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sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

ORLANDO GOMES: UM JURISTA CRONISTA – Cyro de Mattos

 


Orlando Gomes: um jurista cronista

Cyro de Mattos

 

         Os alunos gostavam de dizer de boca cheia, a expressão feliz no rosto, que aquela era a gloriosa Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia. O prédio ficava na Rua Direita da Piedade, em frente, no diminuto largo, o gesto em bronze do jurista Teixeira de Freitas, a observar os alunos que entravam para a aula na manhã. Os professores eram senhores de vasto saber jurídico. Uns faziam que os alunos respeitassem aquela faculdade de tradição valorosa, outros com a sua maneira de dizer o direito que a amassem. Entre eles, havia Orlando Gomes, professor de Direito Civil. Era um autor respeitável no circuito nacional, à época publicara obras de Direito Civil, que sobressaíam de sua vocação entre os talentosos juristas baianos.      

          O curso de Direito Civil durava quatro anos.  Para cada ano era estudada uma das ramificações desse direito. Não havia aluno que não quisesse estudar Direito Civil com o professor Orlando Gomes durante os quatro anos. Era uma dádiva ser aluno daquele professor elegante, dicção objetiva, poder de síntese e densidade atraentes. Fazia sem esforço que as aulas se tornassem sedutoras, durante o ano ninguém pensava em faltar a uma delas, lamentando quando isso acontecia por motivo alheio à vontade.   

          A razão do moço que veio do interior logo tomou conhecimento que o Direito é uma das maiores conquistas do ser humano. Sem essa hora não existe de fato gente humanizada, o cidadão condigno, mas o regresso na escala biológica onde prevalece o instinto animal na prática invariável dos atos com base na lei do mais forte.

          Havia chegado a hora do professor de Direito Civil se aposentar, guardar suas ferramentas de ensino na gloriosa faculdade. E assim, no veraneio imposto pela passagem da vida, viria acontecer o cronista. De crônica em crônica, publicada no “Jornal da Bahia”, nos anos 1960 e 1970, o estilo não jurídico do autor foi revelando um baiano bom cronista. O autor no final da sua atividade como cronista alcançava a marca de quem havia escrito 140 textos do gênero.

         Crônicas sobre o seu amor à Bahia, a sua história, os seus velhos mestres, o Carnaval ontem e hoje, o racismo, o futebol, a oratória decadente do bolodório, os advogados, a Justiça e o Direito, entre tantas que fluem no estilo sóbrio.  Em algumas fica claro que os homens da geração do cronista tinham dificuldades de entender o mundo, que passava ligeiro, por mais aberto que seja o espírito, mais ansiosa a vontade de compreendê-lo, como pasmo se dizia. 

          Essas crônicas foram reunidas agora no alentado volume Orlando Gomes, o cronista. Percebe-se em algumas que o tempo passageiro é flagrado na Bahia com seu direito de sambar, caminhar por novas ruas do mundo onde foi introduzido o homem audiovisual modelado pela telecomunicação, formatado em seu psiquismo, educação e relações sociais. O cronista com conhecimento de causa toca as faces nostálgicas da velha Salvador, exibe a cidade que não mais existia com a pura alegria de viver de sua boa gente. Ninguém mais queria conhecer o outro por prazer.

          Em “Papo de Folião Aposentado”, no tom consolador, conclui que o carnaval de ontem já era, o corso de automóveis com famílias aplaudindo nas calçadas não passava de evocação de cafonices. Estava convencido de que não foi mesmo o folião aposentado que mudou ao correr da vida. O babado, em seu cometa ululante e feérico, “atrás do qual centenas de foliões pulam por pular e arrastam o que encontram pela frente”, é que era outro.

          Lírico, observador, reflexivo, opinativo. Cronista que recolhe os estados emotivos da vida em sociedade, extraindo das cenas cotidianas o pretexto que resulta no texto informativo com equilíbrio e devaneio.  Cultiva a crônica com o engenho de ensaísta, que inspirado fere com humor a mudança dos costumes, expede juízo acerca de temas como o amor, a idade avançada como virtude acumulada de saber, o preconceito contra as mulheres, a euforia das domésticas, a utilidade das novelas de televisão, as drogas e a violência. Crônicas para todos os gostos como resultado de uma experiência de vida bem vivida. 

          À sombra das lembranças que acendem o pensamento emotivo, às vezes revelam   a maneira apropriada para se regressar ao passado, reconstruindo-o com pedaços felizes, momentos generosos da cidade de beleza antiga na canção da vida. Com uma conversa simples, pedem atenção para o perene das coisas, pessoas, costumes, situações, logrando trazer para as páginas do livro agora a notícia efêmera que pertence ao jornal. 

          O cronista tem uma visão tranquila de ver o mundo. Distingue-se na escritura que prefere recriar com emoção e razão situações ao invés de recorrer à mera transcrição dos fatos. Assim, ainda que tardio, fez descansar o jurista de saber e ensino notáveis.  Gosta de se apresentar com humor, diverge quando a cena se lhe mostra inconsequente, mas sempre querendo conversar com o mundo, de maneira lúcida, serena, numa condição que lhe é necessária, faz parte de seu caráter revestido das essências da vida. Isso certamente fará com que o leitor comente que em bom momento não ficou o veranista esquecido dentro do jurista.

 

*Orlando Gomes, o cronista, 140 crônicas de Orlando Gomes, prefácio por Otávio Luiz Rodrigues Jr., organizador Rodrigo Moraes, EDUFBA, editora da Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2021.

 

**Cyro de Mattos é ficcionista, poeta, ensaísta, cronista, autor de literatura infantojuvenil. Editado e premiado também no exterior. Autor de 55 livros pessoais. Membro da Academia de Letras da Bahia, foi aluno do professor Orlando Gomes, que ocupou a cadeira 16 da instituição.

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MARIA GENEROSA – Nelson de Faria



 Maria Generosa

                                        “...aquele que dentre vós está sem pecado,

                                           Seja o primeiro que lhe atire uma pedra”.



          “É como estou contando, moço. Às brutas, não, porque ninguém sojiga minha vontade. Mais, porém, numa conversa bem conversada a gente topa tudo, sem receber tostão, sem nada, que o dinheiro inté, muitas vezes, sapeca as mãos da gente. Pra quê dinheiro, sô, quando o sujeito é bem-falante, palpitoso, que faz a gente se derreter toda? Pra quê misturar as coisas boas que a vida dá pra gente com essa porcaria de dinheiro, que a gente tem quando não precisa e só carece dele quando a gente não tem? Não gosto de mangar de ninguém, não carrego soberba comigo e nem tenho implicância com os mais. Qualquer vivente, filho de Deus, tem resplandor nas minhas ideias mesmo que seja um tiquim só. Os bichins de Nosso Senhor, os que não fazem mal a ninguém, inté eles todos, são coisas do   meu bem-querer. Borboleta e passarim, pra falar só dos dois, vosmecê já prestou atenção nas bonitezas deles? Quem é que não gosta de coisas assim? Vosmecê se ri, achando que eu sou diferente das outras? Mais, porém, não está me debochando, né mesmo? Muitas das tais que nem eu, que andam por aí especulando a vida dos outros, eu maldo, não vieram ao mundo para a vida desinfeliz que Deus deu pra elas. Estragam o ofício, sujam o nome limpo das famílias delas e querem emporcalhar as companheiras. Caíram na vida por bestagem delas ou sem-vergonheira de homem sem coração. Depois da primeira cabeçada atolam o corpo na sujeira. Não se dão ao respeito, desvalorizam a classe.

            Vou contar uma coisa pra vosmecê: foi Sêo Cantídio, cometa afiançado, rapaz de muitas letras e muitas falas bonitas – o homem mais senhor que já vi na minha vida – quem me explicou muitas dessas coisas do mundo. A gente se embelecava com o cujo, logo na primeira hora, sem dar fé do que estava acontecendo, sem acreditar que se amarrava ao danado. Sêo Cantídio protegia e alteava a criatura que andasse com ele. No fim, a gente virava escrava, só ouvindo a boniteza do palavreado dele. Pra mostrar que a vida que a gente leva não é assim tão condenável, contava casos acontecidos com princesas e rainhas de outras eras, criaturas das terras dos gringos e outras da nossa terra também.  De uma ensinança de invejar professoras, mostrava, nos livros, retratos de muitas mulheres e falava de suas sem-vergonhezas, seus feitiços, mandando e desmandando nos homens que imperavam antigamente. Quer saber de uma coisa, moço? Umas eram bonitas, de verdade, que nem cromos; outras, que nem nós mesmas... Vosmecê não quer tirar uma fumacinha, aqui, no meu cigarro? Diz que faz mal, porque sofre dos peitos, é? Me desculpe. Como estava contando: decorei o nome de muitas que estão nos livros e sei as malucagens que elas fizeram pra dominar reis e imperadores. Me diga, agora, vosmecê: essas criaturas, feias ou bonitas, são ou não são que nem a gente? Sêo Cantídio me mostrou um livro, desses de capa preta, grandão, pesado, abriu ele e leu para nós, para mim e Celestina – a Celeste, que amaridou com Sêo Zé Tertuliano, minha amiga mais chegada – uma porção de estórias, adonde a vida  e criaturas que nem eu e Celeste é inté engrandecida. A tal Rainha de Sabá,  para exemplo, fez coisas com o rei Salomão... Bem, nem é bom se recordar. Sêo Cantídio  leu os versos que o tal Rei escreveu, louvando pra danar o corpo dela, não foi assim? O rei explicava tudo tão direitinho, tão bem explicado mesmo, que a gente ficava maginando, sentindo uma gastura dos diabos remordendo dentro da gente. Inté nossos olhos ficavam marejando...

          E aquelas estórias das “noites mil”? Vosmecê diz que estou errando no nome, que é Mil e Uma Noites? Pois seja! Vosmecê já leu coisas mais doidas do que aquelas? E a tal de Salomé, que mandou cortar a cabeça do santo? E as tais Lucrécia e Messalina? Virge, que criaturas desapiedadas! E as madamas, imperadoras da França, monarcas de Roma? E aquela danadinha lá do Egito, que deu os peitos pra cobra morder? Já se viu?! Vosmecê não aceita mesmo um cigarrinho? Uma tragadinha só, toma, não vai fazer tanto mal... Que nem Sêo Cantídio, lhe juro, sem agravar os mais outros homens, nunca vi igual! Ele fez nós duas, eu e Celeste, descobrir o valor do nosso ofício e provou que nós espanamos do mundo as doideiras dos homens. Jurava que, sem a gente, o número de malucos seria mais grande do que é; e que também, no meio das famílias, as desgraças seriam mais desgraçadas do que essas desgraças que aí estão, e que a gente sabe delas por ouvir dizer...

          Acho que Sêo Cantídio tinha razão. Quando a gente duvidava do que ele dizia, ficava assim, do olhos pregados na nossa cara, naquele jeitão de quem sabe muito bem o que falava. Se ria todo e perguntava, com a cara mais lavada: “Como foi, então, que o mundo se encheu de tanta gente, se, no começo dele, era só um casal? Me responda, anda!” É... pensando bem, ele tinha razão. Por exemplo: numa cidade porqueira que nem esta nossa, se não fosse eu e Celeste – pra não falar de umas quatro mais, que fazem lá os seus benefícios particulares, às escondidas – como é, pergunto, que os homens se desapertavam, os viúvos se consolavam, os pelancos apendiam? Me diga.

          Despois que Sêo Cantídio leu para nós o que escrivinharam nos livros, carrego minha cabeça bem alevantada, bem nos altos. Não abaixo meu cangote pra ninguém montar nele. Celeste, hoje, é também que nem eu. Ela já foi moça-de-padre – sabe? – No Calhau, logo depois que ela saiu de casa. Os ignorantes boquejam que ela vira mula-sem-cabeça, quando chega a coresma. Vira nada! Tudo inzona das bobas, que nem á-bê-cê soletram direito. Ela morou comigo um par de anos. Nunca vi nada que condenasse minha amiga. Ela me disse, um dia, sem remorsos naquela cara bonita: “Que mal faz gostar a gente de padre, se eles são homens também que nem os outros?”

          Eu não rezo na mesma cartilha, nhor não. Tenho cá pra mim que isso não é direito, não por medo de virar mula-sem-cabeça, não. Mais, porém, porque, no mundo, tem bastante dos outros homens desimpedidos. A gente não carece usar os proibidos, né mesmo? Não condeno minha amiga porque ela gosta de esquisitar nosso ofício, isso não. O que é do gosto regala a vida, diz o vulgo, e eu acho que tá certo. Para acalmar minhas dúvidas, perguntei, uma vez, ao Doutor Minervino, o juiz de direito – quando a dona dele andou de resguardo -, se Celeste era criminosa porque apreciava aquilo. Ele se riu da indagação, e falou: “Não, Generosa, a lei não fala dessas coisas; e, quando a lei não escogita – penso que ele falou assim mesmo, es-co-gi-ta - palavra danada de difícil! – é porque o ato não é criminoso”. E o Doutor Minervino é homem sem, porém, de muita sabença. Mioludo que nem Sêo Cantídio. Fala por aí – as donas sem caridade no coração delas – que a gente é de vida fácil... Vida fácil, pois sim! Bestagem delas, pura bestagem.

          Digo e confirmo pra vosmecê: já andei nos braços de homem pobre, inté de criaturas desvalidas, de pé no chão e camisa rasgada, mais, porém, de corpo limpo. Vosmecê me pergunta se foi de graça? Nhor sim, de graça! Porque achei que era caridade que eu fazia. Abraços e boquinhas de sujeitos ricos, posudos, desses que acham que a gente, por ser uma das tais, é obrigada a aceitar qualquer um, desses fulanos sem coração, já repeli muitos.  Sem malquerença, sem agravar os cujos, tiro o corpo fora com desculpa de doenças, e o mais. Vosmecê, vê-se logo, não é desses, sei que não. Conheço vosmecê de vista, em desde que aqui chegou. Não desconheço que é doutor formado em medição de terras. A família de sua dona, conheço ela toda, porque é gente daqui mesmo. Me contaram que vosmecê não é moço de riquezas, que nem seu sogro. Cochicham por aí que vosmecê inté já cuspiu vermelho, por via de doença-do-peito. Que é que a gente não sabe nesta terra pequenina? Vosmecê vai me relevar a pergunta, que deixa a gente meio desacertada: me contaram que sua dona tem medo de tísica, e é por isso que vosmecê vive assim, desarvorado, é mesmo? Pois assunta, nêgo: bota sua cabeça, aqui, no meu ombro, estala as bicotas que quiser nos cabelos, no rosto, no meu cangote. Não! Na boca, não, por via do entojo que me dá´...”

  

(BAZÉ – ESTÓRIAS SERTANEJAS)

Nelson de Faria

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O escritor NELSON DE FARIA

Julgado pela crítica brasileira:

 

“Não conheço na moderna literatura regionalista brasileira nada melhor do que a prosa desse mineiro. As narrativas são de um escritor plenamente realizado na arte do conto, dramático, poético ou pitoresco, apresentando os “fatos” e os tipos com uma segurança e um sabor que fazem o encanto da leitura.”

RAUL LIMA       

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quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

MILA, SEI, FIQUEI DEVENDO - Ignácio de Loyola Brandão


Noite de março de 2010. Na posse de Maria Adelaide Amaral na Academia Paulista de Letras, vi aquela mulher deslumbrante em pé, lá atrás. Corri e abracei Mila Moreira, que me cobrou: 'Quando vai escrever minha história, me conhece tanto. Quantas vezes falamos sobre isso?'. Foi a última vez que nos vimos. Continuava a mesma mulher magra, alta, bonita, sensual: 'Acho que tenho bastante coisa do mundo da moda e da televisão. Ainda me lembro quando à tarde eu ia ao jornal, você estava escrevendo, eu ficava olhando, perguntando, achava incrível ser jornalista. Eu te dizia: ainda vou ser muita coisa. Veja só, eu tinha 15 anos'. Lembrei, anos 1960, ela era pura malícia, riso.

Acabara de ser eleita Miss Luzes da Cidade, um concurso original criado pelo jornal Última Hora por Samuel Wainer para conquistar o público da periferia. Cada clube ou associação de bairro elegia sua miss. Depois, em grande festa no Clube Pinheiros, era eleita a Miss Luzes da Cidade. Vendia jornal, ajudava os bairros a terem visibilidade e força nas reivindicações. Mila, então Marilda Moreira, era filha de um funcionário do Banco do Brasil. Morava em um modesto apartamento no centro, na Rua Brigadeiro Tobias. Ela era da equipe de patinadoras da Associação Atlética Banco do Brasil, AABB, que na época ganhava todas as competições.

No dia seguinte à eleição, fui à casa dela fazer uma matéria de capa. Encantei-me, fomos conversando, pai e mãe juntos, criamos um perfil. Ela era sagaz (sempre quis usar esta palavra). Ganhou foto de página inteira, coisa rara em jornal. Às vezes, aparecia no jornal, a redação era no Anhangabaú, a algumas quadras da casa dela. Ia de mesa em mesa, conversava, sentava-se junto a mim na máquina de escrever, palpiteira. Sonhei em casar com ela, um dos milhões de sonhos que viajaram pela minha cabeça.

Acabamos amigos de uma vida. Em 1963, descoberta por Livio Rangan, entrou para o belíssimo grupo de moda da Rhodia, que viajou o mundo. Encontramo-nos em Roma, fomos a Spoletto, Pisa, Veneza, Beirute, ela brilhava ao lado de Lucia Curia, Paula Peixoto, Malu, Lilian. No grupo, Sergio Mendes e seu conjunto com o gênio Raul de Souza. Ela foi tudo na moda, fez novelas, enfrentou preconceitos ('como? Uma modelo?'), amou muitos homens, viveu a vida que queria viver, foi o que desejou ser. De repente, o coração dela parou. Assim como não liguei, não visitei, não encontrei, não jantei com amigos chegados, acrescento uma dívida em minha vida: a biografia prometida à Mila, mito que Vi nascer e crescer. 

Ela amou muitos homens, viveu a vida que queria viver, foi o que desejou ser. E o coração parou.

O Estado de S. Paulo, 12/12/2021

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https://www.academia.org.br/artigos/mila-sei-fiquei-devendo

 

Ignácio de Loyola Brandão - Décimo ocupante da Cadeira 11 da ABL, eleito em 14 de março de 2019 na sucessão do Acadêmico Helio Jaguaribe.

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segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

ONTEM, HÁ TANTO TEMPO – Plinio Corrêa de Oliveira



Plinio Corrêa de Oliveira

Todos estarão com as vistas voltadas para as festas de fim de ano. E assim virão os clássicos e inevitáveis retrospectos para o balanço de quanto ficou para trás.

Poder-se-á dizer que, para o mundo, este ano [1980] constituiu propriamente uma caminhada? Parece-me — pelo ocorrido até aqui — que foi antes uma imensa resvalada, ao longo da qual, de trambolhão em trambolhão, tudo inesperadamente pareceu cair várias vezes, de cada vez tudo (ou quase…) se reergueu também inesperadamente, de tal maneira que, por fim, nada está irreparavelmente quebrado, mas tudo traumatizado.

Falo do Brasil. Falo do Mundo. Falo, por exemplo, de ti, meu leitor. De ti, sim. Pois o fenômeno que tento descrever em escala mundial parece-me repetir-se em escala individual.

Quando vejo pessoas pela rua, quando observo nos jornais fotografias, de grupos como de multidões, tenho a impressão de que incontáveis são hoje os entes humanos sujeitos, em sua vida diária, a esta estranha cadência do acontecer. Talvez isso explique um não menos estranho comportamento de nossa memória em função do passado.

Dir-se-ia que, quando o presente é lento, o passado parece sobreviver agradavelmente em cada instante novo que vem chegando.

Quão diferente é nas fases em que o tempo corre, sacudido por trambolhões. Cada susto atrai tão inteiramente a atenção para o presente, com tal veemência transporta o espírito nas asas negras da apreensão, rumo a um futuro hostil, que o passado desaparece da memória. E, quando volta, está tão desbotado, tão lacerado, que por vezes toma o aspecto de um maço informe de farrapos.

Em virtude dessa debilitação da memória, o que se passou de manhã pode parecer-nos já à noite tão longínquo, tão remoto… O presente e o futuro de tal maneira absorvem a atenção que o dia de ontem, meio sumido da memória, parece relegado há um ano.

O que assim se observa na escala de um dia pode-se dizer de um mês ou até de um ano. Quando este ano der sua última badalada, e em sua derrapada final abismar no passado, várias das emoções que viveste intensamente, leitor, te parecerão já tão distantes, tão distantes!…

A ti, à tua pessoa. A ti, sim, que não posso ver senão como uma das milhões de gotas constitutivas desse maremagno que é a opinião pública. Quantas vezes esta última foi solicitada pelos meios de comunicação social, para vibrar intensamente em função de algum tema do momento! Quanta atualidade tiveram esses temas! E, entretanto, quão longínqua é a ressonância deles neste findar do ano!

Por assim dizer, passou-se tudo isto ontem. Há tanto tempo!

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Excertos do artigo “Ontem, há tanto tempo” de Plinio Corrêa de Oliveira, publicado na “Folha de S. Paulo” em 25-10-1980.

 

https://www.abim.inf.br/ontem-ha-tanto-tempo/

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domingo, 12 de dezembro de 2021

JOÃO EURICO MATTA OITENTÃO – Cyro de Mattos

 


João Eurico Matta Oitentão

Cyro de Mattos


            Conheci João Eurico Matta na Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia, nos idos de 1957. O ingresso como calouro naquela Faculdade não me dava condição para me aproximar daquele acadêmico veterano com feição de professor. Era admirado pelos alunos antigos e novos por suas maneiras elegantes, seu saber de bases humanistas. Fazia o quarto ano do curso. A distância entre o acadêmico calouro e o veterano me propiciava apenas que admirasse o mito cuja inteligência e cultura passavam firmeza nas ideias aos outros colegas de sua geração.

            Fazia circular uma energia de seu espírito comprometido com a cultura, apreendida através de procedimentos investigativos e interpretativos dos livros na leitura da vida. Na Faculdade de Direito foi diretor da revista Ângulos, do Centro Acadêmico Ruy Barbosa, com eficiente atuação. A revista fora fundada por Adalmir da Cunha Miranda, em 1950. Veículo de teor jurídico-cultural se tornara em pouco tempo muito comentada por sua importância nos meios intelectuais de Salvador. 

           Contemplou em suas páginas textos dos professores Antônio Luís Machado Neto, Marcelo Duarte, Edivaldo Boaventura, do poeta Florisvaldo Mattos, do cineasta Glauber Rocha, dos acadêmicos de Direito Joaci Góes, Davi Sales, Nemésio Sales, Noênio Spinola, João Ubaldo Ribeiro e de outros alunos com destaque nos meios intelectuais daquela gloriosa Faculdade de Direito. Graduado em Direito, com sólida formação cultural, a legítima vocação para o ensino universitário se aprofundaria adiante nas estradas do educador, através de conhecimentos adquiridos de filosofia, sociologia, literatura e outros ramos das ciências humanas para que hoje, do alto de seus oitenta anos, as veredas da vida se tornassem amplas.  A estrada larga, nas conquistas de uma paisagem feita de saber para saber, saber para ser, saber para poder ser. Uma paisagem fecunda em sua práxis e repercussão nos meios universitários e intelectuais da Bahia. Chega-se aos cumes quando o seu viajante é reconhecido como professor emérito de Administração da Universidade Federal da Bahia.

           O currículo é invejável, intocável, na área do ensino universitário. Não cabe aqui, com o espaço pequeno da crônica, relatar os pontos elevados do percurso, levaria tempo. Cabe dizer, sim, que aqui estou como o jovem recém-ingresso na Faculdade de Direito, que logo passou a admirá-lo, naqueles idos universitários de saudosa memória, à qual o tempo se encarregou de esfumar, como faz em tudo no mistério da vida. O tempo, senhor soberano que une e dispersa, tudo dá e tudo toma. Tornei-me, com a passagem dos anos, ainda mais admirador desse intelectual oitentão, de acumuladas juventudes.

            Associo-me a esse momento de afetividade, felicitações que são dadas por todos os admiradores ao nosso estimado João Eurico. De minha parte agradeço tudo que ele vem operando de saudável pelo ensino universitário e pela cultura de nossa querida Bahia. Autêntico agente formador de gerações e liderança de qualidade.

(Em 16/07/2015, no Restaurante do Yacht Clube, Salvador.)

 

*Cyro de Mattos é poeta, ficcionista, ensaísta, cronista e autor de literatura infantojuvenil. Já publicou 55 livros pessoais. Publicado e premiado no exterior.

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AMOR MATERNO – Eduardo Chaves



Amor Materno

Eduardo Chaves

 

Ele passava as noites na taverna,

Tonto de vinho, tonto de fumaça,

E pelo leito da mulher devassa

Trocara a santa habitação materna.

 

Desde que moço se fizera, eterna

Angústia aquela que o gerou traspassa.

Enfurecia quando às vezes terna

Apontava-lhe a mãe sua desgraça.

 

Morre... O povo da aldeia reunido

Discute a sua vida. “Era um perdido”

Quando este exclama; aquele “um maltrapilho,

 

Um jogador, repete” ... A mãe, no entanto,

Ante o esquife soluça toda em pranto:

“Filho! Meu filho! Meu querido filho!”

 

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Eduardo da Silva Chaves, apreciado poeta paulista, nascido em Bananal em 09/11/1863 e falecido na capital paulistana em 16/01/1899. Editou grande parte de suas poesias em jornais e revistas.

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PALAVRA DA SALVAÇÃO (249)



3º Domingo do Advento, 12/12/2021


Anúncio do Evangelho (Lc 3,10-18)

 — O Senhor esteja convosco.

— Ele está no meio de nós!

— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Lucas.

— Glória a vós, Senhor!

Naquele tempo, as multidões perguntavam a João: “Que devemos fazer?” João respondia: “Quem tiver duas túnicas, dê uma a quem não tem; e quem tiver comida, faça o mesmo!” Foram também para o batismo cobradores de impostos, e perguntaram a João: “Mestre, que devemos fazer?”

João respondeu: “Não cobreis mais do que foi estabelecido”. Havia também soldados que perguntavam: “E nós, que devemos fazer?”

João respondia: “Não tomeis à força dinheiro de ninguém, nem façais falsas acusações; ficai satisfeitos com o vosso salário!”

O povo estava na expectativa e todos perguntavam no seu íntimo se João não seria o Messias. Por isso, João declarou a todos: “Eu vos batizo com água, mas virá aquele que é mais forte do que eu. Eu não sou digno de desamarrar a correia de suas sandálias. Ele vos batizará no Espírito Santo e no fogo. Ele virá com a pá na mão: vai limpar sua eira e recolher o trigo no celeiro; mas a palha ele a queimará no fogo que não se apaga”.

E ainda de muitos outros modos, João anunciava ao povo a Boa Nova.

— Palavra da Salvação.

— Glória a vós, Senhor.

http://liturgia.cancaonova.com/pb/

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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do padre Roger Araújo:


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Advento: despertar "entranhas solidárias"

 


“Quem tiver duas túnicas, dê uma a quem não tem; e quem tiver comida, faça o mesmo” (Lc 3,11)

 

Advento e Natal nos situam no clima das grandes esperanças da humanidade; neste dezembro mágico nosso coração caminha mais rápido, rompe o tempo, já está lá na frente, pronto para acolher a surpresa.

Tudo aponta para o Eterno que nos escapa e nos encontra. Aqui a imaginação trabalha e cria momentos felizes. Com essa esperança, podemos dar sabor à nossa vida, muitas vezes modesta e simples.

esperança não é só uma virtude teologal, mas uma habilidade que temos de exercitar; podemos aprender a ter esperança, e esta destreza nos faz mais humanos e mais fortes diante das adversidades da vida.

Quem vive o clima do Advento não é prisioneiro da “cotidianidade”; toda a nossa vida se transforma na história de uma espera e de um encontro surpreendente. Nessa espera vislumbramos detalhes decisivos: a vivência da ternura, a reinvenção da vida em cada amanhecer, a gratuidade amorosa, a alegria descontrolada, o despertar de sonhos... Espera-se Jesus vivendo os valores que Ele encarnou: a sintonia com os pobres, o coração dilatado no serviço, o cuidado terapêutico, a ajuda gratuita...

Nessa atitude de espera o cristão pode dar sabor à sua vida: nos pequenos gestos ela floresce e aponta para um sentido novo

“O povo estava na expectativa...”: uma bonita maneira de indicar uma atitude positiva de espera diante de João Batista que, sob o impulso da Palavra brotada no deserto, tocou o coração de muitos.

De fato, João Batista é um personagem instigante e provocativo; muitas pessoas, impactadas pelo seu modo de falar, vão até ele para escutá-lo. João não fala do cumprimento minucioso das normas legais ou dos ritos religiosos. Em nenhum caso faz alusão a uma nova religião, que exigisse um culto diferente, e sim a uma nova forma de viver que dá sentido à própria existência e desperta um modo de proceder para que a relação com os demais seja realmente fraterna, carregada de respeito, de cuidado, de partilha.

O chamado de João à conversão e seu apelo a uma vida mais fiel a Deus despertou em muitas pessoas uma pergunta concreta: “Que devemos fazer?”.  Com algumas pinceladas João reforça a necessidade de mudar a maneira de pensar e de agir; isto é, ativar o que já está presente em nosso coração: o desejo de uma vida mais justa, digna e fraterna.

Todas as propostas que João Batista faz estão direcionadas a melhorar a convivência humana. Percebe-se uma maior preocupação por tornar mais humanas as mútuas relações, superando toda atitude egocentrada.

De fato, uma religiosidade que não se alarga em direção aos outros não é a religiosidade que Deus deseja. Aqui não se trata propriamente de fazer coisas nem de assumir deveres, mas ser de outra maneira, viver de forma mais humana; em outras palavras, a partir do centro de cada um, despertar aquilo que é o mais verdadeiramente humano, para que flua humanidade em todas as direções. Que todo o nosso ser se mova na perspectiva do amor oblativo, que se expressa em “entranhas solidárias”.

João Batista é mais um personagem de Advento; tudo estava tranquilo até que ele apareceu no deserto. Sua pregação sacudiu as consciências, fazendo reacender o espírito solidário que estava atrofiado no coração de todos: a multidão, os publicanos, os soldados... Segundo a definição do Papa Francisco “a solidariedade deve ser vivida como a decisão de devolver ao pobre o que lhe corresponde” (EG 189). A solidariedade é uma decisão, carregada de afeto. A razão, por si mesma não nos leva a ela. É uma decisão pessoal, cordial, livre, voluntária...

A solidariedade é espontânea, não se impõe a partir de cima, senão que supõe uma predisposição favorável ao encontro com o outro, deixando-nos afetar cordialmente pela realidade de quem sofre. A solidariedade nasce da gratuidade e nos faz mover em direção dos outros, sobretudo dos excluídos, daqueles privados de sua dignidade humana.

O encontro com o “outro” marginalizado dá um “toque” especial à nossa espiritualidade e nossa espiritualidade faz nossa ação mais radical – mais enraizada em si mesma e vai mais fundo nas raízes da injustiça. Aproximar-nos do “pobre” e deixar-nos “afetar” pelo seu sofrimento torna-se a maior fonte de nossa espiritualidade. Suas “fraquezas” suscitam em nós o melhor de nós mesmos e, ao nos envolver afetivamente em sua vida, faz com que vivamos um misto de ternura e indignação a que chamamos compaixão.

A solidariedade nos leva a reconhecer no outro (sobretudo o outro que é excluído, marginalizado...) uma dignidade e uma capacidade criativa de superar sua situação; ela gera protagonismo e nunca dependência; compartilha sem humilhar; cria humanidade em seu entorno, com generosidade, humildade e silêncio; supera todo exibicionismo, sentimentalismo ou instrumentalização do outro.

Sabemos que há uma profunda afinidade entre “sólido” e “solidário”; ambas as palavras, etimológicamente, procedem da expressão latina “solidus”. Diz-se “sólido” em virtude de sua firmeza, densidade, fortaleza ou por ser aquilo que se estabelece com razões fundamentais e verdadeiras; a pessoa “solidária” é aquela que encarna tais virtudes. Há um “plus” maior quando essa pessoa vive a fé cristã. Porque, uma fé ausente de solidariedade carece de coerência e sentido; não é firme e não tem a suficiente densidade para suportar as incompreensões daqueles que não estão em sintonia com suas atitudes solidárias.

Portanto, solidariedade é uma “questão de entranhas”, ou seja, encontrar, experiencial e vitalmente, os “outros” excluídos e despojados de tudo, e sentir-se tocado, afetado pela imensa dor que marca a vida de tantos. A partir daqui o rosto da pessoa solidária é modelado pela compaixão e gratuidade.

A “solidariedade compassiva”, que brota do “patire cum” ou compadecer-nos diante da dor e da miséria do outro, devolve a todos nós a imagem de seres humanos. A solidariedade nos humaniza.

Trata-se aqui de viver a cultura da solidariedade, entendida evangelicamente, que forja nosso ser e nosso fazer no manancial que brota da compaixão e se desenvolve realizando a justiça.

A solidariedade que nasce da compaixão não acaba nela mesma, mas leva a reconhecer no outro uma dignidade e uma capacidade criativa de superar sua situação. 

Isto pede de nós uma atitude de abertura ao outro, o que implica colocar-nos em seu lugar, deixar-nos questionar e desinstalar por ele... Importa, pois, redescobrir com urgência a solidariedade como valor ético e como atitude permanente de vida...; não uma solidariedade ocasional, mas uma solidariedade cotidiana que se encarna nos pequenos gestos de serviço no dia-a-dia.

Só assim o tempo Advento deixará transparecer seu sentido mais profundo. Deus, ao entrar na história, se faz solidário com a humanidade, salvando-a. O rosto solidário de Deus se visibilizará em cada um de nós quando entramos no fluxo do Seu amor descendente e comprometido. 

Texto bíblico: Lc. 3,10-18

Na oração: A originalidade do Advento está em “alargar” o espaço interior para que os outros encontrem lugar. A atitude da partilha, da solidariedade e do compromisso com os últimos são expressões deste Tempo tão nobre e inspirador.

* Na sua vivência cristã, como responder frente ao chamado tão simples e tão humano de João Batista?


Pe. Adroaldo Palaoro sj

https://centroloyola.org.br/revista/outras-palavras/espiritualidade/2469-advento-despertar-entranhas-solidarias

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