Total de visualizações de página
sexta-feira, 17 de junho de 2022
quarta-feira, 15 de junho de 2022
A POLÊMICA - Artur Azevedo
A Polêmica
O Romualdo tinha perdido, havia já
dois ou três meses, o seu lugar de redator numa folha diária; estava sem ganhar
vintém, vivendo sabe Deus com que dificuldades, a maldizer o instante em que,
levado por uma quimera da juventude, se lembrava de abraçar uma carreira tão
incerta e precária como a do jornalismo.
Felizmente era solteiro, e o dono
da “pensão” onde ele morava fornecia-lhe casa e comida a crédito, em atenção
aos belos tempos em que nele tivera o mais pontual dos locatários.
Cansado de oferecer em pura perda
os seus serviços literários a quanto jornal havia então no Rio de Janeiro, o
Romualdo lembrou-se, um dia, de procurar ocupação no comércio, abandonando para
sempre as suas veleidades de escritor público, os seus desejos de consideração e renome.
Para isso, foi ter com um
negociante rico, por nome Caldas, que tinha sido seu condiscípulo no colégio Vitório,
a quem jamais ocupara, embora ele o tratasse com muita amizade e o tuteasse, quando
raras vezes se encontrava na rua.
O negociante ouviu-o, e disse-lhe:
- Tratarei mais tarde de arranjar
um emprego que te sirva; por enquanto preciso da tua pena. Sim, da tua pena. Apareceste
ao pintar! Foste a sopa que me caiu no mel! Quando entraste por aquela porta,
estava eu a matutar, sem saber a quem me dirigisse para prestar-me o serviço
que vou te pedir. Confesso que não me tinha lembrado de ti... perdoa...
- Estou às tuas ordens.
- Preciso publicar amanhã, impreterivelmente,
no “Jornal do Comércio”, um artigo contra o Saraiva.
- Que Saraiva?
- O da rua Direita.
- O João Fernandes Saraiva?
- Esse mesmo.
- E queres tu que seja eu quem
escreva esse artigo?
- Sim. Ganharás uns cobres que não
te farão mal algum.
A essa palavra “cobres”, o Romualdo
teve uma estremeção de alegria; mas caiu em si:
- Desculpa, Caldas; bem sabes que o
Saraiva é, como tu, meu amigo... como tu, foi meu companheiro de colégio...
- Quando conheceres a questão que vai
ser o assunto desse artivo, não te recusarás a escrevê-lo, porque não admito
que sejas mais amigo dele do que meu. Demais, nota uma coisa: não quero
insultá-lo, não quero dizer nada que o fira na sua honra, quero tratá-lo com
luva de pelica. Sou eu o primeiro a lastimar que uma questão de dinheiro destruísse
a nossa velha amizade. Escreves o artigo?
- Mas...
- Não há mas nem meio mas! O
Saraiva nunca saberá que foi escrito por ti.
- Tenho escrúpulos...
- Deixa lá teus escrúpulos, e ouve
de que se trata. Presta-me toda atenção.
E o Caldas expôs longamente ao
Romualdo a queixa que tinha do Saraiva. Tratava-se de uma pequena questão
comercial, de um capricho tolo que só poderia irritar um contra o outro, dois
amigos que não conhecessem o que a vida
tem de áspero e difícil. O artigo seria um desabafo menos do brio que da
vaidade, e, escrevendo-o, qualquer pena hábil poderia, efetivamente, evitar uma
injúria grave.
O Romualdo, que há muito tempo não
pegava numa nota de cinco mil réis, e apanhara, na véspera, uma descompostura
da lavadeira, cedeu, afinal, às tentadoras instâncias do amigo, e no próprio
escritório deste redigiu o artigo, que satisfez plenamente.
- Muito bem! – exclamou o Caldas,
depois de três leituras consecutivas.
- Se eu soubesse escrever,
escreveria isto mesmo! Apanhaste perfeitamente
a questão!
E, depois de um passeio à burra,
meteu um envelope na mão de Romualdo, dizendo-lhe:
- Aparece-me daqui a dias: vou
procurar o emprego que desejas. A época é difícil, mas há de se arranjar.
O Romualdo saiu, e, ao dobrar a
primeira esquina, abriu sofregamente o envelope: havia dentro uma nota de cem
mil réis. Exultou! Parecia-lhe ter tirado a sorte grande!
Na manhã seguinte, o ex-jornalista
pediu ao dono da “pensão” que lhe emprestasse
o “Jornal do Comércio”, e viu a sua prosa “Eu e o sr. João Fernandes
Saraiva” assinado pelo Caldas; sentiu alguma coisa que se assemelhava ao
remorso, o mal-estar que acomete o espirito e se reflete no corpo do homem
todas as vezes que este pratica um ato inconfessável, e aquilo era uma quase traição.
Entretanto almoçou com apetite.
À sobremesa entrou na sala de
jantar um menino, que lhe trazia uma carta em cujo sobrescrito se lia a palavra
“urgente”.
Ele abriu e leu:
“Romualdo. – Preciso falar-lhe com a
maior urgência. Peço-lhe que dê um pulo ao nosso escritório hoje mesmo, logo
que possa. Recado do – João Fernandes Saraiva”.
Este bilhete inquietou o ex-jornalista.
Com certeza, pensou ele, o Saraiva
soube que fui eu o autor do artigo! Naturalmente alguém me viu entrar em casa
do Caldas, demorar-me no escritório... desconfiou da coisa e foi dizer-lhe...
Mas para que me chamará ele?
O seu desejo era não acudir ao
chamado; alegar que estava doente, ou não alegar coisa alguma, e lá não ir; mas
o menino de pé, junto à mesa do almoço, esperava a resposta... Era impossível
fugir!
- Diga ao seu patrão que daqui a
pouco lá estarei.
O menino foi-se.
O Romualdo acabou a sobremesa, tomou o café,
saiu, e dirigiu-se ao escritório do Saraiva, receoso de que este o recebesse
com duas pedras na mão.
Foi o contrário. O amigo recebeu-o
de braços abertos, dizendo-lhe:
- Obrigado por ter vindo! Estava com medo
de que o pequeno não te encontrasse! Vem cá!
E levou-o para um compartimento reservado.
- Leste o “Jornal do Comércio” de
hoje?
- Não – mentiu prontamente o
Romualdo – Raramente leio o “Jornal do Comércio”.
- Aqui o tens; vê que descompostura
me passou o Caldas!
O Romualdo fingiu que leu.
- Isso que aí está é uma
borracheira, mas não é escrito por ele! – bradou o Saraiva. – Aquilo é um besta
que não sabe pegar na pena senão para assinar o nome!
- O artigo não está mau... Tem até
estilo...
- Preciso responder!
- Eu, no teu caso, não respondia...
- Assim não penso. Preciso responder
amanhã mesmo no próprio “Jornal do Comércio” e, se te chamei, foi para pedir-te
que escrevas a resposta.
- Eu?...
- Tu, sim! Eu podia escrever,
mas... que queres?... Estou fora de mim!...
- Bem sabes – gaguejou Romualdo –
que sou amigo do Caldas. Não me fica bem...
- Não te fica bem, por quê? Ele com
certeza não é mais teu amigo que eu! Depois, não é intenção minha injuriá-lo;
quero apenas dar-lhe o troco!
No íntimo o Romualdo estava
satisfeito, por ver naquele segundo artigo um meio de atenuar, ou, se quiserem,
de equilibrar o seu remorso.
Ainda mastigou umas escusas, mas o outro insistiu:
- Por amor de Deus não te recuses a
este obséquio tão natural num homem que vive da pena! Tu estás desempregado,
precisas ganhar alguma coisa...
O Romualdo cedeu a este último argumento, e, depois de convenientemente
instruído pelo Saraiva sobre a resposta que devia dar, pegou na pena e escreveu
ali mesmo o artigo.
Reproduziu-se então a cena da
véspera, com mudança apenas de um personagem. O Saraiva, depois de ler e reler
o artigo, exclamou: - Bravo! Não poderia sair melhor! – e, tirando da algibeira
um maço de dinheiro, escolheu uma nota de duzentos mil réis e entregou-o ao
prosador.
- Oh! Isso é muito, Saraiva!
- Qual muito! Estás a tocar leques
por bandurra: é justo que te pague bem!
- Obrigado: mas olha... recomendo-te
que mandes copiar o artigo, porque no “Jornal” pode haver alguém que conheça a
minha letra.
- Copiá-lo-ei eu mesmo.
- Adeus.
- Adeus. Se o Caldas treplicar,
aparece-me!
- Está dito.
No dia seguinte, o Caldas entrou
muito cedo no quarto do Romualdo, com o “Jornal do Comércio” na mão.
- O bruto replicou! Vais escrever-me
a tréplica!
E batendo com as costas da mão no
jornal:
- Isso não é dele... Aquilo é
incapaz de traçar duas linhas sem quatro asneiras... mas, ainda assim, quem
escreveu por ele está longe de ter o teu estilo, a tua graça... Anda!
Escreve!...
E o Romualdo escreveu...
Durante um mês teve ele a
habilidade de alimentar a polêmica, provocando a réplica, para que não
estancasse tão cedo a fonte de receita que encontrara. Para isso fazia
insinuações vagas, mas pérfidas, e depois, em conversa ora com um, ora com outro,
era o primeiro a aconselhar a retaliação e o esforço.
Tanto o Caldas como o Saraiva se
mostraram cada vez mais generosos, e o Romualdo nunca em dias de sua vida se
viu com tanto dinheiro. Ambos os contendores lhe diziam: - Escreve! Escreve! Eu
quero ser o último!
Por fim, vendo que a questão se
eternizava, e de um momento para o outro a sua duplicidade podia ser
descoberta, o Romualdo foi gradualmente adoçando o tom dos artigos, fazendo,
por sua própria conta, concessões recíprocas, lembrando a velha amizade, e com
tanto engenho se houve, que os dois contendores se reconciliaram, acabando
amigos e arrependidos de terem dito um ao outro coisas desagradáveis em letra
de forma.
E o público admirou essa polêmica,
em que dois homens discutiam com estilos tão semelhantes que o próprio estilo
pareceu humanizá-los.
O Caldas cumpriu a sua promessa: o
Romualdo pouco depois entrou para o comércio, onde ainda hoje se acha,
completamente esquecido do tempo que perdeu no jornalismo.
----------------
Artur
Azevedo (Artur Nabantino Gonçalves de Azevedo), jornalista e teatrólogo,
nasceu em São Luís, MA, em 7 de julho de 1855, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ,
em 22 de outubro de 1908. Figurou, ao lado do irmão Aluísio Azevedo, no grupo
fundador da Academia Brasileira de Letras, onde criou a cadeira nº 29, que tem
como patrono Martins Pena.
terça-feira, 14 de junho de 2022
A HIDRA ERA ALIMENTADA E CRESCIA NOS ANTROS COMUNISTAS
Paulo Roberto Campos
Quando em 1989 foi derrubado o Muro de Berlim (a “cortina de
ferro”) e, no ano seguinte, desmoronou o regime comunista com o estrondoso
fracasso da URSS, muitos incautos diziam de boca cheia: “o comunismo morreu”…
O maior líder anticomunista do século XX, o Prof. Plinio
Corrêa de Oliveira, foi o paladino da tese contrária, ou seja, ele afirmava
categoricamente que o comunismo não tinha morrido, mas se metamorfoseado; fez
uma “plástica” em sua carranca para melhor iludir os babaquaras. Tal “plástica”
foi feita sobretudo com duas políticas “cosméticas” do velhaco comunista
Michail Gorbachev: em 1985 com a Glasnost (transparência), e
em 1986 com a Perestroika (reestruturação).
A respeito desta importante temática, recomendo leitura do
histórico manifesto do Prof. Plinio, publicado em 1989 em vários jornais,
intitulado “Morreu o comunismo? E o anticomunismo também?”.
O próprio Gorbachev confessou: “O comunismo pode
voltar à vida. É como o mito grego da Hidra, cujas cabeças cresciam de novo,
após terem sido cortadas” (“Folha de S. Paulo”, 9-3-1992).
Gorbachev nos antros comunistas tomou conhecimento do plano
punitista; sabia que a Hidra estava sendo criada e bem alimentada… Hoje quem
teria a petulância de dizer que o comunismo está morto? Sobretudo com a atual
situação da Rússia, com a hidra Putin no poder, seria um disparate monumental.
Dentro dessa temática, seguem algumas frases sobre o
comunismo que vale a pena memorizar.
“Hoje, fala-se em cortesia francesa, pontualidade
britânica, cavalheirismo espanhol etc. Dia virá em que se falará também em
cinismo soviético. Cinismo pasmoso, na verdade, que só teve um ‘símile’ no
mundo: o cinismo nazista”.
(Plinio Corrêa de Oliveira)
“No capitalismo temos a distribuição desigual das riquezas;
no socialismo, a distribuição por igual das misérias”.
(Churchill)
“O comunismo não é uma doutrina porque é uma
antidoutrina, ou uma contradoutrina. Tudo quanto o homem tem conquistado, até
hoje, de espiritualidade moral e mental — isto é de civilização e de cultura —,
tudo isso ele inverte para formar a doutrina que não tem”.
(Fernando Pessoa)
“Os comunistas sempre souberam chacoalhar as árvores
para apanhar no chão os frutos. O que não sabem é plantá-las”.
(Roberto Campos)
“É fácil ser comunista em um país livre. O difícil é
ser livre em um país comunista”.
(Agustin Etchebarne)
https://www.abim.inf.br/a-hidra-era-alimentada-e-crescia-nos-antros-comunistas/
* * *
segunda-feira, 13 de junho de 2022
SANTO ANTONIO DE PÁDUA, "MARTELO DOS HEREGES" - Plinio Maria Solineo
O grande taumaturgo de Pádua –– ou de Lisboa, sua cidade
natal –– embora com uma curta existência terrena, tornou-se um dos santos mais
populares do mundo, sendo venerado tanto no Oriente quanto no Ocidente
|
· Plinio
Maria Solimeo |
“Alegra-te, feliz Lusitânia! Salta de júbilo, Pádua ditosa!
Pois gerastes para a Terra e para o Céu um varão que bem pode comparar-se com
um astro rutilante, já que brilhando, não só pela santidade da vida e gloriosa
fama de milagres, mas também pelo esplendor que por todas as partes derrama a
sua celestial doutrina”. Esse foi o esplêndido elogio que fez desse santo o
Papa Pio XII.(1)
“Doutor da Igreja”, “Martelo dos Hereges”, “Doutor
Evangélico”, “Arca do Testamento”, “Santo de todo o mundo” –– são alguns dos
títulos com que os Soberanos Pontífices honraram aquele cuja vida foi, no dizer
de um de seus biógrafos, um milagre contínuo.
Natural de Lisboa onde nasceu em 1191 ou 1195, filho dos
nobres Martinho de Bulhões e Teresa Taveira, o futuro santo recebeu no batismo
o nome de Fernando. De boa índole, inclinado à piedade e às coisas santas, sua
formação espiritual e intelectual foi confiada aos cônegos da Catedral de
Lisboa por seu pai, oficial no exército de D. Afonso.
|
Clérigo Regular de Santo Agostinho |
Acometido por forte tentação contra a pureza, Santo Antonio
traçou uma cruz com os dedos numa coluna de mármore da Sé de Lisboa, ficando
nela impressa como em cera [Foto PRC].
Segundo alguns de seus biógrafos, na adolescência Fernando
foi acometido por violenta tentação contra a pureza. Para aplacá-la, estando na
catedral, o jovem traçou uma cruz com os dedos, numa coluna de mármore, ficando
nela impressa como em cera. Avaliando nessa ocasião os perigos que corria, o
adolescente quis entrar para o mosteiro de São Vicente de Fora, dos Clérigos
Regulares de Santo Agostinho, nos arredores da capital portuguesa, quando
contava 19 anos de idade.
Ali permaneceu dois anos, findos os quais, por ser muito
procurado por parentes e amigos, pediu aos superiores que o transferissem para
o mosteiro Santa Cruz de Coimbra, casa-mãe do Instituto. Foi ordenado sacerdote
em 1220. Frei Fernando, entretanto, almejava abraçar um gênero de vida mais
perfeito e mais de acordo com suas íntimas aspirações.
Cripta da Igreja de Santo António, em Lisboa, construída no
local onde nasceu o santo. Na lápide, em latim lemos: Nascitur. Hac.
Parva. Ut. Tradunt. Antonius. Aede. Quem. Coeli. Nobis. Abstulit. Alma. Domus (“Nesta
casa, segundo a tradição, nasceu e viveu António, que foi roubado pela gloriosa
morada do Céu”). [Detalhe abaixo, Fotos PRC].
|
Transferência para a Ordem franciscana |
Quando chegaram a Coimbra os restos mortais dos cinco
protomártires franciscanos, que deram sua vida pela Fé no Marrocos, Frei
Fernando sentiu imenso desejo de imitá-los, vertendo também seu sangue por
Cristo.
Um dia, no verão de 1220, quando dois franciscanos foram ao
seu mosteiro pedir esmola, Frei Fernando perguntou-lhes se, passando ele para
sua Ordem, o enviariam à terra dos mouros para lá sofrer o martírio. Eles deram
resposta afirmativa. No dia seguinte, depois de obter, a duras penas,
autorização de seu Superior, mudou-se para o eremitério franciscano, onde se
tornou um filho de São Francisco de Assis.
Frei Fernando mudou então seu nome para o do onomástico do
eremitério, Antonio, que ele imortalizaria.
Conforme o combinado, Frei Antonio foi enviado no fim desse
mesmo ano à África. Entretanto não estava nos planos da Providência que ele
ilustrasse a Igreja como mártir, mas com suas pregações e santa vida. Assim,
chegando ao continente africano, foi atacado de terrível doença, que o reteve
no leito por longo período. Os superiores decidiram que, para curar-se, Frei
Antonio deveria voltar a Portugal.
|
Acrisolado pela Divina Providência |
A mão da Providência, no entanto, desejava-o em outro campo
de luta. O navio em que estava o convalescente, levado pela tempestade, foi
parar nas costas da Itália, onde o santo encontrou abrigo em Messina, na
Sicília. Lá soube que o seráfico São Francisco havia convocado um Capítulo em
Assis, para maio de 1221. Antonio poderia, enfim, ver o pai e fundador dos
franciscanos e contemplar sua angélica virtude.
Naquela grande assembléia o Provincial da Romênia resolveu
levá-lo consigo. Frei Antonio obteve dele licença para permanecer no eremitério
do Monte Paulo, a fim de entregar-se ao isolamento e à contemplação.
Entretanto a mão de Deus velava sobre ele, e chegou o tempo
em que aquela luz deveria brilhar para o bem do mundo inteiro.
|
Começa a vida apostólica como grande pregador |
Foi enviado a Forli com alguns franciscanos e dominicanos
que deveriam receber as ordens sacras. O Padre guardião do convento em que se
hospedavam pediu que algum dos presentes dissesse algo para a glória de Deus e
edificação dos demais. Um a um, foram todos escusando-se por não estarem
preparados. Restava Antonio. Sem muita convicção, o Superior mandou-lhe então
que falasse, à falta dos demais.
Era a primeira vez que Antonio falava em público, e então
viu-se a maravilha: de sua boca saíram palavras de fogo, demonstrando profundo
conhecimento teológico e das Escrituras, tudo exposto com uma lógica, clareza e
concisão que conquistou a todos.
Entusiasmado, o Guardião comunicou aquele sucesso ao Provincial, que transmitiu a notícia a São Francisco. O Poverello mandou então que Frei Antonio estudasse teologia escolástica para dedicar-se à pregação. Pouco depois, em vista de seus progressos, ordenou-lhe S. Francisco que trabalhasse na salvação das almas. Era o ano 1222, e Frei Antonio contava apenas 30 ou 31 anos de idade.
Igreja de Santo António contruída no local onde nasceu o
santo (no fundo a Sé de Lisboa) [Foto PRC].
|
Força irresistível de suas fogosas palavras |
Segundo seus biógrafos, “ele tinha um exterior polido,
gestos elegantes e aspecto atraente. Sua voz era forte, clara, agradável, e sua
memória feliz. A essas vantagens, juntava uma ação cheia de graça”.(2)
Entretanto, “seu traço característico, o milagre constante de sua existência, é
a força incontestável de sua pregação, o poder de sua voz sobre os
corações e as inteligências”.(3)
“Quando ele fulminava os vícios e as heresias — das quais o
mundo estava então extremamente infectado — era como uma torrente de fogo que
revira tudo, e à qual ninguém pode resistir. […] Freqüentemente, se bem que
falasse [durante o sermão] uma só língua, era entendido por pessoas de toda
espécie de países”.(4) Daí seu sucesso extraordinário, tanto na Itália quanto
na França.
|
Milagres como no tempo dos Apóstolos |
As multidões acorriam, e até os comerciantes fechavam suas
lojas para ir ouvi-lo; a cidade e toda a redondeza literalmente paravam. Sendo
pequenas as igrejas para tanta gente — às vezes chegavam a juntar-se até 30 mil
pessoas num só sermão — ele falava nas praças públicas. Quando terminava, “era
necessário que alguns homens valentes e robustos o levantassem e protegessem
das pessoas que vinham beijar-lhe a mão e tocar-lhe o hábito”.(5) O número de
sacerdotes que o acompanhavam era pequeno para depois ouvirem as confissões dos
que, tocados por seu sermão, queriam emendar-se de vida.
Seus sermões eram seguidos de milagres como não se viam
desde o tempo dos Apóstolos. Praticamente não havia coxo, cego ou paralítico
que, depois de receber sua bênção, não ficasse são. Numa ocasião converteu 22
ladrões, que por curiosidade foram ouvi-lo. O número de hereges por ele
convertidos não tem fim.
Milhares de peixes de vários tipos e tamanhos puseram a
cabeça fora da água para ouvir o sermão de Sto. Antonio. Azulejo na Sé de
Lisboa representa o milagre [Foto PRC].
|
Prega aos peixes para confundir os indiferentes |
Um dos milagres mais conhecidos de Santo Antonio foi sua
pregação aos peixes. Em Rimini, durante seu sermão, o povo se mantinha
indiferente. Abandonando seus ouvintes, foi pregar à beira-mar. Milhares de
peixes de vários tipos e tamanhos puseram a cabeça fora da água para ouvir o
santo, que tinha sido seguido pela população da cidade, testemunha do milagre.
Santo Antonio foi cognominado “Martelo dos Hereges”, porque
a heresia não teve inimigo mais formidável. Sua mais antiga biografia,
conhecida pelo nome de Assídua, relata: “Dia e noite tinha discussões com os
hereges; expunha-lhes com grande clareza o dogma católico; refutava
vitoriosamente os preceitos deles, revelando em tudo ciência admirável e força
suave de persuasão que penetrava a alma dos seus contrários”.(6)
Um heresiarca negava a Presença Real no Santíssimo
Sacramento. Para acreditar, dizia, queria um milagre. E propôs o seguinte:
deixaria sua mula sem comer durante três dias. Depois disso, oferecer-lhe-ia
feno e aveia, e Frei Antonio a Hóstia consagrada. Se a besta deixasse a comida
para ir adorar a Hóstia, ele creria, disse. Isso foi feito diante de toda a
cidade. E a mula faminta, tendo que escolher entre o alimento e o respeito à
Hóstia consagrada, foi ajoelhar-se diante desta, que o santo segurava nas mãos.
Desde a mais tenra infância Antonio fora devoto de Nossa
Senhora, e Ela várias vezes o socorreu. Um dia, por exemplo, em que o demônio
não podia mais suportar o bem que o santo fazia, agarrou-o pelo pescoço tão
violentamente, que o enforcava. Antonio mal pôde balbuciar as palavras da
antífona a Nossa Senhora, “O Gloriosa Domina”. No mesmo instante o demônio
fugiu apavorado. Recomposto, Antonio viu a seu lado a Rainha do Céu
resplandecente de glória.
|
“O santo morreu! O santo morreu!” |
Relíquias de Santo Antonio guardadas na Sé de Lisboa [Foto
PRC]
No ano de 1231, Frei Antonio, sentindo piorar a hidropisia
maligna que o perseguia havia tempos, percebeu que sua hora chegara e quis
morrer em Pádua, sua cidade de adoção. Quando o povo paduano ouviu dizer que
ele estava chegando, acorreu em tal quantidade, que os frades que o
acompanhavam, para livrá-lo do assédio, levaram-no para a casa do capelão das
freiras clarissas, onde ele faleceu com apenas 40 anos de idade.
Imediatamente as crianças de Pádua saíram espontaneamente
pelas ruas gritando: “O santo morreu! O santo morreu!”. Ao mesmo tempo, em
Lisboa, sua cidade natal, os sinos puseram-se a repicar por si sós, e o povo
saiu às ruas. Somente mais tarde é que souberam do ocorrido.
Tantos foram os milagres operados pelo santo em seu túmulo,
que levaram o Papa Gregório IX a canonizá-lo apenas um ano depois de sua morte.
Anualmente sua festividade é comemorada no dia 13 de junho.
______________
Notas:
Fonte: Revista Catolicismo, junho/2005.
1. Pio XII, Carta Apostólica de 16 de janeiro de 1946, apud
Pe. José Leite, Santos de Cada Dia, Editorial A.O., Braga, 1987, tomo II,
p. 252.
2. Les Petits Bollandistes, Vies des Saints, d’après le
Père Giry, Bloud et Barral, Éditeurs, Paris, 1882, tomo VI, p. 617.
3. Frei Justo Perez de Urbel, O.S.B., Año Cristiano,
Ediciones Fax, Madrid, 1945, tomo II, p. 603.
4. P. Simon Martin, Vie des Saints, Bar-le-Duc, 1859,
tomo II, pp. 946-947.
5. Pe. Pedro Ribadaneira, apud Dr. D. Eduardo Maria
Vilarrasa, La Leyenda de Oro, L. González y Compañía, Barcelona, 1896,
tomo II, p. 425.
6. Apud Pe. José Leite, S.J., op.cit., p. 251.
https://www.abim.inf.br/santo-antonio-de-padua-martelo-dos-hereges/
* * *
domingo, 12 de junho de 2022
PALAVRA DA SALVAÇÃO (267)
Solenidade da Santíssima Trindade | domingo, 12 de junho de 2022
Anúncio do Evangelho (Jo 16,12-15)
— O Senhor esteja convosco.
—Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
João.
— Glória a vós, Senhor.
Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: “Tenho
ainda muitas coisas a dizer-vos, mas não sois capazes de as compreender agora.
Quando, porém, vier o Espírito da Verdade, ele vos conduzirá
à plena verdade. Pois ele não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que tiver
ouvido; e até as coisas futuras vos anunciará.
Ele me glorificará, porque receberá do que é meu e vo-lo
anunciará. Tudo o que o Pai possui é meu. Por isso, disse que o que ele
receberá e vos anunciará, é meu”.
— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.
https://liturgia.cancaonova.com/pb/
---
Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Pe. Donizete
Ferreira, Sacerdote da Comunidade Canção Nova:
---
A Santíssima Trindade é a
melhor comunidade
“Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas não sois capazes de as compreender agora” (Jo16,12)
Neste domingo (12.06.22), a Igreja celebra a Festa da
Santíssima Trindade. Parece que celebramos algo estranho e distante de
nossa compreensão. No entanto, a festa da Trindade nos mobiliza para
uma nova maneira de viver e de nos relacionar com o Deus de Jesus, cuja
presença preenche o cosmos, irrompe na nossa vida, habita criativamente no
interior de cada um de nós e é vivido em comunidade.
É preciso deixar claro que o Mistério da Trindade não é um
enigma a ser decifrado, ou seja, como conjugar três “individualidades” em
uma Unidade, mas é a proclamação de que “tudo é Relação”. A Trindade não
é uma especulação teórica sobre três pessoas “abstratas” em Deus, mas a maneira
de ser de Deus, como Amor que se expande, em si e fora de si,
de uma maneira “redentora”, inserindo-se na história da humanidade.
Assim, a Trindade não é uma simples verdade
para crer, mas a base de nossa experiência cristã. O dogma trinitário quer
expressar o mistério da Vida mesma de Deus que nos é
comunicada.
Foi a experiência cristã da ação salvadora de Deus por meio
de Jesus Cristo e no Espírito Santo que deu existência à doutrina
trinitária. Deus não é solidão, mas comunhão perfeita, pois “Deus é Amor”.
Eis aí a grande revelação que Jesus nos trouxe: a essência de Deus é Amor em estado
puro. Então, Deus não poderia fazer outra coisa senão amar. De fato, o amor não
existe se não for movimento, reciprocidade, dom, acolhida, relação e comunhão.
Não podemos definir Deus. Só podemos nos aproximar da
essência de Deus afirmando que Ele é relação, comunidade, partilha,
comunicação, intercâmbio, comunhão.... Agostinho afirmou que no Amor se
encontram três realidades: o Amante, o Amado e
o mesmo Amor.
“Deus é Amor”, circulação eterna e infinita de amor, na qual
o Amante, o Amado e o Amor se relacionam tão intensamente até “transbordar-se”
na criação do universo. A Criação é transbordamento do Amor trinitário e o ser
humano é “morada” das Três Pessoas Santíssimas.
A Trindade evoca um Deus cuja essência é caracterizada por
um movimento eterno em direção a nós, em um amor redentor. Somente na medida em
que formos capazes de amor, poderemos conhecer o Deus comunidade, ou seja,
comunhão de Pessoas.
Esta é a essência do Evangelho. A melhor notícia que um ser
humano podia receber é que Deus não o afasta de seu Amor. A Trindade nos ensina
que só vivemos quando com-vivemos.
A Bíblia nos fala de um Deus amor; amor pessoal, porque ama
a cada um de nós; amor total, universal, que não exclui ninguém; amor
preferencial, porque se inclina para o frágil; amor comunitário, porque em si
mesmo não está só, senão que é comunidade e gera comunidade entre os seres
humanos.
Deus é Amor e só amor. Percebemos, então
que, incompreensível não é Deus, mas nossa resistente e limitada capacidade de
contemplar com profundidade essa Presença que se manifesta, permanentemente, em
nossa vida e na Criação inteira.
Deus nos fez amor para o mútuo encontro,
para a doação, para a comunhão...
Fomos criados “à imagem e semelhança” do Deus
Trindade, comunhão de Pessoas (Pai-Filho-Espírito Santo). Quanto mais
unidos somos, por causa do amor que circula entre nós, mais nos
parecemos com o Deus Trindade. “Se nos amarmos uns aos
outros, Deus permanece em nós e o seu Amor em nós é perfeito” (1Jo.
4,12)
Deus colocou em nossos corações impulsos naturais que nos
levam em direção ao convívio, à cooperação, à acolhida, à solidariedade... “Só
corações solidários adoram um Deus Trinitário”.
Aqui está a grandeza e a dignidade do ser humano, criado à
imagem e semelhança do Deus Trindade. E é fácil intuir isso:
sempre que sentimos o dinamismo de amar e ser amados, sempre que sabemos
acolher e buscamos ser acolhidos, quando compartilhamos uma amizade que nos faz
crescer, quando sabemos doar e receber vida..., estamos saboreando e
visibilizando o “amor trinitário” de Deus. Esse amor que brota em nós tem n’Ele
sua fonte.
O amor intra-trinitário não é um amor excludente, um “amor
egoísta” entre três. É amor em excesso que se difunde e se expande em todas as
criaturas. Por isso, quem vive o amor inspirado pela Trindade, aprende a amar a
quem não lhe pode corresponder, sabe doar sem esperar recompensa, sente uma
grande paixão pelos mais pobres e pequenos, é capaz de entregar sua vida para
construir um mundo mais amável e digno.
Por outro lado, quem é incapaz de dar e receber amor, quem
não sabe compartilhar nem dialogar, quem só escuta a si mesmo, quem resiste
relacionar-se com os outros, quem só busca seu próprio interesse, quem só
deseja o poder, a competição e o triunfo, não pode experimentar nada da
Trindade amorosa.
O ser humano não é feito para viver só; ele
é chamado a viver em comunhão com todas as pessoas;
Como homem e como mulher trazemos esta força interior que
nos faz “sair de nós mesmos” e criar laços, construir
fraternidade, fortalecer a comunhão. Fomos feitos para o encontro e a
comunicação.
Não fomos criados para viver sós; necessitamos con-viver,
viver-com-os-outros, encontrar-nos; é essencial descobrir o
sentido e a vivência do encontro relacional com os outros, na
vida familiar, na fraternidade, na sensibilidade social para com o diferente e
o excluído.
O sentido da vida em comum com os outros é
um dom de Deus; afinal, fomos criados à imagem do Deus “encontro
intra-trinitário”.
A fraternidade, a vida em comum se
mede pelo amor, por atos e gestos de doação, por vivências de comunhão, por
experiências de partilha do mesmo ser, da mesma vida, da entrega mútua
gratuita...
O amor é olhar o outro com
olhos tão limpos, bondosos, desinteressados, tão profundos... que só desejo que
o outro seja o que é... Alegro-me de vê-lo assim, tal como
é...
O dogma da Trindade, portanto, não só nos revela como
Deus é para nós; é também revelação de quem somos nós,
ou seja, portadores do impulso relacional que se manifesta na nossa capacidade
de amar.
Se Deus é relacionamento amoroso perfeito e nós somos
criados à sua imagem e semelhança, então a doutrina da Trindade está preocupada
com a nossa vida também. Somos convidados pela graça divina a entrar neste
fluxo de relação que define o próprio ser de Deus.
O Deus de Jesus não é uma verdade para
pensar, mas uma Presença a ser vivida. Não é um ideia
para quebrar nossa cabeça, mas a base e fundamento de nossa vida.
Uma profunda vivência da mensagem cristã será sempre uma
aproximação ao mistério Trinitário.
Será, em definitiva, a busca de um encontro vivo com Deus.
Não se trata de demonstrar a existência da luz, mas de abrir os olhos para
vê-la. O verdadeiramente importante foi sempre a necessidade de viver essa presença do
Deus, comunhão de Pessoas, no interior de cada ser humano.
Jesus, o Mistério de Deus feito carne no Profeta
da Galiléia, é o melhor e único ponto de partida para reavivar uma fé simples
no Deus Comunidade de Pessoas.
Texto bíblico: Jo 16,12-15
Na oração: A Trindade não é hóspede; é a
essência do ser humano; o modo de viver de uma pessoa é revelador de quem
habita seu interior; uma pessoa compassiva, aberta, acolhedora... é sinal de
que é habitada pela Trindade amorosa.
- Quem perde o caminho de sua interioridade, distancia-se da
Trindade que é Vida e passa a viver a cultura da morte, deixando transparecer o
ódio, a violência, o preconceito, a injustiça... como modo petrificado de ser.
- Qual é a Presença que determina sua vida: a Trindade Santa
ou os dinamismos diabólicos (forças que dividem)?
Pe. Adroaldo Palaoro sj
* * *











