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sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

ESCRITORES BRASILEIROS DO SÉCULO XX - Cyro de Mattos

 


     Escritores Brasileiros do Século XX               Cyro de Mattos            

              

            Em sua contribuição enciclopédica e analítica da literatura, Nelly Novaes Coelho, intelectual rara, desincumbe-se da jornada literária com erudição, consciência crítica e uma santa paciência de pesquisadora. Ela sempre está surpreendendo. Depois de enriquecer o corpo das letras brasileiras com volumes importantes, como Literatura e Linguagem, Literatura Infantil, Dicionário Crítico de Escritoras Brasileiras, Dicionário Crítico de Literatura Infantil e Juvenil Brasileira, Panorama Histórico da Literatura Infantil/Juvenil, na idade em que muitos já aposentaram suas ferramentas, eis que ela pra lá dos oitenta anos comparece com ensaios fecundos para brindar seu público leitor com a obra Escritores Brasileiros do Século XX, publicado pela Editora Letra Selvagem.

           Monumental testemunho crítico, o alentado volume é resultado de cinquenta anos de pesquisas, leituras e releituras de obras apresentadas em cursos universitários, congressos, seminários, colóquios, no Brasil, Portugal e Estados Unidos da América. São oitenta e um escritores analisados neste precioso e extenso livro. Dos mais conhecidos, como Jorge Amado, Graciliano Ramos. Guimarães Rosa, Mário de Andrade e João Ubaldo Ribeiro, passando por nomes expressivos que ficaram esquecidos pela crítica e do mercado editorial, como Cornélio Pena, Gustavo Corção, Adonias Filho e Murilo Rubião.       

         E ainda outros que precisam de divulgação para que melhor sejam conhecidos:   Ricardo Guilherme Dicke, Mora Fuentes, Samuel Rawet e Nicodemos Sena. Todos esses autores, elencados nessa obra de natureza o  enciclopédica, dão voo à razão e à emoção quando abordam a problemática existencial do ser humano e a crise de uma sociedade exaurida de valores e sentidos. Dão imaginação e transcendência ao mundo.
         A ensaísta admirável revela:

        - Foi a “Sorte ou o Acaso” que puseram em meu caminho os oitenta e um escritores reunidos e analisados neste meu último livro.

        A generosidade, a humildade e a solidariedade são marcas da alma dessa enorme ensaísta.   Os autores no extenso volume analisados tiveram, sim, a sorte ou o acaso,  posto em seus caminhos para a leitura crítica dessa valorosa analista literária.

        Ela disse:

        - Um autor para ser instituído como cânone precisa de um crítico dotado  de instrumental teórico suficiente que  chame atenção para as questões estéticas, seja capaz de revelar os elementos estruturantes que entraram  na composição da  forma e conteúdo da sua obra.
         No meu caso,  de autor baiano insulado na cidade natal, no sul da Bahia, distante do eixo Rio e São Paulo,  que ainda hoje  funciona como tambor cultural desse país inculto e enorme, por mais que o mundo de uns tempos para cá tenha se tornado uma aldeia globalizada, nem sei como agradecer nossa inclusão  na relação desses escritores conceituados, selecionados e reunidos  no testemunho crítico da professora doutora Nelly Novaes Coelho.
         Vale a pena repetir o que certa vez ela disse sobre a literatura:

      - Sem leitura e escrita a vida não tem emoção. 

         Essa Nelly Coelho Novais, que viveu para amar a literatura e que, com uma vocação valorosa, na passagem dos anos, tanto demonstrou quanto a amava.

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Cyro de Mattos, poeta, ficcionista, cronista, ensaísta e autor de literatura infantojuvenil. Publica quinzenalmente uma crônica na revista digital RUBEM.

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quinta-feira, 9 de julho de 2020

NELLY NOVAES COELHO E OS ESCRITORES BRASILEIROS – Cyro de Mattos

Nelly Novaes Coelho e os 
Escritores Brasileiros

Cyro de Mattos



               Em sua contribuição enciclopédica e analítica da literatura, como os iluministas de ontem, Nelly Novaes Coelho, essa intelectual rara, desincumbe-se da jornada literária com erudição, consciência crítica e uma santa paciência de pesquisadora. Ela sempre está surpreendendo. Depois de enriquecer o corpo das letras brasileiras com volumes importantes como Literatura e Linguagem, Literatura Infantil, Dicionário Crítico de Escritoras BrasileirasDicionário Crítico de Literatura Infantil e Juvenil Brasileira, Panorama Histórico da Literatura Infantil/Juvenil,  na idade em que muitos já aposentaram suas ferramentas, eis que ela comparece com ensaios fecundos para brindar  seu  público leitor com a obra monumental Escritores Brasileiros do Século XX
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          O alentado volume é resultado de 50 anos de pesquisas, leituras e releituras de obras apresentadas em cursos universitários, congressos, seminários, colóquios, no Brasil, Portugal e Estados Unidos da América.

            São 81 escritores analisados neste precioso e extenso livro. Dos mais conhecidos, como Jorge Amado, Graciliano Ramos. Guimarães Rosa, Mário de Andrade, Oswaldo de Andrade, João Ubaldo Ribeiro, Ignácio de Loyola Brandão, passando por nomes expressivos que ficaram esquecidos pela crítica e do mercado editorial, como Cornélio Pena, Gustavo Corção, Adonias Filho, Murilo Rubião, Victor Giudice, Campos de Carvalho e   Alcides Pinto.
      
           E ainda outros que precisam de divulgação para que melhor sejam conhecidos:  Vicente Cecim, Olavo Pereira, Agripino de Paula, Fausto Antonio, Ricardo Guilherme Dicke, Mora Fuentes, Samuel Rawet e Alaor Barbosa. Todos esses autores, elencados nessa obra enciclopédica de ensaio, dão voo à razão e à emoção quando abordam a problemática existencial do ser humano e a crise de uma sociedade exaurida de valores e sentidos. Dão imaginação e transcendência ao mundo.
 
         A escritora admirável revela que foi a “Sorte ou o Acaso” que puseram em seu caminho os 81 escritores reunidos e analisados neste seu último livro. A generosidade, a humildade e a solidariedade são marcas da alma dessa grande ensaísta.   Os autores aqui analisados tiveram, sim, a sorte ou o acaso que foi posto em seus caminhos com uma analista literária da extensão de Nelly. Um autor para ser instituído como cânone precisa de um crítico dotado de instrumental teórico suficiente, que chame a atenção para as questões estéticas, seja capaz de revelar os elementos estruturantes que entraram na composição da forma e conteúdo da sua obra.

          No meu caso,  de autor baiano insulado em Itabuna,  no sul da Bahia, distante do eixo Rio e São Paulo,  que ainda hoje  funciona como tambor cultural desse país inculto, por mais que o mundo de uns tempos para cá tenha se tornado uma aldeia globalizada, nem sei como agradecer a minha inclusão  na relação desses escritores conceituados, selecionados e reunidos  no testemunho crítico da Nelly.

           Vale a pena repetir o que certa vez ela disse sobre a literatura: “Sem leitura e escrita a vida não tem emoção.”

            Essa Nelly Coelho Novais, que viveu para amar a literatura e que, em contrapartida, tanto demonstrou quanto a amava

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Cyro de Mattos é ficcionista, poeta, cronista, ensaísta e autor de literatura infantojuvenil. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia. Doutor Honoris Causa da UESC (Bahia).  Possui prêmios importantes. Publicado no exterior.

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quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

A TRISTE CRÔNICA DE NELLY NOVAES COELHO - Cyro de Mattos

A triste crônica de Nelly Novaes Coelho
Cyro de Mattos


                 Nelly Novaes Coelho é uma dessas criaturas belíssimas  que encontrei na vida. Intelectual de expressão enorme, erudita, sensível, solidária e ética. Tive o grande prazer de conhecê-la quando fui receber de suas mãos O  Grande Prêmio  da Associação Paulista dos Críticos de Artes, no Memorial da América Latina, em 1992, concedido ao meu livro O menino camelô. Ela foi a relatora da comissão julgadora,  que contou ainda com a participação de Tatiana Belinky e Pascoal Mota. Quanta alegria conhecer aquela mulher baixinha, de sorriso afável,   olhos no óculos de lente grande  que viam e compreendiam  o que  estava no mundo para ser alcançado.

               Dali para frente  mantive correspondência regular  com umas das intelectuais mais lúcida em nossas letras, portadora de um discurso simples, mas rico de análise, que impressionava bastante.   Que bênção! O tom de suas cartas era sempre atencioso, deixava a minha alma pingando ternuras.   Tive uma boa surpresa quando recebi comentário como autor infantojuvenil no seu  esplêndido Dicionário crítico de  literatura infantil e juvenil brasileiro. Outro belo susto que eu tive  foi  quando vi minha ficção de contista ser objeto de estudo no  monumental volume  Escritores brasileiros do século xx. Nessa obra, de novo ela demonstra  ser uma ensaísta de fôlego vasto,  que tem conhecimento notável dos meandros da escrita,   da vida e do contexto dos escritores estudados na obra.   Ao escrever esse livro, Nelly Novaes Coelho ainda estava em plena atividade intelectual,  tinha 91 anos,  idade em que muitos  já penduraram suas ferramentas de trabalho.
 
            Vale a pena lembrar que com 752 páginas, 1401 verbetes, o Dicionário crítico de escritoras brasileiras, de Nelly Novaes Coelho, registra de modo condigno  “a voz de   mulheres que vêm dando seu testemunho de vida e ideais, por meio da Palavra. Dado que a literatura  é forma ampla de conhecimento dos humanos no mundo, a obra que foi organizada pela escritora renomada, Doutora em Letras da USP,  reveste-se de pontos elevados na valorização do corpo literário brasileiro.

         Ao registrar  inúmeras vozes femininas de todos os estados brasileiros, em sua contribuição enciclopédica, Nelly Novaes Coelho, como os iluministas de ontem,  desincumbe-se da jornada extensa  com erudição, consciência crítica e lucidez de pesquisadora dotada de santa paciência. É muito pouco o que estou informando sobre a bagagem,   atuação e  produção de uma intelectual incansável como a Nelly. Por seus feitos literários incríveis, ela  merecia as melhores homenagens  em vida. Quando indiquei   com os escritores Caio Porfírio Carneiro e Nicodemos Sena o seu nome  para ser distinguido com  O Troféu Juca Pato da União Brasileira de Escritores (SP),  foi  vítima de um processo eleitoral duvidoso,  e  seu nome  não foi sufragado. Mas ela era maior do que certas atitudes deploráveis e honrarias dessa espécie.

          Soberba como ensaísta e,  como  professora universitária, contribuiu  para a formação de inúmeras gerações no campo das Letras. Sua família ignorou a grandeza dessa mulher incomum.   Ao ficar doente,   foi blindada pela família, que não permitiu a  visita dos amigos, dos que lhe tinham afeto, e de seus admiradores.   Meu Deus, quanto egoísmo, para não dizer escuridão, pobre de  nós seres humanos, metidos a donos de tudo.

            Agora essa notícia triste, que  tomo conhecimento através do escritor  Ronaldo Cagiano,  Depois de um mês  de seu falecimento, a  imprensa divulga  o fato  em notas acanhadas. A doce, ética e intelectual maiúscula Nelly não merecia tanta maldade.


*Cyro de Mattos é membro efetivo das  Academias de Letras da Bahia, de Ilhéus e Itabuna. Pen Clube do Brasil, União Brasileira de Escritores (Rio e São Paulo).  Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz.

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quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

A SEGUNDA MORTE DE NELLY NOVAES COELHO - Ronaldo Cagiano

A notícia da morte da escritora, crítica e ensaísta Nelly Novaes Coelho chega ao conhecimento público com grande atraso, de acordo com noticiado no Estado de S. Paulo de em 28.12.17, tendo ela ocorrido um mês antes, em 29.11.17. É de estarrecer e entristecer que uma intelectual de sua dimensão e importância para a literatura brasileira desapareça, sem que a imprensa saiba e seus amigos, leitores e admiradores pudessem prantear a sua perda ou homenageá-la, como merecia, pela sua estatura cultural e humana, por todos (re)conhecida.

Na esteira de seu desaparecimento, abro um parêntese, para constatar, com tristeza e revolta, também essa tendência, cada vez mais assente, se de jogar no cesto do silêncio gente que tanto fez pela literatura, como Nelly, que parte num momento crucial da cultura brasileira, amesquinhada sempre pelo mais do mesmo. Quando o mercado editorial não dá espaços para intelectuais como ela, que descarta o “velho” e sabota os “idosos” em nome de ume geração literária descolada, que não tem nada para oferecer, senão suas carinhas rendidas e vendidas às feiras literárias, verdadeiras quermesses onde mais valem como fetiche e produto do que como criadores. Quando não temos mais editores com o feeling de um Ênio Silveira ou um José Olympio, mas executivos com olhos nas planilhas, que olham para o mercado e não para o talento do autor ou a qualidade da obra. Quando não há críticos como Antônio Candido, Wilson Martins, Antônio Olinto, José Guilherme Merquior, José Veríssimo, Otto Maria Carpeaux, mas esses comunicólogos de carteirinha (no dizer do saudoso Cassiano Nunes, professor da UnB), ruminando releases na grande imprensa. E tantos outros exemplos de vítimas desse sistema editorial monopolista, cartorial, mercenário e excludente, incensador de mediocridades e negligente com os verdadeiros talentos, que ao longo das últimas décadas relegou, como Nelly, tanta gente ao destino do ostracismo, silêncio e esquecimento, como um Rosário Fusco, um José Carlos Oliveira, um Ricardo Guilherme Dicke, uma Orides Fontela, um Samuel Rawet, um Osman Lins, uma Dora Ferreira da Silva, um Campos de Carvalho, um José Agripino de Paula, um Caio Porfírio Carneiro, uma Eunice Arruda, e, ainda mais recente, o lendário José Louzeiro, felizmente relembrado em oportuna resenha de Afonso Borges em sua revista eletrônica “Mondo Livro”.

Reporto-me ainda à notícia anterior do mesmo blog do curador do Projeto Sempre um Papo, em que o falecimento (culminado com seu completo desconhecimento) de Nelly Novaes Coelho é abordado por Afonso Borges para destacar a imperdoável omissão que cometeram, tanto a família, que a blindou num cárcere de silêncio por cerca de três anos, em nome de uma proteção para tratamento de saúde, alijando o fato da imprensa, que não pôde dar a devida cobertura ao fato, talvez, até mesmo, por culpa e obra desse completo alheamento a que ela foi jogada e da impossibilidade de acesso a qualquer notícia sobre suas condições. Indaga Afonso, em sua comovida e estarrecida constatação: “Quem roubou a paz de Nelly Novaes Coelho? Quem nos roubou da paz de Nelly Novaes Coelho? Por onde andou nestes últimos anos? Por que só ficamos sabendo da sua morte um mês depois?”

O jornalista, depois de coligir várias fontes, apenas confirmou o que já era rumor no meio literário, pelo menos dos que com ela conviviam e a conheciam – sobre sua internação e a consequente proibição de encontros ou contatos com amigos e colegas de ofício. Havia razão plausível para escondê-la do meio que sempre foi seu pulmão, chão, teto e horizonte? O articulista confirmou esse desaparecimento inusitado, a interdição de uma vida ainda em plena atividade e lucidez, que não merecia o destino do degredo numa instituição geriátrica, colhendo de suas consultas o sentimento de indignação e perplexidade de tantos quantos a conheciam e admiravam.

Apenas para argumentar, ainda que Nelly tivesse sido acometida de uma ocorrência mais grave (por exemplo: um AVC? Um Alzheimer? Uma debilidade cardíaca? Uma queda? um processo de senilidade?), que a incapacitasse física e intelectualmente a ponto de interromper sua capacidade de comunicação e discernimento, não seria o caso de privar seus amigos e admiradores de notícias, ou mesmo de uma visita. Era o mínimo a se fazer por alguém que tanto fez por tantas gerações quando no pleno (e vigoroso) exercício de suas atividades como professora, escritora, críticas e editora de cultura em jornais importantes.

Eu mesmo sou testemunha de sua inteireza física e mental nos tempos que antecedem a esse imposto deletar em vida. Não muito antes de ser tirada de circulação (éramos vizinhos de rua na Bela Vista; eu morava na Rua Dr. Seng e trabalhava a Al. Joaquim Eugenio de Lima, a poucos metros de sua residência, na Rua dos Franceses). Nos dez anos em que vivi em São Paulo encontrei-me várias vezes com Nelly, a quem devo, desde o meu primeiro livro publicado nos anos 80, quando morava em Brasília, a generosidade de sua recepção e apreciação crítica. Numa dessas vezes, estivemos em seu condomínio, na casa de uma amiga comum, também escritora, que lhe prestou uma homenagem, num encontro, em que muito se conversou sobre literatura. E ela com seus 91 anos, forte, entusiasmada, povoada de planos e vivíssima e antenada com o que se passava na literatura contemporânea. Foi uma noite memorável, em que atestamos sua disposição e saúde, compartilhou conosco suas ideias sobre literatura, suas experiências no campo intelectual, sem qualquer sinal de esmorecimento de sua disposição. Aliás, entre todos, sem dúvida, era a mais animada e sem indícios de fadiga.

Em meados de 2013, dividi com ela uma mesa na Casa das Rosas, a convite do editor e escritor Nicodemos Sena, numa sessão dedicada à discussão sobre o romance “Deus de Caim”, de Ricardo Guilherme Dicke, por ele reeditado e resgatado pela Ed. Letra Selvagem. Foi um momento epifânico em que a professora e ensaísta discorreu por mais de uma hora, secundada pela professora e escritora Raquel Naveira e pelo jornalista Lorenzo Falcão, de Cuiabá, abordando aspectos críticos e estéticos da obra do escritor e filósofo mato-grossense, até então relegado ao anonimato depois de uma carreira vitoriosa nos tempos em que viveu no Rio.

Nelly protagonizaria meses depois outro momento de inteireza física e mental, quando foi prestigiada pelo mesmo editor e amigo, que publicou e lançou naquele mesmo espaço da Av. Paulista sua recente obra, ‘Escritores Brasileiros do Século XX”, um caudaloso, exaustivo e fundamental compêndio que mapeia a produção ficcional brasileira desde os primórdios do Modernismo. Naquela oportunidade, casa lotada e com vários escritores presentes para saudá-la, entre eles, Benjamin Abdala Junior, Ignácio de Loyola Brandão, Fábio Lucas, Cyro de Mattos, Alaor Barbosa, Ricardo Ramos Filho, Ana Maria Martins e Miguel Jorge, Nelly era a própria imagem da intensidade criativa e da paixão literária, momento em que soubemos que Nelly ainda estava com o fôlego a mil, prometendo para breve uma obra sobre a presença feminina da literatura brasileira, um projeto “in progress”.

Algum tempo se passou, encontrei-me algumas vezes com ela na vizinhança e mesmo após ter tido um problema cardíaco, dizia-se em franca recuperação, sem qualquer sinal de debilidade física ou mental, quando a encontrei na saída de uma agência do Banco Itaú e perguntei pela sua saúde. Daí em diante, não a vi caminhar nem a encontrei mais, como costumeiramente acontecia, por aquelas vias da Bela Vista. Preocupado, indagava a amigos, conhecidos e colegas sobre seu paradeiro e já começavam a circular informações de que teria sido internada numa instituição clínica de repouso, que foi desautorizada a receber visitas e esse “apartheid” social e intelectual ficava cada vez mais evidente, pelo seu sumiço e pela ausência de notícias que dessem conta de seu estado.

Para minha surpresa, por volta de julho de 2016, encontrei vários livros autografados para Nelly Novaes Coelho no Sebo do Messias, atrás da Praça da Sé, uma livraria que visitava com frequência. Entre livros oferecidos por autores nacionais e estrangeiros, conhecidos ou não, encontrei um dos meus, “Canção dentro da noite”, a ela enviado na década de 90. Essa foi a senha para descobrir que Nelly Novaes Coelho tinha sido “enterrada” em vida e seu acervo vendido a alfarrabistas (certamente sem seu consentimento, como é de se prever em casos como esse, quando alguém é inviabilizado e encerrado num asilo e decretada compulsoriamente sua incapacidade), atitude deplorável, que consiste verdadeiramente num crime de lesa-literatura. Entendo que o patrimônio bibliográfico de Nelly deveria, no mínimo, ser tombado por uma grande biblioteca pública (de uma universidade, de uma academia, de um centro cultural), por ser repositório da memória pessoal e literária de um país, mas também por respeito a alguém, como ela, que deu a vida pelas Letras; que, com sua generosidade, abriu espaço, dando voz e vez a muitos autores, quando militava na grande imprensa e nos cadernos de cultura, algo hoje raro entre os nossos pares.

Por mais explicações que se queira retirar dessa história, não se pode compreender, muito menos aceitar, que um patrimônio – não apenas intelectual, mas acima de tudo moral e ético – seja desprezado e arruinado com tanta velocidade, num desrespeito á sua vida e à sua inestimável contribuição à inteligência nacional. E o pior, desmonte feito ainda em vida – crime maior e indesculpável. Será que a família de Nelly Novaes Coelho tinha noção do seu tamanho e da dimensão de sua atuação no campo literário e intelectual? Com certeza, não; senão, seus livros não teriam ido parar num sebo. E nenhuma explicação há de convencer-nos da necessidade de desfazer-se desse acervo que, sem dúvida, continha grande parte da memória bibliográfica do Brasil nas últimas décadas, incluindo-se a sua epistolografia.

Como disse Afonso Borges, “onde estará Nelly Novaes Coelho? Onde? E qual o motivo? Por que isso, assim? Saberemos, algum dia?” Perguntas que não querem calar...
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(*) Escritor, autor de “Eles não moram mais aqui” (Prêmio Jabuti 2016) vive em Portugal.
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Em 10 de janeiro de 2018 08:39, cyropm@bol.com.br<cyropm@bol.com.br> escreveu:

Caro Ronaldo Cagiano

Ainda bem que uma voz aguerrida e valorosa  como a sua manifestou-se  contra a perversidade que fizeram, e continuam fazendo,  com a pesquisadora, ensaísta, e professora doutora Nelly Novaes Coelho, uma intelectual enorme, de serviços relevantes prestados às letras brasileiras.

Já não bastasse a farsa que a União Brasileira de Escritores (São Paulo) cometeu  quando indiquei com outros escritores  seu nome para ser distinguido com O Troféu Juca Pato patrocinado por aquela instituição, Como você sabe, foi derrotada graças a um processo eleitoral inusitado, que violou gritantemente o regimento da instituição. Uma farsa.
   
Tive a honra de ser amigo  da Nelly. Ela  foi a relatora na comissão julgadora que me  concedeu o Prêmio da Associação Paulista dos  Críticos de Artes em  1992 para o nosso livro O Menino Camelô, poesia infantil.   Foi quando a conheci, No Memorial da América Latina, em São Paulo.  Dali para a frente, mantive uma amizade rica com a Nelly, parecendo que já éramos conhecidos  há muito tempo. Tivemos   uma correspondência  agradável durante anos. Quanta riqueza literária e sustos esplêndidos, viver assim no campo das letras era uma bênção.

Tomei conhecimento que ela estava muito doente. Havia sido blindada pela família, que demonstrava não saber o quanto ela representava para a vida, em especial para a literatura brasileira, e que se tornara por suas atividades um patrimônio público, moral e intelectual, desses que não têm preço, difícil de serem encontrados,   privando-a, assim,  de receber seus amigos ou de que esses  soubessem, pelo menos,  de seu estado de saúde.  Meu Deus, quanto egoísmo, existe nesse vale de lágrimas, pobre nós seres humanos, metidos a donos de tudo.

Agora essa notícia triste, que você me traz, sobre a conduta mais que lamentável  que estão fazendo com a memória da boa, doce e rara criatura, escritora maiúscula Nelly Novaes Coelho,  Depois de meses é que a imprensa divulga seu falecimento, em notas acanhadas.

Divulgarei com os amigos seu texto denúncia, a começar  em meu blog Literatura e Vida ( cyropm. blogspot.com).

Aqui vai meu abraço e solidariedade  ao seu gesto de altíssimo nível intelectual e ético.

Cyro de Mattos 

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Aramis Ribeiro Costa <aramisrcosta@gmail.com>
Qua 10/01/2018, 12:52
O "Dicionário Crítico da Literatura Infantil e Juvenil Brasileira" de Nelly Novaes Coelho, principalmente a partir da 5º Edição, revista e ampliada, da Companhia Editora Nacional, de 2006, é uma obra de referência fundamental para o estudo da literatura infantil e infanto-juvenil brasileira. Ó seu desaparecimento é uma grande perda para a intelectualidade nacional. 
Nelly Novaes Coelho, com quem troquei uma rápida correspondência há vinte anos, aproximadamente, é merecedora de todas as homenagens.

Aramis Ribeiro Costa.

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