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sexta-feira, 9 de julho de 2021

PEDAÇOS DE VIDA JAMAIS DESVENDADOS - Ignácio de Loyola Brandão

 


No final dos anos 1950, em Araraquara, Mister Pimenta, professor de inglês, teve um gesto generoso. Toda terça-feira à noite, ele dava uma aula gratuita de reforço de inglês. Classe lotada. Por semanas, lá estive, por interesse na língua e em uma loirinha, a Gilda. O ritual da paquera, na época chamado flerte, era longo, exigia paciência. Em geral, começava no footing, com as mulheres caminhando na calçada entre os dois cinemas e os homens parados no meio-fio. Olha que olha, olha que olha, até que o olhar era correspondido. O footing acontecia aos sábados e domingos. Primeira semana, segunda, terceira, um encontro era marcado e aí dependia de você. As aulas de terça-feira acabavam funcionando como um dia a mais para nos favorecer. Uma noite, consegui descer a escada ao lado de Gilda. Emocionado, sabia que aquela era a chance. Conversamos um pouco, elas tinham horário para regressar à casa, 10 da noite. A certa altura, consegui encaixar a frase, “gostaria de namorar contigo, parece que a gente vem se entendendo”. Ela pareceu constrangida: “Tem um problema, meu pai acha que é cedo para eu ter namorado. Também acho. Além disso, meu irmão disse que só vou namorar quem ele aprovar. Não me leve a mal”. Insisti – só eu sei o quanto me custou – e ela ficou firme: “Não”.

Na quinta-feira, fui ao cinema, já tinha começado a fazer crítica no jornal. Sentei-me atrás de três amigas de Gilda. Elas conversavam e então uma delas chamada Elide disse uma coisa tenebrosa. Nunca mais esqueci esse nome, Elide. Ela se virou para as amigas: “Sabem que o Ignácio quis namorar a Gilda? E ela disse ‘não, você é muito feio’. Disse na cara dele. E ela tem razão: quem vai namorá-lo?”. Não ouvi mais nada. Ser feio era estigma. Tempos difíceis, moralismo, severidade, pegava-se na mão depois de dois meses de namoro. Aliás, para terem ideia de como este país era, na década de 1970, quando fui à Primeira Feira Literária de Bento Gonçalves, Rio Grande do Sul, fiquei surpreso com o número de garotas que circulavam à noite. Um sucesso. Os livros eram atraentes? “Não”, me disse uma delas, “é que, com a Feira, nossos pais e irmãos nos deixam sair durante a semana”.

Voltando à Gilda, traumatizado, porque aos 16 anos tudo é drama, me recolhi, nunca mais me aproximei de nenhuma jovem. Amei várias, jamais souberam. Enfiei-me nos livros, no jornal, no cinema, queria ir embora, não ficar mais ali. Vim, fiz minha vida, esqueci. Contei rapidamente este episódio na Aula Magna que dei em minha cidade há duas semanas. A imagem de Gilda tinha voltado num repente. Indaguei da plateia (online): e se ela tivesse dito sim, eu estaria aqui, como estou, a dar esta aula como Doutor Honoris Causa pela Unesp, ou estaria a assistir à aula de um outro? O ‘se’ não existe, mas a fantasia sim, afinal sou ficcionista. A esta Gilda que me disse não, dediquei um livro, Dentes ao Sol. Não sei se ela viu, ficou sabendo. Teria ela dito este ‘não’ arrasador? Nem sei se está viva, sabe quem sou, o que faço. Será que se lembra do ‘não’?

Por que há de se lembrar? O assunto nada significava para ela. Doce e instigante mistério. Fui mais longe: e se ela estiver aqui neste auditório, viva, ou em casa me assistindo digamos, ao lado da filha? E esta se vira para a mãe e pergunta: “Veja só! Quem terá sido essa mulher que o rejeitou? E se tivesse sido você, mãe? Teria dito sim? Tivesse dito, ele hoje seria meu pai?”. Fascinantes estes rápidos recortes da vida jamais desvendados. Literatura funciona assim. Ou imaginei este ‘não’ e o incluí como realidade? A memória tem sua ironia, uma certa dose de crueldade, diz meu primo José Castelli, filósofo certeiro em tardes invernais.

O Estado de S. Paulo, 02/07/2021

 

https://www.academia.org.br/artigos/pedacos-de-vida-jamais-desvendados

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Ignácio de Loyola Brandão - Décimo ocupante da Cadeira 11 da ABL, eleito em 14 de março de 2019 na sucessão do Acadêmico Helio Jaguaribe.

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quinta-feira, 8 de julho de 2021

O CONHECIMENTO DE SI PRÓPRIO – Gibran Khalil Gibran


                     O conhecimento de si próprio

 

          E um homem disse: “Fala-nos do Conhecimento de Si Próprio”.

          E ele respondeu, dizendo:

          “Vosso coração conhece em silêncio os segredos dos dias e das noites.

          Mas vossos ouvidos anseiam por ouvir o que vosso coração sabe.

          Desejais conhecer em palavras aquilo que sempre conhecestes em pensamento.

          Quereis tocar com os dedos o corpo nu de vossos sonhos.

          E é bom que o desejeis.

          A fonte secreta de vossa alma precisa brotar e correr, murmurando, para o mar;

          E o tesouro de vossas profundezas ilimitadas precisa revelar-se a vossos olhos.

          Mas não useis balanças para pesar vossos tesouros desconhecidos;

          E não procureis explorar as profundidades de vosso conhecimento com uma vara ou uma sonda.

          Porque o Eu é um mar sem limites e sem medidas.

 

          Não digais: ‘Encontrei a verdade’. Dizei de preferência: ‘Encontrei uma verdade’.

          Não digais: ‘Encontrei o caminho da alma’. Dizei de preferência: ‘Encontrei a alma andando em meu caminho’.

          Porque a alma anda por todos os caminhos.

          A alma não marcha numa linha reta nem cresce como um caniço.

          A alma desabrocha, tal um lótus de inúmeras pétalas.”

 

(O PROFETA)

Gibran Khalil Gibran

 

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VIDA E OBRA DE GIBRAN (7)


          1931- Gibran morre em 10 de abril, no Hospital São Vicente, em Nova Iorque. Ele, que escrevera tantas páginas profundas sobre a vida e a morte, agoniza entre gemidos confusos, no decorrer de uma crise pulmonar que o deixara inconsciente.

          O adeus que lhe proporcionaram os Estados Unidos foi grandioso e comovente, e em 21 de agosto de 1931, os restos mortais do maior e mais célebre escritor e pintor do Mundo Árabe contemporâneo, chegaram a Beirute, e foram recebidos e acompanhados até Bicharre com manifestações oficiais e populares de proporções inusitadas.

          Foi enterrado na vertente de uma colina de silêncio e de beleza, num velho convento cavado na rocha, onde Gibran sonhava ir viver como anacoreta seus últimos anos.

          Seu túmulo transformou-se num lugar de peregrinação. Ao lado, o Comitê Nacional de Gibran edificou um museu onde são expostos algumas das suas belas telas e os seus livros em todas as línguas. Em cima do túmulo, esta simples inscrição: “Aqui entre nós, dorme Gibran”.

          Mas lá, na verdade, dorme somente seu corpo. Sua alma, difundida nos seus livros, serve de guia a milhões de leitores na mais fascinante de todas as viagens: a que leva o homem das trevas do egoísmo e da cegueira ao esplendor do dom de si e da compreensão.

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JAQUELINE - Cyro de Mattos

 


                                                Jaqueline

 Cyro de Mattos

  

A princesa e o príncipe Alfredo,

O homem e a mulher tantas vezes,

A amiga e o amigo nas vestes do dia,

A mãe e o pai desse filho, ó flor,

Abençoada no ventre do eterno.

O olho dela na imagem dele,

A foto do beijo mais completo.

E a chegada desse perfume

No lado de lá, agora no jardim

Do nosso bem-amado Galileu 

Para trescalar no ar sublime, 

Que me sabe como estou,

O coração a bater em saudade.

Custa-me dizer como prossigo

Dentro dessa hora inevitável,

Que me acena na distância

E quer fazer meu peito triste.  

 

(Dedico o poema Jaqueline ao poeta

 amigo Alfredo Pérez Alencart.

 Itabuna, Bahia-Brasil, 4.6.2021)

 

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Cyro de Mattos -Escritor e poeta. Primeiro Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia, Pen Clube do Brasil, Academia de Letras de Ilhéus e Academia de Letras de Itabuna. Autor premiado no Brasil, Portugal, Itália e México.

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terça-feira, 6 de julho de 2021

QUEM SUBSISTIRÁ AO DIA DA IRA? - Padre David Francisquini


Quem Subsistirá Ao Dia da Ira?

 Padre David Francisquini*


Tratei recentemente da escalada de corrupção moral envolvendo crianças, tendo prometido voltar ao assunto, tamanha a sua gravidade. Infelizmente, se na estrutura familiar ainda perduram alguns valores morais, estes não remontam aos princípios, mas a meros atavismos, muito mais fáceis de serem tragados pela maré montante da Revolução gnóstica e igualitária.

Tornou-se rotina, por exemplo, pessoas provenientes de casamentos desfeitos realizarem uma ou mais uniões, agravando ainda mais a precariedade da estrutura que muitos ainda teimam em chamar de “familiar”, na medida em que trazem filhos de uma união para conviver com outros que não são seus genitores ou irmãos.

Como não perceber que esse arranjo dito familiar resulta da falta de princípios e de convicções religiosas que constituíam até um tempo não muito remoto a salvaguarda do casamento, mas igualmente da instituição da família? 

A união entre um homem e uma mulher que desejassem constituir família se dava num Cartório de Registro Civil (não havia ainda a lei do divórcio), mas era, sobretudo, sacramentado no Altar, onde os nubentes juravam diante de Deus fidelidade mútua — até que a morte os separasse — e a educação da prole. 

O casamento indissolúvel, consubstanciado num Sacramento da Santa Igreja, redunda no bem dos cônjuges, dos filhos e da sociedade. Foi ensinado nos santos evangelhos com validade para todos os tempos e lugares, não devendo o homem separar aquilo que Deus uniu.  Este é um arcabouço sólido para se edificar a união entre o homem e a mulher.

No entanto, na medida em que a Revolução anticristã prossegue seu processo multissecular para implantar todo um estado de coisas avesso à ordem — que é a paz de Cristo no Reino de Cristo —, ela vai derrubando os obstáculos com os quais se depara, sendo o principal deles a família, um dos pilares da civilização cristã.

Aqui no Brasil, a ministra Damares Alves vem denunciando reiteradas vezes o tráfico de crianças para os piores fins, inclusive para serem abusadas sexualmente, com todas as sequelas que tais aberrações acarretam.

Se Deus julga e sentencia quem escandaliza e desvia uma criança que para ele seria melhor uma mó ao pescoço e ser lançado nas profundezas do mar, qual é a ameaça que pesa sobre os articuladores que se utilizam das crianças como instrumentos de seus planos para eliminar a ideia de Deus da face da Terra?

Outro reflexo dos dias tenebrosos em que vivemos é o Projeto de Lei, 3.369/2015, do comunista Orlando Silva (PCdoB), conhecido como Estatuto das Famílias do Século XXI, que na opinião de publicações e pessoas autorizadas visa à legalização do incesto e da união entre duas ou mais pessoas.

Como sacerdote de Nosso Senhor Jesus Cristo, eu tenho o dever de ensinar os fiéis a cuidar de suas almas e a se santificar pela frequência habitual dos sacramentos. O ensinamento de hoje é apontar nas Escrituras Sagradas algumas passagens sobre a ira de Deus e os castigos infligidos por Ele àqueles que violam a sua santa Lei.

Deus fala em deixar a cidade em ruínas, desolada e arrasados os seus santuários, sem ofertas nem sacrifícios, a ponto de deixar as pessoas perplexas quando os inimigos ocuparem seus países e habitações, como aconteceu nas nações dominadas pelos regimes ditatoriais e ateus.

O Senhor fala em propagar entre as nações a espada, a desolação e a ruína de suas cidades. Recairá sobre elas o castigo de repente, como a águia se atira sobre a presa, porque rejeitaram obedecer aos decretos de sua santa Lei:

“Porque é chegado o grande dia de sua ira, e quem subsistirá?” (Ap. 6, 17).

“Da sua boca saía uma espada afiada para com ela ferir as nações; ele as regerá com uma vara de ferro, e ele é o que pisa o lagar do vinho do furor da ira do Deus Todo-poderoso” (Ap. 19, 15).

“Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira que vos ameaça? Fazei, portanto, frutos dignos de penitência […] porque o machado já está posto à raiz das árvores. Toda árvore que não dá bom fruto, será cortada e lançada ao fogo” (Lc 3. 7 e ss.).

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* Sacerdote da Igreja do Imaculado Coração de Maria – Cardoso Moreira (RJ).

https://www.abim.inf.br/quem-subsistira-ao-dia-da-ira/

 

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sábado, 3 de julho de 2021

ITABUNA CENTENÁRIA UM SONETO: Luiz Gonzaga Dias – Serenata

 


Serenata

Luiz Gonzaga Dias

 

Na paz da noite, aos pálidos lampejos,

Da luz é o meu astro um boêmio em farra,

Que põe notas de angústia nos solfejos,

E madrigais nas cordas da guitarra.

 

Em vibração de mágoas e desejos,

Corta o silêncio como cimitarra...

Cantando como uma ave ou a cigarra,

Beijo da lua os luminosos beijos.

 

Tangendo a lira em repetidos trenos,

Canto ao luar em devaneios plenos.

Minha canção apaixonada e mansa.

 

É que a lua foi sempre a minha amiga

Inspiradora e namorada antiga,

Desde os tempos longínquos de criança!

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“Um momento de arte e descanso, não faz mal ao corpo ou ao espírito exausto.

            Se o leitor não acha que ler poesia é perder tempo, leia um pouco estes versos.

            Ao contrário, desculpe, e passe adiante.

            De qualquer modo, queira aceitar os agradecimentos do autor.

 São Felix, Estado da Bahia, Julho de 1962.

Luiz Gonzaga Dias”

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CREIO EM DEUS


Imagem de São Tomé venerada em San

Giovanni di Laterano (Roma). Obra do escultor

francês Pierre Legros (1666 -1719), pertenceu à

escola barroca de escultura [Foto PRC]


O mundo inteiro ficou suspenso ao dedo de São Tomé. Entretanto, muitos em nossos dias veem e não creem. Uma obstinada incredulidade!

 

Neste dia 3 de julho a Santa Igreja celebra o Apóstolo São Tomé. Segundo a tradição, ele pregou o Evangelho na Armênia, na Média, na Pérsia e na Índia, onde foi martirizado. Afirma também que esteve na América, inclusive no Brasil — onde os índios diziam que, antes da chegada dos portugueses, passou por aqui para lhes ensinar a Religião o “Pai Zumé”.

Por seu apostolado e sua morte, confessou a Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo, da qual duvidara por momentos.

O Apóstolo São Tomé não estava no Cenáculo quando Jesus apareceu aos discípulos. Quando voltou, eles lhe disseram: — Vimos o Mestre! Apareceu aqui e falou conosco.

Tomé sorriu e objetou: — Se eu não vir no seu lado aberto, não acreditarei.

São Tomé não quis crer. Tudo aquilo, em sua opinião, era uma ilusão.

Oito dias depois, os discípulos estavam novamente reunidos no Cenáculo. Tomé achava-se presente. Inesperadamente, envolvido numa luz misteriosa, Jesus apareceu no meio deles, dizendo: — A paz esteja convosco.

Os Apóstolos alegraram-se vendo Jesus. Tomé, pelo contrário, abaixou a cabeça. Jesus aproxima-se dele, dizendo severamente: — Tomé põe o teu dedo nas minhas feridas e coloca a tua mão sobre o meu lado, e não sejas mais incrédulo.

São Tomé, confundido, caiu de joelhos aos pés de Jesus e exclamou, entre lágrimas de comoção: — Senhor meu e meu Deus.

E Jesus erguendo-o disse: — Creste, ó Tomé, porque viste. Bem-aventurados os que não viram e creram.

A respeito desta passagem do Evangelho, Plinio Corrêa de Oliveira comentou em artigo no “O Legionário”, em 25-4-1943:



“Muito se tem falado… e sorrido a respeito da relutância de São Tomé em admitir a Ressurreição. Haverá talvez, nisto, certo exagero. Ou, ao menos, é certo que temos diante dos olhos exemplos de uma incredulidade incomparavelmente mais obstinada do que a do Apóstolo.Com efeito, São Tomé disse que precisaria tocar Nosso Senhor com suas mãos, para n’Ele crer. Mas, vendo-O, creu mesmo antes de O tocar.

Santo Agostinho vê na relutância inicial do Apóstolo uma disposição providencial. Diz o Santo Doutor de Hippona que o mundo inteiro ficou suspenso ao dedo de São Tomé, e que sua grande meticulosidade nos motivos de crer serve de garantia a todas as almas timoratas, em todos os séculos, de que realmente a Ressurreição foi um fato objetivo, e não o produto de imaginações em ebulição. Seja como for, o fato é que São Tomé creu assim que viu. E quantos são, em nossos dias, os que veem e não creem?

Temos um exemplo desta obstinada incredulidade no que diz respeito aos milagres verificados em Lourdes, e também com Teresa Neumann em Ronersreuth, em Fátima. Trata-se de milagres evidentes.

Em Lourdes, há um bureau de constatações médicas, em que só se registram as curas instantâneas de moléstias sem qualquer caráter nervoso, e incapazes de ser curadas por um processo sugestivo; as provas exigidas como autenticidade da moléstia são, em primeiro lugar um exame médico do paciente, feito antes de sua imersão na piscina; em segundo lugar, ainda antes dessa imersão, a apresentação dos documentos médicos referentes ao caso, das radiografias, análises de laboratório etc.

A todo esse processo preliminar podem estar presentes quaisquer médicos de passagem por Lourdes, ficando autorizados a exigir exame pessoal do doente, e das peças radiográficas ou de laboratório que traga consigo; finalmente, verificada a cura, deve esta ser observada pelo mesmo processo por que se verificou a doença, e só é considerada efetivamente miraculosa quando, durante muito tempo, o mal não reaparecer. Aí estão os fatos. Sugestão? Para eliminar qualquer dúvida a este respeito, aponta-se o caso de curas verificadas em crianças sem uso da razão por sua tenríssima idade, e que, por isto, não podem ser sugestionadas. A tudo isto, o que se responde? Quem tem a nobreza de fazer como São Tomé, e, diante da verdade segura, ajoelhar-se e proclamá-la sem rebuços?

Parece que Nosso Senhor multiplica os milagres à medida que cresce a impiedade. O caso de Teresa Neumann, Lourdes, Fátima, o que mais? Quanta gente sabe destes casos? E quem tem a coragem de proceder a um estudo sério, imparcial, seguro, antes de negar esses milagres?”

https://www.abim.inf.br/creio-em-deus/

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sexta-feira, 2 de julho de 2021

DE CIMA PARA BAIXO – Artur Azevedo

 


De Cima Para Baixo

Artur Azevedo

 

          Naquele dia o ministro chegou de mau humor ao seu gabinete, e imediatamente mandou chamar o diretor-geral da secretaria.

          Este, como se movido fosse por uma pilha elétrica, estava, poucos instantes depois, em presença de sua excelência, que o recebeu com duas pedras na mão.

          - Estou furioso! – exclamou o conselheiro. – Por sua causa passei por uma vergonha diante de sua majestade o imperador!

          - Por minha causa? – perguntou o diretor-geral, abrindo muito os olhos e batendo no peito.

          - O senhor mandou-me na pasta um decreto de nomeação sem o nome do funcionário nomeado!

          - Que me está dizendo, excelentíssimo...?

          E o diretor-geral, que era tão passivo e humilde com os superiores quão arrogante e autoritário com os subalternos, apanhou rapidamente no ar o decreto que o ministro lhe atirou, em risco de lhe bater na cara, e, depois de escanchar a luneta no nariz, confessou em voz sumida:

          É verdade! Passou-me! Não sei como isso foi...!

          - É imperdoável esta falta de cuidado! Deveriam merecer-lhe um pouco mais de atenção aos autos que têm de ser submetidos à assinatura de sua majestade, principalmente agora que, como sabe, está doente o meu oficial de gabinete!

          E, dando um murro sobre a mesa, o ministro prosseguiu:

          - Por sua causa esteve iminente uma crise ministerial; ouvi palavras tão desagradáveis proferidas pelos augustos lábios de sua majestade, que dei a minha demissão!...

          - Oh!...

          - Sua majestade não a aceitou...

          - Naturalmente; fez sua majestade muito bem.

          - Não aceitou porque me considera muito, e sabe que a um ministro ocupado como eu é fácil escapar um decreto mal copiado.

          - Peço mil perdões a vossa excelência – protestou o diretor-geral, terrivelmente impressionado pela palavra demissão. – O acúmulo de serviço fez com que me escapasse tão grave lacuna; mas afirmo a vossa excelência que de agora em diante hei de ter o maior cuidado em que se não reproduzam fatos desta natureza.

          O ministro deu-lhe as costas e encolheu os ombros, dizendo:

          - Bom! Mande reformar essa porcaria!

 

          O diretor-geral saiu, fazendo muitas mesuras, e chegando no seu gabinete, mandou chamar o chefe de 3ª seção que que o encontrou fulo de cólera.

          - Estou furioso! Por sua causa passei por uma vergonha diante do senhor ministro!

          - Por minha causa?

          - O senhor mandou-me na pasta um decreto sem nome do funcionário nomeado!

          -  E atirou-lhe o papel, que caiu no chão.

          O chefe da 3ª seção apanhou-o, atônito, e, depois de se certificar do erro, balbuciou:

          - Queira vossa senhoria desculpar, Sr. Diretor... são coisas que acontecem... havia tanto serviço... e todo tão urgente!...

          - O Sr.  Ministro ficou, e com razão, exasperado! Tratou-me com toda a consideração, com toda a afabilidade, mas notei que estava fora de si!

          - Não era o casa para tanto...

           - Não era caso para tanto? Pois olhe, sua excelência disse-me que eu devia suspender o chefe de seção que me mandou isso na pasta!

          - Eu... Vossa senhoria...

          Não o suspendo; limito-me a fazer-lhe uma simples advertência, de acordo com o regulamento.

          - Eu... vossa senhoria.

          Não me responda! Não faça a menor observação! Retire-se, e mande reformar essa porcaria!

 

          O chefe da 3ª seção retirou-se confundido, e foi ter à mesa um amanuense que tão mal copiara o decreto:

          - Estou furioso, Sr. Godinho por sua causa passei uma vergonha diante do Sr. Diretor Geral!

          - Por minha causa?

          - O senhor é um empregado inepto, desidioso, desmazelado, incorrigível!  Este decreto não tem o nome do funcionário nomeado! E atirou o papel, que bateu no peito do amanuense.

          - Eu devia propor a sua suspensão por quinze dias ou um mês: limito-me a repreende-lo na forma do regulamento! O que eu teria ouvido, se o Sr. Diretor-geral não me tratasse com tanto respeito e consideração!

          O expediente foi tanto, que não tive tempo de reler o que escrevi...

          - Ainda o confessa!

          - Fiei-me em que o senhor chefe passasse os olhos...

          - Cale-se!...  Quem sabe se o senhor pretende ensinar-me quais sejam as minhas atribuições?!...

          - Não, senhor, e peço-lhe que me perdoe essa falta...

          - Cale-se, já lhe disse, e trate de reformar essa porcaria!...

          O amanuense obedeceu.

          Acabado o serviço, tocou a campainha.

          Apareceu um contínuo.

          - Por sua causa passei por uma vergonha diante do chefe de seção!

          - Por minha causa?

          - Sim, por sua causa! Se você ontem não tivesse levado tanto tempo a trazer-me o caderno de papel imperial que lhe pedi, não teria eu passado a limpo este decreto com tanta pressa que comi o nome do nomeado!

          _ Foi porque...

          - Não se desculpe: você é um contínuo muito relaxado!

          Se o chefe não me considerasse tanto, eu estava suspenso, e a culpa seria sua! Retire-se!

          - Mas...

          Retire-se, já lhe disse! E deve dar-se por muito feliz: eu poderia queixar-me de você...

 

          O contínuo saiu dali, e foi vingar-se num servente preto, que cochilava num corredor da secretaria.

          - Estou furioso! Por tua causa passei pela vergonha de ser repreendido por um bigorrilhas!

          - Por minha causa?

          - Sim; quando te mandei ontem buscar na portaria aquele caderno de papel imperial, por que te demoraste tanto?

          Porque...

          - Cala a boca! Isto aqui é andar muito direitinho, entendes?  Porque no dia em que eu me queixar de ti ao porteiro, estás no olho da rua! Serventes não faltam!...

          O preto não redarguiu.

          O pobre diabo não tinha ninguém abaixo de si, em quem pudesse desforrar-se da agressão do contínuo; entretanto, quando depois de jantar, sem vontade, no frege-moscas, entrou no pardieiro em que morava, deu um tremendo pontapé no seu cão.

          O mísero animal que vinha, alegre, dar-lhe as boas-vindas, grunhiu, grunhiu, e voltou a lamber-lhe humildemente os pés.

          O cão pagou pelo servente, pelo contínuo, pelo amanuense, pelo chefe de seção, pelo diretor-geral e pelo ministro.

         

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Artur Azevedo (Artur Nabantino Gonçalves de Azevedo), jornalista e teatrólogo, nasceu em São Luís, MA, em 7 de julho de 1855, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 22 de outubro de 1908. Figurou, ao lado do irmão Aluísio Azevedo, no grupo fundador da Academia Brasileira de Letras, onde criou a cadeira nº 29, que tem como patrono Martins Pena.     

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