Pobre Rio Cachoeira
Sione Porto
Sione Maria Porto de Oliveira, poetisa.
Membro da Academia de Letras de Itabuna (Alita)
* * *
Pobre Rio Cachoeira
Sione Porto
Sione Maria Porto de Oliveira, poetisa.
Membro da Academia de Letras de Itabuna (Alita)
* * *
A Percepção Poética de Heloísa Prazeres
Cyro de Mattos (*)
Depois
da estreia com a Pequena história, antologia pessoal, a baiana (de Itabuna)
Heloísa Prazeres retoma seu processo poético com um segundo volume, Casa onde
habitamos (2016), formado de consistente união entre inspiração e transpiração,
intuições e reflexões, imaginações e registros. Nesse segundo volume, com a ilustração
de fotografia de Jamison Pedra, a poeta
usa a palavra simbolizada para metamorfosear o discurso da vida como resultado
de trabalhos de bastidor, achados nas zonas suspensas do sonho, fiações de
interiores sob o teto da terra, memórias para alcançar o entendimento no mesmo chão de suas origens.
Há nos
oitenta e dois poemas que compõem essa casa, tecida com o labor do sonho, um
ritmo que conduz a ideia através de versos bem construídos para o preenchimento
dos vazios no mundo. Assim, nos domínios onde a atribuição a um autor consiste
na boa literatura mesclada com
instrumental crítico suficiente, o emprego de linguagem eficaz deixa ver que aqui estamos diante de uma construção
poética segura, de signo adornado pelo
som na cadência musical própria do poema,
que diz de emoções chegando da
memória ou da razão, como se fossem sensações que na imagem iluminam o
ser.
Numa lírica
moderna ressoa o uso do vocábulo estrangeiro, a boa referência a poetas e
escritores de predileção pessoal, mas em especial o tempo que, na alma
enlaçando afetos e afinidades, busca outro tempo, marcado através de
experiências, revelações tantas perante a existência. Dividido em quatro partes, “Trabalhos de
bastidor”, “Antessala de sonho”, “Sob o teto da terra” e “Mesmo chão”, podemos
dizer que, nessa casa onde o eu lírico traça projetos efêmeros ante o eterno
que perdura, a chave para o seu conhecimento, distribuído em compartimentos
delimitados pelo assunto ou tema, o qual homenageia a vida, está na epígrafe de
Sophia de Mello Breyner Andresen, tão esplêndida poeta portuguesa quanto
luminosa contista, quando diz:
Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo
Quando a reconstrução
do mundo no verso é convincente, faz pensar logo como a vida é falha, repleta
de contradições dentro de certo peso que impõe suas vozes agudas permeadas da
ambiguidade na passagem do tempo. Sendo falha, para equilibrar-se nos vazios, o
poeta recorre à linguagem literária
para inaugurar novos sentidos, lembrando assim que na quimera e na divagação,
na pureza de dicção superior, criativa, a vida torna-se viável. Utiliza por
isso lições plasmadas em linguagem específica para discorrer sobre o espanto da
vida e assim prosseguir na litania do verso,
que em si mesmo se sustenta e encanta.
O poeta
quer dizer com isso que o seu gesto de ler o mundo põe claridade nas partes
escuras que ocultam o mundo. O verso supre a deficiência crítica, repleta de
limitações, impossibilidades que envolvem aos humanos perante a experiência da
vida em que entra a solidão, o tédio, o azar e a tristeza. Embora existam as flores, sabe-se que elas
somem, mal surgem. Ao poeta Heloísa Prazeres, o milagre para que sempre
sobrevivam consiste em vê-las com a sua teimosia no deserto, em tácito
entendimento com as altiplanas montanhas de Nevada, como as encontramos no
afetuoso “Poema para os meus amigos”. Lembre-se então que, ressoando larguras e
profunduras, em mínimas cosmovisões de ternuras, disse Neruda que a flor da
alma na alma flora.
Na geografia
íntima da casa abandonada, Heloísa Prazeres não sabe “dizer se
havia/consentimentos, apelos/de viagens dominavam/ vontades. Seguro apenas/ o
mandato da aventura.” E, porque o
desafio consiste em ultrapassar a aventura do viver, o tempo dos legítimos
poetas é outro. Decide-se com os reclamos da alma, rumores urdidos com “mala
fixa e estética”, emoções e conceitos mesclados com a permanência de surpresas,
cismas e perplexidades. É o que
percebemos, por exemplo, no discurso singular do poema “Trópico do
capricórnio.”
Até mesmo no
poema “Familiar”, os versos livres de Heloísa Prazeres, de um ritmo quase
automático, de incrível rapidez e visibilidade, síntese e concisão, como quer
Italo Calvino, fixam-se na cena com assunto moderno, extraído do mundo internético
de hoje, o qual, instalado no grupo, faz
com que cada um fique hipnotizado no seu recurso, na cerimônia ao deus TIC -
Tecnologia da Informação e Divulgação.
Esse modo de
estruturar o verso nos tempos de hoje, embalado do eletrônico que não se ajusta
ao sol na manhã com esperança, só comprova que nessa casa de Heloísa Prazeres,
aqui e agora, com leveza e graça, densidade e clareza, a poesia está em tudo.
O poema
não engole o poeta quando provido de linguagem adequada e percepção do mundo.
Leitura Sugerida
PRAZERES, Heloísa. Casa onde habitamos, Editora Scortecci,
São Paulo, 2016.
* * *
O Romualdo tinha perdido, havia já
dois ou três meses, o seu lugar de redator numa folha diária; estava sem ganhar
vintém, vivendo sabe Deus com que dificuldades, a maldizer o instante em que,
levado por uma quimera da juventude, se lembrava de abraçar uma carreira tão
incerta e precária como a do jornalismo.
Felizmente era solteiro, e o dono
da “pensão” onde ele morava fornecia-lhe casa e comida a crédito, em atenção
aos belos tempos em que nele tivera o mais pontual dos locatários.
Cansado de oferecer em pura perda
os seus serviços literários a quanto jornal havia então no Rio de Janeiro, o
Romualdo lembrou-se, um dia, de procurar ocupação no comércio, abandonando para
sempre as suas veleidades de escritor público, os seus desejos de consideração e renome.
Para isso, foi ter com um
negociante rico, por nome Caldas, que tinha sido seu condiscípulo no colégio Vitório,
a quem jamais ocupara, embora ele o tratasse com muita amizade e o tuteasse, quando
raras vezes se encontrava na rua.
O negociante ouviu-o, e disse-lhe:
- Tratarei mais tarde de arranjar
um emprego que te sirva; por enquanto preciso da tua pena. Sim, da tua pena. Apareceste
ao pintar! Foste a sopa que me caiu no mel! Quando entraste por aquela porta,
estava eu a matutar, sem saber a quem me dirigisse para prestar-me o serviço
que vou te pedir. Confesso que não me tinha lembrado de ti... perdoa...
- Estou às tuas ordens.
- Preciso publicar amanhã, impreterivelmente,
no “Jornal do Comércio”, um artigo contra o Saraiva.
- Que Saraiva?
- O da rua Direita.
- O João Fernandes Saraiva?
- Esse mesmo.
- E queres tu que seja eu quem
escreva esse artigo?
- Sim. Ganharás uns cobres que não
te farão mal algum.
A essa palavra “cobres”, o Romualdo
teve uma estremeção de alegria; mas caiu em si:
- Desculpa, Caldas; bem sabes que o
Saraiva é, como tu, meu amigo... como tu, foi meu companheiro de colégio...
- Quando conheceres a questão que vai
ser o assunto desse artivo, não te recusarás a escrevê-lo, porque não admito
que sejas mais amigo dele do que meu. Demais, nota uma coisa: não quero
insultá-lo, não quero dizer nada que o fira na sua honra, quero tratá-lo com
luva de pelica. Sou eu o primeiro a lastimar que uma questão de dinheiro destruísse
a nossa velha amizade. Escreves o artigo?
- Mas...
- Não há mas nem meio mas! O
Saraiva nunca saberá que foi escrito por ti.
- Tenho escrúpulos...
- Deixa lá teus escrúpulos, e ouve
de que se trata. Presta-me toda atenção.
E o Caldas expôs longamente ao
Romualdo a queixa que tinha do Saraiva. Tratava-se de uma pequena questão
comercial, de um capricho tolo que só poderia irritar um contra o outro, dois
amigos que não conhecessem o que a vida
tem de áspero e difícil. O artigo seria um desabafo menos do brio que da
vaidade, e, escrevendo-o, qualquer pena hábil poderia, efetivamente, evitar uma
injúria grave.
O Romualdo, que há muito tempo não
pegava numa nota de cinco mil réis, e apanhara, na véspera, uma descompostura
da lavadeira, cedeu, afinal, às tentadoras instâncias do amigo, e no próprio
escritório deste redigiu o artigo, que satisfez plenamente.
- Muito bem! – exclamou o Caldas,
depois de três leituras consecutivas.
- Se eu soubesse escrever,
escreveria isto mesmo! Apanhaste perfeitamente
a questão!
E, depois de um passeio à burra,
meteu um envelope na mão de Romualdo, dizendo-lhe:
- Aparece-me daqui a dias: vou
procurar o emprego que desejas. A época é difícil, mas há de se arranjar.
O Romualdo saiu, e, ao dobrar a
primeira esquina, abriu sofregamente o envelope: havia dentro uma nota de cem
mil réis. Exultou! Parecia-lhe ter tirado a sorte grande!
Na manhã seguinte, o ex-jornalista
pediu ao dono da “pensão” que lhe emprestasse
o “Jornal do Comércio”, e viu a sua prosa “Eu e o sr. João Fernandes
Saraiva” assinado pelo Caldas; sentiu alguma coisa que se assemelhava ao
remorso, o mal-estar que acomete o espirito e se reflete no corpo do homem
todas as vezes que este pratica um ato inconfessável, e aquilo era uma quase traição.
Entretanto almoçou com apetite.
À sobremesa entrou na sala de
jantar um menino, que lhe trazia uma carta em cujo sobrescrito se lia a palavra
“urgente”.
Ele abriu e leu:
“Romualdo. – Preciso falar-lhe com a
maior urgência. Peço-lhe que dê um pulo ao nosso escritório hoje mesmo, logo
que possa. Recado do – João Fernandes Saraiva”.
Este bilhete inquietou o ex-jornalista.
Com certeza, pensou ele, o Saraiva
soube que fui eu o autor do artigo! Naturalmente alguém me viu entrar em casa
do Caldas, demorar-me no escritório... desconfiou da coisa e foi dizer-lhe...
Mas para que me chamará ele?
O seu desejo era não acudir ao
chamado; alegar que estava doente, ou não alegar coisa alguma, e lá não ir; mas
o menino de pé, junto à mesa do almoço, esperava a resposta... Era impossível
fugir!
- Diga ao seu patrão que daqui a
pouco lá estarei.
O menino foi-se.
O Romualdo acabou a sobremesa, tomou o café,
saiu, e dirigiu-se ao escritório do Saraiva, receoso de que este o recebesse
com duas pedras na mão.
Foi o contrário. O amigo recebeu-o
de braços abertos, dizendo-lhe:
- Obrigado por ter vindo! Estava com medo
de que o pequeno não te encontrasse! Vem cá!
E levou-o para um compartimento reservado.
- Leste o “Jornal do Comércio” de
hoje?
- Não – mentiu prontamente o
Romualdo – Raramente leio o “Jornal do Comércio”.
- Aqui o tens; vê que descompostura
me passou o Caldas!
O Romualdo fingiu que leu.
- Isso que aí está é uma
borracheira, mas não é escrito por ele! – bradou o Saraiva. – Aquilo é um besta
que não sabe pegar na pena senão para assinar o nome!
- O artigo não está mau... Tem até
estilo...
- Preciso responder!
- Eu, no teu caso, não respondia...
- Assim não penso. Preciso responder
amanhã mesmo no próprio “Jornal do Comércio” e, se te chamei, foi para pedir-te
que escrevas a resposta.
- Eu?...
- Tu, sim! Eu podia escrever,
mas... que queres?... Estou fora de mim!...
- Bem sabes – gaguejou Romualdo –
que sou amigo do Caldas. Não me fica bem...
- Não te fica bem, por quê? Ele com
certeza não é mais teu amigo que eu! Depois, não é intenção minha injuriá-lo;
quero apenas dar-lhe o troco!
No íntimo o Romualdo estava
satisfeito, por ver naquele segundo artigo um meio de atenuar, ou, se quiserem,
de equilibrar o seu remorso.
Ainda mastigou umas escusas, mas o outro insistiu:
- Por amor de Deus não te recuses a
este obséquio tão natural num homem que vive da pena! Tu estás desempregado,
precisas ganhar alguma coisa...
O Romualdo cedeu a este último argumento, e, depois de convenientemente
instruído pelo Saraiva sobre a resposta que devia dar, pegou na pena e escreveu
ali mesmo o artigo.
Reproduziu-se então a cena da
véspera, com mudança apenas de um personagem. O Saraiva, depois de ler e reler
o artigo, exclamou: - Bravo! Não poderia sair melhor! – e, tirando da algibeira
um maço de dinheiro, escolheu uma nota de duzentos mil réis e entregou-o ao
prosador.
- Oh! Isso é muito, Saraiva!
- Qual muito! Estás a tocar leques
por bandurra: é justo que te pague bem!
- Obrigado: mas olha... recomendo-te
que mandes copiar o artigo, porque no “Jornal” pode haver alguém que conheça a
minha letra.
- Copiá-lo-ei eu mesmo.
- Adeus.
- Adeus. Se o Caldas treplicar,
aparece-me!
- Está dito.
No dia seguinte, o Caldas entrou
muito cedo no quarto do Romualdo, com o “Jornal do Comércio” na mão.
- O bruto replicou! Vais escrever-me
a tréplica!
E batendo com as costas da mão no
jornal:
- Isso não é dele... Aquilo é
incapaz de traçar duas linhas sem quatro asneiras... mas, ainda assim, quem
escreveu por ele está longe de ter o teu estilo, a tua graça... Anda!
Escreve!...
E o Romualdo escreveu...
Durante um mês teve ele a
habilidade de alimentar a polêmica, provocando a réplica, para que não
estancasse tão cedo a fonte de receita que encontrara. Para isso fazia
insinuações vagas, mas pérfidas, e depois, em conversa ora com um, ora com outro,
era o primeiro a aconselhar a retaliação e o esforço.
Tanto o Caldas como o Saraiva se
mostraram cada vez mais generosos, e o Romualdo nunca em dias de sua vida se
viu com tanto dinheiro. Ambos os contendores lhe diziam: - Escreve! Escreve! Eu
quero ser o último!
Por fim, vendo que a questão se
eternizava, e de um momento para o outro a sua duplicidade podia ser
descoberta, o Romualdo foi gradualmente adoçando o tom dos artigos, fazendo,
por sua própria conta, concessões recíprocas, lembrando a velha amizade, e com
tanto engenho se houve, que os dois contendores se reconciliaram, acabando
amigos e arrependidos de terem dito um ao outro coisas desagradáveis em letra
de forma.
E o público admirou essa polêmica,
em que dois homens discutiam com estilos tão semelhantes que o próprio estilo
pareceu humanizá-los.
O Caldas cumpriu a sua promessa: o
Romualdo pouco depois entrou para o comércio, onde ainda hoje se acha,
completamente esquecido do tempo que perdeu no jornalismo.
----------------
Artur
Azevedo (Artur Nabantino Gonçalves de Azevedo), jornalista e teatrólogo,
nasceu em São Luís, MA, em 7 de julho de 1855, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ,
em 22 de outubro de 1908. Figurou, ao lado do irmão Aluísio Azevedo, no grupo
fundador da Academia Brasileira de Letras, onde criou a cadeira nº 29, que tem
como patrono Martins Pena.
A HIDRA ERA ALIMENTADA E CRESCIA NOS ANTROS COMUNISTAS
Paulo Roberto Campos
Quando em 1989 foi derrubado o Muro de Berlim (a “cortina de
ferro”) e, no ano seguinte, desmoronou o regime comunista com o estrondoso
fracasso da URSS, muitos incautos diziam de boca cheia: “o comunismo morreu”…
O maior líder anticomunista do século XX, o Prof. Plinio
Corrêa de Oliveira, foi o paladino da tese contrária, ou seja, ele afirmava
categoricamente que o comunismo não tinha morrido, mas se metamorfoseado; fez
uma “plástica” em sua carranca para melhor iludir os babaquaras. Tal “plástica”
foi feita sobretudo com duas políticas “cosméticas” do velhaco comunista
Michail Gorbachev: em 1985 com a Glasnost (transparência), e
em 1986 com a Perestroika (reestruturação).
A respeito desta importante temática, recomendo leitura do
histórico manifesto do Prof. Plinio, publicado em 1989 em vários jornais,
intitulado “Morreu o comunismo? E o anticomunismo também?”.
O próprio Gorbachev confessou: “O comunismo pode
voltar à vida. É como o mito grego da Hidra, cujas cabeças cresciam de novo,
após terem sido cortadas” (“Folha de S. Paulo”, 9-3-1992).
Gorbachev nos antros comunistas tomou conhecimento do plano
punitista; sabia que a Hidra estava sendo criada e bem alimentada… Hoje quem
teria a petulância de dizer que o comunismo está morto? Sobretudo com a atual
situação da Rússia, com a hidra Putin no poder, seria um disparate monumental.
Dentro dessa temática, seguem algumas frases sobre o
comunismo que vale a pena memorizar.
“Hoje, fala-se em cortesia francesa, pontualidade
britânica, cavalheirismo espanhol etc. Dia virá em que se falará também em
cinismo soviético. Cinismo pasmoso, na verdade, que só teve um ‘símile’ no
mundo: o cinismo nazista”.
(Plinio Corrêa de Oliveira)
“No capitalismo temos a distribuição desigual das riquezas;
no socialismo, a distribuição por igual das misérias”.
(Churchill)
“O comunismo não é uma doutrina porque é uma
antidoutrina, ou uma contradoutrina. Tudo quanto o homem tem conquistado, até
hoje, de espiritualidade moral e mental — isto é de civilização e de cultura —,
tudo isso ele inverte para formar a doutrina que não tem”.
(Fernando Pessoa)
“Os comunistas sempre souberam chacoalhar as árvores
para apanhar no chão os frutos. O que não sabem é plantá-las”.
(Roberto Campos)
“É fácil ser comunista em um país livre. O difícil é
ser livre em um país comunista”.
(Agustin Etchebarne)
https://www.abim.inf.br/a-hidra-era-alimentada-e-crescia-nos-antros-comunistas/
* * *
O grande taumaturgo de Pádua –– ou de Lisboa, sua cidade
natal –– embora com uma curta existência terrena, tornou-se um dos santos mais
populares do mundo, sendo venerado tanto no Oriente quanto no Ocidente
|
· Plinio
Maria Solimeo |
“Alegra-te, feliz Lusitânia! Salta de júbilo, Pádua ditosa!
Pois gerastes para a Terra e para o Céu um varão que bem pode comparar-se com
um astro rutilante, já que brilhando, não só pela santidade da vida e gloriosa
fama de milagres, mas também pelo esplendor que por todas as partes derrama a
sua celestial doutrina”. Esse foi o esplêndido elogio que fez desse santo o
Papa Pio XII.(1)
“Doutor da Igreja”, “Martelo dos Hereges”, “Doutor
Evangélico”, “Arca do Testamento”, “Santo de todo o mundo” –– são alguns dos
títulos com que os Soberanos Pontífices honraram aquele cuja vida foi, no dizer
de um de seus biógrafos, um milagre contínuo.
Natural de Lisboa onde nasceu em 1191 ou 1195, filho dos
nobres Martinho de Bulhões e Teresa Taveira, o futuro santo recebeu no batismo
o nome de Fernando. De boa índole, inclinado à piedade e às coisas santas, sua
formação espiritual e intelectual foi confiada aos cônegos da Catedral de
Lisboa por seu pai, oficial no exército de D. Afonso.
|
Clérigo Regular de Santo Agostinho |
Acometido por forte tentação contra a pureza, Santo Antonio
traçou uma cruz com os dedos numa coluna de mármore da Sé de Lisboa, ficando
nela impressa como em cera [Foto PRC].
Segundo alguns de seus biógrafos, na adolescência Fernando
foi acometido por violenta tentação contra a pureza. Para aplacá-la, estando na
catedral, o jovem traçou uma cruz com os dedos, numa coluna de mármore, ficando
nela impressa como em cera. Avaliando nessa ocasião os perigos que corria, o
adolescente quis entrar para o mosteiro de São Vicente de Fora, dos Clérigos
Regulares de Santo Agostinho, nos arredores da capital portuguesa, quando
contava 19 anos de idade.
Ali permaneceu dois anos, findos os quais, por ser muito
procurado por parentes e amigos, pediu aos superiores que o transferissem para
o mosteiro Santa Cruz de Coimbra, casa-mãe do Instituto. Foi ordenado sacerdote
em 1220. Frei Fernando, entretanto, almejava abraçar um gênero de vida mais
perfeito e mais de acordo com suas íntimas aspirações.
Cripta da Igreja de Santo António, em Lisboa, construída no
local onde nasceu o santo. Na lápide, em latim lemos: Nascitur. Hac.
Parva. Ut. Tradunt. Antonius. Aede. Quem. Coeli. Nobis. Abstulit. Alma. Domus (“Nesta
casa, segundo a tradição, nasceu e viveu António, que foi roubado pela gloriosa
morada do Céu”). [Detalhe abaixo, Fotos PRC].
|
Transferência para a Ordem franciscana |
Quando chegaram a Coimbra os restos mortais dos cinco
protomártires franciscanos, que deram sua vida pela Fé no Marrocos, Frei
Fernando sentiu imenso desejo de imitá-los, vertendo também seu sangue por
Cristo.
Um dia, no verão de 1220, quando dois franciscanos foram ao
seu mosteiro pedir esmola, Frei Fernando perguntou-lhes se, passando ele para
sua Ordem, o enviariam à terra dos mouros para lá sofrer o martírio. Eles deram
resposta afirmativa. No dia seguinte, depois de obter, a duras penas,
autorização de seu Superior, mudou-se para o eremitério franciscano, onde se
tornou um filho de São Francisco de Assis.
Frei Fernando mudou então seu nome para o do onomástico do
eremitério, Antonio, que ele imortalizaria.
Conforme o combinado, Frei Antonio foi enviado no fim desse
mesmo ano à África. Entretanto não estava nos planos da Providência que ele
ilustrasse a Igreja como mártir, mas com suas pregações e santa vida. Assim,
chegando ao continente africano, foi atacado de terrível doença, que o reteve
no leito por longo período. Os superiores decidiram que, para curar-se, Frei
Antonio deveria voltar a Portugal.
|
Acrisolado pela Divina Providência |
A mão da Providência, no entanto, desejava-o em outro campo
de luta. O navio em que estava o convalescente, levado pela tempestade, foi
parar nas costas da Itália, onde o santo encontrou abrigo em Messina, na
Sicília. Lá soube que o seráfico São Francisco havia convocado um Capítulo em
Assis, para maio de 1221. Antonio poderia, enfim, ver o pai e fundador dos
franciscanos e contemplar sua angélica virtude.
Naquela grande assembléia o Provincial da Romênia resolveu
levá-lo consigo. Frei Antonio obteve dele licença para permanecer no eremitério
do Monte Paulo, a fim de entregar-se ao isolamento e à contemplação.
Entretanto a mão de Deus velava sobre ele, e chegou o tempo
em que aquela luz deveria brilhar para o bem do mundo inteiro.
|
Começa a vida apostólica como grande pregador |
Foi enviado a Forli com alguns franciscanos e dominicanos
que deveriam receber as ordens sacras. O Padre guardião do convento em que se
hospedavam pediu que algum dos presentes dissesse algo para a glória de Deus e
edificação dos demais. Um a um, foram todos escusando-se por não estarem
preparados. Restava Antonio. Sem muita convicção, o Superior mandou-lhe então
que falasse, à falta dos demais.
Era a primeira vez que Antonio falava em público, e então
viu-se a maravilha: de sua boca saíram palavras de fogo, demonstrando profundo
conhecimento teológico e das Escrituras, tudo exposto com uma lógica, clareza e
concisão que conquistou a todos.
Entusiasmado, o Guardião comunicou aquele sucesso ao Provincial, que transmitiu a notícia a São Francisco. O Poverello mandou então que Frei Antonio estudasse teologia escolástica para dedicar-se à pregação. Pouco depois, em vista de seus progressos, ordenou-lhe S. Francisco que trabalhasse na salvação das almas. Era o ano 1222, e Frei Antonio contava apenas 30 ou 31 anos de idade.
Igreja de Santo António contruída no local onde nasceu o
santo (no fundo a Sé de Lisboa) [Foto PRC].
|
Força irresistível de suas fogosas palavras |
Segundo seus biógrafos, “ele tinha um exterior polido,
gestos elegantes e aspecto atraente. Sua voz era forte, clara, agradável, e sua
memória feliz. A essas vantagens, juntava uma ação cheia de graça”.(2)
Entretanto, “seu traço característico, o milagre constante de sua existência, é
a força incontestável de sua pregação, o poder de sua voz sobre os
corações e as inteligências”.(3)
“Quando ele fulminava os vícios e as heresias — das quais o
mundo estava então extremamente infectado — era como uma torrente de fogo que
revira tudo, e à qual ninguém pode resistir. […] Freqüentemente, se bem que
falasse [durante o sermão] uma só língua, era entendido por pessoas de toda
espécie de países”.(4) Daí seu sucesso extraordinário, tanto na Itália quanto
na França.
|
Milagres como no tempo dos Apóstolos |
As multidões acorriam, e até os comerciantes fechavam suas
lojas para ir ouvi-lo; a cidade e toda a redondeza literalmente paravam. Sendo
pequenas as igrejas para tanta gente — às vezes chegavam a juntar-se até 30 mil
pessoas num só sermão — ele falava nas praças públicas. Quando terminava, “era
necessário que alguns homens valentes e robustos o levantassem e protegessem
das pessoas que vinham beijar-lhe a mão e tocar-lhe o hábito”.(5) O número de
sacerdotes que o acompanhavam era pequeno para depois ouvirem as confissões dos
que, tocados por seu sermão, queriam emendar-se de vida.
Seus sermões eram seguidos de milagres como não se viam
desde o tempo dos Apóstolos. Praticamente não havia coxo, cego ou paralítico
que, depois de receber sua bênção, não ficasse são. Numa ocasião converteu 22
ladrões, que por curiosidade foram ouvi-lo. O número de hereges por ele
convertidos não tem fim.
Milhares de peixes de vários tipos e tamanhos puseram a
cabeça fora da água para ouvir o sermão de Sto. Antonio. Azulejo na Sé de
Lisboa representa o milagre [Foto PRC].
|
Prega aos peixes para confundir os indiferentes |
Um dos milagres mais conhecidos de Santo Antonio foi sua
pregação aos peixes. Em Rimini, durante seu sermão, o povo se mantinha
indiferente. Abandonando seus ouvintes, foi pregar à beira-mar. Milhares de
peixes de vários tipos e tamanhos puseram a cabeça fora da água para ouvir o
santo, que tinha sido seguido pela população da cidade, testemunha do milagre.
Santo Antonio foi cognominado “Martelo dos Hereges”, porque
a heresia não teve inimigo mais formidável. Sua mais antiga biografia,
conhecida pelo nome de Assídua, relata: “Dia e noite tinha discussões com os
hereges; expunha-lhes com grande clareza o dogma católico; refutava
vitoriosamente os preceitos deles, revelando em tudo ciência admirável e força
suave de persuasão que penetrava a alma dos seus contrários”.(6)
Um heresiarca negava a Presença Real no Santíssimo
Sacramento. Para acreditar, dizia, queria um milagre. E propôs o seguinte:
deixaria sua mula sem comer durante três dias. Depois disso, oferecer-lhe-ia
feno e aveia, e Frei Antonio a Hóstia consagrada. Se a besta deixasse a comida
para ir adorar a Hóstia, ele creria, disse. Isso foi feito diante de toda a
cidade. E a mula faminta, tendo que escolher entre o alimento e o respeito à
Hóstia consagrada, foi ajoelhar-se diante desta, que o santo segurava nas mãos.
Desde a mais tenra infância Antonio fora devoto de Nossa
Senhora, e Ela várias vezes o socorreu. Um dia, por exemplo, em que o demônio
não podia mais suportar o bem que o santo fazia, agarrou-o pelo pescoço tão
violentamente, que o enforcava. Antonio mal pôde balbuciar as palavras da
antífona a Nossa Senhora, “O Gloriosa Domina”. No mesmo instante o demônio
fugiu apavorado. Recomposto, Antonio viu a seu lado a Rainha do Céu
resplandecente de glória.
|
“O santo morreu! O santo morreu!” |
Relíquias de Santo Antonio guardadas na Sé de Lisboa [Foto
PRC]
No ano de 1231, Frei Antonio, sentindo piorar a hidropisia
maligna que o perseguia havia tempos, percebeu que sua hora chegara e quis
morrer em Pádua, sua cidade de adoção. Quando o povo paduano ouviu dizer que
ele estava chegando, acorreu em tal quantidade, que os frades que o
acompanhavam, para livrá-lo do assédio, levaram-no para a casa do capelão das
freiras clarissas, onde ele faleceu com apenas 40 anos de idade.
Imediatamente as crianças de Pádua saíram espontaneamente
pelas ruas gritando: “O santo morreu! O santo morreu!”. Ao mesmo tempo, em
Lisboa, sua cidade natal, os sinos puseram-se a repicar por si sós, e o povo
saiu às ruas. Somente mais tarde é que souberam do ocorrido.
Tantos foram os milagres operados pelo santo em seu túmulo,
que levaram o Papa Gregório IX a canonizá-lo apenas um ano depois de sua morte.
Anualmente sua festividade é comemorada no dia 13 de junho.
______________
Notas:
Fonte: Revista Catolicismo, junho/2005.
1. Pio XII, Carta Apostólica de 16 de janeiro de 1946, apud
Pe. José Leite, Santos de Cada Dia, Editorial A.O., Braga, 1987, tomo II,
p. 252.
2. Les Petits Bollandistes, Vies des Saints, d’après le
Père Giry, Bloud et Barral, Éditeurs, Paris, 1882, tomo VI, p. 617.
3. Frei Justo Perez de Urbel, O.S.B., Año Cristiano,
Ediciones Fax, Madrid, 1945, tomo II, p. 603.
4. P. Simon Martin, Vie des Saints, Bar-le-Duc, 1859,
tomo II, pp. 946-947.
5. Pe. Pedro Ribadaneira, apud Dr. D. Eduardo Maria
Vilarrasa, La Leyenda de Oro, L. González y Compañía, Barcelona, 1896,
tomo II, p. 425.
6. Apud Pe. José Leite, S.J., op.cit., p. 251.
https://www.abim.inf.br/santo-antonio-de-padua-martelo-dos-hereges/
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