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sábado, 18 de junho de 2022

 

A Percepção Poética de Heloísa Prazeres

Cyro de Mattos (*)  


            

             Depois da estreia com a Pequena história, antologia pessoal, a baiana (de Itabuna) Heloísa Prazeres retoma seu processo poético com um segundo volume, Casa onde habitamos (2016), formado de consistente união entre inspiração e transpiração, intuições e reflexões, imaginações e registros. Nesse segundo volume, com a ilustração de fotografia de  Jamison Pedra, a poeta usa a palavra simbolizada para metamorfosear o discurso da vida como resultado de trabalhos de bastidor, achados nas zonas suspensas do sonho, fiações de interiores sob o teto da terra, memórias para alcançar o  entendimento no mesmo chão de suas origens.

            Há nos oitenta e dois poemas que compõem essa casa, tecida com o labor do sonho, um ritmo que conduz a ideia através de versos bem construídos para o preenchimento dos vazios no mundo. Assim, nos domínios onde a atribuição a um autor consiste na  boa literatura mesclada com instrumental crítico suficiente, o emprego de linguagem eficaz deixa  ver que aqui estamos diante de uma construção poética  segura, de signo adornado pelo som na cadência musical própria do poema,  que diz de emoções chegando da  memória ou da razão, como se fossem sensações que na imagem iluminam o ser.   

        Numa lírica moderna ressoa o uso do vocábulo estrangeiro, a boa referência a poetas e escritores de predileção pessoal, mas em especial o tempo que, na alma enlaçando afetos e afinidades, busca outro tempo, marcado através de experiências, revelações tantas perante a existência.  Dividido em quatro partes, “Trabalhos de bastidor”, “Antessala de sonho”, “Sob o teto da terra” e “Mesmo chão”, podemos dizer que, nessa casa onde o eu lírico traça projetos efêmeros ante o eterno que perdura, a chave para o seu conhecimento, distribuído em compartimentos delimitados pelo assunto ou tema, o qual homenageia a vida, está na epígrafe de Sophia de Mello Breyner Andresen, tão esplêndida poeta portuguesa quanto luminosa contista, quando diz:

 

Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco

E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo

               

         Quando a reconstrução do mundo no verso é convincente, faz pensar logo como a vida é falha, repleta de contradições dentro de certo peso que impõe suas vozes agudas permeadas da ambiguidade na passagem do tempo. Sendo falha, para equilibrar-se nos vazios, o poeta recorre à   linguagem literária para inaugurar novos sentidos, lembrando assim que na quimera e na divagação, na pureza de dicção superior, criativa, a vida torna-se viável. Utiliza por isso lições plasmadas em linguagem específica para discorrer sobre o espanto da vida e assim prosseguir na litania do verso,  que em si mesmo se sustenta e encanta. 

              O poeta quer dizer com isso que o seu gesto de ler o mundo põe claridade nas partes escuras que ocultam o mundo. O verso supre a deficiência crítica, repleta de limitações, impossibilidades que envolvem aos humanos perante a experiência da vida em que entra a solidão, o tédio, o azar e a tristeza.  Embora existam as flores, sabe-se que elas somem, mal surgem. Ao poeta Heloísa Prazeres, o milagre para que sempre sobrevivam consiste em vê-las com a sua teimosia no deserto, em tácito entendimento com as altiplanas montanhas de Nevada, como as encontramos no afetuoso “Poema para os meus amigos”. Lembre-se então que, ressoando larguras e profunduras, em mínimas cosmovisões de ternuras, disse Neruda que a flor da alma na alma flora.

          Na geografia íntima da casa abandonada, Heloísa Prazeres não sabe “dizer se havia/consentimentos, apelos/de viagens dominavam/ vontades. Seguro apenas/ o mandato da aventura.”  E, porque o desafio consiste em ultrapassar a aventura do viver, o tempo dos legítimos poetas é outro. Decide-se com os reclamos da alma, rumores urdidos com “mala fixa e estética”, emoções e conceitos mesclados com a permanência de surpresas, cismas e perplexidades.  É o que percebemos, por exemplo, no discurso singular do poema “Trópico do capricórnio.”

         Até mesmo no poema “Familiar”, os versos livres de Heloísa Prazeres, de um ritmo quase automático, de incrível rapidez e visibilidade, síntese e concisão, como quer Italo Calvino,  fixam-se na  cena com assunto moderno, extraído do mundo internético de hoje, o qual, instalado  no grupo, faz com que cada um fique hipnotizado no seu recurso, na cerimônia ao deus TIC - Tecnologia da Informação e Divulgação.

        Esse modo de estruturar o verso nos tempos de hoje, embalado do eletrônico que não se ajusta ao sol na manhã com esperança, só comprova que nessa casa de Heloísa Prazeres, aqui e agora, com leveza e graça, densidade e clareza, a poesia está em tudo.

            O poema não engole o poeta quando provido de linguagem adequada e percepção do mundo.

 

Leitura Sugerida

PRAZERES, Heloísa. Casa onde habitamos, Editora Scortecci, São Paulo, 2016.

 


*Cyro de Mattos
é autor premiado no Brasil e exterior.

* * *

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

POESIA COMO AFIRMAÇÃO ECOLÓGICA DO SUL PROFUNDO, CYRO DE MATTOS

 


Poesia como afirmação ecológica do sul profundo, Cyro de Mattos

Heloísa Prazeres

 

          Uma das vozes contundentes da literatura produzida na região sul baiana, o autor Cyro de Mattos impõe-se na literatura baiana/brasileira pela força de suas narrativas. Possui vasto acervo crítico favorável à sua obra, cuja fatura revela estilo impregnado de registros de fala. Bem assim, a sua poesia situada na Região Cacaueira − reduto que propõe respostas alusivas ao lugar geográfico de onde fala o escritor.

          Teluricamente, seu verso exalta o lócus, o território, e sua leitura (MATTOS, C. 2015) confirma o potencial poético, que em si carrega o escritor. Seu texto oferece mais do que o faria a escrita etnográfica. A paisagem do sul transforma-se miticamente na personificação de uma maneira de ver, vastidão solitária, atravessada por linguagens, que chegam cegamente de um lugar para outro − as línguas naturais faladas pelo homem a partir de seus próprios ofícios criados, e por meio da natureza líquida do rio (PRAZERES, 2015). O sentimento de pertencimento, em relação à terra, às pessoas e à vida mesma, reverbera,


 

Eu te agradeço meu rio

porque me ensinaste

pelas mãos do pescador,

lavadeira e areeiro

foste sempre uma dádiva

que suspensas as tropas

em suas trilhas aladas

se perderiam nas estradas,

pelas águas tão escuras

desceriam roupas brancas

sem que novas correntezas

pudessem remover as manchas

e na voz do aguadeiro

anunciando madrugadas

só de areia pura

o efêmero à margem

ante o eterno que passa

 

(MATTOS, C., 2015, “Ao rio”. p.102).                     

 

 

          Sua visão ideológica e poética encontra-se no controle de ambas as experiências que encarnam a fonte da imagem e o próprio ato poético. A voz impressiona sem efeitos de literatização; a dicção convence o leitor e o vínculo com o lugar revela moldes próprios, não autoritários,


 

Caminha na boca

por me saber cativo,

adoça o furto infantil,

engana no riso,

brilha no peito

jardim florido,

cores em que sonho,

da barba visgo,

roxo aroma

ébrio por dentro,

paixão e ilusão

quanto mais viajo

sinto o fruto em mim

ritmando o mito.

 

(MATTOS, C., 2015, “Elogio”, p.32).                                                       

 


          A experiência comunitária poetizada reside no passado e elegiacamente retorna, como memória cultural da diversidade da região; o presente subjetivo traduz-se pelo pressentimento de solidão e ruína,


 

 Encontro-me no verde de teus anos,

Como sonho menino nos outeiros,

Afoitas minhas mãos de cata-ventos

Desfraldando estandartes nessas ruas.

 

São meus todos esses frutos maduros:

Jaca, cacau, mamão, sapoti, manga.

E esta canção que trago na capanga

É o vento soprando nos quintais.

 

Quem me fez estilingue tão certeiro

Nos verões das caçadas ideais?

Quem nesse chão me plantou com raízes

 

Fundas até que me dispersem ventos

Da saudade e solidão? Ó poema!

Ó recantos! Ó águas do meu rio

 

(MATTOS, C., 2015, “Itabuna”, p.66).                                                    

 

 

          Na recepção de imagens míticas do lugar, comovem o leitor sentimentos ambivalentes de satisfação, luta, respeito e comprometimento com o espaço geográfico, que o enraíza, e com a tradução da ecologia, que a sua ecopoesia exalta. (Este texto integra o comunicado que a autora fez no Congresso dos 75 Anos da UFBA)

 

*Heloísa prazeres é itabunense, doutora em Letras, membro da Academia de Letras da Bahia. Ensaísta, tradutora e poeta.

* * *

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

HELOÍSA PRAZERES REALIZA LIVE DE LANÇAMENTO DO LIVRO TENDA ACESA

Leitores podem acompanhar o evento virtual via o zoom literário


A escritora, tradutora e doutora em literatura Heloísa Prazeres e a Scortecci Editora promovem no dia 24 de setembro de 2020 (quinta-feira), das 19h30 às 21h, a live de lançamento do livro de poemas Tenda acesa, através do Zoom “Literário” (Id da reunião: 725 467 5353).

Ilustrado com a reprodução de pinturas do artista visual Jamison Pedra e arte da capa de Daniel Prata Prazeres, “Tenda acesa” é o terceiro livro de poemas da autora e reúne composições dispostas em quatro divisões. Constituem os temas do livro a essência do viver, os riscos dos contextos contemporâneos, ao longo da atual pandemia, a convivialidade e trânsitos (viagens curtas ou prolongadas).

Por meio da linguagem lírica Heloísa Prazeres aborda a incomunicabilidade, o luto moral, as relações possíveis no mundo contemporâneo. A partir de uma perspectiva da vivência social e intelectual feminina. “A metáfora TENDA é uma imagem feminina, da qual me aproprio, ampliando-a. A obra destina-se ao público cuja insatisfação com a realidade o leve a buscas complementares na arte da palavra. Creio que as leitoras se beneficiarão”, expressa a autora, acrescentando ainda que há um forte apelo de imagens femininas na obra.

Tenda acesa (PRAZERES, 2020) é um retorno à escrita poética, atividade impactada, contemporaneamente, por contextos acentuados de crise e dispersão − ainda mais provocadores, desde o início deste segundo decênio do século, quando o mundo sofre os efeitos de uma pandemia de âmbito global. O título da obra é, por isso, a afirmação da palavra poética, por meio do signo “tenda”, associado a fragilidades e abrigos efêmeros, mas vivo, aceso.

A obra está dividida em quatro partes, compreendendo, 1, a teimosia da amorosidade, “O ouro da vida”; 2, a afirmação do sentimento de companhia e união sustentável entre humanos, “poesiasemprepossível”; 3, percepção subjetiva da experiência existencial, “Olhos capitais”; e uma quase separata, 4, intitulada ”Trânsitos”, celebração momentânea à liberdade, à viagem real, aos deslocamentos seguros, inclusive para outros hemisférios e continentes. “Tema que se deve à minha peculiar biografia, ou seja, família dispersa, quando as fronteiras do mundo se pulverizaram. Em contraponto, exploro a geografia afetiva, os lugares de origem, que reclamam por exaltação, citações a pessoas referenciais e a topônimos de origem”, diz a escritora.


A autora – Heloísa Prazeres é natural de Itabuna, BA, possui textos publicados com produtores de Artes Visuais (Cinema e Fotografia). Citada no Dicionário de Autores Baianos. Salvador: SECULT, 2006, e no Dicionário de Escritores Contemporâneos da Bahia, CEPA, 2015. Seu primeiro livro, ensaios, data do início dos anos 2000, o segundo, poemas, Pequena história (PRAZERES, 2014), O terceiro, poemas, Casa onde habitamos (2016), o quarto, ensaios, Arco de sentidos, literatura, tradução e memória cultural (2018).

Publicou, em livro, Temas e teimas em narrativas baianas do Centro-Sul. FCJA; UNIFACS; SECULT, 2000; Pequena História, poemas selecionados. Salvador: Quarteto, 2014; Antologia Outros Riscos do Prêmio DamárioDaCruz de Poesia. Salvador: FPC/ SecultBA e Quarteto, 2013; Poetas da Bahia, III. Salvador: Expogeo, 2015 e Antologia 5º Prêmio Literário de Poesia, Portal Amigos do Livro, São Paulo: Scortecci, 2015 Medalha de Bronze do I Concurso Literário da AECALB, Rio de Janeiro, 2016.

Bacharel e Mestre em Letras pela UFBA. Cumpriu doutorado em Literaturana Universityof Cincinnati, OH. EUA. Professora Adjunta, aposentada do IL da UFBA. Foi titular na Universidade Salvador, UNIFACS. Coordenou o Núcleo de Referência Cultural da Fundação Cultural do Estado da Bahia.

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Serviço:

O quê: Live de lançamento do livro ‘Tenda acesa, de Heloísa Prazeres.  

Onde: Através do Zoom “Literário” (Id da reunião: 725 467 5353).

Quando: Dia 24 de setembro de 2020 (quinta-feira), das 19h30 às 21h.

Editora: Scortecci Editora – Poesia – Formato 14 x 21 cm – 1ª edição – 2020 – 152 páginas. R$ 35,00

 

Livro disponível para pré-venda no site da livraria Asabeça:https://www.asabeca.com.br/

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quarta-feira, 22 de agosto de 2018

RELATO DE EXPERIÊNCIA, BIENAL DO LIVRO 2018, por Heloísa Prazeres


Desde sempre prestigiei a Bienal do livro, como visitante — este evento cinquentenário, que a cidade de São Paulo promove. Neste ano, de 03 a 12 de agosto, presenciei o encontro das principais editoras, livrarias e distribuidoras do país por um lado novo e diferenciado, ou seja, lá estive como autora, credenciada, levando na lapela um botão de prestígio. Passei de uma para outra margem.

Assisti à adesão de muitos, que me cercam, e apoiam a atividade em torno do livro e da poesia.

O Casa onde habitamos, SP: Scortecci, 2016, publicado em janeiro de 2017, e agora relançado na Bienal, aborda a incomunicabilidade, o luto moral e as relações possíveis no mundo contemporâneo. Seu conteúdo resulta de vivências sociais e intelectuais, e a metáfora ‘casa’ surge como imagem feminina, da qual me aproprio, ampliando-a para o elemento Terra. O livro destina-se a público cuja insatisfação com a realidade leve a buscas complementares. Creio que leitoras, principalmente, se beneficiarão, pois há um forte apelo a imagens femininas.

Outro livro, do qual participei, como coautora, também veio a público durante a Bienal; trata-se do sugestivo título O silêncio das palavras. SP, Scortecci, 2018, uma Antologia que reúne vozes de todas as regiões do país. Sei que me encontro naturalmente ligada à área de Letras e lido profissionalmente com a literatura. Aliás, sempre privilegiei a leitura e a escrita como meios complementares de aperfeiçoamento; a escrita me completa e traduz anseios de comunicação subjetiva e intelectual. Defendo que quem lê, gosta de si, e privilegia o tempo dedicado ao desejável objeto livro. Acredito, por isso mesmo, no trabalho contínuo de conquista de leitores, acolhendo a poesia com amorosidade e esperança.

O livro que me levou à Bienal é a minha segunda coletânea de poesia. A primeira, ensaios, data do início dos anos 2000; o segundo, poemas, Pequena história (PRAZERES, 2014), o mais recente Arcos de sentidos, literatura, tradução e memória cultural (2018), venho, pois, lidando com temas como solidão/comunhão/tempo e espaço, que resultam de experiências subjetivas e profissionais.

Faço este relato por sugestão da cara amiga, Eglê Machado, porque, ao ocupar, como disse, um novo lugar, no imenso pavilhão que abrigou expositores, levei comigo a multidão que me traduz; além de que, essa vivência iniciou-se a 03/8, dia dos anos do meu pai, a quem homenageio e reverencio sua memória. Vida e poesia.

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Heloísa Prazeres é natural de Itabuna, BA. Citada no Dicionário de autores baianos. Salvador: Secult, 2006, e no Dicionário de escritores contemporâneos da Bahia, Cepa, 2015. Medalha de Bronze do I Concurso Literário da AECALB, Rio de Janeiro, 2016. Publicou, em livro, Temas e teimas em narrativas baianas do Centro-Sul. Fcja; Unifacs; Secult, 2000; Pequena história, poemas selecionados. Salvador: Quarteto, 2014; Casa onde habitamos. Poesia. SP: Scortecci, 2016. Arcos de sentidos, literatura, tradução e memória cultural. Itabuna: Mondrongo, 2018. Participou das Antologias Outros riscos do Prêmio Damário DaCruz de Poesia. Salvador: FPC/ Secult, BA e Quarteto, 2013; Poetas da Bahia, III. Salvador: Expogeo, 2015, Antologia 5º Prêmio Literário de Poesia, Portal Amigos do Livro, São Paulo: Scortecci, 2015, O silêncio das palavras, São Paulo: Scortecci, 2018. 
Bacharel e Mestre em Letras pela UFBA. Cumpriu doutorado em Literatura na University of Cincinnati, Oh. EUA. Professora adjunta, aposentada do IL da UFBA. Foi titular na Universidade Salvador, Unifacs. Coordenou o Núcleo de Referência Cultural da Fundação Cultural do Estado da Bahia.

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terça-feira, 24 de julho de 2018

CARRO DE FERRO – Heloísa Prazeres


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Carro de Ferro



Caminho pela Ayres de Almeida
alcanço a casa verde da esquina
desço o Canal e antevejo à frente
a estação onde o trem domina. 

A céu aberto soam algaravias
que as violas dos cegos abafam
nos corações as vozes alardeiam
e aos meus olhos desemboca a máquina. 

Neste primeiro cenário urbano
espaço aberto que abriga a feira
rompem os vagões de um animal escuro
que impactam e balançam a praça inteira. 

O móvel de ferro aporta ingente
e, enquanto o peso do embornal ensina
a serventia ao ombro adolescente,
o olhar se perde e entende o fundamento.

Lição de embarque de uma a outra margem
viagem no vibrante coletivo 
que chega, exalta e parte a novo porto,
assim meu corpo zarpa sobre trilhos. 

Transida, me despeço, deixo a Mata,
vou ao encontro de ângulos agudos
e na memória repousam ruídos 
que pelo tempo circunscrevem curvas.

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Heloísa Prazeres é natural de Itabuna, BA.Citada no Dicionário de autores baianos. Salvador: Secult, 2006, e no Dicionário de escritores contemporâneos da Bahia, Cepa, 2015. Medalha de Bronze do I Concurso Literário da AECALB, Rio de Janeiro, 2016. Publicou, em livro, Temas e teimas em narrativas baianas do Centro-Sul. Fcja; Unifacs; Secult, 2000; Pequena história, poemas selecionados. Salvador: Quarteto, 2014; Casa onde habitamos. Poesia. SP: Scortecci, 2016. Arcos de sentidos, literatura, tradução e memória cultural. Itabuna: Mondrongo, 2018. Participou das Antologias Outros riscos do Prêmio Damário DaCruz de Poesia. Salvador: FPC/ Secult, BA e Quarteto, 2013; Poetas da Bahia, III. Salvador: Expogeo, 2015, Antologia 5º Prêmio Literário de Poesia, Portal Amigos do Livro, São Paulo: Scortecci, 2015, O silêncio das palavras, São Paulo: Scortecci, 2018. Bacharel e Mestre em Letras pela UFBA. Cumpriu doutorado em Literatura na University of Cincinnati, Oh. EUA. Professora adjunta, aposentada do IL da UFBA. Foi titular na Universidade Salvador, Unifacs. Coordenou o Núcleo de Referência Cultural da Fundação Cultural do Estado da Bahia.

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quarta-feira, 20 de junho de 2018

ARCOS DE SENTIDOS. Heloísa Prazeres – CONVITE

Clique sobre a foto, para vê-la no tamanho original

HELOÍSA PRAZERES

É natural de Itabuna, BA, possui textos publicados com produtores de artes visuais (cinema e fotografia).

Citada no Dicionário de autores baianos. Salvador: Secult, 2006, e no Dicionário de escritores contemporâneos da Bahia, Cepa, 2015.

Publicou, em livro, Temas e teimas em narrativas baianas do Centro-Sul. Fcja; Unifacs; Secult, 2000; Pequena história, poemas selecionados. Salvador: Quarteto, 2014; Antologia outros riscos do Prêmio Damário DaCruz de Poesia. Salvador: FPC/ Secult,BA e Quarteto, 2013; Poetas da Bahia, III. Salvador: Expogeo, 2015 e Antologia 5º Prêmio Literário de Poesia, Portal Amigos do Livro, São Paulo: Scortecci, 2015 Medalha de Bronze do I Concurso Literário da AECALB, Rio de Janeiro, 2016.

Bacharel e Mestre em Letras pela UFBA. Cumpriu doutorado em Literatura na University of Cincinnati, Oh. EUA. Professora adjunta, aposentada do IL da UFBA. Foi titular na Universidade Salvador, Unifacs.

Coordenou o Núcleo de Referência Cultural da Fundação Cultural do Estado da Bahia.


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sexta-feira, 28 de julho de 2017

ITABUNA DE HELOÍSA PRAZERES: A cor das águas doces

A COR DAS ÁGUAS DOCES

“(...) Itabuna, que em língua guarani quer dizer ‘pedra preta’. Era uma homenagem às grandes pedras que surgiam nas margens e no meio do rio e sobre as quais as lavadeiras passavam o dia no seu trabalho” ( Jorge Amado).


Do nascedouro na Serra Ouricana
ao manto do Ribeirão Tororomba,
sonho as quedas d'água do Cachoeira:
seu curso inunda o mapa inteiro.
Negras pedras brilham, obsidianas,
em meio a lavadeiras, que são parcas;
serão as moiras do nosso destino,
a distraírem esteiras e rastros?
Margem a margem, nas duas cidades,
batem vestes e abrem sumidouros,
no coração de antigas moradas. 
Nesta cristalinidade de infância,
transbordam águas em tons rutilados,
que irisam e incandescem a minha alma. 

HP
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A autora:
Heloísa Prazeres é natural de Itabuna, BA, possui textos publicados com produtores de Artes Visuais (Cinema e Fotografia). Citada no Dicionário de Autores Baianos. Salvador: SECULT, 2006, e no Dicionário de Escritores Contemporâneos da Bahia, CEPA, 2015. Publicou, em livro, Temas e teimas em narrativas baianas do Centro-Sul. FCJA; UNIFACS; SECULT, 2000; Pequena História, poemas selecionados. Salvador: Quarteto, 2014; Antologia Outros Riscos do Prêmio DamárioDaCruz de Poesia. Salvador: FPC/ SecultBA e Quarteto, 2013; Poetas da Bahia, III. Salvador: Expogeo, 2015 e Antologia 5º Prêmio Literário de Poesia, Portal Amigos do Livro, São Paulo: Scortecci, 2015 Medalha de Bronze do I Concurso Literário da AECALB, Rio de Janeiro, 2016 Casa onde habitamos, poesia. São Paulo Scortecci.
Bacharel e Mestre em Letras pela UFBA. Cumpriu doutorado em Literaturana Universityof Cincinnati, OH. EUA. Professora Adjunta, aposentada do IL da UFBA. Foi titular na Universidade Salvador, UNIFACS. Coordenou o Núcleo de Referência Cultural da Fundação Cultural do Estado da Bahia.


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terça-feira, 4 de julho de 2017

A CASA DE HELOÍSA PRAZERES - Cyro de Mattos

A Casa de Heloísa Prazeres
Cyro de Mattos
                                             

          Depois da estreia com Pequena História (2014), antologia pessoal, a baiana (de Itabuna)  Heloísa Prazeres retoma seu processo poético com um segundo volume, A casa onde habitamos (2016),  formado de consistente união entre inspiração e transpiração,  intuições e reflexões, imaginações  e registros. Nesse segundo volume, com a  ilustração da fotografia de  Jamison Pedra, a poeta usa a palavra simbolizada para metamorfosear o discurso da vida como resultado de trabalhos de bastidor, achados nas zonas suspensas do sonho, fiações de interiores sob o teto da terra, memórias para alcançar o  entendimento no mesmo chão de suas origens. 

            Há nos oitenta e dois poemas que compõem essa casa, tecida com o labor do sonho, um ritmo que conduz a ideia através de versos bem construídos para  o preenchimento dos vazios no mundo. Assim, nos domínios onde a atribuição a um autor é a boa literatura mesclada com instrumental crítico suficiente, o emprego de linguagem eficaz deixa  ver que aqui estamos diante de uma construção poética  segura, de signo adornado pelo som na cadência musical própria do poema,  que diz de emoções chegando da  memória ou da razão, como se fossem sensações que na imagem iluminam o ser.
   
          Numa lírica moderna ressoa o uso do vocábulo estrangeiro,  a  referência a poetas e escritores de predileção pessoal, mas  em especial o tempo que, na alma enlaçando afetos e afinidades,  busca outro tempo, marcado  através de experiências,  revelações tantas  perante a existência. Dividido em quatro partes, Trabalhos de Bastidor, Antessala de Sonho,  Sob o Teto da Terra e Mesmo Chão, podemos dizer que, nessa casa onde o eu lírico traça projetos efêmeros ante o eterno que perdura, a chave para o seu conhecimento, distribuído em compartimentos delimitados pelo assunto  ou tema, que homenageia à vida,   está na epígrafe de Sophia de Mello Breyner Andresen, tão esplêndida poeta portuguesa quanto luminosa contista, quando diz:

Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo
               
         Quando a reconstrução do mundo no verso é convincente,  faz pensar logo como a vida é falha, repleta de contradições dentro de certo peso que impõe suas vozes agudas permeadas da  ambiguidade na passagem do tempo. Sendo falha, para equilibrar-se nos vazios, o poeta  recorre à   linguagem literária para inaugurar  novos sentidos, lembrando assim que na quimera  e na divagação, na pureza  de dicção superior, criativa, a vida torna-se viável. Utiliza por isso  lições plasmadas em  linguagem específica para discorrer  sobre o espanto da vida e assim prosseguir     na litania do verso,  que em si mesmo se sustenta e encanta.
 
              O poeta quer dizer com isso que o seu gesto de ler o mundo põe claridade nas partes escuras  que ocultam o mundo. O verso supre a deficiência crítica, repleta de limitações,  que envolve aos humanos perante a experiência da vida em que entra a solidão, o tédio, o azar  e a tristeza.  Embora existam as flores, sabe-se que elas somem, mal surgem. Ao  poeta Heloísa Prazeres, o  milagre para que sempre sobrevivam consiste em vê-las com a sua teimosia no deserto, em tácito entendimento das altiplanas  montanhas de Nevada,  como as encontramos no afetuoso “Poema para os meus Amigos”. Lembre-se então que, ressoando larguras e profunduras,  em  mínimas cosmovisões de ternuras, disse  Neruda que a flor da alma na alma flora.

          Na geografia íntima da casa abandonada,  Heloísa Prazeres  não sabe “dizer se havia/consentimentos, apelos/de viagens dominavam/ vontades. Seguro apenas/ o mandato da aventura.” E, porque o desafio consiste em ultrapassar a aventura do viver, o  tempo dos legítimos poetas é outro. Decide-se com os reclamos da alma, rumores urdidos  com “mala fixa e estética”,  emoções e conceitos movendo sempre a permanência de surpresas, cismas e perplexidades.  É o que percebemos, por exemplo,  no discurso singular do poema  “Trópico do Capricórnio”.

         Até mesmo no poema “Familiar”, os versos livres de Heloísa Prazeres, quase automáticos, de uma rapidez e visibilidade, síntese e concisão, como quer Italo Calvino,  fixam a cena com assunto moderno, extraído do mundo internético de hoje, o qual, instalado  no grupo, faz com que cada um fique hipnotizado no seu recurso, na cerimônia ao deus TIC - Tecnologia da Informação e Divulgação.

        Esse modo de estruturar o verso nos tempos de hoje, embalado do eletrônico  que não se ajusta ao sol  na manhã com esperança,  só comprova que  nessa casa de Heloísa Prazeres, aqui e agora, com leveza e graça,  densidade e clareza, a poesia está em tudo. O  poema não engole o poeta quando  provido de linguagem adequada e percepção  do mundo.

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Cyro de Mattos,  escritor e poeta. Primeiro Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia, Pen Clube do Brasil, Academia de Letras de Ilhéus e Academia de Letras de Itabuna. Autor premiado no Brasil, Portugal, Itália e México.

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