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sexta-feira, 6 de julho de 2018

O ‘GOOOOOOOL’ E O ORGASMO - Zuenir Ventura


O ‘goooooool’ e o orgasmo 

Durante a transmissão do jogo Brasil x México, um amigo de esquerda pedia, como se estivesse se dirigindo aos colegas mexicanos: “Já que vocês ganharam a eleição, deixem agora a gente ganhar o jogo”. Ainda estava 0 x 0, e ele se referia à histórica vitória, na véspera, do candidato esquerdista Andrés Manuel López Obrador (AMLO, como é chamado), o primeiro a chegar ao poder em seu país, contrariando a onda conservadora que varreu a América Latina.

A seleção mexicana, porém, não “deixou ganhar”, conforme foi solicitado por meu amigo; aliás, não facilitou nada; ao contrário, vendeu caro sua derrota por 2 x 0, resistindo bravamente à superioridade adversária. Ao time do Brasil, sim, se deve atribuir todos os méritos, pois realizou uma excelente partida, talvez a melhor desta Copa, com destaque para Neymar em seu mais bem-sucedido desempenho, redimindo-se de seus tombos, queixas e encenações, e sendo aclamado como o melhor em campo.

Em contrapartida, o vexame foi dado pelo técnico do México na entrevista coletiva depois do jogo. Em vez de se desculpar pelo pisão desleal que um de seus jogadores deu em Neymar caído, fora do campo, o tal Osório deu uma declaração machista como há muito não se via: “Futebol é esporte de homens”. Não é verdade, é um esporte também de mulheres. Marta é uma craque melhor do que muitos dos jogadores da seleção do México. E homem não pode ser caracterizado como o animal que pisa o outro deitado.

Para os que reclamavam da suposta falta de interesse do povo para com a Copa do Mundo, o desmentido veio no noticiário televisivo da noite: em quase todas as capitais, a animação popular — a vibração, os cantos, os pulos — tinha sido de um dia de carnaval, não de uma segunda-feira que nem feriado era. As ruas ficaram vazias, o comércio fechou as portas e as pessoas se concentraram em vários locais para ver o jogo e torcer como se estivessem num estádio. Um astral bem diferente daquele que um leitor descreveu em recente carta ao jornal: “...estamos tristes, não nos orgulhamos de nada, pelo contrário, tudo nos envergonha e entristece”.

Como futebol é cultura, aí vai uma original descoberta. O linguista e membro da Academia Brasileira de Letras Domício Proença Filho tem uma teoria que explica o sucesso de Galvão Bueno pela evocação erótica de sua narração, que nos momentos culminantes reproduz, segundo o professor, o ritmo crescente que leva ao orgasmo: “olhogol, olhogol, olhogol, olhogol, olhogol, gooooooooooooool”.

O Globo, 04/07/2018


Zuenir Ventura - Sétimo ocupante da Cadeira n.º 32 da ABL. Foi eleito no dia 30 de outubro de 2014, na sucessão do Acadêmico Ariano Suassuna, e recebido no dia 6 de março de 2015, pela Acadêmica Cleonice Berardinelli.

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MONSANTO E BAYER – Thomas de Toledo


Monsanto e Bayer

A doença é um ótimo negócio no capitalismo e a coisa funciona assim.

A Bayer compra a Monsanto, formando um truste.

A parte Monsanto joga veneno nas frutas, verduras, legumes e cereais.

As pessoas consomem e ficam doentes. Aí entra a Bayer com o remédio.

Ela não cura, mas a prolonga o tratamento para ganhar mais.

Como tem patentes e monopoliza o mercado, ela coloca o preço que quiser.

Da mesma forma que a agricultura com veneno é subsidiada pelo governo, o sistema público de saúde também pagará pelo tratamento.

O político bancado por essas empresas trabalha para tirar as restrições ao veneno e para encarecer o custo dos orgânicos.

Com aumento no número de doentes, ele promete construir hospitais.

O povo vota e ele trabalha para as empresas.

Assim, o Estado gira essa roda de envenenamento, doença, político vendido.

Quem paga para ficar doente e depois ser tratado é o próprio cidadão.

Coisas do capitalismo.

Para vencer isto, há três formas: vai pra Cuba, vira hippie ou luta pelos orgânicos, pela quebra de patentes, pelo desenvolvimento da ciência e por um SUS público e de qualidade.


AUTOR: Professor Thomas de Toledo



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quinta-feira, 5 de julho de 2018

O CRONISTA CYRO DE MATTOS - Por Henrique Frendich*




É preciso ter vivido muitos anos para saber que a recordação de certos fatos e coisas nada mais é do que saudade da vida que passa com os dias, semanas e meses. As pessoas, bichos, casas e ruas fogem como nuvens, ninguém pode retê-los. Infelizmente. Nesse tempo de mim procuro juntar fragmentos para me suavizar um pouco com essa saudade permeada de fatos, seres e coisas. De longe retorno agora no que houve para latejar sentimentos para mais eu em mim. (Cyro de Mattos)

A introdução da crônica “Esse tempo de mim bem pode servir como argumento para as outras que compõem Um Grapiúna em Frankfurt (Dobra Literatura, 2013), coletânea de Cyro de Mattos, também cronista da RUBEM. Suas crônicas são, justamente, fragmentos em que o escritor, impossibilitado de reter o tempo, suaviza-se através das recordações de histórias e pessoas que lhe marcaram a vida.

Assim é que o cronista revive episódios de uma infância no sul da Bahia, onde os desbravadores e, por extensão, os seus descendentes são chamados de grapiúna (o nome, de origem indígena, pode se referir a uma pequena ave preta que vive às margens do rio ou a um riacho preto, encontrado nas fazendas de cacau da região).

Nesta infância, sem jogos eletrônicos e com ruas pouco movimentadas, quando o trem ainda fazia parte da vida da cidade, Cyro de Mattos se lembra de antigos Natais, dos doces de sua avó Ana, do seu encantamento por Monteiro Lobato, de sua prima Gringa, de um singelo episódio de dor de dente. Mais crescido, o escritor se lembra da Boate ID e, através de uma fotografia amarelecida, recorda-se dos colegas da faculdade de Direito.

Estas são memórias mais pessoais, mas o livro também está recheado de pequenas biografias que contam episódios com personagens locais – às vezes célebres, como o amigo Jorge Amado, às vezes tipos locais, como o doido manso de apelido Jipe. Cyro de Mattos ressalta virtudes e aprendizados que encontrou através dessas convivências, através dessas amizades – e ele tem boas amizades que vêm desde a juventude e outras que nasceram graças ao milagre operado pela literatura.

Nem sempre, é claro, o cronista tem a felicidade de encontrar tipos tão admiráveis. Exemplo disso são os personagens de Quatro mosqueteiros do mal, todos tocando forte a clave da vaidade, conforme a metáfora usada pelo escritor em um dos textos mais significativos do livro, a crônica “A negação do outro”.

Embora reconheça que não é um político militante, Cyro de Mattos se diz alguém que teima em dar palavras aos sonhos, como faz em “Utopia dos Palmares”. É também com indignação que comenta a morte do rio de sua cidade enquanto os vereadores não mostram a menor preocupação com o dinheiro público. Em A cereja do bolo”, faz uma importante defesa da cultura, normalmente vista com miopia pela classe política.

E, não fosse a natureza, é possível que Cyro de Mattos desanimasse de tanto desgosto que encontra o mundo. Mas ele ainda ouve o clarim da garrincha anunciando que a noite chegou ao fim, admira o canto mavioso do sabiá, pergunta-se o que seria de nós se não existissem os passarinhos soltos no embalo festivo da natureza. São pequenos seres que, certamente, também latejam sentimentos para mais Cyro em Cyro.

*Henrique Frendich é jornalista e cronista. Editor da Revista virtual RUBEM, criada para homenagear o escritor  Rubem Braga. Tem como marca publicar  somente crônicas. Reside em Brasília.

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COPA DO MUNDO EM HELSINQUE - Péricles Capanema


5 de julho de 2018
♦  Péricles Capanema

A final da Copa do Mundo se dará em 15 de julho no Estádio Luzhniki, em Moscou. Grandes repercussões esportivas, celebrações e tristezas, que pouco a pouco se apagarão. Outra final, mais importante, acontecerá um dia depois, a 1124 quilômetros dali, em Helsinque (capital da Finlândia). Grandes repercussões políticas para todos, especialmente de imediato para os europeus. O que muitos temem, agravar-se-á ao longo dos dias.

O Kremlin e a Casa Branca [fotos acima] anunciaram simultaneamente que Donald Trump e Vladimir Putin se reunirão em Helsinque, 16 de julho. Sarah Huckabee, porta-voz do governo dos Estados Unidos, afirmou que as discussões versarão sobre segurança. O conselheiro Acácio dificilmente melhoraria a frase… Sauli Niinistö, presidente da Finlândia, por sua vez, garantiu que a agenda da cúpula será discutida nas duas próximas semanas.

De fato, nos bastidores, os temas já estão sendo aventados, há semanas provavelmente. E a cúpola dos dois líderes mundiais só se dará porque acerca dos assuntos a serem divulgados em Helsinque já houve acordo substancial. E também houve concordância, pelo menos nas linhas gerais, a respeito dos assuntos ventilados em reserva, e que não serão informados ao público.

O encontro dos dois presidentes, o terceiro, será mais importante, sob muitos aspectos, pela simbologia e pelo clima criado em Helsinque pelas duas superpotências. Antes haviam se reunido meio de passagem por ocasião do G-20 em Hamburgo, julho de 2017, e durante a conferência da APEC (Cooperação Econômica da Ásia e do Pacífico) em novembro de 2017. Agora é diferente, viagem só para o encontro, os Estados Unidos e a Rússia vão se encontrar para tratar dos seus mais importantes assuntos comuns.

Do local escolhido emana simbologia. Em Helsinque estiveram juntos Gerald Ford e Brejnev em 1975 [foto ao lado], do que resultou aprofundamento da détente (distensão). Ali se reuniram também George Bush e Gorbachev em 1990, no ambiente da glasnot e da perestroika, e ainda Bill Clinton e Boris Yeltsin em 1997. Sob vários aspectos, como em ocasiões anteriores, o mais importante será o clima que resultará da conferência.

E os assuntos? Lembro a frase conhecida, atribuída ao senador Valadares, “reunião, só depois do assunto decidido”. Já houve decisões. Na diplomacia e na política sempre foi assim. Os negócios provavelmente tratados causam temores nas capitais europeias. Declarações recentes do Presidente dos Estados Unidos a propósito não tranquilizaram: “Já disse desde o primeiro dia — estar bem com a Rússia, estar bem com a China, estar bem com todos é coisa muito boa”.

Estar bem com a China, estar bem com a Rússia, já deixa muita gente mal à vontade, pois com que subliminarmente delimita o campo só para três grandes players. O restante vai para o segundo plano. Ademais, hoje estar bem com a Rússia, significa não estar bem com todo mundo. Muita gente vai ser prejudicada na política de estar bem com a Rússia. Quem?

O caso da Crimeia está na pauta. Pelo jeito, os Estados Unidos caminharão para acomodação, deixando a Europa isolada. Com o tempo, a Europa tenderá também à acomodação, é a esperança de Moscou. De outro lado, a situação da Ucrânia apresenta pontos semelhantes. Daí, como ficarão as nações que fazem fronteira com a Rússia? Que valor têm as atuais garantias norte-americanas relativas à efetiva independência delas?

O grande tema do encontro começa a aparecer claro: zonas de influência. Os Estados Unidos deixarão que imerja uma ainda não oficial zona de influência russa? Existiu na prática durante toda a Guerra Fria. Voltará?

Outros temas. O futuro da Síria. Relações entre Pequim, Washington e Moscou. Não foi veiculado, mas existe ainda sobre a mesa o apoio russo ao regime de Nicolás Maduro, ingerência brutal e crescente na América do Sul. Como reagirão os Estados Unidos?

Donald Trump estará em Bruxelas em 11 e 12 de julho para reunião da OTAN — encontro de Chefes de Estado. Depois irá à Inglaterra em 13 de julho. Londres se sentiu enfraquecida em sua posição de isolar Vladimir Putin com o anúncio da cúpula na Finlândia. A seguir, no dia 16, o presidente dos Estados Unidos encontrará Vladimir Putin. Ele não poderá em Bruxelas reafirmar fortemente os laços com a OTAN — organização fundada para fazer frente ao expansionismo soviético e hoje barreira contra os sonhos do grão-nacionalismo imperialista de Putin —, se quiser trombetear êxitos em Helsinque. E nem é provável que apoie a posição firme de Londres em relação ao autocrata russo. Para chegar em Helsinque com possibilidades de triunfo publicitário, o presidente dos Estados Unidos precisaria baixar o tom no endosso público aos objetivos da OTAN e à diplomacia de Therese May em seus esforços para conter o expansionismo russo.

Em vista das preocupações provocadas pelo quadro geral, John Bolton, assessor para a Segurança Nacional dos Estados Unidos, procurou jogar água na fervura: “Não penso que devamos, necessariamente, esperar resultados específicos ou decisões. É importante, depois de certo tempo sem cúpula bilateral, permitir que os presidentes conversem sobre todos os temas que queiram, seja privadamente ou em reunião ampliada. Seguiremos suas diretrizes depois de tais discussões”.

Nessas circunstâncias, só fatos — e não palavras — podem acalmar. Daqui a duas semanas conheceremos os resultados de verdadeira final de Copa do Mundo no âmbito político. Os divulgados. Acalmarão? Que Deus nos ajude!


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quarta-feira, 4 de julho de 2018

ABL: POETA, PROFESSOR E ENSAÍSTA ALBERTO PUCHEU ABRE NA ABL O CICLO DE CONFERÊNCIAS ‘POESIA E FILOSOFIA’.



A Academia Brasileira de Letras abre seu ciclo de conferências do mês de julho de 2018, intitulado Poesia e filosofia, com palestra do poeta, professor e ensaísta Alberto Pucheu. A coordenação será do Acadêmico Antonio Cicero. O tema escolhido foi Espantografias: entre poesia e filosofia. O evento está programado para quinta-feira, dia 5 de julho, às 17h30min, no Teatro R. Magalhães Jr., Avenida Presidente Wilson 203, Castelo, Rio de Janeiro. Entrada franca.

A Acadêmica e escritora Ana Maria Machado, Primeira-Secretária da ABL, é a Coordenadora-Geral dos ciclos de conferências deste ano.

Serão fornecidos certificados de frequência.

De acordo com o palestrante, a conferência será uma abordagem da relação entre poesia e filosofia no momento de seu nascimento na Grécia antiga. “Abordando termos que em Platão e Aristóteles são atribuídos tanto à origem da filosofia quanto ao determinante na poesia, será privilegiado, sobretudo, o “espanto” (a “admiração”, o “assombro”), mas também seus vínculos com a “aporia” (impasse), como alguns dos que transitam da poesia para a filosofia gregas, mostrando vínculos de experiências e terminológicos entre elas que fazem com que, de certo modo, sejam a mesma, ou tenham suas fronteiras desguarnecidas, ou se indiscernibilizem”.

Poesia e Filosofia terá mais duas palestras, sempre às quintas-feiras, no mesmo local e horário, com os seguintes dias, conferencistas e temas, respectivamente: dia 12, Acadêmico Antonio Cicero, A poesia e a filosofia no mundo contemporâneo; e 26, o ensaísta e professor Evandro Nascimento, Uma literatura pensante: Pessoa, Clarice e as plantas

O CONFERENCISTA

Enquanto poeta, teve os seguintes livros publicados: Na cidade abertaEscritos da frequentaçãoA fronteira desguarnecida (este livro foi concluído com o apoio do Programa de Bolsas para Escritores Brasileiros da Fundação Biblioteca Nacional); Ecometria do silêncio; A vida é assim; Escritos da indiscernibilidade; A fronteira desguarnecida; Poesia Reunida; Mais cotidiano que o cotidiano; Designação provisória(com Victor Heringer); Para que poetas em tempos de terrorismo?.

Publicou os seguintes livros de ensaio: Pelo colorido, para além do cinzento; a literatura e seus entornos interventivos (com este, recebeu o Prêmio Mário de Andrade, Ensaio Literário, da Fundação Biblioteca Nacional/Minc); Giorgio Agamben: poesia, filosofia, crítica; Antônio Cícero por Alberto Pucheu; O amante da literatura; Roberto Corrêa dos Santos: o poema contemporâneo enquanto o ensaio teórico-crítico-experimental; A poesia contemporânea; Kafka poeta; Que porra é essa – poesia?. Organizou diversos livros e números de revistas e periódicos.

29/06/2018

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NÃO! VOCÊ NÃO É MEIO PSICÓLOGO! - Yrma Karolynne



Não, você não é meio psicólogo quando dá conselhos para alguém. Isso é ser amigo.

Não, você não é meio psicólogo quando gosta de conversar com as pessoas. Isso é ser simpático.

Não, você não é meio psicólogo quando dá aconselhamento pastoral na sua igreja. Isso é ser voluntário, pastor, padre... E cuidar de sua ovelha.

Não, você não é meio psicólogo quando gosta de ouvir as pessoas. Isso é ser um bom ouvinte.

Não, você não é meio psicólogo quando acha que sabe ler o futuro de alguém. Isso quem diz que faz é cartomante ou vidente.

Não, você não é meio psicólogo quando tenta se por no lugar do outro. Isso é ser empático.

Não, você não é meio psicólogo quando gosta de saber da vida dos outros. Isso é ser bisbilhoteiro.
(...)

Parem de banalizar uma profissão tão séria como a PSICOLOGIA.

O psicólogo estuda, no mínimo, cinco anos, disciplinas difíceis como:

Anatomia humana,
Psicodiagnóstico,
Psicopatologia,
Estatística,
Psicometria,
Teorias e Sistemas Psicológicos diversos,
Desenvolvimento Humano,
Psicologia Jurídica,

Estuda o CID, o DSM entre tantas outras, para obter seu diploma, e a vida inteira para lidar com o sofrimento do outro.

O psicólogo faz Especializações, Cursos, Seminários, Conferências, etc., para se tornar um bom profissional, se atualizar sempre, e lidar com a dor do outro.

Isso é coisa séria!

Então, por favor, pare de dizer que você é meio psicólogo, porque Psicologia é uma profissão que exige inteireza.

Seja que área for: Clínica, RH, Educacional, Hospitalar, Jurídica.

Aos profissionais que se dedicaram e se dedicam à análise pessoal, aos estudos continuados e hoje são excelentes psicólogos, parabéns!


(Yrma Karolynne)


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HISTÓRIAS DA MÃE NATUREZA - Paulo Coelho


O leão e os gatos

Um leão encontrou um grupo de gatos conversando. "Vou devorá-los", pensou.
Mas começou a sentir-se estranhamente calmo. E resolveu sentar-se com eles, para prestar atenção no que diziam.
- Meu bom Deus - disse um dos gatos, sem notar a presença do leão. - Oramos a tarde inteira! Pedimos que chovessem ratos do céu!
- E, até agora, nada aconteceu! - disse outro. - Será que o Senhor não existe?
O céu permaneceu mudo. E os gatos perderam a fé.
O leão levantou-se, e seguiu seu caminho, pensando: "veja como são coisas. Eu ia matar estes animais, mas Deus me impediu. Mesmo assim, eles pararam de acreditar nas graças divinas: estavam tão preocupados com o que estava faltando, que nem repararam na proteção que receberam".
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Em silêncio

A árvore estava tão cheia de maçãs, que seus galhos não conseguiam se mexer com o vento.
- Por que não fazes barulho? Afinal, todos nós temos alguma vaidade, e precisamos chamar a atenção dos outros - comentou o bambu.
- Não preciso. Meus frutos são minha melhor propaganda - respondeu a árvore.
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A margarida e o egoísmo

"Sou uma margarida num campo de margaridas", pensava a flor. "No meio das outras, é impossível notar minha beleza".
Um anjo escutou o que ela pensava, e comentou:
- Mas você é tão bonita!
- Quero ser única!
Para não ouvir reclamações, o anjo a transportou até a praça de uma cidade.
Dias depois, o prefeito foi até lá com um jardineiro, para reformar o local.
- Aqui não tem nada que interessa. Revirem a terra e plantem gerânios.
- Um minuto! - gritou a margarida. - Assim vocês vão me matar!
- Se existissem outras como você, poderíamos fazer uma bela decoração - respondeu o prefeito. Mas é impossível encontrar margaridas nas redondezas, e você, sozinha, não faz um jardim.
Logo em seguida arrancou a flor.
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A solidariedade

O leitor Álvaro Conegundes conta que, durante a era glacial, muitos animais morriam por causa do frio. Os porcos-espinhos, percebendo a situação, resolveram se juntar em grupo; assim, se agasalhavam e protegiam mutuamente.
Mas os espinhos de cada um feriam os companheiros mais próximos e, por isto, tornaram a se afastar uns dos outros.
Voltaram a morrer congelados. E precisaram fazer uma escolha: ou desapareciam da face da Terra, ou aceitavam os espinhos do semelhante.
Com sabedoria, decidiram voltar a ficar juntos. Aprenderam a conviver com as pequenas feridas que uma relação muito próxima podia causar, - já que o mais importante era o calor do outro.
E terminaram sobrevivendo.

Diário do Nordeste, 30/06/2018



 

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