Dai-lhe, Senhor o descanso eterno. E a luz perpétua o
ilumine!
https://www.abim.inf.br/dai-lhe-senhor-o-descanso-eterno-e-a-luz-perpetua-o-ilumine/
Dai-lhe, Senhor o descanso eterno. E a luz perpétua o
ilumine!
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Princesa Isabel aos 19 anos
A Princesa Isabel, a Redentora da raça negra, perdeu o
trono, mas não a majestade, nem a nobreza de alma. Essa grande dama brasileira
inspira saudades de uma época que não conhecemos e o desejo de um futuro Brasil
verdadeiramente brasileiro.
Oscar Vidal
Neste mês ocorre o centenário do falecimento daquela que
muito justamente chamamos de “A Redentora”, a Princesa Isabel. Numa época muito
tranquila e próspera do Brasil, ela nasceu em 29 de julho de 1846, no Palácio
Imperial de São Cristóvão (depois transformado em Museu Nacional, no Rio de
Janeiro, parcialmente destruído por um incêndio em 2018).
Batizada na Imperial Capela de Nossa Senhora da Glória do
Outeiro no dia 15 de novembro de 1846, ela recebeu o nome oficial de Isabel
Cristina Leopoldina Augusta Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga de Bourbon-Duas
Sicílias e Bragança. Foi a segunda filha (a primeira menina) do nosso Imperador
Dom Pedro II e de sua esposa a Imperatriz Teresa Cristina de Bourbon-Duas
Sicílias.
Como herdeira presuntiva do Império do Brasil, Isabel
recebeu o título de Princesa Imperial. Com a morte de seus dois irmãos, ela se
tornou a primeira herdeira do Imperador. Casou-se em 1864 com o príncipe
francês Louis Philippe Marie Ferdinand Gaston d’Orléans, o Conde d’Eu
(1842-1922), com quem teve quatro filhos. Ele era neto de Luís Filipe, rei dos
franceses. Ela é bisavó do atual chefe da Casa Imperial do Brasil, o Príncipe
Dom Luiz de Orleans e Bragança.
Missa Campal de Ação de Graças pela Abolição da Escravatura, realizada no dia 17 de maio de 1888, no Campo de São Cristóvão, no Rio de Janeiro. No detalhe (abaixo), vê-se a Princesa Isabel Isabel ao lado do Conde d´Eu. E, do lado oposto, um pouco abaixo e perto da Princesa, em posição destacada, o Cons. João Alfredo Corrêa de Oliveira.
Controvertida questão da escravidão no Brasil
Na Primeira
Regência, em razão da viagem do Imperador à Europa, em 28 de setembro de 1871 —
há exatos 150 anos — a Princesa Isabel assinou a Lei do Ventre Livre, que
alforriava todas as crianças nascidas de mulheres escravas após aquela data.
Essa lei foi patrocinada pelo gabinete liderado por José Maria da Silva
Paranhos, Visconde do Rio Branco (1819-1880), sendo Ministro do Interior João
Alfredo Corrêa de Oliveira [foto abaixo] — o mesmo que, 17 anos depois,
chefiaria o gabinete que promoveu a Lei Áurea.
Ao comemorar a aprovação dessa lei, das repletas galerias do
Parlamento lançaram os jubilosos assistentes uma chuva de rosas. Presente ao
ato, o embaixador norte-americano, James R. Partridge, emocionado, apanhou
algumas pétalas, dizendo: “Quero guardar estas flores, como lembrança
dessa maravilha. No Brasil a extinção da escravidão foi comemorada com flores,
enquanto no meu país custou uma guerra civil com quase um milhão de mortos”.
Em 28 de
setembro de 1885, no governo de João Mauricio Wanderley, Barão de Cotegipe
(1815-1889), foi promulgada a Lei dos Sexagenários, que concedia liberdade
a todos os escravos com idade igual ou superior a 60 anos.
Anos depois
— tendo caído o gabinete Cotegipe e sendo a Princesa novamente Regente do
Império —, ela deu um passo importante para livrar os escravos do cativeiro:
nomeou, como novo Presidente do Conselho de Ministros, o abolicionista João
Alfredo Corrêa de Oliveira — tio-avô paterno do inspirador e principal colaborador
desta revista, Prof. Plinio Corrêa de Oliveira.
No dia 8 de maio de 1888 o gabinete Corrêa de Oliveira
apresentou à Câmara dos Deputados a proposta de legislação que visava extinguir
de modo definitivo a escravidão. Dois dias depois ela era aprovada, e em
13 de maio chancelada também pelo Senado.
Nesse mesmo dia a Princesa Isabel sancionou a legislação,
conhecida como Lei Áurea, que aboliu a escravidão em todo o território
nacional. Seu belo e nobre gesto foi todo ele inspirado nos ensinamentos da Santa
Igreja Católica.
Tal era sua fidelidade à Religião que, não sem razão, o
sacerdote jesuíta Francisco Leme Lopes (1912-1983) fez alusão a ela como “Isabel,
a Católica”, comparando-a com este epíteto à Rainha Isabel de Castela e Leão
(1451-1504), que passou para a História com o muito emblemático título de “Isabel,
la Católica”.
O Imperador ficou radiante de alegria com a abolição
As ruas e
praças do Rio de Janeiro estavam em festa. Grandes comemorações revelavam o
enorme contentamento, não apenas entre os ex-escravos, mas também em outros
setores da opinião pública. A Princesa Imperial do Brasil foi aclamada como “A
Redentora”.
Naquele mesmo histórico dia, encontrando-se com o Barão de
Cotegipe, que havia feito oposição à Lei Áurea, a Princesa Isabel lhe
perguntou:
— “Barão, a abolição se fez com festas e flores. Venci
ou não venci?” — “Sim, Vossa Alteza ganhou a partida, mas perdeu o
trono”.
Ele prognosticava o tão injusto banimento da Família
Imperial. Com efeito, a Princesa Isabel teve de abandonar seu tão amado
País, pelo qual se dedicara com tanto afinco, pela Baía de Guanabara, a bordo
do vapor “Alagoas”, que a levaria com toda a Família Imperial para o exílio.
O Imperador Dom Pedro II, quando soube em Milão — onde se
encontrava recuperando-se de uma enfermidade — que a escravidão no Brasil havia
sido definitivamente abolida, ficou radiante de alegria e mandou telegrafar à
filha felicitando-a. Assim, no dia 22 de maio 1888, ditou o seguinte
telegrama: “Princesa Imperial. Grande satisfação para meu coração e graças
a Deus pela abolição da escravidão. Felicitação para vós e todos os
brasileiros. Pedro e Tereza”.
Condecoração Pontifícia “Rosa de Ouro”
No centenário de nascimento da Redentora, em 19 de julho de 1946, o Príncipe Dom Pedro Henrique de Orleans e Bragança (1909-1981), neto primogênito da Princesa Isabel, doou a “Rosa de Ouro” à Catedral do Rio de Janeiro. Ele a tinha trazido da Europa, quando retornou ao Brasil com o fim do exílio.
Fim do Império brasileiro, banimento e exílio
Sua Alteza Imperial sabia que seu gesto emancipando os escravos poderia exacerbar os ateus e republicanos que a caluniavam, levando à perda do trono. E foi de fato o que aconteceu com o golpe republicano de 15 de novembro de 1889.
Golpe muito bem descrito pelo jurista, político e jornalista
republicano Aristides da Silveira Lobo (1838-1896): “O povo assistiu
àquilo bestializado, atônito, surpreso, sem conhecer o que significava. Muitos
acreditaram seriamente estar vendo uma parada” (Diário Popular, 18-11-1889).
No dia seguinte ao golpe de estado, como registrou o historiador Roderick J.
Barman, a Princesa Isabel afirmou alto e bom som que “se a abolição é a
causa disto, eu não me arrependo; eu considero valer a pena perder o trono por
ela”.
Quando
a Princesa da “Rosa de Ouro” tomou conhecimento do decreto do banimento da
família imperial, reafirmou: “Mil tronos eu tivesse, mil tronos eu
sacrificaria para libertar os escravos do Brasil”. Afirmação que ecoava o
pensamento de seu pai, o Imperador Dom Pedro II, quando disse: “Prefiro
perder a coroa a tolerar a continuação do tráfico de escravos”.
Em sua
partida para o exílio, dois dias depois do golpe, a Princesa declarou: “É
com o coração despedaçado pela tristeza que me despeço dos meus amigos, de
todos os Brasileiros, e do País que eu amei e amo muito, e da felicidade
que eu tenho lutado para contribuir e pela qual eu vou continuar a manter as
mais ardentes esperanças”.
Devoção da Princesa à Rainha do Brasil
Naquela
ocasião, a Princesa Imperial escreveu a seguinte oração, dirigida a Nossa
Senhora Aparecida: “Eu, diante de Vós, sou uma princesa da terra, e eu me
curvo, pois Vós sois a Rainha do Céu. E eu Vos dou tão pobre presente, que seria
uma coroa igual à minha, e se eu não me sentar no trono do Brasil, rogo que a
Senhora se sente por mim e governe perpetuamente o Brasil”.
Idealizadora do Cristo Redentor no Corcovado
Na edição anterior desta revista foi publicada uma matéria
em memória dos 90 anos do Cristo Redentor no Rio de Janeiro. Mas não podemos
deixar de registrar, ainda que de passagem, que depois da abolição da
escravatura quiseram homenagear a Redentora erigindo no topo do Corcovado uma
grande estátua dela.
O Império foi derrubado, a República se instalou, a
homenagem foi engavetada. Anos depois, o plano voltou à tona. Quando a Princesa
Isabel soube desse projeto, foi enfática em não o aceitar, e sugeriu que
naquele mesmo lugar paradisíaco fosse erguido um enorme monumento com uma
grande imagem de Nosso Senhor Jesus Cristo, pois, Ele sim, foi o verdadeiro
Redentor dos homens. O que foi acolhido.
Mas foi somente em 1931, 10 anos após o falecimento da
Princesa, que se concluiu a monumental estátua do Cristo Redentor, hoje
considerada oficialmente uma das Maravilhas do Mundo Moderno… Ela não a viu
nesta Terra, mas a contempla do Céu.
Pedidos para que a veneranda Princesa seja beatificada
No dia 14 de novembro de 1921, há exatos 100 anos, a bondosa
Princesa falecia na França, aos 75 anos de idade. Em seu testamento podemos
admirar sua profissão de fé: “Quero morrer na Religião Católica Apostólica
Romana, no amor de Deus e no dos meus e de minha Pátria”. Atualmente seus
restos mortais se encontram numa artística sepultura na catedral de São Pedro
de Alcântara, em Petrópolis (RJ).
Crescendo de norte a sul do País os pedidos para que a
veneranda Princesa Imperial seja beatificada, e um dia — comprovando-se que ela
praticou virtudes em grau heroico — elevada à honra dos altares, em 2011 foi
dado início aos tramites necessários para abertura do processo de beatificação.
Os brasileiros amaram a Princesa Isabel de todo o coração e
esperavam que ela viesse a ser sua Imperatriz, pois conhecia e amava o Brasil e
estava disposta a tudo fazer pelo bem de nossa gente. Mas tal desígnio foi
ceifado pelas forças anticatólicas e antimonárquicas com o golpe republicano.
A República foi proclamada e o trono foi derrubado, mas não
a legenda áurea do imenso bem que a Monarquia fez ao Brasil. A legenda
permanece viva e os brasileiros têm saudades de uma época que não conheceram.
____________
Fonte: Revista Catolicismo, Novembro/2021, Nº 851.
Obras consultadas:
Pedro Calmon, História do Brasil, Livraria José Olympio
Editora, Rio de Janeiro, 1959.
Pedro Calmon, História da Civilização Brasileira,
Companhia Editorial Nacional, São Paulo, 6ª edição, 1958.
Leopoldo Bibiano Xavier, Revivendo o Brasil-Império (Coletânea),
Artpress – Indústria Gráfica e Editora Ltda., São Paulo, 1991.
https://www.abim.inf.br/a-princesa-que-tanto-amou-o-brasil-e-a-ele-se-dedicou-1921-2021/
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A Rosa de Ouro da Princesa Imperial
Plinio Corrêa de Oliveira
Legionário, 14 de julho de 1946
Segundo notícias veiculadas pela imprensa, acaba de chegar
da Europa S. A. o Príncipe Dom Pedro Henrique de Orleans e Bragança, que trouxe
consigo a “Rosa de Ouro” doada pelo Santo Padre Leão XIII à Princesa Isabel.
Segundo consta, essa preciosa joia será doada à Catedral do Rio de Janeiro, por
ocasião do 1º Centenário do nascimento daquela ínclita Princesa.
O fato tem atraído a atenção de todo o nosso público, quer
pela significação, quer pelo valor histórico e intrínseco da preciosa joia. E
oferece ao “Legionário” a oportunidade de pôr em evidência a atuação da Santa
Sé em um dos episódios mais marcantes da História brasileira.
Como se sabe, um dos títulos de glória da civilização cristã
consiste em haver abolido a escravidão na Europa. Em todas as grandes
civilizações pagãs da África e da Ásia, a escravidão era um instituto
geralmente admitido e adotado. A Grécia herdou do Oriente esta tradição e
durante toda a história helênica a escravidão existiu. Roma, herdeira da
civilização grega, também conheceu a escravidão.
É sabido que por várias causas, e especialmente em
consequência das conquistas, os romanos, que consideravam escravos os
prisioneiros de guerra, acresceram desmesuradamente o número dos escravos, que
nos mercados de Roma um homem chegou a custar menos que um rouxinol.
Com os primeiros albores do Cristianismo, começou a luta
lenta da Igreja contra a escravidão. Numerosos eram os senhores que libertavam
seus escravos, em vida ou por testamento, para expiar seus pecados e dar glória
a Deus. Sobrevindo a Idade Média, o destino dos escravos foi sendo lentamente
melhorado, e por fim a escravidão cessou inteiramente em território europeu.
Pela primeira vez na História, um continente inteiro deixou
de ter escravos, para só ter homens livres. E este imenso fenômeno de elevação
social se verificou — como ulteriormente no Brasil — sem as perturbações
tremendas que a libertação dos escravos trouxe nos Estados Unidos.
A Renascença foi uma verdadeira ressurreição do paganismo, e
trouxe consigo uma ressurreição da escravidão. O homem cúpido e prepotente do
Renascimento restaurou em terras da América o cativeiro. Lutando obstinadamente
contra este fato, a Igreja conseguiu evitar de um modo geral o cativeiro dos
índios. Mas não chegou a evitar o dos negros.
Ficava, pois, a nódoa. Era preciso apagá-la.
Costuma-se interpretar o gesto de Nabuco como sendo
destinado especialmente a fazer pressão sobre a Princesa Imperial, católica
modelar, a fim de conseguir dela o gesto de libertação final. O fato é que
qualquer palavra do Pontífice teria por certo a maior ressonância junto à
Princesa. Mas se bem que esta pudesse sentir uma ou outra hesitação quanto à
oportunidade da medida, o fato é que a causa abolicionista já era causa
vencedora no nobre coração de Da. Isabel.
Ninguém ignora que ela era abolicionista de todo o coração,
a tal ponto que no próprio Paço Imperial seus filhos, ainda pequenos,
confeccionavam um pequeno jornal abolicionista que circulava com grande
irritação dos escravagistas.
A palavra do Pontífice colocaria na caudal do movimento
abolicionista a imensa massa católica do país. No plano puramente político,
este efeito da Carta de Leão XIII talvez ainda não tenha sido devidamente
apreciado por nossos historiadores.
E veio a abolição. Leão XIII quis dar, a este propósito, um
testemunho de sua paternal admiração à nobre Princesa que assinara o decreto, e
de aplauso ao povo que tão bem o recebera. Daí o enviar o Pontífice à grande
Princesa brasileira a “Rosa de Ouro”, o mais alto testemunho de apreço que o
Papa dá aos membros de Casa reinante.
Esta joia de inestimável valor põe, portanto, em foco, a figura de Leão XIII e da grande Princesa Isabel, e evoca uma página brilhante, a um tempo da História da Igreja e do Brasil.
https://www.abim.inf.br/a-rosa-de-ouro-da-princesa-imperial/
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Uma glória da Igreja na História do Brasil
Fotografia colorida digitalmente.
Plinio Corrêa de Oliveira
Legionário, 28 de julho de 1946
Transcorrendo agora o primeiro centenário do nascimento da
Princesa Isabel, é da maior conveniência que se ponham em relevo alguns
aspectos de sua personalidade, que a opinião pública ainda não conhece
devidamente.
Não vale a pena analisar, é claro, as mil pequenas calúnias
e maldades com que a propaganda republicana procurou, durante os últimos anos
da monarquia, açular contra a herdeira da coroa, a opinião pública. “Mentez,
mentez, il en restera toujours quelque chose” (Menti, menti, sempre ficará
alguma coisa), escrevia Voltaire.
O caso da Princesa Isabel constitui significativa exceção à
regra geral. Hoje em dia, não há quem perca tempo em discutir os leitmotivs da
propaganda anti-isabelina: todos tiveram a vida efêmera das mentiras mal
contadas, e se desacreditaram por si.
Cerimônia da assinatura da Lei Áurea (Quadro de Victor Meirelles)
Entretanto, apesar de tudo isto, a figura da Princesa Isabel
ainda não é bem conhecida pelos brasileiros. Os compêndios a apresentam tão
somente como a libertadora da raça escrava. Ela emerge da sombra discreta da
vida do lar, para penetrar na grande História em um momento fulgurante. Assina
a lei de abolição.
Volta, depois, à vida de família, numa penumbra que o
exílio, pouco depois, ainda tornará mais densa. E nesta penumbra se extingue
docemente, e quase sem ruído, a sua vida terrena, numa época em que sua figura
já tinha saído inteiramente da atualidade política. Desta vida familiar
transcorrida numa nobre discrição, se desprende perfume da genuína virtude
cristã.
Reunindo estes escassos elementos informativos, o quadro
psicológico da Princesa parece compor-se facilmente: excelente dama, que viveu
sempre para o lar e que teve a felicidade de assinar em dado momento a lei de
emancipação.
Por certo, estes traços gerais são verdadeiros e eles bastam
inteiramente para justificar a glória da “Redentora”. Não há dúvida,
entretanto, de que uma análise histórica mais pormenorizada enriqueceria muito,
com novos e belos aspectos, esta noção que, se bem que bela, é no fundo
bastante sumária.
* * *
Antes de tudo, é preciso compreender bem o que significa, em
regime monárquico, a vida de família de uma Princesa. Não se pense que é uma
vida privada, com sua agradável irresponsabilidade e doce despreocupação. A
função social da família reinante é subtil e difícil de definir. Nem por isto,
deixa de ser muito real e importante.
Para que tenhamos disto alguma ideia, é preciso
considerarmos o exemplo inglês, a suma atenção com que a opinião de todas as
camadas sociais e correntes partidárias acompanha os gestos e feitos da família
real, e a importância que atribui a qualquer acontecimento que ocorra neste
terreno.
A família reinante deve, a um tempo, ser o espelho e o
modelo do ideal familiar e social do país. Espelho, no sentido de que deve
possuir do modo mais acentuado e autêntico, o que a mentalidade doméstica e
social do país tem de típico. A família reinante deve ser como que a
concretização simbólica do espírito nacional, no que diz respeito à vida social
e familiar.
Modelo, no sentido de que cabe à dinastia a função discreta
de dirigir a evolução da mentalidade nacional, no lar e na sociedade. Munida do
prestígio social inerente à sua categoria, pode a família reinante, sobre a
qual convergem todos os olhares, por meio de seu exemplo, fazer cair em desuso
os costumes menos bons e os substituir gradualmente por outros, exercendo assim
sobre o espírito público uma função pedagógica de imensa importância.
Foi este o papel social com que deparou a Princesa, desde
seus primeiros anos. Digamos desde logo que ela o desempenhou modelarmente.
* * *
Se investigarmos bem a fundo as razões da popularidade que a
Família Imperial conservou, mesmo depois da República, veremos que reside em
boa parte, no êxito de sua tarefa social. O velho Imperador, com a grande
respeitabilidade de sua figura, seu porte grave e afável, sua longa barba
precocemente encanecida, representava bem o tipo ideal do excelente pai de
família brasileiro daquela época, coluna do lar, protetor suave e varonil dos
seus.
Os costumes privados do Imperador eram sabidamente
excelentes. O Imperador era como que o tipo exemplar que concentrava em si as
virtudes que cada brasileiro estimava em seu próprio Pai. O mesmo se poderia
dizer da Imperatriz, Dona Teresa Cristina. Era italiana, da Casa de Bourbon
Duas Sicílias.
Adaptou-se a nosso ambiente com a naturalidade com que o
fazem os de sua terra. Feia, boa, acolhedora, era ela mesma o protótipo da dama
brasileira, algum tanto desinteressada naquele tempo dos encargos de
representação, mas exímia em tudo quanto dissesse respeito aos deveres do lar.
Todo o mundo, consciente ou inconscientemente, se sentia um pouco parente
daquela família-tipo.
Cabia à Princesa Isabel sustentar esta tradição, representar
ela mesma a geração em que nascera, com a exatidão e fidelidade com que seus
pais haviam logrado encarnar a geração anterior. Incumbia-lhe aliar à
representação própria ao regime monárquico, a simplicidade de que os
brasileiros sempre foram tão ardentes apreciadores.
Até que ponto foi bem sucedida em tudo isto? Não lhe
faltaram críticas. A alguns parecia excessiva sua simplicidade, seu
desinteresse pela vida de sociedade. Por uma contradição muito própria à
política brasileira, este ponto era explorado, não pelos altos círculos
sociais…, mas pela propaganda republicana.
Outros receavam que, como dama que era, não tivesse o pulso
forte que deve ter quem carrega o cetro. Mais uma vez, foram sobretudo os
republicanos que se alarmaram com a ideia de que de futuro o cetro não fosse
manuseado com suficiente força, eles que queriam a queda do trono, precisamente
para evitar os excessos do poder.
Mas é preciso dizer que não foram só os republicanos que se
desagradaram por vezes com este aspecto da atuação da Princesa. Mesmo em
círculos monárquicos, estas críticas causavam certa impressão. E alguns dos
mais férvidos defensores da coroa eram os primeiros a achar que o trono exigia
mais representação e mais força.
Até que ponto estas críticas foram fundadas? A questão se
prestaria a um muito amplo desenvolvimento. Ela pertence sobretudo ao domínio
da história dos costumes, capítulo complexo da grande História, que não se
trata razoavelmente senão com um amplo desenvolvimento de reflexões e um grande
reforço de fatos e documentos, coisa que, evidentemente, escapa aos limites de
um artigo.
Uma coisa, porém, é certa. A Princesa Imperial se conservou
muito popular durante todo o tempo da monarquia e esta popularidade perdurou
até sua morte. Quando ela faleceu, os jornais publicaram com destaque a sua
fotografia, os brasileiros fitaram comovidamente sua figura de anciã maternal e
veneranda. A lei de 13 de Maio já estava longe e a todos parecia tão natural
que não houvesse escravos no Brasil, que ninguém sentia mais a sagrada emoção
do dia da abolição.
O pesar que sua morte causou foi, para todos, um pouco como
o da morte de um membro de sua própria família. Era uma popularidade pessoal,
que lhe vinha de suas virtudes, vistas sobretudo deste ângulo fundamental: a
Princesa soubera, ela também, encarnar perfeitamente o que havia de melhor
entre as brasileiras de sua geração. Era o tipo da grande dama brasileira de
seu tempo, nobre, maternal, bondosa, que sabia fazer-se respeitar sobretudo
pelo amor.
É possível que algo pudesse ter sido mais perfeito no seu
modo de desempenhar o papel representativo de seu cargo. Somente hoje, começam
os historiadores a poder pronunciar-se sobre o assunto com isenção. E a questão
ainda depende de estudo. De um modo ou do outro em linhas gerais é inegável que
ela acertou: a sua durável popularidade prova-o de modo claríssimo.
https://www.abim.inf.br/uma-gloria-da-igreja-na-historia-do-brasil/
* * *
19 de março de 2021
Comentários sobre as excelências peculiares da vocação
incomparável do escolhido para esposo de Maria e pai adotivo de Jesus, sua
altíssima nobreza e a santidade
Renato Murta de Vasconcelos
O mês de março é dedicado na liturgia católica a São José, o
esposo castíssimo de Maria, cuja festa se celebra no dia 19. Os teólogos, em
grande número, são unânimes em declará-lo o maior de todos os santos depois da
Virgem Santíssima. Na Encíclica Quamquam Pluries (agosto de 1899),
Leão XIII o proclamou patrono e defensor da Igreja universal e dos cristãos.
Hoje, no auge do processo de autodemolição da Igreja e
descristianização do Ocidente, seu auxílio e sua proteção se tornam cada vez
mais necessários. Neste sentido, a devoção a ele é mais atual do que nunca.
Dentre suas incontáveis qualidades morais, refulge de modo especial a virtude
da pureza, tão odiada pela Revolução gnóstica e igualitária. Insondavelmente
puro, São José foi escolhido por Deus para esposo e guardião castíssimo de
Maria e pai adotivo de Jesus. Privilégios estupendos, que lhe conferem um lugar
único na ordem do universo e na história da salvação.
Jacó gerou José, esposo de Maria
São José, pai adotivo de Jesus
– Miguel Cabrera, séc. XVIII.
Museu Nacional do Virreinato,
Tepozotlán (México).
Cornélio a Lapide, o famoso exegeta jesuíta do século XVII,
analisando o Evangelho de São Mateus (Mt 1, 16 ss), e apoiado no ensinamento de
Padres da Igreja, santos e teólogos, comenta a vocação incomparável de São
José.
Pode-se perguntar inicialmente por que a geração de Cristo é
apresentada no Evangelho de São Mateus por meio da genealogia de José, tendo em
vista que Jesus Cristo não era Filho de José, mas da Virgem Maria. Argumenta-se
que Ela poderia casar-se com um homem de outra tribo, como ocorreu com sua
prima Isabel, que era da tribo de Judá e se casou com o sacerdote Zacarias, da
tribo de Levi.
De fato, as mulheres judias podiam se casar em outra tribo.
Mas elas mesmas, na falta de herdeiros do sexo masculino, se tornavam herdeiras
de seus pais, e nesse caso eram obrigadas a se casar com homens de sua própria
tribo e família, para que sua herança não passasse por casamento para outra
tribo (cf. último capítulo de Números, vers. 7). São Joaquim, o pai da
Santíssima Virgem, não tinha filhos varões, fato que São Mateus omite por ser
algo perfeitamente conhecido na época em que escreveu. Era um dever de Maria,
portanto, casar-se com um varão de sua própria tribo e família, ou seja, José.
Assim a genealogia de São José se tornou a genealogia da Santíssima Virgem, e
consequentemente de Cristo Senhor Nosso. Ademais, os Padres ensinam
universalmente que José e Maria eram da mesma tribo e família.
São José, legítimo pai de Jesus Cristo
Ademais, São Mateus apresenta a genealogia de Nosso Senhor
Jesus Cristo a partir de José, e não de Maria, em primeiro lugar porque entre
os judeus e outros povos a genealogia costuma ser traçada a partir de pais e
maridos, não de mães e esposas. Em segundo lugar porque José, legítimo pai de
Cristo, que era o herdeiro do trono e do cetro de Davi, não o era por meio de
Maria, mas de José, de acordo com a promessa de Deus a David (2 Sam. 7, 12; Ps.
88 e 131).
O cetro de Judá repousou, portanto, sobre Jesus Cristo, não
apenas pela promessa e dom de Deus, mas pelo direito de sucessão hereditária.
Porque, se por direito comum os filhos sucedem à herança de seus pais, bastando
para tal serem considerados seus filhos pela reputação comum, tanto mais era
Cristo herdeiro de José, seu pai, visto que era Filho de sua Esposa, pelo poder
e obra do Espírito Santo! Portanto, José tinha o direito paterno sobre Cristo.
Na verdade, tinha todos os direitos que os pais têm sobre os filhos. Por outro
lado, Cristo possuía em relação a José todos os direitos que os filhos têm em
relação aos pais. Ele detinha, portanto, o direito ao trono de Israel após a
morte de José. Daí a pergunta dos Reis Magos (Mt. 2, 2): “Onde está o Rei
dos Judeus, que acaba de nascer?”
São Mateus apresenta a genealogia de Nosso Senhor Jesus
Cristo a partir de José, e não de Maria, porque entre os judeus e outros povos
a genealogia costuma ser traçada a partir de pais e maridos, não de mães e
esposas. [Quadro: Casamento de Nossa Senhora e São José, Igreja de
Notre-Dame de Recouvrance (Restabelecimento). Orleans, França. / Foto:
Frederico Viotti].
Restaurador do cetro de Judá
Era o que quis demonstrar São Mateus, que, como diz Santo
Agostinho, insiste na realeza de Cristo. E isso explica o porquê de ele traçar
a genealogia de José, em vez da progênie de Maria. Ela não poderia ser a
herdeira do trono enquanto sobrevivessem os herdeiros do sexo masculino, como
José e outros. Como consequência, é preciso afirmar também que o pai e outros
ancestrais de José eram primogênitos, ou pelo menos os filhos mais velhos
sobreviventes de seus pais, de modo que o direito de reinar recaiu sobre eles.
É isso que o primeiro capítulo de São Lucas explicita com as
palavras: “E o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai David”. Assim
também em Gen. 49, 10: “O cetro não será tirado de Judá, nem o príncipe da
sua descendência, até que venha aquele que deve ser enviado”; isto é,
Cristo devia restaurar o cetro a Judá, iniquamente tirado por Herodes; e na
realidade devia elevar seu reino a uma grandeza muito mais alta, tornando-o
espiritual em vez de corporal, celestial em vez de terrestre, e eterno em vez
de temporal.
Incomparável dignidade de José e Maria
Imagem de São José
na antiga igreja de São Patrício,
em Ann Arbor, Michigan (EUA)
É preciso notar a expressão José, marido de Maria. O
árabe traduz como o esposo de Maria. Disto podemos deduzir que São José tinha
todos os direitos de um verdadeiro esposo em relação à Virgem, por conseguinte
é justa e verdadeiramente chamado pai de Cristo, segundo comenta Santo
Agostinho.
1. Cristo pode ser considerado fruto do casamento de
José e Maria, porque nasceu no casamento, embora não do casamento. A
filiação pode ser atribuída, portanto, ao pai e à sua mãe.
2. Visto que o homem e sua mulher se tornam um pelo
casamento – ou seja, como se fossem apenas uma pessoa aos olhos da lei – eles
têm tudo em comum, e assim todos os seus filhos são legítimos. Assim, Cristo
era o Filho da Virgem Mãe de Deus e era também Filho de José, que era esposo de
Maria, e portanto o companheiro de todas as suas honras e bênçãos. José era
mais verdadeiramente pai de Cristo do que alguém, quando adota um filho, é pai
desse filho. Ele era pai de Cristo, não por adoção mas por casamento. Portanto,
segue-se que José tinha a autoridade de um pai sobre Cristo, portanto a maior
solicitude e afeição por Ele. E Cristo, em troca, amou e honrou José como a um
pai, e lhe foi obediente, como está claro em Lucas 2, 51. Como diz
Gerson, “Esta sujeição marca ao mesmo tempo a indescritível humildade de
Cristo e a incomparável dignidade de José e de Maria”.
3. Cristo pertencia propriamente à família de José,
pois pertencia à família de sua mãe, como sua própria mãe pertencia à de José.
Nesta família nobilíssima, divina e celestial, o pai e governante era José; a
mãe, a Virgem Santíssima; o filho, Cristo. Nesta família estavam as três
pessoas mais excelentes de todo o mundo: primeiro Cristo, Deus e homem; em
segundo lugar a Virgem Mãe de Deus, mais intimamente unida a Cristo; e em terceiro
lugar José, o pai de Cristo pelo casamento.
Altíssima nobreza e santidade do esposo de Maria
Muitos dos sábios deste mundo, e mesmo a maior parte dos
homens, pensam em José apenas como um carpinteiro pobre e desprezado. Porém é
bom ter em mente que ele era ‘Filho de David’, como vimos, e isso não é dizer
pouco. Quanto mais desprezado e desconhecido ele foi na Terra, tanto maior é a
sua glória no Céu. O Papa Gregório XV decretou que sua festa fosse celebrada
por toda a Igreja no dia 19 de março. Esta é uma honra bem merecida, pois
grandes eram suas prerrogativas, seu cargo e sua dignidade acima de todos os
outros homens.
1. José foi esposo da Santíssima Virgem e pai de
Cristo. Foi, portanto, cabeça e superior tanto da Virgem quanto de Cristo
enquanto homem.
2. Como conclusão, havia um amor e uma reverência
singulares por parte da Santíssima Virgem e de Cristo para com José. Donde Jean
Gerson, Chanceler da Universidade de Paris (Serm. de Nativ. BVM),
exclamar: “Ó José, quão maravilhosa é a tua exaltação, quão incomparável a
tua dignidade, pois a Mãe de Deus, a Rainha do Céu, a Senhora do mundo, não
desdenhou chamar-te de senhor!”. São Gregório Nazianzeno (Orat. 11), para
enaltecer a excelência do marido de sua irmã Gorgônia, nada de melhor encontra
para isso do que mencionar que ele era seu marido: “Deseja que eu descreva
o homem? Ele era seu marido, e não sei o que mais acrescentar”. Pode-se
dizer o mesmo de São José: ‘Quer saber quem e quão grande ele foi? Ele era o
esposo da Mãe de Deus!’
3. O ministério e o ofício de São José foram muito
nobres, no que diz respeito à ordem da união hipostática do Verbo com a nossa
carne. Pois exerceu todos os seus labores e ações na proximidade imediata da
Pessoa de Cristo. Ele nutriu, educou e protegeu Cristo, e Lhe ensinou sua arte
de carpinteiro, segundo a opinião comum dos Doutores. Francisco Suárez diz a
este respeito: “Existem alguns ofícios que pertencem diretamente à ordem
da graça, e nisto os Apóstolos ocupam a posição mais elevada, portanto precisam
de maior assistência da graça do que todos os outros. Existem também outros
ofícios que pertencem à ordem da união hipostática, a qual em seu gênero é uma
ordem superior, como fica claro na maternidade divina na Santíssima Virgem.
Nesta ordem São José exerceu seu ministério” (3ª parte. Quæst. 29, disp.
8, seção 1).
4. José, por sua convivência familiar e constante com
Cristo e a Santíssima Virgem, tornou-se participante de seus segredos divinos,
e diariamente via e imitava suas virtudes sublimes.
5. José era um varão de altíssima santidade, dotado por
Deus de dons singulares, tanto da natureza como da graça; de modo que em sua
época não havia homem mais santo ou mais digno de esposar a Mãe de Deus. Donde
Suárez apresentar como provável que José fosse superior aos apóstolos e a João
Batista em graça e glória, porque seu ofício era mais excelente do que o deles:
ser pai e governador de Cristo é mais do que ser pregador e precursor. E
acrescenta que ele já estava maduro quando desposou a Santíssima Virgem. Tendo
morrido antes da crucifixão, por isso na Paixão de Cristo nenhuma menção lhe é
feita. Ele ressuscitou com Cristo, juntamente com outros patriarcas, dos quais
é feita menção em Mat. 27, 52: “Ressuscitaram muitos corpos de santos que
dormiam”.
Essas excelências peculiares do excelso esposo de Maria são
bem expressas nos qualificativos que lhe são atribuídos na bela ladainha
aprovada pela Igreja: “São José, ilustre filho de Davi, luz dos
patriarcas, Esposo da Mãe de Deus, guarda da Virgem pura, nutrício do Filho de
Deus, zeloso defensor de Cristo, chefe da Sagrada Família, justíssimo,
castíssimo, prudentíssimo, fortíssimo, obedientíssimo, fidelíssimo, espelho de
paciência, amador da pobreza, exemplo dos trabalhadores, honra da vida
doméstica, custódio das virgens, amparo das famílias, alívio dos miseráveis,
esperança dos enfermos, padroeiro dos moribundos, terror dos demônios, protetor
da santa Igreja”.
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Fonte: Revista Catolicismo, Nº 843, Março/2021.
https://www.abim.inf.br/grandezas-incomensuraveis-de-sao-jose/