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terça-feira, 22 de dezembro de 2020

JESUS CRISTO NO PRESÉPIO E NO SACRÁRIO

22 de dezembro de 2020



Padre David Francisquini *

 

            Cristo foi envolto em panos e reclinado numa manjedoura forrada com palhas, que se tornaram ornamentos do desejado das nações, do Menino-Rei cheio de aromas e encantos que nasce numa gruta em Belém.

            Um anjo do Céu anunciou a grande notícia para alegria dos pastores e regozijo de toda a corte celeste. Seu anúncio ecoou em todos os lares de aldeias, cidades e campinas, até no mais humilde casebre, pois Cristo nasceu como Salvador e Rei de todos os povos.

            O júbilo impera nos corações com as palavras proclamadas pelo Anjo: Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade. A gruta nos faz lembrar o sacrário, pois como nela se encontrava o Deus vivo e verdadeiro, assim Ele quis ficar nos sacrários de todas as igrejas sob a forma da Hóstia consagrada.

            Jesus quis nascer numa manjedoura onde comiam os animais para compreendermos que Ele não nascera apenas como Salvador, mas também como nosso alimento. A representação de Jesus Cristo na História está posta diante de nossos olhos no Santo Presépio de Belém, enquanto no sacrário está representada como objeto de nossa fé, pois Ele vive conosco, pronto para nos receber e alimentar.



            Ao ser consagrado no altar durante a Santa Missa, o pão se transforma em corpo, sangue, alma e divindade do próprio Cristo que nos é dado como alimento, permanecendo conosco nesse peregrinar pela terra. O altar é o presépio em que Cristo está de braços abertos para nos saciar com sua carne divina e seu sangue precioso, pois Ele é o nosso celeste pelicano.

            Como Pai, pensa nos filhos mais que em Si, não mede sacrifício algum que possa beneficiar os filhos, pois lhes quer todo o bem. No altar do Sacrifício é o próprio Jesus Cristo que se imola dia e noite de braços abertos para não nos deixar desamparados nessa peregrinação. A fé nos ensina que o Divino Redentor que nasceu Menino está vivo no sacrário.

            A pequenez das crianças constitui grande atrativo para os nossos corações. Imaginemos Aquele mesmo a Quem os céus não puderam conter, exatamente por ser imenso e infinito, apresentar-se a nós como uma criança pequenina e frágil, para ter certa proporcionalidade conosco e assim Se fazer mais próximo de nós.

            Guiados por essa mesma Fé, o gemido de Jesus Cristo no desconforto físico daquela noite fria e das asperezas das palhas da manjedoura de Belém nos conduz a pensar no mais alto dos panoramas, ou seja, a contemplá-Lo e adorá-Lo. Da mesma forma deveremos fazê-lo sob as espécies eucarísticas.

            Essa criança plena de inocência e pureza, por ser Filho do Padre Eterno e de Maria Santíssima, bendita entre todas as mulheres, quis Se tornar homem e Deus para resgatar a humanidade do pecado de nossos primeiros pais por sua vida, paixão e morte. Ele mesmo quis ficar envolto nos véus eucarísticos, ao alcance de todos nós.

            O Infante Jesus, segunda Pessoa da Santíssima Trindade, encarnou-se no seio puríssimo de Maria para nos salvar com sua morte no madeiro da Cruz. Daí a nossa confiança n’Ele, pois veio para reinar nos corações, concedendo-nos graças nas trilhas do heroísmo e da luta. A fé nos guia na trajetória da vida presente para a futura. O Natal é o marco da História, cheio de esperança e certeza.

            O mundo pagão se desfez com o nascimento de Cristo para dar lugar a uma era cheia de luz que iluminou o mundo, a civilização e a cultura cristãs. Hoje, com o novo paganismo, vivemos o mesmo pesadelo de outrora, se não pior, quando o mundo se debatia e se contorcia sem esperança.

            Nos estertores dessa civilização agonizante, com todos os problemas que a afligem, é o mesmo Jesus Cristo e sua Mãe Santíssima que batem nas portas de nossos corações. Por que Maria, a Mãe admirável de Deus Filho? Porque tendo sido Ela quem nos trouxe Jesus, também será Ela quem O fará reinar sobre toda a Terra.

            Aquela mesma que ofereceu a Jesus o seu sangue virginal pelo seu coração materno, tornando-se o sacrário da divindade, a arca da aliança, será Ela quem fará Jesus reinar sobre as nações e os povos. Não podemos encontrar Jesus sem Maria e nem Maria sem Jesus.

            Se o laço que une um ao outro é tão íntimo, a história da salvação não está desligada deles. As virtudes trazidas por Jesus na gruta de Belém serão disseminadas por todos os cantos do orbe por Maria, quando Ela passar a reinar nos corações.

            Sendo Ela o elo entre Deus e os homens, será Ela quem ligará a Terra a Deus. Que neste Natal envolto em borrascas que nos enche de apreensões, ilumine-se em nós uma lâmpada inextinguível, uma confiança plena de que Cristo reinará no mundo por meio de Maria.

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* Sacerdote da Igreja do Imaculado Coração de Maria – Cardoso Moreira (RJ).

https://www.abim.inf.br/jesus-cristo-no-presepio-e-no-sacrario/


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segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

FERNANDO LEITE MENDES, O CRONISTA A SE RESGATAR



Fernando Leite Mendes, o cronista a se resgatar

Henrique Fendrich*

 

Uns querem a crônica alienada como um poema informal e libertado. Outros preferem fazê-la fragmento de conto e nada mais. Pois de mim a crônica faz o que ela quer. (Fernando Leite Mendes)

 

          Há um time de grandes cronistas mais ou menos célebres, tido como a “geração de ouro da crônica”, mas também há nomes que ficaram esquecidos com o passar dos anos e cujo resgate pode evidenciar que eles não faziam feio em meio aos “medalhões” do gênero. Cyro de Mattos e Ivo Korytowski se propuseram a resgatar um desses nomes, o jornalista e escritor baiano Fernando Leite Mendes (1931-1980), de atuação na TV Tupi, e organizaram “O gigante e a bicicleta e outras belas crônicas” (Via Litterarum, 2020), obra que dá boas mostra da produção desse cronista.

          Fernando é cronista que se destaca pela elegância da sua linguagem e pela cultura de suas referências, assemelhando-se, nisso, ao Henrique Pongetti, outro cronista de sucesso e talento que, no entanto, mal é lembrado nos dias de hoje. Fernando apresenta notável acento lírico, como aquele que mais se valoriza em cronistas como Rubem Braga e Paulo Mendes Campos. Algumas de suas crônicas são perfeitos poemas em prosa (vide “A monja e os sinos”).

          A exemplo de Paulo Mendes Campos, ele também usa a crônica como forma de fazer certos exercícios poéticos, entre os quais se destaca “Uma carga de esperança”, crônica sobre um caminhão em que viajavam várias freiras. A partir disso, o cronista parte para especulações líricas sobre aquele evento, nas quais revela a visão mais humanizada que tinha da religião. Há ainda “A alma e a carta”, verdadeiro esparramo lírico a valorizar o “literário” na crônica.

          Fernando Leite Mendes também se mostra um grande criador de cenários. A partir de um evento específico (o despejo de uma velha senhora, um suicídio na Torre Eiffel), ele como que dá um giro de 360 graus para retratar o entorno e assim mostrar tudo o que acontece conjuntamente à história que relata. A sensibilidade do seu olhar deixa essas pequenas histórias ainda mais bonitas.

          Também ele se ocupa de notícias dos jornais, também ele capta, em meio a fatos frios e objetivos, a centelha de vida e poesia que merece ser eternizada, subvertendo os valores-notícia que costumam orientar a produção jornalística. “O burro sumiu” lembra muito a forma como o Braga tratava as notícias. Nem se diga que não estava atento aos eventos do seu tempo, mas mesmo a ditadura recém-inaugurada recebeu dele não um artigo, e sim uma crônica em forma de alegoria, a sua defesa, como cronista, diante da tirania vigente.

          A passagem do tempo, indissociável ao próprio conceito de crônica, também não lhe escapa, e, como é tradição, também há aqui e ali um passarinho (se bem que o fim deles possa não ser muito bom nas crônicas de Fernando). Às vezes, a crônica exigia um conto infantil de Fernando, às vezes uma história divertida do cotidiano, uma análise brejeira dos costumes da sociedade, e dessas obrigações todas o escritor não se furtava e as realizava a contento.

          Fernando cultivou a crônica com paixão durante grande parte da vida e essa pequena mostra evidencia o seu talento e o acerto do seu resgate.

*Henrique Fendrich,

jornalista, cronista,

editor da Revista

da Crônica Rubem,

Curitiba

 

** Fernando Leite Mendes 

é baiano nascido em Ilhéus. 

Homem de inteligência inquieta, 

cronista maior esquecido, 

atuou com destaque na televisão, 

teatro, cinema, rádio e jornal, 

na década de 1950, Rio de Janeiro. 

Orador contagiante, 

com ele a palavra estava 

de bem com a vida. 

(Cyro de Mattos)

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A ESTRELA DE NATAL



domingo, 20 de dezembro de 2020

A ETERNIDADE DO INFERNO É TERRÍVEL, MAS JUSTA

17 de dezembro de 2020

Plinio Maria Solimeo


S
anto Afonso Maria de Ligório é um dos luminares da Igreja Católica. Moralista seguro, escritor incomparável, incansável missionário apostólico, propugnador da devoção a Maria Santíssima, foi também bispo e fundador da Congregação do Santíssimo Redentor destinada a trabalhar nas missões.

Esse santo, em suas missões, pregava a tempo e a contratempo sobre as verdades eternas, principalmente sobre as mais necessárias à nossa salvação. Uma delas não podia deixar de ser sobre os Novíssimos — isto é, a Morte de que ninguém está isento; o Juízo, que se lhe segue; o Inferno para os que não seguiram as leis de Deus; e o Paraíso, que é a recompensa demasiadamente grande para os que seguiram Nosso Senhor Jesus Cristo.

Para tornar mais duradouro o proveito que as pessoas obtinham nas missões, ele escreveu várias obras. Uma das menos conhecidas é o seu livro Meditações para todos os dias do ano. Numa das profundas meditações sobre o inferno que traz nesse precioso livro, o santo tece algumas considerações sobre a eternidade do mesmo. Julgamos de muita utilidade para nossos leitores católicos, pois esclarece didaticamente muitas dúvidas a respeito.


O que significa a eternidade do inferno? Que ele nunca acaba, que não tem fim. Diz Santo Afonso [quadro ao lado]: “As penas da vida presente passam, porém as da outra vida não passarão nunca; estarão [como que] sempre principiando”. Ele afirma então que, num exorcismo, um sacerdote perguntou aos demônios há quanto tempo estavam no inferno. Um deles respondeu: “Desde ontem”. Surpreso, o exorcista perguntou: “Mas como?! Faz mais de cinco mil anos que vocês foram condenados!” Respondeu o demônio: “Ó, se soubesses o que quer dizer eternidade, bem compreenderias que, em comparação dela, cinco mil anos não são senão um instante”.

Santo Afonso passa a responder uma objeção muito corrente: “Como castigar com uma pena eterna um pecado que dura apenas um momento?”. Ele interpela ao interlocutor: “E como é que o pecador pode ter a audácia de ofender, por um prazer momentâneo, uma Majestade infinita?”.

Sobretudo, continua o santo missionário, “até a justiça humana, como diz São Tomás, mede a pena não pela duração, mas pela qualidade do crime”. Pelo que a ofensa feita a um Deus infinito, merece um castigo infinito. Ora, “como a criatura humana, por ser finita, não é capaz de sofrer uma pena infinita em intensidade, é com justiça que Deus torna a pena em infinita em sua duração”.

Por outro lado, argumenta o santo que “esta pena deve necessariamente ser eterna, porque o condenado não pode satisfazer mais por seu pecado. Nesta vida o pecador que se arrepende, pode satisfazer por seus pecados, porquanto podem lhe ser aplicados os merecimentos de Jesus Cristo. Mas disto fica excluído o condenado; e visto não poder aplacar a Deus e ser eterno o seu estado de pecado, a pena também deve ser eterna”. Além disso, “ainda que Deus quisesse perdoar, o réprobo não quereria ser perdoado, porque sua vontade está obstinada e confirmada no ódio contra Deus. Por isso o mal do réprobo é incurável, porque ele recusa a cura”.

Quantas almas se perdem nos nossos dias, por não querer meditar nas penas do inferno enquanto têm tempo para emendar-se!

Exclama o grande missionário: “Eis aí o estado lastimoso dos pobres condenados no inferno: ficarão encerrados eternamente nesse cárcere de tormentos, sem que haja para eles esperança de sair. Depois de passados milhões e mais milhões de séculos, os desgraçados perguntarão aos demônios: ‘Quando acabarão estes clamores, esta infecção, estas chamas, estes tormentos?’. E hão de responder-lhe os demônios: ‘Nunca! Nunca!’. ‘E quanto tempo durarão?’ A terrível resposta é: ‘Sempre! Sempre!”

Pelo que conclui com emoção o santo bispo e Doutor da Igreja considerando nossos pecados:

“Ó meu amado Redentor Jesus! Se atualmente eu estivesse condenado como mereci, não haveria mais esperança para mim, e estaria obstinado no ódio contra Vós, ó meu Deus, que morrestes para me salvar. Que inferno seria para mim o ter que odiar-Vos, a Vós que tanto me tendes amado, que sois a beleza infinita, digno de amor infinito! Se estivesse no inferno, achar-me-ia em tão miserável estado, que nem quisera o perdão que me ofereceis agora. Agradeço-Vos, meu Jesus, a bondade que tivestes para comigo e, já que posso ainda esperar o perdão e amar-Vos, quero reconciliar-me convosco, quero amar-Vos. Arrependo-me de todas as ofensas que Vos fiz, ó Bondade infinita, e perdoai-me. Que mal me fizestes, ó Senhor, para que Vos houvesse de odiar como inimigo na eternidade? Quem foi jamais tão meu amigo a ponto de fazer e padecer por mim o que Vós, ó meu Jesus, haveis feito e sofrido por meu amor? Não permitais que me aconteça cair de novo em vosso desagrado e perder o vosso amor. Prefiro morrer a cair nesta extrema desgraça. Ó Maria, abrigai-me sob o vosso manto, e não permitais que saia debaixo dele para alguma vez me revoltar contra Deus e contra Vós!”.

 

https://www.abim.inf.br/a-eternidade-do-inferno-e-terrivel-mas-justa/

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PALAVRA DA SALVÇÃO (214)


 4º Domingo do Advento – 20/12/2020


Anúncio do Evangelho (Lc 1,26-38)

— O Senhor esteja convosco.

— Ele está no meio de nós.

— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Lucas.

— Glória a vós, Senhor.

 

Naquele tempo, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré, a uma virgem, prometida em casamento a um homem chamado José. Ele era descendente de Davi e o nome da virgem era Maria. O anjo entrou onde ela estava e disse: “Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo!”

Maria ficou perturbada com essas palavras e começou a pensar qual seria o significado da saudação. O anjo, então, disse-lhe: “Não tenhas medo, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus. Ele será grande, será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi. Ele reinará para sempre sobre os descendentes de Jacó, e o seu reino não terá fim”. Maria perguntou ao anjo: “Como acontecerá isso, se eu não conheço homem algum?”

O anjo respondeu: “O Espírito virá sobre ti, e o poder do Altíssimo te cobrirá com sua sombra. Por isso, o menino que vai nascer será chamado Santo, Filho de Deus. Também Isabel, tua parenta, concebeu um filho na velhice. Este já é o sexto mês daquela que era considerada estéril, porque para Deus nada é impossível”. Maria, então, disse: “Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra!” E o anjo retirou-se.


— Palavra da Salvação.

— Glória a vós, Senhor.

https://liturgia.cancaonova.com/pb/

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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Pe. Roger Araújo


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Em Maria encontramos nosso "sim" original

 


Imagem: Henry_Ossawa_Tanner/ Anunciação
 

“Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo!” (Lc 1,28)

 

Dois olhares dirigidos a Maria podem nos ajudar hoje a considerar nossa maneira original de estar e viver em Advento: o olhar à mulher que ama e o olhar à mulher que diz “sim”.

Pois o Advento é tempo de Maria, tempo de esperança e acolhida, tempo de espera. Maria foi mãe, testemunha, seguidora..., mas sobretudo foi Mulher do “sim”, do compromisso sincero e real, Mulher de fé capaz de arriscar tudo e deixar-se conduzir por Aquele que a olhou com misericórdia.

Na Anunciação, podemos encontrar Maria numa atitude de escuta, de receptividade, de abertura, de sim. Tal atitude vai colocá-la em contato com o Anjo, com o Mensageiro, com Gabriel.

Entrando em contato com este anjo, ela vai fazer a experiência de uma alegria fontal. A primeira palavra do anjo é, em grego, “kaire te”, que quer dizer: “Alegra-te!”.

A primeira palavra pronunciada pelo anjo não é uma simples saudação convencional.

É um imperativo, um convite à alegria. Na saudação “alegra-te” ecoa o júbilo pela chegada da salvação, nas palavras de Sofonias: “Exulta, filha de Jerusalém e, de todo o coração, dá gritos de alegria!” (3,14). Convidada pessoalmente a alegrar-se, Maria é também a representante e portadora da alegria de todo o Povo de Deus pela vinda do Salvador, anunciada pelos profetas.

Maria fica admirada e surpresa, não pelo que vê, mas pelo que ouve. As palavras da saudação não são só totalmente inesperadas para ela, mas soam aos seus ouvidos como absolutamente novas, literalmente in-auditas.  Por isso, “pôs-se a pensar, a refletir, a dialogar consigo mesma, perguntando-se qual seria o sentido da saudação”.

Maria não duvida da ação surpreendente de Deus e nem pede um sinal. Acolhe com fé cada uma das promessas sem pôr obstáculo algum à presença do mesmo Deus nela. Mas, porque não compreende como acontecerá tudo isso nela, pergunta: “Como vai ser isso se eu não conheço homem algum?”

O mesmo Espírito que, no princípio da Criação, pairava sobre as águas, e que havia sido prometido para o futuro como descendo do alto, repousa agora em Maria. E ela se deixa envolver pela “sombra” do Espírito

A expressão “cobrir com sua sombra” significa, originalmente, não uma presença estática, mas a presença ativa e eficaz de Deus no meio do seu povo.

presença divina, a “glória do Senhor” que repousou sobre a Tenda no deserto e mais tarde sobre o Santo dos Santos no Templo de Jerusalém, vai repousar agora sobre o santuário vivo que é o corpo da virgem de Nazaré, cumprindo as promessas da salvação e inaugurando a Nova Criação.

Os Antigos viam nesta experiência da “sombra” aquilo que dá nascimento à Luz. Neste sentido, Maria é o símbolo de toda a terra, de todo o universo, que acolhe em sua sombra, em seus limites, a semente da Luz. 

Maria encerra o diálogo autodenominando-se “a serva do Senhor”. A palavra serva descreve um estado de entrega, um estado de confiança na presença mesma d’Aquele que É.

Sua resposta, embora dinamizada pela graça, é uma resposta livre na fé. fiat de Maria é o começo da Nova Aliança de Deus com a humanidade.

O seu “sim” revela a grandeza, a beleza e a responsabilidade das decisões da liberdade humana.

A partir disso, podemos interrogar o Evangelho e ver como este estado de sim, como este estado de confiança original, se encarna na vida concreta de Maria.

Antes de mais nada, pensamos em Maria não somente como uma personagem exterior, mas como uma realidade interior, como referência inspiradora, como abertura à presença d’Aquele que vive e é gerado nela, minuto a minuto. E o caminho de Maria na história pode ajudar-nos a compreender nosso próprio caminho; pode ajudar-nos, sobretudo, a compreender a que ponto nós estamos entulhados de memória mórbida, a que ponto é difícil para nós dizer sim e viver uma entrega confiante. 

Charles Peguy dizia que “Maria é mais jovem que o pecado”. Isto quer dizer que existe em todos nós uma dimensão mais jovem e mais profunda, não contaminada pelo ego: trata-se da beatitude original.

Falamos demais sobre o pecado original e muito pouco sobre a bem-aventurança original. Assim, os Antigos viam em Maria um arquétipo da bem-aventurança original, ou seja, a relação de intimidade com a Fonte do seu ser original, que é o próprio Deus.

Com Maria é preciso entrar em contato com a nossa confiança original, mais profunda que nossos medos e nossas resistências. É preciso entrar em contato com esta dimensão marcada pelo silêncio, com esta sombra na qual a Luz vai ser gerada. É preciso nos deixar conduzir pelo Sopro da Vida, para viver mais intensamente e gerar vida ao nosso redor. 

Existe em nós uma realidade mais profunda, inocente, fonte de toda inspiração, desejo, criatividade... Podemos dizer que em nós habita uma “Maria”, que, em meio ao nosso caos interior (feridas, sentimentos negativos, traumas...) des-vela o que em nós é imaculado, puro, capaz de entrar em sintonia com a presença angelical e dizer “sim”, na confiança radical.  Maria é a nossa verdadeira natureza, é a nossa verdadeira inocência, aberta à presença do divino. Infelizmente, a cultura da superficialidade na qual vivemos, nos seduz e nos faz perder o caminho que dá acesso ao que é mais “cheio de Graça” em nosso eu profundo.

Maria é o estado de confiança original. Precisamos, também nós, encontrar esta confiança original.

Certamente cada um de nós já teve a oportunidade de fazer a experiência deste estado: quando brota em nós um sentimento oceânico de alegria, plenitude, consolação..., quando sentimos o impulso para sair de nós mesmos e viver uma presença solidária, quando a gratidão ilumina nossa vida, quando não nos deixamos determinar pelo rigorismo, perfeccionismo e moralismo..., quando alimentamos a confiança n’Aquele que É, quando nós dizemos sim aos Mensageiros angelicais que nos envolvem... 

À palavra-ação de Deus corresponde a palavra-ação de Maria. O anjo permanece na presença dela até que ela diz a última palavra.

O “sim” de Maria, seu modo livre de consentir, abre as portas à humildade compassiva de Deus. Nela, Deus se humaniza, se faz “carne” e assume toda a condição humana, iluminando-a e divinizando-a.

Deus pede o consentimento a uma jovem aldeã para acontecer em seu seio a humanização do Filho divino.

Dizer “sim” significou, para ela, embarcar-se em uma aventura cujo fim não se adivinhava, significou romper o projeto de sua vida pessoal que tinha, como qualquer jovem de sua idade.

E Maria não pediu tempo para assegurar-se fazendo uma consulta familiar; quando sentiu que era vontade de Deus, pronunciou um “sim” definitivo, através do qual o Filho de Deus se fez “vizinho” da humanidade, em Nazaré. Assim, nas pontas dos pés, através do seio de uma jovem humilde, Deus entrou na história humana.

Para os Antigos padres da Igreja, Maria é o sim original. E este sim é mais profundo que todos os nossos nãos. É preciso também reencontrar em nós mesmos aquilo que diz sim à vida, quaisquer que sejam as formas que esta vida tomar. Não é fácil reencontrar este sim. Na maior parte do tempo estamos na desconfiança, na dúvida, no temor... Isto quer dizer que temos muitas memórias doentias que alimentam medo, que nos fazem resistir àquilo que a Vida nos propõe para viver.

Devemos, então, passar por um estado de silêncio de nossas memórias, de silêncio de nossa mente, para encontrar esta confiança original. Esta atitude é a da “inocência original”. 

Texto bíblico:  Lc 1,26-38 

Na oração: O primeiro “sim” que recebemos e, às vezes, o último que descobrimos, acontece em nosso nascimento. É o “sim” primeiro de Deus à nossa vida, a afirmação profunda que nos faz existir; neste “sim” de puro amor, respiramos e somos.

O segundo “sim” é aquele que nos faz mais parecidos a Deus. É o sim oblativo, aberto, que prolonga o “sim” de Maria e que se revela no deslocamento junto aos outros para afirmar suas vidas, cuidando e ativando suas potencialidades. É o sim que Isabel deu a Maria quando esta foi a visitá-la. Está feito de reconhecimento, respeito e alegria pelo trabalho secreto de Deus em cada um(a): “Bendita(o) és tu”.

- Revisitar os “sins” que fizeram diferença na sua vida, que despertaram a criatividade e a sensibilidade para com os outros, que inspiraram e trouxeram um novo dinamismo à própria existência.


Pe. Adroaldo Palaoro sj

https://centroloyola.org.br/revista/outras-palavras/espiritualidade/2212-em-maria-encontramos-nosso-sim-original

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sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

ALB: CONFRATERNIZAÇÃO E PREMIAÇÃO

 


A Academia de Letras da Bahia encerrou suas atividades do ano ontem, dia 17, com a confraternização entre os membros e funcionários da instituição e com a entrega do Prêmio Conjunto de Obra Academia de Letras da Bahia e Eletrogóes ao escritor Cyro de Mattos, autor de vasta obra em vários gêneros. O prêmio consiste numa placa alusiva às produções literárias do homenageado e o valor de oito mil reais.

Antes foram agraciados com essa láurea o

 educador Edivaldo Boaventura, a poeta

 Myriam Fraga, a romancista Helena Parente

Cunha, o historiador João José Reis, os escritores  Hélio Pólvora, Guilherme  Raddel e Gláucia  Lemos.

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É ERRADO FALAR DE NOSSA SENHORA ENQUANTO MÃE SOLTEIRA? – Padre David Francisquini

 19 de novembro de 2020


Anunciação – Girolamo Lucenti (1602-1624). Museu Hermitage, São Petersburgo, Rússia.

Padre David Francisquini

Pergunta — A freira americana que fez um discurso contra o aborto na convenção do Partido Republicano, elogiando as iniciativas pró-vida do presidente Trump em defesa dos direitos do nascituro, disse uma frase que me chocou: “Como cristãos, conhecemos Jesus pela primeira vez como um embrião no ventre de uma mãe solteira, e o vimos nascer nove meses depois na pobreza de uma gruta”. Por mais que a frase estivesse destinada às moças que ficam grávidas, recomendando-lhes que não abortem, essa analogia me pareceu inapropriada, pois parece esquecer a virgindade perpétua de Nossa Senhora e o fato de que Ela estava casada com São José. O que o senhor pensa disso?

Resposta — A Igreja tem muitas formas de censura para as proposições contrárias ao seu ensinamento. São chamadas de “notas teológicas”. As mais graves se relacionam com o conteúdo das proposições censuradas: herética, errônea na fé, temerária. Outras se referem à forma defeituosa pela qual elas são expressas: equivocada, suspeita, malsoante. Por fim, uma formulação pode não ser errônea no conteúdo e na forma, mas ser censurada pelos efeitos que produz num contexto determinado, qualificando-se então como escandalosa, perigosa, sedutora dos simples ou ofensiva aos ouvidos pios. Por exemplo, seria verdadeira uma ladainha que dissesse São Pedro renegado, rogai por nós, porque de fato ele negou Nosso Senhor três vezes. Mas a piedade dos fiéis ver-se-ia contundida pela evocação desse gravíssimo pecado no contexto de uma ladainha em que se pede sua intercessão. Da mesma maneira, é louvável o corajoso discurso contra o aborto, evocado na pergunta; mas foi muito infeliz a formulação com que a freira se referiu à concepção virginal, pois choca os ouvidos piedosos dos fiéis, especialmente dos devotos de Nossa Senhora.

É preciso reconhecer que a frase da freira é até certo ponto materialmente verdadeira, pois no momento da Anunciação e da Encarnação do Verbo no seio virginal de Maria Ela ainda não estava casada legalmente com São José, nem vivia com ele sob o mesmo teto. Essas duas realidades estão declaradas explicitamente no primeiro capítulo do Evangelho de São Mateus. No versículo 18, ele diz que Nossa Senhora tinha concebido por virtude do Espírito Santo “antes de coabitarem”. E no versículo 20, que o anjo disse em sonhos a São José: “Não temas receber Maria por esposa”, o que significa que ele ainda não a havia recebido como tal.


O anjo disse em sonhos a São José:

“Não temas receber Maria por esposa”

Como explicar que no primeiro dos versículos citados se diga que Maria estava “desposada com José”? Como podia recebê-La por esposa, se já estava desposado com Ela? A aparente contradição resulta das traduções portuguesas da Bíblia, pois nas traduções em outras línguas os substantivos e verbos indicam claramente que Nossa Senhora estava apenas prometida, e ainda era noiva de São José. Essa afirmação pode causar surpresa em alguns leitores, mas será desfeita conhecendo-se melhor a legislação e as tradições matrimoniais dos judeus.

No início da história do povo eleito — como fica patente no relato do casamento de Isaac com Rebeca — eram os pais que negociavam o casamento de seus filhos. Depois passaram os próprios filhos a escolher suas futuras esposas, como ocorreu com Sansão. Querendo casar-se com uma filha dos filisteus, ele pediu aos pais para negociarem a boda, pois o candidato deveria oferecer um dote que fosse aceitável pela família da moça. Uma vez obtido o consentimento desta, fazia-se um contrato, que era verbal antes do cativeiro na Babilônia e passou a ser escrito depois, como o que foi redigido conjuntamente por Tobias e o pai de Sara.

Celebrava-se então com certa solenidade a cerimônia do noivado, durante a qual o noivo dava à noiva (se ela fosse menor, ao pai dela) um anel de ouro ou algum outro objeto de certo valor. A duração do noivado era de um ano, para dar tempo à noiva de se preparar para o casamento e aprontar seu enxoval. Durante esse período os futuros esposos permaneciam em suas respectivas casas, só se comunicando através do “amigo do esposo”, personagem ao qual São João Batista se comparou quando explicou a seus discípulos que não era Cristo, mas um enviado para anunciá-Lo.

Porém é necessário notar que, ao contrário de nossos dias, o noivado era tão irrevogável quanto o casamento; de tal maneira que, se a noiva se deixasse seduzir por outro homem, era punida de morte por lapidação, tal como acontecia com uma mulher adúltera já casada. E caso seu noivo viesse a morrer antes do casamento, ela deveria ser desposada por um cunhado, não podendo casar-se fora dessa família com um estranho, respeitando o costume do levirato (Deut. 25, 5). Devido ao caráter irrevogável do noivado, não existia na língua hebraica uma palavra específica para designar esse período, sendo assimilado linguisticamente ao casamento.


Os desponsórios da Virgem

– Sebastián López de Arteaga (1610-1652).
Museu Nacional de Arte, Cidade do México

À vista dessas considerações, compreende-se por que São Lucas, ao escrever que o anjo Gabriel foi enviado a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, “a uma virgem desposada com um varão, chamado José”, não quis dizer que Nossa Senhora estivesse casada, mas apenas comprometida a casar-se com ele. Tanto os verbos desponso despondeo da Vulgata latina, quanto o verbo μνηστή do original grego e seus derivados, significam prometer em matrimônio, pedir em casamento, pretendente, noivo. Por isso São José e a Virgem Maria não viviam sob o mesmo teto, como refere São Mateus, pois os costumes só autorizavam a coabitação depois das núpcias. Foi após a visita de São Gabriel que “José fez como o anjo do Senhor lhe havia mandado, e recebeu em sua casa sua esposa” (Mt 1, 24).

Essa explicação dos fatos, que corresponde inteiramente às tradições do povo judeu, não é desmentida por São Lucas quando, ao relatar a subida do santo casal a Belém para o recenseamento (portanto, depois das núpcias), se refere a Nossa Senhora com as palavras μνηστευμέν ατ (original grego), traduzidas por desponsata sibi uxore na Vulgata latinao que literalmente quer dizer, como vimos acima, “sua noiva”. É possível que o evangelista tome aqui o verbo grego no sentido de “casar-se”, que por vezes tem. Contudo, o mais provável é que tenha desejado expressar-se com uma delicadeza suprema, para dar a entender que, no tocante ao Filho divino que Maria portava em seu seio virginal, Ela era apenas a prometida de São José. De qualquer maneira, São Jerônimo achou por bem acrescentar uxore — ou seja, esposa — para deixar as coisas bem claras.

Em resumo, e para concluir a resposta ao consulente, podemos dizer que a Santíssima Virgem Maria, na hora bendita da Anunciação, ainda não estava casada com São José. Isso não significa que fosse realmente solteira, pois já estava comprometida com ele mediante um contrato irrevogável, prescrito pela tradição judaica. Portanto, ainda que a expressão “mãe solteira” tenha sido utilizada com boa intenção pela religiosa mencionada na pergunta do consulente, ela é inapropriada e até chocante quando associada à concepção virginal de Maria Santíssima.

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Fonte: Revista Catolicismo, Nº 839, Novembro/2020.

https://www.abim.inf.br/e-errado-falar-de-nossa-senhora-enquanto-mae-solteira/

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