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sábado, 22 de abril de 2017

CONFISSÕES DE UM PSICOPATA APAIXONADO – Ivan Martins

Me conte o que você faria para que o amor da sua vida voltasse


A amiga me contou, em tom dramático, que pegou uma coqueluche tão forte que achou que morreria. Foram semanas tossindo sem parar, com dores e mal-estar terríveis. A coisa foi tão grave, ela disse, que o ex-marido, de quem estava separada havia mais de um ano, voltou para cuidar dela. Depois que a doença passou, reconciliados, eles resolveram tentar de novo.

“Como se faz para contrair coqueluche?” eu perguntei, afoito e esperançoso, assim que ela terminou de contar. Na hora, me pareceu uma boa ideia. Depois, calculei que tossiria sozinho, ou na companhia de um amigo que roncaria como urso na poltrona e discutiria comigo se era mesmo preciso que ele fumasse fora do quarto.

Vocês estão rindo, mas conheço gente que faria qualquer coisa para atrair de volta o ex-marido ou a ex-mulher extraviados.

Entre os homens, ataque cardíaco é um clássico. Estive no hospital há duas semanas com dores no peito, mas os médicos me dispensaram como se eu fosse um velocista olímpico. “Rivotril”, receitou o jovem plantonista lacônico, me olhando com cara de enfado, profundamente desinteressado da minha complexa situação existencial.

Eu vinha sonhando havia dias com um post no Facebook dizendo assim: “Foi só infarto. Os médicos dizem que está tudo bem”. O comentário seria acompanhado por um selfie na cama do hospital, com aquele sorriso abatido, mas cheio de coragem. Se ela não voltasse correndo, seria um monstro.

Mulheres – eu já tive a chance de testemunhar – preferem o colapso emocional. As amigas vão ligar para o sujeito e informar: “Fulana está péssima. Se você gosta um pouquinho dela, melhor vê-la”. O cara vai, se sentindo culpadíssimo, e encontra uma ex que parece ter saído de uma colônia de férias do Estado Islâmico. Magra, pálida, distante. Ele tenta segurar as mãos dela, mas ela as retira, assustada, como se ele fosse o bastardo malvado de Game of Thrones. Se o sujeito não tiver coração de pedra, ficará e cuidará dela, talvez por dez anos.

Depois de ver o sofrimento humano de perto (o meu, sobretudo) parei de julgar os manipuladores de sentimentos alheios. Eles são apenas psicopatas apaixonados. O resto de nós se preocupa com ética, integridade, verdade. Queremos ser amados espontaneamente. Temos escrúpulos, princípios, limites. Eles só querem a fulana ou o sicrano de volta na cama deles, ponto final. Outras considerações são secundárias.

Tenho certeza de que no longo prazo as chantagens e os truques não funcionam, mas alguém já observou corretamente que no longo prazo estaremos todos mortos. Logo, por que não tentar ser amado a qualquer preço?

Uma vez, conversei com um amigo cuja ex-mulher insistia em se manter longe da casa e da vida dele. O cara estava desesperado. Saímos para beber e ele me contou, animadíssimo, que acabara de saber que a ex tinha engordado 10 quilos. "Por que você está feliz com isso?", eu perguntei. “Porque ela vai ficar feia, ninguém mais vai querê-la e ela vai voltar para mim”, ele respondeu, com um sorriso lunático no rosto. Algum tempo depois, ela voltou.

Lembrei dessa história nas últimas insônias, mas com mínimas esperanças. Uma mulher que corre, faz ioga, pratica musculação e come como um coelho vegano não vai ganhar 10 quilos. Nem cinco. A possibilidade de que ela fique feia nos próximos anos equivale à de que eu fique mais jovem. Não vai acontecer nesta encarnação.

Não adianta dizer isso aos amigos, claro. Todos têm uma ideia infalível para trazer de volta o amor da vida dos outros. “Esqueça as palavras, você precisa criar situações emocionais incontornáveis”, diz um deles. Exemplo? “Compre para ela uma banca inteira de pimenta da feira. As mulheres são loucas por pimenta.” OK, próxima. “Prometa o que ela quiser, ofereça o que ela mais desejar, depois as coisas se arranjam”, diz outro. Se bem me lembro, foi assim que começaram os caras presos pela Lava Jato em Curitiba. “Você já fez reservas para Paris”? perguntou uma amiga. “Chegue com as passagens na mão e ela não vai resistir.” Problema: se ela cair por um clichê desses eu não vou querê-la de volta.

Essas ideias rocambolescas reforçam minha convicção de que em caso de abandono não há nada a fazer além de respirar, esperar e torcer. Aqueles anúncios do poste que prometem trazer seu amor de volta não funcionam. Eu sei. Tentei três deles e eles não devolvem o dinheiro.
As coisas no terreno afetivo se resolvem com simplicidade, ou não se resolvem. Se a moça gostar de você, virá naturalmente. Se o sujeito ainda ama você, ele voltará de livre e espontânea vontade – e isso exclui seu amigo delegado ligar para ele ameaçando prendê-lo.

Gente que sofre vive sob a tentação de um gesto heroico, capaz de atordoar e seduzir o outro, mas é bobagem. Passado o efeito dos fogos de artifício – ou das garrafas de vinho no restaurante mais caro da cidade, cujos efeitos ficarão no seu cartão de crédito para sempre – os sentimentos voltarão ao normal, e você terá a seu lado uma pessoa entediada. Ou ressentida, porque deixou-se iludir.

Eu sei que todo mundo conta uma exceção notável a essa regra. Há sempre uma história de jantar, presente, viagem ou gesto inesperado que reverteu os sentimentos do outro e fez tudo mudar, mas eu simplesmente não acredito nelas. Quando a gente olha de perto, percebe que não foi bem assim. A pessoa voltou por um mês – ou ficou para sempre porque nunca havia saído. Quem realmente vai voltar dispensa os malabarismos. Quem partiu de coração torna-se imune a pirotecnias. Sobretudo as mulheres. 

Na vida real, é importante abrir seu coração, falar do seu amor com todas as letras e deixar que o outro decida por si mesmo. Fazer com que ele ou ela ria da situação ajuda. Lágrimas sinceras também, sobretudo no rosto dos homens. É uma pena que muitos de nós não saibam chorar.




IVAN MARTINS
Colunista de ÉPOCA
Autor do livro Alguém especial, escreve em epoca.com.br às quartas-feiras


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O PARASITA I – Machado de Assis


O Parasita I


Sabem de uma certa erva, que desdenha a terra para enroscar-se, identificar-se com as altas árvores? É a parasita.

Ora, a sociedade, que tem mais de uma afinidade com as florestas, não podia deixar de ter em si uma porção, ainda que pequena de parasitas. Pois tem, e tão perfeita, tão igual, que nem mesmo mudou de nome.

É uma longa e curiosa família, a dos parasitas sociais; e fora difícil assinalar na estreita esfera das aquarelas — uma relação sinótica das diferentes variedades do tipo. Antes sobre a torre, agarro apenas na passagem as mais salientes e não vou mergulhar-me no fundo e em todos os recantos do oceano social.

Há, como disse, diferentes espécies de parasitas.

O mais vulgar e o mais conhecido é o da mesa; mas há-os também em literatura, em política e na igreja. É praga antiga, e raça cuja origem se prende à noite dos tempos, como diria qualquer historiador en herbe. Da Índia, essa avó das nações, como diz um escritor moderno, são poucas as noções a respeito; e não posso marcar aqui com precisão o desenvolvimento dessa casta curiosa no velho país. Em Roma, onde lemos como num livro, já Horácio comia as sopas de Mecenas, e banqueteava alegremente no triclinium. É verdade que lhe pagava em longa poesia; mas, nesse tempo, como ainda hoje, a poesia não era ouro em pó, e este é grande estrofe de todos os tempos.

Mas, tréguas à historia.

Tenho aqui como alvo esboçar em traços ligeiros as formas mais proeminentes da individualidade; entremos pois no estudo — sem mais preâmbulo.

Devo começar pelo parasita da mesa, o mais vulgar? Há talvez pouco a dizer — mas esse pouco mesmo revela altamente os traços arrojados desta fisionomia social.

Debalde se procuraria conhecer as regiões mais adaptadas à economia vital deste animal perigoso. Inútil. Ele vive por toda parte em que há ambiente de porco assado.

Também é aí onde ele desenvolve melhor todas as suas faculdades; — onde se sente a son aise, como diria qualquer label encadernado em paletó de inverno.

Perfeito parasita deve ser perfeito gastrônomo; mesmo quando não goze esta faculdade por vocação do berço, é um resultado da prática, pela razão de que o uso do cachimbo faz a boca torta.

Assim, o parasita jubilado, o bom parasita, está muito acima dos outros animais. Olfato delicado, adivinha a duas léguas de distância a qualidade de um bom prato; paladar suscetível, — sabe absorver com todas as regras de arte — e não educa o seu estômago como qualquer aldeão.

E como não ser assim, se ele não tem outro cuidado nesta vida? E se os limites da mesa redonda são os horizontes das suas aspirações?

É curioso vê-lo na mesa, mas não menos curioso é vê-lo nas horas que precedem às seções gastronômicas. Entra em uma casa ou por costume ou per accidens, o que aqui quer dizer intenção formada com todas as circunstâncias agravantes da premeditação, e superioridade das armas. Mas suponhamos que vai a uma casa por costume.

Ei-lo que entra, riso nos lábios, chapéu na mão, o vácuo no estômago. O dono da casa, a quem já fatiga aquela visita diária, saúda-o constrangido e com um riso amarelo. Mas isso não é decepção; tão pouco não desarma um bravo daquela ordem. Senta-se e começa a relatar notícias do dia, entremeadas de algumas da própria lavra, e curiosas — a atrair a feição vacilante do hóspede. Daqui um criado que vem dar o sinal de combate. É o alvo a que visava o alarme, e ei-lo que vai imediatamente pagar-se de uma tarefa de almanaque, tão custosamente exercida.

Se porém ele entra per accidens, não é menos curiosa a cena. Começa por um pretexto que deve lisonjear as pessoas da casa conforme os seus fracos. Assim, se há aí um autor dramático, o pretexto é dar um parabéns sobre a última peça representada dias antes. Sobre este molde, tudo o mais.

Se às vezes não há um pretexto sério, não trepida ainda o parasita; há sempre um de lado, como substantivo: saber da saúde do amigo.

Mas, entra ele; dado o pretexto, senta-se e começa a desenrolar toda a retórica que pode inspirar um estômago vazio, um Jeremias interno. Segue-se depois, pouco mais ou menos, a mesma cena. No fim está sempre como orla de horizonte uma mesa mais ou menos apetitosa, onde a reação se opera largamente.

Há, porém, pequenas desgraças, acidentes inesperados na vida do parasita da mesa. Entra ele em uma casa onde espera almoçar folgado; — faz as primeiras saudações e vai corar a pílula ao seu caro hóspede. Um certo ranger de dentes, porém, começa a agitá-lo, um ranger particular que indica um estado mais calmo aos estômagos da casa.

— Então como vai? Sinto que chegasse agora; se mais cedo viesse, almoçava comigo.

O parasita fica de cara à banda; mas não há remédio; é necessário sair com decência e não dar a entender o fim que o levou ali.

Estas eventualidades, estas pequenas misérias, longe de serem decepções, são como o cheiro da pólvora inimiga para os soldados, um incentivo na ação. É uma índole miserável a desse corpo leviano em que só há animalidade e estômago; mas, entretanto, é necessário aceitar essas criaturas tais como são — para aceitarmos a sociedade tal como ela é. A sociedade não é um grupo de que uma parte devora a outra? Eterno antagonismo das condições humanas.

O parasita da mesa uniformiza o exterior com a importância do hóspede; um cargo elevado pede uma luva de pelica, e uma botina de polimento. À mesa não há ninguém mais atencioso; — e como um conviva alegre, aduba os guisados com punhados de sal mais ou menos saborosos.

É uma retribuição razoável — dar de comer ao espírito de quem dá de comer ao corpo.

Aqui não há desaire, há uma troca recíproca que prova que o parasita tem suscetibilidades em alto grau.

Estes traços, mais ou menos exatos, mais ou menos distintos, dão aqui uma pequena ideia do parasita da mesa; mas esta variedade do tipo é absorvida por outras de uma importância mais alta. Aqui é o parasita do corpo, os outros são os do espírito e da consciência; — aqui são os epicuristas à custa alheia, os outros são as nulidades intelectuais que se agarram à primeira tela de propriedades suculentas que lhe vai ao encontro.

São imperceptíveis talvez estes lineamentos — e acusam a aceleração do pincel; passemos às outras variedades do tipo onde achamos formas mais amplas e proeminências mais distintas...

... o Parasita II

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Machado de Assis - (Joaquim Maria Machado de Assis), jornalista, contista, cronista, romancista, poeta e teatrólogo, nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 21 de junho de 1839, e faleceu também no Rio de Janeiro, em 29 de setembro de 1908. É o fundador da cadeira nº. 23 da Academia Brasileira de Letras.

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22/04: DIA INTERNACIONAL DA TERRA

Clique sobre a foto, para vê-la no tamanho original
Pela Mãe Terra
...
Iniciemos a guerra,
Um combate em prol da Vida: 
Protejamos a Mãe Terra
Da nossa própria investida!...


Eglê S Machado


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sexta-feira, 21 de abril de 2017

BRASÍLIA COMEMORA 57 ANOS COM SHOWS E EXPOSIÇÃO GRATUITOS

Torre de TV vai receber programação especial para os 57 anos do aniversário de Brasília
Elza Fiúza/Agência Brasil

Heloisa Cristaldo - Repórter da Agência Brasil


A capital federal completa 57 anos nesta sexta-feira (21) e as atividades em comemoração ao aniversário da cidade começam hoje e acontecem por todo fim de semana. A programação também celebra os 30 anos de Brasília como Patrimônio Mundial e os dez anos do Museu Nacional.

A programação inclui nove artistas da cidade e três atrações nacionais, além da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro. Os eventos têm entrada franca, classificação livre e custaram R$ 1,8 milhão ao governo local.

A cantora Elba Ramalho é a atração principal nesta sexta-feira, às 22h. A festa começa com a apresentação de Dona Gracinha da Sanfona, que abre o evento na Torre de TV, às 18h.  A banda Ciclone na Muringa, que mistura ritmos populares, como maracatu, coco e baião à sonoridades do rock e do reggae sobe ao palco às 19h. A banda paulista convidada Dê um Rolê faz homenagem aos Novos Baianos, a partir das 20h. Pela manhã, das 11h às 15h, o grupo Kilombrasília promoverá um aulão de capoeira aberto ao público.

No sábado (22), a atração principal é o grupo de pagode Raça Negra, que sobe ao palco às 22h. A festa tem início mais cedo com a apresentação do tradicional grupo Boi de Seu Teodoro às 18h20. Na sequência, às 19h30, o Trio Siridó anima o público com forró. A sambista Cris Pereira canta às 20h40. Entre uma atração e outra, os Djs Nagô e Barata garantem o som no sábado e no domingo (23), respectivamente.

No domingo, a programação ficará a cargo da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro, que inicia às 17h30 o concerto especial para os 57 anos de Brasília. Os músicos estarão acompanhados de jovens participantes de projetos socioeducativos musicais.

Esplanada dos Ministérios
Além dos shows na Torre de TV, a programação do aniversário de Brasília inclui atividades na Esplanada dos Ministérios. No domingo, o violeiro Cacai Nunes toca às 19h, seguido pelo grupo de choro Fernando César e Regional, às 20h. As atrações do fim de semana se encerram às 21h, com a apresentação do violeiro Renato Teixeira, de São Paulo. As apresentações serão no Museu Nacional do Conjunto Cultural da República.

A cidade recebe ainda exposição que celebra os 10 anos do Museu Nacional, com obras de expoentes da arte brasileira como Anita Malfatti e Tarsila do Amaral, além de artistas contemporâneos, principalmente do grafite brasiliense. A visitação vai até 4 de junho, de terça a domingo, das 9h às 18h30.


Edição: Amanda Cieglinski


QUANDO APAGA SEU SORRISO É PORQUE NÃO VALE MAIS A PENA

Por Wal Reis

Poucas coisas são mais tristes do que ter que seguir adiante deixando parte de você para trás. Mas quando a rua é de mão única, essa é a rota possível.

Quando a vontade de mandar flores ao delegado passa (oi, Zeca Baleiro). Quando buscar o sono é mais sedutor que saudar o novo dia. Quando gera mais dúvida do que certeza. Quando apaga seu sorriso é porque não vale mais a pena.

É duro encarar, mas alguns amores têm prazo de validade. O amor pelo trabalho, o amor pelo seu chão e sim: o amor pelo outro. As pequenas evidências de que acabou chegam devagar, mas intoxicam. E, na ânsia de ressuscitar a fase boa, fechamos os olhos para os sinais quando, no fundo, sabemos que nada mais pode ser feito pelo doente terminal.

Palavras e atitudes já não vão na mesma direção. A presença física não garante a presença emocional e vice-versa. Sua aflição é apenas sua aflição. A música que te emociona só emociona a você e o amor desafina.

Mas e os planos? Ainda ontem estávamos carimbando passaportes para tantas viagens, selecionando o cardápio de um jantar romântico, esperando a turnê de nosso cantor favorito chegar por aqui. Não foi na semana passada que rimos juntos da mesma piada sem graça? Contamos segredos bobos e outros nem tanto? Concordamos que a ausência jamais seria tolerada? Combinamos o próximo Natal?

Sim e não eram mentiras: eram verdades provisórias. Um cenário perfeito, mas cenário. Desmontável depois que a temporada acaba, deixando o dolorido silencioso de um teatro vazio, com luzes apagadas e sem movimentação no backstage.

Não deu tempo de fazer aquela massagem prometida depois de um dia estressante. Também não te terei dormindo no meu colo enquanto enrolo os dedos distraidamente no seu cabelo e leio um livro qualquer em uma tarde preguiçosa de domingo. Não vamos ser testemunhas oculares dos sucessos e fracassos um do outro.

Você não estará por perto para eu te contar sobre o último capítulo do livro porque nossa história termina muito antes da contracapa fechar. E talvez a gente chore ao lembrar de todas essas miudezas de nossa breve vida em comum, mas apenas enquanto a tinta estiver fresca e o quadro parecer inacabado. Depois, assim que concedermos a distância necessária para apreciar as pinceladas que até então pareciam confusas e desordenadas, finalmente a gente vai sorrir constatando que criamos uma valiosa obra-prima.


WAL REIS
Jornalista, geradora de conteúdos editoriais, especialista em fazer 54 coisas ao mesmo tempo, incluindo escrever sobre o que realmente me importa. Procuro retratar nos meus textos a contramão da história, o lado menos óbvio e politicamente incorreto, aquele que mais se aproxima da realidade...
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O ESCÂNDALO DOS NOSSOS TEMPOS - Roberto de Mattei

21 de abril de 2017
Roberto de Mattei (*)


O mundo está cheio de escândalos, e Jesus diz: “Ai do mundo por causa dos escândalos” (Mt 18, 7). O escândalo, de acordo com a moral católica, é o comportamento daqueles que causam o pecado ou a ruína espiritual de seu próximo (Catecismo da Igreja Católica n° 2284).

Não basta abster-se de fazer aquilo que em si mesmo é pecado, mas é preciso evitar aquilo que, não sendo pecado, põe os outros em perigo de pecar; e o Dicionário de teologia moral dos cardeais Roberti e Palazzini ensina que isso é especialmente obrigatório para aqueles que têm uma posição elevada no mundo ou na Igreja (Editrice Studium, Roma 1968, p.1479).

As formas mais graves de escândalo são hoje a publicidade, a moda, a apologia que a mídia faz da imoralidade e da perversão, as leis que aprovam a violação dos mandamentos divinos, como aquelas que introduziram o aborto e as uniões civis homossexuais.

A Igreja sempre considerou escândalo também o recasamento civil dos divorciados. João Paulo II, na Familiaris consortio, indica o escândalo que dão os divorciados recasados como uma das razões pelas quais eles não podem receber a Sagrada Comunhão. De fato, “se se admitissem estas pessoas à Eucaristia, os fiéis seriam induzidos em erro e confusão acerca da doutrina da Igreja sobre a indissolubilidade do matrimônio” (nº. 84).

O cânon 915 do Código de Direito Canônico afirma: “Não sejam admitidos à sagrada comunhão os excomungados e os interditos, depois da aplicação ou declaração da pena, e outros que obstinadamente perseverem em pecado grave manifesto.”

Uma declaração do Pontifício Conselho para os Textos Legislativos reafirmou a proibição contida nesse cânone contra aqueles que pretendem que tal regra não se aplica ao caso dos divorciados recasados. A declaração afirma: “No caso concreto da admissão dos fiéis divorciados novamente casados à Sagrada Comunhão, o escândalo, concebido qual ação que move os outros para o mal, diz respeito simultaneamente ao sacramento da Eucaristia e à indissolubilidade do matrimônio. Tal escândalo subsiste mesmo se, lamentavelmente, um tal comportamento já não despertar alguma admiração: pelo contrário, é precisamente diante da deformação das consciências, que se torna mais necessária por parte dos Pastores, uma ação tão paciente quanto firme, em tutela da santidade dos sacramentos, em defesa da moralidade cristã e pela reta formação dos fiéis” (Pontifício Conselho para os Textos legislativos, Declaração sobre a admissibilidade à Sagrada Comunhão dos divorciados recasados, 24/06/2000, em Communicationes, 32 [2000], pp. 159-162).

Após a promulgação da Exortação pós-sinodal Amoris laetitia, aquilo que sempre representou um escândalo para o Magistério da Igreja passou a ser considerado um comportamento aceitável, que merece ser acompanhado com compreensão e misericórdia. Monsenhor Pietro Maria Fragnelli, bispo de Trapani e presidente da Comissão para a família, os jovens e a vida, da Conferência Episcopal Italiana, disse em uma entrevista de 10 de Abril à agência SIR (dos bispos), dedicada ao documento do Papa Francisco, que “a recepção da exortação apostólica na diocese está crescendo, no sentido de se procurar entrar cada vez mais no espírito profundo da Amoris laetitia, que pede de nós uma nova mentalidade face ao amor em geral, vinculado à família e à vida de família”.

Para transformar a mentalidade do mundo católico, a Conferência Episcopal Italiana está empenhada numa assídua obra de promoção de conferências, seminários, cursos para noivos ou para casais em crise, mas, sobretudo, como escreve a agência dos bispos, a fim de promover “uma mudança de estilo para sintonizar a pastoral familiar ao modelo de Bergoglio”. De acordo com Mons. Fragnelli, “pode-se dizer claramente que começou uma mudança de mentalidade, tanto do episcopado, quanto das nossas dioceses, como algo que tem de ser feito, vivido e procurado em conjunto. Pode-se dizer: trabalho em andamento”.

Os “trabalhos em andamento” consistem na “deformação das consciências” denunciada há poucos anos atrás pelo Pontifício Conselho para os Textos Legislativos, ou seja, adotar uma mentalidade que nega, no plano da práxis, a santidade dos sacramentos e a moralidade cristã.

Em 25 de fevereiro último, falando em um curso de formação para os párocos, o Papa Bergoglio os convidou a se tornarem “próximos, com o estilo próprio do Evangelho, no encontro e no acolhimento daqueles jovens que preferem conviver sem se casar. Nos planos espiritual e moral, eles se encontram entre os pobres e os pequeninos, dos quais a Igreja, nos passos do seu Mestre e Senhor, quer ser uma mãe que não abandona, mas que se aproxima e cuida deles”.

De acordo com a agência SIR, os casais conviventes — com ou sem filhos — representam atualmente 80% daqueles que participaram, na Itália, dos cursos de preparação para o casamento em 2016. Ninguém recorda a esses conviventes que eles vivem em situação de pecado grave. A própria expressão “casais irregulares” é proibida. Em 14 de janeiro, o “Osservatore Romano” publicou as orientações pastorais dos dois bispos malteses, D. Charles Scicluna (arcebispo de Malta, ex-promotor de justiça da Congregação para a Doutrina da Fé), e D. Mario Grech (Gozo). “Através do processo de discernimento — dizem eles — precisamos avaliar o grau de responsabilidade moral em determinadas situações, dando a devida consideração aos condicionamentos e às circunstâncias atenuantes”. Por causa desses “condicionamentos e circunstâncias atenuantes, o Papa ensina que ‘já não é possível dizer que todos os que estão numa situação chamada ‘irregular’ vivem em estado de pecado mortal, privados da graça santificante”.

A consequência é que “se, como resultado do processo de discernimento, empreendido com ‘humildade, reserva, amor à Igreja e a seu ensinamento, na busca sincera da vontade de Deus e com o desejo de alcançar uma resposta a ela mais perfeita’ (AL 300), uma pessoa separada ou divorciada que vive uma nova relação consegue com clara e informada consciência, reconhecer e crer que ela ou ele estão em paz con Deus, ela ou ele não podem ser impedidos de participar dos sacramentos da Reconciliação ou Eucaristia”.

Um ano após a promulgação da Amoris laetitia, o “modelo Bergoglio” que vem sendo imposto é o acesso dos divorciados recasados a todos os sacramentos. A coabitação não constitui escândalo. Mas, para o Papa Francisco, o escândalo — mais ainda, o principal escândalo do nosso tempo — é a desigualdade econômica e social.

Em carta dirigida no Domingo de Páscoa ao bispo de Assis-Nocera Umbra, D. Domenico Sorrentino, o Papa Bergoglio disse que os pobres são “um testemunho da escandalosa realidade de um mundo marcado pela desproporção entre o gigantesco número de pobres, amiúde privados do estritamente necessário, e a minúscula parcela de endinheirados que detêm a maior parte da riqueza e pretendem determinar os destinos da humanidade. Infelizmente, a dois mil anos do anúncio do Evangelho e após oito séculos do testemunho de Francisco, estamos diante de um fenômeno de ‘iniquidade global’ e de ‘economia que mata’”.

O antagonismo moral entre o bem e o mal é substituído pela oposição sociológica entre riqueza e pobreza. A desigualdade social passa a ser um mal pior que o assassinato de milhões de nascituros e o oceano de impureza que submerge o Ocidente. Como não compartilhar o que escreveu o cardeal Gerhard L. Müller, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, no livro-entrevista Esperança da Família: “O maior escândalo que pode dar a Igreja não é o fato de que dentro dela existam pecadores, mas que deixe de chamar pelo nome a diferença entre o bem e o mal e passe a relativizá-la, que pare de explicar o que é o pecado ou finja justificá-lo em nome de uma alegada maior proximidade e misericórdia para com o pecador”.

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(*) Fonte: “Corrispondenza romana”, Roma, 19-4-2017. Matéria traduzida do original italiano por Hélio Dias Viana.

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COERÊNCIA... POIS O MOMENTO EXIGE ESTA REFLEXÃO E ATITUDE - Por Mauricio Zagari

Alguns pontos que a lista do Fachin nos ensina:


1. Ser cego quanto à corrupção dos integrantes dos partidos do seu coração é só cegueira.

2
.Não há lado inocente. Esquerda e direita historicamente praticam a corrupção no Brasil. Defender incondicionalmente um desses lados não faz mais nenhum sentido. A contaminação é ampla e irrestrita. 

3. É um excelente momento para quem defende incondicionalmente certos partidos ou políticos se desculpar, cair na real e passar a torcer pelo Brasil em vez de por A ou B. PT esta contaminado, DEM está contaminado, PSOL está contaminado, PSDB está contaminado, PMDB está contaminado . A carne está podre. O discurso da defesa incondicional não faz mais nenhum sentido.

4. Seria ótimo se quem fica acusando Sergio Moro e a Lava Jato disso e daquilo parasse com a infantilidade e enxergasse que o que está sendo feito no país é um marco histórico, uma limpeza inédita que, se bem conduzida, pode revolucionar a política, o governo e, logo, a vida dos brasileiros. Para melhor. E isso está acima da nossa paixão política e ideológica, queiramos ou não. Apoiemos o que está sendo feito, por amor à pátria.

5. É hora de parar de ficar defendendo quem é indefensável. Se está claríssima a corrupção daquele político que você ama e defendeu sua vida toda, por favor, tire as escamas dos olhos, ponha a razão acima do coração e passe a apoiar a justa punição dele.

6.
Reforma política já. Renovação dos quadros políticos já. Votemos em quem não foi contaminado pela máquina da corrupção e passemos a fiscalizá-lo de perto, para que não seja seduzido pelas facilidades do poder.

7.
A vigilância sobre a classe política tem de se tornar um hábito diário no Brasil, para muito além da Lava Jato. Para isso, precisamos de mecanismos de transparência, fiscalização e punição que inibam toda prática da corrupção.

8. Já passou da hora de os brasileiros guardarem suas bandeiras, se unirem pela limpeza e a renovação dessa geração apodrecida de políticos e pela criação de mecanismos eficientes de controle da classe política. Depois que a faxina estiver terminada e o inimigo comum estiver vencido, podemos remover nossas bandeiras do armário e voltar a gritar palavras de ordem das nossas ideologias preferidas. Até lá, todos devemos dar as mãos e cantar apenas o hino nacional.

Em resumo: é hora de tirarmos as escamas dos olhos, pensarmos politicamente com a razão e não com o coração, apoiarmos o Brasil e não o partido ou o político A ou B, e nos unirmos contra o inimigo real: a corrupção do ser humano, que perpassa ideologias. Deus tenha misericórdia do nosso país.



Enviado do meu smartphone Samsung Galaxy.

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