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quinta-feira, 23 de junho de 2022

ITABUNA CENTENÁRIA UM POEMA: Pássaro Gentil, por Paulo Bezerra



PÁSSARO GENTIL

Paulo Bezerra

 

 

Pássaro gentil

alegre e buliçoso

a ânsia da vida te trouxe

pra dentro de minha varanda.


Voas e voas e pousas

brindando as samambaias

beijando os antúrios

e me alegrando a vida.

 

Chegaste como um sopro

um alento, um recado da vida

 dizendo que está aí

e precisa ser vivida. Revivo.

 

Encheste meu peito de paz.

Trouxeste a esperança que alenta,

espalhada sobre as asas.

Lembro que amo, e amo, e amo

 e me alegro muito.

 

Voas e vais.

 

Meu bem ficou aqui,

dormindo entre as plantas.

O peito, agora, é fonte e jorra

embalado pelo tenor de Pavarotti.

 

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PAULO BEZERRA – Juiz do Trabalho da 19ª Região – AL

Presidente da JCJ de União dos Palmares – AL

Poemas escritos em União dos Palmares

Dedicatória:

A meu filho Moacir, pedaço maior de minha sensibilidade.

A todos aqueles que têm, como eu, no peito, um pouco de sentir.

* * *


 

quarta-feira, 22 de junho de 2022

QUEM AVISA... - Nelson de Faria



Quem Avisa...

                                                    

                                        “Fogo de morro arriba,

                                          Água de serra abaixo,

                                          Mulher de cabelo na venta

                                          - Meu Deus do céu! –

                                          Quem é que guenta?”

                                                              VERSO POPULAR

 

            Dona Enedina, da Fazenda Brejo do Meio, era muito mais conhecida do que o marido, Godofredo Pereira (em documentos legais) ou Godô Titica – às escondidas e para o resto da vida. Sujeito pinoia, esse Godô, um pinguim de homem, “raspa de tacho” dos Pereiras, do Brejo de Cima, que foi gente boa, mais porém afuleimada. Ninguém atinava com o porquê de o caçula dos Pereiras ser como era: piruá no meio de pipocas. Para completar, o fulustreco era perdigoteiro inveterado. Por via de algo estranho, inexplicável, o trem à-toa chegou ao mundo sem ser esperado, dois meses antes da data prevista. Quando ainda menino de escola, ganhou  o acréscimo Titica ao Godô, seu apelido certo. Com o correr dos anos, mas sem nunca lhe haver chegado aos ouvidos a coisa infamante, simplificaram o apelido, e ele passou a ser Titica, tão-somente. Já crescido – bom, crescido é força de expressão, porque, mesmo pelanco, era do tamanho de menino de doze anos -, já crescido, e por influência de rapazinhos sabidos, brincou com mulher pela primeira vez e se estrepou. Além de umas coisas que lhe estragaram as vergonhas, que o transformaram em alambique durante meses, destilando humores, ganhou ele uma moléstia de pele que, agora, ao chegar a velhice, se transformara numa cafubira danada. Braços e pernas lixentos, quando o comichão o atacava de repente, ficavam em petição de miséria. Suas unhas sujas levantavam pequenas nuvens de pó branco e fino, parecendo fubá de arroz. E o sujeitinho não paliava, coçava-se à vista de qualquer pessoa. Nem Siá Dina conseguia botar um paradeiro naquilo. Acabou largando de mão a coceira dele, empunhando com segurança as rédeas do governo da casa, da fazenda, de tudo. Mandava e desmandava dentro e fora dos seus limites territoriais. Daí, ser mais conhecida e respeitada do que Godô Titica. A inclinação que ela tinha de ser mulher macha vinha de longe, em desde ela mocinha, de cara sardenta e narizinho arrebitado. Não era fruto da moléstia que se conservara escondida tantos anos na carcaça do Godô e, sim, necessidade de colocar em ordem os negócios periclitantes do marido. Metera-se ele em tantos e tão mal sucedido fora, que Siá Dina, um dia, após discussão na qual ela não gastara mais do que uma gota de cuspe, e sem caridade pela cara de inocente fracassado que estava diante dela, falara alto:

            - Agora, atino que você se derrotou. Tomo conta da trenheira toda. Enfio umas calças de homem – de homem mesmo! – não essas que estão aí nessas suas pernas de menino, e acerto as coisas. A obrigação mais pesada é a que temos na gaveta do compadre Tinoco, né mesmo? Mais porém, tem prazo dilatado pra mais um ano, não foi o que ele disse? Pois então? A gente não se afoga num dedal de água. A gente vende o touro gademar – ele é menso, eu sei, mais porém vale bom dinheiro – umas dez vacas do fundo, acerta os juros, diminui a dívida. Se restar o casco da fazendinha só, a gente começa de novo...

          Dito e feito, Madrugadinha, Siá Dina estava de pé. O animal arreado, escarranchava-se sobre a sela, que nem homem, e saía numa toada só, correndo as mangas, dando ordens aos empregados, impondo sua vontade. Não escolhia montaria. Qualquer uma, ao gosto, mesmo que fosse passarinheira ou fuá. Montava-a com desembaraço, esporeava-a a preceito. Horas depois, o cavalo estava ofeguento, trocando as pernas, tropicando, lavado de suor. Siá Dina suxava qualquer cavalo. Era criatura que não gostava de lelês; mais porém, fumaçava à-toa. Dos fumegas, tolerava Godô, porque não tinha mais jeito. Quando moça, diziam, era uma pintura. Ainda hoje, apesar dos quarenta, era palpitosa, botava água na boca de muita donzela enfeitada. Enquanto a mulher se esfalfava, tentando por ordem nos negócios, que iam de mal a pior, Godô continuava a se coçar, ao embalo da rede, na varandinha da casa. Fazia, agora, o que sempre fizera: alisava a palha, picava o fumo, palmeava-o, enrolava o cigarro e acendia um na bagana do outro, amarelecendo de sarro a bigodeira caída sobre os beiços murchos. Estava ele assim, o pito preso entre os cacos de dentes, o olhar longe, perdido no céu azul sem nuvens, sonhando de olhos abertos, quando percebeu que alguém estava parado ao pé da escadinha da varanda. Fixou o vulto e nele reconheceu o Durvalino, camarada de confiança de Sêo Tinoco, do Brejo de Baixo. Atrevido, o chapéu de abas largas quebradas na frente da testa, um piraí trançado sobrando do cano da bota, aproximou-se, bateu palmas, gritando, como se Godô Titica não existisse:

           - Ô de casa!

           - Se achegue e se abanque, Sêo Du. Vosmecê é de paz, e a casa é dos amigos.

            A voz de Godô era um fiapinho, contrastando com o tom abaritonado da do outro, um galalau de homem, desempambado, cumpridor de ordens do patrão.

            - Não me abanco, porque vou adiante, mais légua e meia, em diligência. Trago um recado do Major Tinoco, que manda dizer pra vosmecê que pensou e repensou no caso e não pode mais esperar. Apareceram outros negócios...

            - Mais, Sêo Du, o compadre Tinoco não pode querer desgraçar a gente de uma vez. Ele me deu a palavra dele.

            A voz era de quem estava alarmado, trêmulo, acovardado. Durvalino gozava o constrangimento que lia na cara murcha de Godô, e sorria, fingindo comiseração. De uma das janelas, a voz forte de Siá Dina interrompeu aquele sorriso de deboche:

            - O recado já foi dado. Vosmecê não carece aumentar mais nada. A gente não manda o troco, agora, porque nossa conversa com ele é particular. Vancê pode voltar, recobrindo o rasto pra trás, que o mais eu ajeito.

            Apanhado de surpresa, Durvalino fez meia volta, tirou o chapéu, humilde, os olhos no chão

            - Me desculpe, Siá Dina. Não salvei vosmecê porque não vi sua aproximação. Falava pra Sêo Godô num recado mandado...

            E ela, enérgica, interrompendo-o:

            - Falei que o recado está dado. Vancê pode voltar, já disse.

            Fechou a cara, levantou a cabeça, pondo um ponto final na conversa. Durvalino saiu, montou o piquira, ganhou a estrada.

            - Vou na casa dele, Godô, agora mesmo, ajeitar as coisas. Antão será direito a gente perder as terras pra compadre Tinoco, sujeito sem alma, me arresponda, Godô, me arresponda? Sinto inté uma coisa me subindo do umbigo pra riba, por via da impostura dele.

            Enquanto isso Durvalino cismava: “Êta mulher macha, de cabelinho nas ventas! Gosto de ver uma diaba assim, despachada, que tem pimenta na língua e fogagem no rabo. O que deixa a gente dessossegado é ver uma prenda dessas dada a um caguincha daqueles, sujeitinho sem talento para aguentar o rojão. Vai ver... o porqueira não conhece nem a metade daquele mundo...”

            Sêo Tinoco ruminava o almoço, espichado na rede. Cochilava, de consciência tranquila, certo de que teria suas terras aumentadas de mais uns cinquenta alqueires, tomados às do Brejo do Meio, liquidando Tiririca e sua gente. Cochilava e sorria. A rede ia e vinha, preguiçosa, acolhedora. Havia silêncio na varanda ensombrada e fresca. Sêo Tinoco ruminava... a porteira do pátio bateu com violência, os cachorros latiram, um bem-te-vi assustou-se, largou a lagartinha-compasso que saboreava, voou para longe. Sêo Tinoco abriu os olhos sonolentos e divisou a mulher sofreando o cavalo. Mal refeito do sono interrompido, reconheceu a comadre.

            - Ora viva, que surpresa!

            Avançou, ainda incerto das pernas, para segurar o estribo – como se usa receber uma visita cavaleira -, o sorriso aberto na cara assustada:

            - Desamonte, comadre, a casa é vossa, o oferecimento sai do coração.

            Ofegosa, sem mesmo desejar-lhe um “bom dia”, Siá Dina foi falando:

            - Me releva a falta, mas porém não desapeio, nhor não, porque, hoje, não vim visitar a comadre Donana.

            Tomou fôlego, aquietou o cavalo, indócil por via de umas mutucas, batendo com a mão espalmada no pescoço dele, continuou, meio engasgada:

            - Vosmecê sabe, compadre, que eu não sou mulher de leréias e pendengas. As coisas comigo são no risco da lei, da palavra dada. Parece que vosmecê é homem de verdade, falou que a gente ficasse descansada durante um ano, não foi? Agora, sem quê nem pra quê, vosmecê mandou aquele recado arrevesado...

            Sêo Tinoco interrompeu-a:

            - Ora, comadre! Vosmecê não precisa sangrar na veia-da-saúde. O Du é sujeito especula. Se andou falando coisas que não devia, é da conta e do risco dele. Não mandei aviso pra dessossegar ninguém. – E, abaixando a cabeça, desconversando: - E o compadre, como vai de saúde, está melhor dos incômodos? Já combinei com a Donana uma visitinha, qualquer dia...

            - Pois, compadre, não foi entendimento enganoso, nhor não. Vim aqui pra desenturvar as coisas e digo pra vosmecê, sem botar um só porém na minha fala... – Parou, as mãos trementes tentando segurar as rédeas, o olhar firme na cara lívida de Sêo Tinoco: - Se vosmecê procurar a justiça antes do prazo que deu pra nós, ninguém de sua gente botará os pés nas terras do Brejo do Meio... A gente espandonga vosmecê e os mais...

            Deu de rédeas, esporeou o cavalo, ganhou a estrada, soverteu-se na poeirada.

 

(BAZÉ – ESTÓRIAS SERTANEJAS)

Nelson de Faria

          

terça-feira, 21 de junho de 2022

DIA DE ELEIÇÃO – Helena Borborema



            Já muito cedo a vila de Itabuna apresentava um movimento desusado. Naquele dia, as famílias preferiam nem sair de casa, com medo do que pudesse acontecer. Nas estreitas ruas, indivíduos ostensivamente armados, montando fogosos cavalos, clavinote a tiracolo, desfilavam com ares intimidativos. Era a jagunçada que circulava, arregimentando eleitores e provocando adversários. A votação era para eleger o governador do Estado e, por isso, tornava-se sanhuda, pois daquela autoridade ia depender a força do coronel da região. Além das arrobas de cacau que colhia e do número de jagunços quer possuía, era da política que o coronel tirava maior prestígio, o que aumentava a sua vaidade de aristocrata rural e lhe dava maior força nos mandos e desmandos. Assim, a cata pelos votos era disputa violenta.

            No dia marcado, mal rompia o sol, começavam a chegar os eleitores. Vinham dos arredores e sobretudo das roças. Estas se esvaziavam, dando ocasião ao desfile dos roceiros: pés descalços, os borzeguins iam amarrados um pé no outro pelos cadarços e pendurados numa vara carregada no ombro; no braço, ia a roupa nova, presente do chefe, envolvida numa toalha para ser mudada na vila. A grande caminhada dentro dos matos cheios de carrapichos e atoleiros não dava condição a esses eleitores de já chegarem enfarpelados à casa de seus chefes. Os que vinham dos lados de Ferradas, contavam com um riacho, o Lava-pés, na entrada da vila, onde se limpavam da lama antes de calçarem as botinas.

            Dias antes, as lojas de sapatos, chapéus e roupas estavam franqueadas a seus eleitores, pelos coronéis.

            Chegado o dia do voto, nas pensões o caldeirão de feijoada já amanhecia pronto; no fogão a lenha, fumegavam panelas de galinha, cujo cheiro se misturava com o dos perus assados no forno. Este banquete era para os eleitores e a jagunçada. Todos os eleitores tinham comida de graça, os vivos é evidente, porque os mortos  só apareciam nas listas de votação. Tudo podia acontecer num dia de eleição: tiros, mortes, ameaças, pancadaria, burla. Os capangas tinham carta branca. Daí o receio das famílias de se aventurarem a sair com tamanho perigo.

            Num desses dias de votação, um grupo de jagunços de determinado partido político lançou mão de um dos muitos recursos que usavam para impedir que os adversários votassem. Em pontos estratégicos na entrada da vila, prostraram-se eles à espera  dos tabaréus que chegavam das roças. Não tardou que, um a um, fossem aparecendo.

            - Menino! De quem você é eleitor?

            - Eu sou eleitor do coronel  fulano.

            - Pode passar. Tá direito. É dos nossos.

            Perguntavam a outro que chegava mais tarde:

            - Você, menino, de quem é eleitor?

            A resposta vinha meio desconfiada, pois não sabiam a que partido pertenciam os desconhecidos. Mas aventurava:

            - Eu sou eleitor do coronel beltrano...

            - Você não vota, não. Você vai é voltar pra casa, senão lhe cortamos a ponta da orelha!

            E a bainha do facão caía de rijo no lombo do pobre coitado que voltava mesmo, correndo, ainda dando graças a Deus por salvar a orelha e a vida.

            Era o início as noite. A eleição tinha chegado ao fim. Dois cavaleiros meio encobertos pelos grossos palas que  que lhes desciam até o meio das pernas e as largas abas dos chapéus protegendo-lhes os rostos, pararam à porta de uma vendola na beira da estrada que ia dar em Ferradas. Ao desmontar, deixaram à mostra as pistolas que cada um portava, além de compridos punhais trazidos presos à cintura.

            Os dois estranhos aproximaram-se do pequeno balcão e pediram cachaça.

            - O amigo não foi votar?

            - Não. – respondeu o vendeiro, moço novo chegado há pouco ao lugar. – Vim de Sergipe sabendo que aqui tem muitos assassinatos e eu não quero me envolver em política.

            - E quem são os assassinos aqui? O que vosmecê tá querendo insinuar?

             - Nada não. É que ouvi histórias dos jagunços que matam de tocaia.

            - Aqui nesta terra só tem é macho valente!

            - Valente é quem enfrenta homem cara a cara.

            - O que tá querendo dizer?

            - Esses jagunços são todos uns covardes. Eu gostaria de ver um deles enfrentar um homem frente a frente.

            - Olha que ainda vai ver.

            - No dia em que isso acontecer, eu vou ser padre e celebrar missa, porque nunca vai acontecer.

            - A conversa já foi longe demais, homem.

           As últimas talagadas de cachaça foram tomadas e as derradeiras cusparadas ficaram no chão de terra batida.

            Jogando sobre o balcão alguns níqueis, os dois desconhecidos montaram nos seus cavalos e partiram a galope sumindo na escuridão da noite.

            O tagarela imprudente apagou o fifó da vendinha e foi dormir.

            No outro dia, o sol já se levantara a um bom pedaço de tempo, quando três indivíduos entraram na bodega e intimaram o dono para uma pescaria. Era um domingo silencioso, como todos os domingos de roça.

            Reconhecendo os dois visitantes da véspera, o apavorado vendeiro logo sentiu o pior.

            - Pelo amor de Deus, o que vocês querem de mim?

            - Você vai pescar – disse um. Enquanto falava, foi arrancando o pobre coitado de detrás do balcão. Agarrado de um lado e de outro, em pânico, trêmulo, sem ter para quem apelar, foi sendo levado em direção ao rio. O lugar era deserto. Além disso, o alto barranco e as moitas que cresciam nas encostas deixavam o local longe das vistas dos passantes na estrada.

            Num trecho cheio de pedras baixas e lisas pararam.

            - Agora se benza e ajoelhe – disse um dos bandidos – porque você virou padre e vai celebrar missa. – Dizendo isto, foi lhe vibrando em cima o chicote de umbigo de boi.

            - Levante! – gritou o outro – Vire de frente, nos dê a bênção e se ajoelhe. – O chicote estava caindo.

            - Você não disse que homem aqui não tem coragem de matar cara a cara? Pois vamos lhe mostrar. – E o chicote foi caindo... caindo...

            Era meio-dia. O sol já estava a pino.

            Com as carnes rasgadas, o sangue escorrendo no lajedo quente, a pobre vítima gritava e implorava por socorro e misericórdia, mas os seus gritos de dor e depois os gemidos de moribundo se perdiam na amplidão do espaço. Dentro de poucas horas estava morto e o seu corpo foi rolado para a correnteza do rio.

           Além dos três assassinos, a única testemunha muda desse bárbaro crime, foi o tranquilo e silencioso Rio Cachoeira.

 

(TERRAS DO SUL)

Helena Borborema

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Helena Borborema - Nasceu em Itabuna. Professora de Geografia, lecionou muitos anos nos colégios Divina Providência, Ação Fraternal e Colégio Estadual de Itabuna. Formada em Pedagogia pela Faculdade de Filosofia de Itabuna, exerceu o cargo de Secretária de Educação e Cultura do Município. 

Filha do Dr. Lafayette Borborema, o primeiro advogado de Itabuna. É autora de ‘Terras do Sul’, livro em que documento, memória e imaginação se unem num discurso despretensioso para testemunhar o quadro social e humano daqueles idos de Tabocas. Para a professora universitária Margarida Fahel, ‘Terras do Sul’ são estórias simples, plenas de "emoção e humanidade, querendo inscrever no tempo a história de uma gente, o caminho de um rio, a esperança de uma professora que crê no homem e na terra". 

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21 DE JUNHO - DIA DE MACHADO DE ASSIS

 

 


Discurso de Inauguração da Academia (20/07/1897)

DISCURSO DE MACHADO DE ASSIS


Pronunciado na sessão inaugural da Academia Brasileira de Letras em 20 de julho de 1897, ao empossar-se Presidente.


"SENHORES,

            Investindo-me no cargo de presidente, quisestes começar a Academia Brasileira de Letras pela consagração da idade. Se não sou o mais velho dos nossos colegas, estou entre os mais velhos. É simbólico da parte de uma instituição que conta viver, confiar da idade funções que mais de um espírito eminente exerceria melhor. Agora, que vos agradeço a escolha, digo-vos que buscarei na medida do possível corresponder à vossa confiança.

            Não é preciso definir esta instituição. Iniciada por um moço, aceita e completada por moços, a Academia nasce com a alma nova, naturalmente ambiciosa. O vosso desejo é conservar, no meio da federação política, a unidade literária. Tal obra exige, não só a compreensão pública, mas ainda e principalmente a vossa constância. A Academia Francesa, pela qual esta se modelou, sobrevive aos acontecimentos de toda casta, às escolas literárias e às transformações civis. A vossa há de querer ter as mesmas feições de estabilidade e progresso. Já o batismo das suas cadeiras com os nomes preclaros e saudosos da ficção, da lírica, da crítica e da eloquência nacionais é indício de que a tradição é o seu primeiro voto. Cabe-vos fazer com que ele perdure. Passai aos vossos sucessores o pensamento e a vontade iniciais, para que eles os transmitam aos seus, e a vossa obra seja contada entre as sólidas e brilhantes páginas da nossa vida brasileira. Está aberta a sessão.

            Acadêmico: Machado de Assis"

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Machado de Assis (Joaquim Maria Machado de Assis), jornalista, contista, cronista, romancista, poeta e teatrólogo, nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 21 de junho de 1839, e faleceu também no Rio de Janeiro, em 29 de setembro de 1908. É o fundador da cadeira nº. 23 da Academia Brasileira de Letras. Velho amigo e admirador de José de Alencar, que morrera cerca de vinte anos antes da fundação da ABL, era natural que Machado escolhesse o nome do autor de O Guarani para seu patrono. Ocupou por mais de dez anos a presidência da Academia, que passou a ser chamada também de Casa de Machado de Assis.

 

Fonte: Academia Brasileira de Letras (ABL)

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segunda-feira, 20 de junho de 2022

ITABUNA CENTENÁRIA UM SONETO: Amor e Vida - Raimundo Correia


 

Amor e Vida

Raimundo Correia

 

Esconde-me a alma, no íntimo, oprimida,
Este amor infeliz, como se fora
Um crime aos olhos dessa, que ela adora,
Dessa, que crendo-o, crera-se ofendida.

A crua e rija lâmina homicida
Do seu desdém vara-me o peito; embora,
Que o amor que cresce nele, e nele mora,
Só findará quando findar-me a vida!

Ó meu amor! como num mar profundo,
Achaste em mim teu álgido, teu fundo,
Teu derradeiro, teu feral abrigo!

E qual do rei de Tule a taça de ouro,
Ó meu sacro, ó meu único tesouro!
Ó meu amor! tu morrerás comigo!


                                                            (Sinfonias, 1883.)

 


Raimundo Correia
(R. da Mota de Azevedo C.), magistrado, professor, diplomata e poeta, fundador da cadeira 5 da ABL, nasceu em 13 de maio de 1859, a bordo do navio brasileiro São Luís, ancorado na baía de Mogúncia, MA, e faleceu em Paris, França, em 13 de setembro de 1911.

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sábado, 18 de junho de 2022

POBRE RIO CACHOEIRA, Por Sione Porto

 


Pobre Rio Cachoeira

Sione Porto

 

Menina, vi o Rio Cachoeira,
Belo e veloz, descer
Em busca do mar,
Com seu verde e ondas vertiginosas,
Brilhar perto das margens,
Nos fazendo encantar!

Então, comigo pensava,
Quão magnífico, ó Rio Cachoeira,
Cheio de vida e amplexos,
Trazendo cardumes nas redes
Peixes a se multiplicar,
Para os pobres alimentar!

Menina, vi o Rio Cachoeira
Banhando as lavadeiras,
Que após lavar roupas tão alvas,
Entoando sonoros cantos ribeirinhos,
Saíam com suas trouxas na cabeça,
Nos fazendo sonhar e sonhar!

Hoje, procuro o Rio Cachoeira,
De tanta beleza de outrora,
Mas apenas vejo sujeira,
dentro e nos seus arredores,
povoado de garças sorrateiras,
Que triste é o Rio Cachoeira!

Será que ninguém ver o seu penar?
Antes tão absoluto e majestoso,
A deslizar nas ondas fortes
Na sólida terra grapiúna,
Que hoje geme e sangra,
Querendo se recuperar?

Bravo Rio Cachoeira,
Estrela brilhante,
Daqueles que o amam,
Certamente uma voz,
Falará mais alto para o salvar,
E, como aquele que não foge à luta, sobreviverá!

 

Sione Maria Porto de Oliveira, poetisa.

Membro da Academia de Letras de Itabuna (Alita)

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A Percepção Poética de Heloísa Prazeres

Cyro de Mattos (*)  


            

             Depois da estreia com a Pequena história, antologia pessoal, a baiana (de Itabuna) Heloísa Prazeres retoma seu processo poético com um segundo volume, Casa onde habitamos (2016), formado de consistente união entre inspiração e transpiração, intuições e reflexões, imaginações e registros. Nesse segundo volume, com a ilustração de fotografia de  Jamison Pedra, a poeta usa a palavra simbolizada para metamorfosear o discurso da vida como resultado de trabalhos de bastidor, achados nas zonas suspensas do sonho, fiações de interiores sob o teto da terra, memórias para alcançar o  entendimento no mesmo chão de suas origens.

            Há nos oitenta e dois poemas que compõem essa casa, tecida com o labor do sonho, um ritmo que conduz a ideia através de versos bem construídos para o preenchimento dos vazios no mundo. Assim, nos domínios onde a atribuição a um autor consiste na  boa literatura mesclada com instrumental crítico suficiente, o emprego de linguagem eficaz deixa  ver que aqui estamos diante de uma construção poética  segura, de signo adornado pelo som na cadência musical própria do poema,  que diz de emoções chegando da  memória ou da razão, como se fossem sensações que na imagem iluminam o ser.   

        Numa lírica moderna ressoa o uso do vocábulo estrangeiro, a boa referência a poetas e escritores de predileção pessoal, mas em especial o tempo que, na alma enlaçando afetos e afinidades, busca outro tempo, marcado através de experiências, revelações tantas perante a existência.  Dividido em quatro partes, “Trabalhos de bastidor”, “Antessala de sonho”, “Sob o teto da terra” e “Mesmo chão”, podemos dizer que, nessa casa onde o eu lírico traça projetos efêmeros ante o eterno que perdura, a chave para o seu conhecimento, distribuído em compartimentos delimitados pelo assunto ou tema, o qual homenageia a vida, está na epígrafe de Sophia de Mello Breyner Andresen, tão esplêndida poeta portuguesa quanto luminosa contista, quando diz:

 

Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco

E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo

               

         Quando a reconstrução do mundo no verso é convincente, faz pensar logo como a vida é falha, repleta de contradições dentro de certo peso que impõe suas vozes agudas permeadas da ambiguidade na passagem do tempo. Sendo falha, para equilibrar-se nos vazios, o poeta recorre à   linguagem literária para inaugurar novos sentidos, lembrando assim que na quimera e na divagação, na pureza de dicção superior, criativa, a vida torna-se viável. Utiliza por isso lições plasmadas em linguagem específica para discorrer sobre o espanto da vida e assim prosseguir na litania do verso,  que em si mesmo se sustenta e encanta. 

              O poeta quer dizer com isso que o seu gesto de ler o mundo põe claridade nas partes escuras que ocultam o mundo. O verso supre a deficiência crítica, repleta de limitações, impossibilidades que envolvem aos humanos perante a experiência da vida em que entra a solidão, o tédio, o azar e a tristeza.  Embora existam as flores, sabe-se que elas somem, mal surgem. Ao poeta Heloísa Prazeres, o milagre para que sempre sobrevivam consiste em vê-las com a sua teimosia no deserto, em tácito entendimento com as altiplanas montanhas de Nevada, como as encontramos no afetuoso “Poema para os meus amigos”. Lembre-se então que, ressoando larguras e profunduras, em mínimas cosmovisões de ternuras, disse Neruda que a flor da alma na alma flora.

          Na geografia íntima da casa abandonada, Heloísa Prazeres não sabe “dizer se havia/consentimentos, apelos/de viagens dominavam/ vontades. Seguro apenas/ o mandato da aventura.”  E, porque o desafio consiste em ultrapassar a aventura do viver, o tempo dos legítimos poetas é outro. Decide-se com os reclamos da alma, rumores urdidos com “mala fixa e estética”, emoções e conceitos mesclados com a permanência de surpresas, cismas e perplexidades.  É o que percebemos, por exemplo, no discurso singular do poema “Trópico do capricórnio.”

         Até mesmo no poema “Familiar”, os versos livres de Heloísa Prazeres, de um ritmo quase automático, de incrível rapidez e visibilidade, síntese e concisão, como quer Italo Calvino,  fixam-se na  cena com assunto moderno, extraído do mundo internético de hoje, o qual, instalado  no grupo, faz com que cada um fique hipnotizado no seu recurso, na cerimônia ao deus TIC - Tecnologia da Informação e Divulgação.

        Esse modo de estruturar o verso nos tempos de hoje, embalado do eletrônico que não se ajusta ao sol na manhã com esperança, só comprova que nessa casa de Heloísa Prazeres, aqui e agora, com leveza e graça, densidade e clareza, a poesia está em tudo.

            O poema não engole o poeta quando provido de linguagem adequada e percepção do mundo.

 

Leitura Sugerida

PRAZERES, Heloísa. Casa onde habitamos, Editora Scortecci, São Paulo, 2016.

 


*Cyro de Mattos
é autor premiado no Brasil e exterior.

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