Total de visualizações de página

sexta-feira, 19 de março de 2021

GRANDEZAS INCOMENSURÁVEIS DE SÃO JOSÉ – Renato Murta de Vasconcelos

 19 de março de 2021


Comentários sobre as excelências peculiares da vocação incomparável do escolhido para esposo de Maria e pai adotivo de Jesus, sua altíssima nobreza e a santidade 

Renato Murta de Vasconcelos

 

O mês de março é dedicado na liturgia católica a São José, o esposo castíssimo de Maria, cuja festa se celebra no dia 19. Os teólogos, em grande número, são unânimes em declará-lo o maior de todos os santos depois da Virgem Santíssima. Na Encíclica Quamquam Pluries (agosto de 1899), Leão XIII o proclamou patrono e defensor da Igreja universal e dos cristãos.

Hoje, no auge do processo de autodemolição da Igreja e descristianização do Ocidente, seu auxílio e sua proteção se tornam cada vez mais necessários. Neste sentido, a devoção a ele é mais atual do que nunca. Dentre suas incontáveis qualidades morais, refulge de modo especial a virtude da pureza, tão odiada pela Revolução gnóstica e igualitária. Insondavelmente puro, São José foi escolhido por Deus para esposo e guardião castíssimo de Maria e pai adotivo de Jesus. Privilégios estupendos, que lhe conferem um lugar único na ordem do universo e na história da salvação.

Jacó gerou José, esposo de Maria



São José, pai adotivo de Jesus
– Miguel Cabrera, séc. XVIII.
 Museu Nacional do Virreinato,
 Tepozotlán (México).

Cornélio a Lapide, o famoso exegeta jesuíta do século XVII, analisando o Evangelho de São Mateus (Mt 1, 16 ss), e apoiado no ensinamento de Padres da Igreja, santos e teólogos, comenta a vocação incomparável de São José.

Pode-se perguntar inicialmente por que a geração de Cristo é apresentada no Evangelho de São Mateus por meio da genealogia de José, tendo em vista que Jesus Cristo não era Filho de José, mas da Virgem Maria. Argumenta-se que Ela poderia casar-se com um homem de outra tribo, como ocorreu com sua prima Isabel, que era da tribo de Judá e se casou com o sacerdote Zacarias, da tribo de Levi.

De fato, as mulheres judias podiam se casar em outra tribo. Mas elas mesmas, na falta de herdeiros do sexo masculino, se tornavam herdeiras de seus pais, e nesse caso eram obrigadas a se casar com homens de sua própria tribo e família, para que sua herança não passasse por casamento para outra tribo (cf. último capítulo de Números, vers. 7). São Joaquim, o pai da Santíssima Virgem, não tinha filhos varões, fato que São Mateus omite por ser algo perfeitamente conhecido na época em que escreveu. Era um dever de Maria, portanto, casar-se com um varão de sua própria tribo e família, ou seja, José. Assim a genealogia de São José se tornou a genealogia da Santíssima Virgem, e consequentemente de Cristo Senhor Nosso. Ademais, os Padres ensinam universalmente que José e Maria eram da mesma tribo e família.

São José, legítimo pai de Jesus Cristo

Ademais, São Mateus apresenta a genealogia de Nosso Senhor Jesus Cristo a partir de José, e não de Maria, em primeiro lugar porque entre os judeus e outros povos a genealogia costuma ser traçada a partir de pais e maridos, não de mães e esposas. Em segundo lugar porque José, legítimo pai de Cristo, que era o herdeiro do trono e do cetro de Davi, não o era por meio de Maria, mas de José, de acordo com a promessa de Deus a David (2 Sam. 7, 12; Ps. 88 e 131).

O cetro de Judá repousou, portanto, sobre Jesus Cristo, não apenas pela promessa e dom de Deus, mas pelo direito de sucessão hereditária. Porque, se por direito comum os filhos sucedem à herança de seus pais, bastando para tal serem considerados seus filhos pela reputação comum, tanto mais era Cristo herdeiro de José, seu pai, visto que era Filho de sua Esposa, pelo poder e obra do Espírito Santo! Portanto, José tinha o direito paterno sobre Cristo. Na verdade, tinha todos os direitos que os pais têm sobre os filhos. Por outro lado, Cristo possuía em relação a José todos os direitos que os filhos têm em relação aos pais. Ele detinha, portanto, o direito ao trono de Israel após a morte de José. Daí a pergunta dos Reis Magos (Mt. 2, 2): “Onde está o Rei dos Judeus, que acaba de nascer?”



São Mateus apresenta a genealogia de Nosso Senhor Jesus Cristo a partir de José, e não de Maria, porque entre os judeus e outros povos a genealogia costuma ser traçada a partir de pais e maridos, não de mães e esposas. [Quadro: Casamento de Nossa Senhora e São José, Igreja de Notre-Dame de Recouvrance (Restabelecimento). Orleans, França. / Foto: Frederico Viotti].

Restaurador do cetro de Judá

Era o que quis demonstrar São Mateus, que, como diz Santo Agostinho, insiste na realeza de Cristo. E isso explica o porquê de ele traçar a genealogia de José, em vez da progênie de Maria. Ela não poderia ser a herdeira do trono enquanto sobrevivessem os herdeiros do sexo masculino, como José e outros. Como consequência, é preciso afirmar também que o pai e outros ancestrais de José eram primogênitos, ou pelo menos os filhos mais velhos sobreviventes de seus pais, de modo que o direito de reinar recaiu sobre eles.

É isso que o primeiro capítulo de São Lucas explicita com as palavras: “E o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai David”. Assim também em Gen. 49, 10: “O cetro não será tirado de Judá, nem o príncipe da sua descendência, até que venha aquele que deve ser enviado”; ​​isto é, Cristo devia restaurar o cetro a Judá, iniquamente tirado por Herodes; e na realidade devia elevar seu reino a uma grandeza muito mais alta, tornando-o espiritual em vez de corporal, celestial em vez de terrestre, e eterno em vez de temporal.

Incomparável dignidade de José e Maria



Imagem de São José
na antiga igreja de São Patrício,
 em Ann Arbor, Michigan (EUA)

É preciso notar a expressão José, marido de Maria. O árabe traduz como o esposo de Maria. Disto podemos deduzir que São José tinha todos os direitos de um verdadeiro esposo em relação à Virgem, por conseguinte é justa e verdadeiramente chamado pai de Cristo, segundo comenta Santo Agostinho.

1. Cristo pode ser considerado fruto do casamento de José e Maria, porque nasceu no casamento, embora não do casamento. A filiação pode ser atribuída, portanto, ao pai e à sua mãe.

2. Visto que o homem e sua mulher se tornam um pelo casamento – ou seja, como se fossem apenas uma pessoa aos olhos da lei – eles têm tudo em comum, e assim todos os seus filhos são legítimos. Assim, Cristo era o Filho da Virgem Mãe de Deus e era também Filho de José, que era esposo de Maria, e portanto o companheiro de todas as suas honras e bênçãos. José era mais verdadeiramente pai de Cristo do que alguém, quando adota um filho, é pai desse filho. Ele era pai de Cristo, não por adoção mas por casamento. Portanto, segue-se que José tinha a autoridade de um pai sobre Cristo, portanto a maior solicitude e afeição por Ele. E Cristo, em troca, amou e honrou José como a um pai, e lhe foi obediente, como está claro em Lucas 2, 51. Como diz Gerson, “Esta sujeição marca ao mesmo tempo a indescritível humildade de Cristo e a incomparável dignidade de José e de Maria”.

3. Cristo pertencia propriamente à família de José, pois pertencia à família de sua mãe, como sua própria mãe pertencia à de José. Nesta família nobilíssima, divina e celestial, o pai e governante era José; a mãe, a Virgem Santíssima; o filho, Cristo. Nesta família estavam as três pessoas mais excelentes de todo o mundo: primeiro Cristo, Deus e homem; em segundo lugar a Virgem Mãe de Deus, mais intimamente unida a Cristo; e em terceiro lugar José, o pai de Cristo pelo casamento.

Altíssima nobreza e santidade do esposo de Maria

Muitos dos sábios deste mundo, e mesmo a maior parte dos homens, pensam em José apenas como um carpinteiro pobre e desprezado. Porém é bom ter em mente que ele era ‘Filho de David’, como vimos, e isso não é dizer pouco. Quanto mais desprezado e desconhecido ele foi na Terra, tanto maior é a sua glória no Céu. O Papa Gregório XV decretou que sua festa fosse celebrada por toda a Igreja no dia 19 de março. Esta é uma honra bem merecida, pois grandes eram suas prerrogativas, seu cargo e sua dignidade acima de todos os outros homens.

1. José foi esposo da Santíssima Virgem e pai de Cristo. Foi, portanto, cabeça e superior tanto da Virgem quanto de Cristo enquanto homem.

2. Como conclusão, havia um amor e uma reverência singulares por parte da Santíssima Virgem e de Cristo para com José. Donde Jean Gerson, Chanceler da Universidade de Paris (Serm. de Nativ. BVM), exclamar: “Ó José, quão maravilhosa é a tua exaltação, quão incomparável a tua dignidade, pois a Mãe de Deus, a Rainha do Céu, a Senhora do mundo, não desdenhou chamar-te de senhor!”. São Gregório Nazianzeno (Orat. 11), para enaltecer a excelência do marido de sua irmã Gorgônia, nada de melhor encontra para isso do que mencionar que ele era seu marido: “Deseja que eu descreva o homem? Ele era seu marido, e não sei o que mais acrescentar”. Pode-se dizer o mesmo de São José: ‘Quer saber quem e quão grande ele foi? Ele era o esposo da Mãe de Deus!’

3. O ministério e o ofício de São José foram muito nobres, no que diz respeito à ordem da união hipostática do Verbo com a nossa carne. Pois exerceu todos os seus labores e ações na proximidade imediata da Pessoa de Cristo. Ele nutriu, educou e protegeu Cristo, e Lhe ensinou sua arte de carpinteiro, segundo a opinião comum dos Doutores. Francisco Suárez diz a este respeito: “Existem alguns ofícios que pertencem diretamente à ordem da graça, e nisto os Apóstolos ocupam a posição mais elevada, portanto precisam de maior assistência da graça do que todos os outros. Existem também outros ofícios que pertencem à ordem da união hipostática, a qual em seu gênero é uma ordem superior, como fica claro na maternidade divina na Santíssima Virgem. Nesta ordem São José exerceu seu ministério” (3ª parte. Quæst. 29, disp. 8, seção 1).

4. José, por sua convivência familiar e constante com Cristo e a Santíssima Virgem, tornou-se participante de seus segredos divinos, e diariamente via e imitava suas virtudes sublimes.

5. José era um varão de altíssima santidade, dotado por Deus de dons singulares, tanto da natureza como da graça; de modo que em sua época não havia homem mais santo ou mais digno de esposar a Mãe de Deus. Donde Suárez apresentar como provável que José fosse superior aos apóstolos e a João Batista em graça e glória, porque seu ofício era mais excelente do que o deles: ser pai e governador de Cristo é mais do que ser pregador e precursor. E acrescenta que ele já estava maduro quando desposou a Santíssima Virgem. Tendo morrido antes da crucifixão, por isso na Paixão de Cristo nenhuma menção lhe é feita. Ele ressuscitou com Cristo, juntamente com outros patriarcas, dos quais é feita menção em Mat. 27, 52: “Ressuscitaram muitos corpos de santos que dormiam”.



Essas excelências peculiares do excelso esposo de Maria são bem expressas nos qualificativos que lhe são atribuídos na bela ladainha aprovada pela Igreja: “São José, ilustre filho de Davi, luz dos patriarcas, Esposo da Mãe de Deus, guarda da Virgem pura, nutrício do Filho de Deus, zeloso defensor de Cristo, chefe da Sagrada Família, justíssimo, castíssimo, prudentíssimo, fortíssimo, obedientíssimo, fidelíssimo, espelho de paciência, amador da pobreza, exemplo dos trabalhadores, honra da vida doméstica, custódio das virgens, amparo das famílias, alívio dos miseráveis, esperança dos enfermos, padroeiro dos moribundos, terror dos demônios, protetor da santa Igreja”.

____________

Fonte: Revista Catolicismo, Nº 843, Março/2021.

https://www.abim.inf.br/grandezas-incomensuraveis-de-sao-jose/

 

  CatolicismoMatrimônioNobrezaSagrada FamíliaSão José

quinta-feira, 18 de março de 2021

Os Pingos Nos Is - 18/03/21

ITABUNA CENTENÁRIA UM SONETO: À Mameluca Maria Bárbara - Tenreiro Aranha


 

À Mameluca Maria Bárbara

   (Assassinada porque preferiu a morte à mancha de adúltera)

 

Se acaso aqui topares, caminhante,

Meu frio corpo já cadáver feito,

Leva piedoso, com sentido aspeito,

Esta nova ao esposo aflito e errante.

 

Diz-lhe com que ferro penetrante

Me viste, por fiel, cravado o peito,

Lacerado, insepulto, e já sujeito

O tronco ao feio corvo altivolante.

 

 Que de um monstro inumano – lhe declara - 

A mão cruel me trata desta sorte;

Porém que alívio busque à dor amara,

 

Lembrando-se que teve uma consorte

Que por honra da fé que lhe jurara,

À mancha conjugal prefere a morte.

 

TENREIRO ARANHA

Obras Literárias

....................



TENREIRO ARANHA

Bento de Figueiredo Tenreiro aranha, poeta amazonense, natural de Rio Negro, nascido em 04/09/1760 e falecido no Pará em 11/05/1811, foi ainda prosador e dramaturgo. Suas Obras Poéticas, reunidas por seu filho, foram pela primeira vez editadas em 1850. A segunda edição saiu em Lisboa em 1899. Sobressaiu como poeta lírico, possuindo suas poesias feições clássicas com tons de regionalismo.

* * *

terça-feira, 16 de março de 2021

A Vida em um Dia | Documentário Oficial

A MAIS EXCELENTE DAS VIRTUDES – Plinio Maria Solimeo

 A mais Excelente das Virtudes – Parte I

13 de março de 2021


Plinio Maria Solimeo

 

Uma expressão muito em voga antigamente, quando se via alguém maltratar outra pessoa ou mesmo um animal, era: “Que falta de caridade!”.

Na maioria das vezes, ao fazer esse comentário, muito pouca gente pensava na virtude da Caridade (com maiúscula), isto é numa das três Virtudes Teologais, assim chamadas porque têm como origem, motivo e objeto imediato o próprio Deus. As outras duas são a Fé e a Esperança. Essas virtudes são os três elementos essenciais da vida cristã e, por isso, São Paulo exorta os Tessalonicenses: “Tomemos por couraça a fé e a caridade, e por capacete a esperança da salvação” (Ts 5, 8).

A mais excelente das virtudes          

A caridade é assim definida: “A virtude teologal pela qual nós amamos a Deus sobre todas as coisas e o nosso próximo como a nós mesmos por amor de Deus”.

Ela é o “um mandamento novo” que Jesus apresentou aos Apóstolos: “Eis meu mandamento: Amai-vos uns aos outros, como eu vos tenho amado” (Jo 15, 12). “Como o Pai me amou, eu assim vos tenho amado. Permanecei em meu amor” (Jo 15, 9).

Amando-se uns aos outros, Seus discípulos imitam o amor que recebem de Jesus.

Com o fogo que lhe é próprio, o Apóstolo dos Gentios fala aos Coríntios sobre a excelência da virtude da Caridade: “Se eu falar as línguas de homens e de anjos, mas não tiver caridade, sou como bronze que soa ou címbalo que retine. E se possuir o dom de profecia, e conhecer todos os mistérios e toda a ciência, e alcançar tanta fé que chegue a transportar montanhas, mas não tiver caridade, nada sou. E se repartir toda minha fortuna, e entregar meu corpo ao fogo, mas não tiver caridade, isso nada me aproveita […]. Agora permanecem estas três coisas: fé, esperança e caridade. Porém, a mais excelente delas é a caridade” (1Cr 13, 1-4, 13).

Ele descreve ainda, de modo admirável, as características da caridade: “A caridade é paciente, a caridade é benigna; ela não é invejosa, a caridade não é jactanciosa, não se ensoberbece, não é descortês, não é interesseira, não se irrita, não guarda rancor; não se alegra com a injustiça, mas compraz-se na verdade; tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo tolera” (1Cr 13, 4-7).

Do mesmo modo, São Pedro, o Príncipe dos Apóstolos, em sua primeira Epístola, fala de um dos frutos da caridade: “Antes de tudo, mantende entre vós uma ardente caridade, porque a caridade cobre a multidão dos pecados” (1 Pe 4,8).

Caridade e amor sensível a Deus

A caridade, como virtude teologal, nos preceitua a amar a Deus acima de todas as coisas porque Ele é Deus, e a amar a nós mesmos e ao próximo por amor de Deus: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças” (Dt 6, 5).

É evidente que amar não significa amá-Lo com um máximo de intensidade, pois isso não é algo que esteja no nosso controle, pois depende da graça. Menos ainda significa a necessidade de sentir um amor a Deus mais sensível que o amor às criaturas. Pois estas, por mais imperfeitas que sejam, são visíveis a nós, e por isso apelam mais à nossa sensibilidade do que Deus, que é invisível: “Quem não ama o seu irmão a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê”. (1 Jo 4, 20). 

Segundo alguns exegetas, a expressão acima (“de todo o teu coração” etc.), foi escolhida pelo escritor sacro para elevar a caridade acima do baixo materialismo dos saduceus e do ritualismo formal dos fariseus da época.

Perde-se a caridade pelo pecado

Ao mesmo tempo, “amar a Deus acima de tudo” implica santidade de vida. É verdade que o homem é frágil, inconstante, ferido, obscurecido pelas paixões. Ele peca, e todos os seus pecados são falta de amor a Deus, mesmo quando ele não passa a odiar, em rebelião direta contra Ele com ódio de inimizade. Mas o pecado mortal nos faz perder a caridade e assim, a graça santificante.

Isto não ocorre com as outras duas virtudes teologais, a fé e a esperança, que podem subsistir mesmo depois de pecarmos e levar-nos ao arrependimento e à confissão. Este sacramento, recebido com as devidas disposições, nos permite readquirir a preciosa virtude da caridade.

Caridade e amor natural ao próximo

A própria razão nos diz que devemos amar nossos próximos, visto que são filhos de Deus, nossos irmãos, membros da mesma família humana, que têm a mesma natureza, dignidade, destino e necessidades que nós.

Mas esse amor natural ao próximo não é caridade, pois, conforme São Tomás, “caridade é amor; mas nem todo amor é caridade”.

A virtude da caridade é sempre sobrenatural, pois sempre tem a Deus como fim.

Por exemplo, quando uma pessoa assiste a um necessitado por causa das palavras de Cristo “o que fizerdes a um destes pequeninos, a mim o fazeis” (Mt 10,42; 25,40), está praticando um ato sobrenatural de caridade. Mas se o mesmo ato foi praticado por mera pena do pobre, e não pelo amor de Deus, o ato será de amor natural.

[Amanhã publicaremos a parte II deste artigo]

 

https://www.abim.inf.br/a-mais-excelente-das-virtudes-parte-i/

 

------------------------------------

A mais excelente das virtudes–PARTE II

14 de março de 2021



O Bom Samaritano. Xilogravura segundo desenho do pintor alemão Julius Schnorr von Carolsfeld (1794 – 1872).

Plinio Maria Solimeo

 

A obrigação de praticar atos de caridade em relação ao próximo é preceituada pela Revelação. Há vários textos da Sagrada Escritura que no-lo obriga, como as palavras do próprio Cristo: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” e “faça aos outros o que quer que lhe façam”.

Da caridade deflui a misericórdia, que nos inclina a ter compaixão das misérias de nosso próximo, considerando-as em certa medida como nossas. Isso de tal modo que, o que lhe causa tristeza, do mesmo modo nos entristece. A misericórdia é assim a virtude por excelência entre todas aquelas que se referem ao nosso próximo. O próprio Deus manifesta misericórdia em um grau extremo tendo compaixão de nós.

Caridade e misericórdia

Daí a necessidade que temos de praticar as obras de misericórdia, que são as que visam o bem espiritual ou corporal do nosso próximo. Elas se dividem em espirituais e corporais.

A maior parte das pessoas se empenham em praticar as obras de misericórdia corporais, levadas por mero sentimentalismo ou por uma pena genuína, mas puramente humana, que sente pelos necessitados. Entretanto, descuidam das obras espirituais, das quais muitas vezes o próximo está mais necessitado delas do que das primeiras.

O Catecismo de São Pio X nos indica quais são elas:

Obras de misericórdia espirituais

dar bom conselho;

ensinar os ignorantes;

corrigir os que erram;

consolar os aflitos;

perdoar as injúrias;

sofrer com paciência as fraquezas do nosso próximo

rogar a Deus por vivos e defuntos.

As sete obras de misericórdia corporais são as que cuidam das necessidades físicas de nosso próximo:

dar de comer a quem tem fome;

dar de beber a quem tem sede;

vestir os nus;

dar pousada aos peregrinos;

assistir aos enfermos;

visitar os presos;

enterrar os mortos.

O óbolo da viúva e o Bom Samaritano


A esmola feita pelo amor de Deus é uma obra tão boa e tão meritória, que atrai o olhar de Deus, como visto na cena do óbolo da viúva 
[quadro ao lado] em São Lucas, (21, 1 a 4): “Os demais deitaram, para as oferendas de Deus, daquilo que lhes sobrava, ao passo que esta, da sua indigência, deitou tudo o que tinha para seu sustento”.

Entretanto, o mais belo exemplo de obra de misericórdia corporal é dado pelo próprio Divino Mestre na parábola do Bom Samaritano [quadro no topo], o quadro mais belo e mais perfeito do amor ao próximo.

Sobre ela diz o ilustre arcebispo de São Paulo D. Duarte Leopoldo e Silva em sua sempre atual Concordância dos Santos Evangelhos:

“O samaritano vê um homem prostrado em terra, mortalmente ferido. Para ter o amor do próximo, para praticar esta virtude, é preciso primeiro ver, e não desviar os olhos da miséria que se nos apresenta. Não basta: é preciso ainda saber ver, deter-se um instante no caminho, considerar e compreender os males alheios, e não fazer como o sacerdote e o levita, que viram e passaram. Depois, é preciso ter dó, mover-se à compaixão, aproximar-se, pelo coração, daqueles que sofrem, não limitar-se a uma compaixão estéril, mas imitar o Samaritano, dar como ele, em favor do próximo, tempo, dinheiro, trabalho, a sua própria pessoa, em uma palavra, dedicar-se”.

Inveja: pecado grave contra a caridade

Sendo que a caridade consiste em amar a Deus sobre todas as coisas, o pecado que é diametralmente oposto a ela é o ódio a Deus. Esse ódio, quando chega ao seu auge, leva a pessoa a adorar o próprio Satanás. É o maior pecado que um homem pode cometer. O ódio evidentemente tem graus, que vão se manifestando num ódio sucessivo à Igreja, à Religião, e até aos bons. Quando é dirigido a estes, é um grande pecado que resulta de uma profunda desordem interna.

Mas, na ordem prática, o pior pecado contra o próximo é a inveja, que também é diretamente oposta à caridade cristã. Diz a respeito o grande moralista espanhol, Pe. Antonio Royo Marin O.P.:

“A inveja é oposta à alegria espiritual (que pode existir ao mesmo tempo com a tristeza, porque não gozamos ainda da perfeita posse de Deus, como teremos na visão beatífica) é ocasionada pelo bem do nosso próximo. É um horrível pecado que entristece a alma por causa do bem visto em outrem, não porque esse bem particular nos ameaça, mas porque é visto como algo que diminui nossa própria glória e excelência. De si, é um pecado mortal contra a caridade, que nos ordena regozijar-nos com o bem de nosso próximo […]. Da inveja, como um vício capital, procedem o ódio, a murmuração, difamação, prazer nas adversidades do próximo, e tristeza por sua prosperidade”.

Resumindo, diz o Pe. Royo Marin:

“Devemos amar primeiro Deus, que é a fonte de toda felicidade; depois, nossa própria alma, que participa diretamente da infinita felicidade; em terceiro lugar, nosso próximo, tanto homens quanto anjos, que são companheiros de nossa felicidade; e por último, nossos corpos, sobre os quais redunda a glória da alma, e mesmo coisas irracionais tanto quanto elas possam estar relacionadas com o amor e a glória de Deus. A caridade é a virtude ‘par excellence’ que abraça o Céu e a Terra”.

 

https://www.abim.inf.br/a-mais-excelente-das-virtudes-parte-i-2/

 

* * *

Igrejas Fechadas e Sacramentos Virtuais? - Com Tiba Camargos, Taiguara F...

RESPIRADORES JOGADOS NO MATO