O colégio do professor Chalup, onde estudei, ficava na Praça
Adami, em Itabuna, nas imediações entre o Banco Santo André e as Casas Maia. A
área construída era muito grande; no centro, havia um salão, onde ele
ministrava as suas aulas e mais quatro salas, nas quais trabalhavam outros
professores, dentre estes, a sua esposa, professora Mariazinha.
O professor Chalup era de estatura mediana, branco, gordo,
careca e asmático; a sua esposa, professora Mariazinha, menor que ele, também
era obesa, mas de cor parda.
Todos os dias de aula formava-se aquela fila quilométrica,
composta por alunos relapsos, que não queriam nada com a “voz do Brasil¨. No
começo da fila, estava o professor Chalup, distribuindo bolos de palmatória
àquele ¨alunos¨, que os recebiam nas mãos, com muita dor e lágrimas. Dentro
daquela fila, dificilmente eu não me encontrava, seguindo depois para ficar
ajoelhado sobre os caroços de milho, até o encerramento das aulas.
Aquele castigo só era interrompido, quando tínhamos que
voltar para casa. Mas quem não quisesse voltar para ele, no outro dia, tinha
que fazer, do punho próprio, mais de cem copias do texto que o professor Chalup
determinava.
Numa dessas vezes, passei a me sentir mal. A professora
Mariazinha, preocupada comigo, pôs as mãos sobre o meu peito e começou a orar:
-Pai Nosso que estais nos Céus...
A dor que estava sentindo, transferiu-se de mim para ela.
Desse dia em diante, mesmo sem fazer um exame comprobatório, passei a ser tido
como portador de alguma deficiência cardiovascular.
Para quem não queria nada, aquele sintoma foi muito
oportuno. Toda a vez que entrava naquela fila, deparando-me com o professor
Chalup, ele me olhava com fraternidade nos olhos, dispensando da pena que me
seria aplicada.
Foi só assim que deixei de tomar aqueles indesejáveis bolos,
até que um dia tive que me contrapor a uma ordem do professor Chalup.
Ele havia mandado quatro leões de chácara pegar o meu irmão
Bento Rocha (também era seu aluno), lá na nossa casa, para reconduzi-lo àquele
lugar de cativeiro.
Fiquei tão indignado que reagi, defendendo Bento verbal e
fisicamente daqueles asseclas, passando desse dia em diante, a ser massacrado
pelo professor Chalup, todas as vezes que retornava àquela fila quilométrica,
do único bolo indesejável: o bolo de palmatória.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
Marcos.
— Glória a vós, Senhor.
Depois que João Batista foi preso, Jesus foi para a
Galileia, pregando o Evangelho de Deus e dizendo: “O tempo já se
completou e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho!”
E, passando à beira do mar da Galileia, Jesus viu Simão e
André, seu irmão, que lançavam a rede ao mar, pois eram pescadores.
Jesus lhes disse: “Segui-me e eu farei de vós pescadores
de homens”.
E eles, deixando imediatamente as redes, seguiram a Jesus.
Caminhando mais um pouco, viu também Tiago e João, filhos
de Zebedeu. Estavam na barca, consertando as redes; e logo os chamou. Eles
deixaram seu pai Zebedeu na barca com os empregados, e partiram, seguindo
Jesus.
Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão de Dom Alberto
Taveira Corrêa:
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O horizonte alternativo do Reino
“O tempo já se completou e o Reino de Deus está
próximo” (Mc 1,15)
Apagaram-se as luzes do Natal; os Magos voltaram a seus
países; Jesus foi revelado como o “Filho amado” no Batismo. Agora começa o
tempo do “chamado”; agora começa o tempo do “fazer caminho com Jesus”; agora
começa o “tempo do seguimento”.
Podemos dizer que Jesus irrompe na nossa Galileia cotidiana
como um chamado a viver de maneira alternativa, fazendo a experiência de Deus,
Mistério último da vida, como uma Força que nos atrai para construir um mundo
mais humano e ditoso.
Jesus não começa sua vida pública com ameaças, nem com
anúncios de castigos. Começa proclamando a Boa Notícia de Deus; este anúncio
original sintetiza toda sua missão: não é em vão que Marcos coloca na boca de
Jesus estas primeiras palavras: “O tempo já se completou e o Reino de Deus está
próximo”. Trata-se da Boa Nova, ou seja, tudo aquilo que “buscamos”, na
realidade, já está próximo. E para acolher esta Boa Nova faz-se necessária uma
profunda conversão. O termo “conversão”, traduzido do grego “metanoia” (mais
além da mente), nos convida a “outro modo de pensar, de ver, de agir...”
Trata-se de sair da perspectiva mental atrofiada para entrar em sintonia com
aquela Presença que expande a nossa vida para além de nossos estreitos modos de
viver, tanto na perspectiva pessoal quanto social.
Propriamente falando, Jesus não deixou como herança uma nova
doutrina religiosa da qual se pode extrair alguns princípios que logo são
aplicados à vida. O que Ele nos traz, a partir de sua experiência profética, é
um novo horizonte para assumirmos a história, um novo paradigma para humanizar
a vida, um marco para construir um mundo mais digno, justo e ditoso, a partir
da confiança e da responsabilidade.
Sua mensagem não provém do interior do sistema imperial nem
da instituição do Templo. Pelo contrário, desmascara a iniquidade do Império e
a conivência do Templo, sacudindo a indiferença de muitos e redefinindo as
expectativas de outros.
Jesus não é um escriba judeu, nem um sacerdote do templo de
Jerusalém, nem um asceta do deserto. O específico seu não é ensinar uma nova
doutrina religiosa, nem explicar a Lei de Deus, nem assegurar o culto de
Israel. Jesus é um profeta itinerante, um homem a caminho, aberto às surpresas
de Deus. Caminhava pela Galileia, anunciando um acontecimento, algo que já está
ocorrendo e que pede ser escutado e atendido, pois pode mudar tudo. Ele
desencadeia um novo movimento humanizador, que coloca o ser humano no centro de
sua missão. Ele já está experimentando isso e convida a todos a compartilhar
esta experiência: Deus está comprometido com a história humana. É preciso mudar
e viver tudo de maneira diferente.
Começa um tempo novo, uma história nova. Deus não nos deixa
sozinhos frente aos nossos conflitos, sofrimentos e desafios. Quer construir,
conosco e junto a nós, uma vida mais humana. Para isso, é preciso mudar a
maneira de pensar e de agir; é preciso aprender a viver crendo nesta Boa
Notícia.
Isto que Jesus chama “Reino de Deus” não é uma religião. É
muito mais. Vai mais além das crenças, preceitos e ritos de qualquer religião.
É uma experiência fundante de Deus que resignifica tudo de maneira nova. “Reino
de Deus” é o coração de sua mensagem e a paixão que animou toda sua vida
O surpreendente é que Jesus nunca define o que é o Reino de
Deus. Ele o encarna em suas palavras e em sua vida; é algo que irrompe, de
maneira surpreendente. Podemos dizer que “Reino de Deus” é a vida, tal como
Deus deseja que a vivamos.
Se queremos saber o que é o Reino, também nós devemos nos
colocar a caminho com Jesus: Ele é o Reino. Ele foi o homem que se definiu, que
tinha claro qual era sua missão; por isso, nos apresenta uma causa muito nobre
e, com seu chamado, rompe nosso estreito mundo e desperta em nós ricas
possibilidades, reacendendo o que de mais nobre há em cada um e ampliando nosso
horizonte de vida.
Para Jesus, a vida de uma pessoa vale pela causa à qual se
entrega. Por isso, ao anunciar a presença do Reino do Pai, Ele desperta nas
pessoas uma garra, uma vibração e um entusiasmo por esta causa tão nobre.
Escutar e acolher a proclamação do Reino é uma prova de audácia e coragem, uma
provocação à generosidade de cada um.
É preciso sonhar alto, ter ideais, ser uma pessoa corajosa e
marcada pela esperança para poder “escutar” o apelo de Jesus; é preciso ser
apaixonado(a), deixar-se empolgar, aceitar correr riscos na vida para saber o
que significa “estar e fazer caminho com Ele”; é indispensável uma enorme
generosidade para se dedicar incondicionalmente a uma grande causa; é preciso
forte dose de ousadia e coragem para transcender-se, ir além de si mesmo...
Jesus não só se deixou mobilizar pelo “sonho do Reino”, mas
foi também capaz de seduzir e mover outras pessoas a participarem desse mesmo
sonho; sua presença inspiradora era capaz de despertar nos outros o melhor de
si mesmos e de mobilizá-los. Por isso, os primeiros discípulos deixaram-se
impactar pela força do seu chamado e foram capazes de dar uma nova direção às
suas vidas.
Não sabemos se o chamado ao seguimento foi assim tão rápido,
como relata Marcos; mas, provavelmente, a forma um tanto mecânica em que ele se
expressa, é uma maneira de destacar a força mobilizadora da presença e do
chamado de Jesus. Todas as narrativas acerca do chamado conservam a marca
intencional de um encontro surpreendente, inesperado e expansivo: deixar a vida
estreita do lago de Genezaré para entrar no vasto oceano de vida proposto por
Jesus.
Há um dado, um tanto quanto estranho no chamado de Jesus:
parece ser um chamado que quase não tem programa. Ele afirma simplesmente:
“sereis pescadores de homens”. O que isto quer dizer?
Esta frase deve ser lida não no sentido quantitativo, típico
dos proselitismos e da mentalidade moderna, mas num sentido mais qualitativo:
“pescar homens” é extrair o melhor, a melhor versão humana de cada um, fazer
emergir a autêntica qualidade humana desse mar turvo de inumanidade que somos
todos.
Isso é “pescar o humano” que todos carregamos dentro. No
contexto atual, essa expressão tem uma enorme importância: porque é verdade que
nem todos os homens desejam ser cristãos, mas, seguramente, continua sendo
verdade que Deus deseja que cada um extraia de si a melhor versão possível.
O convite para “pescar homens”, que pode parecer uma
expressão estranha, evoca a imagem de sair de um meio aquático e começar a
respirar. Não poderíamos ver aí a possibilidade de ajudar outros em um novo
nascimento, de uma saída das águas amnióticas para começar a respirar a vida do
Espírito?
O chamado de Jesus, portanto, nos individualiza e nos
personaliza de modo irrepetível e inconfundível, confere um sentido
completamente novo ao nosso próprio nome. Jesus toma em suas mãos o futuro
daqueles(as) que o acompanham: junto d’Ele vão adquirindo nova personalidade,
definida pela referência a outros. Responder ao chamado de Jesus inaugura uma
nova relação com os(as) seus(suas) seguidores(as): Ele adiante, nós atrás. O
encontro com Ele atinge o núcleo de nossa própria autonomia e de nossa
consistência pessoal, de nossa vida profissional, familiar e relacional. Há um
deslocamento de nossos estreitos mares da vida e passamos a respirar a
imensidão de outro oceano.
Texto bíblico: Mc 1,14-20
Na oração: Encontrar-se com Jesus é encontrar-se com o Reino
de Deus. Jesus se põe totalmente a serviço da “causa” de Deus; Ele é
inseparável de sua obra: o Reino que anuncia e que Ele faz presente.
Somos impulsionados a ser protagonistas de uma história mais
di
tosa; somos movidos a atrever a pensar e agir “fora do sistema” para entrar
na lógica e na dinâmica do Reino de Deus. O Reino condensa e leva à plenitude
todas as aspirações humanas.
- Que sonhos você carrega em seu coração?
- Sua vida tem a dimensão do “mar da Galileia” ou do Oceano
de vida de Jesus?
Continuando as nossas reflexões sobre o Ano do Laicato,
devemos passar da teoria para os casos concretos, como o leigo deve agir para
cumprir a sua missão sacerdotal no meio das realidades temporais.
O ponto de partida é o nosso batismo, que é, como vimos, o
comum denominador de todos os cristãos. O Batismo não é só uma cerimônia, uma
simples celebração, mas é o compromisso assumido com Cristo Jesus na sua
Igreja. “Viver como Jesus viveu, sonhar como Jesus sonhou, agir como Jesus
agiu”. O Batismo é que nos qualifica de ser sacerdócio régio de Cristo. Este,
não exige nada além de que sincronizar os nossos pensamentos e ações com os de
Cristo Jesus e motivar estes, com a sua inspiração dentro da sua lei. (Por isso
a pergunta constante que devemos nos colocar é: como Jesus agiria, se estivesse
no meu lugar neste concreto momento?).
O professor que ensina é verdadeiro sacerdote para com o seu
aluno tirando-o da ignorância e transportando para o mudo do saber (que no fim
das contas é Deus).
O médico é verdadeiro sacerdote que cuida e defende a vida.
Deus criou mais lindo e completo mecanismo que existe no planeta, que é a
pessoa, mas “não nos deu manual de instrução”. São os médicos, a medicina, os
pesquisadores da saúde, que agora escrevem este manual, prolongando a qualidade
da nossa vida. Que lindo e nobre é este sacerdócio comum dos
médicos, fiéis leigos.... (Continua)
Com a benção e minha oração.
Dom Ceslau
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16/01/2018
O advogado que defende a verdade e luta pela verdade sem se
deixar corromper com o lucro fácil da corrupção, é o sacerdote leigo que sofre,
faz sacrifício, mas continua mantendo a sua dignidade e dos outros.
O Político, que no mundo corrupto de hoje se mantem incólume,
é o sacerdote que sofre pressão, e toda classe de tentações para se desviar do
caminho, mas resiste ouvindo a voz de Deus, eis a sua grandeza.
O artista, poeta, ator ou escritor, que na sua maneira
própria apresenta a realidade concreta e anuncia ou denuncia o que destoa da
beleza do plano de Deus para com a sociedade é o sacerdote importantíssimo na
sociedade. Só é precisa ser ouvido e entendido.
O Papa São João Paulo II foi mais temido pelos comunistas
não por causa dos seus sermões contrários ao comunismo, mas pelo contato
cotidiano com a juventude com a qual se reunia fazendo teatros, noites
literárias e poéticas etc. (Famoso teatro rapsódia em Cracóvia por ele criado).
O varredor de rua, que com carinho recolhe a sujeira que nós
deixamos, limpa o ambiente para nós, é o sacerdote do asseio, do mundo limpo,
com Deus o criou para nós.
O agricultor que lavra a terra e com consciência procura ao
máximo evitar a contaminação da sua produção rural com os toxico, que
aparentemente aumentariam a produção, mas arruinariam a vida dos irmãos, é o
sacerdote consciente da Casa Comum que é o mundo. E assim por diante.
Cada um que se localize na sua área do ambiente em que vive
e trabalha e descubra sua função sacerdotal para o sérvio comum de todos.
Para isto nos capacita o nosso batismo, e nos inclua ao grande Organismo
místico que é a Igreja de Jesus, e nos torna seus sacerdotes. (Continua)
Com a benção de Deus e a minha oração.
Dom Ceslau.
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17/01/2010
Ainda, continuando os casos práticos sobre o sacerdócio
comum dos leigos, temos o trecho da Sagrada Bíblia muito claro, lindo e atual
para os nossos tempos. O trecho é do Livro do Deuteronômio do Antigo
Testamento, referente aos juízes e julgamentos. O Moisés recebe a orientação de
Deus para conduzir bem o seu povo: “Ordenei aos vossos juízes: ouvireis vossos
irmãos para fazerdes justiça entre um homem e seu irmão ou o estrangeiro que
mora com ele. Não façais acepção de pessoas no julgamento: ouvireis igual modo
o pequeno e o grande. A ninguém temais, porque a justiça é de Deus”. (Deut.
1, 16-17).
Hoje, pela complexidade das questões, infinidade das leis,
as vezes até contrarias às leis naturais, leis de Deus, a tarefa do juiz se
torna muito difícil. Caminha entre duas pressões: de um lado a pressão das
potências econômicas, midiáticas e políticas e, de outro lado a consciência bem
formada na lei natural e divina, e o seu juramento de honestidade. Precisa
muita força e fé em Deus para seguir incólume entre todas as pressões,
tentações e conveniências. Feliz quando não se deixa corromper, abalar e
vencer, e segue a sua consciência, para o bem da sociedade, consciente que a
justiça é de Deus e que age em determinado momento, em seu nome (em nome de
Deus). É também o ministério do sacerdócio comum a serviço do bem comum.
Uma benção especial de Deus e a minha humilde oração. Uma
repousante noite.
Dom Ceslau.
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18/01/2018
O Ano do laicato reanima os fieis leigos
Os leigos estão na linha mais avançada na vida da Igreja.
Eles têm como vocação própria, procurar construir o Reino de Deus,
exercendo funções do mundo, trabalhando entre as realidades temporais, reatando
as relações interpessoais, agindo na arena política etc. Para isto os chama, os
habilita o batismo que receberam. Todos, mas principalmente os leigos devem ser
“sal da terra e luz do mundo (Mt,5 13.14). Levar a luz de Cristo onde o
ministro ordenado não pode chegar. No mundo vivem o seu sacerdócio comum.
Para melhor desempenhar o sacerdócio comum os fiéis, contam
com a ajuda o sacerdócio ministerial com quem estão ligados intimamente.
O sacerdócio ministerial, tem a missão, além daquela que vem do batismo, ainda
por uma consagração especial que recebem pela ordenação sacerdotal, explicar
aos fiéis a vontade de Deus no dia a dia, evangelizar, celebrar Eucaristia, e
confortar-nos com os sacramentos. Assim juntos prestar o louvor eterno de Deus.
Neste sentido a Igreja por meio do Pontifício Conselho
“Justiça e Paz” elaborou o Compendio da Doutrina Social da Igreja, (no Brasil a
edição Paulinas, 2005) que é o guia para o cristão seguir, semeando o bem e
testemunhando a Cristo, no meio das realidades temporais neste mundo.
Um grande abraço com a minha benção e oração para que eu
possa ser bem entendido e você enriquecido com estas reflexões.
Dom Ceslau.
................
Dom Ceslau Stanula – Bispo Emérito da Diocese de
Itabuna-BA, escritor, Membro da Academia Grapiúna de Letras-AGRAL
Lau Siqueira nasceu em Jaguarão (RS), mas atualmente reside
na Paraíba. Siqueira publicou 7 livros, quais sejam: “O Comício das Veias”,
Editora Ideia, 1993; “O Guardador de Sorrisos”, Editora Trema, 1998; “Sem Meias
Palavras”, Editora Ideia, 2002 e “Texto Sentido”, Editora Bagaço, 2007, todos
esgotados.
Pela Editora Casa Verde, de Porto Alegre, publicou “Poesia
Sem Pele”, 2011, “Livro Arbítrio”, 2015 e “A memória é uma espécie de cravo
ferrando a estranheza das coisas”, lançado em dezembro de 2017 em Jaguarão e
Porto Alegre (RS). Teve poemas incluídos em importantes antologias no Brasil,
Portugal, Argentina e Moçambique. Tem poemas traduzidos para outros idiomas e
escreve para jornais, blogs, portais e revistas.
“Em João Pessoa será no dia 2 de fevereiro, a partir das 19
horas, na Budega Arte Café, um lugar onde tem acontecido muita coisa importante
na arte contemporânea da Paraíba.”
Boa Leitura!
Escritor Lau Siqueira, é um prazer contarmos com a sua
participação na Revista Divulga Escritor. Conte-nos, o que mais o encanta na
arte poética?
Lau Siqueira - Definitivamente, são os estranhamentos.
As provocações que muitas vezes encontramos num único verso. Muitas vezes, até
mesmo o que eu não entendo direito e de certa forma nem sei como me
ganhou,provoca um imenso prazer estético. A emoção inesperada é indescritível
para um leitor. Um prazer sem parâmetros fora da leitura. Tem texto que desafia
o leitor, e isso é o que mais me interessa na poesia. Isso não significa que
esse encantamento venha de uma imensa complexidade.
Algumas vezes vem da
simplicidade, ainda que a simplicidade seja exatamente o que há de mais
complexo. Mas, observe por exemplo esses dois versos de James Joyce: “O
vento indomável que passa não vai mais/ Voltar, não vai voltar.” Há um
tipo de deslumbramento aí que leva você a pensar que ele não está falando
exatamente do vento. E realmente não está. O vento é só o motivo. Esses versos
estão como epígrafe no meu livro.
Apresente-nos o processo para seleção dos textos que compõem
o seu livro “A memória é uma espécie de cravo ferrando a estranheza das
coisas”.
Lau Siqueira - Na verdade nunca levo muito a sério
qualquer critério para a seleção dos textos nos meus livros. Escrevo de forma
quase compulsiva com silêncios absurdos, às vezes. Quando escrevo um poema e
sinto que ele não se completou, não tenho o menor pudor em rasgar ou deletar.
Trabalho num poema enquanto vejo nele uma possibilidade. Quando não, tanto faz
o tempo que tenha investido na criação. Elimino imediatamente. Acredito que em
todos os meus livros aconteceu praticamente o mesmo processo. No mais, não
tenho compromisso com temáticas e apenas vou escrevendo. O desafio é a
linguagem. As domas da palavra. A forma é o conteúdo. É como se eu estivesse
escrevendo um único livro publicado em capítulos. Assim, quando vou finalizar o
livro me importo menos com isso. É como se cada poema tivesse vida própria.
Como se cada poema justificasse o livro. Um processo, aliás, que se dá quase
que naturalmente, com poucas intervenções mais objetivas.
Como foi a escolha do título?
Lau Siqueira - Eis a parte mais difícil. Até porque
comecei a escrever esse livro com outro propósito. Seria outro livro, bem
diferente. Era para atender o convite de outra editora com uma proposta muito
específica. No meio do caminho mudei tudo, e o título que eu tinha para o outro
livro perdeu o sentido. Então comecei a recompor tudo, escrever outros poemas,
até decidir colocar um ponto-final. Mas, e o título? Eu tinha ficado sem
perspectiva de título com as mudanças. Essa, talvez, tenha sido a parte mais
difícil. Foi então que percebi o quanto a estrofe de um poema completava o meu
olhar sobre o conjunto da obra. Daí, resolvi bater o martelo e a editora topou.
Quais temáticas estão sendo abordadas nesta obra literária?
Lau Siqueira - Na verdade, a minha preocupação maior é
com a forma. Gosto de desconstruir meus próprios motivos. Os temas abordados
são o que menos importa. No entanto, parece que tem sido uma tendência nos meus
últimos livros. Vou realizando rupturas sequenciais, mas sempre com um pé na
filosofia, no minimalismo, abordando o tempo, a condição humana, a vida
contemporânea. Os temas realmente dialogam com o momento vivido. Ah, também,
este talvez seja o meu livro com o maior número de poemas eróticos. Ainda escrevo
um livro apenas com poemas eróticos ou mesmo pornográficos. Acho desafiador
demais. Difícil demais não cair na mesmice e na vulgarização da própria
linguagem poética.
Como foi a escolha da imagem para capa?
Lau Siqueira - A Editora Casa Verde cuida muito bem
disso para mim, mesmo me consultando sempre. Por isso as escolhas não são
difíceis. O projeto gráfico e a capa são assinados pelo poeta Roberto
Schmitt-Prym, um dos mais competentes profissionais da área que conheço. Ele
convocou a artista plástica Bianca Santini para fazer um desenho abstrato,
conforme eu tinha solicitado e, particularmente, adorei o resultado. As três
capas dos meus livros pela Casa Verde são excelentes. Criativas, diferenciadas.
Portanto, o contato com esses profissionais me tranquiliza. A editora Laís
Chaffe cuida de tudo com muito profissionalismo.
O que mais o encanta em “A memória é uma espécie de cravo
ferrando a estranheza das coisas”?
Lau Siqueira - O que mais me encanta é conseguir fazer um
livro viável, do ponto de vista do custo da edição.Mesmo estando radicalmente
fora dos grandes esquemas de distribuição e das grandes editoras. Mesmo sem
grandes atenções da mídia. Temos vendido por e-mail, e sempre existe a
possibilidade de um novo lançamento. Essa “sustentabilidade” é desafiadora, mas
me encanta. Ou seja: sem patrocínio, meus livros vão sendo pagos pelos leitores
e leitoras aos quais sou sempre muito grato.
Sabemos que todos os textos publicados na obra o marcaram de
forma peculiar e enigmática. Cada texto é um pedacinho do Lau Siqueira.
Apresente-nos um dos textos publicados no livro.
Lau Siqueira - Tem um texto que responde de forma mais
objetiva essa questão. É o poema “Sessenta”, um longo poema que escrevi no dia
em que completei 60 anos. Mas vou colocar aqui o poema “Tapera”, bem mais
curto:
“O tempo é uma casa
desabitada e esquecida
no meio da estrada.
Quem passou por ela
e viu apenas uma
casa, na verdade não viu nada.”
Comente o momento da criação deste texto.
Lau Siqueira - Eu tenho viajado muito pelo interior da
Paraíba a trabalho. Gosto de fotografar e então fotografo muita coisa.
Paisagens, pessoas, imagens aleatórias. Muitas dessas fotografias acabam
virando poemas. Certa vez, nas minhas “andanças sertânicas”, me deparei com uma
casa abandonada. Era tão significativa aquela imagem entre pedras e mandacarus,
que eu parei e fui tragado pelo que vi. Depois, já no computador e revendo
aquela imagem, comecei a pensar no que representava tudo aquilo. Aquela
confluência enorme de linguagens habitando uma imagem de abandono. Comecei a
pensar nas pessoas que circularam por ali, suas vidas, suas tragédias, suas
vitórias... quem sabe? Assim nasceu esse poema. É um olhar sobre o abandono, o
imperceptível.
Após o lançamento do livro no Rio Grande do Sul, teremos
lançamento da obra em João Pessoa. Qual o dia, horário e local do evento?
Lau Siqueira - Em João Pessoa será no dia 2 de
fevereiro, a partir das 19 horas, na Budega Arte Café, um lugar onde tem
acontecido muita coisa importante na arte contemporânea da Paraíba. Em
dezembro, fiz dois lançamentos no Sul: em Jaguarão e Porto Alegre. Depois de
João Pessoa, vamos ver onde mais é possível. Já existem alguns lançamentos
previstos em Natal (RN), Maceió (AL) e Aracaju (SE). Com calma, vamos vendo
onde mais poderemos promover o livro.
Por quanto será comercializado o livro no local do evento?
Lau Siqueira - Nos lançamentos têm sido vendidos a R$
30,00 à vista; no cartão, R$ 32,00.
Quem não puder comparecer, como deve fazer para comprar o
livro?
Lau Siqueira - A editora também está recebendo pedidos
por e-mail: casaverde@casaverde.art.br ou lchaffe@gmail.com. Aliás, na editora os
meus três últimos livros estão disponíveis. Recomendo não apenas por serem meus
livros, mas por representarem um tipo de resistência ao mercado formal do livro
que tanto tem excluído a literatura brasileira contemporânea.
Pois bem, estamos chegando ao fim da entrevista. Muito bom
conhecer melhor o escritor Lau Siqueira. Agradecemos sua participação na
Revista Divulga Escritor. Que mensagem você deixa para nossos leitores?
Lau Siqueira - Estejam atentos e atentas às ebulições
da literatura brasileira. Claro que alguns dos “jovens escritores” já vêm de
uma longa estrada, como eu. Mas, uma novíssima geração vem escrevendo com muita
qualidade. A novidade é que no mundo machista dos livros nunca vi tanta mulher
escrevendo tão bonito. Não deixe de comprar livros. Leia, mas também presenteie
amigos e amigas. Surpreender alguém com boa literatura é sempre um tipo de
sedução. Que tal começar com meus livros?
Divulga Escritor, unindo você ao mundo através da Literatura
As portas agora se abriram. Não há mais resistência, nem
gravidade, nem trevas. Você despertou de um sono profundo através dos cristais
de luz. Não há mais diferenças, tudo isso já passou.
Você cresceu e já pode desfrutar dos sonhos mais profundos,
dos desejos mais puros.
Agora, você está brilhando como se fosse chama da salvação.
Não se orgulhe, nem erga seu ego, pois essa luz brilhante é para iluminar o
caminho de seus semelhantes. É preciso que você viaje para dentro de si mesmo e
lá enxergue a luz divina, a centelha de esperança que o traz à tona para
trabalhar como guerreiro do bem, brandindo sua espada de luz, salvando seus
irmãos carentes, necessitados e famintos.
Sua luz cura, e muito.
Não tema as boas novas, nem a elevação do saber. O
conhecimento dignifica e amplia sua magnitude. Nada poderá detê-lo quando
buscar as chaves do bem, para abrir os portais de luz. Faça com que cada dia
seja um dia feliz. Quando disso duvidar, creia nas palavras dos grandes mestres
e sábios.
Espelhe-se nas experiências desses seres celestiais e
aprenda o caminho a seguir.
Não pense que será coberto de pétalas de flores, nem
tampouco sugira a si mesmo que seja ordenado a andar sobre adagas. Lembre-se de
que você é humano, portanto, viva como tal, e não perca o passo de sua jornada.
Viaje para o interior de seu ser e descubra lugares e situações que você jamais
sonhou.
Estando na luz, na sua presença sempre estará o Criador para
acalentar-lhe quando necessitar.
Oh, pequena criatura!
Seja como criança, cheia de vida e vontade de crescer, de conhecer, de
saber. Não perca essa preciosa chama de luz e de cores que lhe foi oferecida.
Sua jornada representa glória a muitos de seus irmãos!
Faca com que sua luz radiante esteja em todo o tempo e
lugar, na bem-aventurança de seu ser, que foi criado a imagem e semelhança de
Deus...
Uma mulher residente do Estado do Alasca, Becky Turney,
(EUA) perdeu seu filho de 19 anos e sofreu muito com a tragédia. Apesar da
aflição e o sofrimento que ela estava passando por sua perda, a americana de 40
anos precisava seguir a vida.
Passado dois anos, decidiu se casar com o homem tão sonhado,
Kelly Turney. O casamento seria um momento tão especial que ela não poderia
esquecer do seu filho. Então Becky resolveu deixar uma cadeira reservada
para o seu querido filho.
“Estou no céu para o teu casamento, então o que devo fazer?
Eu vou à terra para passá-lo contigo. Por isso, guarda-me um lugar, só uma
cadeira vazia. Podes não me ver, mas eu vou lá estar.” – dizia uma placa na
cadeira vazia, mas o que Backy não esperava era a surpresa que seu noivo
preparou para esse dia muito especial algo tão lindo que a deixou literalmente
sem palavras e muito emocionada.
Pouco antes da cerimonia começar,havia um rapaz que
deveria ser apresentado a noiva. O jovem de 21 anos era Jacob Kilby, ele foi
ate a cerimonia de avião apenas para conhecer Becky, o Jacob reside em San
Diego. A reação dela ao ver foi emocionante, Becky começou a chorar, pois já
sabia do que se tratava.
Há dois anos quando seu filho veio a falecer, seus
órgãos foram doados. Esse gesto lindo que Becky teve ao autorizar a doação,
ajudou a salvar pelo menos cinco vidas. E uma das pessoas era justamente
Jacob, que recebeu o coração do seu filho Triston. O plano do noivo foi
arquitetado durante meses, pois foi uma maneira de fazer jacob trazer uma
parte de Triston para estar com eles durante a cerimonia.
O encontro foi de arrepiar. Becky podê escutar o coração do
seu filho mais uma vez com ajuda de um estetoscópio. Mesmo ele não estando
presente fisicamente, seu coração estava ali. Emocionada Becky contou: Eu
estava fora de mim. Chorei como uma garotinha, não parava de pular. Foi
incrível.
Nunca me surpreenderam assim. Eu sempre abro os presentes de Natal
antes da hora certa. Que ele tenha conseguido fazer isso sem que eu soubesse é
incrível”.
Era ao
tempo eu que decorreram estes acontecimentos, Cândido Correia da Silva,
negociante e possuidor de alguns haveres. Conhecia-me dos tempos de Conceição
do Saco, onde tivera ele pequeno negócio.
Resolveu
mudar o seu negócio para a Rua da Lama, hoje, “doutor Seabra”, para a casa em
cujo local hoje está a Farmácia Carvalho. Estava a casa pronta, só faltava a
pintura. Pedi-lhe o seu consentimento para que trabalhasse como ajudante de
pintor. Consentiu.
Terminada
a pintura, convidou-me para ser empregado. Aceito como uma dádiva do céu, o
convite. Era seu empregado e gerente, o seu filho Thadeu, já falecido.
Não me
marcou ordenado, e eu fazia as refeições em casa de sua família. O tempo que
ali passei, não me recordo, não chegou,
porém, a um ano.
Há dias
que vinha notando no meu patrão, modos grosseiros comigo, receios e
desconfiança.
Eu morava
na república dos pedreiros, onde eles, aos sábados, faziam bailes, para os
quais eram convidados as mundanas e rapazes desocupados. Eu também tomava parte
nestas festas, pois lá morava.
Acho e
julgo que por esse motivo, gerou-se o espírito do homem, a ideia de que eu
estava lhe prejudicando, ou roubando a sua casa, e começou a desconfiar de mim
e por à prova a minha honestidade.
Um dia,
pela manhã, ele, acompanhado de diversas pessoas, antes de abrir o comércio,
penetrou na república onde eu residia, chamou-me, e, na vista de todos os
presentes e dos companheiros de morada, abriu minha velha mala, remexeu a pouca
roupa que tinha (molambos e uma coberta de três contos, já usada) sem nada,
graças a Deus, encontrar.
Ficou
contrariado por não ter dado resultado satisfatório a sua infeliz diligência e
disse-me grosseiramente:
- Não vá
me dar um tiro na tocaia, não.
Coitado de
mim e coitado dele. Sofri imensamente. Sofri amargamente. Não sei como não
sucumbi de dor e de vergonha. Santo Jesus! Quanto mais se eu fosse culpado...
Quedei-me
preso de forte depressão nervosa, com vergonha de tudo e de todos. Tinha medo
da própria casa. Não podia suportar o olhar de pessoa alguma, parecia que todos
me culpavam. Não sei como não tentei contra a existência. Deus é muito bom e
não consentiu que eu pensasse em tal.
Envergonhado, sucumbido, acabrunhado, resolvi ir embora. É verdade que a
minha consciência estava livre, e que ninguém encontrou na minha mala nada
alheio. Saí-me bem da terrível prova. Porém ficava a desfeita, a vergonha e os
comentários gratuitos e levianos.
Disposto a
ir para São Paulo, saí à noite, às ocultas, com vergonha do mundo e temendo a
maldade humana, para Água Branca e para a casa de Domingos Silva, meu amigo e
meu inquilino, que me acolheu carinhosamente, dando-me guarida, comida, dormida
e conforto moral ao meu sequioso espírito, encorajando-me para a luta e para
enfrentar a vida.
Foi-me um
grande consolo e apoio moral.
Devo aqui
consignar que, da casa de palhas, a cozinha já estava coberta de telhas e que
Domingos Silva, sócio de José Kruschewsky, nela era estabelecido, com molhados e compra de cacau.
Encorajado
e resoluto, voltei para Tabocas mais animado.
O velho
Domingos Lopes (cujo nome é dado a uma das ruas de Itabuna), era estabelecido
onde está hoje a casa dos meus, com negócios de importação de fumo, toucinho e
feijão, de Teófilo Otoni, Minas. Tendo
sabido da injustiça por mim sofrida chamou-me a casa e paternalmente,
santamente, disse-me:
- Coragem,
rapaz, calma, e atente bem, com destemor, resignação e economia, vencem-se as
maiores dificuldades da vida.
Isso me
disse com um meigo sorriso.
- Não vá a
São Paulo, fique aqui. Venda a sua casinha e bote uma “cachacinha” (um pequeno
negócio).
Fez-me imenso bem o seu conselho, foi
como se um bálsamo, ou como um fluido magnético me envolvesse. Tremi, chorei e,
confortado, aceitei o seu conselho santo, justo e caridoso.
Ele fora
apenas o portador da mensagem de Jesus e Nossa Senhora do Rosário, e dos meus
guias, que me falaram pela boca de Domingos.
Belo
caráter, austero, nobre, justiceiro, probo e, sobretudo bom.
Deus, lá
de cima onde está o velho Lopes, lhe pague o bem que me fez cujos conselhos decidiram,
de todo, o meu futuro e a minha existência. Deus ilumine e guie o seu nobre
espírito.
Também
agradeço a Deus a dor purificadora, a mágoa que me causou a ignorância do meu
patrão. Sem ela, sem o seu estímulo, talvez eu não tivesse despertado para o
cumprimento da minha missão aqui na terra.
Deus é
muito bom. Deus lhe perdoe como eu há muito lhe perdoei e do fundo, do íntimo
do meu ser, lhe perdoo o mal que me fez que sem ele eu não seria nada na terra;
sua maldade é que me despertou para enfrentar a vida, com alegria e coragem.