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quinta-feira, 2 de março de 2023

O que devo a Raquel Welch

Ignácio de Loyola Brandão


 

Raquel Welch se foi. A mulher mais sexy do mundo era mortal, porque imortalidade não existe. Existisse, seria insuportável. O que teria sido de mim sem aquela atriz? Teria feito que carreira? Thomaz Souto Correa era diretor da Claudia em 1966 e me chamou: 'Quer deixar o jornal diário e vir para uma revista mensal?'. Fiquei siderado. Claudia era a revista feminina mais importante do Brasil. Moderna, trazia Carmen (com N) da Silva, que hoje estaria à frente do #MeToo.

Ela desafiava convenções e a censura da ditadura falando de sexo antes do casamento, divórcio, drogas, virgindade, anticoncepcionais, mercado de trabalho para a mulher. Precursora, acenou para o futuro das mulheres em época careta e conservadora. Mudou a história de futuras gerações. Ajudou a moldar minha cabeça nas conversas na redação e nos almoços no Hotel Cambridge, na Avenida Nove de Julho, ao lado de Glória Kalil, Isabel Montero, Guaracy Mirgalovska, Thomaz Souto Corrêa, Edith Eisler, Lu Rodrigues, Attilio Baschera, Walther Negrão. Trabalhar naquela revista mudou minha carreira da li em diante. O jornal Última Hora, onde me formei, foi comprado por uma empresa que o massacrou. Estivesse lá, o que teria feito depois?

Nervoso, fui para o teste. Na sala de Thomaz, vina parede um quadrinho do Peanuts emoldurado, com a frase 'A vida é cheia de rudes despertares'. Thomaz: 'Sei que você ama, entende de cinema, de estrelas de todos os tempos. Faça um texto fluente, sensual, sobre essa mulher'.

O filme era Mil Séculos Antes de Cristo e na foto, em lugar de Cristo, havia Raquel Welch de biquíni, sex symbol. A expressão hoje está banida, mas na época atraía. Raquel era morena, rosto entre ingênuo e malicioso, sensual. Tinha de me sair bem. Recorri aos telegramas internacionais, fui buscar minhas revistas sobre cinema, meus livros sobre Hollywood. O prazo não era o de jornal, tinha dias para isso.

Essa foi a primeira liberdade que aprendi com a revista, nada de pressa, do escreva agora, para daqui a dez minutos. Redigi, entre nervoso e ansioso (e se Thomaz não gostar?), 'enchi linguiça' (como se dizia) com historietas. Thomaz aprovou, fiquei anos na redação. Em 1967, fizemos uma Claudia em Hollywood, tentei entrevistar Raquel, não consegui, filmava em alguma parte. Na minha cabeça, eu iria dizer: 'Muito obrigado por existir, você deu impulso â minha vida'. Ela nada entenderia, me acharia esquisito. E daí? Até hoje muita gente acha. O que penso agora é: onde estão equem são os dois filhos dela? O que foi a vida deles tendo a mãe mais sexy do cinema? Uma semana atrás, escrevi esta crônica e fui almoçar com Glória e Thomaz. Raquel tinha morrido no dia anterior, aos 82 anos.

Jornal O Estado de S. Paulo, 26/02/2023

https://www.academia.org.br/artigos/o-que-devo-raquel-welch

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Ignácio de Loyola Brandão - Décimo ocupante da Cadeira 11, eleito em 14 de março de 2019 na sucessão do Acadêmico Helio Jaguaribe.

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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

Viver sem ela?

Ignácio de Loyola Brandão

 


Na rodoviária, Alzeni pediu.

'Por favor, uma passagem para Duas Passagens.'

O bilheteiro estendeu duas passagens.

'Quem pediu duas? Disse uma!'

'Tenho certeza, a senhora disse duas.'

Ela se deu conta, caiu na gargalhada, ri fácil, contagia.

'Duas Passagens, moço, é o lugar da Bahia onde nasci e para onde vou.'

São dois dias de viagem. Já dissemos a ela: 'Vá de avião, te damos passagem, vai até Salvador, pega ônibus lá'.

'Mas o ônibus de Salvador não vai até Duas Passagens, preciso trocar duas vezes. O que sai de São Paulo passa na porta de minha casa.'

Outro Brasil. E desconhecemos. Há 30 anos, Alzeni trabalha em casa. Faz parte da família. Dividimos dores e alegrias. Vai todos os anos rever os pais. A ansiedade agora é ir, porque o pai vai fazer 100 anos e ainda moureja na roça. Tem o maior orgulho da mãe, analfabeta, mas que, na hora de fazer contas, é um azougue. A cabecinha, um computador. Ela paga, confere o troco, diz o que falta em um segundo. Alzeni, no final do ano, carrega presentes para um mundão de pessoas. Quando a energia elétrica chegou ao sertão, ela levou fogão, geladeira, liquidificador, televisão para os pais e agora vai levar a panela que frita tudo sem engordurar nada. Tudo no bagageiro do ônibus. O celular chegou rápido, o longe ficou perto. O bagageiro do ônibus vem lotado, ela traz ovos caipiras em caixas de sapato cheias de areia.

Alzeni está há 30 anos conosco. Age como se fosse minha cuidadora. 'Mediu a glicemia? Tomou o Xigduo? Colocou colírio nos olhos? Tomou a vacina? Assinou o livro daquela moça?' Vacina é a insulina das manhãs. 'Nem olhou para o chá de pata de vaca que acabei de fazer.' Recomendado para baixar a glicemia, coisa de mineiro, agora que também sou de lá.

Alzeni fala, fala, ouve rádio, angustia-se com cada notícia ruim, liga para o filho, cuida dele, preocupa-se com a filha, faz dezenas de chamadas por dia, cuida das irmãs, dos parentes, muitas vezes ficamos bravos:

'Alzeni, você cuida de todo mundo, menos de você'. Ela fica abalada com cada morte de famoso, é íntima de todos, fica acabrunhada com agressões racistas. Dia desses, subiu ao meu estúdio dez vezes, por causa de um assalto, aquele estupro no Piauí, um celular roubado, etc. E falou, falou. E eu, nervoso por um texto que não saía, disse: 'Ainda te mando embora, quero sossego.'

'Ah, é? Ruim comigo? Mil vezes pior sem mim.'

Dei razão, rimos. Como viver sem ela?


Jornal O Estado de S. Paulo, 12/02/2023

 

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Ignácio de Loyola Brandão - Décimo ocupante da Cadeira 11 da ABL, eleito em 14 de março de 2019 na sucessão do Acadêmico Helio Jaguaribe.

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terça-feira, 3 de janeiro de 2023

O balão vermelho

Ignácio de Loyola Brandão

 


Passando pela Marginal Pinheiros, dei com a roda-gigante destinada a ser a maior da América Latina. Minúsculo pano vermelho (parecendo balãozi-nho) mostrava-se agarrado a uma das cabines. Estremeci, a memória me remeteu aos meus 22 anos. Em um domingo de 1958, eu voltava de um show, promovido pelo jornal Última Hora e dei carona para Marlene França, atriz baiana nascida em Uauá, descoberta aos 14 anos por Alex Viany em Rosa dos Ventos, lançado em 1957. Ela veio para São Paulo disposta a fazer carreira, e fez. Ao passarmos pelo Parque Shangai, no centro, vimos a roda-gigante. Ela arregalou os olhos: 'Lô' - assim me chamava -, 'vamos dar uma volta?'. Na entrada, outro pedido: 'Me dá um balão vermelho?'. O filme de Lamorisse, Le Ballon Ronge, tinha sido sucesso. Feliz, apertava tanto o balão junto ao corpo que tive medo de estourar. Demos uma volta, duas, três, ela pedia: vamos passar a noite girando? Não passamos, mas tempos depois começamos a namorar. Ela, que vinha de uma separação, queria desfrutar tudo, vivíamos pela noite, mas nosso ponto mesmo era o bar Porta do Sol, na Rua Sete de Abril. Marlene cresceu na carreira, acabamos nos distanciando e ela se casou com Andréa Matarazzo Ippolito, teve três filhos, fez carreira cinematográfica nas mãos de diretores como Walter Hugo Khouri, Jorge Ileli, Aurélio Teixeira, Luiz Sérgio Person, Carlos Coimbra, Fauzi Mansur, Ozualdo Candeias, Rubem Biáfora, Luiz Paulino, Roberto Santos. Viveu com intensidade os filmes da 'Boca do Lixo'. Muitas vezes, quando nos cruzávamos, ela dizia: 'Ah! Meu balão vermelho'.

Passamos décadas sem nos ver. Nesse período, a baiana que aos 12 anos vendia doces em Feira de Santana mostrou maturidade e pioneirismo ao dirigir quatro curtas-metragens. A mulher de sorriso esfziante ousou enfrentar a ditadura em 1983 com um documentário (assistência de Frei Betto) sobre Frei Tito, o dominicano que se suicidou sob pressão da ditadura. Em 1985, ela foi a primeira a olhar para a questão dos boias-frias no curta Mídheres da Terra. Dirigiu em seguida Meninos de Rua, em 1988, problema ainda atual. Em 1999, veio o último curta, O Vale das Mídheres.

Num momento em que a batalha das mulheres está em plena erupção, espero que se dê um lugar a Marlene. A escritora e videomaker Alexandra Roscoe, de Brasília, baseada nesse retalho de vida, fez poética animação, dez anos atrás. Em 2011, em uma tarde de setembro, Maria do Rosário Caetano me trouxe a biografia de Marlene por ela escrita e me deu o telefone, há muito por mim perdido. Liguei, ela morava em um sítio em Itatiba. Reconheceu minha voz. 'Lô, o balão vermelho?' A voz era débil. Duas frases e a linha foi cortada. No dia seguinte, li: Marlene tinha tido um enfarte.

O Estado de S. Paulo, 01/01/2023

 

https://www.academia.org.br/artigos/o-balao-vermelho

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Ignácio de Loyola Brandão - Décimo ocupante da Cadeira 11 da ABL, eleito em 14 de março de 2019 na sucessão do Acadêmico Helio Jaguaribe.

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terça-feira, 11 de outubro de 2022

O bebê que me salvou

Ignácio de Loyola Brandão



Terminada a apuração, fiquei prostrado. Vai começar tudo de novo, pensei. Os anos passados entre ameaças, ódio, chantagens, polarização, violência, mentiras, enganos. A vida é cheia de rudes despertares. Frase do criador do Peanuts, HQ, que havia na sala de Thomaz Souto Correa, diretor da revista Claudia em 1966, quando lá entrei.

Depois me ergui e fui para a cama com uma ideia fixa. Não podia beber, a diabetes recém-descoberta me impede. Enfrentei com tranquilidade a ideia de verificar se no Brasil existe morte assistida, aquela que liberou Godard em seu desânimo. Mas Godard morava na Suíça. Liguei para um dos maiores advogados que conheço, o Mariz de Oliveira, e pedi: como conseguir, como tantos fazem? E ele: 'Não conte comigo para isso, sou a favor da vida. Posso sentar-me ao seu lado e segurar sua mão até que isso passe, porque vai passar. Escreva, isso ajuda'.

Não morrer assistido. No Brasil, não me dão esta escolha. A lei diz: aguente o tranco! Sofra o que tem de sofrer! Vá a um terapeuta! Liguei, todos estavam com agendas fechadas por cem anos. Houve quem dissesse: peça ao seu médico antidepressivos fortes, que aliás estão faltando nas farmácias, que só nos oferecem Omega 3 e pílulas virilizantes às toneladas. Aguente sua cruz! Dizia minha mãe piedosa, quando o catolicismo existia - enfrente as dores que te arrasam, a melancolia que te abate. As crenças de Maria do Rosário, minha mãe, sofreriam duríssimo abalo ao ver como há sacerdotes de fancaria. Ninguém acredita que aquele padre Kelmon surgido do nada seja real, tão absurdo em seu surrealismo e sua fala de caça às bruxas. Ah, as feiticeiras de Salem, lembram-se? E dos macarthistas dos anos 50?

Escrever outro livro. Mas acabei de lançar um, não se começa outro, sob pena de repetir tudo, as histórias demoram para sair da cabeça, do coração, do inconsciente. Tinha coisas a fazer na segunda-feira, fui ao correio mandar um Sedex 10 para o Bexiga, ou Bela Vista, São Paulo, descobri que não existe Sedex 10 para aquele bairro central. Tão louco quanto a existência do padre candidato. Voltava para casa pela rua Lisboa, vi uma mulher vindo com um bebê no colo. Quando ela se aproximou, percebi que dava de mamar. Ao se aproximar, automaticamente ela cobriu o seio com a mão, percebi e disse: 'A senhora faz uma das coisa mais belas, amamenta, dá vida a essa criança.' E ela: 'Eu precisava sair, era hora do mamar, vim com ele, quero que este menino cresça e um dia vote, como eu e o pai dele votamos ontem. E ele foi conosco até a cabine, sorriu com os barulhinhos da urna'. Segui, imaginando: será que um dia posso cruzar com este bebê, então um jovem, em uma seção eleitoral, ambos acreditando que se possa mudar as coisas? Melhor esperar.

O Estado de S. Paulo, 09/10/2022

 https://www.academia.org.br/artigos/o-bebe-que-me-salvou

 

Ignácio de Loyola Brandão - Décimo ocupante da Cadeira 11 da ABL, eleito em 14 de março de 2019 na sucessão do Acadêmico Helio Jaguaribe.

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sexta-feira, 9 de julho de 2021

PEDAÇOS DE VIDA JAMAIS DESVENDADOS - Ignácio de Loyola Brandão

 


No final dos anos 1950, em Araraquara, Mister Pimenta, professor de inglês, teve um gesto generoso. Toda terça-feira à noite, ele dava uma aula gratuita de reforço de inglês. Classe lotada. Por semanas, lá estive, por interesse na língua e em uma loirinha, a Gilda. O ritual da paquera, na época chamado flerte, era longo, exigia paciência. Em geral, começava no footing, com as mulheres caminhando na calçada entre os dois cinemas e os homens parados no meio-fio. Olha que olha, olha que olha, até que o olhar era correspondido. O footing acontecia aos sábados e domingos. Primeira semana, segunda, terceira, um encontro era marcado e aí dependia de você. As aulas de terça-feira acabavam funcionando como um dia a mais para nos favorecer. Uma noite, consegui descer a escada ao lado de Gilda. Emocionado, sabia que aquela era a chance. Conversamos um pouco, elas tinham horário para regressar à casa, 10 da noite. A certa altura, consegui encaixar a frase, “gostaria de namorar contigo, parece que a gente vem se entendendo”. Ela pareceu constrangida: “Tem um problema, meu pai acha que é cedo para eu ter namorado. Também acho. Além disso, meu irmão disse que só vou namorar quem ele aprovar. Não me leve a mal”. Insisti – só eu sei o quanto me custou – e ela ficou firme: “Não”.

Na quinta-feira, fui ao cinema, já tinha começado a fazer crítica no jornal. Sentei-me atrás de três amigas de Gilda. Elas conversavam e então uma delas chamada Elide disse uma coisa tenebrosa. Nunca mais esqueci esse nome, Elide. Ela se virou para as amigas: “Sabem que o Ignácio quis namorar a Gilda? E ela disse ‘não, você é muito feio’. Disse na cara dele. E ela tem razão: quem vai namorá-lo?”. Não ouvi mais nada. Ser feio era estigma. Tempos difíceis, moralismo, severidade, pegava-se na mão depois de dois meses de namoro. Aliás, para terem ideia de como este país era, na década de 1970, quando fui à Primeira Feira Literária de Bento Gonçalves, Rio Grande do Sul, fiquei surpreso com o número de garotas que circulavam à noite. Um sucesso. Os livros eram atraentes? “Não”, me disse uma delas, “é que, com a Feira, nossos pais e irmãos nos deixam sair durante a semana”.

Voltando à Gilda, traumatizado, porque aos 16 anos tudo é drama, me recolhi, nunca mais me aproximei de nenhuma jovem. Amei várias, jamais souberam. Enfiei-me nos livros, no jornal, no cinema, queria ir embora, não ficar mais ali. Vim, fiz minha vida, esqueci. Contei rapidamente este episódio na Aula Magna que dei em minha cidade há duas semanas. A imagem de Gilda tinha voltado num repente. Indaguei da plateia (online): e se ela tivesse dito sim, eu estaria aqui, como estou, a dar esta aula como Doutor Honoris Causa pela Unesp, ou estaria a assistir à aula de um outro? O ‘se’ não existe, mas a fantasia sim, afinal sou ficcionista. A esta Gilda que me disse não, dediquei um livro, Dentes ao Sol. Não sei se ela viu, ficou sabendo. Teria ela dito este ‘não’ arrasador? Nem sei se está viva, sabe quem sou, o que faço. Será que se lembra do ‘não’?

Por que há de se lembrar? O assunto nada significava para ela. Doce e instigante mistério. Fui mais longe: e se ela estiver aqui neste auditório, viva, ou em casa me assistindo digamos, ao lado da filha? E esta se vira para a mãe e pergunta: “Veja só! Quem terá sido essa mulher que o rejeitou? E se tivesse sido você, mãe? Teria dito sim? Tivesse dito, ele hoje seria meu pai?”. Fascinantes estes rápidos recortes da vida jamais desvendados. Literatura funciona assim. Ou imaginei este ‘não’ e o incluí como realidade? A memória tem sua ironia, uma certa dose de crueldade, diz meu primo José Castelli, filósofo certeiro em tardes invernais.

O Estado de S. Paulo, 02/07/2021

 

https://www.academia.org.br/artigos/pedacos-de-vida-jamais-desvendados

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Ignácio de Loyola Brandão - Décimo ocupante da Cadeira 11 da ABL, eleito em 14 de março de 2019 na sucessão do Acadêmico Helio Jaguaribe.

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