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domingo, 23 de janeiro de 2022

Poema Canga- Autoria e voz de Cyro de Mattos

AMAZÔNIA NO CENTRO – Péricles Capanema

 


Estados que compõem a Amazônia Legal

 

Péricles Capanema

 

No Exterior, ponto candente. Se você fosse um leitor comum (ou um cidadão comum) dos Estados Unidos ou de algum país europeu (Inglaterra, França, Alemanha, Itália, Espanha, por exemplo), você saberia vaga e distraidamente que longe de suas antenas palpita uma imensa área política chamada América Latina, onde existem cidades grandes chamadas Buenos Aires, São Paulo e Rio de Janeiro. Saberia ainda que por lá se sucedem meio confusamente golpes de Estado, pobreza, tráfico de drogas, roubalheira política. Um ponto e só um ponto lhe chamaria vivamente a atenção: a Amazônia. Conexo com ele, desmatamento ilegal, florestas pegando fogo, devastação ambiental. Situação normal? Bastante anormal. Ajuda o Brasil? Prejudica, e muito; em especial, aos mais pobres daquela região, são dezenas de milhões, irmãos nossos, merecem ainda (dever solidário de todos) ação eficaz contra os que sofrem. Porção das flechas que perfura a carne dos mais pobres é afiada pela ação dos corifeus da propaganda hostil contra a Amazônia.

Dados úteis. Vamos dividir o grosso do problema em seções, ficará mais fácil entender o caso. A Amazônia não é só Brasil. Mas a grande antipatia mundial pelo suposto descaso em relação à Amazônia recai quase tão-só sobre Pindorama, o vilão da história. A Amazônia é uma floresta tropical úmida que cobre a maior parte da Bacia Amazônica. Esta bacia hidrográfica está localizada no Brasil, Bolívia, Colômbia, Guiana, Guiana Francesa, Suriname, Peru, Venezuela, Equador. Sete milhões de quilômetros quadrados, dos quais cinco e meio cobertos pela floresta. A maioria da floresta tropical está no Brasil — 60% dela. A Amazônia abriga mais da metade das floretas tropicais da Terra e tem a maior biodiversidade no mundo em uma floresta tropical. A chamada Pan-Amazônia tem área de aproximadamente 7,8 milhões de km2 e abriga por volta de 40 milhões de habitantes. Amazônia Legal, tantas vezes falada, é outra coisa. Corresponde à área de atuação da SUDAM (Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia). Compreende floresta tropical, cerrado e ainda outras formações. É região composta de 772 municípios localizados em Rondônia, Acre, Amazonas, Roraima, Pará, Amapá, Tocantins, Mato Grosso, Maranhão. Tem superfície aproximada de 5.015.067,75 km2, 58,9% do território brasileiro. 45% do território da Amazônia Legal constitui área protegida legalmente. Ela abriga cerca de 30 milhões de brasileiros e seu PIB é por volta de 9% do PIB nacional. Agricultura, pecuária, mineração representam o futuro da região.

A Amazônia Legal (assinalada em verde no mapa) ocupa 58,9% do nosso território

Tema envenenado. Aqui, realidade e propaganda se mesclam, acavalam-se desconhecimento de fatos e sobrevalorização de versões. É comum, grassam versões fantasiosas, fatos reais são ouvidos com apatia. Para o bem e para o mal, a Amazônia foi lançada no centro do interesse mundial. Na questão se aninha não apenas o interesse razoável e fundamentado, mas ainda crepita um desvelo artificial, novo, irritadiço, inflado. Cada vez mais incendeiam os espíritos a sustentabilidade ameaçada e o desmatamento desbragado. A fermentação induzida no Ocidente leva as populações do mundo desenvolvido a ter birra do Brasil (e não apenas do governo), supostamente desleixado com a preservação de uma das maiores riquezas da Terra, penhor de futuro de prosperidade, patrimônio comum da humanidade.

Obrigação de esclarecimento. Preocupa a opinião hostil que se alastra; é ônus grave de todo brasileiro, na medida de suas possibilidades, procurar virar o jogo no cenário internacional (lá fora). No particular, tem pouco valor redarguir que os fatos apontam em direção contrária. Em geral se atribui a Gustavo Capanema observação sempre útil de lembrar quando nos debruçamos no exame dos cenários públicos: na política a versão vale mais que os fatos. As versões falsas precisam ser desinfladas, em boa parte, aí sim, pela difusão inteligente dos fatos que as desmontam. É ainda necessário somar esforços internamente para que consertemos tudo o que possa estar errado.

Lenha na fogueira. Não acho direito nesse momento, irrefletidamente (no mínimo), jogar lenha na fogueira, quando o importante é procurar extinguir o fogo. Pois o Brasil vai perdendo apoios importantes no Estados Unidos e na Europa, setores importantes estão sendo fermentados por propaganda inamistosa. Ao mesmo tempo, outro fato enorme assoma: a China está silenciosa e de sorriso enigmático. Duas forças de tração opostas, uma atrai, outra afasta. Para onde iremos?

Rumo que faz falta enfatizar. Destaco agora observações lúcidas, enraizadas na experiência e na erudição, impulsionam rumo de solução efetiva. Alysson Paolinelli é dos agrônomos de maior reputação no Brasil. Professor universitário, antigo secretário da Agricultura e ministro da Agricultura, opiniões pé no chão, sempre enfatizou a importância da ciência, pesquisa e experiência na solução dos problemas da agropecuária. Observou em entrevista recente sobre a Amazônia: “O Brasil está como vilão há muito tempo. As viúvas do Muro de Berlim não morreram. É evidente que a Amazônia está sendo desmatada. Mas 90% ainda estão preservados. Os outros 10% me preocupam. Agora, não será só proibindo o desmatamento que vamos resolver o problema. Enquanto a árvore valer mais deitada do que em pé não há polícia, não há exército que controle o desmatamento. O caminho é a biotecnologia. Temos de achar pela ciência uma forma de tirar rentabilidade sem degradar o bioma. No momento em que a ciência botar a árvore em pé valendo mais do que deitada, pode tirar a polícia da floresta. A primeira forma é o manejo sustentável da árvore. Hoje, temos técnicas de manejo sustentado com belíssimos resultados. Você corta a árvore que lhe interessa e dá dinheiro, planta duas ou três no lugar dela”.

Extrativismo de sobrevivência. Paolinelli colocou então cores fortes, talvez exagerou em muitos aspectos, mas mostrou por onde se pode resolver sensata e permanentemente o problema: “Nós temos na Amazônia mais de 25 milhões de pessoas famintas com o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) mais baixo do país. Estão fazendo extrativismo. Elas precisam de renda. Você tem de arrumar uma forma de garantir renda para a população para que, pelo menos, o trópico úmido não seja mexido. Ele não serve para plantar, para boi. Chove demais”. De outro modo, só pelo estímulo a novas formas de exploração econômica (na agricultura e pecuária), bem como pelo aumento da produtividade, será possível impedir que a floresta seja utilizada para subsistência pura; cessaria então o extrativismo da sobrevivência. Foi além: “A organização do produtor é outro problema. As cooperativas do sul conseguem entrar na casa do consumidor europeu, asiático, porque os produtores são organizados. E na Amazônia e no Nordeste a gente não tem isso”.

Impulso sensato no rumo certo. Em resumo, os problemas da Amazônia poderiam ser minorados com policiamento mais efetivo, vigilância mais estrita. São medidas necessárias e urgentes. Contudo, só serão enfrentados com sabedoria efetiva se, ao longo dos anos, houver aumento expressivo de pesquisas, procura de métodos novos, aplicação de capitais e organização da produção. A demagogia vai pelo rumo contrário: com ela, a pobreza se agravará, generalizar-se-á a miséria, teremos na raiz agravamento das principais causas da presente degradação ambiental. Caminhando pela estrada iluminada parcialmente pela lanterna de Paolinelli, lucrarão (e muito) as populações residentes na Amazônia, o Brasil e o mundo.

https://www.abim.inf.br/amazonia-no-centro/

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PALAVRA DA SALVAÇÃO (253)



3º Domingo do Tempo Comum – 23/01/2022

Anúncio do Evangelho (Lc 1,1-4;4,14-21)

— O Senhor esteja convosco.

— Ele está no meio de nós.

— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Lucas.

— Glória a vós, Senhor.

Muitas pessoas já tentaram escrever a história dos acontecimentos que se realizaram entre nós, como nos foram transmitidos por aqueles que, desde o princípio, foram testemunhas oculares e ministros da palavra.

Assim sendo, após fazer um estudo cuidadoso de tudo o que aconteceu desde o princípio, também eu decidi escrever de modo ordenado para ti, excelentíssimo Teófilo. Deste modo, poderás verificar a solidez dos ensinamentos que recebeste.

Naquele tempo, Jesus voltou para a Galileia, com a força do Espírito, e sua fama espalhou-se por toda a redondeza.

Ele ensinava nas suas sinagogas e todos o elogiavam.

E veio à cidade de Nazaré, onde se tinha criado. Conforme seu costume, entrou na sinagoga, no sábado, e levantou-se para fazer a leitura.

Deram-lhe o livro do profeta Isaías. Abrindo o livro, Jesus achou a passagem em que está escrito: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção para anunciar a Boa-nova aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos cativos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos e para proclamar um ano da graça do Senhor”.

Depois fechou o livro, entregou-o ao ajudante e sentou-se. Todos os que estavam na sinagoga tinham os olhos fixos nele.

Então começou a dizer-lhes: “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir”.

— Palavra da Salvação.

— Glória a vós, Senhor.

http://liturgia.cancaonova.com/pb/liturgia/3o-domingo-tempo-comum-4/?sDia=23&sMes=01&sAno=2022

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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Padre Donizete Ferreira, Sacerdote da Comunidade Canção Nova.


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Ser presença de "boa notícia" que liberta


“O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção...” (Lc 4,18) 

O relato do evangelho deste domingo faz referência ao início da vida pública de Jesus, quando retorna à Galiléia, depois da confirmação de ser o Messias e da experiência de discernimento no deserto.

Jesus se apresenta em Nazaré, onde seus compatriotas aguardam seu “discurso programático”, e Ele causa espanto ao dizer que veio falar-lhes em nome dos pobres e excluídos; e faz isso tomando como próprias as palavras do profeta Isaías.

Movido pelo Espírito, Jesus começa a falar uma linguagem provocativa, original e inconfundível: Ele revela seu compromisso em favor de uma vida nova e libre entre os últimos, onde a vida encontra-se ferida.

Diferentemente dos mestres da Lei e dos escribas, cujo ensinamento estava centrado em “decorar” e conservar a Lei, o ensinamento de Jesus parte da realidade humana de sofrimento, exclusão, preconceito...

Aqui estamos numa sinagoga em dia de sábado: lugar e dia de comunhão, de encontro, de festa... No entanto, na mesma sinagoga Jesus convida a ter um olhar mais amplo para a realidade da exclusão.

Surpreendentemente, o texto não fala em organizar uma nova religião, de impor a carga de uma nova lei ou de implantar um culto mais digno, mas de comunicar libertação, esperança, luz e graça aos mais pobres e excluídos da terra.

Jesus se apresenta como o “ungido” pelo Espírito (Cristo) porque declara cumpridas, em sua vida e em sua pessoa, as promessas da antiga profecia que se revelavam como libertação dos oprimidos, encarcerados e estrangeiros. Ele aparece como o Ungido por excelência; o Pai lhe comunicou seu Espírito para que manifestasse seu dom e sua presença no mundo, anunciando a “boa notícia” aos pobres e necessitados, aos famintos de pão ou carentes de outros bens importantes.

Jesus não oferece doutrinas estéreis, não vem complicar a vida com novas exigências, nem está preocupado em apresentar uma religião diferente, mas revela uma presença original no mundo, comprometida com a vida. Nesse sentido, para Ele, evangelizar passou a significar oferecer vida, abrir caminhos de esperança, reconstruir as relações rompidas... Esta é a afirmação geral, o ponto de partida da missão pública de Jesus.

O Espírito de Deus está em Jesus enviando-o aos pobres, orientando toda sua vida para os mais necessitados, oprimidos e humilhados. Também nessa direção devem se comprometer seus seguidores(as).

Esta é a orientação que Deus quer deixar transparecer na história humana. Os últimos serão os primeiros em conhecer essa vida mais digna, livre e ditosa, que o mesmo Deus quer já, desde “agora”, para todos os seus filhos e filhas. 

Após a leitura do texto do profeta Isaías, na sinagoga em Nazaré, a palavra de Jesus move a todos a se situar no presente: “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir”. Em Lucas, se trata de um “hoje” continuado, sempre atual, com a única condição de que nos deixemos introduzir nele. É um “hoje” que bem poderia ser traduzido por “aqui e agora”, o tempo presente que vai além do tempo cronológico; é o presente atemporal no qual tudo está bem, onde tudo é benção, graça, liberdade e Vida. Um Presente que não é ambíguo, mas que, abraçando todas as dimensões de nossa existência, rica e pobre, se desvela a nós como Plenitude.

A cena do evangelho de hoje termina com uma promessa de vida que tem lugar “hoje”. Da boca de Jesus brota uma palavra de vida, acompanhada de uma certeza que a faz eterna, ou seja, válida para todo momento, em um presente sempre atual: o “hoje” em Lucas significa “todo momento”, qualquer instante em que, ouvinte ou leitores, se abrem à Palavra inspirada de Jesus.

Cada um desses “hoje” remete o leitor a seu próprio presente. Por isso, não perdem nunca sua atualidade, sempre que o leitor ou ouvinte acolha o dom desse “tempo novo”.

E o mais maravilhoso é quando o “hoje de Deus” coincide com o “hoje nosso”. Deus é nosso “hoje”, nós somos o “hoje” de Deus; é no nosso “hoje” que Deus nos fala e realiza maravilhas.

Desse modo, o evangelista Lucas está nos dizendo: essa Palavra é válida também para nós, hoje, com a con-dição de que nos deixemos conduzir por ela. Para todos nós há também uma promessa de vida, que não pode ser bloqueada por nenhum tipo de escravidão e que não se acaba na fronteira da morte.

Antes de mais nada, a expressão “hoje” nos mostra Jesus como um homem que vive em um presente consciente e descansado, sábio e pleno. Deus não é graça ou castigo, boa notícia ou ameaça. Segundo Jesus, Deus é amor e só amor, compaixão e bondade, gratuita e incondicional. Esses atributos divinos se visibilizam no “hoje” de nossa existência. 

Deus não só nos liberta, Deus é a libertação. Somos nós que devemos tomar consciência de que somos livres e podemos viver em liberdade sem que ninguém no-la impeça. Também devemos ajudar os outros a descobrir a possibilidade de serem livres. Como Jesus, não devemos deixar que nada nem ninguém nos oprima. Nem Deus, nem os homens em seu nome, podem nos exigir algum tipo de vassalagem.

A liberdade deve ser o estado natural do ser humano. Por isso, a “boa notícia” de Jesus é dirigida a todos aqueles que padecem qualquer tipo de submissão. A enumeração feita por Isaías não deixa lugar a dúvidas: a libertação chega para todos os oprimidos e de todas as opressões.

É preciso recordar sempre: Jesus está longe de um mero assistencialismo... Ao tornar pública sua missão, Jesus inaugura uma nova ordem integral, a única que permite falar de uma libertação real. É importante cair na conta de que muitas vezes quando se fala de “opção preferencial pelos pobres”, na realidade se trata claramente de uma mentalidade assistencial, muito distante do discurso e prática de Jesus no início de sua vida pública. “Evangelizar é libertar através da palavra” (Nolan). Uma palavra que não entra na história, que não se pronuncia, que se mantém em cima do muro, que não mobiliza, não sacode, não provoca solidariedade, não transforma as estruturas geradoras de escravidões... não é herdeira da “palavra bendita” de Jesus.

Jesus é tão “entranhavelmente” humano que nos desconcerta a ponto de parecer estranho, extravagante e, para muitos, escandaloso. Mas, precisamente dessa maneira Ele nos revela, não só sua profunda humanidade, senão o grau de “desumanização” a que podemos submeter os outros, sem darmos conta disso.

Portanto, o sentido de nossa existência cristã não está em “divinizar-nos”, mas em “humanizar-nos” (descermos até o fundo de nossa condição humana). Porque o “ponto de encontro” entre Deus e os seres humanos não foi só o “divino”, senão o “divino humanizado”.

Texto bíblico:  Lc 1,1-4; 4,14-21

Na oração: “Hoje se cumpre” a Escritura em cada um de nós. O mesmo Espírito que atuou em Jesus, está atuando em nós. O ego nos separa; o Espírito nos identifica e nos unifica.

- Na oração, procure conectar com essa “divina energia” que está em você, e a espiritualidade será o mais espontâneo e natural de sua vida.

- As palavras de Isaías abrem um novo “sentido” para a vida de Jesus; também para todos nós, seus seguidores.

Elas se cumprem em você, no “hoje” de sua existência? Você se sente também “enviado” a ser presença da Boa Notícia para os pobres, para as vítimas das estruturas sociais injustas? Sua vida é “boa-notícia” para todos?


Pe. Adroaldo Palaoro sj

https://centroloyola.org.br/revista/outras-palavras/espiritualidade/2495-ser-presenca-de-boa-noticia-que-liberta


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sábado, 22 de janeiro de 2022

TRATO É TRATO – Nelson de Faria

 


Trato é Trato 

Nelson de Faria

 

“Não negues o bem a quem de direito,

Tendo na tua mão o poder de o fazer”

                          Provérbios, 3. 27

 

          Era altanado, sabia disso, não porque alguém tivesse tido a ousadia de lhe dizer aquilo cara a cara. Sabia-o, naturalmente, pela sua própria maneira de encarar as coisas, pelos atos que praticara, em defesa de outrem ou no seu próprio interesse. Muitas vezes fizera coisas tidas como temerárias, mas que lhe deram prazer e o tornaram respeitado.

          Quando menino, lembrava-se, não era como as outras crianças, que tinham medo de sapo, de taturana, de rato ou lagartixa. Cresceu duvidando da existência de assombração. Ouvia falar em saci, mula-sem-cabeça, caapora, perna-fina e outros que tais. Sorria, incrédulo. Nunca os vira nas suas andanças. Não duvidava, mas não acreditava cegamente em benzedeiros e exorcismos, em rezas fortes que tiram inhaca, que alimpam a vida da gente. Vira coisas estranhas – ah! e muitas – que o deixavam em dúvida. Não discutia o assunto. Era destemeroso e, às vezes, também destemperado. Topava tudo. Montava em bicho brabo com a mesma tranquilidade com que atravessava um rio empanzinado ou empunhava uma vara de ferrão para espetar uma rês cangotuda. Não provocava brigas, mas não se acovardava diante de um perigo. Já matara canguçu, sangrara queixada a facão e, certa vez, esbarrara com uma suçuarana. Laçara a bicha, com uma gateza tal que deixara o próprio felino aturdido e sufocado. Proeza que andou nos versos dos cantadores mais falados, nas conversas dos queras mais papudos, desmesurando o pensamento de muita donzela, catucando as ideias de muita mulher sentimentalizada. De cabeça erguida, entrava numa venda, de lá saía de cabeça alevantada, mesmo que suas pernas teimassem em fraquejar. Assim fora desde pelanco. Assim seria pela vida afora. Ouvia calado a conversa dos outros, nunca empanando o pensamento alheio. Quando ia às festas, procurava os cantos, conservando-se da banda de fora, sem se envolver com os mais, quando a alegria deles virava matinada.

          Diziam que o procedimento dele era exemploso. Entretanto, de repente, saíra dos seus cômodos, arranjara já-começa pra se coçar. Tudo acontecera na festa do casamento da prima Zazá. Andara por aquelas terras quando ainda era menino, lembrava-se pouco daqueles parentes de seu pai – que daquelas paragens saíra para tentar a vida noutros lugares e se enriquecera. Os que ficaram, pelo que sabia, eram afazendados, gente de respeito. Apresentava-se como embaixador, para que soubessem, os que ali ficaram, que o velho Conrado, seu pai, continuava a amar sua gente e que não viera, também, para matar saudades, porque a esipra que, fazia anos, o atormentava, agora jogara-o na cama, atacando-lhe pernas e pés. Quando apeara, depois de dois dias de marcha batida, percebeu dezenas de olhos postos nele. Não conhecia ninguém. A varanda regurgitava, a conversa esmoreceu à aproximação daquele moço desconhecido que, nos trinques, tirava o chapéu, salvando:

          - Deus guarde a gente desta casa, presentes e ausentes.

          O velho Libório, os olhinhos apertados, pisca-piscando, aproximou-se.

          - Vosmecê é de paz, vê-se logo. Se achegue. Ainda que mal pergunte, qual é a sua graça?

          - Antônio Carneiro, filho de Conrado Carneiro. Me chamam de Tonico, nhor sim. Pelo que divulgo, vosmecê é o tio Libório? A sua bênção, meu tio.

          - Não boto minha bênção em homem. Em vancê, Tonico, dou o meu abraço de chegança, com satisfação. Já maginava que era gente minha, por via dos petrechos que vosmecê usa nos arreios, pelos ares de sua pessoa, mais porém, gente arredada, que os nossos olhos faz tempo que não divulgam.

          O velho Libório era orgulhoso, gostava de bons animais, bons arreios e arreatas de prata bem limpas, reluzentes ao sol. Diziam que nenhum dos descendentes do velho Carneiro desmentia a origem, pelo desempeno no montar, pelo trato que davam aos animais de sela. A confirmação ali estava, na sua frente, naquele jovem bem-vestido, melhor montado. O velho abriu os braços e estreitou o rapaz contra o peito ossudo. Tonico foi apertando a mão de um por um e, num simulacro de abraço, como de uso na terra, tocava as pontas dos dedos da mão esquerda no ombro do apresentado, recebendo de volta saudação igual.

          - Vim da parte de meu pai, que anda meio perrengue, com a embaixada de representar minha gente, que também é gente de vosmecê, no casamento da prima Zazá. – Estendeu o braço, apontou para o lazão crina-branca amarrado ao moirão: - Pai mandou aquela prenda, e pede pra Dona Zazá não arreparar na miudeza dela.

            O velho Libório avançou para o peitoril, a mão em pala sobre os olhinhos miúdos, avaliou o presente. Sorriu, viu que era valioso. Os olhos brilhando de prazer, falou:

          - Não carecia se incomodar, cativando a menina com um trem de quilate tão alçado.

          Tonico espalmou a mão, interrompendo-o:

          - Não é incômodo, tio Libório, é obrigação da gente.

          Conto pra vosmecê que o bichim já foi repassado, amansado de sela para donas e donzelas, é esquipador que dá gosto e é cria lá da fazenda, nhor sim.

         

          A notícia da chegada do primo, vindo de longe, trazendo um presente tão bonito para a noiva, alvoroçou o mulherio da casa, inté lá dentro, no fundo da cozinha. Apareceu, para cumprimentar Tonico, Siá Malvina, de mãos sardentas e magras, de olhos claros e corpo miúdo, dona da casa. Outras vieram. As casadas falavam com mais desembaraço. As solteiras olhavam o recém-chegado, davam-lhe em cumprimento as pontas dos dedos, baixavam os olhos, sentindo um friozinho subindo-lhes pelo braço ao contato daquela mão forte e cabeluda. Isaura foi a última. Tinha os cabelos brilhantes, o rosto empoado, as mãos ainda úmidas de água-de-cheiro, não escondendo que se arranjara às pressas. Siá Malvina fazia as apresentações: “Tiana, filha do compadre Belarmino; Mariazinha, filha de Eudóxia; Eudóxia, ela mesma, minha irmã gêmea; aquela ali, de blusa branca, Ritinha, é também filha de Eudóxia; de junto dela, Clarinha, filha de dona Joana, fazendeira vizinha; e Mariquinhas, Belinha, Teodora, Mundica, Zezé, Sinhá, Donana,...” todas amigas da noiva, gente vizinha, aparentada, ajudando nos doces e nos assados, nos bordados e crivos, casadas, umas, solteiras, poucas. “E esta, aqui, é a noiva, sua prima Zazá...”

          Era despachada, a mocinha. Foi logo se achegando, para o abraço do primo. Olhou-o bem dentro dos olhos. Tonico levou um choque ao apertar a mão da moça, ao cingir, entre os braços, o corpo bonito da prima. Pensou: “Será possível um sujeito como o Dico Pereira, que a gente via logo, sem mais aquela, que era um pamonha, que estava ali no canto, meio encalistrado, sem saber bem o que fazia das mãos, se as punha no bolso da calça ou se as deixava assim mesmo, largadas ao longo das pernas, será possível, indagava-se, que um soim daqueles, de carinha miúda e penugenta, iria ganhar assim, de mão beijada, uma mulher daquelas?” – Disfarçou a emoção, convidou os presentes para examinarem o cavalo.

          Daquele momento para a frente, Tonico passou a ser a pessoa mais importante da casa. Liquidou de uma vez o discutido prestígio do Dico Pereira que, apesar de mamparreiro e sovina, desfrutava ainda das atenções de uns poucos, por ser o noivo da Zazá. Agora, relegado, embiocou-se em pensamentos mesquinhos, ansioso para que aquele dia passasse rápido, chegasse o outro, viesse logo a noite, a madrugada... Ele e Zazá sozinhos no quarto...

          Fizeram roda no terreiro, admirando o presente trazido por Tonico.

          - Uma pintura! – Falou Siá Malvina.  – Coisa pra bico fino, de entendido, pois não!

          - Que trem doido, danado de bonito! – chegou gritando Sêo Jerônimo – tio Jerô, para todo mundo – velho de maneiras espalhafatosas, amável, casamenteiro, mulherengo, querido de moças e rapazes. Foi se achegando, levantou o beiço do animal, olhou-lhe a muda, alisou-lhe a crina branca, sedosa, comprida. Examinou-lhe os jarretes, finos, fortes, as ancas bem-feitas, o pescoço arqueado, o lombo linheiro. Olhou de viés para Dico Pereira, descansou a vista em Zazá, olhou de novo o cavalo, falou, sorrindo, pondo canalhice no riso e na voz:

          - Sim, senhor, bem se diz que “a melhor espiga é sempre para o porco pior” ...

          Todos riram, sem saber que ele se referia ao Dico Pereira, que, de olhos acesos, namorava o lazão de crina-branca, ruminando: “Presente danado de bom, bem a propósito. Tava mesmo carecendo de um cavalo que nem este. A Zazá vai aproveitar o bichim poucas vezes, porque eu enxerto ela na primeira semana...” Sorriu, degustando a ideia: “Mulher amojada não pode montar que nem homem... Antão, quando ela tiver entojada, o degas, aqui, vai aproveitar...”

 

          CASAMENTO NA ROÇA era assim mesmo: casa cheia de parentes, vizinhos, amigos. Os homens chegavam no dia. As mulheres, dois dias antes, para uma demão final nos doces, no enxoval, nas quitandas. À noite, dançavam-se polca, ensaiavam-se quadrilhas, valsas, puladinhos. Tonico desdobrava-se, dançando com casadas e solteiras. Conversava muito, sorria sempre, respeitoso, amável. Zazá bebia-o com os olhos, de longe; apertava-o nos braços, os cabelos à altura dos lábios dele, quando dançavam.

          Aí, o falatório começou. Primeiro, na cozinha, murmurado a medo, entre as crias da casa: “Moço talentudo, bonito que nem cromo, não faz pouco caso dos mais pobres, sempre prazenteiro, se ri à toa para qualquer um, conversa com a gente que nem um igual...” A mais ousada ariscou, num muxoxo: “Aquele um, sim, que foi feito para a Dona Zazá. Inté a gente fica assim-assim, sabendo que ela, amanhã, vai ser de Sêo Dico, homim sem sustança...” Depois, já sem freios, o boquejo alcançou quartos e salas, quando Zazá dançou pela quarta ou quinta vez com Tonico. Dico Pereira foi alertado pela mãe dele, Siá Jacinta, que, de nariz torcido, falava com Siá Malvina: “Donzela noiva não deve dançar mais de uma vez com um rapaz desconhecido...” Siá Malvina respostou, rápida, sentindo-se ofendida com o reparo da outra: “Homessa! Desconhecido, não, Siá Jacinta. Adonde já se viu dizer que parente é pessoa desconhecida? Vosmecê, assim, agrava a gente...” Siá Jacinta saiu muxoxeando, as muxibas do rosto tremelicando. Procurou o filho, cochichou-lhe venenos. Dico Pereira embezerrou-se, sem atinar com o que fazer. Tio Jerô, que não escondia sua jeriza pelo Dico Pereira, apanhou a coisa no ar. Delirava, ouvindo aqui, especulando acolá, sem opinar, sem se trair. Aproveitou-se de um descanso do sanfoneiro, aproximou-se de Tonico, segredou-lhe:

          - Careço de um particular com vosmecê. – Saíram os dois para a noite estrelada e morna. Sem mais aquela, falou: - Moço, vosmecê me desculpe o mal jeito da conversa. Não gosto de papear muito. Vosmecê é atilado, sem sobrosso, vê-se logo. Mais porém, não atinou ainda com o rebuliço que sua estampa anda fazendo na manada de rabo-de-saia desta casa. – Fez uma pausa, tirou uma baforada do cigarrinho de palha, como se estivesse em dúvida sobre o que dizer. Pigarreou, cuspiu, continuou:  - Todas elas estão assanhadas, que nem franguinhas no preparo da postura. Vosmecê não vê as coisas que nem nós, porque tá dentro do fogo, obrando sem maldades no pensamento. – Tonico ouvia calado, o sangue em ebulição, sentindo uma vontade doida de dizer umas verdades para o Tio Jerô. Esperou que ele terminasse a fala, pedindo licença para também acender um cigarro. O velho continuou: - Já pedi a vosmecê que me relevasse a conversa, que é coisa cá do meu bestunto. Ninguém me encomendou sermão. Quero que vosmecê fique sabendo que, além de ser seu tio, sou seu amigo. Já especulei tudo. Vejo que vosmecê não gosta de tranças, nem é espoleteado. Posso dizer, sem errar: se vosmecê tivesse aparecido aqui no mês passado, seria enganchado na família do Libório. Na minha, não, porque não tenho mais filha pra casar. Se tivesse, também eu queria vosmecê para meu genro. Das moças que estão aí na casa, a mais desarvorada é mesmo Zazá. Me contaram que, em desde que ela botou os olhos em vosmecê, não quer mais ouvir falar no nome do noivo. Vosmecê, que é homem e sabe que as coisas do mundo são mesmo muito enganosas, que não é criatura arreliada, me responda se não coisa muito à revelia desmanchar casamento na hora do dito. É ou não é?

          Tonico gostaria de continuar calado. Sentindo, porém, cosca na língua, confirmou que tudo já estava combinado com Zazá; que, na hora do padre perguntar: - “É do seu gosto receber este homem como seu legítimo marido” – ela diria – “Não” – bem alto, para que todos ouvissem. Aí, estava a coisa desfeita, o dito por não dito. Quis falar de outros detalhes, tramados com Zazá. Calou-se, ouvindo a fala do Tio Jerô:

          - Vosmecê não acha que é coisa estuporada desfeitear o rapaz na hora do padre dar o nó cego? Despois, a palavra do mano Libório carece ser honrada, pois não. Trato é trato, e palavra de Carneiro nunca voltou atrás...

          O som roufenho da sanfona recomeçou, rasgando a noite estrelada. Tonico sentiu um arrepio de frio. Mais do que a insistência do velho, fraquejavam-lhe o ânimo os conceitos finais, tão bem analisados por ele. E fato, quando combinara com, Zazá o desfazimento do noivado daquela maneira, não pensara que a palavra do tio ficaria desmoralizada, que a desgraça alcançaria também a ele e ao pai, o velho Conrado, tido e havido como homem verdadeiro, orgulho dos Carneiro, cuja palavra fora sempre honrada. Abaixou a cabeça, disse, a voz sumida em tristeza e desânimo:

          - Sou culpado, tio Jerô, e muito. Quando a prima me falou que não gosta do noivo, que foi por medo de ficar pra titia que aceitou o pedido dele, e, que, agora, atinou com o erro em que caíra, eu devia dar conselhos a ela, me afastar. Mais porém, quem é que está livre de uma coisa dessa? Vi a prima e me arrasei. Estou pelo que der e vier. Não vou, agora que combinei tudo com ela, fugir com o rabo entra as pernas, que nem cachorro sem dono. Amanhã, depois que ela desmanchar o casamento, a gente vê logo o que vai acontecer.

          - Nããão, sêo danado! E a palavra do Libório?

          - Não falto ao respeito de vosmecê, tio Jerô, dizendo que o que gorou foi a palavra dela, a do tio Libório, não.

          - É a mesma coisa. Quem prometeu ela em casamento foi meu irmão. E, se assim foi, se ela não casar com o Dico Pereira, Libório fica desmoralizado.

          - Antão, vosmecê quer dizer que eu estou no mato sem cachorro?

          O velho sorriu, cofiou a barbicha esbranquiçada, descansou a mão no ombro de Tonico

          - Só há um jeito de se quebrar o trato...

          Ansioso, Tonico falou:

          - Se é vosmecê que afirma, não duvido.

          - Daqui a meia hora, quando o pessoal for cear, vosmecê vai se encontrar comigo atrás do curral. Faz de conta que vai fazer necessidades, não converse com ninguém. Sai de fininho e topa comigo lá...

          Sorriram os dois, Tonico preocupado, sem atinar com a solução que o velho Jerô havia dado ao problema; este, feliz da vida pela peça que pregaria em Dico Pereira.

         

          MEIA HORA DEPOIS, Tonico esgueirava-se pelo oitão da casa-de-farinha, ganhava a cerca do curral. Percebeu, lá adiante, vultos de animais arreados e, ao lado do lazão crina-branca, a prima Zazá. A voz dela, ciciada, carinhosa, envolveu-o:

          - Me ajude a montar, bem...

          Tonico sorriu. Compreendeu que, de fato, furtando, assim, a moça, o trato feito pelo tio não estava descumprido.

          Gaguejou:

          - Nossa! Zazá, que coisa doida a gente fez...

          E ela, nervosa e feliz:

          - Se apresse, bem. Tio Jerô e tia Sinhá dispararam na frente e esperam a gente na fazenda deles...

 

(BAZÉ – ESTÓRIAS SERTANEJAS)

Nelson de Faria

 



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O escritor NELSON DE FARIA

Julgado pela crítica brasileira:

 

“Os novos contos, acrescidos à primeira edição, 

são da mesma alta qualidade dos anteriores. 

A mão do mestre se reconhece em qualquer dos seus contos”.

RIBEIRO COUTO

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sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

ITABUNA CENTENÁRIA UM POEMA: Lira I – Tomás Antonio Gonzaga



Lira I


Eu, Marília, não sou algum vaqueiro,
que viva de guardar alheio gado,
de tosco trato, de expressões grosseiro,
dos frios gelos e dos sóis queimado.
Tenho próprio casal e nele assisto;
dá-me vinho, legume, fruta, azeite;
das brancas ovelhinhas tiro o leite,
e mais as finas lãs, de que me visto.
Graças, Marília bela.
graças à minha Estrela!

Eu vi o meu semblante numa fonte:
dos anos inda não está cortado;
os Pastores que habitam este monte
respeitam o poder do meu cajado.
Com tal destreza toco a sanfoninha,
que inveja até me tem o próprio Alceste:
ao som dela concerto a voz celeste
nem canto letra, que não seja minha.
Graças, Marília bela.
graças à minha Estrela!

Mas tendo tantos dotes da ventura,
só apreço lhes dou, gentil Pastora,
depois que o teu afeto me segura
que queres do que tenho ser senhora.
É bom, minha Marília, é bom ser dono
de um rebanho, que cubra monte e prado;
porém, gentil Pastora, o teu agrado
vale mais que um rebanho e mais que um trono.
Graças, Marília bela.
graças à minha Estrela!
(…)

(Publicado no livro Marília de Dirceu: Parte I (1792), – Obras completas. Ed. crít. M. Rodrigues Lapa. São Paulo: Ed. Nacional, 1942. (Livros do Brasil, 5))

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ESCRITORES BRASILEIROS DO SÉCULO XX - Cyro de Mattos

 


     Escritores Brasileiros do Século XX               Cyro de Mattos            

              

            Em sua contribuição enciclopédica e analítica da literatura, Nelly Novaes Coelho, intelectual rara, desincumbe-se da jornada literária com erudição, consciência crítica e uma santa paciência de pesquisadora. Ela sempre está surpreendendo. Depois de enriquecer o corpo das letras brasileiras com volumes importantes, como Literatura e Linguagem, Literatura Infantil, Dicionário Crítico de Escritoras Brasileiras, Dicionário Crítico de Literatura Infantil e Juvenil Brasileira, Panorama Histórico da Literatura Infantil/Juvenil, na idade em que muitos já aposentaram suas ferramentas, eis que ela pra lá dos oitenta anos comparece com ensaios fecundos para brindar seu público leitor com a obra Escritores Brasileiros do Século XX, publicado pela Editora Letra Selvagem.

           Monumental testemunho crítico, o alentado volume é resultado de cinquenta anos de pesquisas, leituras e releituras de obras apresentadas em cursos universitários, congressos, seminários, colóquios, no Brasil, Portugal e Estados Unidos da América. São oitenta e um escritores analisados neste precioso e extenso livro. Dos mais conhecidos, como Jorge Amado, Graciliano Ramos. Guimarães Rosa, Mário de Andrade e João Ubaldo Ribeiro, passando por nomes expressivos que ficaram esquecidos pela crítica e do mercado editorial, como Cornélio Pena, Gustavo Corção, Adonias Filho e Murilo Rubião.       

         E ainda outros que precisam de divulgação para que melhor sejam conhecidos:   Ricardo Guilherme Dicke, Mora Fuentes, Samuel Rawet e Nicodemos Sena. Todos esses autores, elencados nessa obra de natureza o  enciclopédica, dão voo à razão e à emoção quando abordam a problemática existencial do ser humano e a crise de uma sociedade exaurida de valores e sentidos. Dão imaginação e transcendência ao mundo.
         A ensaísta admirável revela:

        - Foi a “Sorte ou o Acaso” que puseram em meu caminho os oitenta e um escritores reunidos e analisados neste meu último livro.

        A generosidade, a humildade e a solidariedade são marcas da alma dessa enorme ensaísta.   Os autores no extenso volume analisados tiveram, sim, a sorte ou o acaso,  posto em seus caminhos para a leitura crítica dessa valorosa analista literária.

        Ela disse:

        - Um autor para ser instituído como cânone precisa de um crítico dotado  de instrumental teórico suficiente que  chame atenção para as questões estéticas, seja capaz de revelar os elementos estruturantes que entraram  na composição da  forma e conteúdo da sua obra.
         No meu caso,  de autor baiano insulado na cidade natal, no sul da Bahia, distante do eixo Rio e São Paulo,  que ainda hoje  funciona como tambor cultural desse país inculto e enorme, por mais que o mundo de uns tempos para cá tenha se tornado uma aldeia globalizada, nem sei como agradecer nossa inclusão  na relação desses escritores conceituados, selecionados e reunidos  no testemunho crítico da professora doutora Nelly Novaes Coelho.
         Vale a pena repetir o que certa vez ela disse sobre a literatura:

      - Sem leitura e escrita a vida não tem emoção. 

         Essa Nelly Coelho Novais, que viveu para amar a literatura e que, com uma vocação valorosa, na passagem dos anos, tanto demonstrou quanto a amava.

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Cyro de Mattos, poeta, ficcionista, cronista, ensaísta e autor de literatura infantojuvenil. Publica quinzenalmente uma crônica na revista digital RUBEM.

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quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

RETUMBANTE CONVERSÃO DE UM JUDEU – Plinio Corrêa de Oliveira

 


REPRESENTAÇÃO DA APARIÇÃO DE

NOSSA SENHORA A ALPHONSE

RATISBONNE

No dia 20 de janeiro de 1842, há exatamente 180 anos, o judeu Alphonse Ratisbonne se converteu milagrosamente ao catolicismo, por intervenção direta de Nossa Senhora

Plinio Corrêa de Oliveira

De família muito rica de banqueiros de Estrasburgo (Alemanha), o jovem judeu Alphonse Tobias Ratisbonne (1814-1884) percorria vários países. Após uma viagem ao Oriente, em 1842 passou uma temporada em Roma, onde se encontrou com um antigo colega, Gustavo de Bussières, de religião protestante. Na residência deste, conheceu seu irmão, o Barão Teodoro de Bussières, que havia se convertido ao catolicismo.

Naqueles dias falecera em Roma um grande amigo do Barão, o Conde de La Ferronays (1777-1842), ex-embaixador da França junto à Santa Sé.

Assim, Bussières convidou Ratisbonne para acompanhá-lo à igreja de Sant’Andrea delle Fratte a fim de tratar de uma cerimônia fúnebre pelo falecido. Concordou de mau grado, pois o judeu detestava a religião católica, mas como turista iria para apreciar as obras de arte daquela igreja romana.

Após tratar do assunto da cerimônia, o Barão de Bussières voltou para o centro da igreja e se deparou com uma grande surpresa: Ratisbonne ajoelhado em frente ao altar lateral de São Miguel Arcanjo! O judeu rezando fervorosamente, extasiado, maravilhado.

Banhado em lágrimas, disse ao amigo que tinha visto Nossa Senhora numa aparição sobre o altar. Pela descrição que fez, tratava-se de Nossa Senhora das Graças, como aparece na Medalha Milagrosa [foto ao lado].

Ratisbonne achava-se completamente mudado, estava convertido, e queria mudar de vida. Ele se fez batizar. Alguns até consideram que ele tenha morrido em odor de santidade.

Naquele altar da aparição foi introduzido um quadro que representa Nossa Senhora segundo as descrições de Ratisbonne. Ela é chamada de Madonna del Miracolo (Nossa Senhora do Milagre).

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Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio

Corrêa de Oliveira em 20 de janeiro de 1973. Esta

 transcrição não passou pela revisão do autor. Fonte:

Revista Catolicismo, Nº 853, Janeiro/2022.

https://www.abim.inf.br/retumbante-conversao-de-um-judeu/

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