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segunda-feira, 4 de outubro de 2021

“CAMINHO SINODAL” DECIDIDO A FAZER UMA REVOLUÇÃO NA IGREJA


Não parece, mas a foto é de uma assembleia de bispos (progressitas) da Alemanha

Mathias von Gersdorff

 

Por ocasião das “bênçãos” a duplas homossexuais no início de maio passado, foram feitos vários apelos aos progressistas radicais alemães para que se moderassem. Advertências claras vieram também de Roma, pois com seu comportamento estrondoso eles ameaçavam prejudicar o processo sinodal no mundo inteiro.

Como resultado, a maioria dos teólogos e dos grupos de base se conteve de fato em suas posições extremadas, levando a supor até que se havia alcançado certa disciplina no progressismo radical alemão. Contudo, dela nada restou na II Assembleia Geral do Caminho Sinodal, quando voltaram formular exigências extremistas, contrárias ao Magistério e a Igreja universal:

— A Comunidade de Mulheres Católicas Alemãs (KFD), a União Alemã de Mulheres Católicas (KDFB) e a associação Maria 2.0 passaram a exigir a introdução do sacerdócio feminino. Tais associações são apoiadas especialmente pelos bispos Overbeck, de Essen e Bode, de Osnabrück.

— Elas exigem uma vez mais a abolição da moralidade sexual católica, em particular as parcerias homossexuais e extraconjugais devem ser aceitas e possivelmente e mesmo abençoadas.

— A Igreja deve ser democratizada e, na melhor das hipóteses, os bispos devem atuar como moderadores entre as diferentes correntes eclesiais. A natureza sacramental da ordenação ainda não foi rejeitada, mas suas consequências sim. Em particular, a constituição hierárquica da Igreja.

Em resumo busca-se erigir uma Igreja completamente nova, com uma Moral própria, e nova estrutura diretiva. Assim, o Caminho Sinodal quer construir de fato uma igreja nacional alemã. Há resistência em marcha, de modo especial de Dom Voderholzer, bispo de Regensburg, e de Dom Oster, bispo de Passau.

Contudo, Dom Rudolf Voderholzer foi imediata e duramente criticado por Dom Georg Bätzing, bispo de Limburg e presidente da Conferência Episcopal: “Suas declarações não foram autorizadas, além de presunçosas”. Não pode haver dúvida de que o Caminho Sinodal nada mais é do que uma revolução eclesiástica para uma nova religião.

A estratégia futura a ser aplicada em vista do Sínodo Mundial está em aberto, havendo três opções:

— Possivelmente os progressistas quererão criar fatos consumados, erigindo uma igreja nacional, independendo das reações por parte de Roma e da Igreja universal. Com quase certeza irão fazer ouvidos moucos aos brados de alerta, correndo o risco de se separarem de Roma.

— Talvez eles não queiram ir tão longe, tomando diante do Sínodo Mundial uma posição, de início, a mais revolucionária possível, mas sem adotar medidas concretas, esperando para ver como as coisas irão se passar em âmbito mundial.

— É possível que eles pensem que uma revolução em escala mundial na Igreja possa ser deflagrada a partir da Alemanha, como já se deu no século XVI com o protestantismo. As resoluções do Caminho Sinodal seriam algo como um manifesto da revolução da Igreja para o mundo inteiro.

Uma coisa é certa. Os bispos, sobretudo Dom Georg Bätzing, já não dirigem os acontecimentos, mas são arrastados pelas correntes radicais na assembleia do Caminho Sinodal. Eles teriam de encerrar o já iniciado processo de destruição com uma palavra de força, mas na aparência temem que os grupos radicais de base partam para as barricadas.

A possibilidade de se apoiarem em católicos leais ao Magistério na Alemanha encontra-se fora de questão para a maioria dos bispos, de tal modo eles se encontram prisioneiros de associações financeiramente fortes.

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Texto original: https://mathias-von-gersdorff.blogspot.com/2021/10/vollversammlung-synodaler-weg-ist-zur.html

Tradução: Renato Murta de Vasconcelos

https://www.abim.inf.br/caminho-sinodal-decidido-a-fazer-uma-revolucao-na-igreja/

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domingo, 30 de maio de 2021

QUANDO A VERDADE VEM DOS HEREGES – Plinio Maria Solimeo

Plinio Maria Solimeo


Desde os tempos do heresiarca Lutero, eclesiásticos alemães vêm fazendo contestações cada vez maiores à doutrina tradicional da Igreja. Elas atingiram hoje tal virulência, que os aproximam de um verdadeiro cisma.

Isso tem chamado atenção e escandalizado até pessoas dos meios mais contrários ao catolicismo, como luteranos. É o que demonstra Edward Pentin em informativo artigo publicado no National Catholic Register.

O consciencioso jornalista traz nesse sentido declarações de Alexander Garth [foto acima], pastor da igreja onde Martinho Lutero costumava pregar, a qual é conhecida como “Igreja Mãe da Reforma”. Analisando Pentin o que se passa hoje entre os bispos alemães mais avançados, ele diz que Garth “alertou que o caminho sinodal da Igreja [Católica] alemã é o ‘caminho errado’, que está ‘forçando a protestantização da Igreja Católica’”. Isso que é dito por um dos protestantes mais representativos do mundo, só não é visto pelos católicos progressistas.

As declarações de Garth foram reproduzidas na carta que ele enviou ao mensário alemão Vatican Magazin, na qual afirma que estava “observando com preocupação” o Caminho Sinodal dos bispos alemães e o movimento feminista Maria 2.0, também conhecido como “Greve na Igreja”, formado por mulheres soi-disant católicas. O movimento exige o acesso das mulheres a todos os ministérios da Igreja, a abolição do celibato clerical e um esclarecimento cabal sobre os casos de abuso de menores na Igreja. Exigências de um movimento feminista incomodado com o celibato dos padres e cujos fundadores deixaram a Igreja…

Afirma o pastor Alexandre Garth:“A democratização de uma igreja nacional sempre significa que um cristianismo populista e mínimo se torna o padrão eclesial que leva à banalização de toda a igreja e à diluição do evangelho”. Com a mais insofismável lógica, escreve Pentin, citando o pastor: “Esses ‘reformadores’ na Igreja Católica — acredita o Rev. Garth — deveriam se tornar protestantes porque nas igrejas protestantes ‘você encontrará tudo aquilo pelo que está lutando: mulheres sacerdotes, uma constituição sinodal, pastores casados, feminismo’”.

Entretanto, o pastor alerta com toda honestidade que “o estado espiritual e físico da Igreja Protestante é muito pior, e que as repercussões da secularização são ainda mais devastadoras do que na Igreja Católica”.


O que é esse “Caminho Sinodal” da Igreja na Alemanha? Segundo fontes dos bispos alemães, esse “Caminho” busca “tratar de temas que vão da questão de abuso sexual por parte do clero à reflexão sobre o estilo de vida dos sacerdotes, passando pelas dificuldades em aceitar os princípios da moral sexual ao problema de uma comunidade que envelhece e teme mudanças geracionais”. Por isso, entre os temas tratados, está “o poder e divisão de poderes na Igreja [uma “democratização”, com maior participação das mulheres], a vida do sacerdote de hoje [fim do celibato obrigatório], [o papel das] mulheres nos ministérios e nas funções da Igreja 
[sacerdócio feminino], viver o amor na sexualidade e na vida do casal” — quer dizer, esse “amor na sexualidade” pode sugerir até aquele entre pessoas do mesmo sexo e, sobretudo, uma mudança da moral sexual tradicional na Igreja.

Além disso, há bispos alemães que advogam a admissão à Sagrada Comunhão não só de homossexuais e de divorciados em segundas ou terceiras núpcias, mas também de protestantes.

O curioso é que, na citada carta, o pastor Garth se descreve “como um protestante de coração católico e pastor no púlpito de Martinho Lutero”. Segundo Pentin, Garth considera a protestantização da Igreja Católica “um grande infortúnio, pois este mundo precisa do católico com perfil da espiritualidade católica, com fidelidade ao Papa, devoção mariana e o exemplo dos santos da Igreja”.

Tudo o que os progressistas contestam hoje em dia! Parece que ele não poderia ir mais longe. Mais foi ao dizer que o mundo cristão “precisa da identidade católica, porque seria uma grande perda para a cristandade se a cor católica da fé perder a sua intensidade”. O que infelizmente está acontecendo com a “autodemolição” e com a “fumaça de Satanás” que penetrou no seio santíssimo da única e verdadeira Igreja.

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Fonte: Pastor da Igreja de Lutero: Caminho Sinodal é o ‘Caminho Errado’| Registro Católico Nacional (ncregister.com)


https://www.abim.inf.br/quando-a-verdade-vem-dos-hereges/

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quinta-feira, 12 de novembro de 2020

FRATELLI TUTTI - José Antonio Ureta

 11 de novembro de 2020

 


Na nova encíclica, o Papa Francisco propõe uma fraternidade universal naturalista, condenada por São Pio X

  • José Antonio Ureta*

 

Fratelli Tutti não parece uma encíclica, e sim a continuação do diálogo que desde o início de seu pontificado o Papa Francisco vem mantendo com agnósticos como Eugenio Scalfari, Dominique Wolton ou Carlo Petrini, na tentativa de levá-los a crer que a modernidade ateia é compatível com a doutrina católica.

As encíclicas dos pontífices anteriores recolhiam nas verdades eternas, contidas na Revelação divina, os ensinamentos aplicáveis ​​à situação concreta da conjuntura eclesial ou temporal. Pelo contrário, a nova encíclica se apresenta como um “espaço de reflexão sobre a fraternidade universal” (nº 286) e propõe uma infinidade de análises exclusivamente humanas como denominador comum aceitável por todos, apesar das divergências religiosas ou filosóficas. Não por acaso ela é “dirigida a todas as pessoas de boa vontade, portanto muito além das suas convicções religiosas” (nº 56).

Essa procura do denominador comum com o agnosticismo é evidente na passagem da encíclica sobre “o consenso e a verdade”, onde sublinha ser a dignidade inalienável de toda criatura humana “uma verdade que corresponde à natureza humana, independentemente de qualquer transformação cultural” (nº 213). E acrescenta: “Aos agnósticos este fundamento poder-lhes-á aparecer como suficiente para conferir aos princípios éticos basilares e não negociáveis uma validade universal de tal forma firme e estável que consiga impedir novas catástrofes. Para os crentes, a natureza humana, fonte de princípios éticos, foi criada por Deus, que em última análise confere um fundamento sólido a estes princípios”. Talvez para evitar qualquer suspeita de proselitismo religioso, esclarece que “isto não estabelece um fixismo ético nem abre a estrada à imposição dum sistema moral, uma vez que os princípios morais fundamentais e universalmente válidos podem dar lugar a várias normativas práticas. Por isso, fica sempre um espaço para o diálogo” (nº 214). [os destaques em negrito, acima e abaixo, são meus].

Nessa busca de um denominador comum com o agnosticismo, o Papa Francisco — nesta encíclica, com 170 citações a si mesmo, 43 citações de seus antecessores, e apenas 20 de padres e doutores da Igreja — omite completamente pressupostos e mesmo conceitos de natureza sobrenatural; e, de modo particular, considerações religiosas especificamente cristãs. A encíclica Fratelli Tutti (“Todos Irmãos”) adota uma linguagem naturalista e inter-religiosa. Praticamente foram nela omitidos pressupostos básicos das exortações dos papas anteriores a respeito das questões sociais: a vocação sobrenatural do homem, a ferida introduzida pelo pecado no mundo, a necessidade da Redenção de Nosso Senhor Jesus Cristo, além da omissão do papel salvífico da Igreja, da graça divina como requisito para o aperfeiçoamento individual e o progresso social, e da lei natural como fundamento da ordem internacional.

O naturalismo e o interconfessionalismo estão particularmente evidentes na ideia fundamental da encíclica, que é o “novo sonho de fraternidade e amizade social” (nº 6) e o consequente “anseio mundial de fraternidade” (nº 8), que Francisco quer fazer renascer a partir do reconhecimento por todos da dignidade de cada pessoa humana, sem nenhuma referência a Deus, salvo numa passagem que é quase um pedido de perdão por fazê-la: “Como crentes pensamos que, sem uma abertura ao Pai de todos, não pode haver razões sólidas e estáveis ​​para o apelo à fraternidade (nº 272). Como crentes, aliás, não apenas “pensamos que”, mas “cremos”; ou seja, damos firme adesão a uma verdade revelada!

 A parábola do Bom Samaritano é interpretada em clave puramente humanista [O Bom Samaritano – Domenico Fetti (1622). Museu Nacional Thyssen-Bornemisza, Madri].


Mesmo a parábola do Bom Samaritano é interpretada em clave puramente humanista. Segundo o Papa, ela “revela-nos uma característica essencial do ser humano, frequentemente esquecida: fomos criados para a plenitude, que só se alcança no amor” (nº 68). Jesus “confia na parte melhor do espírito humano e, com a parábola, anima-o a aderir ao amor, reintegrar o ferido e construir uma sociedade digna de tal nome” (nº 71)O caráter laico desse amor é acentuado pela consideração de que uma pessoa de fé pode “sentir-se perto de Deus e julgar-se com mais dignidade do que os outros”, enquanto paradoxalmente “às vezes, quantos dizem que não acreditam podem viver melhor a vontade de Deus do que os crentes” (nº 74).

Este amor ao próximo não procede necessariamente do amor a Deus. A palavra “caridade” é utilizada 33 vezes na encíclica, mas nunca está associada à “amizade do homem para com Deus”, no que essencialmente ela consiste (São Tomás de Aquino, Summa, II-II, q.23, a.1, resp.); de onde segue-se que “a razão para amar o próximo é Deus” (Ibid. q.25, a.1, resp.). O menoscabo desse caráter principalmente vertical da caridade chega ao ponto de se afirmar que aquilo que orienta os atos das virtudes morais (como a fortaleza, a sobriedade, a operosidade etc.) é “a medida em que eles realizam um dinamismo de abertura e união para com outras pessoas” (nº 91), fazendo silêncio sobre o amor a Deus.


Devido ao seu naturalismo interconfessional, Fratelli Tutti parece enquadrar-se amplamente no julgamento crítico dos escritos do Le Sillon pelo Papa São Pio X, na encíclica Notre charge apostolique, na qual mostrou que esse movimento promoveu um conceito de fraternidade não católica:

“Esta mesma doutrina católica nos ensina também que a fonte do amor do próximo se acha no amor de Deus, pai comum e fim comum de toda a família humana, e no amor de Jesus Cristo, do qual nós somos membros, a ponto de que consolar um infeliz é fazer o bem ao próprio Jesus Cristo. Qualquer outro amor é ilusão ou sentimento estéril e passageiro. Certamente, a experiência humana aí está nas sociedades pagãs ou leigas de todos os tempos, para provar que, em certos momentos, a consideração dos interesses comuns ou da semelhança de natureza pesa muito pouco diante das paixões e das concupiscências do coração. Não, Veneráveis Irmãos, não existe verdadeira fraternidade fora da caridade cristã, que, pelo amor de Deus e de seu Filho Jesus Cristo nosso Salvador, abrange todos os homens, para os consolar a todos, e para os conduzir todos à mesma fé e à mesma felicidade do Céu. Separando a fraternidade da caridade cristã assim entendida, a democracia [promovida por Le Sillon], longe de ser um progresso, constituiria um desastroso recuo para a civilização” (§ 24, destaque nosso).

A mesma encíclica de São Pio X fornece a luz necessária para salientar outro aspecto condenável da Fratelli Tutti: a promoção de uma síntese relativista da coexistência dos contrários; que, por meio do diálogo, deve servir de apoio à fraternidade universal e à amizade social. O modelo de uma “cultura do encontro” (mencionada seis vezes no texto) e do “diálogo” (mencionado 46 vezes) seria São Francisco, que “não fazia guerra dialética impondo doutrinas”, mas era sim um verdadeiro pai na medida em que “aceita[va] aproximar-se das outras pessoas com o seu próprio movimento, não para retê-las no que é seu, mas para ajudá-las a serem mais elas mesmas” (nº 4).

Hoje, ao contrário, “predomina o costume de denegrir rapidamente o adversário, aplicando-lhe atributos humilhantes, em vez de se enfrentarem num diálogo aberto e respeitoso, onde se procure alcançar uma síntese que vá mais além” (nº 201). Com efeito, devemos pensar que “as diferenças são criativas, criam tensão e, na resolução duma tensão, está o progresso da humanidade” (nº 203).

O relativismo filosófico e o interconfessionalismo religioso de Fratelli Tutti se estendem igualmente às relações entre a Igreja Católica e as outras religiões. Na foto o Papa Francisco com a líder da igreja luterana sueca, na sua visita a esse país.


Para o Papa Francisco, isto não seria relativismo, pois permanece válida uma verdade objetiva: que todo ser humano é sagrado (nº 207), e que os direitos humanos são invioláveis (nº 209) e um valor permanente, transcendente e não negociável (nº 211 e nº 273). Quanto ao resto, o que chamamos de “verdade” (as aspas são da encíclica!) é “antes de mais nada, a busca dos fundamentos mais sólidos que estão na base das nossas opções e também das nossas leis” (nº 208). Por isso, “numa sociedade pluralista, o diálogo é o caminho mais adequado para se chegar a reconhecer aquilo que sempre deve ser afirmado e respeitado e que ultrapassa o consenso ocasional” (nº 211). Daí nasce uma cultura do encontro que é “um estilo de vida que tende a formar aquele poliedro que tem muitas faces, muitos lados, mas todos compõem uma unidade rica de matizes […] uma sociedade onde as diferenças convivem integrando-se, enriquecendo-se e iluminando-se reciprocamente” (nº 215). Isto implica, de um lado, “o hábito de reconhecer, ao outro, o direito de ser ele próprio e de ser diferente” (nº 218); e, do outro lado, “um pacto cultural” que “implica também aceitar a possibilidade de ceder algo para o bem comum”, já que “ninguém será capaz de possuir toda a verdade nem satisfazer a totalidade dos seus desejos, porque uma tal pretensão levaria a querer destruir o outro, negando-lhe os seus direitos” (nº 221). Trata-se do realismo dialogante “por parte de quem pensa que deve ser fiel aos seus princípios, mas reconhecendo que o outro também tem o direito de procurar ser fiel aos dele” (idem); e permite sonhar juntos “como uma única humanidade, como caminhantes da mesma carne humana, como filhos desta mesma terra que nos alberga a todos, cada qual com a riqueza da sua fé ou das suas convicções, cada qual com a própria voz, mas todos irmãos” (nº 8).

Para Francisco, isso não é sincretismo nem absorção de um pelo outro, mas uma aposta “na resolução num plano superior que preserva em si as preciosas potencialidades das polaridades em contraste” (nº 245), que parece uma forma particular de dialética hegeliana em que a síntese permanece como horizonte inatingível.

É fácil perceber que tudo isso não se coaduna com o ensinamento com que São Pio X condenou o movimento Le Sillon, por ter-se distanciado da doutrina católica: “O mesmo acontece com a noção da fraternidade, cuja base eles colocam no amor dos interesses comuns, ou, além de todas as filosofias e de todas as religiões, na simples noção de humanidade, englobando assim no mesmo amor e numa igual tolerância todos os homens com todas as suas misérias, tanto as intelectuais e morais quanto as físicas e temporais. Ora, a doutrina católica nos ensina que o primeiro dever da caridade não está na tolerância das convicções errôneas, por sinceras que sejam, nem na indiferença teórica ou prática pelo erro ou o vício em que vemos mergulhados nossos irmãos, mas no zelo pela sua restauração intelectual e moral, não menos que pelo seu bem-estar material” (§ 23).

O relativismo filosófico e o interconfessionalismo religioso de Fratelli Tutti se estendem igualmente às relações entre a Igreja Católica e as outras religiões. Visto que consideram “cada pessoa humana como criatura chamada a ser filho ou filha de Deus”, as várias religiões “oferecem uma preciosa contribuição para a construção da fraternidade e a defesa da justiça na sociedade” (nº 271). Neste aspecto, todas as religiões seriam iguais: “A partir da nossa experiência de fé e da sabedoria que se vem acumulando ao longo dos séculos e aprendendo também das nossas inúmeras fraquezas e quedas, como crentes das diversas religiões sabemos que tornar Deus presente é um bem para as nossas sociedades” (nº 274).

Também a Bíblia se enquadra nesta equiparação, porque para Francisco todos os “textos religiosos clássicos podem oferecer um significado para todas as épocas, possuem uma força motivadora” (nº 275)E mais adiante acrescenta: “Outros bebem doutras fontes. Para nós, este manancial de dignidade humana e fraternidade está no Evangelho de Jesus Cristo” (nº 277).

Ademais, Deus não tem opção preferencial pelos batizados em geral (que são os únicos verdadeiros filhos de Deus), nem pelos fiéis católicos, membros do seu Corpo místico, em particular, mas antes “o amor de Deus é o mesmo para cada pessoa, seja qual for a religião. E se é um ateu, é o mesmo amor” (nº 281).

Desses pressupostos religiosos e filosóficos — que seriam um denominador comum aceitável por todos os homens — a encíclica Fratelli Tutti extrai principalmente duas consequências práticas, que darão origem a um mal-estar que alargará ainda mais a brecha entre o Papa Francisco e uma grande parte dos fiéis católicos. Trata-se de: 1) a promoção da imigração como condição para uma sociedade aberta; 2) um governo mundial para a solução dos problemas globais.

Para Francisco, “o amor que se estende para além das fronteiras está na base daquilo que chamamos “amizade social” em cada cidade ou em cada país”, condição para “uma verdadeira abertura universal” (nº 99)Tal universalismo não se confunde com a globalização desses últimos anos, que promove “o domínio homogêneo, uniforme e padronizado duma única forma cultural imperante” (nº 144)mas ele constrói uma sociedade poliédrica “onde ao mesmo tempo que cada um é respeitado no seu valor, ‘o todo é mais que a parte, sendo também mais do que a simples soma delas’” (nº 145)Como no caso do diálogo, para o Papa “uma sã abertura nunca ameaça a identidade, porque, ao enriquecer-se com elementos doutros lugares, uma cultura viva não faz uma cópia nem mera repetição, mas integra as novidades segundo modalidades próprias. Isto provoca o nascimento duma nova síntese que, em última análise, beneficia a todos” (nº 148).

Imigrantes derrubam uma barreira para
entrar na Grécia.
A encíclica condiciona a soberania das nações
sobre seu próprio território: “cada país é também do estrangeiro, já que os bens dum território não devem ser negados a uma pessoa necessitada que provenha doutro lugar”
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Para isso é preciso “pensar e gerar um mundo aberto” (é o título do capítulo 3 da encíclica), onde vigorem “direitos sem fronteiras” (é o subtítulo de uma seção), pois “ninguém pode ser excluído; não importa onde tenha nascido, e menos ainda contam os privilégios que outros possam ter porque nasceram em lugares com maiores possibilidades. Os confins e as fronteiras dos Estados não podem impedir que isto se cumpra” (nº 121)Visto que a destinação universal dos bens da terra não só transforma a propriedade privada numa mera função social — “quem possui uma parte é apenas para a administrar em benefício de todos” (nº 122) —mas também condiciona a soberania das nações sobre seu próprio território, pela qual “cada país é também do estrangeiro, já que os bens dum território não devem ser negados a uma pessoa necessitada que provenha doutro lugar” (nº 124).

Na realidade, os bens de qualquer país devem estar à disposição não só dos estrangeiros que sofrem extrema necessidade, mas também dos que querem apenas melhorar sua situação. Porque “é nosso dever respeitar o direito que tem todo o ser humano de encontrar um lugar onde possa não apenas satisfazer as necessidades básicas dele e da sua família, mas também realizar-se plenamente como pessoa” (nº 129). Isso significaria que qualquer pessoa que se considere um novo Picasso ou um novo Einstein teria o direito de exigir sua mudança para Paris ou Massachusetts, a fim de desenvolver plenamente os seus talentos artísticos ou científicos na Écôle des Beaux Arts ou no MIT!

Hoje muitíssimos emigram apenas para buscar um futuro melhor nos países ricos. Nesta nova encíclica — ao contrário do que alhures já disse de passagem — o Papa Francisco não se preocupa com o trauma que isso provoca no país de acolhida, nem com o direito de cada país em regular o fenômeno migratório de acordo com as suas respectivas possibilidades. Ele se limita a dizer que “a chegada de pessoas diferentes, que provêm dum contexto vital e cultural distinto, transforma-se num dom” e “numa oportunidade de enriquecimento e desenvolvimento humano integral para todos” (nº 133). E insiste: “Se forem ajudados a integrar-se, os imigrantes são uma bênção, uma riqueza e um novo dom, que convida a sociedade a crescer” (nº 135).

Não há referência ao risco de imigração massiva e desestabilizadora, como é o caso atualmente na Europa, onde um forte componente muçulmano rejeita integrar-se, a tal ponto que o presidente Macron teve de lançar uma iniciativa contra o “separatismo islâmico” nas periferias urbanas, onde nem mesmo a polícia pode entrar…

Para Francisco, ao contrário, é necessário destacar o risco dos “narcisismos bairristas”, que “escondem um espírito fechado que, devido a uma certa insegurança e medo do outro, prefere criar muralhas defensivas para sua salvaguarda” e “encerra-se obsessivamente numas poucas ideias, costumes e seguranças” (nº 146). A vida local “torna-se estática e adoece” (idem), pois “os outros são, constitutivamente, necessários para a construção duma vida plena” (nº 150).

Resultado da resposta histérica da OMS e dos governos aos desafios da covid-19, surge o espectro de uma ditadura mundial, primeiro sanitária e depois política.


Portanto, as migrações não são apenas boas em si mesmas, mas “constituirão uma pedra angular do futuro do mundo” (nº 40). A crise de saúde da covid-19 é a grande oportunidade de sair da “autoproteção egoísta”“oxalá já não existam ‘os outros’, mas apenas um ‘nós’”, para que “a humanidade renasça com todos os rostos, todas as mãos e todas as vozes, livre das fronteiras que criamos” (nº 35), pois “a verdadeira qualidade dos diferentes países do mundo mede-se por esta capacidade de pensar não só como país, mas também como família humana” (nº 141).

Mas “para se tornar possível o desenvolvimento duma comunidade mundial capaz de realizar a fraternidade a partir de povos e nações que vivam a amizade social” (nº 154), é necessário “fazer crescer não só uma espiritualidade da fraternidade, mas também e ao mesmo tempo uma organização mundial mais eficiente” (nº 165). Neste contexto, torna-se indispensável “a maturação de instituições internacionais mais fortes e eficazmente organizadas, com autoridades designadas de maneira imparcial por meio de acordos entre governos nacionais e dotadas de poder de sancionar”. Não uma “autoridade mundial” pessoal, mas instituições “dotadas de autoridade para assegurar o bem comum mundial” (nº 172). Visto que o parágrafo seguinte é dedicado à necessidade de uma reforma da ONU, deve-se entender que, no espírito de Francisco, seja esta organização a responsável para exercer esse papel. Daí ser necessário “evitar que esta Organização seja deslegitimada” (nº 173).

Numa situação em que crises econômicas e sociais gravíssimas emergem no horizonte, resultado da resposta histérica da OMS e dos governos aos desafios da covid-19, surge o espectro de uma ditadura mundial, primeiro sanitária e depois política. Esta não é uma perspectiva imaginária, produto de uma mente “conspiratória”, mas a realização do sonho iluminista de uma República Universal, incubada nas lojas maçônicas já antes da Revolução Francesa, indiretamente evocada na encíclica por meio da reprodução da trilogia “liberdade, igualdade, fraternidade” em um de seus subtítulos (nº 103).


Não é sem propósito evocar a maçonaria no final desta visão sintética da encíclica Fratelli Tutti. A edição de janeiro da revista New Hiram, órgão trimestral do Grande Oriente da Itália, publicou um artigo de Pierluigi Cascioli com um comentário elogioso do documento Fraternidade humana para a paz mundial e convivência comum, assinado em Abu Dhabi pelo Papa Francisco e pelo Imam Ahmed el-Tayeb. Esse documento foi, aliás, a principal fonte de inspiração para a elaboração da nova encíclica (nº 5), que incorporou várias passagens dessa declaração conjunta.

Segundo Cascioli, os valores da fraternidade universal contidos no documento “podem ser perfeitamente compartilhados por outros, sobre a base de um ‘mínimo denominador comum’ constituído pela razão”, já que “cada ser humano tem uma infinita dignidade”. E insiste no fato de que “os maçons, que têm o centro de gravidade na fraternidade, não poderão eximir-se de lidar com este documento”.

A Grande Loja da Espanha não se eximiu desse desafio em relação à encíclica Fratelli Tutti, e publicou a seguinte declaração, que não pode deixar de surpreender os fiéis:

“Há 300 anos se deu o nascimento da Maçonaria moderna. O grande princípio desta escola iniciática não mudou em três séculos: a construção de uma fraternidade universal onde os seres humanos se chamem irmãos uns dos outros, para além de seus credos concretos, de suas ideologias, de sua cor de pele, sua classe social, língua, cultura ou nacionalidade. Este sonho fraterno se chocou com o integrismo religioso que, no caso da Igreja Católica, propiciou duríssimos textos de condenação à [doutrina da] tolerância da Maçonaria no século XIX. A última encíclica do Papa Francisco demonstra quão distante está a atual Igreja Católica de suas antigas posições. Em ‘Fratelli tutti’, o Papa abraça a Fraternidade Universal, o grande princípio da Maçonaria moderna.

Dom Gilberto Pastana, bispo de Crato; Dom Roberto Ferrería, bispo diocesano de Campos; Dom Canísio Klaus, bispo de Sinop; ou Dom Denis Lara, bispo emérito de Itabira e assessor jurídico da CNBB, podem ser novamente convidados por alguma loja maçônica para palestrarem numa Magna Branca (é como os maçons denominam suas sessões abertas para não iniciados). Neste caso, poderão limitar-se a uma leitura extensa da Fratelli Tutti, e terão garantida uma ovação unânime.

Nosso Senhor, junto com a entrega das chaves da Igreja a São Pedro, também prometeu a preservação d’Ela até o fim dos tempos.


Na igreja, no entanto, os fiéis verterão lágrimas diante do Crucificado, pensando quão verdadeiras foram as palavras de Paulo VI quando disse que a fumaça de Satanás penetrou na Igreja.

Penetrou no templo sagrado, mas não o destruirá, pois temos a certeza da promessa divina: “as portas do inferno não prevalecerão” (Mt 16, 18). A vitória final será da Santa Igreja Católica Apostólica Romana e da verdadeira fraternidade cristã fundada no amor de Deus e de Jesus Cristo, sob o olhar maternal de Maria Santíssima.

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Fonte: Revista Catolicismo, Nº 839, Novembro/2020.

https://www.abim.inf.br/fratelli-tutti/

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domingo, 8 de novembro de 2020

AUTODEMOLIÇÃO DA IGREJA – Plínio Corrêa de Oliveira

7 de novembro de 2020


Plinio Corrêa de Oliveira

As recentes declarações do Papa Francisco — propondo “uma legislação para a união” de pessoas do mesmo sexo, e afirmando que “os homossexuais têm direito a uma família” — deixaram perplexos inúmeros católicos em todo o mundo. Veem a propósito os comentários de Plinio Corrêa de Oliveira, em 6-9-94,* analisando um artigo do Pe. Jim Galluzzo no “The Wanderer” de 24-3-94.


“Vê-se a entrada de um esforço metódico dentro da Igreja, como nos demais setores da sociedade, não apenas de tolerância, mas de legitimação da homossexualidade, que acabará dando cumprimento aos desejos do Parlamento Europeu, de que se reconheçam à união de pessoas do mesmo sexo os mesmos efeitos jurídicos do casamento.


“Considerando-se as heresias mais perigosas, mais carregadas de ódio, mais profundamente dissonantes da doutrina católica, não se encontra nada que destoe mais profundamente dela do que essa legitimação da homossexualidade. Ela está entrando, mas veja-se o modo como penetra. Não é um panfleto apresentado por protestantes, mas por sacerdotes católicos. Há no artigo uma referência a um documento de bispos de 1976, já bem antigo, que convida a uma espécie de mistura entre homossexuais e não homossexuais.

“É um trabalho feito de cima para baixo, por autoridades eclesiásticas, no sentido de fazer esquecer a doutrina tradicional e dar à homossexualidade direito de cidadania na Santa Igreja de Deus. Haverá em determinado momento, dentro da Igreja Católica, uma manifestação de completa inconformidade contra esse trabalho de legitimação. E teremos então uma divisão dentro da Igreja, de caráter oficial.

“Poder-se-ia objetar: ‘Se a grande maioria dos bispos estiver de acordo com isso, não haveria divisão’. Não existe grande maioria para mudar a doutrina católica! É indiscutível, e está claramente nas Escrituras, em todos os documentos do Magistério da Igreja e nos tratados de todos os moralistas, que este é um pecado que brada ao Céu e clama a Deus por vingança. Não pode haver entendimento — ponto final!

“As fronteiras estão cortadas, as barreiras estão erguidas. Então haverá um choque interno dentro da Igreja, e esse choque interno produzirá uma das maiores convulsões da História”.

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* Trecho extraído do livro “Plinio Corrêa de Oliveira — Profeta do Reino de Maria”, do Prof. Roberto de Mattei – Artpress, São Paulo, 2015, pp. 359-360.

 

https://www.abim.inf.br/autodemolicao-da-igreja/

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domingo, 31 de maio de 2020

31 DE MAIO — DIA DE NOSSA SENHORA RAINHA

31 de maio de 2020

Paulo Roberto Campos

 

          Rainha dos Homens, Rainha dos Anjos, Rainha da Terra, Rainha do Céu, Rainha da Igreja, Rainha do Brasil, Rainha dos Corações etc. São títulos que homenageiam Nossa Senhora uma vez que Ela é Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo e Rei dos Reis.

          Entretanto, em nossos tristes dias, poder-se-ia afirmar que Ela é uma Rainha Destronada. — Por quê?

         Respondo com uma pergunta: A atual situação nacional e mundial não entristece a Santíssima Virgem? Certamente, nenhum católico ousaria dizer que não A entristece. Pior ainda: A catastrófica situação da Santa Igreja… Para dar apenas um exemplo: a crise verdadeiramente apocalíptica na Igreja, devido à autodemolição promovida pelo progressismo, dito católico, à cargo de altas figuras do clero esquerdista.

         Quase tudo no mundo moderno colabora para destronar a melhor de todas as Rainhas. Ela é ultrajada por seus inimigos e até abandonada por seus filhos. E por isso Nossa Senhora chora!

         Neste dia em que celebramos, segundo o calendário tradicional, Nossa Senhora Rainha, é uma boa ocasião para pedirmos a graça da total fidelidade a Ela e de não permanecermos indiferentes às Suas lágrimas. Ocasião também para fazermos um compromisso de atuar ainda mais para restabelecê-la no Trono de glória, para que Ela volte a ser coroada, e efetivamente seja Rainha de todas as nações ainda em nossos dias.

         Nesse sentido, transcrevo trecho de uma conferência de Plinio Corrêa de Oliveira (em 26-2-1966), durante a qual ele concebeu uma antológica e inesquecível metáfora:


          “Nossa Senhora é como uma Rainha que está sentada no seu trono. A sala está cheia de inimigos. Os inimigos já arrancaram-lhe o dossel; já tiraram da sua fronte veneranda a coroa de glória a que Ela tem direito; já lhe arrancaram das mãos o cetro. Ela está amarrada para ser morta.

          Dentro dessa sala cheia de gente poderosa, armada, influente — todos diante da Rainha que não faz outra coisa senão chorar —, há também um pugilo de fiéis, e Ela evidentemente olha para tais fiéis. Assim, ou este olhar faz em nós o que o olhar de Jesus fez em São Pedro, ou não há mais nada para dizer…

          A Rainha vai ser arrancada do trono. Pergunta-se o que nós vamos fazer? Nesta hora deste olhar, isso não me interessa? Este olhar não me sensibiliza?

          Poder-se-ia então perguntar: quem sou eu? Eu sou o homem para quem Nossa Senhora olhou!

          Mas serei o homem a quem Ela terá olhado em vão?”

 

http://www.abim.inf.br/31-de-maio-dia-de-nossa-senhora-rainha/

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segunda-feira, 23 de março de 2020

NOVOS CENÁRIOS NA ERA DO CORONAVÍRUS – Roberto de Mattei


22 de março de 2020

O coronavírus é um castigo divino? Considerações políticas, históricas e teológicas

Roberto de Mattei

O tema da minha palestra é Os novos cenários na Itália e na Europa com e após o coronavírus.

Não falarei sobre esse tópico do ponto de vista médico ou científico, pois não tenho competência nesses campos.

Em vez disso, tratarei do assunto sob outros três pontos de vista: do estudioso das ciências políticas e sociais; do historiador; e do ponto de vista do filósofo da História.

O estudo das ciências sociais

As ciências políticas e sociais são aquelas que estudam o comportamento do homem em seu contexto social, político e geopolítico. Desse ponto de vista, não me pergunto sobre as origens do coronavírus e sua natureza, mas sobre as consequências sociais que ele está tendo e terá.

Uma epidemia é a disseminação em escala nacional ou mundial (neste caso, é chamada de pandemia) de uma doença infecciosa que afeta um grande número de indivíduos de uma determinada população em um período muito curto de tempo.

O coronavírus, renomeado Covid-19 pela OMS, é uma doença infecciosa que começou a se espalhar a partir da China. A Itália é aparentemente o país ocidental mais afetado.

Por que a Itália está em quarentena hoje? Porque, como os analistas entenderam desde o primeiro momento, o problema do coronavírus não é tanto a taxa de letalidade da doença, mas a rapidez da infecção na população. Todos concordam que a letalidade da doença em si não é muito alta. Um paciente pode se recuperar se for assistido por pessoal especializado em unidades de saúde bem equipadas. Mas se, devido à rapidez da infecção, que pode afetar milhões de pessoas simultaneamente, o número de pacientes for galopante, faltarão instalações e funcionários: nesse caso os pacientes morrem porque são privados dos cuidados necessários. Para tratar casos graves, são necessários cuidados intensivos para ventilar os pulmões. Se esse suporte estiver ausente, os pacientes morrem. Se o número de pessoas infectadas aumentar os hospitais não poderão mais oferecer tratamento intensivo a todos e um número crescente de pacientes sucumbirá.

As projeções epidemiológicas são inexoráveis​​e justificam as precauções tomadas. “Se ficar descontrolado, o coronavírus pode afetar toda a população italiana; mas suponhamos que no final apenas 30% sejam infectados, cerca de 20 milhões. Se desses — contando por baixo — uns 10% entrar em crise, isso significa que, sem cuidados intensivos, eles estarão destinados a sucumbir. Seriam dois milhões de mortes diretas, além de todas as mortes indiretas resultantes do colapso do sistema de saúde e da ordem social e econômica resultante”[1].

O colapso do sistema de saúde também tem outras consequências. O primeiro é o colapso do sistema de produção do país.

As crises econômicas geralmente surgem da falta de demanda ou de oferta. Mas se aqueles que desejam consumir devem permanecer em casa e as lojas estão fechadas e aqueles que poderiam oferecer não podem levar seus produtos aos clientes porque as operações de logística, o transporte de mercadorias e os pontos de venda estão em crise, as cadeias de suprimentos–as supply chains colapsam. Os bancos centrais não conseguem salvar a situação: “A crise pós-coronavírus não tem solução monetária“, escreve Maurizio Ricci em La Repubblica, em 28 de fevereiro. Stefano Feltri, por sua vez, observa: “Receitas tipicamente keynesianas — criação de empregos e demanda artificial com dinheiro público — não são viáveis ​​quando os trabalhadores não saem de casa, os caminhões não circulam, os estádios estão fechados e as pessoas não reservam viagens de férias ou de negócios porque em casa há doentes ou temem infecções. Além de evitar crises de liquidez para as empresas, suspendendo os pagamentos de impostos e de juros aos bancos, a política é impotente. Um decreto do governo não é suficiente para reorganizar a cadeia de suprimentos”[2].

A expressão “tempestade perfeita” foi criada há vários anos pelo economista Nouriel Roubini para indicar uma mistura de condições financeiras que poderiam levar a um colapso do mercado. “Haverá uma recessão global devido ao coronavírus”, diz Nouriel Roubini, acrescentando: “A crise explodirá e resultará em um desastre”[3]. As previsões de Roubini foram confirmadas pela queda nos preços do petróleo após o fracasso de um acordo na OPEP, com a Arábia Saudita desafiando a Rússia e decidindo aumentar a produção e baixar os preços. Provavelmente serão ratificadas pelo desdobramento de eventos.

O ponto fraco da globalização é a “interconexão”, a palavra talismã do nosso tempo, da economia à religião. A Querida Amazônia do Papa Francisco é um hino à interconexão. Mas o sistema global é frágil precisamente porque está muito interconectado. E o sistema de distribuição de produtos é uma das cadeias dessa interconexão econômica.

Não se trata de mercados, mas da economia real. Não apenas as finanças, mas também a indústria, o comércio e a agricultura — ou seja, os pilares da economia de um país — podem entrar em colapso se o sistema de produção e distribuição estiver em crise.

Mas há outro ponto que começa a ser vislumbrado: não é apenas o colapso do sistema de saúde, não é só a possibilidade de uma rachadura econômica, mas também pode haver um colapso do Estado e da autoridade pública; em uma palavra, a anarquia social. As prisões em revolta na Itália indicam uma direção,

As epidemias têm consequências psicológicas e sociais pelo pânico que podem causar. A Psicologia Social nasceu entre o final do século XIX e o início do século XX. Um de seus primeiros expoentes é Gustave Le Bon (1841-1931), autor de um famoso livro intitulado Psicologia das Massas (1895).

Analisando o comportamento coletivo, Le Bon explica como no meio da multidão o indivíduo passa por uma mudança psicológica pela qual sentimentos e paixões são transmitidos de um indivíduo para outro “por contágio”, como nas doenças infecciosas. A moderna teoria do contágio social, inspirada em Le Bon, explica como, protegido no anonimato da massa, até o indivíduo mais pacífico pode se tornar agressivo, agindo por imitação ou sugestão. O pânico é um daqueles sentimentos transmitidos por contágio social, como aconteceu durante a Revolução Francesa no período chamado de “Grande Medo”[4].

Se à crise econômica se soma a crise da saúde, uma onda descontrolada de pânico pode desencadear impulsos violentos na multidão. O Estado é substituído por tribos, gangues, especialmente nos subúrbios de grandes centros urbanos. A anarquia tem seus agentes, e a guerra social, que foi teorizada pelo Fórum de São Paulo (uma confederação de organizações ultraesquerdistas latino-americanas), já é praticada na Bolívia e no Chile, Venezuela e Equador, e pode em breve expandir-se para a Europa.

Esse processo revolucionário certamente corresponde ao projeto dos lobbies globalistas, os “mestres do caos”, como os defineo professor Renato Cristin[5]. Mas, se isso é verdade, também é verdade que quem sai derrotado por essa crise é precisamente a utopia da globalização, apresentada como o principal caminho para levar à unificação da humanidade. De fato, a globalização destrói o espaço e pulveriza as distâncias: hoje, pelo contrário, a regra para escapar da epidemia é a distância social, o isolamento do indivíduo. A quarentena se opõe diametralmente à “Sociedade Aberta” defendida por George Soros. A concepção do homem como um relacionamento, típica de certo personalismo filosófico, entra em ocaso.

O Papa Francisco, após o fracasso da Querida Amazônia, concentrou-se fortemente na conferência dedicada ao Pacto Global, agendada no Vaticano para 14 de maio. A conferência, no entanto, foi adiada e ela não apenas se afasta no tempo, mas suas premissas ideológicas se dissolvem. O coronavírus nos traz de volta à realidade. Não é o fim das fronteiras, anunciado após a queda do Muro de Berlim, é o fim do mundo sem fronteiras. Não é o triunfo da nova ordem mundial, é o triunfo da nova desordem mundial. O cenário político e social é o de uma sociedade que se desintegra e se decompõe. Foi tudo planejado? É possível. Mas a História não é uma sucessão determinística de eventos. O Mestre da História é Deus, não os mestres do caos. É o fim da “aldeia global”. O assassino da globalização é um vírus global chamado coronavírus.

O historiador

Um hospital nos Estados Unidos, em 1918, lotado de vítimas da gripe espanhola.

A esta altura, o historiador se substitui ao observador político e tenta ver as coisas em uma perspectiva de longa distância. As epidemias acompanharam a história da humanidade desde seu início até o século XX e sempre se entrelaçaram com outros dois flagelos: guerras e crises econômicas. A última grande epidemia — a gripe espanhola da década de 1920 [foto] — estava intimamente ligada à Primeira Guerra Mundial e à Grande Depressão de 1929, também conhecida como the Great Crashuma crise econômica e financeira que abalou a economia mundial no final da década de 1920, com sérias repercussões também na década seguinte. Esses eventos foram seguidos pela Segunda Guerra Mundial.

Laura Spinnay é uma jornalista científica inglesa que escreveu um livro intitulado Pale Rider: The Spanish Flu of 1918 and How It Changed the World, traduzido como: 1918. A gripe espanhola, a pandemia que mudou o mundo. Seu livro nos informa que entre 1918 e 1920 o vírus espanhol infectou aproximadamente 500 milhões de pessoas, atingindo até habitantes de ilhas remotas do Oceano Pacífico e do Oceano Ártico, causando a morte de 50 a 100 milhões de pessoas, dez vezes mais que a Primeira Guerra Mundial. A Grande Guerra ajudou a espalhar o vírus pelo mundo. Laura Spinnay escreve: “É difícil imaginar um mecanismo de contágio mais eficaz do que a mobilização de grandes quantidades de tropas no auge da onda epidémica do outono, que chegaram aos quatro cantos do planeta, onde foram recebidos por multidões festivas. Basicamente, o que a gripe espanhola nos ensinou é que outra pandemia de gripe é inevitável, mas se causará dez ou cem milhões de vítimas depende apenas de como será o mundo no qual ela se desencadeará.”[6]

No mundo interconectado da globalização, a facilidade de contágio é certamente maior do que cem anos atrás. Quem poderia negar isso?

Mas o olhar do historiador remonta mais atrás no tempo.

O século XX foi o século mais terrível da História, mas houve outro século terrível, aquele que a historiadora Barbara Tuchman em seu livro A Distant Mirror chama de “O calamitoso século XIV” [7].

Quero focalizar esse período histórico, que marca o fim da Idade Média e o início da Era Moderna. Faço isso com base nos trabalhos de historiadores– não católicos, mas sérios e objetivos em suas pesquisas.

As Rogações são procissões convocadas pela Igreja para implorar a ajuda do Céu contra as calamidades. Nas Rogações, rezamos A fame, peste et bello libera nos, Domine: “da fome, da peste e da guerra, livrai-nos, Senhor”. A fome, a peste e a guerra sempre foram consideradas pelo povo cristão como castigos de Deus. A invocação litúrgica presente na cerimônia das Rogações — escreve o historiador Roberto Lopez — “retomou toda a sua dramática relevância durante o século XIV”.[8] “Entre os séculos X e XII — observa López — nenhum dos grandes flagelos que ceifam a humanidade parece ter-se espalhado em grande proporção; nem a peste, da qual não ouvimos falar neste período, nem a penúria, nem a guerra, que causou um número muito pequeno de vítimas. Além disso, as potencialidades da agricultura foram ampliadas por uma melhoria gradual do clima. Temos provas disso no recuo das geleiras nas montanhas e dos icebergs nos mares do Norte, na extensão da viticultura em regiões como a Inglaterra, onde hoje não é mais praticável, na abundância de água em territórios do Saara depois recuperados pelo deserto”[9].

Muito diferente foi a imagem do século XIV, que assistiu à convergência de catástrofes naturais e de sérias convulsões religiosas e políticas.

O século XIV foi um século de profunda crise religiosa: começou com a bofetada de Anagni (1303), uma das maiores humilhações do Papado na História; depois viu a mudança dos Papas, durante setenta anos, para a cidade de Avignon, na França (1308-1378), e terminou entre 1378 e 1417, com os quarenta anos do Cisma do Ocidente, no qual a Europa católica se dividiu entre dois e depois três papas opostos entre si. Um século depois, em 1517, a Revolução Protestante rasgou a unidade de fé do Cristianismo.

Se o século XIII havia sido um período de paz na Europa, o século XIV foi uma era de guerra permanente. Basta pensar na “Guerra dos Cem Anos” entre a França e a Inglaterra (1339-1452) e a invasão dos turcos ao Império Bizantino, com a conquista de Adrianópolis em 1362.

 Nesse século, a Europa experimentou uma crise econômica devido às mudanças climáticas causadas não pelo homem, mas pelo esfriamento. O clima da Idade Média era ameno e doce, como seus costumes. O século XIV, pelo contrário, experimentou um forte enrijecimento das condições climáticas.
As chuvas e inundações da primavera de 1315 resultaram em uma fome geral que assolou a Europa inteira, especialmente as regiões septentrionais, causando a morte de milhões de pessoas. A fome se espalhou por toda parte. Os idosos recusavam voluntariamente a comida na esperança de que os jovens sobrevivessem e os cronistas da época escreveram sobre muitos casos de canibalismo.

Uma das principais consequências da fome foi a desestruturação agrícola. Durante esse período, houve grandes movimentos de despovoamento agrícola, caracterizados pela fuga da terra e o abandono das aldeias; a floresta invadiu campos e vinhedos. Como consequência do abandono do campo, houve uma redução acentuada na produtividade do solo e um depauperamento dos rebanhos.

Se o mau tempo causa fome, isso enfraquece o corpo das populações, abre o caminho às doenças. Os historiadores Ruggero Romano e Alberto Tenenti mostram como no século XIV se intensificou o círculo vicioso entre penúrias e epidemias[10]. A última grande peste havia eclodido entre 747 e 750; reapareceu quase seiscentos anos depois, repetindo-se quatro vezes no curso de uma década.

A peste veio do Oriente e chegou a Constantinopla no outono de 1347. Nos três anos seguintes, infectou toda a Europa até a Escandinávia e a Polônia. É a Peste Negra [quadro ao lado] de que fala Boccaccio no Decamerão. A Itália perdeu cerca da metade de seus habitantes. Agnolo di Tura, cronista de Siena, reclamou que não encontrava mais ninguém para enterrar os mortos e que ele teve que enterrar seus cinco filhos com as próprias mãos. Giovanni Villani, um cronista florentino, foi atingido pela peste de forma tão repentina que sua crônica parou no meio de uma frase.

A população europeia, que no início de 1300 atingira mais de 70 milhões de habitantes, após um século de guerras, epidemias e fomes desceu para 40 milhões; portanto, diminuiu mais de um terço.

A fome, a peste e as guerras do século XIV foram interpretadas pelo povo cristão como sinais do castigo de Deus.

Tria sunt flagella quibus dominus castigat: três são os flagelos com os quais Deus castiga os povos: guerra, peste e fome, advertiu São Bernardino de Siena (1380-1444)[11]. São Bernardino de Siena pertence a esse número de santos — como Catarina de Siena, Brígida da Suécia, Vicente Ferrer, Luís Maria Grignion de Montfort — que explicaram como, ao longo da História, os desastres naturais sempre acompanharam as infidelidades e apostasias das nações.

Isso que aconteceu no final da Idade Média cristã parece acontecer com as calamidades de hoje. Santos como Bernardino de Siena não atribuíram esses eventos à atuação dos agentes do mal, mas aos pecados dos homens, tão mais graves se forem pecados coletivos e ainda mais graves se forem tolerados ou promovidos pelos governantes dos povos e pelas autoridades da Igreja.

O filósofo da História

Essas considerações nos introduzem no terceiro ponto de vista sob o qual considerarei os eventos, não como sociólogo ou historiador, mas como filósofo da História.

A Teologia e a Filosofia da História são campos de especulação intelectual que aplicam os princípios da teologia e da filosofia a eventos históricos. O teólogo da História é como uma águia que julga dos cimos os eventos humanos. Grandes teólogos da História foram Santo Agostinho (3054-430), Jacques Bénigne Bossuet (1627-1704), que foi chamado de águia de Meaux, do nome da diocese da qual foi bispo, o conde Joseph de Maistre (1753-1821), o marquês Juan Donoso Cortés (1809-1853), o abade de Solesmes, Dom Guéranger (1805-1875), o professor Plinio Corrêa de Oliveira (1908-1995) e muitos outros.

Há uma expressão bíblica que diz: Judicia Dei abyssus multa (Salmos 35, 7): os juízos de Deus são um grande abismo. O teólogo da História se submete a esses juízos e tenta entender-lhes a razão.

São Gregório Magno [quadro ao lado], convidando-nos a investigar as razões da obra divina, declara: “Quem, nas obras de Deus, não descobre a razão pela qual Deus as faz, encontrará em sua maldade e baixeza motivos suficientes para explicar por que suas indagações são em vão”[12].

A filosofia e a teologia modernas, sob a influênciasobretudo de Hegel, substituíram os juízos de Deus pelos da História. O princípio de que a Igreja julga a História é invertido. De acordo com a Nouvelle théologie, não é a Igreja que julga a História, mas a História que julga a Igreja, porque a Igreja não transcende a História, mas é imanente, interna a ela.

Quando o cardeal Carlo Maria Martini, em sua última entrevista, afirmou que “a Igreja está 200 anos atrasada” em relação à História, ele tomou a História como critério de julgamento da Igreja. Quando o Papa Francisco, em sua saudação de Natal de 21 de dezembro de 2019, faz suas as palavras do cardeal Martini, ele julga a Igreja em nome da História, revertendo o que deveria ser o critério católico de julgamento.

A História é realmente uma criatura de Deus, como a natureza, como tudo o que existe, porque nada do que existe é subtraído de Deus. Tudo o que acontece na História é previsto, regrado e ordenado por Deus desde toda a eternidade.

Portanto, para o filósofo da História, todo discurso só pode começar com Deus e terminar com Deus: Deus não apenas existe, mas toma conta das criaturas e recompensa ou castiga os seres racionais de acordo com os méritos e as falhas de cada um. O Catecismo de São Pio X ensina: “Deus recompensa o bem e castiga o mal porque é justiça infinita”.

A justiça — explicam os teólogos — é uma das infinitas perfeições de Deus[13]. A misericórdia infinita de Deus pressupõe sua justiça infinita.

Entre os católicos, a ideia de justiça, como a do juízo divino, é frequentemente repelida. No entanto, a doutrina da Igreja ensina a existência de um juízo particular que se segue à morte de cada um, com a retribuição imediata às almas e um julgamento universal em que anjos e homens serão julgados por pensamentos, palavras, obras, omissões.

A Teologia da História afirma que Deus recompensa e pune não apenas os homens, mas coletividades e grupos sociais: famílias, nações, civilizações. Mas enquanto os homens têm sua recompensa ou seu castigo, às vezes na Terra, mas sempre na eternidade, as nações, sem vida eterna, são punidas ou recompensadas apenas na Terra.

Deus é justo e recompensador, e dá a cada qual o que lhe corresponde: não castiga apenas as pessoas individuais como também atribula famílias, cidades, nações, pelos pecados que são cometidos lá. Terremotos, fome, epidemias, guerras, revoluções sempre foram considerados punições divinas. Como escreve o padre Pedro de Ribadaneira (1527-1611), “guerras e pragas, secas e fomes, incêndios e todas as outras calamidades desastrosas são punições pelos pecados do povo”[14].

Em 5 de março, o bispo de uma importante diocese italiana cujo nome não menciono, disse: “Uma coisa é certa: esse vírus não foi enviado por Deus para punir a humanidade pecadora. É um efeito da natureza em sua característica de madrasta. Mas Deus enfrenta esse fenômeno conosco e provavelmente nos fará entender, no fim, que a humanidade é uma aldeia global”.

Esse bispo italiano não renuncia ao mito da “aldeia global” nem à religião da natureza de Pachamama e de Greta Thurnberg, mesmo que para ele a “Grande Mãe” possa se tornar “madrasta”. Mas, acima de tudo, rejeita fortemente a ideia de que a epidemia de coronavírus ou qualquer outro desastre coletivo possa ser uma punição para a humanidade. O vírus, segundo o bispo, é apenas um efeito da natureza. Mas quem criou, regula e dirige a natureza? Deus é o Autor da natureza, com suas forças e suas leis e tem o poder de organizar o mecanismo das forças e leis da natureza para produzir um fenômeno de acordo com as exigências de sua justiça ou de sua misericórdia. Deus, que é a causa primeira de tudo que existe, sempre usa causas segundas para realizar seus planos. Quem tem espírito sobrenatural não se detém na superfície, mas tenta entender o plano de Deus escondido sob a força aparentemente cega da natureza.

O grande pecado contemporâneo é a perda da fé dos homens da Igreja: não deste ou daquele homem da Igreja, mas dos homens da Igreja como um todo, com algumas exceções graças às quais a Igreja não perde a sua visibilidade. Essa infidelidade produz a cegueira da mente e o endurecimento do coração, a indiferença diante da violação da ordem divina do universo.

É uma indiferença que esconde o ódio contra Deus. Como ela se manifesta? Não diretamente. Esses clérigos são covardes demais para desafiar diretamente a Deus. Eles preferem expressar seu ódio para com aqueles que ousam falar de Deus, e aqueles que ousam falar de castigo de Deus são apedrejados, um rio de ódio se derrama contra eles.

Esses homens da Igreja, apesar de professarem verbalmente acreditar em Deus, na verdade vivem imersos no ateísmo prático. Eles despojam Deus de todos os seus atributos, reduzindo-O a puro “ser”, isto é, a nada. Tudo o que acontece é para eles fruto da natureza emancipadade seu Autor, e somente a ciência, e não a Igreja é capaz de decifrar suas leis.

Contudo, não apenas a sã teologia, mas o próprio sensus fidei ensina que todos os males físicos e materiais que não provêm do homem dependem da vontade de Deus. “Tudo o que acontece aqui contra a nossa vontade — escreve Santo Afonso de Ligório —, sabei que isso não acontece senão pela vontade de Deus, como diz Santo Agostinho”[15].

Em 19 de julho, a liturgia da Igreja comemora o bispo de São Lopo de Troyes (383-478). Ele era irmão de São Vicente de Lérins, cunhado de São Hilário de Arles, pertencente a uma família de antiga nobreza senatorial, mas acima de tudo de grande santidade.

Durante seu longo episcopado — 52 anos — a Gália foi invadida pelos hunos. Átila, à frente de um exército de quatro mil homens, atravessou o Reno, devastando tudo o que encontrava em seu caminho. Quando ele chegou diante da cidade de Troyes, o bispo Lopo, revestido das roupas pontifícias e seguido pelo clero em procissão, encontrou Átila e perguntou: “Quem és tu que ameaças esta cidade?”. A resposta foi: “Não sabeis quem sou? Eu sou Átila, rei dos hunos, chamado o flagelo de Deus ”. “E então seja o flagelo bem-vindo de Deus, porque merecemos os flagelos divinos, por causa de nossos pecados. Mas, se for possível, desfira seus golpes apenas na minha pessoa, e não em toda a cidade.”

Os hunos entraram na cidade de Troyes, mas por vontade divina foram cegados e a atravessaram sem dar-se conta nem ferir ninguém.

Hoje, os bispos não somente não falam de flagelos divinos, mas também não convidam os fiéis a rezar a Deus para libertá-los da epidemia. Há uma coerência nisso. Quem reza pede de fato a Deus para intervir em sua própria vida e, portanto, nas coisas do mundo, para ser protegido do mal e obter bens espirituais e materiais. Mas por que Deus ouviria nossas orações se Ele não está interessado no universo que criou?

Se, pelo contrário, Deus pode com milagres mudar as leis da natureza, evitando o sofrimento e a morte de um homem, ou a hecatombe de uma cidade, Ele também pode decidir o castigo de uma cidade ou de um povo, porque pecados coletivos atraem punições coletivas. “Pelos pecados — diz São Carlos Borromeu – Deus permitiu que o incêndio da peste se difundisse em cada setor em Milão.“[16]. E São Tomás de Aquino explica: “Quando todo o povo peca, deve–se tirar vingança dele, ou totalmente, como no caso dos egípcios que, perseguindo os filhos de Israel, ficaram submersos no Mar Vermelho; e também no dos sodomitas, que pereceram todos — o que se lê na Escritura. Ou em grande parte do povo, como no caso dos que adoraram o bezerro.“[17]

Na véspera da segunda sessão do Concílio Vaticano I, em 6 de janeiro de 1870, São João Bosco teve uma visão na qual lhe foi revelado que “a guerra, a praga, a fome são os flagelos com os quais o orgulho e a malícia dos homens serão atingidos”. Assim disse o Senhor: “Vós, sacerdotes, por que não correis chorando entre o vestíbulo e o altar, invocando a suspensão dos flagelos? Por que não pegais o escudo da fé e caminhais por cima dos telhados, nas casas, nas ruas, nas praças, em todo lugar, até inacessível, para levar a semente da minha palavra? Vós ignorais que esta é a terrível espada de dois gumes que derruba meus inimigos e que quebra a ira de Deus e dos homens?”[18].

Hoje os sacerdotes estão calados, os bispos estão calados, o Papa está calado.

Praça de São Pedro inteiramente vazia…

Estamos nos aproximando da Semana Santa e da Páscoa. E, pela primeira vez, talvez em muitos séculos na Itália, as igrejas estarão fechadas, as missas suspensas, até a Basílica de São Pedro estará fechada. As cerimônias pascais urbe et orbi não reunirão peregrinos de todo o mundo. Deus também pune por “subtração”, diz São Bernardino de Siena, e hoje Deus parece ter quase subtraído as igrejas da Mãe de todas as igrejas, da mão do supremo Pastor, enquanto o povo católico tateia confuso no escuro, desprovido daquela verdade clara que da Basílica de São Pedro deve iluminar o mundo. Como não ver no que o coronavírus está produzindo um resultado simbólico da autodemolição da Igreja?

Judicia Dei abyssus multa. Devemos ter certeza de que o que acontece não prefigura o sucesso dos filhos das trevas, mas a sua derrota, porque, como explica o Padre Carlo Ambrogio Cattaneo, da Companhia de Jesus (1645-1705), o número de pecados, de um homem ou de um povo, é contado[19]Venit dies iniquitate praefinita, diz o profeta Ezequiel (21, 2): Deus é misericordioso, mas há um último pecado que Deus não tolera e que provoca seu castigo.

Além disso, de acordo com um princípio da Teologia da História cristã, o centro da História não são os inimigos da Igreja, mas os santos. Omnia sustineo propter electos (II Tim. 2, 10), diz São Paulo. A História gira em torno dos eleitos. E a História depende dos desígnios impenetráveis ​​da Divina Providência.

Na História, atuam homens, grupos, sociedades organizadas, públicas ou secretas, que se opõem à Lei de Deus, que se esforçam para destruir tudo o que é ordenado a Deus. Eles podem obter sucessos aparentes, mas sempre serão derrotados.

O cenário que temos diante de nós é apocalíptico, mas Pio XII nos recorda que no Apocalipse (6, 2) São João, “não olhou apenas as ruínas causadas pelo pecado, guerra, fome e morte; Ele também viu pela primeira vez a vitória de Cristo. E, de fato, o caminho da Igreja através dos séculos é, sim, uma via sacra, mas também é em cada momento uma marcha triunfal. A Igreja de Cristo, os homens de fé e de amor cristão são sempre aqueles que, a uma humanidade sem esperança, trazem a luz, a redenção e a paz. Iesus Christus heri et hodie, ipse et in saecula (Hebr. 13, 8). Cristo é vosso guia, de vitória em vitória. Segui-O.”[20]

Nossa Senhora de Fátima profetizou o cenário de nosso tempo e garantiu seu triunfo. Com a humildade de quem é ciente de que nada pode com suas próprias forças, mas também com a confiança de quem sabe que tudo pode com a ajuda de Deus, não retrocedamos e nos consagremos a Maria na trágica hora dos acontecimentos anunciados pela Mensagem de Fátima.

[1] Francesco Sisci,Il Sussidiario.net,9 marzo 2020.
[2]Stefano Feltri,Il Fatto quotidiano, 4 marzo 2020.
[4]Pierre Gaxotte,La Révolution française,Complexe, Paris 1988, pp. 93-128.
[5]Renato Cristin,I padroni del caos,Liberlibri, Macerata 2017.
[6]Laura Spinney,1918. L’influenza spagnola. La pandemia che cambiò il mondo,Marsilio, Venezia 1918, p. 187.
[7]Barbara Tuchman,A distant Mirror. The Calamitous Fourteenth Century,Macmillan Publishers, Londra 1995.
[8]Roberto S. Lopez,La nascita dell’Europa. Secoli V-XIV, Einaudi, Torino 1966, p. 427.
[9] Ivi, p. 133.
[10]Ruggero Romano-Alberto Tenenti,Alle origini del mondo moderno 1350-1550, Feltrinelli, Milano 1967, pp. 16-26.
[11]San Bernardino,Opera omnia, Sermo 46, Feria quinta post dominicam de Passione, vol. II, pp. 84-85.
[12]S. Gregorio Magno,Moralia,Lib. IX, cap. I.
[13]Réginald Garrigou-Lagrange,Dieu, son existence et sa nature, Beauchesne, Paris 1950, pp. 440-463.
[14]Pietro Ribadaneira, La tribolazione e i suoi conforti, Civiltà Cattolica, Roma 1914, p. 207.
[15]S. Alfonso Maria de’Liguori,Uniformità alla volontà di Dio, Francavilla, Paoline 1968, p. 33.
[16]S. Carlo Borromeo,Memoriale al suo diletto popolo della città di Milano, Stamperia Michele Tini, Roma 1579, p. 44.
[17]S. Tommaso d’Aquino,Summa Theologica,IIª-IIae q. 108 a. 1 ad 5.
[18] Cfr. Memorie biografiche del venerabile don Giovanni Bosco. Raccolte del sac. Salesiano Giovanni Battista Lemoyne, edizione extra commerciale, vol. IX, Tipografia S.A.I.D. “Buona Stampa”, Torino 1917, p. 782.
[19]Carlo Ambrogio Cattaneo s.j., L’esercizio della buona morte, in Opere, vol. II, Boniardi, Milano 1867, pp. 169-170.
[20]Pio XII, Discorso del 12 settembre 1948 in Discorsi e Radiomessaggi, X (1948-1949), p. 212.



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