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quinta-feira, 13 de abril de 2017

TRAIDA PELA MEMÓRIA - Zuenir Ventura

Traída pela memória

Em recente seminário na Universidade de Harvard, em Massachusetts, nos Estados Unidos, a ex-presidente Dilma voltou a ser traída pela memória ao declarar que foi “vítima de dois golpes: a prisão e a tortura durante a ditadura, e o impeachment”. A comparação é um despropósito retórico que não condiz com os fatos. No primeiro episódio, nos anos 70, ela sentiu na carne o que é de fato um golpe sem aspas. Sofreu tanta violência na prisão, e com tanta bravura, que seus torturadores a apelidaram de “Joana d’Arc da subversão”. No segundo, através de instrumento constitucional, ela foi condenada no Senado (61 votos a favor e 20 contra) por crimes de responsabilidade fiscal.

Apesar da perda do mandato, ela continuou com o direito de disputar eleições, votar, ocupar postos na administração pública e a ter regalias como viagens ao exterior levando quatro assessores, além de palanques para denunciar o “golpe” e até falar mal da Justiça e do juiz Sérgio Moro, como fez agora. Tudo sem risco de represália (me lembrei de Jango em Paris, em 1961, temendo voltar para, como vice, assumir a Presidência no lugar de Jânio, que havia renunciado. Como era correspondente, fui seu improvisado intérprete para a imprensa francesa, com a perigosa possibilidade de mudar o destino do país: qualquer palavra mal traduzida poderia servir de pretexto para os militares anteciparem o que fizeram três anos depois, com muitos tanques e fuzis). 

Em Harvard, Dilma criticou o “uso político” da Lava-Jato e mandou um recado velado ao juiz de Curitiba, que falaria em seguida. “Me preocupa muito que mudem as regras do jogo democrático”, afirmou, para confessar o que realmente teme: “Me preocupa que prendam o Lula”. Com a cabeça cheia de teorias persecutórias, ela vê nisso não uma hipótese que cabe à Justiça aceitar ou não, soberanamente, mas uma espécie de conspiração urdida especialmente para evitar o que ela já considera “uma possibilidade concreta”: a eleição do líder petista em 2018.

Em tempo. Antes que a onda paranoica me acuse de golpista, lembro mais uma vez que fui contra o impeachment de Dilma, não por ser um “golpe”, mas por temor ao que poderia vir depois.

Leitores estão reclamando da ausência de Alice neste espaço. É que ela anda às voltas com o livro que, acha, a levará à ABL. Ainda mais que Vilaça lhe garantiu seu voto. Ele é o grande acadêmico a quem ela se refere assim: “Um amigo de meu avô e meu admirador”. Não sei como cabe tanta pretensão numa linda cabecinha de 7 anos.

O Globo, 12/04/2017


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Zuenir Ventura - Sétimo ocupante da Cadeira n.º 32 da ABL, eleito no dia 30 de outubro de 2014, na sucessão do Acadêmico Ariano Suassuna, e recebido no dia 6 de março de 2015, pela Acadêmica Cleonice Berardinelli.


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É UMA GUERRA DE RELIGIÃO – Roberto de Mattei

12 de abril de 2017
Roberto de Mattei (*)

Atentado terrorista perpetrado por islamitas em igreja, no Domingo de Ramos (9-4-17), na cidade egípcia de Tanta

Os massacres de Tanta [foto acima] e Alexandria são um brusco chamado à realidade para o Papa Francisco, na véspera de sua viagem ao Egito. Os atentados no Oriente Médio e na Europa não são desastres naturais, evitáveis com encontros ecumênicos, como o que o Pontífice terá em 28 de abril com o Grande Imã de Al-Azhar, mas são episódios que nos lembram a existência na Terra de divisões ideológicas e religiosas profundas que só podem ser remediadas pelo retorno à verdade. E a primeira verdade a recordar, se não se quiser mentir para si mesmo e para o mundo, é que os autores dos atentados do Cairo, como de Estocolmo e de Londres, não são desequilibrados ou psicopatas, mas portadores de uma visão religiosa que desde o século VII combate o Cristianismo. Não só a Europa, mas o Ocidente e o Oriente cristão, definiram ao longo dos séculos a sua própria identidade defendendo-se de ataques do Islã, que nunca renunciou à sua hegemonia universal.

Diversa é a análise do Papa Bergoglio, que na homilia do Domingo de Ramos reiterou sua proximidade com aqueles que “sofrem com um trabalho de escravos, sofrem com os dramas familiares, as doenças [...] Sofrem por causa das guerras e do terrorismo, por causa dos interesses que se movem por detrás das armas que não cessam de matar”. Erguendo os olhos por cima do papel, o Papa acrescentou que reza também pela conversão do coração “daqueles que fabricam e traficam as armas”. O Papa repetiu o que tem declarado muitas vezes: não é o Islã em si mesmo, e nem o seu desvio que ameaça a paz do mundo, mas os “interesses econômicos” dos traficantes de armas. Na entrevista com o jornalista Henrique Cymerman, publicada no diário catalão “La Vanguardia” em 12 de junho de 2014, O Papa Francisco disse: “Descartamos toda uma geração para manter um sistema econômico que não se sustenta mais, um sistema para sobreviver deve fazer a guerra, como sempre fizeram os grandes impérios. Mas, já que não se pode fazer a terceira guerra mundial, então se fazem guerras locais. O que isso significa? Que se fabricam e vendem armas e, assim, fazendo os balanços das economias idólatras, as grandes economias mundiais que sacrificam o homem aos pés do ídolo de dinheiro, obviamente se curam.”

O Papa não parece acreditar que se possa escolher entre viver e morrer para realizar um sonho político ou religioso. O que moveria a História seriam os interesses econômicos, que antes eram os da burguesia contra o proletariado, e hoje são os das multinacionais e dos países capitalistas contra “os pobres da terra”.

A essa visão dos acontecimentos, que provém diretamente do economicismo marxista, contrapõe-se atualmente a geopolítica do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e do presidente da Federação Russa, Vladimir Putin. Trump e Putin redescobriram os interesses nacionais dos seus respectivos países, e no tabuleiro do Oriente Médio travam uma dura partida no jogo diplomático e midiático, não excluindo transpô-la para o plano militar. O Islã agita por sua vez o espectro da guerra religiosa no mundo.

Quais são as palavras que, na véspera da Santa Páscoa, os fiéis esperam do Chefe da Igreja Católica? Esperamos ouvi-lo dizer que as verdadeiras causas das guerras não são nem de ordem econômica, nem de ordem política, mas acima de tudo de ordem religiosa e moral. Que as guerras têm suas origens mais profundas nos corações dos homens e sua raiz última no pecado. Que foi para redimir o mundo do pecado que Jesus Cristo sofreu a sua Paixão, que é agora também a Paixão de uma Igreja perseguida em todo o mundo.

Na oração pela paz que compôs em 8 de setembro de 1914, assim que eclodiu o primeiro conflito mundial, Bento XV exortou a implorar privada e publicamente “a Deus, árbitro e dominador de todas as coisas, para que, lembrando-se de sua misericórdia, afaste este flagelo da ira com o qual faz justiça pelos pecados dos povos. Imploremos que, nas nossas orações, nos assista e ajude a Virgem Mãe de Deus, cujo felicíssimo nascimento, que celebramos neste mesmo dia, refulja para o transviado gênero humano como aurora da paz, devendo Ela dar à luz Aquele no qual o eterno Pai queria reconciliar todas as coisas ‘ao preço do próprio sangue na cruz, restabeleceu a paz a tudo quanto existe na terra e nos céus’ (Col. 1, 20)”.

É um sonho imaginar que um Papa venha a dirigir à humanidade palavras deste quilate, em uma situação internacional tempestuosa como a que vivemos hoje?

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(*) Fonte: “Il Tempo”, Roma, 10-4-2017. Matéria traduzida do original italiano por Hélio Dias Viana.

http://www.abim.inf.br/e-uma-guerra-de-religiao/#.WO8TEfkrLIV


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AFASTA DE MIM ESSE CÁLICE, PAI - Mírian Warttusch

Afasta de mim esse cálice, Pai


Jesus pergunta ao Pai, olhos postos no firmamento:
"Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?"
Neste martírio que me faz sangrar em sofrimento,
À minha própria sorte, por que Tu me entregastes?!

"Afasta de mim esse cálice, Pai", por piedade!
Não tenho mais forças; e se prolonga o sofrimento...
São momentos de dor que sofro pela humanidade,
Meu último suspiro parece estar preso aqui dentro!

-O corte da lança no Teu peito está doendo em mim!
Também me doem as Tuas chagas, carne viva...
Imaginavas que sozinho sofrerias tanto assim?
O amor deixa marcas profundas e significativas.

Tu não me encontras quando olhas para o alto,
Imaginando que de Ti não sinto pena ou tenho dó.
É o nosso mesmo coração que bate em sobressalto...
Não percebes Filho, que Eu e Tu, somos um só?

Momento de partida, e Deus acode Seu Filho tão amado,
Sofrendo as mesmas dores, chorando o mesmo pranto...
"O verbo se fez carne", cumpriu-se o Seu legado,
Unem-se agora, o Pai, o Filho e o Espírito Santo!

Mírian Warttusch

 
"Leia o livro 'A Cabana' de William P. Young
para saber mais do maravilhoso encontro do personagem Mackenzie com a Santíssima Trindade"

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Obra apresenta caminhos da escultura brasileira a partir de 1950

Escultura Contemporâneas no Brasil - Reflexões em dez percursos será lançado no Palacete das Artes no próximo dia 19 de abril



O Palacete das Artes será o cenário escolhido para o lançamento do Escultura Contemporânea no Brasil – Reflexões em Dez Percursos, que acontece no próximo dia 19 de abril, a partir das 19 horas. A obra é resultado de três anos de intensa pesquisa do professor e curador carioca Marcelo Campos e será lançada pela Editora Caramurê. A publicação mapeia a produção escultórica brasileira a partir dos anos 1960 sob dez critérios temáticos.

A princípio a ideia era se fazer um livro com um pequeno grupo de escultores mas Campos, a partir de um primeiro levantamento, aceitou o desafio de trabalhar um contorno conceitual mais abrangente o que resultou em uma obra de fôlego, com suas 420 páginas e 300 ilustrações. “Não existe no Brasil uma obra com esse porte sobre o tema e só conseguimos realizar este projeto por conta da coragem e talento do Marcelo Campos” comenta o editor Fernando Oberlaender. O patrocínio é da Global Participações em Energia S.A. (GPE), através da Lei de Incentivo à Cultura do MinC.

“Decidi fazer uma pesquisa mais extensa, olhando para artistas e obras canônicas, trabalhos que estabeleceram ou consolidaram mudanças de paradigma”, explica o autor. “Percebi, nesse levantamento, vertentes conceituais que me chamaram a atenção e optei por essa configuração”, completa.  

Ao todo foram 200 artistas listados num primeiro apanhado, dos quais Marcelo selecionou 91 escultores. Eles foram relacionados em dez capítulos-conceito, a partir do que o autor chama de “sintoma”: a reunião de “parentescos, células, lugares de encontro, onde a junção das poéticas as torna firmemente históricas”, ele define na introdução do livro.

A organização não segue um cronograma temporal, nem o critério que reúne artistas e obras em movimentos ou grupos. Campos buscou a ampliação do raio de busca para além dos eixos geográficos tradicionais da produção artística brasileira. O mapeamento desses artistas e de seus trabalhos se distribuiu nos temas do recorte curatorial. Esses conceitos estabelecem diálogo não só com a forma, mas com os olhares socioculturais, como na psicologia e na antropologia. E, dessa maneira, aprofundam-se na análise contextual dessa produção artística que se propõem a analisar.

Entre os temas, "Apropriação conceitual, imagéticas populares”, que apresenta um olhar da cultura, dos usos e saberes populares, "Paisagem, casa e jardim”, que faz uma ligação com a arquitetura e a paisagem, “Tecnologia, mídias, comunicação”, que a criação que se dedica às máquinas, ao movimento, a cinetismos de todo tipo e "A infância, o brinquedo”, a influência dos brinquedos, o lugar da infância com materiais plásticos extraviados, sujeitos ao toque, a cores, à acumulação, aos guardados pueris.

Campos inclui ainda no volume alguns dos escultores modernos, como Brennand e Felícia Leiner, em atividade nos anos 1950 nas vanguardas concretistas e neoconcretistas. “De certo modo, a inserção das esculturas de Felicia Leiner, por exemplo, demonstra as possíveis relações com trabalhos de Celeida Tostes e Ernesto Neto, conjugando algo da historiografia mais recente”, revela o autor.

Marcelo Campos é Professor Adjunto do Departamento de Teoria e História da Arte do Instituto de Artes da UERJ e Doutor em Artes Visuais pelo PPGAV da EBA/UFRJ. Atualmente, é diretor da Casa França-Brasil, no Rio de Janeiro.  Desenvolve estudos sobre arte, cultura brasileira, antropologia e identidade nacional. É autor de Um canto, dois sertões:  Bispo do Rosário e os 90 anos da Colônia Juliano Moreira (MBrac/Azougue Editorial, Rio de Janeiro, 2016); Emmanuel Nassar: engenharia cabocla (Museu de Arte Contemporânea de Niterói/MAC, Niterói, 2010).

Serviço 

Lançamento da Escultura Contemporânea no Brasil – Reflexões em Dez Percursos
Autor: Marcelo Campos
Data do Lançamento: 19 de Abril (Quarta-Feira)
Horário:  às 19 horas, no Palacete das Artes (R. da Graça, 284 - Graça)
Editora Caramurê
Evento Aberto ao público


Edison da Luz
O Rei da Força do Conhecimento
Coleção Particular
Foto: Josué Ribeiro

Juraci Dórea
Projeto Terra, 2002
Escultura do Canto da Cerca São Gonçalo dos Campos/Ba
Madeira e couro.
Acervo do artista
Foto: Juraci Dórea

Juarez Paraíso
Parque Infantil, Hospital Aliança, 2000. (Detalhe)
Foto: Josué Ribeiro

Ayrson Heráclito
Bori - oxumaré, 2011
Foto: Ayrson Heráclito

Ayrson Heráclito
“Segredos Internos” 1994 a 2009.
Foto: Ayrson Heráclito

Bel Borba
Oxum, 2014
Foto: Bel Borba

Ramiro Bernabó
Gato do Mato, 2008
Foto: Mush Emmons

Rubem Valentin
Vista das esculturas
Templo de Oxalá, 1977
Madeira e acrílico
Foto: Josué Ribeiro


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quarta-feira, 12 de abril de 2017

O DIA DO DIREITO - Antônio Carlos Hygino


O Dia do Direito


Lembro, com muito gosto, dos encontros promovidos por meu pai, em nossa casa, sempre no último sábado de cada mês. Minha mãe se encarregava dos petiscos e do almoço, este que não tinha horário para ser servido, mas normalmente era uma espécie de almoço-ajantarado.
Ela cuidava de tudo pessoalmente e com muito contentamento. 

Eram poucos, mas talentosos amigos. Todos os poetas, jornalistas e intelectuais. A casa era simples, mas a todos acolhia com afeto. Costumavam sentar-se à mesa que durante a semana servia de palco para as memoráveis partidas de jogo de botão, obviamente depois de feitas as tarefas escolares.

Quando os eles chegavam eu ficava sempre por perto. Achava bonito o que eles falavam e como colocavam as palavras de forma tão transcendental que eu me transportava para aquele mundo que só os poetas habitam e conhecem.

Foi assim que ouvi pela primeira vez o meu pai recitar um poeta Castro Alves. Ainda guardo na lembrança a expressão dele ao interpretar o “poeta dos escravos”, nos seguintes versos:

”Boa noite Maria, eu vou-me embora/ A lua nas janelas bate em cheio/ Boa noite Maria, é tarde é tarde/ Não me apertes assim contra teu seio. Boa Noite e tu dizes – Boa noite/ Mas não digas assim por entre beijos/ mas não mo digas descobrindo o peito/ Mar de amor onde vagam os meus desejos!

Recitavam-se Fagundes Varela, Bilac, Cecília Meireles, Catulo da Paixão Cearense e tantos outros. Mas, não era só de poetas que falavam. Em verdade, discutia-se de tudo um pouco.

Certa feita, falavam sobre direito. A discussão girava em torno do “Dia do Magistrado”.

A ardência e o entusiasmo do debate deixaram-me curioso. Ouvindo atentamente a explanação de um dos presentes, dizia ele que em 25 de março de 1824 foi promulgada a Carta Política do Império. Em 09 de janeiro de 1825, foi publicado o decreto assinado por Estavam Ribeiro de Rezende, depois Marquês de Valença, criando um curso jurídico na Corte. Em 12 de março de 1826, o Deputado Lúcio Soares Teixeira de Gouveia, apresentou projeto criando duas Faculdades de Direito. Na sessão de 05.07.1826, dito projeto foi substituído por um de autoria do Deputado Januário da Cunha Barbosa, assinado também pelo Deputado José Cardoso Pereira de Melo, que se transformou na lei de 11 de agosto de 1827 que criou dois cursos jurídicos no Brasil, um em São Paulo e outro em Olinda, este, posteriormente, transferido para Recife.

Desses dois centros de cultura saíram homens de maior projeção em nosso País – magistrados, advogados, professores, estadistas, diplomatas e escritores, a exemplo de Teixeira de Freitas, Pimenta Bueno, Rui Barbosa, Clóvis Beviláqua e muitos outros. Assim, aproveitando a data, prosseguia ele, em 11 de agosto de 1892, instalava-se aqui na Bahia a Corte de Justiça. Daí porque afirmar-se que 11 de agosto encerra o dia dos magistrados é incorrer em equívoco. Dia dos magistrados, não. Dia do direito.

Para homenageá-lo devem reunir- se não somente os magistrados, mas todos os juristas. Ao lado dos que aplicam o direito, encontram-se os que o defendem e ensinam. Os magistrados são uma parcela dos juristas. A festa é dos magistrados, como o é dos advogados, do Ministério Público e dos Professores de Direito. É o dia em que todos devem render graças a Deus por imperar no Brasil o direito, essa força imanente, insuperável, inexaurível e inesgotável que impõe a paz, a ordem e a harmonia nas sociedades regularmente organizadas, garantindo as manifestações de todas as atividades individuais.

Todos concordaram e aplaudiram. Outro pediu a palavra e referindo- se a um advogado, narrou um fato que passou mais ou menos assim:

Av. Sete, em Salvador, havia um colégio. Ao longo da avenida, muitos quiosques. Havia um, próximo ao estabelecimento de ensino, cujo dono, um homem de setenta anos, não suportava ser chamado pelo apelido. Quati-coco era sua alcunha.

Os estudantes sabiam disso e se divertiam ao vê-lo irritado quando assim chamado. Rotineiramente o faziam. Certa feita, decidido, disse: o primeiro que assim me chamar, eu o mato. O sino anunciou o fim das aulas. Ele, o homem, no quiosque, preparou a garrucha e ficou na espreita, no aguardo. Saem os estudantes. Passa um grupo correndo em frente ao quiosque, em algazarra. Um deles, em tom zombador, chama-o pelo apelido.

Desvairado, às cegas, atirou. A bala atingiu letalmente uma criança. A vítima, de sete anos de idade, era filha de uma das famílias mais tradicionais e ricas de Salvador. Preso em flagrante, nenhum profissional queria defendê-lo, pois o crime causou enorme comoção social. Como ninguém pode ser condenado sem defesa, nomeado pelo Juiz foi um jovem que assumiu o patrocínio da causa.

Todas as provas eram a ele desfavoráveis. Como pode a experiência matar a inocência? Levado a júri, a condenação era certa. A Promotoria e o assistente de acusação pediram a pena máxima. A condenação era certa. Dada a palavra, da tribuna, o causídico saudou o Juiz, nestes termos:

Excelentíssimo Senhor Dr. Juiz de Direito, Presidente deste honrado Tribunal... E faz uma breve pausa; Repetiu a saudação e a pausa e o fez pela terceira vez, porém em nenhuma delas nada falou. O Juiz Presidente, irritado, levantou-se e disse: “Se V.Exa. não tem o que dizer, cala-se”.

Ele, o causídico, então, respondeu: Senhores jurados, observem, o Sr. Juiz de Direito, presidente deste Tribunal, homem jovem, culto e letrado, irritou-se por chamá-lo de Excelência, imaginem o que é para um idoso, para um homem que não teve oportunidades na vida, não estudou, não ser tratado pelo nome, mas por um apelido que o humilha, que fere a sua alma…

E por aí foi... Resultado, absolvição.

Esse defensor chamava-se Cosme de Farias, concluiu. Falaram sobre o talento de Cosme de Farias e de outros juristas. Por volta das 15h, o almoço foi servido. Embevecido com os ensinamentos daquela tarde, deixava despertar em mim o desejo de trilhar o caminho da justiça.


Antônio Carlos de Souza Hygino

Juiz de Direito titular da 5ª Vara Cível da Comarca de Itabuna – Bahia.

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SILVA GALO, Por Hélio Pólvora


Silva Galo


      Macedo bebia socialmente, fora das horas de trabalho. Às vezes, por estar eufórico ou triste, que tudo são motivos para um trago, aplicava tempo e recursos nos seus programas e projetos sociais. Não era de cortar verbas no orçamento do Ministério das Alegres Libações e Tira-Gostos. Muito pelo contrário, estava sempre a injetar uma verba.

      Durante o dia, um modelo de seriedade. Chegava cedo para o trabalho em Simon Rosenblitz, móveis. Empregado ativo, movimentava-se como esgrimista entre os móveis que atulhavam a loja. O tempo custava a passar, claro. O tempo era uma ampulheta que vertia devagar, muito devagar, os grãos dos minutos e a poeira dos segundos.

      Adormentada ao sol, com o sol tirando reflexos dos paralelepípedos, Ilhéus pestanejava. Na loja, disfarçando o mais que podia a ansiedade, Macedo aguardava o meio-dia, o crepúsculo. Saía quando a esteira de aço da porta era corrida e fechavam embaixo o cadeado. Respirava, então, como um condenado que escapa da Ilha do Diabo ou do presídio de Alcatraz...

      Ninguém segurava Macedo. Não havia FMI capaz de lhe ditar regras. O bar era um templo onde ele molhava a palavra, em conversas espirituosas, antes da ceia, do namoro e do beijo roubado, não exatamente nesta ordem. A noite de Ilhéus era para Macedo apenas uma criança e o vasto universo, com as suas expectativas de aventura, vinha ancorar ali, com todas as suas luzes, esquinas e piratarias.

      Um dia o velho Rosenblitz chamou-o ao escritório e passou-lhe um maço de papéis.

      — São contas antigas, seu Macedo.

      — Sim senhor.

      — Contas de prestamistas atrasados. A presteza com que compram não se repete na data do vencimento. Macedo aplaudiu a máxima do patrão.

      — Ponha-se em campo, vá cobrá-los. Esses aí moram no Pontal. Depois o senhor passa para os bairros de cá.

      — Sim senhor.

      Macedo tomou um besouro e navegou para a República Livre do Pontal, escoltado pelos célebres botos saltadores do Condado de Ilhéus. Saltou defronte ao Tamarindeiro, destacou a conta de endereço mais próximo e bateu à porta do Sr. Silva Pinto. Foi atendido pelo delegado de Ilhéus, em mangas de camisa.

      — Sr. Silva Pinto?

      — Não. Eu sou Silva Galo.

      Macedo coçou o queixo, examinou a conta e concluiu:

      — É dívida velha. Pelo tempo, Silva Pinto já se tornou Silva Galo...

      E estendeu a fatura. Tinha tomado dois cálices de conhaque, antes de entrar no besouro, e estava calibrado.

      — Olhe aqui, rapaz, você está falando com o Delegado de Polícia Silva Galo. O Silva Pinto é outro.

      — Vá contar essa ao delegado... Espiche logo o dinheiro, seu Silva Pinto. Rosenblitz detesta malandros e maus pagadores.

      Silva Galo, rubro, empertigado, olhos faiscando, agarrou-o pelo colarinho.

      — Eu sou o delegado Silva Galo!
      — E eu sou o bispo diocesano. Calma, Silva Pinto. Vamos tomar um rabo-de-galo na esquina?

      Rabo-de-galo, tradução literal de cocktail. O delegado Silva Galo apertou mais a mão no pescoço de Macedo e entrou a sacudi-lo, aos berros. Ignoro o resultado desta encrenca na República Livre do Pontal.


      Hélio Pólvora, escritor e jornalista.
                              


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OS FANQUEIROS LITERÁRIOS – Machado de Assis


Os fanqueiros literários


Não é isto uma sátira em prosa. Esboço literário apanhado nas projeções sutis dos caracteres dou aqui apenas uma reprodução do tipo a que chamo em meu falar seco de prosador novato — fanqueiro literário.

A fancaria literária é a pior de todas as fancarias. É a obra grossa, por vezes mofada, que se acomoda à ondulação das espáduas do paciente freguês. Há de tudo nessa loja manufatora do talento — apesar da raridade da tela fina; e as vaidades sociais mais exigentes podem vazar se, segundo as suas aspirações, em uma ode ou discurso parvamente retumbantes.

A fancaria literária poderá perder pela elegância suspeita da roupa feita, mas nunca pela exiguidade dos gêneros. Tomando a tabuleta por base do silogismo comercial é infalível chegar logo à proposição menor, que é a prateleira guapamente atacada a fazer cobiça às modéstias mais insuspeitas.

É lindo comércio. Desde José Daniel, o apóstolo da classe — esse modo de vida tem alargado a sua esfera — e, por mal de pecados, não promete ficar aqui. O fanqueiro literário é um tipo curioso.

Falei em José Daniel. Conheceis esse vulto histórico? Era uma excelente organização que se prestava perfeitamente a autópsia. Adelo ambulante da inteligência, ia farto como um ovo, de feira em feira, trocar pela enzinhavrada moeda o pratinho enfezado de suas lucubrações literárias. Não se cultivava impunemente aquela amizade; o folheto esperava sempre os incautos, como a Farsália hebdomadária das bolsas mal avisadas.

A audácia ia mais longe. Não contente de suas especulações pouco airosas, levava o atrevimento a ponto de satirizar os próprios fregueses — como em uma obra em que embarcava, diz ele, os tolos de Lisboa, para certa ilha; a ilha era, nem mais nem menos, a algibeira do poeta. É positiva a aplicação.

Os fanqueiros modernos não vão à feira; é um pudor. Mas que de compensações! Não se prepara hoje o folheto de aplicação moral contra os costumes. A vereda é outra; exploram-se as folhinhas e os pregões matrimoniais e as odes deste natalício ou daqueles desposórios. Nos desposórios é então um perigo; os noivos tropeçam no intempestivo de uma rocha tarpéia antes mesmo de entrar no Capitólio.

Desposório, natalício ou batizado, todos esses marcos da vida são pretextos de inspiração às musas fanqueiras. É um eterno gênesis a referver por todas aquelas almas (almas!) recendentes de zuarte.

Entretanto, esta calamidade literária não é tão dura para uma parte da sociedade. Há quem se julgue motivo de cuidados no Pindo — assim como pretensões a semideus da antiguidade; é um soneto ou uma alocução recheadinha de divagações acerca do gênesis de uma raça —sempre eriça os colarinhos a certas vaidades que por aí pululam — sem tom nem som.

Mas, entretanto — fatalidade! — por muito consistentes que sejam essas ilusões, caem sempre diante das consequências pecuniárias; o fanqueiro literário justifica plenamente o verso do poeta: não arma do louvor, arma do dinheiro. O entusiasmo da ode mede-o ele pelas possibilidades econômicas do elogiado. Os banqueiros são então os arquétipos da virtude sobre a terra; tese difícil de provar.

Querendo imitar os espíritos sérios, lembra-se ele de colecionar os seus disparates, e ei-lo que vai de carrinho e almanaques na mão — em busca de notabilidades sociais.
Ninguém se nega a um homem que lhe sobe as escadas convenientemente vestido, e discurso na ponta dos lábios. Chovem-lhe assim as assinaturas. O livrinho é prontificado e sai a lume. A teoria do embarcamento dos tolos é então posta em execução; os nomes das vítimas subscritoras vêm sempre em ar de escárnio no pelourinho de uma lista-epílogo. É, sobre queda, coice.

Mas tudo isso é causado pela falta sensível de uma inquisição literária! Que espetáculo não seria ver evaporar-se em uma fogueira inquisitorial tanto ópio encadernado que por aí anda enchendo as livrarias!

Acontece com o talento o mesmo que acontece com as estrelas. O poeta canta, endeusa, namora esses pregos de diamante do dossel azul que nos cerca o planeta; mas lá vem o astrônomo que diz muito friamente: — Nada! Isto que parece flores debruçadas em mar anilado, ou anjos esquecidos no transparente de uma camada etérea, — são simples globos luminosos e parecem-se tanto com flores, como vinho com água.

Até aqui as massas tinham o talento como uma faculdade caprichosa, operando ao impulso da inspiração, santa, sobretudo em todo o seu poder moral.

Mas cá as espera o fanqueiro. Nada! O talento é uma simples máquina em que não falta o menor parafuso, e que se move ao impulso de uma válvula onipotente.

É de desesperar de todas as ilusões!

Em Paris, onde esta classe é numerosa, há uma especialidade que ataca o teatro. Reúnem-se meia dúzia em um café e aí vão eles de colaboração alinhavar o seu vaudeville quotidiano. A esses milagres de faculdade produtiva se devem tantas banalidades que por lá rolam no meio de tanto e tão fino espírito.

Aqui o fanqueiro não tem por ora lugar certo. Divaga como a abelha de flor em flor em busca de seu mel e quase sempre, mal ou bem, vai tirando suculento resultado.

Conhece-se o fanqueiro literário entre muitas cabeças pela extrema cortesia. É um tique. Não há homem de cabeça mais móbil, e espinha dorsal mais flexível; cumprimentar para ele é um preceito eterno; e ei-lo que o faz à direita e à esquerda; e, coisa natural! Sempre lhe cai um freguês nessas cortesias.

O fanqueiro literário tem em si o termômetro das suas alterações financeiras; é a elegância das roupas. Ele vive e trabalha para comer bem e ostentar. Bolsa florescente, ei-lo dândi apavoneado — mas sem vaidade; lá protesta o chapéu contra uma asserção que se lhe possa fazer nesse sentido.

A Buffon escapou esse animal interessante; nem Cuvier lhe encontrou osso ou fibra perdidos em terra antediluviana. Por mim, que não faço mais que reproduzir em aquarelas as formas grotescas e sui generis do tipo, deixo ao leitor curioso essa enfadonha investigação.

Uma última palavra.

O fanqueiro literário é uma individualidade social e marca uma das aberrações dos tempos modernos. Esse moer contínuo do espírito, que faz da inteligência uma fábrica de Manchester, repugna à natureza da própria intelectualidade. Fazer do talento uma máquina, e uma máquina de obra grossa, movida pelas probabilidades financeiras do resultado, é perder a dignidade do talento, e o pudor da consciência.

Procurem os caracteres sérios abafar esse estado no estado que compromete a sua posição e o seu futuro.


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Aquarelas

Texto-fonte:
Obra Completa, Machado de Assis,
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, V.III, 1994.

Publicado originalmente em O Espelho, Rio de Janeiro

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