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domingo, 17 de março de 2019

DUAS HISTÓRIAS SOBRE O ENCONTRO COM DEUS - Paulo Coelho


O discípulo impaciente

Após uma exaustiva sessão matinal de orações no monastério de Piedra, o noviço perguntou ao abade:
- Todas estas orações que o senhor nos ensina, fazem com que Deus se aproxime de nós?
- Vou respondê-lo com outra pergunta - disse o abade. - Todas estas orações que você reza irão fazer o sol nascer amanhã?
- Claro que não! O sol nasce porque obedece a uma lei universal!
- Então, esta é a resposta à sua pergunta. Deus está perto de nós, independente das preces que fazemos.
O noviço revoltou-se:
- O senhor que dizer que nossas orações são inúteis?
- Absolutamente. Se você não acorda cedo, nunca conseguirá ver o sol nascendo. Se você não reza, embora Deus esteja sempre perto, você nunca conseguirá notar Sua presença.
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Eu quero encontrar Deus
O homem chegou exausto no mosteiro:
- Venho procurando Deus há muito tempo - disse. - Talvez o senhor me ensine a maneira correta de encontrá-lo.
- Entre e veja nosso convento - disse o padre, pegando- o pelas mãos e levando-o até a capela. - Aqui estão as mais belas obras de arte do século XVI, que retratam a vida do Senhor, e a Sua glória junto aos homens.
O homem aguardou, enquanto o padre explicava cada uma das belas pinturas e esculturas que adornavam a capela. No final, repetiu a pergunta:
- Muito bonito tudo o que vi. Mas eu gostaria de aprender a maneira mais correta de encontrar Deus.
- Deus! - respondeu o padre. - Você disse muito bem: Deus!
E levou o homem até o refeitório, onde estava sendo preparado o jantar dos monges.
- Olhe a sua volta: daqui a pouco será servido o jantar, e você está convidado para comer conosco. Poderá ouvir a leitura das Escrituras, enquanto sacia sua fome.
- Não tenho fome, e já li todas as escrituras - insistiu o homem. - Quero aprender. Vim até aqui para encontrar Deus.
O padre de novo pegou o estranho pelas mãos, e começaram a caminhar pelo claustro, que circundava um belo jardim.
- Peço aos meus monges para manterem a grama sempre cortada, e que tirem as folhas secas da água da fonte que você vê ali no meio. Penso que este é o mosteiro mais limpo de toda a região.
O estranho caminhou um pouco com o padre, depois pediu licença, dizendo que precisava ir embora.
- Você não vai ficar para jantar? Perguntou o padre.
Enquanto montava no seu cavalo, o estranho comentou:
- Parabéns por sua bela igreja, pelo refeitório acolhedor, pelo pátio impecavelmente limpo. Entretanto, eu viajei muitas léguas apenas para aprender a encontrar Deus, e não para deslumbrar-me com eficiência, conforto, e disciplina.
Um trovão caiu do céu, o cavalo relinchou forte, e a terra foi sacudida. De repente, o estranho tirou seu disfarce, e o padre viu que estava diante de Jesus.
- Deus está onde o deixam entrar - disse Jesus. - Mas vocês fecharam a porta deste mosteiro para ele, usando regras, orgulho, riqueza, ostentação. Da próxima vez que um estranho se aproximar pedindo para encontrar Deus, não mostre o que vocês conseguiram em nome Dele: escute a pergunta, e tente respondê-la com amor, caridade, e simplicidade.
Dizendo isso, desapareceu.
Diário de Pernambuco, 22/11/2010

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Paulo Coelho - Oitavo ocupante da Cadeira nº 21 da ABL, eleito em 25 de julho de 2002 na sucessão de Roberto Campos e recebido em 28 de outubro de 2002 pelo Acadêmico Arnaldo Niskier.

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quarta-feira, 19 de setembro de 2018

DEUS É HUMOR- Paulo Coelho


Deus é humor

Três mulheres e seus filhos  

Três mulheres conversam sobre as qualidades de seus filhos. Diz a primeira:

- Fico contente que ele tenha decidido seguir o sacerdócio: toda vez que entra em uma sala, as pessoas o olham com respeito e dizem: "Meu padre!".

Os olhos da segunda brilham, e ela comenta:

- Pois eu fico mais contente ainda em saber que meu filho não apenas seguiu o sacerdócio, como foi nomeado cardeal. Assim, quando entra em uma sala, as pessoas abaixam respeitosamente a cabeça, beijam sua mão, e dizem: "Sua Graça!".

A terceira mulher permanece em silêncio. As outras duas se viram para ela e perguntam:

- E seu filho?

- Bem, meu filho... Ele tem um metro e oitenta, é louro, tem olhos azuis. Toda vez que entra em uma sala, as pessoas olham umas para as outras e dizem: "Meu Deus!".


O motorista de táxi e o padre

Assim que morreu, o padre foi direto ao Paraíso. Ali chegando, foi bem recebido por São Pedro, passeou pelos jardins, e de repente se deu conta que um motorista de táxi de sua paróquia, que tinha falecido alguns anos antes em um acidente de carro porque dirigia muito mal, estava ocupando uma esfera mais alta na hierarquia celeste.

- Eu não entendo - reclamou com São Pedro. - Devotei minha vida inteira à minha congregação, e aquele homem nada fez para merecer estar aqui!

- Bem, aqui no Céu nós sempre damos importância aos resultados. Diga-me o seguinte: as pessoas estavam sempre atentas ao que o senhor dizia?

- Na verdade, devo confessar que nem sempre conseguia exprimir direito a importância da fé. Às vezes, notava que certos paroquianos dormiam durante meus sermões.

- Pois então agora o senhor entende porque este motorista tem tantos privilégios aqui. Quando as pessoas entravam em seu táxi, até mesmos alguns ateus se convertiam: elas não apenas permaneciam despertas, como rezavam o tempo todo!


Mantendo a palavra dada

Dois irmãos, de péssimo caráter, costumavam explorar os trabalhadores de sua aldeia. Mas para manter as aparências, frequentavam a igreja aos domingos.

O antigo pastor resolveu aposentar-se, e um novo foi transferido para o lugar - um homem jovem, com a reputação de falar sempre a verdade, dono de um imenso carisma. Cheio de entusiasmo, resolveu fazer uma série de reformas no templo; quando começou a coleta de doações entre os fieis, um dos irmãos malvados morreu.

Na véspera do enterro, o outro irmão procurou o pastor, e entregou-lhe um cheque com a quantia suficiente para terminar os trabalhos que estavam sendo feitos.

- Mas existe uma única condição - disse. - Amanhã, na hora de encomendar o corpo, o senhor precisa dizer que meu irmão foi um verdadeiro santo. Sei que o senhor jamais falta com a palavra dada.

O pastor prometeu fazer o que ele pedia, recebeu o cheque, e retirou o dinheiro.

No dia seguinte, cumpriu sua palavra:

- Este era um homem mau - disse ele durante a cerimônia. - Explorava os mais pobres, emprestava dinheiro a juros extorsivos, enganava sua esposa, e abusava dos mais fracos.

Depois de uma pausa, concluiu:

- Mas, comparado com o seu irmão que ainda está entre nós, o morto era um verdadeiro santo.

Diário do Nordeste, 15/09/2018



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Paulo Coelho - Oitavo ocupante da Cadeira nº 21 da ABL, eleito em 25 de julho de 2002 na sucessão de Roberto Campos e recebido em 28 de outubro de 2002 pelo Acadêmico Arnaldo Niskier.

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quarta-feira, 5 de setembro de 2018

AS OUTRAS FORMAS DE AMOR: PHILOS E ÁGAPE - Paulo Coelho



Em 1986, na cidade de Logroño, participávamos de um casamento quando o meu guia, Petrus, começou a falar das três palavras que os gregos usam para designar amor: Eros, Philos e Ágape. Segundo ele, isso já tinha sido dito anteriormente por Martin Luther King, mas valia a pena recordar que o mais importante sentimento do homem podia ser dividido. Começou explicando o que era Eros - a atração saudável e necessária que um ser humano sente pelo outro. Em seguida, continuou, apontando para um casal de velhos:

- Veja aqueles dois: não se deixaram contagiar pela hipocrisia, como muitos outros. Pela aparência deve ser um casal de lavradores: a fome e a necessidade os obrigou a superarem juntos muitas dificuldades. Descobriram a força do amor através do trabalho, que é onde Eros mostra sua face mais bela, também conhecida como Philos.

- O que é Philos?
- Philos é o Amor sobre a forma de amizade. É aquilo que eu sinto por você e pelos outros. Quando a chama de Eros não consegue mais brilhar, é Philos que mantém os casais juntos.

- E Ágape?
- Ágape é o amor total, o amor que devora quem o experimenta. Quem conhece e experimenta Ágape, vê que nada mais neste mundo tem importância, apenas amar. Este foi o amor que Jesus sentiu pela humanidade, e foi tão grande que sacudiu as estrelas e mudou o curso da história do homem.

"Durante os milênios da história da Civilização, muitas pessoas foram tomadas por este Amor que Devora. Elas tinham tanto para dar - e o mundo exigia tão pouco - que foram obrigadas a buscar os desertos e lugares isolados, porque o Amor era tão grande que as transfigurava. Viraram os santos ermitãos que hoje nós conhecemos".

"Para mim e para você, que experimentamos outra forma de Ágape, esta vida aqui pode parecer dura, terrível. Entretanto, o Amor que Devora faz com que tudo perca a importância: estes homens vivem apenas para serem consumidos pelo seu Amor".

Deu uma pausa.

- Ágape é o Amor que Devora - repetiu mais uma vez, como se esta fosse a frase que melhor definisse aquela estranha espécie de amor. - Luther King certa vez disse que, quando Cristo falou de amar os inimigos, estava referindo-se à Ágape, porque, segundo ele, era "impossível gostar de nossos inimigos, daqueles que nos fazem mal, e que tentam amesquinhar mais o nosso sofrido dia a dia".
"Mas Ágape é muito mais que gostar. É um sentimento que invade tudo, que preenche todas as frestas, e faz com que qualquer tentativa de agressão se torne pó".

"Existem duas formas de Ágape. Uma é o isolamento, a vida dedicada apenas à contemplação. A outra é exatamente o contrário: o contacto com os outros seres humanos, e o entusiasmo, o sentido sagrado do trabalho. Entusiasmo significa transe, arrebatamento, ligação com Deus. O Entusiasmo é Ágape dirigido a alguma ideia, alguma coisa".

"Quando amamos e acreditamos do fundo de nossa alma em algo, nos sentimos mais fortes que o mundo, e somos tomados de uma serenidade que vem da certeza de que nada poderá vencer nossa fé. Esta força estranha faz com que sempre tomemos as decisões certas, na hora exata, e ficamos surpresos com nossa própria capacidade quando atingimos o nosso objetivo".

"O Entusiasmo se manifesta normalmente com todo o seu poder nos primeiros anos de nossas vidas. Ainda temos um laço forte com a divindade, e nos atiramos com tal vontade aos nossos brinquedos, que as bonecas passam a ter vida e os soldadinhos de chumbo conseguem marchar. Quando Jesus falou que era das crianças o reino dos Céus, ele se referia à Ágape sob a forma de Entusiasmo. As crianças chegaram até ele sem ligar para seus milagres, sua sabedoria, os fariseus e os apóstolos. Vinham alegres, movidas pelo Entusiasmo".

"Que em momento algum, pelo resto deste ano, e pelo resto de sua vida, você perca o entusiasmo: ele é uma força maior, voltada para a vitória final. Não se pode deixar que ele escape por nossos dedos só porque nos enfrentamos, no decorrer dos meses, com pequenas e necessárias derrotas".

Diário do Nordeste , 25/08/2018

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Paulo Coelho - Oitavo ocupante da Cadeira nº 21 da ABL, eleito em 25 de julho de 2002 na sucessão de Roberto Campos e recebido em 28 de outubro de 2002 pelo Acadêmico Arnaldo Niskier.

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terça-feira, 21 de agosto de 2018

DAS TRÊS FORMAS DE AMOR: EROS - Paulo Coelho


Em 1986, enquanto fazia o caminho de Santiago com Petrus, o meu guia, passamos pela cidade de Logroño enquanto se realizava um casamento. Pedimos dois copos de vinho, preparei mm prato de canapés, e Petrus descobriu uma mesa onde pudéssemos sentar junto com outros convidados.

O casal de noivos cortou um imenso bolo.

- Eles devem se amar - pensei em voz alta.

- É claro que eles se amam - disse um senhor de terno escuro que estava sentado na mesa. Você já viu alguém casar por outro motivo?

Mas Petrus não deixou passar a pergunta:

- A que tipo de amor o senhor se refere: Eros, Philos ou Ágape?

O senhor olhou sem entender nada.

- Existem três palavras gregas para designar o amor - disse ele. - Hoje você está vendo a manifestação de Eros, aquele sentimento entre duas pessoas.

Os noivos sorriam para os flashes e recebiam cumprimentos.

- Parece que os dois se amam. Dentro de pouco tempo estarão lutando sozinhos pela vida, vão montar uma casa, e vão participar da mesma aventura: isto engrandece e torna digno o amor. Ele vai seguir sua carreira, ela deve saber cozinhar e será uma excelente dona-de-casa, porque foi educada desde criança para isto. Vai acompanhá-lo, terão filhos, e se conseguirem construir alguma coisa juntos, serão realmente felizes para sempre.

"De repente, entretanto, esta história pode acontecer de maneira inversa. Ele vai começar a sentir que não é livre o suficiente para manifestar todo o Eros, todo o amor que tem por outras mulheres. Ela pode começar a sentir que sacrificou uma carreira e uma vida brilhante para acompanhar o marido. Então, ao invés da criação conjunta, cada um irá sentir-se roubado em sua maneira de amar. Eros, o espírito que os une, irá começar a mostrar apenas seu lado mau. E aquilo que Deus havia destinado ao homem como seu mais nobre sentimento, passará a ser fonte de ódio e destruição".

Olhei em volta. Eros estava presente em vários casais. Mas eu podia sentir a presença de Eros Bom e Eros Mau, exatamente como Petrus havia descrito.

- Repare como é curioso - continuou meu guia. - Apesar de ser bom ou ser mau, a face de Eros nunca é a mesma em cada pessoa.

A banda começou a tocar uma valsa. As pessoas foram para um pequeno espaço de cimento em frente ao coreto para dançar. O álcool começava a subir e todos estavam mais suados e mais alegres. Notei uma menina vestida de azul, que deve ter esperado este casamento apenas para que chegasse o momento da valsa, porque queria dançar com alguém com quem sonhava estar abraçada desde que entrou na adolescência. Seus olhos seguiam os movimentos de um rapaz bem vestido, de terno claro, que estava numa roda de amigos. Eles conversavam alegremente, não haviam percebido que a valsa tinha começado, não notavam que a alguns metros de distância uma menina de azul olhava insistentemente para um deles.

Pensei nas cidades pequenas, nos casamentos sonhados desde a infância com o rapaz escolhido.

A menina de azul reparou meu olhar e saiu de perto. E como se todo o movimento estivesse combinado, foi a vez do rapaz procurá-la com os olhos. Ao descobrir que ela estava perto de outras garotas, voltou a conversar animadamente com os amigos.

Chamei a atenção de Petrus para os dois. Ele acompanhou durante algum tempo o jogo de olhares, e depois voltou ao seu copo de vinho.

- Agem como se fosse uma vergonha demonstrar que se amam - foi seu único comentário.

Outra menina olhava fixamente para nós dois: devia ter metade de nossa idade. Petrus levantou o copo de vinho, fez um brinde, a garota riu encabulada, e fez um gesto apontando para os pais, quase se desculpando por não chegar mais perto.

- Este é o lado belo do amor - disse. - O amor que desafia, o amor por dois estranhos mais velhos que vieram de longe, e amanhã já partiram por um caminho que ela também gostaria de percorrer. O amor que prefere a aventura.

Diário do Nordeste , 18/08/2018



Paulo Coelho - Oitavo ocupante da Cadeira nº 21, eleito em 25 de julho de 2002 na sucessão de Roberto Campos e recebido em 28 de outubro de 2002 pelo Acadêmico Arnaldo Niskier.

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quinta-feira, 16 de agosto de 2018

MAIS HISTÓRIAS DE AMIGOS E DESCONHECIDOS - Paulo Coelho


Um aposentado que não parou  

Em Los Angeles sou apresentado a W. Frasier, que escreveu durante toda sua vida sobre a conquista do Oeste americano. Seu maior orgulho é ostentar em seu currículo o roteiro de um filme estrelado por Gary Cooper.

- Raramente me aborreci com algo, porque aprendi muita coisa com os pioneiros americanos - diz ele. - Lutavam contra os índios, cruzavam desertos, buscavam água e comida em regiões remotas. E todos os registros da época mostram uma característica curiosa: os pioneiros só escreviam ou conversavam sobre as coisas BOAS.

"Ao invés de reclamar, compunham músicas e faziam piadas sobre suas aventuras: assim conseguiam afastar o desânimo e a depressão. Hoje, com meus 88 anos, procuro me comportar da mesma forma, e me sinto vivo".


A criança que comia livros

Estava assinando livros em Minneapolis, quando um dos leitores me pediu que fizesse uma dedicatória para seu filho de 16 meses de idade.

- Não acha um pouco cedo para ele? - perguntei brincando.

- Não - respondeu o rapaz. -Ele gosta muito de livros: costuma comê-los todos.

Mais tarde, comentando com alguns amigos, fiquei sabendo que o rapaz não estava brincando. Nos Estados Unidos, os pais acostumam desde cedo a criança com a presença de livros. Na hora de dormir, junto com o famoso ursinho, existe sempre um livro por perto. Na hora de tomar banho, um livro de plástico faz companhia aos barquinhos e brinquedos de banheira.

Aos poucos, a criança vai se familiarizando com aquele estranho objeto, e termina aceitando o livro como parte importante de sua vida.


Vencendo apenas uma noite

Aos 12 anos de idade, Milton Ericksson foi vítima da poliomielite. Dez meses depois de contrair a doença, escutou um médico dizer a seus pais: "seu filho não passa desta noite".

Ericksson ouviu o choro de sua mãe. "Quem sabe, se eu passar desta noite, ela talvez não sofra tanto?", pensou. E decidiu não dormir até o dia amanhecer.

De manhã gritou: "Ei mãe! Eu continuo vivo!".

A alegria em casa foi tanta que, a partir daí, resolveu resistir sempre mais uma noite, para adiar o sofrimento dos pais.

Morreu em 1990, aos 75 anos, deixando uma série de livros importantes sobre a enorme capacidade que o homem tem para vencer suas próprias limitações.


Restaurando a teia

Em New York, vou tomar chá no final da tarde com uma artista bastante incomum. Ela trabalha num banco em Wall Street, mas certo dia teve um sonho: precisava ir a 12 lugares do mundo, e em cada um destes lugares, fazer um trabalho de pintura e escultura na própria natureza.

Por enquanto, já conseguiu realizar quatro destes trabalhos. Ela me mostra as fotos de um deles: um índio esculpido em uma caverna na Califórnia. Enquanto aguarda os sinais através dos sonhos, continua trabalhando no banco - assim consegue dinheiro para viajar e realizar sua tarefa.

Pergunto por que faz isto.

- Para manter o mundo em equilíbrio - responde. - Pode parecer bobagem, mas existe alguma coisa tênue, unindo todos nós, e que podemos melhorar ou piorar à medida que vamos agindo. Podemos salvar os destruir muita coisa com um simples gesto que às vezes parece absolutamente inútil.

"Pode até ser que meus sonhos sejam bobagem, mas não quero correr o risco de não seguí-los: para mim, as relações entre os homens são iguais a uma imensa e frágil teia de aranha. Com meu trabalho, estou tentando remendar alguma parte desta teia".

Diário do Nordeste , 11/08/2018


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Paulo Coelho - Oitavo ocupante da Cadeira nº 21, eleito em 25 de julho de 2002 na sucessão de Roberto Campos e recebido em 28 de outubro de 2002 pelo Acadêmico Arnaldo Niskier.


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terça-feira, 31 de julho de 2018

O PODER DA PALAVRA - Paulo Coelho



Destruindo o seu próximo

Malba Tahan ilustra os perigos da palavra: uma mulher tanto falou que seu vizinho era ladrão, que o rapaz acabou preso. Dias depois, descobriram que era inocente; o rapaz foi solto processou a mulher.

– Comentários não são tão graves – disse ela para o juiz.

– De acordo – respondeu o magistrado. – Hoje, ao voltar para casa, escreva tudo que disse de mal sobre o rapaz; depois pique o papel, e jogue os pedaços no caminho. Amanhã volte para ouvir a sentença.

A mulher obedeceu, e voltou no dia seguinte.

– A senhora está perdoada se me entregar os pedaços do papel que espalhou ontem. Caso contrário, será condenada a um ano de prisão – declarou o magistrado.

– Mas é impossível? O vento já espalhou tudo!

– Da mesma maneira, um simples comentário pode ser espalhado pelo vento, destruir a honra de um homem, e depois é impossível consertar o mal já feito.

E enviou a mulher para o cárcere.


Uma lenda do Polo Norte

Conta uma lenda esquimó que, na aurora do mundo, não havia qualquer diferença entre homens e animais: todas as criaturas viviam em harmonia sobre a face da Terra, e cada uma podia transformar-se na outra, a fim de entendê-la melhor. Os homens viravam peixes, os peixes viravam homens, e todos falavam a mesma língua.

“Nesta época”, continua a lenda, “as palavras eram mágicas, e o mundo espiritual distribuía fartamente suas bênçãos. Uma frase dita ao acaso podia ter estranhas consequências; bastava pronunciar um desejo que este se realizava”.

Foi então que todas as criaturas começaram a abusar deste poder. A confusão se instalou, e a sabedoria se perdeu.

“Mas a palavra continua mágica, e a sabedoria ainda concede o dom de fazer milagres a todos que a respeitam”, conclui a lenda.


Os tempos difíceis

Um homem vendia laranjas no meio de uma estrada. Era analfabeto, de modo que nunca lia jornais. Colocava pelo caminho alguns cartazes, e passava o dia apregoando o sabor de sua mercadoria.
Todos compravam, e o homem progrediu. Com o dinheiro, colocou mais cartazes, e passou a vender mais frutas. O negócio progredia rapidamente quando seu filho – que era culto e havia estudado numa grande cidade – procurou-o:

– Papai, você não sabe que o Brasil está atravessando momentos difíceis? A economia do país anda péssima!

Preocupado, o homem reduziu o número de cartazes, e passou a revender mercadoria de pior qualidade, porque era mais barata. As vendas despencaram imediatamente.

“Meu filho tem razão”, pensou ele. “Os tempos estão muito difíceis”.


O manual de instruções

Depois de comprar uma nova máquina de descascar legumes, a mulher tentou – usando o manual de instruções – fazer com que funcionasse. Terminou por desistir, deixando as peças espalhadas na mesa. Foi ao mercado, e ao voltar descobriu que a empregada tinha montado o aparelho.

“Mas como conseguiu isso?”, perguntou, surpresa.

“Bem, como não sei ler, fui obrigada a usar a cabeça”, foi a resposta.

Diário do Nordeste , 28/07/2018


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Paulo Coelho - Oitavo ocupante da Cadeira nº 21 da ABL, eleito em 25 de julho de 2002 na sucessão de Roberto Campos e recebido em 28 de outubro de 2002 pelo Acadêmico Arnaldo Niskier.

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quarta-feira, 4 de julho de 2018

HISTÓRIAS DA MÃE NATUREZA - Paulo Coelho


O leão e os gatos

Um leão encontrou um grupo de gatos conversando. "Vou devorá-los", pensou.
Mas começou a sentir-se estranhamente calmo. E resolveu sentar-se com eles, para prestar atenção no que diziam.
- Meu bom Deus - disse um dos gatos, sem notar a presença do leão. - Oramos a tarde inteira! Pedimos que chovessem ratos do céu!
- E, até agora, nada aconteceu! - disse outro. - Será que o Senhor não existe?
O céu permaneceu mudo. E os gatos perderam a fé.
O leão levantou-se, e seguiu seu caminho, pensando: "veja como são coisas. Eu ia matar estes animais, mas Deus me impediu. Mesmo assim, eles pararam de acreditar nas graças divinas: estavam tão preocupados com o que estava faltando, que nem repararam na proteção que receberam".
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Em silêncio

A árvore estava tão cheia de maçãs, que seus galhos não conseguiam se mexer com o vento.
- Por que não fazes barulho? Afinal, todos nós temos alguma vaidade, e precisamos chamar a atenção dos outros - comentou o bambu.
- Não preciso. Meus frutos são minha melhor propaganda - respondeu a árvore.
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A margarida e o egoísmo

"Sou uma margarida num campo de margaridas", pensava a flor. "No meio das outras, é impossível notar minha beleza".
Um anjo escutou o que ela pensava, e comentou:
- Mas você é tão bonita!
- Quero ser única!
Para não ouvir reclamações, o anjo a transportou até a praça de uma cidade.
Dias depois, o prefeito foi até lá com um jardineiro, para reformar o local.
- Aqui não tem nada que interessa. Revirem a terra e plantem gerânios.
- Um minuto! - gritou a margarida. - Assim vocês vão me matar!
- Se existissem outras como você, poderíamos fazer uma bela decoração - respondeu o prefeito. Mas é impossível encontrar margaridas nas redondezas, e você, sozinha, não faz um jardim.
Logo em seguida arrancou a flor.
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A solidariedade

O leitor Álvaro Conegundes conta que, durante a era glacial, muitos animais morriam por causa do frio. Os porcos-espinhos, percebendo a situação, resolveram se juntar em grupo; assim, se agasalhavam e protegiam mutuamente.
Mas os espinhos de cada um feriam os companheiros mais próximos e, por isto, tornaram a se afastar uns dos outros.
Voltaram a morrer congelados. E precisaram fazer uma escolha: ou desapareciam da face da Terra, ou aceitavam os espinhos do semelhante.
Com sabedoria, decidiram voltar a ficar juntos. Aprenderam a conviver com as pequenas feridas que uma relação muito próxima podia causar, - já que o mais importante era o calor do outro.
E terminaram sobrevivendo.

Diário do Nordeste, 30/06/2018



 

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sexta-feira, 29 de junho de 2018

OBSERVANDO OS OUTROS - Paulo Coelho


A velha em Copacabana

 Ela estava no calçadão da Avenida Atlântica, com um violão, e uma placa escrita à mão: "Vamos cantar juntos".
Começou a tocar sozinha. Depois chegou um bêbado, uma outra velhinha, e começaram a cantar com ela. Daqui a pouco uma pequena multidão cantava, e outra pequena multidão servia de plateia, batendo palmas no final de cada número.
"Por que faz isto?", perguntei, entre uma música e outra.
"Para não ficar sozinha", disse ela. "Minha vida é muito solitária, como a vida de quase todos os velhos".
Oxalá todos resolvessem seus problemas desta maneira.
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O amigo em Sidney

"Às vezes a gente se acostuma com o que vê nos filmes, e termina esquecendo a verdadeira história", diz um amigo, enquanto olhamos juntos o porto de Sidney. "Lembra-se da cena mais marcante do filme: 'Os dez mandamentos'?".
Claro que me lembro. Moisés - interpretado por Charlton Heston - em determinado momento levanta seu bastão, as águas se dividem, e o povo hebreu atravessa o mar a pé.
"Na Bíblia é diferente", continua meu amigo. "Deus ordena a Moisés: 'diz aos filhos de Israel que marchem'. E só depois que começam a andar é que Moisés levanta o bastão, e o Mar Vermelho se abre".
Só a coragem no caminho faz com que o caminho se manifeste.
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O católico e o muçulmano

Eu conversava com um sacerdote católico e um rapaz muçulmano durante um almoço. Quando o garçom passava com uma bandeja, todos se serviam, menos o muçulmano, que fazia o jejum anual prescrito no Alcorão.
Quando o almoço terminou e as pessoas saíram, um dos convidados não deixou de alfinetar: "veja como os muçulmanos são fanáticos! Ainda bem que vocês não tem nada em comum com eles".
"Temos sim", disse o padre. "Ele tenta servir a Deus tanto quanto eu. Apenas seguimos leis diferentes".
E concluiu: "pena que as pessoas só vejam as diferenças que as separam. Se olhassem com mais amor, enxergariam principalmente o que há de comum entre elas - e metade dos problemas do mundo seriam resolvidos".
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Meu sogro, Christiano Oiticica

Pouco antes de morrer, meu sogro chamou a família:
"Sei que a morte é apenas uma passagem, e quero poder fazer esta travessia sem tristeza. Para que vocês não fiquem inquietos, mandarei um sinal de que valeu a pena ajudar os outros nesta vida". Pediu para ser cremado, as cinzas jogadas no Arpoador, enquanto um gravador tocava suas músicas preferidas.
Faleceu dois dias depois. Um amigo facilitou a cremação em São Paulo, e de volta ao Rio fomos todos para o Arpoador com o rádio, as fitas, o embrulho com a pequena urna de cinzas. Ao chegarmos diante do mar, descobrimos que a tampa estava presa por parafusos. Tentamos abrir, inutilmente.
Não havia ninguém por perto, só um mendigo, que se aproximou. "O que vocês querem?".
Meu cunhado respondeu: "Uma chave de parafuso, porque aqui estão as cinzas do meu pai".
"Ele deve ter sido um homem muito bom, porque acabei de achar isto agora", disse o mendigo.
E estendeu uma chave de parafuso.

Diário do Nordeste, 23/06/2018


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Paulo Coelho - Oitavo ocupante da Cadeira nº 21, eleito em 25 de julho de 2002 na sucessão de Roberto Campos e recebido em 28 de outubro de 2002 pelo Acadêmico Arnaldo Niskier.

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sábado, 16 de junho de 2018

DE COMO O MUNDO É UM ESPELHO - Paulo Coelho


O encontro esquecido

- O mullah Nasrudin, personagem central da tradição sufi, marcou um encontro com um importante filósofo de sua aldeia - mas terminou distraindo-se com outra coisa, e não chegou na hora marcada.

O filósofo, depois de esperar algum tempo, escreveu na porta da casa de Nasrudin: "Irresponsável!". E foi embora.

Horas depois, Nasrudin apareceu na casa dele.

- Então, você esqueceu nosso compromisso? - bradou o homem.

- Sim, esqueci, e peço desculpas. Mas, ao chegar em casa, vi que você deixara seu nome no portão, e vim imediatamente.

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Generosidade e recompensa

Compadecido com a pobreza do rabino Jusya, Ephraim colocava diariamente algumas moedas debaixo da sua porta. E reparou que, quanto mais dava para Jusya, mais dinheiro ganhava.
Ephraim lembrou-se que o rabino Baer era mestre de Jusya, e pensou: "se sou bem recompensado ao dar para o discípulo, imagine o quanto ganharei se resolver apoiar o seu mestre".

Viajou para Mezritch, e cobriu de presentes o rabino Baer. A partir daí, sua vida começou a piorar, e quase perde tudo.

Intrigado, procurou Jusya e contou o ocorrido.

- É muito simples - disse Jusya. - Enquanto você dava sem pensar a quem recebia, Deus também fazia o mesmo. Mas quando você começou a procurar gente ilustre para fazer suas doações, Deus também passou a fazer a mesma coisa.

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Enchendo o copo alheio

Durante um jantar no mosteiro de Sceta, o padre mais idoso levantou-se para servir água aos outros. Foi de mesa em mesa com muito esforço, mas nenhum dos padres aceitou.

"Somos indignos do sacrifício deste santo", pensavam.

Quando o velho chegou na mesa do abade João Pequeno, este pediu que enchesse seu copo até a borda.

Os outros monges olharam horrorizados. No final do jantar, repreenderam João:

- Como pode julgar-se digno de permitir-se ser servido por um homem santo? Não percebeu o quanto lhe custou levantar a garrafa? Não notou como suas mãos tremiam?

"Como posso impedir que o bem se manifeste?" - respondeu o João. - Vocês, que se acham perfeitos, não tiveram humildade de receber, e o pobre homem não teve a alegria de dar.

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O aluno que furtava

Durante uma das aulas do mestre zen Bankei, um aluno foi pego roubando. Todos os discípulos pediram a expulsão do aluno.

Bankei não fez nada. Na semana seguinte, o aluno roubou de novo, mas Bankei o manteve em sua classe. Irritados, os outros escreveram uma petição exigindo que o ladrão fosse punido.

- Como vocês são sábios, - disse Bankei, ao ler o pedido. - Conhecem a diferença entre o que é certo e o que está errado. Podem estudar em qualquer outro lugar. Mas este pobre irmão - que não sabe o que é certo ou errado - só tem a mim para ensiná-lo, e continuarei fazendo isto.

Uma torrente de lágrimas purificou o rosto do ladrão: o desejo de roubar havia desaparecido.

Diário do Nordeste , 09/06/2018

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Paulo Coelho - Oitavo ocupante da Cadeira nº 21 da ABL, eleito em 25 de julho de 2002 na sucessão de Roberto Campos e recebido em 28 de outubro de 2002 pelo Acadêmico Arnaldo Niskier.

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quarta-feira, 6 de junho de 2018

DA SOLIDÃO COMPLETA - Paulo Coelho


Da solidão completa 

Os jornalistas já terminaram as entrevistas, os editores tomaram o trem de volta para Zurich, os amigos com quem jantei voltaram para suas casas, eu saio para caminhar por Genebra. A noite está particularmente agradável, as ruas desertas, os bares e restaurantes cheios de vida, tudo parece absolutamente calmo, em ordem, bonito, e de repente...

E de repente eu me dou conta que estou absolutamente só.

É evidente que já estive sozinho muitas vezes este ano. É evidente que em algum lugar, a duas horas de voo, minha mulher me espera.
É evidente que depois de um dia agitado como o de hoje, nada melhor que caminhar pelas ruelas e becos da cidade antiga, sem ter que conversar nada com ninguém, apenas contemplando a beleza ao meu redor. Só que esta noite, por alguma razão que desconheço, este sentimento de solidão é absolutamente opressor, angustiante - não tenho com quem dividir a cidade, o passeio, os comentários que gostaria de fazer.

Claro, tenho um celular no bolso, e um número razoável de amigos aqui, mas acho que já é muito tarde para telefonar para quem quer que seja. Considero a possibilidade de entrar em um dos bares, pedir algo para beber - com quase toda certeza alguém me reconhecerá e me convidará para sentar em sua mesa. Mas penso também que é importante ir até o fundo deste vazio, desta sensação que ninguém se importa com o fato de existirmos ou não, e por isso continuo caminhando.

Vejo uma fonte e lembro-me que estive ali no ano passado, com uma pintora russa que acabara de ilustrar um texto que havia escrito para Anistia Internacional; naquele dia quase não trocamos palavra, apenas escutamos os pingos da água e a música de um violino que vinha de longe. Tanto eu como ela estávamos imersos em nossos pensamentos, mas ambos sabiam que, embora distantes, não estávamos sozinhos.

Ando um pouco mais, em direção à Catedral. Olho para outro lado da rua, uma janela está semiaberta e lá dentro posso ver uma família conversando; a sensação de solidão aumenta avassaladoramente por causa disso, o passeio noturno agora é uma jornada noite adentro, em busca de compreender o que é sentir-se absolutamente só.

Começo a imaginar quantos milhões de pessoas, neste momento, estão se sentindo absolutamente inúteis, miseráveis - por mais ricas, charmosas, encantadoras que sejam - porque também nesta noite estão sós, e ontem também, e possivelmente estarão sozinhas amanhã. Estudantes que não encontraram com quem sair esta noite, pessoas de idade diante da TV como se fosse a última salvação, homens de negócios em seus quartos de hotel, pensando se o que fazem tem algum sentido, já que tudo que estão sentindo agora é o desespero de estar só.

Lembro-me de um comentário feito durante o jantar: alguém que acabara de divorciar-se dizia "agora tenho toda a liberdade com que sempre sonhei". É mentira; ninguém quer este tipo de liberdade, todos nós queremos um compromisso, uma pessoa para estar ao nosso lado vendo as belezas de Genebra, discutindo as visões da vida, ou até mesmo dividindo um sanduíche. Melhor comer metade de um que comê-lo inteiro, sem ter alguém com quem compartilhar nada, nem mesmo um pouco de comida. Melhor ficar com fome do que ficar sozinho. Porque quando você está sozinho - e eu falo da solidão que não escolhemos, mas que somos obrigados a aceitar - é como se não fizesse mais parte da raça humana.

Começo a caminhar para o lindo hotel do outro lado do rio, com seu quarto superconfortável, seus empregados atenciosos, seu serviço de primeiríssima qualidade. Daqui a pouco vou dormir, amanhã esta estranha sensação que - não sei por que razão - me atacou hoje, será apenas uma lembrança remota e estranha, porque não tenho nenhum motivo para dizer: estou só.

No caminho de volta, cruzo com outras pessoas solitárias, e elas tem dois tipos de olhares: arrogantes (porque querem fingir que escolheram a solidão nesta linda noite) ou tristes (porque entendem que não há nada pior na vida). Penso em conversar com elas, mas sei que tem vergonha da própria solidão, talvez seja melhor que cheguem ao limite e então entendam que é preciso ousar, falar com estranhos, descobrir lugares para encontrar pessoas, evitar ir para casa e assistir TV ou ler um livro - porque se fizerem isso o sentido da vida estará perdido, a solidão terá se transformado em um vício, e a partir de então o longo caminho de volta em direção ao ser humano já não será mais encontrado.

Diário do Nordeste , 02/06/2018

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Paulo Coelho - Oitavo ocupante da Cadeira nº 21 da ABL, eleito em 25 de julho de 2002 na sucessão de Roberto Campos e recebido em 28 de outubro de 2002 pelo Acadêmico Arnaldo Niskier.

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quinta-feira, 17 de maio de 2018

UM DIA NO MOINHO – Paulo Coelho


Minha vida, no momento presente, é uma sinfonia composta de três movimentos distintos: "muitas pessoas", "algumas pessoas", e "quase ninguém". Cada um deles dura aproximadamente quatro meses por ano, se misturam com frequência durante o mesmo mês, mas não se confundem.

"Muitas pessoas" são os momentos em que estou em contacto com o público, os editores, os jornalistas. "Algumas pessoas" acontece quando vou para o Brasil, encontro meus amigos de sempre, caminho na praia de Copacabana, vou a um ou outro acontecimento social, mas geralmente fico em casa.


Entretanto, minha intenção hoje é divagar um pouco sobre o movimento "quase ninguém". Neste momento a noite já caiu neste povoado de 200 pessoas nos Pirineus, cujo nome prefiro manter em segredo, e onde comprei há pouco tempo um antigo moinho transformado em casa. Acordo todas as manhãs com o cantar do galo, tomo meu café e saio para caminhar entre as vacas, os cordeiros, as plantações de milho e de feno. Contemplo as montanhas, e - ao contrário do movimento "muitas pessoas" - jamais procuro pensar em quem sou. Não tenho perguntas, nem respostas, vivo por inteiro no momento presente, entendendo que o ano tem quatro estações (sim, pode parecer óbvio, mas às vezes nos esquecemos disso), e eu me transformo como a paisagem ao redor.

Neste momento, não me interessa muito o que acontece no Iraque ou no Afeganistão: como qualquer outra pessoa que vive no interior, as notícias mais importantes são as ligadas à meteorologia. Todos os que habitam a pequena cidade sabem se vai chover, fazer frio, ventar muito, já que isso afeta diretamente suas vidas, seus planos, suas colheitas. Vejo um fazendeiro cuidando do seu campo, nos desejamos "bom dia", discutimos as previsões do tempo, e continuamos a fazer o que estávamos fazendo - ele em seu arado, eu em minha longa caminhada.

Volto, olho a caixa de correio, ali está o jornal da região: há um baile no vilarejo vizinho, uma conferência em um bar de Tarbes - a cidade grande, com seus 40 mil habitantes - os bombeiros foram chamados porque uma lixeira foi queimada durante a noite. O tema que mobiliza a região é um grupo acusado de cortar os plátanos de uma estrada rural, porque causaram a morte de um motociclista; esta notícia rende uma página inteira e vários dias de reportagens a respeito do "comando secreto" que está querendo vingar a morte do rapaz, destruindo as árvores.

Deito-me ao lado do regato que corre no meu moinho. Olho os céus sem nuvens neste verão aterrador, com 5 mil mortos apenas na França. Levanto-me e vou praticar kyudo, a meditação com arco e flecha, que toma mais uma hora do meu dia. Já é hora de almoçar: faço uma refeição ligeira e de repente noto que lá em uma das dependências da antiga construção está um objeto estranho, com tela e teclado, conectado - maravilha das maravilhas - com uma linha de altíssima velocidade, também chamada de DSL. Sei que, no momento em que apertar um botão daquela máquina, o mundo virá ao meu encontro.

Resisto o quanto posso, mas o momento chega, meu dedo toca o comando "ligar", e aqui estou de novo conectado com o mundo, as colunas dos jornais brasileiros, os livros, as entrevistas que precisam ser dadas, as notícias do Iraque, do Afeganistão, os pedidos, o aviso que o bilhete de avião chega amanhã, as decisões a adiar, as decisões a tomar.

Trabalho por várias horas, porque foi o que escolhi, porque é essa a minha lenda pessoal, porque um guerreiro da luz sabe que tem deveres e responsabilidades. Mas no movimento "quase ninguém" tudo que está na tela do computador é muito distante, da mesma maneira que o moinho parece um sonho quando estou nos movimentos "muitas pessoas" ou "algumas pessoas".

O sol começa a se esconder, o botão é desligado, o mundo volta a ser apenas o campo, o perfume das ervas, o mugido das vacas, a voz do pastor que traz de volta suas ovelhas para o estábulo ao lado do moinho.

Pergunto-me como posso passear em dois mundos tão diferentes em apenas um dia: não tenho resposta, mas sei que isso me dá muito prazer, e estou contente enquanto escrevo estas linhas.

Diário do Nordeste, 12/05/2018


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Paulo Coelho - Oitavo ocupante da Cadeira nº 21 da ABL, eleito em 25 de julho de 2002 na sucessão de Roberto Campos e recebido em 28 de outubro de 2002 pelo Acadêmico Arnaldo Niskier.

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