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sábado, 22 de janeiro de 2022

TRATO É TRATO – Nelson de Faria

 


Trato é Trato 

Nelson de Faria

 

“Não negues o bem a quem de direito,

Tendo na tua mão o poder de o fazer”

                          Provérbios, 3. 27

 

          Era altanado, sabia disso, não porque alguém tivesse tido a ousadia de lhe dizer aquilo cara a cara. Sabia-o, naturalmente, pela sua própria maneira de encarar as coisas, pelos atos que praticara, em defesa de outrem ou no seu próprio interesse. Muitas vezes fizera coisas tidas como temerárias, mas que lhe deram prazer e o tornaram respeitado.

          Quando menino, lembrava-se, não era como as outras crianças, que tinham medo de sapo, de taturana, de rato ou lagartixa. Cresceu duvidando da existência de assombração. Ouvia falar em saci, mula-sem-cabeça, caapora, perna-fina e outros que tais. Sorria, incrédulo. Nunca os vira nas suas andanças. Não duvidava, mas não acreditava cegamente em benzedeiros e exorcismos, em rezas fortes que tiram inhaca, que alimpam a vida da gente. Vira coisas estranhas – ah! e muitas – que o deixavam em dúvida. Não discutia o assunto. Era destemeroso e, às vezes, também destemperado. Topava tudo. Montava em bicho brabo com a mesma tranquilidade com que atravessava um rio empanzinado ou empunhava uma vara de ferrão para espetar uma rês cangotuda. Não provocava brigas, mas não se acovardava diante de um perigo. Já matara canguçu, sangrara queixada a facão e, certa vez, esbarrara com uma suçuarana. Laçara a bicha, com uma gateza tal que deixara o próprio felino aturdido e sufocado. Proeza que andou nos versos dos cantadores mais falados, nas conversas dos queras mais papudos, desmesurando o pensamento de muita donzela, catucando as ideias de muita mulher sentimentalizada. De cabeça erguida, entrava numa venda, de lá saía de cabeça alevantada, mesmo que suas pernas teimassem em fraquejar. Assim fora desde pelanco. Assim seria pela vida afora. Ouvia calado a conversa dos outros, nunca empanando o pensamento alheio. Quando ia às festas, procurava os cantos, conservando-se da banda de fora, sem se envolver com os mais, quando a alegria deles virava matinada.

          Diziam que o procedimento dele era exemploso. Entretanto, de repente, saíra dos seus cômodos, arranjara já-começa pra se coçar. Tudo acontecera na festa do casamento da prima Zazá. Andara por aquelas terras quando ainda era menino, lembrava-se pouco daqueles parentes de seu pai – que daquelas paragens saíra para tentar a vida noutros lugares e se enriquecera. Os que ficaram, pelo que sabia, eram afazendados, gente de respeito. Apresentava-se como embaixador, para que soubessem, os que ali ficaram, que o velho Conrado, seu pai, continuava a amar sua gente e que não viera, também, para matar saudades, porque a esipra que, fazia anos, o atormentava, agora jogara-o na cama, atacando-lhe pernas e pés. Quando apeara, depois de dois dias de marcha batida, percebeu dezenas de olhos postos nele. Não conhecia ninguém. A varanda regurgitava, a conversa esmoreceu à aproximação daquele moço desconhecido que, nos trinques, tirava o chapéu, salvando:

          - Deus guarde a gente desta casa, presentes e ausentes.

          O velho Libório, os olhinhos apertados, pisca-piscando, aproximou-se.

          - Vosmecê é de paz, vê-se logo. Se achegue. Ainda que mal pergunte, qual é a sua graça?

          - Antônio Carneiro, filho de Conrado Carneiro. Me chamam de Tonico, nhor sim. Pelo que divulgo, vosmecê é o tio Libório? A sua bênção, meu tio.

          - Não boto minha bênção em homem. Em vancê, Tonico, dou o meu abraço de chegança, com satisfação. Já maginava que era gente minha, por via dos petrechos que vosmecê usa nos arreios, pelos ares de sua pessoa, mais porém, gente arredada, que os nossos olhos faz tempo que não divulgam.

          O velho Libório era orgulhoso, gostava de bons animais, bons arreios e arreatas de prata bem limpas, reluzentes ao sol. Diziam que nenhum dos descendentes do velho Carneiro desmentia a origem, pelo desempeno no montar, pelo trato que davam aos animais de sela. A confirmação ali estava, na sua frente, naquele jovem bem-vestido, melhor montado. O velho abriu os braços e estreitou o rapaz contra o peito ossudo. Tonico foi apertando a mão de um por um e, num simulacro de abraço, como de uso na terra, tocava as pontas dos dedos da mão esquerda no ombro do apresentado, recebendo de volta saudação igual.

          - Vim da parte de meu pai, que anda meio perrengue, com a embaixada de representar minha gente, que também é gente de vosmecê, no casamento da prima Zazá. – Estendeu o braço, apontou para o lazão crina-branca amarrado ao moirão: - Pai mandou aquela prenda, e pede pra Dona Zazá não arreparar na miudeza dela.

            O velho Libório avançou para o peitoril, a mão em pala sobre os olhinhos miúdos, avaliou o presente. Sorriu, viu que era valioso. Os olhos brilhando de prazer, falou:

          - Não carecia se incomodar, cativando a menina com um trem de quilate tão alçado.

          Tonico espalmou a mão, interrompendo-o:

          - Não é incômodo, tio Libório, é obrigação da gente.

          Conto pra vosmecê que o bichim já foi repassado, amansado de sela para donas e donzelas, é esquipador que dá gosto e é cria lá da fazenda, nhor sim.

         

          A notícia da chegada do primo, vindo de longe, trazendo um presente tão bonito para a noiva, alvoroçou o mulherio da casa, inté lá dentro, no fundo da cozinha. Apareceu, para cumprimentar Tonico, Siá Malvina, de mãos sardentas e magras, de olhos claros e corpo miúdo, dona da casa. Outras vieram. As casadas falavam com mais desembaraço. As solteiras olhavam o recém-chegado, davam-lhe em cumprimento as pontas dos dedos, baixavam os olhos, sentindo um friozinho subindo-lhes pelo braço ao contato daquela mão forte e cabeluda. Isaura foi a última. Tinha os cabelos brilhantes, o rosto empoado, as mãos ainda úmidas de água-de-cheiro, não escondendo que se arranjara às pressas. Siá Malvina fazia as apresentações: “Tiana, filha do compadre Belarmino; Mariazinha, filha de Eudóxia; Eudóxia, ela mesma, minha irmã gêmea; aquela ali, de blusa branca, Ritinha, é também filha de Eudóxia; de junto dela, Clarinha, filha de dona Joana, fazendeira vizinha; e Mariquinhas, Belinha, Teodora, Mundica, Zezé, Sinhá, Donana,...” todas amigas da noiva, gente vizinha, aparentada, ajudando nos doces e nos assados, nos bordados e crivos, casadas, umas, solteiras, poucas. “E esta, aqui, é a noiva, sua prima Zazá...”

          Era despachada, a mocinha. Foi logo se achegando, para o abraço do primo. Olhou-o bem dentro dos olhos. Tonico levou um choque ao apertar a mão da moça, ao cingir, entre os braços, o corpo bonito da prima. Pensou: “Será possível um sujeito como o Dico Pereira, que a gente via logo, sem mais aquela, que era um pamonha, que estava ali no canto, meio encalistrado, sem saber bem o que fazia das mãos, se as punha no bolso da calça ou se as deixava assim mesmo, largadas ao longo das pernas, será possível, indagava-se, que um soim daqueles, de carinha miúda e penugenta, iria ganhar assim, de mão beijada, uma mulher daquelas?” – Disfarçou a emoção, convidou os presentes para examinarem o cavalo.

          Daquele momento para a frente, Tonico passou a ser a pessoa mais importante da casa. Liquidou de uma vez o discutido prestígio do Dico Pereira que, apesar de mamparreiro e sovina, desfrutava ainda das atenções de uns poucos, por ser o noivo da Zazá. Agora, relegado, embiocou-se em pensamentos mesquinhos, ansioso para que aquele dia passasse rápido, chegasse o outro, viesse logo a noite, a madrugada... Ele e Zazá sozinhos no quarto...

          Fizeram roda no terreiro, admirando o presente trazido por Tonico.

          - Uma pintura! – Falou Siá Malvina.  – Coisa pra bico fino, de entendido, pois não!

          - Que trem doido, danado de bonito! – chegou gritando Sêo Jerônimo – tio Jerô, para todo mundo – velho de maneiras espalhafatosas, amável, casamenteiro, mulherengo, querido de moças e rapazes. Foi se achegando, levantou o beiço do animal, olhou-lhe a muda, alisou-lhe a crina branca, sedosa, comprida. Examinou-lhe os jarretes, finos, fortes, as ancas bem-feitas, o pescoço arqueado, o lombo linheiro. Olhou de viés para Dico Pereira, descansou a vista em Zazá, olhou de novo o cavalo, falou, sorrindo, pondo canalhice no riso e na voz:

          - Sim, senhor, bem se diz que “a melhor espiga é sempre para o porco pior” ...

          Todos riram, sem saber que ele se referia ao Dico Pereira, que, de olhos acesos, namorava o lazão de crina-branca, ruminando: “Presente danado de bom, bem a propósito. Tava mesmo carecendo de um cavalo que nem este. A Zazá vai aproveitar o bichim poucas vezes, porque eu enxerto ela na primeira semana...” Sorriu, degustando a ideia: “Mulher amojada não pode montar que nem homem... Antão, quando ela tiver entojada, o degas, aqui, vai aproveitar...”

 

          CASAMENTO NA ROÇA era assim mesmo: casa cheia de parentes, vizinhos, amigos. Os homens chegavam no dia. As mulheres, dois dias antes, para uma demão final nos doces, no enxoval, nas quitandas. À noite, dançavam-se polca, ensaiavam-se quadrilhas, valsas, puladinhos. Tonico desdobrava-se, dançando com casadas e solteiras. Conversava muito, sorria sempre, respeitoso, amável. Zazá bebia-o com os olhos, de longe; apertava-o nos braços, os cabelos à altura dos lábios dele, quando dançavam.

          Aí, o falatório começou. Primeiro, na cozinha, murmurado a medo, entre as crias da casa: “Moço talentudo, bonito que nem cromo, não faz pouco caso dos mais pobres, sempre prazenteiro, se ri à toa para qualquer um, conversa com a gente que nem um igual...” A mais ousada ariscou, num muxoxo: “Aquele um, sim, que foi feito para a Dona Zazá. Inté a gente fica assim-assim, sabendo que ela, amanhã, vai ser de Sêo Dico, homim sem sustança...” Depois, já sem freios, o boquejo alcançou quartos e salas, quando Zazá dançou pela quarta ou quinta vez com Tonico. Dico Pereira foi alertado pela mãe dele, Siá Jacinta, que, de nariz torcido, falava com Siá Malvina: “Donzela noiva não deve dançar mais de uma vez com um rapaz desconhecido...” Siá Malvina respostou, rápida, sentindo-se ofendida com o reparo da outra: “Homessa! Desconhecido, não, Siá Jacinta. Adonde já se viu dizer que parente é pessoa desconhecida? Vosmecê, assim, agrava a gente...” Siá Jacinta saiu muxoxeando, as muxibas do rosto tremelicando. Procurou o filho, cochichou-lhe venenos. Dico Pereira embezerrou-se, sem atinar com o que fazer. Tio Jerô, que não escondia sua jeriza pelo Dico Pereira, apanhou a coisa no ar. Delirava, ouvindo aqui, especulando acolá, sem opinar, sem se trair. Aproveitou-se de um descanso do sanfoneiro, aproximou-se de Tonico, segredou-lhe:

          - Careço de um particular com vosmecê. – Saíram os dois para a noite estrelada e morna. Sem mais aquela, falou: - Moço, vosmecê me desculpe o mal jeito da conversa. Não gosto de papear muito. Vosmecê é atilado, sem sobrosso, vê-se logo. Mais porém, não atinou ainda com o rebuliço que sua estampa anda fazendo na manada de rabo-de-saia desta casa. – Fez uma pausa, tirou uma baforada do cigarrinho de palha, como se estivesse em dúvida sobre o que dizer. Pigarreou, cuspiu, continuou:  - Todas elas estão assanhadas, que nem franguinhas no preparo da postura. Vosmecê não vê as coisas que nem nós, porque tá dentro do fogo, obrando sem maldades no pensamento. – Tonico ouvia calado, o sangue em ebulição, sentindo uma vontade doida de dizer umas verdades para o Tio Jerô. Esperou que ele terminasse a fala, pedindo licença para também acender um cigarro. O velho continuou: - Já pedi a vosmecê que me relevasse a conversa, que é coisa cá do meu bestunto. Ninguém me encomendou sermão. Quero que vosmecê fique sabendo que, além de ser seu tio, sou seu amigo. Já especulei tudo. Vejo que vosmecê não gosta de tranças, nem é espoleteado. Posso dizer, sem errar: se vosmecê tivesse aparecido aqui no mês passado, seria enganchado na família do Libório. Na minha, não, porque não tenho mais filha pra casar. Se tivesse, também eu queria vosmecê para meu genro. Das moças que estão aí na casa, a mais desarvorada é mesmo Zazá. Me contaram que, em desde que ela botou os olhos em vosmecê, não quer mais ouvir falar no nome do noivo. Vosmecê, que é homem e sabe que as coisas do mundo são mesmo muito enganosas, que não é criatura arreliada, me responda se não coisa muito à revelia desmanchar casamento na hora do dito. É ou não é?

          Tonico gostaria de continuar calado. Sentindo, porém, cosca na língua, confirmou que tudo já estava combinado com Zazá; que, na hora do padre perguntar: - “É do seu gosto receber este homem como seu legítimo marido” – ela diria – “Não” – bem alto, para que todos ouvissem. Aí, estava a coisa desfeita, o dito por não dito. Quis falar de outros detalhes, tramados com Zazá. Calou-se, ouvindo a fala do Tio Jerô:

          - Vosmecê não acha que é coisa estuporada desfeitear o rapaz na hora do padre dar o nó cego? Despois, a palavra do mano Libório carece ser honrada, pois não. Trato é trato, e palavra de Carneiro nunca voltou atrás...

          O som roufenho da sanfona recomeçou, rasgando a noite estrelada. Tonico sentiu um arrepio de frio. Mais do que a insistência do velho, fraquejavam-lhe o ânimo os conceitos finais, tão bem analisados por ele. E fato, quando combinara com, Zazá o desfazimento do noivado daquela maneira, não pensara que a palavra do tio ficaria desmoralizada, que a desgraça alcançaria também a ele e ao pai, o velho Conrado, tido e havido como homem verdadeiro, orgulho dos Carneiro, cuja palavra fora sempre honrada. Abaixou a cabeça, disse, a voz sumida em tristeza e desânimo:

          - Sou culpado, tio Jerô, e muito. Quando a prima me falou que não gosta do noivo, que foi por medo de ficar pra titia que aceitou o pedido dele, e, que, agora, atinou com o erro em que caíra, eu devia dar conselhos a ela, me afastar. Mais porém, quem é que está livre de uma coisa dessa? Vi a prima e me arrasei. Estou pelo que der e vier. Não vou, agora que combinei tudo com ela, fugir com o rabo entra as pernas, que nem cachorro sem dono. Amanhã, depois que ela desmanchar o casamento, a gente vê logo o que vai acontecer.

          - Nããão, sêo danado! E a palavra do Libório?

          - Não falto ao respeito de vosmecê, tio Jerô, dizendo que o que gorou foi a palavra dela, a do tio Libório, não.

          - É a mesma coisa. Quem prometeu ela em casamento foi meu irmão. E, se assim foi, se ela não casar com o Dico Pereira, Libório fica desmoralizado.

          - Antão, vosmecê quer dizer que eu estou no mato sem cachorro?

          O velho sorriu, cofiou a barbicha esbranquiçada, descansou a mão no ombro de Tonico

          - Só há um jeito de se quebrar o trato...

          Ansioso, Tonico falou:

          - Se é vosmecê que afirma, não duvido.

          - Daqui a meia hora, quando o pessoal for cear, vosmecê vai se encontrar comigo atrás do curral. Faz de conta que vai fazer necessidades, não converse com ninguém. Sai de fininho e topa comigo lá...

          Sorriram os dois, Tonico preocupado, sem atinar com a solução que o velho Jerô havia dado ao problema; este, feliz da vida pela peça que pregaria em Dico Pereira.

         

          MEIA HORA DEPOIS, Tonico esgueirava-se pelo oitão da casa-de-farinha, ganhava a cerca do curral. Percebeu, lá adiante, vultos de animais arreados e, ao lado do lazão crina-branca, a prima Zazá. A voz dela, ciciada, carinhosa, envolveu-o:

          - Me ajude a montar, bem...

          Tonico sorriu. Compreendeu que, de fato, furtando, assim, a moça, o trato feito pelo tio não estava descumprido.

          Gaguejou:

          - Nossa! Zazá, que coisa doida a gente fez...

          E ela, nervosa e feliz:

          - Se apresse, bem. Tio Jerô e tia Sinhá dispararam na frente e esperam a gente na fazenda deles...

 

(BAZÉ – ESTÓRIAS SERTANEJAS)

Nelson de Faria

 



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O escritor NELSON DE FARIA

Julgado pela crítica brasileira:

 

“Os novos contos, acrescidos à primeira edição, 

são da mesma alta qualidade dos anteriores. 

A mão do mestre se reconhece em qualquer dos seus contos”.

RIBEIRO COUTO

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quinta-feira, 19 de abril de 2018

OS FERREIROS - Nelson de Faria


Os ferreiros

            Coisa estranha, aquela.

            Fizesse calor ou frio, fosse dia ou noite, manhã lavada em sol ou tarde que se afogasse em bruma e cinza, a “coisa” chegava, de mansinho, sem matinada ou leve arrepio que a denunciasse. Aproximava-se, zunindo baixinho, como se fosse aragem acariciando os ouvidos e os cabelos dele. De repente, estralejava com violência – T A M! – rachando-lhe os miolos ao meio. A primeira vez que lhe acontecera aquilo, lembrava-se, conversava na cozinha com a mulher, Siá Maricota – inté que se ria  pra ela, namorando-lhe as ancas gordas e os peitos fartos  - , a bagana apagada presa dos cacos de dentes encardidos. Agachara-se para pegar um graveto em brasa. Rápido, seco, o estalido soou: T A M!

            - Que coisa impossível! Cigarro e brasa foram atirados à distância. Siá Maricota olhou para ele, espantada, interrogando:

            - Que bicho te mordeu, criatura?

            O zunido sonoroso continuou nos ouvidos dele, que nem voo disparado de mangangá fugindo. Sem compreender o que lhe acontecera, temendo assustá-la, mentiu:

            - Nada não. Uma coisa assim, desgranida, repuxando os nervos da mão da gente, solevando os braços sem a gente querer. Uma gastura danada...

            Saiu, deixando a mulher em cismas. Desde então, quando se agachava, ouvia aquilo: - T A M! – Pernas e mãos fraquejavam, suor frio  porejava-lhe a raiz dos bigodes, escorria-lhe do canto da boca murcha, do cangote, descia-le pela suã, molhava-lhe a sovaqueira. Tudo tão rápido, tão sem sequência, que ele sentia vergonha de dizer que se amofinava. Ficou ensimesmado, começou a ter medo de sair sozinho, de ficar longe de casa. As carnes do corpo, que já eram poucas, minguaram mais. Desconfiava de tudo e de todos, olhava de viés, não encarava mais ninguém. Conversava pouco, sorria menos ainda.

            Uma tarde, depois da janta, proseavam os dois na varanda, com longos silêncios expectantes entre uma fala e outra. Siá Maricota descansava o bastidor de crivo sobre as coxas gordas, os dedos ágeis tecendo e enfeitando as aberturas simetricamente feitas no pano enfestado. Deco, enroscado na rede, o olhar tristonho perdido no azul cinzento do céu, pitava o cigarrinho de palha com ganas de esfomeado. Pousaram arapongas na jabuticabeira inçada de frutos ainda de-vez. Foi uma orgia. Numa esganação danada, os pássaros, de olhos vermelhos e cabeças esverdeadas, destroçaram tudo, inté frutas verdes e inchadas. Depois, de papos recheados, escancararam os gorgomilos rosados e foi aquela inferneira. Ele sentiu tonturas, angústia, cansaço. Pulou da rede, gritou, espantando os ferreiros:
            - Esbarra com isso, diabos! A gente não aguenta uma latomia assim... – Caiu sobre a rede, abaixou a cabeça dolorida, enfiou-a entre as mãos trêmulas, pôs-se a falar baixinho: - Igualzinho, Maricota, sem nem um porém, àquilo que estrala aqui dentro, machucando o bestunto da gente.

            Siá Maricota compreendeu, então, que algo de anormal acontecia ao marido. Disse, como se aconselhasse disfarçando a tristeza da voz a cabeça baixa e os olhos perdidos na tecedura do crivo:

             Se vosmecê quiser, mando buscar Sêo Candoca. Boquejam  que ele é bom para desmanchar coisa-feita, apertar parafuso desafrouxado da cabeça dos viventes. – Suspirou fundo, levantou a cabeça, olhou o marido com ternura, murmurou: - Porreteiro afamado, aquele um! Mando atrás dele, Deco, pra acabar com esse desadouro que amofina vosmecê.

            - Carece não, Maricota. Dilata mais um pouco. Isso passa...

            Quando os pássaros desatavam o seu cantar tinido, que nem martelos castigando bigornas, Deco fechava os olhos, arriava o corpo sobre o assento que encontrasse à mão, gesticulava, imprecava:

            - Os danados, outra vez, para não dar sossego aos miolos da gente!

            Um dia, por coincidência, quando Deco transpunha a soleira da porta, o estalo violento ocorreu juntamente com as pancadas do velho relógio dando horas. As últimas batidas estrondaram, fuxicando-lhe a cabeça. Parou, indeciso.

            - Bateu dez, Maricota?

            A voz da mulher veio de lá de dentro, da cozinha:

            - Nhor não, Deco, só contei nove.

            Diacho, inté parece que não sei mais contar! Trapalhada danada...

            Sorriu, meio contrafeito. Saiu, disfarçando o encalistramento, sentindo que a jeriza dele pelos ferreiros estava agora dividida entre os pássaros e o velho relógio de parede.

            NA CONSTÂNCIA das noites passadas em claro, adquiriu manhas, sutilezas de raciocínio para responder com evasivas ao que lhe perguntavam, fugir da cama sem que a mulher percebesse. Simulava dormir, ressonando, de boca aberta. Ficava desperto, imóvel. Percebendo que Siá Maricota dormia a sono solto, esgueirava-se, buscando o terreiro. Punha-se a contar as estrelas, os olhos em fogo, a pele arrepiada de frio, os cabelos úmidos de sereno. Ainda era manso, apesar da agitação das mãos e da inquietação do olhar.

            Na madrugada do tresvario, Deco recolhera-se cedo. Tranquilo nos gestos e no falar, olhou, sorrindo, para aqueles oitenta quilos de gorduras e bondades acumuladas no corpo de Siá Maricota, endereçou-lhe palavras carinhosas. Ela sorriu-lhe, bondadosa, alisando-lhe os cabelos raleiros, acomodando o corpo enorme sob os lençóis.

            - Tu viu passarim verde, bem?

            Deu-lhe as costas, a cara virada para a parede. Um quarto de hora depois, dormia.

            Deco teve sono plácido, acordou duas vezes somente no meio da noite. Passava por uma madorna, sentindo o corpo cansado de cama, quando ouviu, embrulhadas naquela semi-inconsciência que precede o despertar, as batidas sonoras do relógio. Contou as pancadas. Cinco. Levantou-se, saiu pisando na ponta dos pés, acendeu o bibiano, espiou o relógio. Os ponteiros marcavam quatro horas da madrugada. Ficou cismado. Apanhou o tolete de fumo de rolo, alisou a palha. Nervosamente, picou o bazé. Até nisso Siá Maricota notara a transformação por que passara o marido. De primeiro, ele era cuidadoso, selecionava fumo e palha. Agora, não. Palha enrugada, escura, feia, pedaços de bazé fedorento, que eram restolho, estavam sendo usados. Enrolado o cigarro, com dificuldade por via da tremura dos dedos, aproximou-se do fogão, soprou a cinza, atiçou os gravetos, pôs a ferver a chocolateira de folha-de-flandres. Coado o café, preparou a boca para o pito. Acalmou-se, ouviu, novamente, o relógio dando as horas. Contou-as:

            - Seis. Nossa, hora justa de se deixar a cama. Agorinha mesmo o danado bateu cinco...

            Ficou imerso em dúvidas. Teria o relógio batido cinco, ou foram seis? Correu a olhar. Enganara-se outra vez. O silêncio absorvera o som metálico da única pancada desferida pelos marteletes. Cismava, a cabeça latejando, sentindo arrepios pelo corpo todo:

            - Trem doido, coisa velha, ferrugenta. O diabo não marca certo as batidas que dá só pra fazer confusão no espírito da gente... Também, coitado, quando o velho Felisbino, meu avô, comprou ele de um cometa  baiano, foi que meu pai nasceu.

            Contou mentalmente: “Vinte... trinta e cinco... quarenta anos. Uai! Quarenta só, Deco? Quarenta e seis tenho eu. Quarenta e seis e meio, sô! Quarenta tem a Maricota, afora os três que ela viveu chupando nos ubres da velha Maria Nogueira, sua mãe. Mãe dela, que a pariu! Ora, e essa? Virge!  Que confusão danada, meu Deus! Sei contar mais não?” – Começava, parava, sentia aflição, não acertava a soma. Baralhava tudo. Olhou o relógio. Os números do mostrador começaram a dançar diante dos seus olhos. Dentro da cabeça dele também. No princípio, valsa lenta, quadrilha cadenciada, bem marcada por Sêo Jerônimo da Veredinha – “Êta sujeito despachado numa contradança! Marcador de respeito, nhor sim” – ao som da sanfona roufenha do Chico da Salu, sanfoneiro dos bons, que usava um anel grande, dos bitelos, no mindinho, para chamar a atenção das donzelas, virar a cabeça das desavergonhadas.

            Em seguida, o quadro mudava. A dança era outra. Os pares se agitavam. As pernas compridas do onze embaralhavam-se às saias rodadas do oito; a barriga volumosa do seis colidia com as barriguinhas atrevidas do três e do cinco, esbarravam nos palitos que formavam o quatro, empurrava ainda mais  pra riba a cabeça do nove; o sete, todo lorde, de colarinho engomado, olhava os outros com soberbia, como se fosse ele o dono da festa. O monóculo do dez desligou-se do companheiro, saltou fora do mostrador, zunindo que nem disco voador, e o um saiu rodopiando sozinho, tentando agarrar o dois, que deslizava sem par, parecendo patinho nadando... Houve uma pausa ligeira, e tudo mudou outra vez. Dançavam catira, polcavam, numa sarabanda infernal. Aí, a jeriza que nascera dentro dele foi aumentando, foi crescendo, crescendo... Os números do mostrador começaram a rir. Gargalhavam, gritavam, cantavam, sapateando dentro de sua cabeça dolorida. Angustiado, torceu a tramela da porta, respirou o ar leve e puro da madrugada. Foi ao rêgo, agachou-se para lavar a cara. Sentiu, então, as pancadas metálicas tinindo bem no fundo do fundo da mioleira; tão violentas que afocinhou, como se uma porretada lhe alcançasse a nuca. Vagarosamente, soergueu o corpo, ajoelhou-se. Fechou os olhos, que faiscavam, enfiou as mãos na água fria, molhou a cabeça, os braços, o rosto. Tateou os cabelos molhados com a ponta dos dedos trementes, procurando localizar o ponto certo das marteladas. Amolegou  as bochechas, percebendo que elas tremiam, subindo e abaixando, sem que ele quisesse. Levantou-se, desalentado. Escutou: vinham de longe, de muito longe, aumentando sempre de volume, tomando conta dos ouvidos dele, zunidos e assobios, gritos e gargalhadas. Os martelos começaram a bater... a bater... Às tontas, zanzando, as mãos crispadas, os pés dormentes se arrastando, o fôlego curto, alcançou a casa, chegou ao quarto. Babatando na escuridão, abriu o gavetão da cômoda sem fazer ruído, agarrou a fogo-central.

            Ouvia o relógio soando horas sem parar, os pássaros martelando bigornas... Retornou, pisando em algodão. Desconfiado, olhou o relógio, com raiva e decisão. Súbito, ao clarão fulgurante, ao estampido seco, ao barulho de vidro quebrado, sucedeu breve silêncio, pesado, inquietante. Depois, foi o pandemônio. Ferido de morte, o velho relógio despregou-se da parede e, espatifou-se no chão atijolado, gritando horas pela boca enferrujada de todas as engrenagens entornadas pela sala.

            Cacarejavam galinhas nos poleiros; latiam e uivavam cachorros no terreiro; Siá Maricota, ajoelhada diante do oratório, rezava e chorava; no curral berravam e mugiam vacas e bezerros. Estralejavam as marteladas estridentes das arapongas no capão do fundo da horta. Dentro dos miolos de Deco, repercutiam as frenéticas marteladas dos ferreiros... O sol insinuou a grande cara esbranquiçada por entre fiapos de nuvens, enveredou casa adentro pela abertura da porta, parou, para machucar os olhos de Sêo Deco dos Angicos. Ria-se, debochando, daquele olhar esgazeado e encalcava uma luz fria e branquela pra dentro da cabeça dele, que nem sovela perfurando lonca, inté deixar o pobre azucrinado de todo. E, não satisfeito com a maldade que praticava, também ele, o sol, como o velho relógio – imenso relógio desregrado – começou a gritar, a badalar, que nem sino anunciando defunto. Sêo Deco levou a pistola à frente, mirou o sol branco e frio que rompia morros e nuvens, deu ao gatilho:

            - Toma, tu também, desgraçado! Vai martelar a cabeça da mãe, diabo!

(BAZÉ – ESTÓRIAS SERTANEJAS)
Nelson de Faria
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O escritor NELSON DE FARIA
Julgado pela crítica brasileira:

      “Legítimo contador de estórias, para isso equipado não somente com vívida, movimentada e variada temática, mas, também com os recursos de composição que lhe dão foros de verdadeiro escritor, Nelson de Faria tem tudo, para merecer aplausos do público e da crítica. Tudo nele nos provoca profunda simpatia: a legítima vocação de escritor que só agora, consciente do seu trabalho lento, mas seguro,  no sentido da realização, permite-se aparecer em livro; o sentimento grave da terra e do homem que vive em função dela; o modo, a forma, de contar suas estórias.”
(Leonardo Arroyo)

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