mantilha florida, branca e nas mãos um rosário, tinha os cabelos num corte Chanel, pouco acima dos ombros; explicou-me que se casara nesta simplicidade devido ao sentimento pelo falecimento de sua mãe há um ano.
Antes de descermos as escadas, Jasmínea nos mostrou o restante da parte superior daquela bela casa. Quartos com camas enormes de casal em ferro pintado de branco, tendo cabeceiras e pés quase na mesma altura (aproximadamente 80 cm) e toda enfeitada de flores trabalhadas também em ferro, uma obra de arte. Disse-me Jaó que essa cama pertenceu aos seus avós; a cama do segundo quarto tinha as mesmas características, exceto as rosas. Esta cama foi dos meus pais, disse-me.
Marília deu-me seus dois últimos livros de crônicas e novelas e Jasmínea presenteou-me com os livros MINHA ROSA VERMEHA e DEVANEIOS E SAUDADE, com dedicatórias e autógrafos.
O Livro “Devaneios e Saudade” é dedicado ao falecido esposo, Maurício, a quem se refere carinhosamente como  ‘meu Gringuinho’. É uma riqueza em ternura e tem dois prefaciadores de peso. Abro aqui um parêntese para citar fragmentos dos prefácios:
“Quão belo e agradável seria ao habitante deste mundo cruel e avaro de pureza sentir, vivenciar, ao menos nas cercanias, o dulcíssimo sentimento de Jasmínea e Maurício, pois,  certamente não auferiria os abrolhos da cizânia mas o cadinho paradigmático do lídimo Amor Inefável...”.
Carlos Eduardo Lima Passos da Silva
Da Academia de Letras de Ilhéus
...
“O atraente na poesia de Jasmínea não está somente na técnica da redação, no estilo e na forma, mas, principalmente, na suavidade da mensagem remanescente da saudade e do amor, refletindo o lado plangente do ser humano, os momentos em que a alma se transparece da pureza original...”.
Ariston Caldas
Também foram prefaciadores dos demais livros da Jaó os jornalistas Ottoni Silva e Ramiro Aquino e o historiador e pesquisador professor João Cordeiro de Andrade.
(fecho o parêntese)

Assim eu e Jaó nos tornamos amigas/irmãs.
Eu sempre a visitava e saíamos para um sorvete no Danúbio,  uma tapioca no Café Pomar ou uma torta no Shopping Jequitibá. Levei-a numa loja e compramos seu Notebook, lhe ensinei o básico em computação e ela criou alguns arquivos com suas poesias, e andou se comunicando com amigos e parentes pelo Facebook, porém não se entusiasmou tanto; Jaó gostava mesmo era de jogar buraco com as amigas, sorvendo o delicioso chá preparado por ‘dona Tidinha’ a serviçal de muitos anos a quem considerava sua grande amiga; Jaó gostava e  preferia a conversa ao vivo, olho no olho. Pena que os amigos dispunham de tão pouco tempo...
Ela herdou do pai o amor e devoção por Nossa Senhora do Rosário e todos os anos celebrava o “mês de Maria” na sua casa.
Sempre me convidava para um almoço, reunia as amigas, algumas, amigas de juventude, muitas, Senhoras de Caridade como ela;  Todas as tardes recitava o Terço do Rosário com a irmã e eu sempre que podia as acompanhava. Nas novenas do Natal ela coordenava, puxava os cânticos e dedicava a noite à família de alguma das amigas; nesses eventos sua casa estava sempre cheia. No seu aniversário, sempre tinha um bolo para a gente cantar ‘parabéns pra você’... E Jaó era feliz.
Quando sua irmã adoeceu, Jaó ficou menos alegre, mas passava a maior parte do dia falando com ela, orientando os cuidadores, dissimulando a dor de não mais contar com a mana que vivia armando estripulias para provocá-la. Permaneceu de pé, ingente guerreira, quando Marília morreu.
Valente, ela não se entregou à depressão quando foi diagnosticada com câncer; fez cirurgia, voltou para casa animada e viveu na esperança do milagre; ela que não teve filhos amava seus sobrinhos, principalmente a sobrinha/filha Luciana, que reside em São Paulo e pelo menos duas vezes por ano a levava para um passeio por lá. Também gostava de passar temporadas na fazenda do seu irmão Oscar. Amava os amigos e cobrava-lhes visitas.
Dez dias antes do São João 2016, tendo conhecimento de que Jaó não estava bem, meu coração me disse que eu deveria visitá-la e fui com duas amigas à fazenda onde ela se encontrava. Foi uma festa, ela nos esperava e ficou muito alegre; tiramos muitas fotos; Jaó gostava de tirar fotos. No final da tarde nos despedimos de Jasmínea que descansava na cama. Quando já saíamos da casa eis que ela aparece na porta, sorrindo. Amparada pelo irmão e pela cuidadora caminhou em nossa direção, fronte erguida, sem pronunciar palavra, apenas sorria.
E eu tirei a última foto de Jaó e senti que não mais  veria a minha amiga nesta vida...
17 dias depois Jasmínea Benício dos Santos Midlej repousou do cansaço deste mundo cercada pelas buganvílias da Fazenda Guanabara.

Hoje, a Academia Grapiúna de Letras –AGRAL  dedica esta “sessão de saudade” a você, Jasmínea Benício dos Santos Midlej.
Descanse em paz, Jaó!
 Eglê S. Machado
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SAUDADE

Como esquecer este grande amor,
Se ele transformou todo o meu ser?!...
Tudo que me cerca traz-me uma grande dor,
A dor da saudade que em vão procuro esquecer!...
Olho a natureza e vejo só você!
Lendo um romance ou biografia,
Ouvindo uma linda música, tudo me extasia,
Pois meu pensamento está sempre em você!...
A música, os livros, a natureza, tudo enfim,
Traz-me uma grande saudade,
Há uma saudade imensa dentro de mim!!!

Jasmínea Benício Midlej
Salvador, 13/11/1949.


* * *

(AGRAL - Reunião Ordinária, dia 24 mês Agoosto 2016)



segunda-feira, 26 de setembro de 2016

CAMINHADA... - Wagner Albertsson


CAMINHADA...

SE SOUBÉSSEMOS QUE
A VIDA É UM LIVRO VAZIO,
PENSARÍAMOS DUAS VEZES
ANTES DE INICIARMOS
A JORNADA.

TODO PASSO  DADO
TORNA-SE UMA SENTENÇA
OU UMA ABSOLVIÇÃO
NO CÓDIGO PENAL DE DEUS.

MAS NÃO É JUSTO
VIVERMOS NESTE CAMPO MINADO
CHAMADO DE  MUNDO,
ASSUSTADO PELAS TOPADAS
E TROMBADAS DA CAMINHADA.

A PERFEIÇÃO
PERTENCE AO MESTRE.
A NÓS, SÓ A VONTADE
DE SER FELIZ.



WAGNER ALBERTSSON

* * *

DA PREGUIÇA MENTAL À LOUCURA- Gregorio Vivanco Lopes



Da preguiça mental à loucura 

  

   Existem dois tipos de loucos. Um é o pobre coitado que, por uma deformidade cerebral, congênita ou adquirida, ou mesmo pela idade avançada, perde a capacidade de se autogovernar. Merece ele nossa compaixão e ajuda em toda medida do possível.
             Mas há outro tipo de louco, este culposo. É aquele que, sem padecer de nenhuma anomalia cerebral, viciou-se em agir de modo contrário à razão e ao bom senso. Peca contra a sabedoria, em geral porque se entregou a alguma paixão desvairada que o tiraniza e lhe impede o reto agir e pensar.
           As subespécies deste tipo de loucura são infindas. Exemplifiquemos.
           Logo se poderá pensar na paixão da sensualidade, com sua variante romântica, que cega o indivíduo e o faz transgredir todas as normas da prudência e do bom senso, e por vezes também da justiça, podendo facilmente chegar até o crime. Tudo para satisfazer um impulso irracional que o escraviza e arrasta. É um louco.
          Mas a sensualidade é apenas uma das paixões que enlouquecem o homem. Poderíamos falar da ambição, do orgulho, da inveja etc.
            Pode parecer surpreendente, mas talvez a preguiça, sobretudo a mental, seja a paixão mais frequente em produzir mentecaptos. Habituando-se a não fazer esforço, a não querer enfrentar o ambiente hostil que o rodeia, a nunca lutar — “dá trabalho”… “dá preocupação”… “exige empenho”… “não é comigo”… — a pessoa acaba ficando meio abobada e se deixa levar pela televisão, pela moda, pela opinião dos outros, como uma folha seca que o vento carrega para qualquer lado e acaba por ser pisada como inútil e desprezível. É um néscio, um idiota, um imbecil com o qual não se pode contar para nada de sério ou racional.
            A preguiça mental costuma exercer forte tirania em relação aos seus escravos, a ponto de estes preferirem qualquer coisa a terem que lutar ou fazer algum esforço.   Disseram-me que o colesterol é produzido por gorduras que aderem às faces internas das veias e impedem o sangue de circular normalmente. A imagem me é muito cômoda para exprimir esse “engorduramento” das veias do pensamento, que impede a irrigação do cérebro pelo sangue vivo e borbulhante da reflexão bem feita, da observação precisa, da análise objetiva da realidade. E, tudo isso, porque pensar pode levar a conclusões desagradáveis, pode ser um convite à luta, ao esforço, em suma, obriga a sair de entre os lençóis mentalmente “engordurados” da preguiça para o campo de batalha. Se as evidências furam os olhos, o melhor é fechá-los para não ver e não ter que sair das prazerosas comodidades interiores da moleza.
          Esse gosto mórbido da inação mental explica que tenha sido possível aos arautos da esquerda ir introduzindo no convívio social das nações, sem oposição proporcionada, as maiores aberrações intelectuais, como a Ideologia de     Gênero, a generalização da matança de inocentes no ventre materno, os horrores da arte moderna; e, na Igreja, a contestação de doutrinas evidentes, a demolição de cerimônias ancestrais belíssimas, de costumes tocantes. São máquinas de opinião pública que vêm despejando sobre as pessoas esses e outros horrores, como certos tubos enormes despejam asfalto numa via de terra para se constituir ali uma estrada, enquanto o “louco” olha para isso com olhar desagradado, mas aparvalhado.
            Alguém dirá: mas muitas pessoas não estiveram de acordo com essas novidades malsãs!
         
         O problema é exatamente esse! A grande maioria dos que não estavam de acordo não quis lutar, limitou-se a um choramingo, a exprimir um desagrado. Preferia que não houvesse essas mudanças, mas deixar suas comodidades interiores para entrar no campo de batalha ideológico, muitas vezes psicológico, isso não! Ante tal omissão, as muralhas da civilização cristã foram sendo derrubadas uma a uma, sem que os habitantes da cidade de Deus se levantassem em denodadamente para impedir a entrada dos inimigos. Hoje estes dominam.
             Tudo isso é verdade, pode-se ponderar, mas agora já é tarde, o mundo está entregue e muitos pastores se transformaram em lobos. O que fazer?
            Nossa Senhora prometeu em Fátima que ao final de todo esse processo de horror e de pecado o seu Coração Imaculado triunfaria. Comecemos nós a rezar e a lutar para que, quando esse triunfo se der, ele encontre almas prontas a recebê-lo e a entusiasmar-se com ele. E não almas modorrentas que só servem como palha para o fogo.

      Triunfarão com a Santíssima Virgem aqueles que agora, in extremis, se levantarem e lutarem por Ela. Surrexerunt fili ejus, et beatissimam praedicaverunt (Prov 31,28) — Seus filhos se levantaram e A proclamaram bem-aventurada.

                      Gregorio Vivanco Lopes é advogado e colaborador da ABIM





Fonte: Agência Boa Imprensa – (ABIM)

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