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quarta-feira, 22 de junho de 2022

QUEM AVISA... - Nelson de Faria



Quem Avisa...

                                                    

                                        “Fogo de morro arriba,

                                          Água de serra abaixo,

                                          Mulher de cabelo na venta

                                          - Meu Deus do céu! –

                                          Quem é que guenta?”

                                                              VERSO POPULAR

 

            Dona Enedina, da Fazenda Brejo do Meio, era muito mais conhecida do que o marido, Godofredo Pereira (em documentos legais) ou Godô Titica – às escondidas e para o resto da vida. Sujeito pinoia, esse Godô, um pinguim de homem, “raspa de tacho” dos Pereiras, do Brejo de Cima, que foi gente boa, mais porém afuleimada. Ninguém atinava com o porquê de o caçula dos Pereiras ser como era: piruá no meio de pipocas. Para completar, o fulustreco era perdigoteiro inveterado. Por via de algo estranho, inexplicável, o trem à-toa chegou ao mundo sem ser esperado, dois meses antes da data prevista. Quando ainda menino de escola, ganhou  o acréscimo Titica ao Godô, seu apelido certo. Com o correr dos anos, mas sem nunca lhe haver chegado aos ouvidos a coisa infamante, simplificaram o apelido, e ele passou a ser Titica, tão-somente. Já crescido – bom, crescido é força de expressão, porque, mesmo pelanco, era do tamanho de menino de doze anos -, já crescido, e por influência de rapazinhos sabidos, brincou com mulher pela primeira vez e se estrepou. Além de umas coisas que lhe estragaram as vergonhas, que o transformaram em alambique durante meses, destilando humores, ganhou ele uma moléstia de pele que, agora, ao chegar a velhice, se transformara numa cafubira danada. Braços e pernas lixentos, quando o comichão o atacava de repente, ficavam em petição de miséria. Suas unhas sujas levantavam pequenas nuvens de pó branco e fino, parecendo fubá de arroz. E o sujeitinho não paliava, coçava-se à vista de qualquer pessoa. Nem Siá Dina conseguia botar um paradeiro naquilo. Acabou largando de mão a coceira dele, empunhando com segurança as rédeas do governo da casa, da fazenda, de tudo. Mandava e desmandava dentro e fora dos seus limites territoriais. Daí, ser mais conhecida e respeitada do que Godô Titica. A inclinação que ela tinha de ser mulher macha vinha de longe, em desde ela mocinha, de cara sardenta e narizinho arrebitado. Não era fruto da moléstia que se conservara escondida tantos anos na carcaça do Godô e, sim, necessidade de colocar em ordem os negócios periclitantes do marido. Metera-se ele em tantos e tão mal sucedido fora, que Siá Dina, um dia, após discussão na qual ela não gastara mais do que uma gota de cuspe, e sem caridade pela cara de inocente fracassado que estava diante dela, falara alto:

            - Agora, atino que você se derrotou. Tomo conta da trenheira toda. Enfio umas calças de homem – de homem mesmo! – não essas que estão aí nessas suas pernas de menino, e acerto as coisas. A obrigação mais pesada é a que temos na gaveta do compadre Tinoco, né mesmo? Mais porém, tem prazo dilatado pra mais um ano, não foi o que ele disse? Pois então? A gente não se afoga num dedal de água. A gente vende o touro gademar – ele é menso, eu sei, mais porém vale bom dinheiro – umas dez vacas do fundo, acerta os juros, diminui a dívida. Se restar o casco da fazendinha só, a gente começa de novo...

          Dito e feito, Madrugadinha, Siá Dina estava de pé. O animal arreado, escarranchava-se sobre a sela, que nem homem, e saía numa toada só, correndo as mangas, dando ordens aos empregados, impondo sua vontade. Não escolhia montaria. Qualquer uma, ao gosto, mesmo que fosse passarinheira ou fuá. Montava-a com desembaraço, esporeava-a a preceito. Horas depois, o cavalo estava ofeguento, trocando as pernas, tropicando, lavado de suor. Siá Dina suxava qualquer cavalo. Era criatura que não gostava de lelês; mais porém, fumaçava à-toa. Dos fumegas, tolerava Godô, porque não tinha mais jeito. Quando moça, diziam, era uma pintura. Ainda hoje, apesar dos quarenta, era palpitosa, botava água na boca de muita donzela enfeitada. Enquanto a mulher se esfalfava, tentando por ordem nos negócios, que iam de mal a pior, Godô continuava a se coçar, ao embalo da rede, na varandinha da casa. Fazia, agora, o que sempre fizera: alisava a palha, picava o fumo, palmeava-o, enrolava o cigarro e acendia um na bagana do outro, amarelecendo de sarro a bigodeira caída sobre os beiços murchos. Estava ele assim, o pito preso entre os cacos de dentes, o olhar longe, perdido no céu azul sem nuvens, sonhando de olhos abertos, quando percebeu que alguém estava parado ao pé da escadinha da varanda. Fixou o vulto e nele reconheceu o Durvalino, camarada de confiança de Sêo Tinoco, do Brejo de Baixo. Atrevido, o chapéu de abas largas quebradas na frente da testa, um piraí trançado sobrando do cano da bota, aproximou-se, bateu palmas, gritando, como se Godô Titica não existisse:

           - Ô de casa!

           - Se achegue e se abanque, Sêo Du. Vosmecê é de paz, e a casa é dos amigos.

            A voz de Godô era um fiapinho, contrastando com o tom abaritonado da do outro, um galalau de homem, desempambado, cumpridor de ordens do patrão.

            - Não me abanco, porque vou adiante, mais légua e meia, em diligência. Trago um recado do Major Tinoco, que manda dizer pra vosmecê que pensou e repensou no caso e não pode mais esperar. Apareceram outros negócios...

            - Mais, Sêo Du, o compadre Tinoco não pode querer desgraçar a gente de uma vez. Ele me deu a palavra dele.

            A voz era de quem estava alarmado, trêmulo, acovardado. Durvalino gozava o constrangimento que lia na cara murcha de Godô, e sorria, fingindo comiseração. De uma das janelas, a voz forte de Siá Dina interrompeu aquele sorriso de deboche:

            - O recado já foi dado. Vosmecê não carece aumentar mais nada. A gente não manda o troco, agora, porque nossa conversa com ele é particular. Vancê pode voltar, recobrindo o rasto pra trás, que o mais eu ajeito.

            Apanhado de surpresa, Durvalino fez meia volta, tirou o chapéu, humilde, os olhos no chão

            - Me desculpe, Siá Dina. Não salvei vosmecê porque não vi sua aproximação. Falava pra Sêo Godô num recado mandado...

            E ela, enérgica, interrompendo-o:

            - Falei que o recado está dado. Vancê pode voltar, já disse.

            Fechou a cara, levantou a cabeça, pondo um ponto final na conversa. Durvalino saiu, montou o piquira, ganhou a estrada.

            - Vou na casa dele, Godô, agora mesmo, ajeitar as coisas. Antão será direito a gente perder as terras pra compadre Tinoco, sujeito sem alma, me arresponda, Godô, me arresponda? Sinto inté uma coisa me subindo do umbigo pra riba, por via da impostura dele.

            Enquanto isso Durvalino cismava: “Êta mulher macha, de cabelinho nas ventas! Gosto de ver uma diaba assim, despachada, que tem pimenta na língua e fogagem no rabo. O que deixa a gente dessossegado é ver uma prenda dessas dada a um caguincha daqueles, sujeitinho sem talento para aguentar o rojão. Vai ver... o porqueira não conhece nem a metade daquele mundo...”

            Sêo Tinoco ruminava o almoço, espichado na rede. Cochilava, de consciência tranquila, certo de que teria suas terras aumentadas de mais uns cinquenta alqueires, tomados às do Brejo do Meio, liquidando Tiririca e sua gente. Cochilava e sorria. A rede ia e vinha, preguiçosa, acolhedora. Havia silêncio na varanda ensombrada e fresca. Sêo Tinoco ruminava... a porteira do pátio bateu com violência, os cachorros latiram, um bem-te-vi assustou-se, largou a lagartinha-compasso que saboreava, voou para longe. Sêo Tinoco abriu os olhos sonolentos e divisou a mulher sofreando o cavalo. Mal refeito do sono interrompido, reconheceu a comadre.

            - Ora viva, que surpresa!

            Avançou, ainda incerto das pernas, para segurar o estribo – como se usa receber uma visita cavaleira -, o sorriso aberto na cara assustada:

            - Desamonte, comadre, a casa é vossa, o oferecimento sai do coração.

            Ofegosa, sem mesmo desejar-lhe um “bom dia”, Siá Dina foi falando:

            - Me releva a falta, mas porém não desapeio, nhor não, porque, hoje, não vim visitar a comadre Donana.

            Tomou fôlego, aquietou o cavalo, indócil por via de umas mutucas, batendo com a mão espalmada no pescoço dele, continuou, meio engasgada:

            - Vosmecê sabe, compadre, que eu não sou mulher de leréias e pendengas. As coisas comigo são no risco da lei, da palavra dada. Parece que vosmecê é homem de verdade, falou que a gente ficasse descansada durante um ano, não foi? Agora, sem quê nem pra quê, vosmecê mandou aquele recado arrevesado...

            Sêo Tinoco interrompeu-a:

            - Ora, comadre! Vosmecê não precisa sangrar na veia-da-saúde. O Du é sujeito especula. Se andou falando coisas que não devia, é da conta e do risco dele. Não mandei aviso pra dessossegar ninguém. – E, abaixando a cabeça, desconversando: - E o compadre, como vai de saúde, está melhor dos incômodos? Já combinei com a Donana uma visitinha, qualquer dia...

            - Pois, compadre, não foi entendimento enganoso, nhor não. Vim aqui pra desenturvar as coisas e digo pra vosmecê, sem botar um só porém na minha fala... – Parou, as mãos trementes tentando segurar as rédeas, o olhar firme na cara lívida de Sêo Tinoco: - Se vosmecê procurar a justiça antes do prazo que deu pra nós, ninguém de sua gente botará os pés nas terras do Brejo do Meio... A gente espandonga vosmecê e os mais...

            Deu de rédeas, esporeou o cavalo, ganhou a estrada, soverteu-se na poeirada.

 

(BAZÉ – ESTÓRIAS SERTANEJAS)

Nelson de Faria

          

segunda-feira, 21 de março de 2022

MUNDICA PINDONGA – Nelson de Faria



Mundica Pindonga
Nelson de Faria

           A notícia nasceu mofina, desinteressante, naquela casa de porta e janela da Rua dos Sete Pecados. Engatinhou pela rua abaixo e foi crescendo. Disparada, passou ventando pelo Largo da Igreja. Engrossou mais ainda na Rua de Cima e atingiu, já gordota, a Ladeira do Cansa-Cavalos. Aí, na casa do Tonico Salatiel, parou um tiquim – a mó que descansando do esforço da subida. Voltou, desembestada, já arrebentando botões de braguilhas, alargando bocas em gargalhadas descontroladas. Os mais discretos paravam para ouvir os comentários ferinos e seguiam caminho,  de nariz franzido e, à flor dos lábios, um sorriso de incredulidade. Os que não tinham papas na língua comentavam o fato, sem caridade pela desgraça alheia. Outros, numa papeada danada, ouviam com atenção, levantavam os olhos para o céu:

          - Coitado do Joaquim-Mutamba! Homim bom, tá ali, sem fel, sem peçonha, sem nada...

          Na venda do Chico Quirino, um da roda falava alto:

          - Pois, não é que o Quincas-Mutamba se estrepou! Mundica desmoralizou o cujo de uma vez. Também, pra quê se engraçar com uma quenga daquelas?

          Confidenciavam-se, esgravatando-se o caso. Dizia Zé Orestes na botica de Sêo Arrudas, enquanto este suspendia a manipulação de um elixir depurativo:

          - A Mundica desceu as calças do lenheiro, prendeu a cabaça do cujo entre as pernas – nossa, que posição desgraçada, sô – e aplicou, nos traseiros dele, umas boas chineladas. Foi assim que me contaram, nhor sim... e eu estou vendendo o peixe pelo mesmo preço da compra...

          Filogônio Arrudas, o boticário, gostava de eufemismos, empregava palavras de pronúncia difícil, expressões em desuso. Fazia-se de letrado, de prestígio avantajado, abusando desse artifício. Falou, sorrindo:

          - Então, Zé Orestes, o glúteo do Quincas ficou como se fora cara de menino rico, sanguínea e edemática, não é assim?

          Zé Orestes confirmou, com um sorriso canalha na boca desdentada, embora não soubesse o significada daquelas palavras estranhas aos seus ouvidos. Estimulado pela curiosidade que lia na cara do boticário, Zé Orestas descreveu a cena com tanta riqueza de detalhes que Filogônio Arrudas e, logo depois, toda a cidade não tinham mais dúvidas:  Quincas-Mutamba apanhara – e de chinela! – de Raimunda Pindonga, dita Mundica Tomba-Homem, cuia das mais muito faladas do sertão de Cateriangongo. Não era aquela a primeira de suas façanhas comentadas. Diziam que ela já havia tirado a pevide de muito sujeito de pabulagem. Avalentoava-se à toa, a danada. Não deixava a mandioca pubar. Suas amigas mais chegadas falavam que a cuja era inté criatura prestativa, mão-aberta, dadeira sem limites. Mais porém, quando gostava de um homem – coisa não muito frequente – gostava mesmo muito, muito, desse gostar que deixa a gente de siso raleiro, não admitindo conselhos e insinuações. Sentia ciúmes e começava a beber. O pior de tudo era que um dedal de restilo esquentava o sengue dela, e era aquela lazeira. Trepava nos tamancos. Se o cabra não fosse esperto, virava molambo entre as pernas dela. Remanisca, forçuda pra danar, dava logo dois tombos no cujo, prendia-lhe os braços entre as coxas musculosas e se ria, depois, toda ancha, gozando a derrota do espevitado. Se o preferido, porém, era forte, cabra sem belida, de ideias alimpadas, a mulata, primeiro, afrouxava as carnes dele com carinhos de sustança; amolentava-lhe as forças com mixilanga somente dela conhecida e, quando percebia que o sujeito não aguentava mais uma gata pelo rabo, investia. Aplicava-lhe cabeçadas na barriga, jogava-o no chão, arranhava-lhe as bochechas. Despois... bom, despois, sentia remorsos da doidera praticada, passava meizinhas nas feridas do infeliz, chorava, chorava, implorando-lhe perdão. Despachava aquele, curtia jejum de homem dois ou três meses. Por via dessas coisas malucas, foi que o apelido “Tomba-Homem”, que nela se ajustava que nem visgo, pelo sertão se espalhou como azeite que se derrama em riba da água.

          Ora, muito que bem. Quincas-Mutamba era sujeito estimável. Magro, pacato, pequeno de corpo, viúvo sem filhos, ganhava a vida fornecendo lenha às cozinhas da Rua dos Sete Pecados. Madrugadinha, no coice de dois jegues, ia longe, légua e meia ou mais, voltando à tarde. Entregava um feixe aqui, umas achas acolá. Recebia magros tostões, passava na venda do Nicácio, fazia suprimento de boca, engrossava uns dois martelos de pinga, saía meio troviscado. Desencilhava os jegues, examinava-lhes as cernelhas maceradas. Entendia-se melhor com eles do que com o resto dos mortais. Naquela vidinha de pobre, vivendo no seu canto, sem malquerença com os mais, não fedia nem cheirava. Daí a surpresa que causou a todos aquela notícia estuporada. Nem a cidade suspeitava de suas ligações amorosas com Mundica Pindonga. Daquele dia em diante, passou ele a viver numa consumição dos diabos. Inté os meninos da rua se riam dele. Quincas-Mutamba não teve mais sossego. Embezerrou-se. Não saía mais da venda do Nicácio, não deu mais palavra a ninguém. Quando o último tostão foi jogado sobre o balcão e o martelo de restilo lhe tremeu nas mãos incertas, Quincas-Mutamba esquisitou-se. Fechou o punho, esmurrou o balcão, berrou um nome safado.

          - É hoje, porqueira! Espandongo aquela peste!

          Voltou-se para o vendeiro, os olhos faiscando de ira:

          - Quero mais um trago, mais porém, não quero fiado, nhor não. Pra pagar ele, dou pra vosmecê o jegue ruano, bichin bom de carga pra danar.

          Surpreso, Nicácio falou, com brandura:

          - Não carece vosmecê se desfazer do bicho por via de uma talagada, nhor não. Boto na conta. Vosmecê merece mais...

          Quincas interrompeu-o, decidido:

          - Mais, porém, se eu morrer na empreitada? Gardecido, Sêo Nicácio, gardecido. Não lhe ofendo se não aceitar, ofendo?

          Nicácio retornou, conciliador:

          - Ainda que mal lhe pergunte, por que é que vosmecê está assim, meio animoso? Figuro que vosmecê não tá à revelia com alguém, ou tá?

          Quincas-Mutamba tomou fôlego, abaixou a cabeça, murmurou:

          - Quero exemplar aquela diaba!

          - Figuro que não é gente de sua estimação...

          - É de muita estimação, nhor sim. Mais porém...

          O resto da frase perdeu-se no ar, porque Quincas já estava na rua, trocando pernas.

 

          No FUNDO DO QUINTAL, ensaboando panos, Mundica cantava. Quincas-Mutamba nem salvou a pobre. Parou na frente dela – que lhe sorria um largo sorriso de boas-vindas – e foi insultando:

          - Vagabunda! Se é valentia que corre no tutano do seu braço, porqueira, prove agora, cuia sem-vergonha!

          Mundica sorria, encalistrada.

          - Que bicho foi que te mordeu, nêgo? Espiritou? Tu andou bebendo, não andou? Não sou de brigar assim, sem mais nem menos. A frio, brigo não. Se tu botar inflamação no meu sangue, te esbagaço o esqueleto todo!

          Acorreu gente, ouvindo a xirimbambada.

          Quincas não conversou. Fechou a mão, levantou o braço, desfechou o golpe. Apanhou o ouvido da mulher, e ela caiu estatelada. Animosamente, ela se levantava, quando recebeu outro trompaço, no mesmo lugar da primeira pancada. Aí, afocinhou de uma vez. Quincas pabulou:

          - Conheceu, porqueira? – Sorriu para a assistência, afrouxou o correão, puxou da faca. – Só queria exemplar a danada. Se quisesse sangrar a bicha, tava na hora. Não sou esmiolado para fazer uma coisa dessas. E o homem que é macho, mesmo, não mata mulher. Bate nela, só pra exemplar. – E, como para justificar-se, arrematou: - Esta porqueira me achou escornado, me tolheu os braços, me arranhou a cara toda e saiu por aí, boquejando que me bateu. Ora, já se viu despropósito igual? Podia eu lá viver nessa consumição desgraçada, que me esquisitava inté? Podia? – Agachou-se, sungou a mulata pelos sovacos, ajudou-a a se levantar, passou o braço na cintura dela, segredou-lhe: - Te machuquei muito, nêga? Vamos pra dentro, anda.

          E ela, toda chorosa, ainda estonteada:

          - Ocê é ruim que nem cobra, nêgo. Pra quê fazer uma coisa destas na frente de tanta gente?

 

(BAZÉ – ESTÓRIAS SERTANEJAS)

Nelson de Faria

* * *

sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

MARIA GENEROSA – Nelson de Faria



 Maria Generosa

                                        “...aquele que dentre vós está sem pecado,

                                           Seja o primeiro que lhe atire uma pedra”.



          “É como estou contando, moço. Às brutas, não, porque ninguém sojiga minha vontade. Mais, porém, numa conversa bem conversada a gente topa tudo, sem receber tostão, sem nada, que o dinheiro inté, muitas vezes, sapeca as mãos da gente. Pra quê dinheiro, sô, quando o sujeito é bem-falante, palpitoso, que faz a gente se derreter toda? Pra quê misturar as coisas boas que a vida dá pra gente com essa porcaria de dinheiro, que a gente tem quando não precisa e só carece dele quando a gente não tem? Não gosto de mangar de ninguém, não carrego soberba comigo e nem tenho implicância com os mais. Qualquer vivente, filho de Deus, tem resplandor nas minhas ideias mesmo que seja um tiquim só. Os bichins de Nosso Senhor, os que não fazem mal a ninguém, inté eles todos, são coisas do   meu bem-querer. Borboleta e passarim, pra falar só dos dois, vosmecê já prestou atenção nas bonitezas deles? Quem é que não gosta de coisas assim? Vosmecê se ri, achando que eu sou diferente das outras? Mais, porém, não está me debochando, né mesmo? Muitas das tais que nem eu, que andam por aí especulando a vida dos outros, eu maldo, não vieram ao mundo para a vida desinfeliz que Deus deu pra elas. Estragam o ofício, sujam o nome limpo das famílias delas e querem emporcalhar as companheiras. Caíram na vida por bestagem delas ou sem-vergonheira de homem sem coração. Depois da primeira cabeçada atolam o corpo na sujeira. Não se dão ao respeito, desvalorizam a classe.

            Vou contar uma coisa pra vosmecê: foi Sêo Cantídio, cometa afiançado, rapaz de muitas letras e muitas falas bonitas – o homem mais senhor que já vi na minha vida – quem me explicou muitas dessas coisas do mundo. A gente se embelecava com o cujo, logo na primeira hora, sem dar fé do que estava acontecendo, sem acreditar que se amarrava ao danado. Sêo Cantídio protegia e alteava a criatura que andasse com ele. No fim, a gente virava escrava, só ouvindo a boniteza do palavreado dele. Pra mostrar que a vida que a gente leva não é assim tão condenável, contava casos acontecidos com princesas e rainhas de outras eras, criaturas das terras dos gringos e outras da nossa terra também.  De uma ensinança de invejar professoras, mostrava, nos livros, retratos de muitas mulheres e falava de suas sem-vergonhezas, seus feitiços, mandando e desmandando nos homens que imperavam antigamente. Quer saber de uma coisa, moço? Umas eram bonitas, de verdade, que nem cromos; outras, que nem nós mesmas... Vosmecê não quer tirar uma fumacinha, aqui, no meu cigarro? Diz que faz mal, porque sofre dos peitos, é? Me desculpe. Como estava contando: decorei o nome de muitas que estão nos livros e sei as malucagens que elas fizeram pra dominar reis e imperadores. Me diga, agora, vosmecê: essas criaturas, feias ou bonitas, são ou não são que nem a gente? Sêo Cantídio me mostrou um livro, desses de capa preta, grandão, pesado, abriu ele e leu para nós, para mim e Celestina – a Celeste, que amaridou com Sêo Zé Tertuliano, minha amiga mais chegada – uma porção de estórias, adonde a vida  e criaturas que nem eu e Celeste é inté engrandecida. A tal Rainha de Sabá,  para exemplo, fez coisas com o rei Salomão... Bem, nem é bom se recordar. Sêo Cantídio  leu os versos que o tal Rei escreveu, louvando pra danar o corpo dela, não foi assim? O rei explicava tudo tão direitinho, tão bem explicado mesmo, que a gente ficava maginando, sentindo uma gastura dos diabos remordendo dentro da gente. Inté nossos olhos ficavam marejando...

          E aquelas estórias das “noites mil”? Vosmecê diz que estou errando no nome, que é Mil e Uma Noites? Pois seja! Vosmecê já leu coisas mais doidas do que aquelas? E a tal de Salomé, que mandou cortar a cabeça do santo? E as tais Lucrécia e Messalina? Virge, que criaturas desapiedadas! E as madamas, imperadoras da França, monarcas de Roma? E aquela danadinha lá do Egito, que deu os peitos pra cobra morder? Já se viu?! Vosmecê não aceita mesmo um cigarrinho? Uma tragadinha só, toma, não vai fazer tanto mal... Que nem Sêo Cantídio, lhe juro, sem agravar os mais outros homens, nunca vi igual! Ele fez nós duas, eu e Celeste, descobrir o valor do nosso ofício e provou que nós espanamos do mundo as doideiras dos homens. Jurava que, sem a gente, o número de malucos seria mais grande do que é; e que também, no meio das famílias, as desgraças seriam mais desgraçadas do que essas desgraças que aí estão, e que a gente sabe delas por ouvir dizer...

          Acho que Sêo Cantídio tinha razão. Quando a gente duvidava do que ele dizia, ficava assim, do olhos pregados na nossa cara, naquele jeitão de quem sabe muito bem o que falava. Se ria todo e perguntava, com a cara mais lavada: “Como foi, então, que o mundo se encheu de tanta gente, se, no começo dele, era só um casal? Me responda, anda!” É... pensando bem, ele tinha razão. Por exemplo: numa cidade porqueira que nem esta nossa, se não fosse eu e Celeste – pra não falar de umas quatro mais, que fazem lá os seus benefícios particulares, às escondidas – como é, pergunto, que os homens se desapertavam, os viúvos se consolavam, os pelancos apendiam? Me diga.

          Despois que Sêo Cantídio leu para nós o que escrivinharam nos livros, carrego minha cabeça bem alevantada, bem nos altos. Não abaixo meu cangote pra ninguém montar nele. Celeste, hoje, é também que nem eu. Ela já foi moça-de-padre – sabe? – No Calhau, logo depois que ela saiu de casa. Os ignorantes boquejam que ela vira mula-sem-cabeça, quando chega a coresma. Vira nada! Tudo inzona das bobas, que nem á-bê-cê soletram direito. Ela morou comigo um par de anos. Nunca vi nada que condenasse minha amiga. Ela me disse, um dia, sem remorsos naquela cara bonita: “Que mal faz gostar a gente de padre, se eles são homens também que nem os outros?”

          Eu não rezo na mesma cartilha, nhor não. Tenho cá pra mim que isso não é direito, não por medo de virar mula-sem-cabeça, não. Mais, porém, porque, no mundo, tem bastante dos outros homens desimpedidos. A gente não carece usar os proibidos, né mesmo? Não condeno minha amiga porque ela gosta de esquisitar nosso ofício, isso não. O que é do gosto regala a vida, diz o vulgo, e eu acho que tá certo. Para acalmar minhas dúvidas, perguntei, uma vez, ao Doutor Minervino, o juiz de direito – quando a dona dele andou de resguardo -, se Celeste era criminosa porque apreciava aquilo. Ele se riu da indagação, e falou: “Não, Generosa, a lei não fala dessas coisas; e, quando a lei não escogita – penso que ele falou assim mesmo, es-co-gi-ta - palavra danada de difícil! – é porque o ato não é criminoso”. E o Doutor Minervino é homem sem, porém, de muita sabença. Mioludo que nem Sêo Cantídio. Fala por aí – as donas sem caridade no coração delas – que a gente é de vida fácil... Vida fácil, pois sim! Bestagem delas, pura bestagem.

          Digo e confirmo pra vosmecê: já andei nos braços de homem pobre, inté de criaturas desvalidas, de pé no chão e camisa rasgada, mais, porém, de corpo limpo. Vosmecê me pergunta se foi de graça? Nhor sim, de graça! Porque achei que era caridade que eu fazia. Abraços e boquinhas de sujeitos ricos, posudos, desses que acham que a gente, por ser uma das tais, é obrigada a aceitar qualquer um, desses fulanos sem coração, já repeli muitos.  Sem malquerença, sem agravar os cujos, tiro o corpo fora com desculpa de doenças, e o mais. Vosmecê, vê-se logo, não é desses, sei que não. Conheço vosmecê de vista, em desde que aqui chegou. Não desconheço que é doutor formado em medição de terras. A família de sua dona, conheço ela toda, porque é gente daqui mesmo. Me contaram que vosmecê não é moço de riquezas, que nem seu sogro. Cochicham por aí que vosmecê inté já cuspiu vermelho, por via de doença-do-peito. Que é que a gente não sabe nesta terra pequenina? Vosmecê vai me relevar a pergunta, que deixa a gente meio desacertada: me contaram que sua dona tem medo de tísica, e é por isso que vosmecê vive assim, desarvorado, é mesmo? Pois assunta, nêgo: bota sua cabeça, aqui, no meu ombro, estala as bicotas que quiser nos cabelos, no rosto, no meu cangote. Não! Na boca, não, por via do entojo que me dá´...”

  

(BAZÉ – ESTÓRIAS SERTANEJAS)

Nelson de Faria

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O escritor NELSON DE FARIA

Julgado pela crítica brasileira:

 

“Não conheço na moderna literatura regionalista brasileira nada melhor do que a prosa desse mineiro. As narrativas são de um escritor plenamente realizado na arte do conto, dramático, poético ou pitoresco, apresentando os “fatos” e os tipos com uma segurança e um sabor que fazem o encanto da leitura.”

RAUL LIMA       

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