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segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

A LITURGIA “NO ALTAR DA HIPOCRISIA”? – Luiz Sérgio Solimeo


O Papa João XXIII celebra Missa Solene na Basílica de São Pedro, no início dos anos 60

 

Luiz Sérgio Solimeo

 

No voo de volta a Roma após sua viagem ao Chipre e à Grécia, em 6 de dezembro passado, respondendo a uma pergunta de jornalistas sobre a renúncia do arcebispo de Paris, Dom Michel Aupetit, o Papa Francisco explicou:

“Eu aceitei a renúncia de Aupetit, não sobre o altar da verdade, mas sobre o altar da hipocrisia. Era isto que eu queria dizer.”1

O Papa parece ter tomado a mesma atitude em relação à liturgia tradicional da Igreja. De fato, apesar dos flagrantes absurdos litúrgicos vistos nas celebrações do novo rito imposto à Igreja em 1969, tanto ele quanto o Arcebispo Arthur Roche — o primeiro com o ‘Motu Proprio’ Traditiones Custodes e o segundo com a Responsa ad dubia — restringiram drasticamente a celebração da Missa tradicional.2

As razões dadas para tais medidas se resumem em “restaurar a unidade litúrgica” e impor a aceitação das doutrinas do Concílio Vaticano II.

Abandono do “Altar da Verdade”

Ao deixar de reconhecer que a divisão entre os fiéis em relação à liturgia se deu precisamente por causa da renúncia ao rito de tradição apostólica e da imposição de um novo rito romano da Missa, sob a égide do Concílio, abandonou-se “o altar da verdade”.

Antes dessa mudança, um católico podia viajar para quase qualquer lugar do mundo e assistir à mesma Missa, na mesma língua universal da Igreja, com as mesmas orações, paramentos e, sobretudo, com recolhimento.


O Papa Paulo VI celebra missa no Ritus Modernus imposto por ele. A “venerável tradição secular” do rito litúrgico da tradição apostólica estava abolida.

‘Ritus Modernus’ substitui ‘Ritus Romanus’

O liturgista alemão Monsenhor Klaus Gamber prefere referir-se ao rito tradicional da Missa como Ritus Romanus, e chama o novo rito do Papa Paulo VI de Ritus Modernus. Ele explica que é impreciso e até incorreto chamar o rito romano tradicional de “Missa de São Pio V” ou “Missa tridentina”. Escreve ele: “No sentido estrito, não há ‘Missa Tridentina’, pois, pelo menos na conclusão do Concílio de Trento, não houve criação de um novo ordinário da Missa; e o ‘Missal de São Pio V’ nada mais é do que o Missal da Cúria Romana, que havia visto a luz em Roma séculos antes.”3

Paulo VI anuncia um “novo rito” da Missa

Em seu discurso de 26 de novembro de 1969, anunciando a entrada em vigor na Itália (e, mais tarde, no mundo inteiro) da “Nova Missa”, o Papa Paulo VI deixou claro que essa “novidade litúrgica” não consistia em modificações litúrgicas superficiais, mas em uma mudança completa no rito da Missa, à qual ele se referiu repetidamente com expressões como o “novo rito da Missa,” ou simplesmente o “novo rito”:

“Mais uma vez queremos convidar suas almas a se voltarem para a novidade litúrgica do novo rito da Missa, que será estabelecido em nossas celebrações do Santo Sacrifício, a partir do próximo domingo, primeiro domingo do Advento, 30 de novembro.” 4

Rompendo com a tradição da Igreja

Paulo VI reconhecia que, ao impor o seu “novo rito”, estava rompendo com a tradição litúrgica da Igreja:

“Novo rito da Missa: é uma mudança em uma venerável tradição secular e por isso toca no nosso patrimônio religioso hereditário, que parecia ter de gozar de uma fixidez intangível e dever trazer aos nossos lábios a oração de nossos antepassados ​​e nossos santos e nos dar o conforto de uma fidelidade ao nosso passado espiritual, que tornamos atual para transmiti-lo às gerações futuras. Compreendemos melhor nesta contingência o valor da tradição histórica e da comunhão dos santos.”

Gravidade da ruptura

Essas afirmações de Paulo VI são tanto mais graves quanto o Rito Romano (a “Missa Tridentina”) é de tradição apostólica. Agora, romper com a tradição apostólica acarreta problemas teológicos extremamente graves.

Mons. Klaus Gamber escreve: “Os papas observaram repetidamente que o rito [da Missa] é fundado na tradição apostólica”. Em nota, ele cita cartas dos papas Santo Inocêncio I (402-417) e Vigílio (538-555), que fazem essa afirmação. E continua comentando as opiniões de grandes teólogos do passado, como o Cardeal Caetano (+1534) e Suárez (+1617), de que “um papa seria cismático ‘[…] se ele mudasse todos os ritos litúrgicos da da Igreja que foram confirmados pela tradição apostólica’.” 5


Monges cantando gregoriano (Iluminura medieval) – Girolamo da Milano chamado Maestro Olivetano, séc. XV.

Sacrificando o latim, o canto gregoriano e outros tesouros

Tudo na Missa agora será diferente, acrescenta Paulo VI:

“Esta mudança toca na conduta cerimonial da missa; e notaremos, talvez com algum desconforto, que as coisas no altar não acontecem mais com aquela identidade de palavras e gestos a que estávamos tão acostumados, que quase não prestávamos mais atenção neles.”

Paulo VI tinha bem ciência de que estava sacrificando o latim, essa insubstituível “língua angélica” e outros preciosos valores espirituais da Igreja:

“Aqui, é claro, será sentida a maior novidade: a da língua. O latim não será mais a língua principal da missa, mas a língua falada. Para quem conhece a beleza, o poder, a expressiva sacralidade do latim, certamente a substituição pela língua vulgar é um grande sacrifício: perdemos a linguagem dos séculos cristãos, nos tornamos quase intrusos e profanos no recinto literário da expressão sagrada, e assim perderemos grande parte desse maravilhoso e incomparável fato artístico e espiritual, que é o canto gregoriano.” E prossegue:

“Temos, de fato, motivos para lamentar, quase nos sentirmos perdidos. O que podemos colocar no lugar dessa língua angélica? Estamos abrindo mão de algo de valor inestimável.”

Resposta humana banal e prosaica

O Pontífice faz esta pergunta óbvia:

“E por que razão? Que coisa vale mais do que esses altíssimos valores da nossa Igreja?”

E responde:

“A resposta parece banal e prosaica, mas é válida, porque é humana, porque é apostólica. O entendimento da oração vale mais do que as roupas sedosas e vetustas com as quais ela foi regiamente vestida; a participação do povo vale mais, deste povo moderno saturado de palavras claras e inteligíveis, traduzíveis em sua conversa profana. Se a divina língua latina mantivesse a infância, a juventude, o mundo do trabalho e dos negócios segregados de nós, se ela fosse um diafragma opaco em vez de um cristal transparente, nós, os pescadores de almas, faríamos bem em preservar para ela o domínio exclusivo da oração e da conversação religiosa?”

Valeu a pena?

         Passado meio século, cabe perguntar: valeu a pena?

O “grande sacrifício” de abandonar “a divina língua latina” e substituí-la pela “língua usada na conversa profana” aproximou da Igreja as crianças, os jovens, “o mundo do trabalho e dos negócios”?

Não. Aconteceu o contrário: as igrejas esvaziaram-se e poucos católicos agora vão à missa.

As igrejas que se enchem aos domingos e dias santos de guarda são precisamente aquelas onde se celebra a Missa segundo o Vetus Ordo, em latim, e ressoa o canto gregoriano.

Na realidade, foram a banalidade e o prosaismo introduzidos por Paulo VI na celebração da Missa que, em grande parte, afastaram os fiéis.

Conclui-se a obra demolidora iniciada por Paulo VI?


Em seu motu proprio Traditionis Custodes, de 16 de julho de 2021, e sua carta explicativa aos bispos, o Papa Francisco restringiu brutalmente e o máximo possível (com vistas a extinguir) a celebração da Santa Missa no rito tradicional, embora este seja de origem apostólica, como vimos.

A Responsa ad dubia da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, assinada pelo Arcebispo Arthur Roche em 4 de dezembro de 2021, endureceu ainda mais as disposições já draconianas do Motu Proprio Traditionis Custodes.

Ao travar sua guerra total contra a liturgia tradicional da Missa, para destruir este monumento da piedade cristã, o Papa Francisco está completando o trabalho de autodemolição da “venerável tradição secular” do rito litúrgico da tradição apostólica.

Apelos foram inúteis

Na época, a notícia do abandono da liturgia tradicional latina teve um impacto profundo não apenas nos católicos praticantes, mas também nos não-católicos.

Em 1971, cinquenta intelectuais e artistas, entre católicos, não-católicos e até judeus, enviaram ao Papa Paulo VI e tornaram público um apelo implorando a manutenção da liturgia tradicional, como patrimônio da humanidade.

Entre outras coisas, a Declaração de Acadêmicos, Intelectuais e Artistas Vivendo na Inglaterra dizia:

“Se algum decreto sem sentido ordenasse a destruição total ou parcial de basílicas ou catedrais, então obviamente seriam as pessoas cultas — quaisquer que fossem suas crenças pessoais — que se levantariam horrorizadas para se opor a tal possibilidade.

“Ora, o fato é que as basílicas e as catedrais foram construídas para celebrar um rito que, até poucos meses atrás, constituía uma tradição viva. Estamos nos referindo à Missa Católica Romana. No entanto, de acordo com as últimas informações em Roma, há um plano para fazer desaparecer essa Missa até o final do ano em curso…

“Não estamos neste momento considerando a experiência religiosa ou espiritual de milhões de indivíduos. O rito em questão, em seu magnífico texto latino, também inspirou uma série de realizações inestimáveis ​​nas artes — não apenas obras místicas, mas obras de poetas, filósofos, músicos, arquitetos, pintores e escultores em todos os países e épocas. Assim, pertence à cultura universal, bem como aos clérigos e cristãos formais.”6

Apelo dos cardeais

Ainda mais críticos do que esse apelo de intelectuais e artistas, que entenderam bem o vínculo entre beleza e verdade, são os trabalhos de teólogos, padres e leigos que mostram como a nova Missa se afastou do Concílio de Trento e se aproximou do protestantismo.

Em junho de 1969, os cardeais Alfredo Ottaviani e Antonio Bacci enviaram ao Papa Paulo VI uma carta de apresentação de um estudo intitulado Breve exame crítico do Novus Ordo Missae. Sua carta contém esta afirmação muito séria:

“O Novo Ordinário representa, tanto em seu todo como nos detalhes, uma nova orientação teológica da Missa, diferente daquela que foi formulada na Sessão XXII do Concílio de Trento. Os ‘Canons’ do rito, definitivamente fixados naquele tempo, proporcionavam uma intransponível barreira contra qualquer heresia dirigida contra a integridade do Mistério”.7



Exemplo da falta de sacralidade da missa no “novo rito”: na paróquia da Natividade de Maria, em Aschaffenburg, Alemanha, no passado dia 3 de outubro. O pároco Markus Krauth celebrava oficialmente o Erntedankfest alemão, a festa anual de ação de graças a Deus pela colheita. Mas decidiu comemorá-la como Erdedankfest, substituindo a palavra “colheita” (Ernte) pela palavra “terra” (Erde). O altar foi simbolicamente um monte de terra…

Missa sem sacralidade

O novo rito perdeu aquela sacralidade e mistério que o latim lhe dava, a reverência do sacerdote diante de Deus no altar, rezando em voz baixa, como se aniquilado diante da grandeza de servir como instrumento de Nosso Senhor Jesus Cristo para consagrar e imolar a Vítima divina em forma sacramental, renovando assim o Sacrifício do Calvário.

No “novo rito” de Paulo VI, a Missa tornou-se uma tagarelice contínua, um diálogo constante e banal entre o celebrante e a assembleia, sugerindo que os fiéis concelebram com o sacerdote. Ele põe tanta ênfase na assembleia, que o Pe. Joseph de Sainte-Marie, O.C.D., observou que “ao absolutizar esse aspecto comunitário”, a nova Missa “levou ao antropocentrismo, [com] a assembleia celebrando-se a si mesma”.8

Não é de admirar, então, que tenha havido tantas aberrações e absurdos na celebração da Missa de acordo com o Novus Ordo Missae ao longo desses cinquenta anos.

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Notas:

  1. Viagem Apostólica do Papa Francisco ao Chipre e à Grécia (2-6 de dezembro de 2021). Coletiva de Imprensa durante o voo de retorno a Roma (6-12-21). https://www.vatican.va/content/francesco/pt/speeches/2021/december/documents/20211206-grecia-volodiritorno.html. Acessado em 27-12-21.
  2. Ver: Lettera Apostolica in forma di Motu «Proprio» del Sommo Pontefice Francesco «Traditionis Custodes» Sull’uso della Liturgia Romana anteriore alla Riforma del 1970. (16-7-21). https://www.vatican.va/content/francesco/it/motu_proprio/documents/20210716-motu-proprio-traditionis-custodes.html; Lettera del Santo Padre Francesco ai Vescovi di tutto il Mondo per presentare il Motu Proprio «Traditionis Custodes» Sull’uso Della Liturgia RomanaAnteriore Alla Riforma Del 1970. Roma, 16-7-21; Congregazione per il Culto Divino e la Disciplina dei Sacramenti. Responsa Ad Dubia su alcune disposizioni della Lettera Apostolica in forma di «Motu Proprio»Traditionis Custodes del Sommo PonteficeFrancesco ai Presidenti delle Conferenze dei Vescovi. https://www.vatican.va/roman_curia/congregations/ccdds/documents/rc_con_ccdds_doc_20211204_responsa-ad-dubia-tradizionis-custodes_it.html. Acessados em 27-12-21.
  3.  Monsenhor Klaus Gamber, The Reform of the Roman Liturgy: Its problems and Background, (San Juan Capistrano, Califórnia: Una Voce Press; Harrison, N.Y.: The Foundation for Catholic Reform, 1993), p. 23.
  4. Paolo VI. Udienza Generale. Mercoledì, 26 novembre 1969. “Effusione degli animi nella Assemblea Comunitaria, ricchezza del nuovo rito della Santa Messa”. https://www.vatican.va/content/paul-vi/it/audiences/1969/documents/hf_p-vi_aud_19691126.html, acessado em 22-12-21 (Tradução nossa).
  5. Monsenhor Klaus Gamber, op. cit., pp. 34-36 (grifo nosso), e nota 26. Ver também Arnaldo Xavier da Silveira, Theological and Moral Implication of the “Novus Ordo Missae”, (Cleveland, Ohio: Lumem Mariae Publications), p. 258ss.
  6. “1971 Statement by Scholars, Intellectuals, and Artists Living in England,” https://web.archive.org/web/20161020002716/http:/www.institute-christ-king.org/uploads/main/pdf/england– statement.pdf, acessado em 29-12-21.
  7.  Carta dos Cardeais Ottaviani e Bacci à Sua Santidade Papa Paulo VI. Roma, 25 de setembro, 1969. https://pelafecatolica.com/2016/05/25/breve-exame-carta-cardeais-ottaviani-bacci/ (grifo nosso), acessado em 12-01-22. O fato, sobre o qual há muita confusão, de que o Cardeal Ottaviani tenha retirado seu nome dessa iniciativa não altera a veracidade da afirmação. A crítica é comprovada pelo estudo que os Cardeais encaminharam, e também por publicações de inúmeros autores como, por exemplo, a de Arnaldo Xavier da Silveira, citada acima.
  8. P. Joseph de Sainte-Marie, O.C.D., L’Eucharistie Salut du Monde, Ed. Dominique Martin Morin (Paris: Les Éditions du Cèdre, 1982), p. 134. (Tradução nossa).

 

https://www.abim.inf.br/a-liturgia-no-altar-da-hipocrisia/

 

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sexta-feira, 15 de outubro de 2021


 

“Caminho sinodal” — Uma Igreja sem sacerdotes?

 

 Mathias von Gersdorff

 

Frankfurt — Continuamos nossa análise sobre o Caminho sinodal ora em curso na Alemanha. Uma coisa é certa, a demolição do sacerdócio conduzirá a uma Igreja xamânica. Vejamos.

Deve o sacerdócio ser abolido na Igreja Católica? Será que a Igreja precisa mesmo de padres? A Assembleia sinodal permitiu que esta questão fosse discutida. Com efeito, ao serem perguntados no último dia 1º de outubro se deveria haver uma discussão sobre a abolição do sacerdócio, nada menos que 95 participantes do Sínodo responderam que “sim”.

Aconteceu que 94 outros votaram “não”, e já que a maioria simples é suficiente nessa Assembleia, a questão poderá agora ser discutida oficialmente no Caminho Sinodal. Ora, alguns poderiam afirmar: “É só uma questão de discussão. Ninguém ou quase tanto acredita seriamente que o sacerdócio possa ser abolido. Portanto, o mais provável é que não haja exigência concreta alguma, e o assunto pode ser deixado de lado com tranquilidade”.

Quem pensa assim, analisou o caso apenas de modo superficial, tirando conclusões precipitadas. Ainda que o Caminho Sinodal não se decida pela abolição do sacerdócio (ou a exija, pois a Assembleia Geral não pode tomar tal decisão), entretanto, nos debates será discutida seriamente a edificação de uma Igreja igualitária, na qual o padre praticamente não tem autoridade.

Tenho salientado muitas vezes que o objetivo da revolução da Igreja alemã é a introdução do ‘igualitarismo’ na Igreja católica, uma vez que o progressismo odeia a sua ordenação hierárquica e tudo o que lhe é relacionado, tal como a sacralidade, a tradição e a beleza.

O Caminho Sinodal já mostrou como o igualitarismo lhe é importante. Por exemplo, a disposição das cadeiras na sala da assembleia é determinada pela primeira letra do nome… Posição, cargo, função, idade, experiência, tudo isso é irrelevante. Nenhum parlamento no mundo é tão igualitário como este Caminho Sinodal.

Portanto, não é de surpreender que se esteja pensando no estabelecimento de uma Igreja na qual o padre só deve intervir no estritamente indispensável, como pronunciar as palavras da transsubstanciação na Missa, ou dar a absolvição na confissão. O sacerdote estaria assim reduzido à sua função central, ficando dificilmente visível o fato de que ele age em “persona Christi”.

Mas será que uma tal Igreja sobreviverá? Como deve ser a sua estrutura, uma vez que os padres ficariam reduzidos a um papel puramente funcional? O que manteria a unidade dos fiéis nessa Igreja? Talvez algo à maneira de “senso de comunidade”? Uma possibilidade seria organizar a vida interna desta pseudo-Igreja em torno de pessoas com certos carismas. Ou seja, pessoas capazes de influenciar e convencer outras com a sua personalidade, no bom ou no mau sentido.

Vamos a um exemplo. Alguém poderia tentar declarar Greta Thunberg ou pessoas do estilo como porta-vozes do Espírito Santo. Tais pessoas seriam dotadas de uma ‘aparente’ autoridade moral concedida pela mídia, e por teólogos por ela patrocinados, as quais ditariam os modos de ser e de viver dos católicos.

Com semelhantes figuras, pode-se-ia tentar fazer com que fosse mais importante para os católicos levar uma vida “neutra para o clima” do que obedecer aos Dez Mandamentos. Precisamente no meio do ativismo ambiental, podem ser encontrados muita gente que tem certa energia pseudo-espiritual e carisma suficiente para agir mais ou menos como xamãs.

Com sua mera presença, seu comportamento e com poucas palavras eles apresentariam estilos de vida e imporiam intuitivamente como se deve viver. Esses pseudo-profetas podem ser encontrados em todos os temas em voga: gênero, diversidade, cultura do cancelamento, sobretudo na questão climática e na ecologia.

E todos formariam uma espécie de colégio de pseudo-papas que exerceriam influências por meio de sua visão da vida, e não por meio do que comunicam verbalmente. Certo, também os padres poderiam desempenhar este papel xamânico, contudo o fato de serem pessoas consagradas não teria qualquer importância.

Pois aqui se trata mais bem da apresentação de um estilo de vida pseudo-espiritual antes ancorado no budismo, no panteísmo e nas religiões naturais do que na teologia moral e na ascese católica.

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Texto original em http://mathias-von-gersdorff.blogspot.com

Tradução: Renato Murta de Vasconcelos

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segunda-feira, 4 de outubro de 2021

“CAMINHO SINODAL” DECIDIDO A FAZER UMA REVOLUÇÃO NA IGREJA


Não parece, mas a foto é de uma assembleia de bispos (progressitas) da Alemanha

Mathias von Gersdorff

 

Por ocasião das “bênçãos” a duplas homossexuais no início de maio passado, foram feitos vários apelos aos progressistas radicais alemães para que se moderassem. Advertências claras vieram também de Roma, pois com seu comportamento estrondoso eles ameaçavam prejudicar o processo sinodal no mundo inteiro.

Como resultado, a maioria dos teólogos e dos grupos de base se conteve de fato em suas posições extremadas, levando a supor até que se havia alcançado certa disciplina no progressismo radical alemão. Contudo, dela nada restou na II Assembleia Geral do Caminho Sinodal, quando voltaram formular exigências extremistas, contrárias ao Magistério e a Igreja universal:

— A Comunidade de Mulheres Católicas Alemãs (KFD), a União Alemã de Mulheres Católicas (KDFB) e a associação Maria 2.0 passaram a exigir a introdução do sacerdócio feminino. Tais associações são apoiadas especialmente pelos bispos Overbeck, de Essen e Bode, de Osnabrück.

— Elas exigem uma vez mais a abolição da moralidade sexual católica, em particular as parcerias homossexuais e extraconjugais devem ser aceitas e possivelmente e mesmo abençoadas.

— A Igreja deve ser democratizada e, na melhor das hipóteses, os bispos devem atuar como moderadores entre as diferentes correntes eclesiais. A natureza sacramental da ordenação ainda não foi rejeitada, mas suas consequências sim. Em particular, a constituição hierárquica da Igreja.

Em resumo busca-se erigir uma Igreja completamente nova, com uma Moral própria, e nova estrutura diretiva. Assim, o Caminho Sinodal quer construir de fato uma igreja nacional alemã. Há resistência em marcha, de modo especial de Dom Voderholzer, bispo de Regensburg, e de Dom Oster, bispo de Passau.

Contudo, Dom Rudolf Voderholzer foi imediata e duramente criticado por Dom Georg Bätzing, bispo de Limburg e presidente da Conferência Episcopal: “Suas declarações não foram autorizadas, além de presunçosas”. Não pode haver dúvida de que o Caminho Sinodal nada mais é do que uma revolução eclesiástica para uma nova religião.

A estratégia futura a ser aplicada em vista do Sínodo Mundial está em aberto, havendo três opções:

— Possivelmente os progressistas quererão criar fatos consumados, erigindo uma igreja nacional, independendo das reações por parte de Roma e da Igreja universal. Com quase certeza irão fazer ouvidos moucos aos brados de alerta, correndo o risco de se separarem de Roma.

— Talvez eles não queiram ir tão longe, tomando diante do Sínodo Mundial uma posição, de início, a mais revolucionária possível, mas sem adotar medidas concretas, esperando para ver como as coisas irão se passar em âmbito mundial.

— É possível que eles pensem que uma revolução em escala mundial na Igreja possa ser deflagrada a partir da Alemanha, como já se deu no século XVI com o protestantismo. As resoluções do Caminho Sinodal seriam algo como um manifesto da revolução da Igreja para o mundo inteiro.

Uma coisa é certa. Os bispos, sobretudo Dom Georg Bätzing, já não dirigem os acontecimentos, mas são arrastados pelas correntes radicais na assembleia do Caminho Sinodal. Eles teriam de encerrar o já iniciado processo de destruição com uma palavra de força, mas na aparência temem que os grupos radicais de base partam para as barricadas.

A possibilidade de se apoiarem em católicos leais ao Magistério na Alemanha encontra-se fora de questão para a maioria dos bispos, de tal modo eles se encontram prisioneiros de associações financeiramente fortes.

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Texto original: https://mathias-von-gersdorff.blogspot.com/2021/10/vollversammlung-synodaler-weg-ist-zur.html

Tradução: Renato Murta de Vasconcelos

https://www.abim.inf.br/caminho-sinodal-decidido-a-fazer-uma-revolucao-na-igreja/

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segunda-feira, 18 de maio de 2020

GRANDE EMBATE EM CIDADE GAÚCHA - Paulo Henrique Américo de Araújo

·        17 de maio de 2020

Túmulo do Servo de Deus Pe. João Batista Reus [Fotos Paulo Américo]

·         Paulo Henrique Américo de Araújo


Em janeiro, integrando a caravana de voluntários do Instituto Plinio Corrêa de Oliveira, tive a oportunidade de visitar a cidade de São Leopoldo (RS), onde se encontra o Santuário do Sagrado Coração de Jesus. Ali o conhecido Pe. João Batista Reus (pronuncia-se Róis), jesuíta nascido na Alemanha e grande místico, exerceu boa parte de seu frutuoso apostolado. Falecido em 1947, seu corpo jaz numa capela ao lado da igreja, e atrai durante todo o ano multidões de fiéis.
Não é minha intenção descrever neste artigo a vida do Pe. Reus,1 mas sim focalizar alguns aspectos da atmosfera do santuário2 e dos peregrinos que para lá acorrem.
Há duas realidades contrastantes no santuário: de um lado, a piedade verdadeira — na aparência débil — do povinho que se ajoelha junto ao túmulo do Servo de Deus; e de outro lado as manifestações do progressismo, como um monstro disforme e esmagador, que impregnam todo o ambiente. A impressão é a de um embate entre dois inimigos irreconciliáveis, dotados de forças extremamente desproporcionais. Uma luta entre Davi e Golias, dir-se-ia. Tudo indica que o gigante vencerá, porém a História nos afirma o contrário.
Após concluir minhas orações, detive-me para observar as pessoas que se aproximavam do túmulo do Pe. Reus. A “capela” – mais propriamente um galpão – não possui qualquer ornato, nem beleza. Bem poderia servir de garagem para automóveis. Nas paredes, alguns vitrôs simplórios deixam penetrar a luz direta do sol. Apenas um quadro estilizado da face do Pe. Reus quebra um pouco a monotonia que ali domina.
Invariavelmente os visitantes se apresentavam com expressões de veneração e respeito, cabeças baixas, lábios em movimento indicador de orações silenciosas. Alguns se ajoelhavam a poucos metros de distância, e nesta posição prosseguiam até chegar diante do túmulo. Homens e mulheres, jovens e velhos num fluxo contínuo, mas sem exasperação nem pressa. Em volta do túmulo, o frenesi de um domingo de verão desaparecia, como que por um passe de mágica; ou melhor, pela ação de uma graça impalpável, mas real.
Um dos nossos caravanistas notou naquele povinho uma atitude pitoresca, talvez fruto de um costume tornado natural. Alguns visitantes traziam flores e as tocavam na cruz que contém a figura incrustada do venerável sacerdote, e as depositavam sobre o túmulo. Outros peregrinos colhiam e levavam consigo algumas dessas mesmas flores, que pouco antes haviam sido ali depositadas. Expressivo símbolo da comunhão dos santos, confirmando que os oferecimentos ou méritos de alguns fiéis concorrem para o benefício de outros fiéis.
Ressalto com tristeza que tal devoção popular, carregada de muitos sinais de sinceridade, vinha acompanhada da degradação e imodéstia dos trajes. Não encontrei qualquer exceção a essa verdadeira ditadura das roupas imorais, tanto nos homens quanto nas mulheres. Entre eles um casal, aparentando idades entre 25 e 30 anos, veio para rezar, mas sua imoralidade no trajar mostrava-se ainda mais agressiva. Pareciam ter acabado de sair de uma academia de ginástica, como seus trajes o denunciavam. Com tatuagens aparentes, ambos se ajoelharam e rezaram ao Servo de Deus!
Como se conciliam, na mente dessas pessoas, a piedade e os trajes próprios à imoralidade? Falta de instrução? Maldade ostensiva? Não sei dizer. Mas sou tendente a concluir que, embora o processo de destruição dos costumes cristãos tenha alcançado no Ocidente todas as vitórias em matéria de imoralidade, paradoxalmente não conseguiu apagar no comum das pessoas o sentimento religioso.
Saindo pelos fundos do “galpão-capela”, encontrei-me em um jardim com grandes cruzes brancas. Trata-se, na verdade, de um cemitério com as sepulturas de dezenas de padres e irmãos leigos jesuítas, sinal impressionante do antigo florescimento da Companhia de Jesus na região. Mas naquele jardim não encontrei qualquer túmulo de padres mais novos, falecidos recentemente. Todas as sepulturas pertencem a jesuítas nascidos até a década de 50, todos com mais de 70 anos. Tudo indica não haver ali padres jovens.
Alguém poderá argumentar que só há sepulturas de padres velhos porque é comum os velhos morrerem! Argumento lógico, sem dúvida, mas todos os cemitérios demonstram ser ele apenas parcialmente verdadeiro. Pergunto se não seria normal, no meio dos falecidos ultimamente, encontrar ao menos um padre jovem. Por exemplo, com 40 ou 50 anos de idade. Por que não os há? A resposta é simples: praticamente não existem vocações recentes. A Companhia de Jesus e todas as Ordens religiosas vão definhando, numa inexorável crise de vocações, desde o início da era pós-conciliar. Qualquer um pode ver a prova disso naquele cemitério de cruzes brancas.
Escrivaninha, paramentos, breviário, altar e até um violino que pertenceram ao Pe. Reus

Por fim dirigi-me à igreja. Na cripta do Santíssimo Sacramento, no subsolo, um memorial do Pe. Reus exibe seus objetos pessoais: escrivaninha, paramentos, breviário, altar, e até um violino. Os visitantes tinham o olhar encantado ao vê-los. Nesse pequeno museu percebe-se, a um só tempo, a vida de piedade e a obra de apostolado do Servo de Deus. A esses objetos simples, mas com muita dignidade, se opõem outros aspectos modernizados da cripta: um gélido e monótono altar-mesa circundado pelas estações da Via-sacra, cujos Personagens disformes parecem ter sofrido ainda mais após a crucifixão. Ninguém demonstrava encantar-se com elas.
De todas as carrancas com que o progressismo se manifesta no santuário, a mais escandalosa e grotesca é sem dúvida a do altar principal. Um verdadeiro monstro de metal, mistura de ficção-científica e pós-modernismo de face hedionda. Tremo e hesito ao constatar que aquela figura pretende ser uma imagem do Sagrado Coração de Jesus. Pareceu-me verdadeira blasfêmia considerá-la como tal. Como conseguirá alguém, diante daquela imagem, elevar a mente ao dulcíssimo Jesus, Filho da Virgem Santíssima? Impossível! Vi-me impelido a sair depressa dali.
Em São Leopoldo, o progressismo dito católico se imiscuiu nas expressões de piedade e devoção provenientes da vida exemplar do Pe. Reus. A catolicidade verdadeira, terna e singela sobrevive ali, mas sufocada pelas patas repugnantes da pseudo-arte moderna e do neopaganismo progressista. Uma análise apressada nos faria temer que as pequenas devoções não consigam resistir ao poderio massacrante desse monstro anti-católico. Se foi essa a conclusão de uma análise apressada, devemos ter em mente o jovem Davi combatendo contra Golias. O pequeno, tido por mais débil, pode perfeitamente derrotar o atual gigante!
O venerável jesuíta escreveu, ao partir da Alemanha: “Ó Maria, Mãe minha, fazei que chegue ao Brasil são e salvo, para lucrar muitas almas para Vós e para o Sagrado Coração de Jesus!”.3 Como o Pe. Reus veio para cá com essa santa intenção, peçamos que do Céu ele interceda agora junto a Nossa Senhora para a derrota do monstro progressista, que tanto afasta as almas de Deus.
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Notas
Fonte: Revista Catolicismo, Nº 833, Maio/2020.
1.      Uma boa biografia do jesuíta foi escrita por Ferdinand Bauman, S.J.: Um Apóstolo do Coração de Jesus, Publicações Avulsas de História, UNISINOS, S. Leopoldo, 1987.
2.      O Santuário do Sagrado Coração de Jesus, sob a influência da arte modernista, foi construído entre os anos de 1958 e 1968, após a morte do Pe. Reus.
3.      Op. cit. pág. 81.

http://www.abim.inf.br/grande-embate-em-cidade-gaucha/

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