Total de visualizações de página

Mostrando postagens com marcador Terras do Sul. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Terras do Sul. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 21 de junho de 2022

DIA DE ELEIÇÃO – Helena Borborema



            Já muito cedo a vila de Itabuna apresentava um movimento desusado. Naquele dia, as famílias preferiam nem sair de casa, com medo do que pudesse acontecer. Nas estreitas ruas, indivíduos ostensivamente armados, montando fogosos cavalos, clavinote a tiracolo, desfilavam com ares intimidativos. Era a jagunçada que circulava, arregimentando eleitores e provocando adversários. A votação era para eleger o governador do Estado e, por isso, tornava-se sanhuda, pois daquela autoridade ia depender a força do coronel da região. Além das arrobas de cacau que colhia e do número de jagunços quer possuía, era da política que o coronel tirava maior prestígio, o que aumentava a sua vaidade de aristocrata rural e lhe dava maior força nos mandos e desmandos. Assim, a cata pelos votos era disputa violenta.

            No dia marcado, mal rompia o sol, começavam a chegar os eleitores. Vinham dos arredores e sobretudo das roças. Estas se esvaziavam, dando ocasião ao desfile dos roceiros: pés descalços, os borzeguins iam amarrados um pé no outro pelos cadarços e pendurados numa vara carregada no ombro; no braço, ia a roupa nova, presente do chefe, envolvida numa toalha para ser mudada na vila. A grande caminhada dentro dos matos cheios de carrapichos e atoleiros não dava condição a esses eleitores de já chegarem enfarpelados à casa de seus chefes. Os que vinham dos lados de Ferradas, contavam com um riacho, o Lava-pés, na entrada da vila, onde se limpavam da lama antes de calçarem as botinas.

            Dias antes, as lojas de sapatos, chapéus e roupas estavam franqueadas a seus eleitores, pelos coronéis.

            Chegado o dia do voto, nas pensões o caldeirão de feijoada já amanhecia pronto; no fogão a lenha, fumegavam panelas de galinha, cujo cheiro se misturava com o dos perus assados no forno. Este banquete era para os eleitores e a jagunçada. Todos os eleitores tinham comida de graça, os vivos é evidente, porque os mortos  só apareciam nas listas de votação. Tudo podia acontecer num dia de eleição: tiros, mortes, ameaças, pancadaria, burla. Os capangas tinham carta branca. Daí o receio das famílias de se aventurarem a sair com tamanho perigo.

            Num desses dias de votação, um grupo de jagunços de determinado partido político lançou mão de um dos muitos recursos que usavam para impedir que os adversários votassem. Em pontos estratégicos na entrada da vila, prostraram-se eles à espera  dos tabaréus que chegavam das roças. Não tardou que, um a um, fossem aparecendo.

            - Menino! De quem você é eleitor?

            - Eu sou eleitor do coronel  fulano.

            - Pode passar. Tá direito. É dos nossos.

            Perguntavam a outro que chegava mais tarde:

            - Você, menino, de quem é eleitor?

            A resposta vinha meio desconfiada, pois não sabiam a que partido pertenciam os desconhecidos. Mas aventurava:

            - Eu sou eleitor do coronel beltrano...

            - Você não vota, não. Você vai é voltar pra casa, senão lhe cortamos a ponta da orelha!

            E a bainha do facão caía de rijo no lombo do pobre coitado que voltava mesmo, correndo, ainda dando graças a Deus por salvar a orelha e a vida.

            Era o início as noite. A eleição tinha chegado ao fim. Dois cavaleiros meio encobertos pelos grossos palas que  que lhes desciam até o meio das pernas e as largas abas dos chapéus protegendo-lhes os rostos, pararam à porta de uma vendola na beira da estrada que ia dar em Ferradas. Ao desmontar, deixaram à mostra as pistolas que cada um portava, além de compridos punhais trazidos presos à cintura.

            Os dois estranhos aproximaram-se do pequeno balcão e pediram cachaça.

            - O amigo não foi votar?

            - Não. – respondeu o vendeiro, moço novo chegado há pouco ao lugar. – Vim de Sergipe sabendo que aqui tem muitos assassinatos e eu não quero me envolver em política.

            - E quem são os assassinos aqui? O que vosmecê tá querendo insinuar?

             - Nada não. É que ouvi histórias dos jagunços que matam de tocaia.

            - Aqui nesta terra só tem é macho valente!

            - Valente é quem enfrenta homem cara a cara.

            - O que tá querendo dizer?

            - Esses jagunços são todos uns covardes. Eu gostaria de ver um deles enfrentar um homem frente a frente.

            - Olha que ainda vai ver.

            - No dia em que isso acontecer, eu vou ser padre e celebrar missa, porque nunca vai acontecer.

            - A conversa já foi longe demais, homem.

           As últimas talagadas de cachaça foram tomadas e as derradeiras cusparadas ficaram no chão de terra batida.

            Jogando sobre o balcão alguns níqueis, os dois desconhecidos montaram nos seus cavalos e partiram a galope sumindo na escuridão da noite.

            O tagarela imprudente apagou o fifó da vendinha e foi dormir.

            No outro dia, o sol já se levantara a um bom pedaço de tempo, quando três indivíduos entraram na bodega e intimaram o dono para uma pescaria. Era um domingo silencioso, como todos os domingos de roça.

            Reconhecendo os dois visitantes da véspera, o apavorado vendeiro logo sentiu o pior.

            - Pelo amor de Deus, o que vocês querem de mim?

            - Você vai pescar – disse um. Enquanto falava, foi arrancando o pobre coitado de detrás do balcão. Agarrado de um lado e de outro, em pânico, trêmulo, sem ter para quem apelar, foi sendo levado em direção ao rio. O lugar era deserto. Além disso, o alto barranco e as moitas que cresciam nas encostas deixavam o local longe das vistas dos passantes na estrada.

            Num trecho cheio de pedras baixas e lisas pararam.

            - Agora se benza e ajoelhe – disse um dos bandidos – porque você virou padre e vai celebrar missa. – Dizendo isto, foi lhe vibrando em cima o chicote de umbigo de boi.

            - Levante! – gritou o outro – Vire de frente, nos dê a bênção e se ajoelhe. – O chicote estava caindo.

            - Você não disse que homem aqui não tem coragem de matar cara a cara? Pois vamos lhe mostrar. – E o chicote foi caindo... caindo...

            Era meio-dia. O sol já estava a pino.

            Com as carnes rasgadas, o sangue escorrendo no lajedo quente, a pobre vítima gritava e implorava por socorro e misericórdia, mas os seus gritos de dor e depois os gemidos de moribundo se perdiam na amplidão do espaço. Dentro de poucas horas estava morto e o seu corpo foi rolado para a correnteza do rio.

           Além dos três assassinos, a única testemunha muda desse bárbaro crime, foi o tranquilo e silencioso Rio Cachoeira.

 

(TERRAS DO SUL)

Helena Borborema

..............

Helena Borborema - Nasceu em Itabuna. Professora de Geografia, lecionou muitos anos nos colégios Divina Providência, Ação Fraternal e Colégio Estadual de Itabuna. Formada em Pedagogia pela Faculdade de Filosofia de Itabuna, exerceu o cargo de Secretária de Educação e Cultura do Município. 

Filha do Dr. Lafayette Borborema, o primeiro advogado de Itabuna. É autora de ‘Terras do Sul’, livro em que documento, memória e imaginação se unem num discurso despretensioso para testemunhar o quadro social e humano daqueles idos de Tabocas. Para a professora universitária Margarida Fahel, ‘Terras do Sul’ são estórias simples, plenas de "emoção e humanidade, querendo inscrever no tempo a história de uma gente, o caminho de um rio, a esperança de uma professora que crê no homem e na terra". 

* * *

quinta-feira, 2 de julho de 2020

O PATRIARCA – Helena Borborema

          Como Abraão, ele foi também pai de um numeroso povo. Qual predestinado, teve na vida uma grande missão que soube cumprir com retidão de caráter e grande bondade, sendo a sua passagem pelo mundo uma trajetória de trabalho, idealismo e desprendimento. A história desse Patriarca teve início em março de 1863 quando, ainda adolescente, chegou à região Sul da Bahia em companhia dos pais, irmãs e do avô. Nas matas do Sul ele cresceu e aprendeu a desvendar seus segredos. Ambientou-se ao novo clima, sobreviveu a febres mortais e enfrentou toda a labuta e sacrifícios que o novo meio oferecia no dia-a-dia. José Firmino Alves, foi o seu nome. Filho de desbravador, seu pai, o sergipano José Alves, foi dos primeiros a se lançar na grande aventura do Sul. Quando chegou a essas terras do Município de Ilhéus, acompanhado da família, havia por esses lados apenas a aldeia de índios mansos em Ferradas, dirigida por frades missionários. Tudo o mais era mata com todas as suas características selváticas, onde apenas as clareiras abertas por Félix Severino e Manoel Constantino indicavam o trabalho de pioneirismo.

            O pequeno grupo começou vida dura de desbravadores na mata cerrada, entre índios, com carência de tudo o que fosse necessário à saúde ou ao conforto. Enfrentando chuvas rigorosas e invernos úmidos, falta de qualquer meio de transporte, só mesmo os fortes de espírito podiam suportar as adversidades daquele meio. Mas José Alves se estabeleceu com a família nesse ermo, limpou a terra e plantou cacau. Da luta do homem e mata resultou a vitória do primeiro, quando as verdes plantações de cacaueiros dominaram a terra subjugada pelo trabalho daquele punhado de destemidos sergipanos. A Burundanga foi o reduto dessa família corajosa onde o velho José Alves viria mais tarde a sucumbir.

            Com a morte do pai, o moço José Firmino assumiu a responsabilidade de cuidar da família e continuar o trabalho do velho pioneiro.

            Nas margens do Rio Cachoeira, principal vias dessa terra brabas, outros desbravadores aos poucos se instalaram; com eles, rústicas vendolas surgiram, as “tabocas”, destinadas a atender com o pequeno comércio de fumo, açúcar, querosene, os sertanejos que transitavam de Conquista para Ilhéus com seus carregamentos de requeijão, charque, e por aqui faziam pernoite certo. José Firmino passou também a negociar. Abriu pequena casa de comércio, misto de loja e armazém. As suas atividades se dividiram então entre a roça de cacau e o comércio. Em torno das vendolas ou “tabocas”, da beira do rio, acabou se formando um aglomerado de pequenas casas cobertas de palhas umas, outras de telhas – o arraial das Tabocas (1873).

            A casa comercial de José Firmino tinha mercadoria variada que ia, desde tecidos de algodão a gêneros alimentícios, sabão, querosene, chumbo para caça, o que atendia às necessidades das famílias do nascente arraial e das roças. Já não era mais preciso a longa caminhada para a vila de Cachoeira, pois Tabocas começava a fornecer à pequena população, os gêneros de necessidade. Assim, o pequeno armazém foi prosperando. O amor à terra onde crescera e onde se sentia arraigado, aumentou no moço comerciante o seu sonho de vê-la progredir. Queria ver o arraial das Tabocas crescer, prosperar e que muita gente viesse colaborar para aquele progresso. De sob aquelas árvores, de dentro daquele mato, haveria de sair a Terra da Promissão onde correria, não leite e mel, mas dinheiro, muito dinheiro. Não se limitou o moço sergipano a cuidar somente do seu patrimônio, a simplesmente plantar cacau, multiplicar suas roças e descansar na própria riqueza. Ele queria a prosperidade da terra.

            Famílias foram chegando para o arraial. Na mata, as clareiras aqui e acolá indicavam a penetração de outros bravos pioneiros. O tempo foi passando. Já dono de um sólido patrimônio, conhecido na capital do Estado, onde ia fazer compras para abastecer sua casa de comércio já próspera e forte, o então coronel José Firmino Alves, com crédito firmado, abriu em uma conceituada casa comercial de Salvador uma conta corrente para financiar às suas custas o transporte de patrícios seus, os mais pobres, a fim de que pudessem vir para Tabocas sem dificuldades monetárias, e aqui trabalhar. Distribuía ainda por sua conta, instrumentos de lavoura com os chegantes, que rumavam mata a dentro, abrindo suas próprias roças.

            José Firmino enxergava muito além do seu tempo. Já estabelecido no arraial, anteviu a cidade que devia nascer e crescer para um futuro de grandeza. Sentiu a necessidade de incentivar a fixação na terra de elementos úteis e de valor que a procurassem. Na falta de um hotel, cedeu uma casa de sua propriedade para acomodar as pessoas de bem que chegassem. Era a “República dos Hóspedes”. Estes aí ficavam acomodados até que se estabelecessem no trabalho e em casa, por conta própria.

            São muitos os que procuram Tabocas, aquela pequena colmeia de sergipanos e sertanejos. Vêm do interior do Estado, do Recôncavo (Santo Amaro é um grande celeiro de migrantes), da capital, de outros Estados e até de terras longínquas do Oriente, das regiões da Síria e do Líbano.

            O incipiente arraial haveria de progredir sob a inspiração mágica daquele coronel que manda construir um sobrado de bonita arquitetura para sua residência, o primeiro e único daquela povoação, pouco importando o aspecto simplório do arraial de chão coberto de lama e capinzal. Aquela construção de aspecto senhorial, com suas janelas de gradis de ferro trabalhado e emolduradas por lindos florões esculpidos em cimento nas suas três fachadas, era um atestado de amor à terra e confiança no seu futuro. Acolhedor, tornou-se aquele sobrado o centro da vida política e social do arraial de Tabocas. Nos seus salões, importantes decisões da política e da vida regional foram tomadas, sem falar nas alegres comemorações nele realizadas e nos animados saraus dançantes feitos sob a claridade de bonitos lustres de bico de gás e ao som de um piano que o Coronel mandara buscar em Salvador. Entre jarrões de louça alemã e o tinir de cristais, poesias eram declamadas pelos moços da terra e, pelas jovens mais dotadas de voz, belas canções quebravam o silêncio das noites do arraial. Eram os encontros de congraçamento que o “sobrado do coronel” proporcionava, consolidando, fortalecendo uma sociedade em formação. O bonito sobrado era o cérebro e a alma do arraial e depois vila de Itabuna.

            Já tendo constituído família, casado com dona Lucrécia Selmann, de tradicional família ilheense, coronel, Firmino Alves envia suas filhas a estudarem em Salvador, a despeito de todas as dificuldades de transporte da época e embora vivendo num meio onde poucas mulheres tinham acesso à instrução.

            Esse coronel de maneiras simples e afáveis, crescido e vivido na mata e depois no arraial, tinha alma de esteta. Além da bonita construção de sua residência, presenteia uma de suas filhas casadas com um outro belo sobrado de inusitado estilo para aquele meio, aqueles primeiros tempos de Itabuna, uma imitação de um castelo medieval. Essa construção foi entregue à direção do mestre de obras, o português “seo Américo”, responsável por muitas das melhores obras de Itabuna. Internamente, as suas paredes foram decoradas com lindas pinturas de flores e guirlandas em suave colorido, num trabalho primoroso de um pintor vindo especialmente de Salvador para executá-lo. O lindo teto de madeira trabalhada e o piso de madeira de lei, além da bela porta de madeira entalhada e vidro bisotado, acabavam de enriquecer todo o conjunto. Esse sobrado, o “castelo” como era chamado, ficou como um marco na paisagem urbanística de Itabuna pela sua beleza e arquitetura fora do comum.

            O progresso material em Tabocas era sensível, corria dinheiro, casas eram construídas, as sacas de cacau se empilhavam nos depósitos das fazendas e nos armazéns, as tropas cresciam, o comércio se movimentava, mas a população crente e fervorosa se ressentia da falta de vida espiritual. Atendendo aos apelos das almas piedosas, José Firmino dá uma área de suas próprias terras para que fosse nela erigida uma igreja sob o patrocínio de São José – à qual seria mais tarde a igreja matriz de Itabuna (1893).

            O povoado de casinhas modestas e ruas enladeiradas crescia cada vez mais. Gente boa e gente ruim nela fincava pouso; era a aventura do dinheiro, o desejo da fortuna através dos frutos amarelos dos cacaueiros.

            Chega o ano de 1906. O distrito de Tabocas, desmembrado do município de Ilhéus, passa a município, vila e termo com o nome de Itabuna. Uma representação fora enviada à Câmara dos Deputados Estaduais, pedindo a criação do Município de Itabuna. Um dos signatários era o coronel José Firmino Alves, que se comprometia a doar os prédios necessários para a Intendência, o Quartel da Polícia e a casa do Juiz Preparador. Vai à capital do Estado e solicita, pessoalmente, do Arcebispo Dom Jerônimo Tomé da Silva, a criação da Paróquia. Diante das dificuldades apresentadas pela falta de padres disponíveis, José Firmino faz uma discreta advertência: “Bem, Eminência, se não há um sacerdote católico que possa ir para a vila de Itabuna, então convidarei um Pastor protestante”. O impasse é logo resolvido e fica garantida a vinda de um vigário para a futura paróquia, comprometendo-se mais uma vez Firmino Alves a doar como patrimônio da mesma uma casa para residência do vigário, que seria o Monsenhor Moisés Gonçalves do Couto, o primeiro a ocupar o importante cargo. Assim foi criada a Paróquia de São José (1908).

            Em recompensa pelos seus serviços no campo espiritual, foi Firmino Alves agraciado pelo Santo Padre Pio X, com a comenda Pró Eclesia et Pontifice e a bênção papal (1913).

            Esse homem de espírito batalhador e coração generoso ficou rico, conservando uma modéstia singular. Chefe político de grande prestígio, jamais pleiteou para si uma eleição, como também jamais deu guarida a jagunços em suas fazendas ou praticou um ato que desabonasse a sua conduta.

            A vila de Itabuna prosperava rápido. Muita gente para ela convergia. Vieram os morigerados e trabalhadores, vieram assassinos e desordeiros. Dias alegres e dias de terror marcavam seu calendário. Firmino Alves participa de memoráveis acontecimentos políticos como líder respeitado. Num período de muitas violências, quando o banditismo atingiu uma de suas fases mais agudas, ele foi a Salvador e, pessoalmente, expôs ao Governador, o dr. Araújo Pinho, a caótica situação. Inteirado das terríveis ocorrências, o dr. Araújo Pinho, que tinha conhecimento do valor moral de Firmino Alves e do seu espírito ordeiro, ofereceu-lhe as posições políticas do Município e cargos para seus amigos, o que lhe dava com isso, amplos poderes para mandar e desmandar. Mas, delicadamente, ele recusa o poder e diz ao governador que nada deseja para si próprio, queria apenas uma coisa: a manutenção da ordem, e ficava satisfeito. O governador promete atender o seu pedido e nesse sentido nomeia um Delegado Regional que vem com uma força policial manter a ordem e pacificar o Município.

            Os anos passaram e o Patriarca de olhar calmo e semblante plácido viu o seu povo crescer. Viu crescer a cidade que ele criou com amor e com honradez a legou à posteridade.

            A sua vida de trabalho e lutas políticas não passou incólume de sofrimentos e ingratidões. Amargou os dissabores da política e do banditismo. De certa feita teve de refugiar-se em Salvador por mais de seis meses para escapar à fúria assassina de seus adversários políticos, mas sem nunca deixar de lutar pelos interesses de sua terra.

            Com elevado espírito público viveu com desprendimento, amando a cidade que nasceu de seu sonho, dando a ela tudo o que pôde dar de bom e de si mesmo.

             Por motivos particulares, nos últimos anos de sua vida passou a residir em Salvador. Era o pássaro ferido, engaiolado, saudoso da amplidão das matas verdejantes onde vivera.

            Sentindo o peso da idade, sentia também saudades da terra querida, daquele chão que pisara desde a adolescência, daquele céu que tantas vezes mirara, daquelas estrelas que tantas vezes tentara contar nas noites escuras da mata. E volta em busca de sua Itabuna querida, para nela dormir o sono derradeiro e entregar à terra amada os despojos do velho guerreiro, já cansado e combalido de tantas lutas. Não quis dormir em terras alheias, buscou o seu povo, o Patriarca que previu o futuro e grandeza de uma cidade.

(TERRAS DO SUL)
Helena Borborema

 * * *

quinta-feira, 7 de maio de 2020

PRIMEIRO – Helena Borborema



            Como de tantas outras vezes no decorrer dos anos, aquele verão tivera dias de fortes chuvas. Em janeiro, por mais de uma semana, o trabalho da lavoura chegou a parar. A mata ficou silenciosa sem os roncos dos caititus e a algazarra dos papagaios e periquitos. Só a chuva pesada e o estrondo dos trovões se faziam ouvir. Tudo era tristeza. Só não para o Rio Cachoeira que, numa ostentação vaidosa, contrastava sua pujança e beleza com aquelas terras lamacentas e sem alegria. Bem alimentado pelas chuvas caídas na cabeceiras, volumoso, poderoso, passava ameaçador, prometendo morte certa a quem se atrevesse a medir forças com ele.  No silêncio que a tudo cercava, ele chegava a rugir, fazendo-se escutar a grande distância. A zuadeira de suas águas parecia o conjunto de mil vozes, vozes misteriosas de um motim invisível, saídas de suas profundezas. Arrogante, nem parecia mais aquele Rio pedregoso, pacato, que modestamente deslizava silencioso na época das estiagens. Mas aqueles sergipanos e sertanejos fortes que calejados que viviam em suas margens, já o conheciam, respeitavam a força de suas cheias, mas não o temiam, tanto assim que, num desafio, o enfrentavam corajosamente. Mesmo com toda a enchente, iam buscar nas suas águas o alimento que a mata úmida e chuvosa lhes recusava. Com tarrafas e jequis lançados ou colocados em pontos escolhidos, a alimentação era certa e abundante.

            Na sua roça, o pioneiro José Alves tinha morrido. Não resistira ao ataque da “febre braba” a “maligna” que descera naquelas matas. Ela era impiedosa. Viera não se sabia de onde, fizera suas vítimas e fora embora. Aquelas terras desbravadas pelo velho sergipano e por ele plantadas com ajuda de parentes e assalariados, que por essas bandas aos poucos chegavam em busca de trabalho, com a sua morte ficaram sob a responsabilidade do filho José Firmino, que tinha vindo de Sergipe com os pais, aos quatorze anos de idade, para a aventura do Sul. Agora já rapaz, caboclo forte, ficara-lhe o encargo de levar pra frente o destino da fazenda e cuidar do sustento da parentela. Assim, na época de muitas chuvas, quando o charque escasseava em casa, a mandioca “embebedada” pelas águas apodrecia sob a terra encharcada e os atoleiros dificultavam o comércio com a Vila de Cachoeira, Firmino complementava o sustento da casa com a pesca no rio que cortava a fazenda.

            Naquele inverno, mais de uma vez se convencera o moço fazendeiro da necessidade de uma junta de bois na fazenda. Só esses animais eram capazes de enfrentar os atoleiros e arrastar as pesadas cargas que as bestas não conseguiam. Em Conquista estava um bom comércio para a compra desses animais. Era só esperar o tempo bom para viajar.


            E o tempo bom veio. Um sol quente enxugou a terra após o período das chuvas. Um céu azul indicava que o verão tinha chegado e o capinzal de um verde esmeralda brilhava.

            Antes de atingir-se o caminho das boiadas que levava a Conquista, quatro viajantes entraram num pedaço de mata fechada, início da grande jornada. José Firmino e seus três acompanhantes, empregados da fazenda, caminharam longo tempo numa semiobscuridade, onde o silêncio seria completo não fosse o ruído abafado dos passos dos animais no tapete musgoso do chão, ou o estalar de ramos partidos. A viagem era feita em silêncio e sob certa apreensão, pois sabiam que atrás de cada árvore podia estar oculto um índio cioso de seus domínios a acompanhar-lhes os passos.

            Vencido o percurso da mata, tinham ainda pela frente alguns dias de viagem até atingirem o planalto conquistense. Cobras venenosas eram vistas com frequência, rastejando no mato. A paisagem foi mudando. A sombra da mata cedera lugar a um descampado ressequido pelo sol, onde uma vegetação arbustiva aparecia de quando em quando. Falava-se na presença de onças naquelas paragens onde, segundo relato dos boiadeiros que por ali guiavam seus rebanhos, já haviam atacado rezes e até homens. Não era fácil, pois, atingir aquelas terras do Sudoeste. Na longa caminhada, os únicos pousos eram as toscas rancharias armadas pelos sertanejos, pois, só mesmo eles cortavam aqueles ermos ao conduzir seus rebanhos de Conquista para Ilhéus.

            A longa viagem chegou ao fim. Os quatro viajantes durante dias tinham atravessado descampados, galgando encostas até que o planalto do Sudoeste fosse atingido.


            - Ei! Ei boi veio danado! Ei bicho brabo!

            A marcha era lenta. O gado se deslocava tangido pelo grupo. O pequeno rebanho que aqueles homens conduziam valia a viagem.

            - Que acha desse gado, Joaquim?

            - As novilhas são bonitas, seu Firmino, e os bois bem fortes. Com aquele capim de engorda lá dos pastos, vão ficar de dar gosto.

            - Gosto maior é quando aqueles acolá estiverem na canga. Vai acabar a nossa dor de cabeça no tempo dos atoleiros. Uma junta de bois estava mesmo nos fazendo falta.

            - E esse touro aí, que nome vosmecê vai dar a ele?

           - Porque não o nome de Primeiro, se é o primeiro reprodutor trazido para o capinzal verde das margens do Cachoeira?


(TERRAS DO SUL)
Helena Borborema

..............
Helena Borborema - Nasceu em Itabuna. Professora de Geografia lecionou muitos anos no Colégio Divina Providência, na Ação Fraternal e no Colégio Estadual de Itabuna. Formada em Pedagogia pela Faculdade de Filosofia de Itabuna. Exerceu o cargo de Secretária de Educação e Cultura do Município. (A autora)

“Filha do Dr. Lafayette Borborema, o primeiro advogado de Itabuna. É autora de ‘Terras do Sul’, livro em que documento, memória e imaginação se unem num discurso despretensioso para testemunhar o quadro social e humano daqueles idos de Tabocas. Para a professora universitária Margarida Fahel, ‘Terras do Sul’ são estórias simples, plenas de ‘emoção e humanidade, querendo inscrever no tempo a história de uma gente, o caminho de um rio, a esperança de uma professora que crê no homem e na terra’” (Cyro de Mattos)

* * *

quinta-feira, 18 de julho de 2019

O VISITANTE – Helena Borborema


         
 Tarde abafada aquela. Sentada num banco meio frouxo à porta da casa, Bastiana buscava na sombra que se espalhava no terreiro um pouco de ar. De quando em quando, sacodia de um ombro a outro, à guisa de abanador, um pedaço de pano , resto de uma blusa velha, para enxotar os mosquitos e amenizar o calor. Também de quando em quando enchia a mão de grãos de milho tirados do bojo da saia e atiçava-os às galinhas que, ciscando e cacarejando, juntavam-se com suas ninhadas ao seu redor; mas, seus olhos cansados estavam atentos à estrada adiante , buscando avistar alguém. Quantos anos tinha dona Bastiana, essa preta velha, nem ela mesmo sabia ao certo. Pelos seus cálculos, tomando por base o ano da abolição do cativeiro, estava na casa dos oitenta, mas ninguém dizia. Lúcida, forte, ainda tinha bastante energia para cuidar da casa e se fazer obedecida pelos três netos órfãos que acabara de criar, herança de sua filha única há muito largada do marido que sumiu no mundo, e há anos já falecida. Agora eram todos três adultos. Quando o marido morreu há dez anos, dona Bastiana ficara com aquela fazenda com casa de tijolos e telhas, à porta dá qual se abanava àquela hora da tarde, cercada de suas criações. Os netos, rapazes trabalhadores, e que estavam à frente dos trabalhos na roça, tinham ido a Itabuna conversar com o advogado; voltariam naquela mesma tarde; que notícias trariam? Ansiosa, buscou mais uma vez com os olhos a estrada, enquanto o coração se apertava numa angústia enorme.

            Naquele instante, sozinha com seus pensamentos, dona Basti, como era também chamada, passou a relembrar os tempos idos. Quando chegou com o marido para aquelas terras, há sessenta anos, tudo aquilo era mato. Nenhum vizinho havia por perto. Os dois deram duro, trabalharam muito, soaram no cabo do machado e da enxada, até as mãos se abrirem em calos e depois se transformarem em grossas lixas. A roça prosperou. Não era grande, mas o cacau que produzia dava o suficiente para a família viver sem preocupações com o futuro. Depois veio o progresso no Município e a vida melhorou nas suas terras; onde havia apenas uma trilha como caminho, passava agora uma estrada de rodagem. Quantas vezes já não acordou assustada com o ronco dos caminhões, passando perto, na estrada! Quem diria! Chegou a murmurar alto dona Bastiana. Além de caminhões carregados de cacau, até uma marinete passava diariamente fazendo a linha Itabuna-Palestina.

            Aquela fazenda era o seu mundo. Pouco sabia do que se passava fora dele. Ali, tudo lhe contava uma história ou falava ao seu coração, como o frondoso sapotizeiro que o marido plantou para ela ao lado da casa; a jaqueira perto da barcaça tinha tantos anos quanto o seu neto caçula; foi plantada no dia em que ele nasceu. Quantas e quantas vezes tinha olhado aquelas serras lá longe, aquele por de sol. Quantas vezes tinha palmilhado aquele chão ao longo de sessenta anos, no seu-dia-a-dia de labutas. E a velha casa cujas paredes eram testemunhas dos seus risos nos dias de alegria e de suas lágrimas nos dias tristes, como na morte da filha e, por último, seu marido. Ali estava a sua vida e ali queria findar os seus dias.

            Agora, quando pouco tempo lhe resta, depois de anos e anos de trabalho e penúrias, surge essa questão que vem lhe amargurar a vida. E se perder na Justiça? O que será dela e dos netos? Estarão todos na miséria. Foi num dia assim, calorento, nesse mesmo lugar, que tudo começou. Era uma tarde de sábado e os netos tinham ido fazer feira em Palestina, distante dali poucas léguas. Ela estava a dar comida a suas criações, como costumava, quando um moço sorridente e de boa aparência apeou à sua porta. Quem era, não sabia, mas o diálogo foi amável:

            - Boa tarde, minha tia.

            - Boa tarde. Vá se chegando pra frente.

            - Como vai vosmecê nesse conforto?       

            - Conforto num banco véio, duro como esse, meu filho? Quem sou eu para merecê conforto.

            - Não diga isso!

            Enquanto tomava assento num tamborete que lhe foi oferecido, continuou o recém-chegado:
  
            - Vosmecê está até parecendo a mãe de Ganga Zumba sentada num trono.

            - Ganga o quê?

            - Ganga Zumba. Sabe quem foi ele? Um negro valente, tio de Zumbi.

           - Hum!

            - Pois é. Vosmecê tá parecendo uma rainha daqueles tempos de Palmares.

            - Minha mãe falava muito em Zumbi. Quando menina, ouvi as histórias dele.

            À sombra do terreiro, o sorridente visitante enxugou o suor do rosto com um lenço de cambraia puxado do bolso do paletó.

            - E a fazenda, como vai?

            - Mais ou menos. Com a “mela” perdemos um bocado de cacau, mas é tudo como Deus quer. E eu estou aqui conversando sem nem conhecer vosmecê. Se tá procurando meus netos, estão todos três fazendo feira em Palestina.

            - Só vim fazer uma visitinha a vosmecê. Tenho fazenda aqui perto, isto é, a minha sogra, mas como eu agora estou à frente dos negócios depois da morte do velho, ando sempre aqui.

            - Vosmecê é genro de dona Marocas? Conheci sua mulher pequenininha. Seu sogro era um homem de bem. Foi um bom vizinho.

            - Como ia dizendo, passei por aqui para lhe fazer uma visitinha e lhe oferecer uma pechincha, um rádio que resolvi vender. Enquanto falava, ia retirando de um saco de couro pendurado no cabeçote da sela o objeto da venda.

            - Para que eu quero rádio, meu filho! Na minha idade só penso em morrer.

            - Vosmecê ainda vai comer muita farinha e ouvir muitas notícias com esse rádio, minha tia. Olhe aqui. Novo, bom. Só quero me desfazer dele para substituir por outro ao gosto de minha mulher. Ela quer um grande, pra botar na sala.

            - Só se o José se interessar, porque o dele andou aí dando uns defeitos, meio arruinado.

            - Pois então! A Senhora fica com este, mostra ao José, depois resolve.

            - Não, seu moço! Só com ele. Eu não me meto nesses negócios.

            - Ora, minha tia. Que mal há em vosmecê ficar com o rádio para mostrar a seu neto? rádio grande, bom.

            Enquanto falava, foi retirando de uma pequena pasta que trazia à mão um bloco de papel e a caneta.

            - Está aqui o seu rádio. A senhora precisa ouvir as notícias que se passam por aí, ouvir música sertaneja. Uma beleza!

            - Eu por mim não quero. Só se meus netos quiserem.

            - Então! Depois eu passo aqui, um dia desses, para saber a resposta. Sou seu vizinho, a minha fazenda, isto é, de minha sogra, é logo ali adiante.

            - E se meu neto não quiser?

            - Não tem importância. Levo o rádio de volta. Agora, tia, basta a senhora assinar nesta folha de papel. E só um sinal de que recebeu. É só a assinatura.

            - Não tô comprando, né?

            - É que a gente é da vida e da morte. Isto é só pra saber que vosmecê recebeu.

            - Eu mal esgarrancho meu nome. Nunca tive escola. Só aprendi assinar pra não fazer feio no dia do casamento, na hora de assinar no livro. Taí!

            - Pronto, tia. Que letra bonita! Já vou chegando, antes que a tarde caia.

            Depois de mais alguns minutos de conversa fiada, sempre sobre a fazenda de dona Bastiana, o visitante se despediu.

            Deus o acompanhe, meu filho.

            - Vosmecê vai gostar do rádio. Até à vista!

            O cavaleiro deu de rédea e partiu sorridente, com uma folha de papel assinada em branco metida no bolso. Continuando a enxugar o suor da testa com o lenço de cambraia, pegou a estrada e seguiu para casa contente da vida.

            Dona Bastiana deu um longo suspiro. Os olhos se embaçaram de lágrimas. Agora aquela cobrança na Justiça de um dinheiro que ela nunca tomou emprestado, nunca viu. Quantia tão grande que a obrigaria a vender a roça para pagar.

            Como iria viver se perdesse a sua roça, a casa onde nasceram a filha e os netos e onde desejava morrer? O seu mundo  estava ameaçado e longe dele não aguentaria, assim falava o seu coração.

            Que notícias lhe trariam os netos? Estavam lutando na justiça para desfazer o “caxixi” miserável, armado pelo moço sorridente. Lutavam para salvar a fazenda. Conseguiriam? O advogado dava esperanças.

            Dona Basti olhou mais uma vez a estrada, buscando ansiosa a chegada dos netos, enquanto enxugava com a manga da blusa as lágrimas grossas e quentes que lhe desciam pelo rosto cansado.


(TERRAS DO SUL)
Helena Borborema

.............
HELENA BORBOREMA - Nasceu em Itabuna. Professora de Geografia lecionou muitos anos no Colégio Divina Providência, na Ação Fraternal e no Colégio Estadual de Itabuna. Formada em Pedagogia pela Faculdade de Filosofia de Itabuna. Exerceu o cargo de Secretária de Educação e Cultura do Município.

* * *


sábado, 24 de junho de 2017

DOS LARANJAIS DE SERGIPE E DAS MONTANHAS DO LÍBANO – Helena Borborema

Dos laranjais de Sergipe e das montanhas do Líbano


            O pequeno vapor apitou na entrada da barra.

            A maré alta já lhe permitia navegar até o cais depois de quase duas horas de espera fundeado ao largo.

             Do lado da cidade, muita gente apinhada ao longo da ponte de madeira: eram carregadores a espera de bagagens, comerciantes que aguardavam mercadorias encomendadas, moleques desocupados frequentadores habituais da beira do cais, meretrizes à cata de marinheiros, homens de diferentes condições sociais à espera de parentes ou amigos que chegavam, ou simplesmente de notícias.

            A pequena cidade de São Jorge dos Ilhéus movimentava-se naquele momento com o seu cais, onde desembarcava gente e de onde partiam barcaças carregadas de cacau e piaçaba, sem falar no vai-e-vem de canoas e saveiros de pesca nas imediações.

            Mas, era no vapor que apitava e, balançando, ia se aproximando do cais, que se concentravam todas as atenções e interesse. Era ele um dos que, de mês em mês, chegavam a Ilhéus vindo de Salvador. A sua chegada era sempre ansiosamente esperada por todos e pelos mais variados motivos.

            Colocada a escada, depois de atracado, a descida dos passageiros era um espetáculo especial: como sempre, mulheres amarelas de cara enjoadas e roupa amarrotada agarradas às suas crianças, homens de todas as idades, uns vestidos modestamente com seu baú sob o braço, outros endomingados. Os carregadores que logo subiam a bordo, já desciam atravancados das mais variadas bagagens: malas de couro, algumas bem apresentadas, outras amarradas de corda, baús, espreguiçadeiras, caixotes, sacos de viagem, embrulhos e mais embrulhos.

            Mas, desses vapores desciam também senhoras elegantes, de chapéu e luvas, roupa requintada, brincos e anéis de brilhantes, de braço dado com o marido, algum coronel ou doutor de Ilhéus, vindos da capital, ou moços bem vestidos da cidade, que a negócio ou estudo estavam em Salvador.

            Mas, em geral,  os passageiros eram na maioria pessoas simples, vindas de Sergipe, que se destinavam a Tabocas. O novo Eldorado era uma tentação irresistível; atraídos por ele, deixavam suas cidades e lugarejos e partiam via Salvador para a enfadonha viagem de mar, para a mata e a lama do arraial.

            Depois de desembarcarem em Ilhéus, tinham ainda pela frente o desconforto e peripécias de um percurso a ser feito de canoa e outro no lombo de burro, quando não a pé,  durante dois e até três dias. O Banco da Vitória era um pouso obrigatório antes que atingissem Tabocas. Naquele lugarejo era que se arranjava montaria ou simplesmente se descansava antes de enfrentar a segunda etapa da viagem.

            Aqueles sergipanos desembarcados traziam, além da força de seus braços para o manejo do machado, a vontade de prosperar,  sangue bom para a nova terra adotiva, tenacidade e, sobretudo, capacidade de trabalho. E aqui chegando, lutavam e iam crescendo com a Itabuna que surgia. Enfrentaram a mata, abriram picadas, expondo-se às investidas de índios e ataques das onças, correram o perigo das cobras venenosas e da febre mortal. Enfrentando a violência do meio, plantaram cacau. Outros, dedicando-se ao comércio, abriram suas vendolas ou “tabocas” como eram chamadas, suas pequenas oficinas de trabalho onde, com afinco, labutaram. Todos queriam prosperar. À nova terra iam facilmente integrando-se e compartilhando de suas alegrias e dissabores, dificuldades e vitórias e, acima de tudo, de suas elevadas aspirações.

            Implantados na boa terra Grapiúna, criaram raízes fortes e profundas que sustentaram com vigor uma grande árvore que fizeram crescer.

            Dos fortes braços sergipanos, de seu trabalho inteligente e tenaz, nasceram fazendas de cacau, empórios comerciais; foram muitos os que fizeram fortuna. Famílias pioneiras geraram filhos e demais descendentes que são, hoje, ramos vigorosos daqueles velhos troncos ancestrais.

            Daqueles tempos mais distantes, além dos Oliveira, dos Alves e Pinheiro, chegaram a essa terra Ramiro Nunes de Aquino, Paulino Vieira, Tertuliano Guedes de Pinho,  Rodolfo Cunha, José Lúcio da Silva, Nilo Santana. Com o tempo vieram ainda Francisco Fontes, José Fontes Torres, Daniel Rebouças, Francisco Benício dos Santos, Oscar Marinho Falcão, Nicodemos Barretto, Francisco Briglia e tantos e tantos outros que lutaram no incipiente comércio ou nas roças, com espírito forte, na perseverança de quem quer vencer.

            A vida dos pioneiros não foi fácil. Muitos homens dos que se embrenharam na mata, levaram vida dura, muitas vezes atolados na lama, sem meios de transporte, buscando na terra virgem a realidade com a qual sonhavam. Comiam do que plantavam ou caçavam. Alguns nem podiam dispor de mão-de-obra suficiente a ajudá-los. Por isso mesmo, muitas esposas compartilharam com o marido de todas as durezas do trabalho da mata. De manhãzinha muito cedo, sem esperar que o sol se levantasse de todo, ainda no lusco-fusco da madrugada, marido e mulher deixavam a casa ou o rancho em busca do roçado. Marchavam com os pés molhados do orvalho, quando não o corpo transido do frio da manhã úmida e chuvosa. Abnegadas mulheres, aquelas companheiras decididas e corajosas que de volta a casa, no cair da tarde, depois dia de labuta, ainda buscavam energia para ir ao ribeirão limpar a caça pegada no mundéu, preparar de noite o almoço para, no outro dia, antes de romper o sol, partir com o seu companheiro para o trabalho na mata. A caminhada que enfrentavam todo dia era grande;  por isso o almoço já ia preparado no alforje: feijão verde, carne de caça moqueada e farinha de mandioca ou aipim cozido. No vasto pedaço de terra já limpo, as sementes eram plantadas. No dia seguinte, aquele trabalho se renovaria adiante, sempre adiante em busca de uma realidade pela qual achavam válidos todos os sacrifícios – a roça de cacau. A duras penas iam eles ampliando suas plantações, amealhando o produto de seu trabalho para novos empreendimentos. Assim nasceram fortunas e se fizeram grandes patrimônios que iriam, mais tarde, enriquecer a região. Não era fácil vencer as vicissitudes do meio rude, quando o homem dispunha unicamente de sua iniciativa e inteligência. Sem estradas, sem eletricidade e meios de comunicação, sem transporte a não ser lerdas bestas de carga, só a vontade de vencer podia dar força necessária para as arrancadas a que se propuseram com destemor aqueles lutadores.


Mas, não foi só aos laranjais de Sergipe que chegou o cheiro gostoso do cacau sulbaiano. Ele se espalhou para muito, muito mais além. Atravessou oceanos e chegou a outros continentes. Subiu as montanhas do Líbano e lá encantou a muitos com a sua magia. Famílias libanesas, também atraídas, desembarcaram nas terras ricas do Sul e fizeram delas a sua terra. Rijos como os velhos cedros de seu país de origem, esses imigrantes vindos de outra parte do mundo também labutaram no comércio e na lavoura da nova terra, a amaram e aqui fizerem descendência. Entre os primeiros, chegaram os Maron, os Hagge, os Midlej, os Agle, Abdon e Habib.

            Acreditavam aqueles sírio-libaneses não só no cacau, mas no futuro de todo aquele chão que pisavam. E, nas ruas lamacentas da nascente vila de Tabocas, abriram alguns deles suas pequenas e sortidas lojas.

            Aqueles gringos de fala embolada e modos corteses despertavam atenção especial da parte de muitos velhos e rudes moradores, e traziam com seu trabalho inovador, um novo aspecto ao incipiente comércio da recém-criada vila de Itabuna. Nomes pomposos, antes nunca vistos naquelas ruas tortuosas de casinhas modestas, apareceram então pintados em tabuletas, como Parc Royal, Palácio Central, Empório Americano. Acreditavam eles que nas terras enlameadas da turbulenta vila, estava a riqueza. A prova era o ativo movimento de tropas carregadas de sacos de cacau na época da safra a despejar fortunas nos grandes depósitos dos armazéns, nas boiadas cada vez maiores que passavam beirando o rio para abastecer a população crescente.

            Disposição para o trabalho não faltava àqueles imigrantes libaneses que trocaram a sombra dos vetustos cedros e oliveiras da terra natal pelas promessas dos jovens cacaueiros. Com otimismo aprenderam e substituir a terna carne de cabrito montanhês pelo charque bem curtido vindo do sertão de Conquista.

            As árvores de frutos dourados plantadas pelas mãos calosas de homens destemidos, foram regadas com suor e até com sangue. Mas cada pé foi plantado com o idealismo e tenacidade daqueles que querem vencer e defendido com a coragem dos fortes.

            Outros migrantes vieram do próprio estado e de outros, que não plantaram cacau, mas ideias e valores espirituais. E foi pelo trabalho, idealismo e coragem desses que aqui chegaram, que se consolidou uma comunidade consciente de sua força, herança dos bravos pioneiros.

(TERRAS DO SUL)

Helena Borborema

* * *

terça-feira, 18 de abril de 2017

UM ANJO NEGRO – Helena Borborema

Um Anjo Negro 


          O pequeno cortejo apontou na entrada da rua. Pelo aspecto dos dois homens que carregavam a rede, podia-se notar que estavam muito cansados, mas assim mesmo apressavam os passos o quanto podiam, meio vergados sob o peso do fardo que carregavam. Atrás da rede, três acompanhantes, dois homens e uma mulher. Os passantes olhavam a cena com indiferença. Já estavam acostumados a ver diariamente redes como aquela, portando um morto ou doente grave de tiro ou de mordedura de cobra e, por último, da febre braba. O pequeno grupo parou na porta do Quartel, onde estava o delegado de polícia e a rede foi arriada no chão poeirento. Aquele caso era grave; nem sabiam se o homem lá dentro, todo crivado de balas, ainda respirava. Veio o delegado e espiou o ferido.

          - Quem fez este trabalho?

          - Cinco jagunços, seu delegado.

          - O homem já está morto, levem daqui. Conhecem algum dos criminosos?

          - Nenhum.

          - Que querem que eu faça? Carreguem a rede daqui.

          Um débil gemido desmentiu a opinião apressada do responsável pela polícia. A mulher chorosa espia o seu homem semimorto e pede suplicante: - Nós queremos um doutor.

          Moscas começaram a voejar sobre o ferido. O sangue já embebera parte do lençol que o cobria e o fundo da rede.

          - Que diabo querem que eu faça? Parados aqui na rua é que não podem ficar. Procurem outro lugar para onde ir.

          Aquilo era rotina, um fato banal no dia-a-dia da vila. O que queriam apurar, se nem sabiam quem fizera tamanho estrago naquele homem? Naquelas matas era difícil descobrir-se um malfeitor, geralmente bem apadrinhado.

          - Pelo menos, seu delegado, vamos deixar o homem aqui, enquanto chamamos o doutor para ver se ainda salva ele – rogou a mulher limpando, com o polegar, o suor que lhe descia pela testa.

          Sem dar resposta, o delegado afastou-se impaciente. Que ano aquele! Já não bastava a febre que estava quase a dizimar a população e o obrigava a um nunca mais acabar de atender a pedidos de guias de enterramentos. Doido estava para deixar o cargo, do qual já havia pedido demissão. Felizmente, era só o tempo de chegar o substituto, ia ele remoendo com seus botões. Aquele ano foi só para morrer gente; além dos que eram derrubados por tiros, agora juntavam-se as vítimas da febre. Nem à noite tinha descanso, queixava-se a si próprio. Era sempre uma agonia ouvir as rezas cantadas dos que desfilavam nas ruas quietas: Ave! Ave! Ave Maria! Ave! Ave! Ave Maria!, quando a pequena procissão, à luz das velas dos fiéis, passava lenta. De pedaço em pedaço todos paravam, se ajoelhavam e batiam no peito cantando contritos o “Senhor Deus, misericórdia”.

          Nessas procissões iam, devotamente, senhoras simples do povo, mulheres da vida, ao lado das senhoras dos coronéis. O terror da morte que descera na vila, igualava a todos na piedade. Quantos a maligna já não tinha vitimado? Tanto fazia pobre como rico, tanto velho como moço, em dois ou três dias se findavam. A febre sem nome, ou melhor, a “febre braba”, surgiu de repente e dia a dia ia, de casa em casa, levando a morte. Rara era a casa onde não se velava um defunto ou doente. As redes e caixões se cruzavam nas ruas e o pavor era o que se estampava no rosto de todos. O único médico e o farmacêutico já não sabiam mais como atender a tanta gente. Remédio específico não havia.. O povo se valia do quinino, banhos de determinadas folhas (três ou quatro por dia) e chás. Mensageiros de famílias se empenhavam diariamente nos matos da Marimbeta, do Mutucugê, do Lava-pés, em busca das plantas indicadas, enquanto nas cozinhas o fogo nunca se apagava, fervendo caldeirões de folhas para o banho salvador.

          Era dentro desse quadro aterrador, temendo pela própria vida, que o delegado se via obrigado a atender casos como aquele que ora se lhe deparava, do ferido na rede, crivado de balas.

          Da casa em frente, a mulher de um rico coronel assistia à cena. Sentiu que a ocasião era de fazer penitência e caridade para Deus se apiedar da família dela e da população. E resolveu intervir.

          Tragam o ferido e arreiem a rede em meu passeio. Felismino, vá depressa chamar o Dr. Lopes ou o Dr. Nilo na farmácia.

          O moleque Felismino sai em disparada. Não demorou muito para aparecer um jovem negro de maleta de médico na mão. Ali mesmo, sob o sol ardente, examina o doente. O caso é grave. Uma bala atravessara o queixo de um lado a outro. Um braço com vários tiros já demonstrava sinais adiantados de gangrena, uma perna transfixada de balas com ossos partidos, o tórax atravessado de lado a lado.

          - Doutor Lopes, tenha dó dessa criatura. Confio no senhor, abaixo de Deus -, implorou a mulher do coronel.

          Não há hospital. Não há Casa de Misericórdia. Nada. Mas sob a pele preta daquele médico morava um anjo que era bondade pura; sem medir distância ou olhar classe social, ele servia a todos com a mesma dedicação, sempre pronto. Tanto fazia ser endinheirado como pobre, a dedicação era a mesma, a bondade uma só.

          Viajava longe a cavalo por estradas difíceis para atender num mísero casebre. Atendia a partos complicados nas roças, pessoas mordidas de cobra, era um só para tudo. Para Doutor Lopes a profissão era um apostolado. E naquele instante, no meio da luta diária de casa em casa, atendendo aos doentes de febre, o jovem médico toma as providências. Pede à senhora apenas uma sala, um galpão, um lugar onde possa operar, pois só com uma cirurgia urgente tentará salvar aquela vida. Uma sala vazia é arranjada, uma mesa de almoço é cedida caridosamente e, ali, com toda aquela precariedade, doutor João Soares Lopes opera. E salva aquela vida. É a vitória da bondade e da competência.

          Um braço foi amputado, o queixo ficou com uma funda cicatriz, mas, meses depois, com uma pequena claudicação, Chico Cotó, como passou a ser chamado, voltava feliz à sua pequena propriedade.


(TERRAS DO SUL)

Helena Borborema

----------
HELENA BORBOREMA -  Nasceu em Itabuna. Professora de Geografia lecionou muitos anos no Colégio Divina Providência, na Ação Fraternal e no Colégio Estadual de Itabuna. Formada em Pedagogia pela Faculdade de Filosofia de Itabuna. Exerceu o cargo de Secretária de Educação e Cultura do Município. (A autora)

Conhecida professora itabunense, filha do Dr. Lafayette Borborema, o primeiro advogado de Itabuna. É autora de ‘Terras do Sul’, livro em que documento, memória e imaginação se unem num discurso despretensioso para testemunhar o quadro social e humano daqueles idos de Tabocas. Para a professora universitária Margarida Fahel, ‘Terras do Sul’ são estórias simples, plenas de ‘emoção e humanidade, querendo inscrever no tempo a história de uma gente, o caminho de um rio, a esperança de uma professora que crê no homem e na terra’.  (Cyro de Mattos)


* * *