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quinta-feira, 7 de julho de 2022

MENINO BOM, TÁ AÍ! – Nelson de Faria

 


                                                     “Quem quer se fazer não pode.

                                                      Quem é bom já nasce feito.”

                                                                                                 DITO POPULAR

 

            Havia gente, e muita, à porta do Bilhar Taco de Ouro, na Rua de Baixo, de Gabriel Monarca, também, conhecido por Biezinho Cururu, por via da cara gorda e bexiguenta, da boca resgada de orelha a orelha, quando ele ria, dos olhos negros saltados. Muito sujeito fraco e desprevenido experimentarão peso do braço dele, por inadvertência ou desconhecimento da jeriza que Biezinho devotava ao apelido, que, por sinal, lhe assentava bem, como luva. No Taco de Ouro, faziam ponto motoristas, boiadeiros, viajantes, pessoas desocupadas da vila. De instante a instante o grupo engrossava. O ar, viciado de fumo e odores de aguardente, era pesado, denso. Cabo Adonias, comandante do destacamento policial, foi chamado, às pressas. Acontecimento como aquele, desenrolado minutos antes, era raro no centro da cidadezinha. Nos arredores dela, nas vendas de ponta de rua, às vezes, umas duas ou três por ano, falando a verdade, o fato não despertava mais tanta atenção. O movimento às janelas e portas da Rua Direita era desusado. O prefeito, Major Suçuarana, sujeito valente, caladão, malicioso,  de faro fino, que nem o de raposa, arrastou a cadeira de vime para o passeio, refastelou-se nela, fingindo-se alheio ao que ocorrera na parte baixa de rua principal. Olhava, de soslaio, os jornais chegados pela manhã desdobrados à sua frente, pigarreava, gozando o espetáculo. Os três soldados, em cadência marcial, marchavam – um, dois, um, dois – sob as ordens do Cabo. Juntaram os calcanhares com estrépito, fazendo alto.  – Meia volta... volver! – Foi a ordem, seca, esganiçada, do comandante, no meio da rua, a cinco metros do prefeito. Cabo Adonias avançou, parou, levou a mão à pala do quepe, depois, em posição de sentido, aguardou ordens.

            - Faça recolher o defunto à sala da guarda. Enterre ele amanhã, depois que o Clodoaldo fizer o laudo do corpo de delito. Não convém muito alarido, muitas diligências. O rapaz, se bem andou, já botou muitas léguas atrás dele. Além do mais... – Coçou a cabeça, olhou em volta, certificando-se de que ninguém estava por perto, concluiu: - Quem caça, acha. Aquele sujeito carecia ser exemplado...

            - Antão, com sua licença, chefe. As ordens serão cumpridas.

            Os  soldados fizeram meia volta, continuaram o caminho.

            No chão, cimentado, caído de costas, as mãos escuras cruzadas sobre o peito largo, os olhos muito abertos, estava o corpo do motorista Zé Matias. Um filete de sangue fluía-lhe do canto da boca entreaberta. Mãos piedosas colocaram uma vela acesa ao lado dele. Cabo Adonias, impondo a autoridade do cargo, inflou as bochechas, estufou o peito, berrou:

            - Qual foi o enxerido que virou ele?

            As conversas pararam de repente. Havia susto nos olhos dos homens. Abriram roda, entreolhando-se. Voz pastosa, indicativa de criatura em início de embriaguez, rompeu o silêncio:

            - Saiba vossa senhoria que foi esta sua criada, aqui, que revirou o pobre, que golfava sangue da boca, e tava se afogando nele. – Fez uma pausa, levantou mais a cabeça de cabelos oxigenados, continuou: - Vosmecê, comandante, carece ter mais caridade com o falecido....

            Era Fifina, um pedacinho de mulher, deste tamanho, ainda bonita, apesar dos dois caninos chumbados a ouro e da vida dissipada que levava. Bichinha valente, pra danar, já havia espancado umas três concorrentes, anavalhado a cara de um rapazinho que se metera a besta com ela. Arrotava valentia, não tinha papas na língua.

            Adonias fitou a mulher bem dentro dos olhos dela, lembrou-se dos abraços apertados, das boquinhas gostosas que a diabinha sabia dar. Fechou o cenho, falou alto, voltado para os homens, para não magoar a mulher:

            - Lei é lei, Dona Josefina. A lei diz que ninguém pode mexer em defunto matado, para não desfazer as pistas, não atrapalhar a investigação. Desta vez, perdoo a ignorância da lei e dos regulamentos...

            - Deve estar correto o que vosmecê fala, comandante. Não sei nada de leis. Mais porém, deixar um vivente se acabar, como este aí, cora o coração da gente. Me desculpe se agravo vosmecê. Deixo não, gente, deixo não...

            Cuspiu no cimento do chão, passou as costas da mão na baba que lhe escorria dos lábios pintados, arrepanhou as saias, empurrou os homens que fechavam o círculo em torno dela, refugiou-se a um canto do salão. Caiu sobre uma mesa, desandou a soluçar, babando e chorando... Cabo Adonias tentou arrolar testemunhas do crime. Ninguém vira nada, ninguém sabia de nada. Biezinho contava: “O motorista parou o caminhão, chegou de junto do balcão e pediu um martelo de pinga. Ofereceu um gole pra mim, recebeu resposta de negação, porque eu não bebo; perguntei se queria mais. ‘Nhor não, foi a resposta. Só unzinho, pra clarear as vistas. Vou viajar a noite toda, quero chegar em casa de madrugada.’ Arrolhei a garrafa e levei a venenosa para a prateleira. Ouvi um barulhinho, às minhas costas, que nem dava para assustar um gato. Quando voltei o rosto, vi o extinto, o cujo aí, rodando nos calcanhares, as mãos na barriga, gemendo e soluçando. Um outro homem, que eu não vi chegar, afastou o corpo, para o ofendido não murchar em riba dele... Mais porém, não conheço o rapaz que fez o serviço, nhor não!”

            Aquilo era esperado por muita gente que conhecia o morto. Zé Matias, morador do arraial da Estiva, comprara um Fê-Nê-Mê, vivia transportando mercadorias de e para Salvador. Sujeito casado, pai de filhos, perdera a vergonha, o respeito dos mais. Viciou-se em engambelar mocinhas, induzindo-as com promessas de bons ordenados nas casas ricas da Bahia. Abusava das pobrezinhas, tirava-lhes os vinténs, se os possuíssem, largava-as nas cidades pequenas, por onde passasse, ou nos acampamentos, à beira das estradas. A última que viajou à boleia do carro dele foi Mariazinha, já de casamento conversado com Zé Procópio, rapazinho calado, manso, que, diziam, era incapaz de matar uma pulga.

            Fazia três meses que o rapazinho vivia em desassossegada andança. Ao entardecer, hora de chegarem motoristas que vinham de longe, ficava rondando portas de vendas e pensões.

            Naquele dia, à boquinha da noite, Zé Procópio aberturou o cujo e rasgou o bucho dele... Uns poucos viram o rapaz limpar a faca suja de sangue na perna da calça, colocá-la na bainha, sair andando de modo leviano, que nem inocente, e entrar na casa do prefeito. Quando Cabo Adonias parou, fazendo continência, Zé Procópio, que espiava a cena por uma fresta de janela da sala de visitas, estremeceu, suando frio. Depois, sorriu, ouvindo as ordens do chefe. Ajeitou o corpo, limpou o suor da testa e dos beiços, continuou a espiar o movimento da rua, o pensamento viajando por longe, muito longe. Indagava-se: “Por onde andaria Mariazinha, a culpada de tudo aquilo?”

 

            O OLHO CLÍNICO do Major Suçuarana descobriu, sem tardança, as qualidades de bom pistoleiro que dormiam dentro de Zé Procópio, despertadas naquela tarde. A calculada fuga da cena do crime, a calma do procedimento dele, procurando abrigo à sombra do maioral, sem deixar que muitos o vissem entrando na casa, a fala mansa do moço, relatando o fato, como se aquilo nada significasse: “Major, me garante minha pessoa porque mandei, agorinha mesmo, um danado pras profundas...” – tudo aquilo, e mais o jeito dele, humilde, sonso, eram qualidades apreciáveis num primário, bem pesadas pela experiência sertaneja do Major Suçuarana. Quando o corpo do morto passou pela frente da casa, era noite fechada. Suçuarana chamou o rapaz. Postados à janela, os dois viram a rede balançando-se, levada por dois soldados, Cabo Adonias à frente deles, com uma lanterna elétrica na mão. Zé Procópio sentiu um arrepio percorrendo-lhe o corpo, dos pés à cabeça. Quis recuar para a escuridão da sala. Uma sensação de enjoo tomava-lhe todo o estômago. Ouviu a voz seca, autoritária do padrinho:

            - Com medo? Homem, que é macho mesmo, não fraqueja. Aguenta ver, sem trastejar o malfeito que cometeu.

            - Nhor sim. Mais porém,  tou todo arrepiado, sentindo um entojo, parecendo de mulher almojada...

          - Pois, então, vamos curar a doença, que é coisa sem significância. Me siga, sem debicar do finado, sem conversar com os mais, como se não conhecesse ninguém.

            O defunto estava largado no chão duro, atijolado. O busto desnudo mostrava largo e comprido talho, que ia da caixa dos peitos à cova do umbigo. Golpe horrível, deixando entrever vísceras sanguinolentas e destroçadas. Suçuarana chegou de manso, quase sem ser pressentido. Recebeu as continências de estilo, tirou o chapéu, olhou demoradamente o corpo desventrado. Não disse palavra. Cabo Adonias contou:

            - Sujeito destemido, esse um que fez o serviço. Ir pra riba do cabra, encalcar nele palmo e meio de  aço, bem no bucho, sem boquejar, sem tremer a mão, é valentia danada, de se invejar. Ora, pois. Coisa parecida, que me acode ao bestunto, só vim no Mato Verde, faz tempo, quando eu era anspeçada. Foi o caso de um sujeito abrir a barriga de uma dona prostituta inté nas partes, lá dela – com licença da palavra – numa vezada só...

            Major Suçuarana arregaçou o canto da boca num sorriso tranquilo, olhou de viés para os curiosos amontoados à porta, enxergou, de uma mistura com quatro ou cinco, Zé Procópio, os olhos brilhando, sem uma contração na cara morena e séria. Pôs o chapéu na cabeça, puxou a aba dele sobre a testa. Despediu-se. Perdeu-se na noite escura. À sua retaguarda, colado a ele que nem sombra, o novo guarda-costas, fazendo jus ao pensamento do chefe: “Menininho bom, tá aí! Nem pestanejou. O diabinho vai longe...”

 

(BAZÉ – ESTÓRIAS SERTANEJAS)

Nelson de Faria

 

............

O escritor NELSON DE FARIA

Julgado pela crítica brasileira:

 

          “Os novos contos, são da mesma alta qualidade dos anteriores. A mão do mestre se reconhece em qualquer dos seus contos.”

RIBEIRO COUTO

* * *

 

 

 

quarta-feira, 22 de junho de 2022

QUEM AVISA... - Nelson de Faria



Quem Avisa...

                                                    

                                        “Fogo de morro arriba,

                                          Água de serra abaixo,

                                          Mulher de cabelo na venta

                                          - Meu Deus do céu! –

                                          Quem é que guenta?”

                                                              VERSO POPULAR

 

            Dona Enedina, da Fazenda Brejo do Meio, era muito mais conhecida do que o marido, Godofredo Pereira (em documentos legais) ou Godô Titica – às escondidas e para o resto da vida. Sujeito pinoia, esse Godô, um pinguim de homem, “raspa de tacho” dos Pereiras, do Brejo de Cima, que foi gente boa, mais porém afuleimada. Ninguém atinava com o porquê de o caçula dos Pereiras ser como era: piruá no meio de pipocas. Para completar, o fulustreco era perdigoteiro inveterado. Por via de algo estranho, inexplicável, o trem à-toa chegou ao mundo sem ser esperado, dois meses antes da data prevista. Quando ainda menino de escola, ganhou  o acréscimo Titica ao Godô, seu apelido certo. Com o correr dos anos, mas sem nunca lhe haver chegado aos ouvidos a coisa infamante, simplificaram o apelido, e ele passou a ser Titica, tão-somente. Já crescido – bom, crescido é força de expressão, porque, mesmo pelanco, era do tamanho de menino de doze anos -, já crescido, e por influência de rapazinhos sabidos, brincou com mulher pela primeira vez e se estrepou. Além de umas coisas que lhe estragaram as vergonhas, que o transformaram em alambique durante meses, destilando humores, ganhou ele uma moléstia de pele que, agora, ao chegar a velhice, se transformara numa cafubira danada. Braços e pernas lixentos, quando o comichão o atacava de repente, ficavam em petição de miséria. Suas unhas sujas levantavam pequenas nuvens de pó branco e fino, parecendo fubá de arroz. E o sujeitinho não paliava, coçava-se à vista de qualquer pessoa. Nem Siá Dina conseguia botar um paradeiro naquilo. Acabou largando de mão a coceira dele, empunhando com segurança as rédeas do governo da casa, da fazenda, de tudo. Mandava e desmandava dentro e fora dos seus limites territoriais. Daí, ser mais conhecida e respeitada do que Godô Titica. A inclinação que ela tinha de ser mulher macha vinha de longe, em desde ela mocinha, de cara sardenta e narizinho arrebitado. Não era fruto da moléstia que se conservara escondida tantos anos na carcaça do Godô e, sim, necessidade de colocar em ordem os negócios periclitantes do marido. Metera-se ele em tantos e tão mal sucedido fora, que Siá Dina, um dia, após discussão na qual ela não gastara mais do que uma gota de cuspe, e sem caridade pela cara de inocente fracassado que estava diante dela, falara alto:

            - Agora, atino que você se derrotou. Tomo conta da trenheira toda. Enfio umas calças de homem – de homem mesmo! – não essas que estão aí nessas suas pernas de menino, e acerto as coisas. A obrigação mais pesada é a que temos na gaveta do compadre Tinoco, né mesmo? Mais porém, tem prazo dilatado pra mais um ano, não foi o que ele disse? Pois então? A gente não se afoga num dedal de água. A gente vende o touro gademar – ele é menso, eu sei, mais porém vale bom dinheiro – umas dez vacas do fundo, acerta os juros, diminui a dívida. Se restar o casco da fazendinha só, a gente começa de novo...

          Dito e feito, Madrugadinha, Siá Dina estava de pé. O animal arreado, escarranchava-se sobre a sela, que nem homem, e saía numa toada só, correndo as mangas, dando ordens aos empregados, impondo sua vontade. Não escolhia montaria. Qualquer uma, ao gosto, mesmo que fosse passarinheira ou fuá. Montava-a com desembaraço, esporeava-a a preceito. Horas depois, o cavalo estava ofeguento, trocando as pernas, tropicando, lavado de suor. Siá Dina suxava qualquer cavalo. Era criatura que não gostava de lelês; mais porém, fumaçava à-toa. Dos fumegas, tolerava Godô, porque não tinha mais jeito. Quando moça, diziam, era uma pintura. Ainda hoje, apesar dos quarenta, era palpitosa, botava água na boca de muita donzela enfeitada. Enquanto a mulher se esfalfava, tentando por ordem nos negócios, que iam de mal a pior, Godô continuava a se coçar, ao embalo da rede, na varandinha da casa. Fazia, agora, o que sempre fizera: alisava a palha, picava o fumo, palmeava-o, enrolava o cigarro e acendia um na bagana do outro, amarelecendo de sarro a bigodeira caída sobre os beiços murchos. Estava ele assim, o pito preso entre os cacos de dentes, o olhar longe, perdido no céu azul sem nuvens, sonhando de olhos abertos, quando percebeu que alguém estava parado ao pé da escadinha da varanda. Fixou o vulto e nele reconheceu o Durvalino, camarada de confiança de Sêo Tinoco, do Brejo de Baixo. Atrevido, o chapéu de abas largas quebradas na frente da testa, um piraí trançado sobrando do cano da bota, aproximou-se, bateu palmas, gritando, como se Godô Titica não existisse:

           - Ô de casa!

           - Se achegue e se abanque, Sêo Du. Vosmecê é de paz, e a casa é dos amigos.

            A voz de Godô era um fiapinho, contrastando com o tom abaritonado da do outro, um galalau de homem, desempambado, cumpridor de ordens do patrão.

            - Não me abanco, porque vou adiante, mais légua e meia, em diligência. Trago um recado do Major Tinoco, que manda dizer pra vosmecê que pensou e repensou no caso e não pode mais esperar. Apareceram outros negócios...

            - Mais, Sêo Du, o compadre Tinoco não pode querer desgraçar a gente de uma vez. Ele me deu a palavra dele.

            A voz era de quem estava alarmado, trêmulo, acovardado. Durvalino gozava o constrangimento que lia na cara murcha de Godô, e sorria, fingindo comiseração. De uma das janelas, a voz forte de Siá Dina interrompeu aquele sorriso de deboche:

            - O recado já foi dado. Vosmecê não carece aumentar mais nada. A gente não manda o troco, agora, porque nossa conversa com ele é particular. Vancê pode voltar, recobrindo o rasto pra trás, que o mais eu ajeito.

            Apanhado de surpresa, Durvalino fez meia volta, tirou o chapéu, humilde, os olhos no chão

            - Me desculpe, Siá Dina. Não salvei vosmecê porque não vi sua aproximação. Falava pra Sêo Godô num recado mandado...

            E ela, enérgica, interrompendo-o:

            - Falei que o recado está dado. Vancê pode voltar, já disse.

            Fechou a cara, levantou a cabeça, pondo um ponto final na conversa. Durvalino saiu, montou o piquira, ganhou a estrada.

            - Vou na casa dele, Godô, agora mesmo, ajeitar as coisas. Antão será direito a gente perder as terras pra compadre Tinoco, sujeito sem alma, me arresponda, Godô, me arresponda? Sinto inté uma coisa me subindo do umbigo pra riba, por via da impostura dele.

            Enquanto isso Durvalino cismava: “Êta mulher macha, de cabelinho nas ventas! Gosto de ver uma diaba assim, despachada, que tem pimenta na língua e fogagem no rabo. O que deixa a gente dessossegado é ver uma prenda dessas dada a um caguincha daqueles, sujeitinho sem talento para aguentar o rojão. Vai ver... o porqueira não conhece nem a metade daquele mundo...”

            Sêo Tinoco ruminava o almoço, espichado na rede. Cochilava, de consciência tranquila, certo de que teria suas terras aumentadas de mais uns cinquenta alqueires, tomados às do Brejo do Meio, liquidando Tiririca e sua gente. Cochilava e sorria. A rede ia e vinha, preguiçosa, acolhedora. Havia silêncio na varanda ensombrada e fresca. Sêo Tinoco ruminava... a porteira do pátio bateu com violência, os cachorros latiram, um bem-te-vi assustou-se, largou a lagartinha-compasso que saboreava, voou para longe. Sêo Tinoco abriu os olhos sonolentos e divisou a mulher sofreando o cavalo. Mal refeito do sono interrompido, reconheceu a comadre.

            - Ora viva, que surpresa!

            Avançou, ainda incerto das pernas, para segurar o estribo – como se usa receber uma visita cavaleira -, o sorriso aberto na cara assustada:

            - Desamonte, comadre, a casa é vossa, o oferecimento sai do coração.

            Ofegosa, sem mesmo desejar-lhe um “bom dia”, Siá Dina foi falando:

            - Me releva a falta, mas porém não desapeio, nhor não, porque, hoje, não vim visitar a comadre Donana.

            Tomou fôlego, aquietou o cavalo, indócil por via de umas mutucas, batendo com a mão espalmada no pescoço dele, continuou, meio engasgada:

            - Vosmecê sabe, compadre, que eu não sou mulher de leréias e pendengas. As coisas comigo são no risco da lei, da palavra dada. Parece que vosmecê é homem de verdade, falou que a gente ficasse descansada durante um ano, não foi? Agora, sem quê nem pra quê, vosmecê mandou aquele recado arrevesado...

            Sêo Tinoco interrompeu-a:

            - Ora, comadre! Vosmecê não precisa sangrar na veia-da-saúde. O Du é sujeito especula. Se andou falando coisas que não devia, é da conta e do risco dele. Não mandei aviso pra dessossegar ninguém. – E, abaixando a cabeça, desconversando: - E o compadre, como vai de saúde, está melhor dos incômodos? Já combinei com a Donana uma visitinha, qualquer dia...

            - Pois, compadre, não foi entendimento enganoso, nhor não. Vim aqui pra desenturvar as coisas e digo pra vosmecê, sem botar um só porém na minha fala... – Parou, as mãos trementes tentando segurar as rédeas, o olhar firme na cara lívida de Sêo Tinoco: - Se vosmecê procurar a justiça antes do prazo que deu pra nós, ninguém de sua gente botará os pés nas terras do Brejo do Meio... A gente espandonga vosmecê e os mais...

            Deu de rédeas, esporeou o cavalo, ganhou a estrada, soverteu-se na poeirada.

 

(BAZÉ – ESTÓRIAS SERTANEJAS)

Nelson de Faria

          

segunda-feira, 21 de março de 2022

MUNDICA PINDONGA – Nelson de Faria



Mundica Pindonga
Nelson de Faria

           A notícia nasceu mofina, desinteressante, naquela casa de porta e janela da Rua dos Sete Pecados. Engatinhou pela rua abaixo e foi crescendo. Disparada, passou ventando pelo Largo da Igreja. Engrossou mais ainda na Rua de Cima e atingiu, já gordota, a Ladeira do Cansa-Cavalos. Aí, na casa do Tonico Salatiel, parou um tiquim – a mó que descansando do esforço da subida. Voltou, desembestada, já arrebentando botões de braguilhas, alargando bocas em gargalhadas descontroladas. Os mais discretos paravam para ouvir os comentários ferinos e seguiam caminho,  de nariz franzido e, à flor dos lábios, um sorriso de incredulidade. Os que não tinham papas na língua comentavam o fato, sem caridade pela desgraça alheia. Outros, numa papeada danada, ouviam com atenção, levantavam os olhos para o céu:

          - Coitado do Joaquim-Mutamba! Homim bom, tá ali, sem fel, sem peçonha, sem nada...

          Na venda do Chico Quirino, um da roda falava alto:

          - Pois, não é que o Quincas-Mutamba se estrepou! Mundica desmoralizou o cujo de uma vez. Também, pra quê se engraçar com uma quenga daquelas?

          Confidenciavam-se, esgravatando-se o caso. Dizia Zé Orestes na botica de Sêo Arrudas, enquanto este suspendia a manipulação de um elixir depurativo:

          - A Mundica desceu as calças do lenheiro, prendeu a cabaça do cujo entre as pernas – nossa, que posição desgraçada, sô – e aplicou, nos traseiros dele, umas boas chineladas. Foi assim que me contaram, nhor sim... e eu estou vendendo o peixe pelo mesmo preço da compra...

          Filogônio Arrudas, o boticário, gostava de eufemismos, empregava palavras de pronúncia difícil, expressões em desuso. Fazia-se de letrado, de prestígio avantajado, abusando desse artifício. Falou, sorrindo:

          - Então, Zé Orestes, o glúteo do Quincas ficou como se fora cara de menino rico, sanguínea e edemática, não é assim?

          Zé Orestes confirmou, com um sorriso canalha na boca desdentada, embora não soubesse o significada daquelas palavras estranhas aos seus ouvidos. Estimulado pela curiosidade que lia na cara do boticário, Zé Orestas descreveu a cena com tanta riqueza de detalhes que Filogônio Arrudas e, logo depois, toda a cidade não tinham mais dúvidas:  Quincas-Mutamba apanhara – e de chinela! – de Raimunda Pindonga, dita Mundica Tomba-Homem, cuia das mais muito faladas do sertão de Cateriangongo. Não era aquela a primeira de suas façanhas comentadas. Diziam que ela já havia tirado a pevide de muito sujeito de pabulagem. Avalentoava-se à toa, a danada. Não deixava a mandioca pubar. Suas amigas mais chegadas falavam que a cuja era inté criatura prestativa, mão-aberta, dadeira sem limites. Mais porém, quando gostava de um homem – coisa não muito frequente – gostava mesmo muito, muito, desse gostar que deixa a gente de siso raleiro, não admitindo conselhos e insinuações. Sentia ciúmes e começava a beber. O pior de tudo era que um dedal de restilo esquentava o sengue dela, e era aquela lazeira. Trepava nos tamancos. Se o cabra não fosse esperto, virava molambo entre as pernas dela. Remanisca, forçuda pra danar, dava logo dois tombos no cujo, prendia-lhe os braços entre as coxas musculosas e se ria, depois, toda ancha, gozando a derrota do espevitado. Se o preferido, porém, era forte, cabra sem belida, de ideias alimpadas, a mulata, primeiro, afrouxava as carnes dele com carinhos de sustança; amolentava-lhe as forças com mixilanga somente dela conhecida e, quando percebia que o sujeito não aguentava mais uma gata pelo rabo, investia. Aplicava-lhe cabeçadas na barriga, jogava-o no chão, arranhava-lhe as bochechas. Despois... bom, despois, sentia remorsos da doidera praticada, passava meizinhas nas feridas do infeliz, chorava, chorava, implorando-lhe perdão. Despachava aquele, curtia jejum de homem dois ou três meses. Por via dessas coisas malucas, foi que o apelido “Tomba-Homem”, que nela se ajustava que nem visgo, pelo sertão se espalhou como azeite que se derrama em riba da água.

          Ora, muito que bem. Quincas-Mutamba era sujeito estimável. Magro, pacato, pequeno de corpo, viúvo sem filhos, ganhava a vida fornecendo lenha às cozinhas da Rua dos Sete Pecados. Madrugadinha, no coice de dois jegues, ia longe, légua e meia ou mais, voltando à tarde. Entregava um feixe aqui, umas achas acolá. Recebia magros tostões, passava na venda do Nicácio, fazia suprimento de boca, engrossava uns dois martelos de pinga, saía meio troviscado. Desencilhava os jegues, examinava-lhes as cernelhas maceradas. Entendia-se melhor com eles do que com o resto dos mortais. Naquela vidinha de pobre, vivendo no seu canto, sem malquerença com os mais, não fedia nem cheirava. Daí a surpresa que causou a todos aquela notícia estuporada. Nem a cidade suspeitava de suas ligações amorosas com Mundica Pindonga. Daquele dia em diante, passou ele a viver numa consumição dos diabos. Inté os meninos da rua se riam dele. Quincas-Mutamba não teve mais sossego. Embezerrou-se. Não saía mais da venda do Nicácio, não deu mais palavra a ninguém. Quando o último tostão foi jogado sobre o balcão e o martelo de restilo lhe tremeu nas mãos incertas, Quincas-Mutamba esquisitou-se. Fechou o punho, esmurrou o balcão, berrou um nome safado.

          - É hoje, porqueira! Espandongo aquela peste!

          Voltou-se para o vendeiro, os olhos faiscando de ira:

          - Quero mais um trago, mais porém, não quero fiado, nhor não. Pra pagar ele, dou pra vosmecê o jegue ruano, bichin bom de carga pra danar.

          Surpreso, Nicácio falou, com brandura:

          - Não carece vosmecê se desfazer do bicho por via de uma talagada, nhor não. Boto na conta. Vosmecê merece mais...

          Quincas interrompeu-o, decidido:

          - Mais, porém, se eu morrer na empreitada? Gardecido, Sêo Nicácio, gardecido. Não lhe ofendo se não aceitar, ofendo?

          Nicácio retornou, conciliador:

          - Ainda que mal lhe pergunte, por que é que vosmecê está assim, meio animoso? Figuro que vosmecê não tá à revelia com alguém, ou tá?

          Quincas-Mutamba tomou fôlego, abaixou a cabeça, murmurou:

          - Quero exemplar aquela diaba!

          - Figuro que não é gente de sua estimação...

          - É de muita estimação, nhor sim. Mais porém...

          O resto da frase perdeu-se no ar, porque Quincas já estava na rua, trocando pernas.

 

          No FUNDO DO QUINTAL, ensaboando panos, Mundica cantava. Quincas-Mutamba nem salvou a pobre. Parou na frente dela – que lhe sorria um largo sorriso de boas-vindas – e foi insultando:

          - Vagabunda! Se é valentia que corre no tutano do seu braço, porqueira, prove agora, cuia sem-vergonha!

          Mundica sorria, encalistrada.

          - Que bicho foi que te mordeu, nêgo? Espiritou? Tu andou bebendo, não andou? Não sou de brigar assim, sem mais nem menos. A frio, brigo não. Se tu botar inflamação no meu sangue, te esbagaço o esqueleto todo!

          Acorreu gente, ouvindo a xirimbambada.

          Quincas não conversou. Fechou a mão, levantou o braço, desfechou o golpe. Apanhou o ouvido da mulher, e ela caiu estatelada. Animosamente, ela se levantava, quando recebeu outro trompaço, no mesmo lugar da primeira pancada. Aí, afocinhou de uma vez. Quincas pabulou:

          - Conheceu, porqueira? – Sorriu para a assistência, afrouxou o correão, puxou da faca. – Só queria exemplar a danada. Se quisesse sangrar a bicha, tava na hora. Não sou esmiolado para fazer uma coisa dessas. E o homem que é macho, mesmo, não mata mulher. Bate nela, só pra exemplar. – E, como para justificar-se, arrematou: - Esta porqueira me achou escornado, me tolheu os braços, me arranhou a cara toda e saiu por aí, boquejando que me bateu. Ora, já se viu despropósito igual? Podia eu lá viver nessa consumição desgraçada, que me esquisitava inté? Podia? – Agachou-se, sungou a mulata pelos sovacos, ajudou-a a se levantar, passou o braço na cintura dela, segredou-lhe: - Te machuquei muito, nêga? Vamos pra dentro, anda.

          E ela, toda chorosa, ainda estonteada:

          - Ocê é ruim que nem cobra, nêgo. Pra quê fazer uma coisa destas na frente de tanta gente?

 

(BAZÉ – ESTÓRIAS SERTANEJAS)

Nelson de Faria

* * *

sábado, 22 de janeiro de 2022

TRATO É TRATO – Nelson de Faria

 


Trato é Trato 

Nelson de Faria

 

“Não negues o bem a quem de direito,

Tendo na tua mão o poder de o fazer”

                          Provérbios, 3. 27

 

          Era altanado, sabia disso, não porque alguém tivesse tido a ousadia de lhe dizer aquilo cara a cara. Sabia-o, naturalmente, pela sua própria maneira de encarar as coisas, pelos atos que praticara, em defesa de outrem ou no seu próprio interesse. Muitas vezes fizera coisas tidas como temerárias, mas que lhe deram prazer e o tornaram respeitado.

          Quando menino, lembrava-se, não era como as outras crianças, que tinham medo de sapo, de taturana, de rato ou lagartixa. Cresceu duvidando da existência de assombração. Ouvia falar em saci, mula-sem-cabeça, caapora, perna-fina e outros que tais. Sorria, incrédulo. Nunca os vira nas suas andanças. Não duvidava, mas não acreditava cegamente em benzedeiros e exorcismos, em rezas fortes que tiram inhaca, que alimpam a vida da gente. Vira coisas estranhas – ah! e muitas – que o deixavam em dúvida. Não discutia o assunto. Era destemeroso e, às vezes, também destemperado. Topava tudo. Montava em bicho brabo com a mesma tranquilidade com que atravessava um rio empanzinado ou empunhava uma vara de ferrão para espetar uma rês cangotuda. Não provocava brigas, mas não se acovardava diante de um perigo. Já matara canguçu, sangrara queixada a facão e, certa vez, esbarrara com uma suçuarana. Laçara a bicha, com uma gateza tal que deixara o próprio felino aturdido e sufocado. Proeza que andou nos versos dos cantadores mais falados, nas conversas dos queras mais papudos, desmesurando o pensamento de muita donzela, catucando as ideias de muita mulher sentimentalizada. De cabeça erguida, entrava numa venda, de lá saía de cabeça alevantada, mesmo que suas pernas teimassem em fraquejar. Assim fora desde pelanco. Assim seria pela vida afora. Ouvia calado a conversa dos outros, nunca empanando o pensamento alheio. Quando ia às festas, procurava os cantos, conservando-se da banda de fora, sem se envolver com os mais, quando a alegria deles virava matinada.

          Diziam que o procedimento dele era exemploso. Entretanto, de repente, saíra dos seus cômodos, arranjara já-começa pra se coçar. Tudo acontecera na festa do casamento da prima Zazá. Andara por aquelas terras quando ainda era menino, lembrava-se pouco daqueles parentes de seu pai – que daquelas paragens saíra para tentar a vida noutros lugares e se enriquecera. Os que ficaram, pelo que sabia, eram afazendados, gente de respeito. Apresentava-se como embaixador, para que soubessem, os que ali ficaram, que o velho Conrado, seu pai, continuava a amar sua gente e que não viera, também, para matar saudades, porque a esipra que, fazia anos, o atormentava, agora jogara-o na cama, atacando-lhe pernas e pés. Quando apeara, depois de dois dias de marcha batida, percebeu dezenas de olhos postos nele. Não conhecia ninguém. A varanda regurgitava, a conversa esmoreceu à aproximação daquele moço desconhecido que, nos trinques, tirava o chapéu, salvando:

          - Deus guarde a gente desta casa, presentes e ausentes.

          O velho Libório, os olhinhos apertados, pisca-piscando, aproximou-se.

          - Vosmecê é de paz, vê-se logo. Se achegue. Ainda que mal pergunte, qual é a sua graça?

          - Antônio Carneiro, filho de Conrado Carneiro. Me chamam de Tonico, nhor sim. Pelo que divulgo, vosmecê é o tio Libório? A sua bênção, meu tio.

          - Não boto minha bênção em homem. Em vancê, Tonico, dou o meu abraço de chegança, com satisfação. Já maginava que era gente minha, por via dos petrechos que vosmecê usa nos arreios, pelos ares de sua pessoa, mais porém, gente arredada, que os nossos olhos faz tempo que não divulgam.

          O velho Libório era orgulhoso, gostava de bons animais, bons arreios e arreatas de prata bem limpas, reluzentes ao sol. Diziam que nenhum dos descendentes do velho Carneiro desmentia a origem, pelo desempeno no montar, pelo trato que davam aos animais de sela. A confirmação ali estava, na sua frente, naquele jovem bem-vestido, melhor montado. O velho abriu os braços e estreitou o rapaz contra o peito ossudo. Tonico foi apertando a mão de um por um e, num simulacro de abraço, como de uso na terra, tocava as pontas dos dedos da mão esquerda no ombro do apresentado, recebendo de volta saudação igual.

          - Vim da parte de meu pai, que anda meio perrengue, com a embaixada de representar minha gente, que também é gente de vosmecê, no casamento da prima Zazá. – Estendeu o braço, apontou para o lazão crina-branca amarrado ao moirão: - Pai mandou aquela prenda, e pede pra Dona Zazá não arreparar na miudeza dela.

            O velho Libório avançou para o peitoril, a mão em pala sobre os olhinhos miúdos, avaliou o presente. Sorriu, viu que era valioso. Os olhos brilhando de prazer, falou:

          - Não carecia se incomodar, cativando a menina com um trem de quilate tão alçado.

          Tonico espalmou a mão, interrompendo-o:

          - Não é incômodo, tio Libório, é obrigação da gente.

          Conto pra vosmecê que o bichim já foi repassado, amansado de sela para donas e donzelas, é esquipador que dá gosto e é cria lá da fazenda, nhor sim.

         

          A notícia da chegada do primo, vindo de longe, trazendo um presente tão bonito para a noiva, alvoroçou o mulherio da casa, inté lá dentro, no fundo da cozinha. Apareceu, para cumprimentar Tonico, Siá Malvina, de mãos sardentas e magras, de olhos claros e corpo miúdo, dona da casa. Outras vieram. As casadas falavam com mais desembaraço. As solteiras olhavam o recém-chegado, davam-lhe em cumprimento as pontas dos dedos, baixavam os olhos, sentindo um friozinho subindo-lhes pelo braço ao contato daquela mão forte e cabeluda. Isaura foi a última. Tinha os cabelos brilhantes, o rosto empoado, as mãos ainda úmidas de água-de-cheiro, não escondendo que se arranjara às pressas. Siá Malvina fazia as apresentações: “Tiana, filha do compadre Belarmino; Mariazinha, filha de Eudóxia; Eudóxia, ela mesma, minha irmã gêmea; aquela ali, de blusa branca, Ritinha, é também filha de Eudóxia; de junto dela, Clarinha, filha de dona Joana, fazendeira vizinha; e Mariquinhas, Belinha, Teodora, Mundica, Zezé, Sinhá, Donana,...” todas amigas da noiva, gente vizinha, aparentada, ajudando nos doces e nos assados, nos bordados e crivos, casadas, umas, solteiras, poucas. “E esta, aqui, é a noiva, sua prima Zazá...”

          Era despachada, a mocinha. Foi logo se achegando, para o abraço do primo. Olhou-o bem dentro dos olhos. Tonico levou um choque ao apertar a mão da moça, ao cingir, entre os braços, o corpo bonito da prima. Pensou: “Será possível um sujeito como o Dico Pereira, que a gente via logo, sem mais aquela, que era um pamonha, que estava ali no canto, meio encalistrado, sem saber bem o que fazia das mãos, se as punha no bolso da calça ou se as deixava assim mesmo, largadas ao longo das pernas, será possível, indagava-se, que um soim daqueles, de carinha miúda e penugenta, iria ganhar assim, de mão beijada, uma mulher daquelas?” – Disfarçou a emoção, convidou os presentes para examinarem o cavalo.

          Daquele momento para a frente, Tonico passou a ser a pessoa mais importante da casa. Liquidou de uma vez o discutido prestígio do Dico Pereira que, apesar de mamparreiro e sovina, desfrutava ainda das atenções de uns poucos, por ser o noivo da Zazá. Agora, relegado, embiocou-se em pensamentos mesquinhos, ansioso para que aquele dia passasse rápido, chegasse o outro, viesse logo a noite, a madrugada... Ele e Zazá sozinhos no quarto...

          Fizeram roda no terreiro, admirando o presente trazido por Tonico.

          - Uma pintura! – Falou Siá Malvina.  – Coisa pra bico fino, de entendido, pois não!

          - Que trem doido, danado de bonito! – chegou gritando Sêo Jerônimo – tio Jerô, para todo mundo – velho de maneiras espalhafatosas, amável, casamenteiro, mulherengo, querido de moças e rapazes. Foi se achegando, levantou o beiço do animal, olhou-lhe a muda, alisou-lhe a crina branca, sedosa, comprida. Examinou-lhe os jarretes, finos, fortes, as ancas bem-feitas, o pescoço arqueado, o lombo linheiro. Olhou de viés para Dico Pereira, descansou a vista em Zazá, olhou de novo o cavalo, falou, sorrindo, pondo canalhice no riso e na voz:

          - Sim, senhor, bem se diz que “a melhor espiga é sempre para o porco pior” ...

          Todos riram, sem saber que ele se referia ao Dico Pereira, que, de olhos acesos, namorava o lazão de crina-branca, ruminando: “Presente danado de bom, bem a propósito. Tava mesmo carecendo de um cavalo que nem este. A Zazá vai aproveitar o bichim poucas vezes, porque eu enxerto ela na primeira semana...” Sorriu, degustando a ideia: “Mulher amojada não pode montar que nem homem... Antão, quando ela tiver entojada, o degas, aqui, vai aproveitar...”

 

          CASAMENTO NA ROÇA era assim mesmo: casa cheia de parentes, vizinhos, amigos. Os homens chegavam no dia. As mulheres, dois dias antes, para uma demão final nos doces, no enxoval, nas quitandas. À noite, dançavam-se polca, ensaiavam-se quadrilhas, valsas, puladinhos. Tonico desdobrava-se, dançando com casadas e solteiras. Conversava muito, sorria sempre, respeitoso, amável. Zazá bebia-o com os olhos, de longe; apertava-o nos braços, os cabelos à altura dos lábios dele, quando dançavam.

          Aí, o falatório começou. Primeiro, na cozinha, murmurado a medo, entre as crias da casa: “Moço talentudo, bonito que nem cromo, não faz pouco caso dos mais pobres, sempre prazenteiro, se ri à toa para qualquer um, conversa com a gente que nem um igual...” A mais ousada ariscou, num muxoxo: “Aquele um, sim, que foi feito para a Dona Zazá. Inté a gente fica assim-assim, sabendo que ela, amanhã, vai ser de Sêo Dico, homim sem sustança...” Depois, já sem freios, o boquejo alcançou quartos e salas, quando Zazá dançou pela quarta ou quinta vez com Tonico. Dico Pereira foi alertado pela mãe dele, Siá Jacinta, que, de nariz torcido, falava com Siá Malvina: “Donzela noiva não deve dançar mais de uma vez com um rapaz desconhecido...” Siá Malvina respostou, rápida, sentindo-se ofendida com o reparo da outra: “Homessa! Desconhecido, não, Siá Jacinta. Adonde já se viu dizer que parente é pessoa desconhecida? Vosmecê, assim, agrava a gente...” Siá Jacinta saiu muxoxeando, as muxibas do rosto tremelicando. Procurou o filho, cochichou-lhe venenos. Dico Pereira embezerrou-se, sem atinar com o que fazer. Tio Jerô, que não escondia sua jeriza pelo Dico Pereira, apanhou a coisa no ar. Delirava, ouvindo aqui, especulando acolá, sem opinar, sem se trair. Aproveitou-se de um descanso do sanfoneiro, aproximou-se de Tonico, segredou-lhe:

          - Careço de um particular com vosmecê. – Saíram os dois para a noite estrelada e morna. Sem mais aquela, falou: - Moço, vosmecê me desculpe o mal jeito da conversa. Não gosto de papear muito. Vosmecê é atilado, sem sobrosso, vê-se logo. Mais porém, não atinou ainda com o rebuliço que sua estampa anda fazendo na manada de rabo-de-saia desta casa. – Fez uma pausa, tirou uma baforada do cigarrinho de palha, como se estivesse em dúvida sobre o que dizer. Pigarreou, cuspiu, continuou:  - Todas elas estão assanhadas, que nem franguinhas no preparo da postura. Vosmecê não vê as coisas que nem nós, porque tá dentro do fogo, obrando sem maldades no pensamento. – Tonico ouvia calado, o sangue em ebulição, sentindo uma vontade doida de dizer umas verdades para o Tio Jerô. Esperou que ele terminasse a fala, pedindo licença para também acender um cigarro. O velho continuou: - Já pedi a vosmecê que me relevasse a conversa, que é coisa cá do meu bestunto. Ninguém me encomendou sermão. Quero que vosmecê fique sabendo que, além de ser seu tio, sou seu amigo. Já especulei tudo. Vejo que vosmecê não gosta de tranças, nem é espoleteado. Posso dizer, sem errar: se vosmecê tivesse aparecido aqui no mês passado, seria enganchado na família do Libório. Na minha, não, porque não tenho mais filha pra casar. Se tivesse, também eu queria vosmecê para meu genro. Das moças que estão aí na casa, a mais desarvorada é mesmo Zazá. Me contaram que, em desde que ela botou os olhos em vosmecê, não quer mais ouvir falar no nome do noivo. Vosmecê, que é homem e sabe que as coisas do mundo são mesmo muito enganosas, que não é criatura arreliada, me responda se não coisa muito à revelia desmanchar casamento na hora do dito. É ou não é?

          Tonico gostaria de continuar calado. Sentindo, porém, cosca na língua, confirmou que tudo já estava combinado com Zazá; que, na hora do padre perguntar: - “É do seu gosto receber este homem como seu legítimo marido” – ela diria – “Não” – bem alto, para que todos ouvissem. Aí, estava a coisa desfeita, o dito por não dito. Quis falar de outros detalhes, tramados com Zazá. Calou-se, ouvindo a fala do Tio Jerô:

          - Vosmecê não acha que é coisa estuporada desfeitear o rapaz na hora do padre dar o nó cego? Despois, a palavra do mano Libório carece ser honrada, pois não. Trato é trato, e palavra de Carneiro nunca voltou atrás...

          O som roufenho da sanfona recomeçou, rasgando a noite estrelada. Tonico sentiu um arrepio de frio. Mais do que a insistência do velho, fraquejavam-lhe o ânimo os conceitos finais, tão bem analisados por ele. E fato, quando combinara com, Zazá o desfazimento do noivado daquela maneira, não pensara que a palavra do tio ficaria desmoralizada, que a desgraça alcançaria também a ele e ao pai, o velho Conrado, tido e havido como homem verdadeiro, orgulho dos Carneiro, cuja palavra fora sempre honrada. Abaixou a cabeça, disse, a voz sumida em tristeza e desânimo:

          - Sou culpado, tio Jerô, e muito. Quando a prima me falou que não gosta do noivo, que foi por medo de ficar pra titia que aceitou o pedido dele, e, que, agora, atinou com o erro em que caíra, eu devia dar conselhos a ela, me afastar. Mais porém, quem é que está livre de uma coisa dessa? Vi a prima e me arrasei. Estou pelo que der e vier. Não vou, agora que combinei tudo com ela, fugir com o rabo entra as pernas, que nem cachorro sem dono. Amanhã, depois que ela desmanchar o casamento, a gente vê logo o que vai acontecer.

          - Nããão, sêo danado! E a palavra do Libório?

          - Não falto ao respeito de vosmecê, tio Jerô, dizendo que o que gorou foi a palavra dela, a do tio Libório, não.

          - É a mesma coisa. Quem prometeu ela em casamento foi meu irmão. E, se assim foi, se ela não casar com o Dico Pereira, Libório fica desmoralizado.

          - Antão, vosmecê quer dizer que eu estou no mato sem cachorro?

          O velho sorriu, cofiou a barbicha esbranquiçada, descansou a mão no ombro de Tonico

          - Só há um jeito de se quebrar o trato...

          Ansioso, Tonico falou:

          - Se é vosmecê que afirma, não duvido.

          - Daqui a meia hora, quando o pessoal for cear, vosmecê vai se encontrar comigo atrás do curral. Faz de conta que vai fazer necessidades, não converse com ninguém. Sai de fininho e topa comigo lá...

          Sorriram os dois, Tonico preocupado, sem atinar com a solução que o velho Jerô havia dado ao problema; este, feliz da vida pela peça que pregaria em Dico Pereira.

         

          MEIA HORA DEPOIS, Tonico esgueirava-se pelo oitão da casa-de-farinha, ganhava a cerca do curral. Percebeu, lá adiante, vultos de animais arreados e, ao lado do lazão crina-branca, a prima Zazá. A voz dela, ciciada, carinhosa, envolveu-o:

          - Me ajude a montar, bem...

          Tonico sorriu. Compreendeu que, de fato, furtando, assim, a moça, o trato feito pelo tio não estava descumprido.

          Gaguejou:

          - Nossa! Zazá, que coisa doida a gente fez...

          E ela, nervosa e feliz:

          - Se apresse, bem. Tio Jerô e tia Sinhá dispararam na frente e esperam a gente na fazenda deles...

 

(BAZÉ – ESTÓRIAS SERTANEJAS)

Nelson de Faria

 



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O escritor NELSON DE FARIA

Julgado pela crítica brasileira:

 

“Os novos contos, acrescidos à primeira edição, 

são da mesma alta qualidade dos anteriores. 

A mão do mestre se reconhece em qualquer dos seus contos”.

RIBEIRO COUTO

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sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

MARIA GENEROSA – Nelson de Faria



 Maria Generosa

                                        “...aquele que dentre vós está sem pecado,

                                           Seja o primeiro que lhe atire uma pedra”.



          “É como estou contando, moço. Às brutas, não, porque ninguém sojiga minha vontade. Mais, porém, numa conversa bem conversada a gente topa tudo, sem receber tostão, sem nada, que o dinheiro inté, muitas vezes, sapeca as mãos da gente. Pra quê dinheiro, sô, quando o sujeito é bem-falante, palpitoso, que faz a gente se derreter toda? Pra quê misturar as coisas boas que a vida dá pra gente com essa porcaria de dinheiro, que a gente tem quando não precisa e só carece dele quando a gente não tem? Não gosto de mangar de ninguém, não carrego soberba comigo e nem tenho implicância com os mais. Qualquer vivente, filho de Deus, tem resplandor nas minhas ideias mesmo que seja um tiquim só. Os bichins de Nosso Senhor, os que não fazem mal a ninguém, inté eles todos, são coisas do   meu bem-querer. Borboleta e passarim, pra falar só dos dois, vosmecê já prestou atenção nas bonitezas deles? Quem é que não gosta de coisas assim? Vosmecê se ri, achando que eu sou diferente das outras? Mais, porém, não está me debochando, né mesmo? Muitas das tais que nem eu, que andam por aí especulando a vida dos outros, eu maldo, não vieram ao mundo para a vida desinfeliz que Deus deu pra elas. Estragam o ofício, sujam o nome limpo das famílias delas e querem emporcalhar as companheiras. Caíram na vida por bestagem delas ou sem-vergonheira de homem sem coração. Depois da primeira cabeçada atolam o corpo na sujeira. Não se dão ao respeito, desvalorizam a classe.

            Vou contar uma coisa pra vosmecê: foi Sêo Cantídio, cometa afiançado, rapaz de muitas letras e muitas falas bonitas – o homem mais senhor que já vi na minha vida – quem me explicou muitas dessas coisas do mundo. A gente se embelecava com o cujo, logo na primeira hora, sem dar fé do que estava acontecendo, sem acreditar que se amarrava ao danado. Sêo Cantídio protegia e alteava a criatura que andasse com ele. No fim, a gente virava escrava, só ouvindo a boniteza do palavreado dele. Pra mostrar que a vida que a gente leva não é assim tão condenável, contava casos acontecidos com princesas e rainhas de outras eras, criaturas das terras dos gringos e outras da nossa terra também.  De uma ensinança de invejar professoras, mostrava, nos livros, retratos de muitas mulheres e falava de suas sem-vergonhezas, seus feitiços, mandando e desmandando nos homens que imperavam antigamente. Quer saber de uma coisa, moço? Umas eram bonitas, de verdade, que nem cromos; outras, que nem nós mesmas... Vosmecê não quer tirar uma fumacinha, aqui, no meu cigarro? Diz que faz mal, porque sofre dos peitos, é? Me desculpe. Como estava contando: decorei o nome de muitas que estão nos livros e sei as malucagens que elas fizeram pra dominar reis e imperadores. Me diga, agora, vosmecê: essas criaturas, feias ou bonitas, são ou não são que nem a gente? Sêo Cantídio me mostrou um livro, desses de capa preta, grandão, pesado, abriu ele e leu para nós, para mim e Celestina – a Celeste, que amaridou com Sêo Zé Tertuliano, minha amiga mais chegada – uma porção de estórias, adonde a vida  e criaturas que nem eu e Celeste é inté engrandecida. A tal Rainha de Sabá,  para exemplo, fez coisas com o rei Salomão... Bem, nem é bom se recordar. Sêo Cantídio  leu os versos que o tal Rei escreveu, louvando pra danar o corpo dela, não foi assim? O rei explicava tudo tão direitinho, tão bem explicado mesmo, que a gente ficava maginando, sentindo uma gastura dos diabos remordendo dentro da gente. Inté nossos olhos ficavam marejando...

          E aquelas estórias das “noites mil”? Vosmecê diz que estou errando no nome, que é Mil e Uma Noites? Pois seja! Vosmecê já leu coisas mais doidas do que aquelas? E a tal de Salomé, que mandou cortar a cabeça do santo? E as tais Lucrécia e Messalina? Virge, que criaturas desapiedadas! E as madamas, imperadoras da França, monarcas de Roma? E aquela danadinha lá do Egito, que deu os peitos pra cobra morder? Já se viu?! Vosmecê não aceita mesmo um cigarrinho? Uma tragadinha só, toma, não vai fazer tanto mal... Que nem Sêo Cantídio, lhe juro, sem agravar os mais outros homens, nunca vi igual! Ele fez nós duas, eu e Celeste, descobrir o valor do nosso ofício e provou que nós espanamos do mundo as doideiras dos homens. Jurava que, sem a gente, o número de malucos seria mais grande do que é; e que também, no meio das famílias, as desgraças seriam mais desgraçadas do que essas desgraças que aí estão, e que a gente sabe delas por ouvir dizer...

          Acho que Sêo Cantídio tinha razão. Quando a gente duvidava do que ele dizia, ficava assim, do olhos pregados na nossa cara, naquele jeitão de quem sabe muito bem o que falava. Se ria todo e perguntava, com a cara mais lavada: “Como foi, então, que o mundo se encheu de tanta gente, se, no começo dele, era só um casal? Me responda, anda!” É... pensando bem, ele tinha razão. Por exemplo: numa cidade porqueira que nem esta nossa, se não fosse eu e Celeste – pra não falar de umas quatro mais, que fazem lá os seus benefícios particulares, às escondidas – como é, pergunto, que os homens se desapertavam, os viúvos se consolavam, os pelancos apendiam? Me diga.

          Despois que Sêo Cantídio leu para nós o que escrivinharam nos livros, carrego minha cabeça bem alevantada, bem nos altos. Não abaixo meu cangote pra ninguém montar nele. Celeste, hoje, é também que nem eu. Ela já foi moça-de-padre – sabe? – No Calhau, logo depois que ela saiu de casa. Os ignorantes boquejam que ela vira mula-sem-cabeça, quando chega a coresma. Vira nada! Tudo inzona das bobas, que nem á-bê-cê soletram direito. Ela morou comigo um par de anos. Nunca vi nada que condenasse minha amiga. Ela me disse, um dia, sem remorsos naquela cara bonita: “Que mal faz gostar a gente de padre, se eles são homens também que nem os outros?”

          Eu não rezo na mesma cartilha, nhor não. Tenho cá pra mim que isso não é direito, não por medo de virar mula-sem-cabeça, não. Mais, porém, porque, no mundo, tem bastante dos outros homens desimpedidos. A gente não carece usar os proibidos, né mesmo? Não condeno minha amiga porque ela gosta de esquisitar nosso ofício, isso não. O que é do gosto regala a vida, diz o vulgo, e eu acho que tá certo. Para acalmar minhas dúvidas, perguntei, uma vez, ao Doutor Minervino, o juiz de direito – quando a dona dele andou de resguardo -, se Celeste era criminosa porque apreciava aquilo. Ele se riu da indagação, e falou: “Não, Generosa, a lei não fala dessas coisas; e, quando a lei não escogita – penso que ele falou assim mesmo, es-co-gi-ta - palavra danada de difícil! – é porque o ato não é criminoso”. E o Doutor Minervino é homem sem, porém, de muita sabença. Mioludo que nem Sêo Cantídio. Fala por aí – as donas sem caridade no coração delas – que a gente é de vida fácil... Vida fácil, pois sim! Bestagem delas, pura bestagem.

          Digo e confirmo pra vosmecê: já andei nos braços de homem pobre, inté de criaturas desvalidas, de pé no chão e camisa rasgada, mais, porém, de corpo limpo. Vosmecê me pergunta se foi de graça? Nhor sim, de graça! Porque achei que era caridade que eu fazia. Abraços e boquinhas de sujeitos ricos, posudos, desses que acham que a gente, por ser uma das tais, é obrigada a aceitar qualquer um, desses fulanos sem coração, já repeli muitos.  Sem malquerença, sem agravar os cujos, tiro o corpo fora com desculpa de doenças, e o mais. Vosmecê, vê-se logo, não é desses, sei que não. Conheço vosmecê de vista, em desde que aqui chegou. Não desconheço que é doutor formado em medição de terras. A família de sua dona, conheço ela toda, porque é gente daqui mesmo. Me contaram que vosmecê não é moço de riquezas, que nem seu sogro. Cochicham por aí que vosmecê inté já cuspiu vermelho, por via de doença-do-peito. Que é que a gente não sabe nesta terra pequenina? Vosmecê vai me relevar a pergunta, que deixa a gente meio desacertada: me contaram que sua dona tem medo de tísica, e é por isso que vosmecê vive assim, desarvorado, é mesmo? Pois assunta, nêgo: bota sua cabeça, aqui, no meu ombro, estala as bicotas que quiser nos cabelos, no rosto, no meu cangote. Não! Na boca, não, por via do entojo que me dá´...”

  

(BAZÉ – ESTÓRIAS SERTANEJAS)

Nelson de Faria

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O escritor NELSON DE FARIA

Julgado pela crítica brasileira:

 

“Não conheço na moderna literatura regionalista brasileira nada melhor do que a prosa desse mineiro. As narrativas são de um escritor plenamente realizado na arte do conto, dramático, poético ou pitoresco, apresentando os “fatos” e os tipos com uma segurança e um sabor que fazem o encanto da leitura.”

RAUL LIMA       

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