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quarta-feira, 15 de junho de 2022

A POLÊMICA - Artur Azevedo


A Polêmica

 

            O Romualdo tinha perdido, havia já dois ou três meses, o seu lugar de redator numa folha diária; estava sem ganhar vintém, vivendo sabe Deus com que dificuldades, a maldizer o instante em que, levado por uma quimera da juventude, se lembrava de abraçar uma carreira tão incerta e precária como a do jornalismo.

            Felizmente era solteiro, e o dono da “pensão” onde ele morava fornecia-lhe casa e comida a crédito, em atenção aos belos tempos em que nele tivera o mais pontual dos locatários.

            Cansado de oferecer em pura perda os seus serviços literários a quanto jornal havia então no Rio de Janeiro, o Romualdo lembrou-se, um dia, de procurar ocupação no comércio, abandonando para sempre as suas veleidades de escritor público, os seus desejos de  consideração e renome.

            Para isso, foi ter com um negociante rico, por nome Caldas, que tinha sido seu condiscípulo no colégio Vitório, a quem jamais ocupara, embora ele o tratasse com muita amizade e o tuteasse, quando raras vezes se encontrava na rua.

           

            O negociante ouviu-o, e disse-lhe:

            - Tratarei mais tarde de arranjar um emprego que te sirva; por enquanto preciso da tua pena. Sim, da tua pena. Apareceste ao pintar! Foste a sopa que me caiu no mel! Quando entraste por aquela porta, estava eu a matutar, sem saber a quem me dirigisse para prestar-me o serviço que vou te pedir. Confesso que não me tinha lembrado de ti... perdoa...

            - Estou às tuas ordens.

            - Preciso publicar amanhã, impreterivelmente, no “Jornal do Comércio”, um artigo contra o Saraiva.

            - Que Saraiva?

            - O da rua Direita.

            - O João Fernandes Saraiva?

            - Esse mesmo.

            - E queres tu que seja eu quem escreva esse artigo?

            - Sim. Ganharás uns cobres que não te farão mal algum.

            A essa palavra “cobres”, o Romualdo teve uma estremeção de alegria; mas caiu em si:

            - Desculpa, Caldas; bem sabes que o Saraiva é, como tu, meu amigo... como tu, foi meu companheiro de colégio...

            - Quando conheceres a questão que vai ser o assunto desse artivo, não te recusarás a escrevê-lo, porque não admito que sejas mais amigo dele do que meu. Demais, nota uma coisa: não quero insultá-lo, não quero dizer nada que o fira na sua honra, quero tratá-lo com luva de pelica. Sou eu o primeiro a lastimar que uma questão de dinheiro destruísse a nossa velha amizade. Escreves o artigo?

            - Mas...

            - Não há mas nem meio mas! O Saraiva nunca saberá que foi escrito por ti.

            - Tenho escrúpulos...

            - Deixa lá teus escrúpulos, e ouve de que se trata. Presta-me toda atenção.

            E o Caldas expôs longamente ao Romualdo a queixa que tinha do Saraiva. Tratava-se de uma pequena questão comercial, de um capricho tolo que só poderia irritar um contra o outro, dois amigos que não conhecessem  o que a vida tem de áspero e difícil. O artigo seria um desabafo menos do brio que da vaidade, e, escrevendo-o, qualquer pena hábil poderia, efetivamente, evitar uma injúria grave.

            O Romualdo, que há muito tempo não pegava numa nota de cinco mil réis, e apanhara, na véspera, uma descompostura da lavadeira, cedeu, afinal, às tentadoras instâncias do amigo, e no próprio escritório deste redigiu o artigo, que satisfez plenamente.

            - Muito bem! – exclamou o Caldas, depois de três leituras consecutivas.

            - Se eu soubesse escrever, escreveria isto mesmo! Apanhaste perfeitamente  a questão!

            E, depois de um passeio à burra, meteu um envelope na mão de Romualdo, dizendo-lhe:

            - Aparece-me daqui a dias: vou procurar o emprego que desejas. A época é difícil, mas há de se arranjar.

            O Romualdo saiu, e, ao dobrar a primeira esquina, abriu sofregamente o envelope: havia dentro uma nota de cem mil réis. Exultou! Parecia-lhe ter tirado a sorte grande!

            Na manhã seguinte, o ex-jornalista pediu ao dono da “pensão” que lhe emprestasse  o “Jornal do Comércio”, e viu a sua prosa “Eu e o sr. João Fernandes Saraiva” assinado pelo Caldas; sentiu alguma coisa que se assemelhava ao remorso, o mal-estar que acomete o espirito e se reflete no corpo do homem todas as vezes que este pratica um ato inconfessável, e aquilo era uma quase traição. Entretanto almoçou com apetite.

            À sobremesa entrou na sala de jantar um menino, que lhe trazia uma carta em cujo sobrescrito se lia a palavra “urgente”.

            Ele abriu e leu:

            “Romualdo. – Preciso falar-lhe com a maior urgência. Peço-lhe que dê um pulo ao nosso escritório hoje mesmo, logo que possa. Recado do – João Fernandes Saraiva”.

            Este bilhete inquietou o ex-jornalista.

            Com certeza, pensou ele, o Saraiva soube que fui eu o autor do artigo! Naturalmente alguém me viu entrar em casa do Caldas, demorar-me no escritório... desconfiou da coisa e foi dizer-lhe... Mas para que me chamará ele?

            O seu desejo era não acudir ao chamado; alegar que estava doente, ou não alegar coisa alguma, e lá não ir; mas o menino de pé, junto à mesa do almoço, esperava a resposta... Era impossível fugir!

            - Diga ao seu patrão que daqui a pouco lá estarei.

            O menino foi-se.

            O Romualdo acabou a sobremesa, tomou o café, saiu, e dirigiu-se ao escritório do Saraiva, receoso de que este o recebesse com duas pedras na mão.

 

            Foi o contrário. O amigo recebeu-o de braços abertos, dizendo-lhe:

            - Obrigado por ter vindo! Estava com medo de que o pequeno não te encontrasse! Vem cá!

            E levou-o para um compartimento reservado.

            - Leste o “Jornal do Comércio” de hoje?

            - Não – mentiu prontamente o Romualdo – Raramente leio o “Jornal do Comércio”.

            - Aqui o tens; vê que descompostura me passou o Caldas!

            O Romualdo fingiu que leu.

            - Isso que aí está é uma borracheira, mas não é escrito por ele! – bradou o Saraiva. – Aquilo é um besta que não sabe pegar na pena senão para assinar o nome!

            - O artigo não está mau... Tem até estilo...

            - Preciso responder!

            - Eu, no teu caso, não respondia...

            - Assim não penso. Preciso responder amanhã mesmo no próprio “Jornal do Comércio” e, se te chamei, foi para pedir-te que escrevas a resposta.

            - Eu?...

            - Tu, sim! Eu podia escrever, mas... que queres?... Estou fora de mim!...

            - Bem sabes – gaguejou Romualdo – que sou amigo do Caldas. Não me fica bem...

            - Não te fica bem, por quê? Ele com certeza não é mais teu amigo que eu! Depois, não é intenção minha injuriá-lo; quero apenas dar-lhe o troco!

            No íntimo o Romualdo estava satisfeito, por ver naquele segundo artigo um meio de atenuar, ou, se quiserem, de equilibrar o seu remorso.

            Ainda mastigou  umas escusas, mas o outro insistiu:

            - Por amor de Deus não te recuses a este obséquio tão natural num homem que vive da pena! Tu estás desempregado, precisas ganhar alguma coisa...

            O Romualdo cedeu a este  último argumento, e, depois de convenientemente instruído pelo Saraiva sobre a resposta que devia dar, pegou na pena e escreveu ali mesmo o artigo.

            Reproduziu-se então a cena da véspera, com mudança apenas de um personagem. O Saraiva, depois de ler e reler o artigo, exclamou: - Bravo! Não poderia sair melhor! – e, tirando da algibeira um maço de dinheiro, escolheu uma nota de duzentos mil réis e entregou-o ao prosador.

            - Oh! Isso é muito, Saraiva!

            - Qual muito! Estás a tocar leques por bandurra: é justo que te pague bem!

            - Obrigado: mas olha... recomendo-te que mandes copiar o artigo, porque no “Jornal” pode haver alguém que conheça a minha letra.

            - Copiá-lo-ei eu mesmo.

            - Adeus.

            - Adeus. Se o Caldas treplicar, aparece-me!

            - Está dito.

            No dia seguinte, o Caldas entrou muito cedo no quarto do Romualdo, com o “Jornal do Comércio” na mão.

            - O bruto replicou! Vais escrever-me a tréplica!

            E batendo com as costas da mão no jornal:

            - Isso não é dele... Aquilo é incapaz de traçar duas linhas sem quatro asneiras... mas, ainda assim, quem escreveu por ele está longe de ter o teu estilo, a tua graça... Anda! Escreve!...

             E o Romualdo escreveu...

 

              Durante um mês teve ele a habilidade de alimentar a polêmica, provocando a réplica, para que não estancasse tão cedo a fonte de receita que encontrara. Para isso fazia insinuações vagas, mas pérfidas, e depois, em conversa ora com um, ora com outro, era o primeiro a aconselhar a retaliação e o esforço.

            Tanto o Caldas como o Saraiva se mostraram cada vez mais generosos, e o Romualdo nunca em dias de sua vida se viu com tanto dinheiro. Ambos os contendores lhe diziam: - Escreve! Escreve! Eu quero ser o último!

 

            Por fim, vendo que a questão se eternizava, e de um momento para o outro a sua duplicidade podia ser descoberta, o Romualdo foi gradualmente adoçando o tom dos artigos, fazendo, por sua própria conta, concessões recíprocas, lembrando a velha amizade, e com tanto engenho se houve, que os dois contendores se reconciliaram, acabando amigos e arrependidos de terem dito um ao outro coisas desagradáveis em letra de forma.

            E o público admirou essa polêmica, em que dois homens discutiam com estilos tão semelhantes que o próprio estilo pareceu humanizá-los.

 

          O Caldas cumpriu a sua promessa: o Romualdo pouco depois entrou para o comércio, onde ainda hoje se acha, completamente esquecido do tempo que perdeu no jornalismo.

 

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Artur Azevedo (Artur Nabantino Gonçalves de Azevedo), jornalista e teatrólogo, nasceu em São Luís, MA, em 7 de julho de 1855, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 22 de outubro de 1908. Figurou, ao lado do irmão Aluísio Azevedo, no grupo fundador da Academia Brasileira de Letras, onde criou a cadeira nº 29, que tem como patrono Martins Pena.

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terça-feira, 14 de junho de 2022

A HIDRA ERA ALIMENTADA E CRESCIA NOS ANTROS COMUNISTAS

 


Paulo Roberto Campos


Quando em 1989 foi derrubado o Muro de Berlim (a “cortina de ferro”) e, no ano seguinte, desmoronou o regime comunista com o estrondoso fracasso da URSS, muitos incautos diziam de boca cheia: “o comunismo morreu”…

O maior líder anticomunista do século XX, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, foi o paladino da tese contrária, ou seja, ele afirmava categoricamente que o comunismo não tinha morrido, mas se metamorfoseado; fez uma “plástica” em sua carranca para melhor iludir os babaquaras. Tal “plástica” foi feita sobretudo com duas políticas “cosméticas” do velhaco comunista Michail Gorbachev: em 1985 com a Glasnost (transparência), e em 1986 com a Perestroika (reestruturação).

A respeito desta importante temática, recomendo leitura do histórico manifesto do Prof. Plinio, publicado em 1989 em vários jornais, intitulado “Morreu o comunismo? E o anticomunismo também?”.

O próprio Gorbachev confessou: “O comunismo pode voltar à vida. É como o mito grego da Hidra, cujas cabeças cresciam de novo, após terem sido cortadas” (“Folha de S. Paulo”, 9-3-1992).

Gorbachev nos antros comunistas tomou conhecimento do plano punitista; sabia que a Hidra estava sendo criada e bem alimentada… Hoje quem teria a petulância de dizer que o comunismo está morto? Sobretudo com a atual situação da Rússia, com a hidra Putin no poder, seria um disparate monumental.

Dentro dessa temática, seguem algumas frases sobre o comunismo que vale a pena memorizar.


 “Hoje, fala-se em cortesia francesa, pontualidade britânica, cavalheirismo espanhol etc. Dia virá em que se falará também em cinismo soviético. Cinismo pasmoso, na verdade, que só teve um ‘símile’ no mundo: o cinismo nazista”.

(Plinio Corrêa de Oliveira)

“No capitalismo temos a distribuição desigual das riquezas; no socialismo, a distribuição por igual das misérias”.

(Churchill)

 “O comunismo não é uma doutrina porque é uma antidoutrina, ou uma contradoutrina. Tudo quanto o homem tem conquistado, até hoje, de espiritualidade moral e mental — isto é de civilização e de cultura —, tudo isso ele inverte para formar a doutrina que não tem”.

 (Fernando Pessoa)

 “Os comunistas sempre souberam chacoalhar as árvores para apanhar no chão os frutos. O que não sabem é plantá-las”.

(Roberto Campos)

 “É fácil ser comunista em um país livre. O difícil é ser livre em um país comunista”.

(Agustin Etchebarne)


https://www.abim.inf.br/a-hidra-era-alimentada-e-crescia-nos-antros-comunistas/

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segunda-feira, 13 de junho de 2022

Se mecanismo lulista acha que vai levar na mão grande, está totalmente e...

SANTO ANTONIO DE PÁDUA, "MARTELO DOS HEREGES" - Plinio Maria Solineo

Imagem de Santo Antonio na Sé de Lisboa [Foto PRC].

O grande taumaturgo de Pádua –– ou de Lisboa, sua cidade natal –– embora com uma curta existência terrena, tornou-se um dos santos mais populares do mundo, sendo venerado tanto no Oriente quanto no Ocidente

·         Plinio Maria Solimeo

“Alegra-te, feliz Lusitânia! Salta de júbilo, Pádua ditosa! Pois gerastes para a Terra e para o Céu um varão que bem pode comparar-se com um astro rutilante, já que brilhando, não só pela santidade da vida e gloriosa fama de milagres, mas também pelo esplendor que por todas as partes derrama a sua celestial doutrina”. Esse foi o esplêndido elogio que fez desse santo o Papa Pio XII.(1)

“Doutor da Igreja”, “Martelo dos Hereges”, “Doutor Evangélico”, “Arca do Testamento”, “Santo de todo o mundo” –– são alguns dos títulos com que os Soberanos Pontífices honraram aquele cuja vida foi, no dizer de um de seus biógrafos, um milagre contínuo.

Natural de Lisboa onde nasceu em 1191 ou 1195, filho dos nobres Martinho de Bulhões e Teresa Taveira, o futuro santo recebeu no batismo o nome de Fernando. De boa índole, inclinado à piedade e às coisas santas, sua formação espiritual e intelectual foi confiada aos cônegos da Catedral de Lisboa por seu pai, oficial no exército de D. Afonso.

Clérigo Regular de Santo Agostinho


Acometido por forte tentação contra a pureza, Santo Antonio traçou uma cruz com os dedos numa coluna de mármore da Sé de Lisboa, ficando nela impressa como em cera [Foto PRC].

Segundo alguns de seus biógrafos, na adolescência Fernando foi acometido por violenta tentação contra a pureza. Para aplacá-la, estando na catedral, o jovem traçou uma cruz com os dedos, numa coluna de mármore, ficando nela impressa como em cera. Avaliando nessa ocasião os perigos que corria, o adolescente quis entrar para o mosteiro de São Vicente de Fora, dos Clérigos Regulares de Santo Agostinho, nos arredores da capital portuguesa, quando contava 19 anos de idade.

Ali permaneceu dois anos, findos os quais, por ser muito procurado por parentes e amigos, pediu aos superiores que o transferissem para o mosteiro Santa Cruz de Coimbra, casa-mãe do Instituto. Foi ordenado sacerdote em 1220. Frei Fernando, entretanto, almejava abraçar um gênero de vida mais perfeito e mais de acordo com suas íntimas aspirações.


Cripta da Igreja de Santo António, em Lisboa, construída no local onde nasceu o santo. Na lápide, em latim lemos: Nascitur. Hac. Parva. Ut. Tradunt. Antonius. Aede. Quem. Coeli. Nobis. Abstulit. Alma. Domus (“Nesta casa, segundo a tradição, nasceu e viveu António, que foi roubado pela gloriosa morada do Céu”). [Detalhe abaixo, Fotos PRC].

 

Transferência para a Ordem franciscana


Quando chegaram a Coimbra os restos mortais dos cinco protomártires franciscanos, que deram sua vida pela Fé no Marrocos, Frei Fernando sentiu imenso desejo de imitá-los, vertendo também seu sangue por Cristo.

Um dia, no verão de 1220, quando dois franciscanos foram ao seu mosteiro pedir esmola, Frei Fernando perguntou-lhes se, passando ele para sua Ordem, o enviariam à terra dos mouros para lá sofrer o martírio. Eles deram resposta afirmativa. No dia seguinte, depois de obter, a duras penas, autorização de seu Superior, mudou-se para o eremitério franciscano, onde se tornou um filho de São Francisco de Assis.

Frei Fernando mudou então seu nome para o do onomástico do eremitério, Antonio, que ele imortalizaria.

Conforme o combinado, Frei Antonio foi enviado no fim desse mesmo ano à África. Entretanto não estava nos planos da Providência que ele ilustrasse a Igreja como mártir, mas com suas pregações e santa vida. Assim, chegando ao continente africano, foi atacado de terrível doença, que o reteve no leito por longo período. Os superiores decidiram que, para curar-se, Frei Antonio deveria voltar a Portugal.

Acrisolado pela Divina Providência

A mão da Providência, no entanto, desejava-o em outro campo de luta. O navio em que estava o convalescente, levado pela tempestade, foi parar nas costas da Itália, onde o santo encontrou abrigo em Messina, na Sicília. Lá soube que o seráfico São Francisco havia convocado um Capítulo em Assis, para maio de 1221. Antonio poderia, enfim, ver o pai e fundador dos franciscanos e contemplar sua angélica virtude.

Naquela grande assembléia o Provincial da Romênia resolveu levá-lo consigo. Frei Antonio obteve dele licença para permanecer no eremitério do Monte Paulo, a fim de entregar-se ao isolamento e à contemplação.

Entretanto a mão de Deus velava sobre ele, e chegou o tempo em que aquela luz deveria brilhar para o bem do mundo inteiro.

Começa a vida apostólica como grande pregador

Foi enviado a Forli com alguns franciscanos e dominicanos que deveriam receber as ordens sacras. O Padre guardião do convento em que se hospedavam pediu que algum dos presentes dissesse algo para a glória de Deus e edificação dos demais. Um a um, foram todos escusando-se por não estarem preparados. Restava Antonio. Sem muita convicção, o Superior mandou-lhe então que falasse, à falta dos demais.

Era a primeira vez que Antonio falava em público, e então viu-se a maravilha: de sua boca saíram palavras de fogo, demonstrando profundo conhecimento teológico e das Escrituras, tudo exposto com uma lógica, clareza e concisão que conquistou a todos.

Entusiasmado, o Guardião comunicou aquele sucesso ao Provincial, que transmitiu a notícia a São Francisco. O Poverello mandou então que Frei Antonio estudasse teologia escolástica para dedicar-se à pregação. Pouco depois, em vista de seus progressos, ordenou-lhe S. Francisco que trabalhasse na salvação das almas. Era o ano 1222, e Frei Antonio contava apenas 30 ou 31 anos de idade.



Igreja de Santo António contruída no local onde nasceu o santo (no fundo a Sé de Lisboa) [Foto PRC].

Força irresistível de suas fogosas palavras

Segundo seus biógrafos, “ele tinha um exterior polido, gestos elegantes e aspecto atraente. Sua voz era forte, clara, agradável, e sua memória feliz. A essas vantagens, juntava uma ação cheia de graça”.(2) Entretanto, “seu traço característico, o milagre constante de sua existência, é a força incontestável de sua pregação, o poder de sua voz sobre os corações e as inteligências”.(3)

“Quando ele fulminava os vícios e as heresias — das quais o mundo estava então extremamente infectado — era como uma torrente de fogo que revira tudo, e à qual ninguém pode resistir. […] Freqüentemente, se bem que falasse [durante o sermão] uma só língua, era entendido por pessoas de toda espécie de países”.(4) Daí seu sucesso extraordinário, tanto na Itália quanto na França.

Milagres como no tempo dos Apóstolos

As multidões acorriam, e até os comerciantes fechavam suas lojas para ir ouvi-lo; a cidade e toda a redondeza literalmente paravam. Sendo pequenas as igrejas para tanta gente — às vezes chegavam a juntar-se até 30 mil pessoas num só sermão — ele falava nas praças públicas. Quando terminava, “era necessário que alguns homens valentes e robustos o levantassem e protegessem das pessoas que vinham beijar-lhe a mão e tocar-lhe o hábito”.(5) O número de sacerdotes que o acompanhavam era pequeno para depois ouvirem as confissões dos que, tocados por seu sermão, queriam emendar-se de vida.

Seus sermões eram seguidos de milagres como não se viam desde o tempo dos Apóstolos. Praticamente não havia coxo, cego ou paralítico que, depois de receber sua bênção, não ficasse são. Numa ocasião converteu 22 ladrões, que por curiosidade foram ouvi-lo. O número de hereges por ele convertidos não tem fim.


Milhares de peixes de vários tipos e tamanhos puseram a cabeça fora da água para ouvir o sermão de Sto. Antonio. Azulejo na Sé de Lisboa representa o milagre [Foto PRC].

Prega aos peixes para confundir os indiferentes

Um dos milagres mais conhecidos de Santo Antonio foi sua pregação aos peixes. Em Rimini, durante seu sermão, o povo se mantinha indiferente. Abandonando seus ouvintes, foi pregar à beira-mar. Milhares de peixes de vários tipos e tamanhos puseram a cabeça fora da água para ouvir o santo, que tinha sido seguido pela população da cidade, testemunha do milagre.

Santo Antonio foi cognominado “Martelo dos Hereges”, porque a heresia não teve inimigo mais formidável. Sua mais antiga biografia, conhecida pelo nome de Assídua, relata: “Dia e noite tinha discussões com os hereges; expunha-lhes com grande clareza o dogma católico; refutava vitoriosamente os preceitos deles, revelando em tudo ciência admirável e força suave de persuasão que penetrava a alma dos seus contrários”.(6)

Um heresiarca negava a Presença Real no Santíssimo Sacramento. Para acreditar, dizia, queria um milagre. E propôs o seguinte: deixaria sua mula sem comer durante três dias. Depois disso, oferecer-lhe-ia feno e aveia, e Frei Antonio a Hóstia consagrada. Se a besta deixasse a comida para ir adorar a Hóstia, ele creria, disse. Isso foi feito diante de toda a cidade. E a mula faminta, tendo que escolher entre o alimento e o respeito à Hóstia consagrada, foi ajoelhar-se diante desta, que o santo segurava nas mãos.

Desde a mais tenra infância Antonio fora devoto de Nossa Senhora, e Ela várias vezes o socorreu. Um dia, por exemplo, em que o demônio não podia mais suportar o bem que o santo fazia, agarrou-o pelo pescoço tão violentamente, que o enforcava. Antonio mal pôde balbuciar as palavras da antífona a Nossa Senhora, “O Gloriosa Domina”. No mesmo instante o demônio fugiu apavorado. Recomposto, Antonio viu a seu lado a Rainha do Céu resplandecente de glória.

“O santo morreu! O santo morreu!”


Relíquias de Santo Antonio guardadas na Sé de Lisboa [Foto PRC]

No ano de 1231, Frei Antonio, sentindo piorar a hidropisia maligna que o perseguia havia tempos, percebeu que sua hora chegara e quis morrer em Pádua, sua cidade de adoção. Quando o povo paduano ouviu dizer que ele estava chegando, acorreu em tal quantidade, que os frades que o acompanhavam, para livrá-lo do assédio, levaram-no para a casa do capelão das freiras clarissas, onde ele faleceu com apenas 40 anos de idade.

Imediatamente as crianças de Pádua saíram espontaneamente pelas ruas gritando: “O santo morreu! O santo morreu!”. Ao mesmo tempo, em Lisboa, sua cidade natal, os sinos puseram-se a repicar por si sós, e o povo saiu às ruas. Somente mais tarde é que souberam do ocorrido.

Tantos foram os milagres operados pelo santo em seu túmulo, que levaram o Papa Gregório IX a canonizá-lo apenas um ano depois de sua morte. Anualmente sua festividade é comemorada no dia 13 de junho.

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Notas:

Fonte: Revista Catolicismo, junho/2005.

1. Pio XII, Carta Apostólica de 16 de janeiro de 1946, apud Pe. José Leite, Santos de Cada Dia, Editorial A.O., Braga, 1987, tomo II, p. 252.

2. Les Petits Bollandistes, Vies des Saints, d’après le Père Giry, Bloud et Barral, Éditeurs, Paris, 1882, tomo VI, p. 617.

3. Frei Justo Perez de Urbel, O.S.B., Año Cristiano, Ediciones Fax, Madrid, 1945, tomo II, p. 603.

4. P. Simon Martin, Vie des Saints, Bar-le-Duc, 1859, tomo II, pp. 946-947.

5. Pe. Pedro Ribadaneira, apud Dr. D. Eduardo Maria Vilarrasa, La Leyenda de Oro, L. González y Compañía, Barcelona, 1896, tomo II, p. 425.

6. Apud Pe. José Leite, S.J., op.cit., p. 251.

https://www.abim.inf.br/santo-antonio-de-padua-martelo-dos-hereges/

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domingo, 12 de junho de 2022

BIA KICIS Retrospectiva da semana

PALAVRA DA SALVAÇÃO (267)


Solenidade da Santíssima Trindade | domingo, 12 de junho de 2022

Anúncio do Evangelho (Jo 16,12-15)

— O Senhor esteja convosco.

—Ele está no meio de nós.

— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo João.

— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: “Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas não sois capazes de as compreender agora.

Quando, porém, vier o Espírito da Verdade, ele vos conduzirá à plena verdade. Pois ele não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido; e até as coisas futuras vos anunciará.

Ele me glorificará, porque receberá do que é meu e vo-lo anunciará. Tudo o que o Pai possui é meu. Por isso, disse que o que ele receberá e vos anunciará, é meu”.

— Palavra da Salvação.

— Glória a vós, Senhor.

https://liturgia.cancaonova.com/pb/

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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Pe. Donizete Ferreira, Sacerdote da Comunidade Canção Nova:


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A Santíssima Trindade é a melhor comunidade

 


“Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas não sois capazes de as compreender agora” (Jo16,12)

Neste domingo (12.06.22), a Igreja celebra a Festa da Santíssima Trindade. Parece que celebramos algo estranho e distante de nossa compreensão. No entanto, a festa da Trindade nos mobiliza para uma nova maneira de viver e de nos relacionar com o Deus de Jesus, cuja presença preenche o cosmos, irrompe na nossa vida, habita criativamente no interior de cada um de nós e é vivido em comunidade.

É preciso deixar claro que o Mistério da Trindade não é um enigma a ser decifrado, ou seja, como conjugar três “individualidades” em uma Unidade, mas é a proclamação de que “tudo é Relação”. A Trindade não é uma especulação teórica sobre três pessoas “abstratas” em Deus, mas a maneira de ser de Deus, como Amor que se expande, em si e fora de si, de uma maneira “redentora”, inserindo-se na história da humanidade.

Assim, a Trindade não é uma simples verdade para crer, mas a base de nossa experiência cristã. O dogma trinitário quer expressar o mistério da Vida mesma de Deus que nos é comunicada. 

Foi a experiência cristã da ação salvadora de Deus por meio de Jesus Cristo e no Espírito Santo que deu existência à doutrina trinitária. Deus não é solidão, mas comunhão perfeita, pois “Deus é Amor”. Eis aí a grande revelação que Jesus nos trouxe: a essência de Deus é Amor em estado puro. Então, Deus não poderia fazer outra coisa senão amar. De fato, o amor não existe se não for movimento, reciprocidade, dom, acolhida, relação e comunhão.

Não podemos definir Deus. Só podemos nos aproximar da essência de Deus afirmando que Ele é relação, comunidade, partilha, comunicação, intercâmbio, comunhão.... Agostinho afirmou que no Amor se encontram três realidades: o Amante, o Amado e o mesmo Amor.

“Deus é Amor”, circulação eterna e infinita de amor, na qual o Amante, o Amado e o Amor se relacionam tão intensamente até “transbordar-se” na criação do universo. A Criação é transbordamento do Amor trinitário e o ser humano é “morada” das Três Pessoas Santíssimas.

A Trindade evoca um Deus cuja essência é caracterizada por um movimento eterno em direção a nós, em um amor redentor. Somente na medida em que formos capazes de amor, poderemos conhecer o Deus comunidade, ou seja, comunhão de Pessoas.

Esta é a essência do Evangelho. A melhor notícia que um ser humano podia receber é que Deus não o afasta de seu Amor. A Trindade nos ensina que só vivemos quando com-vivemos.

A Bíblia nos fala de um Deus amor; amor pessoal, porque ama a cada um de nós; amor total, universal, que não exclui ninguém; amor preferencial, porque se inclina para o frágil; amor comunitário, porque em si mesmo não está só, senão que é comunidade e gera comunidade entre os seres humanos.

Deus é Amor e só amor. Percebemos, então que, incompreensível não é Deus, mas nossa resistente e limitada capacidade de contemplar com profundidade essa Presença que se manifesta, permanentemente, em nossa vida e na Criação inteira.

Deus nos fez amor para o mútuo encontro, para a doação, para a comunhão...

Fomos criados “à imagem e semelhança” do Deus Trindade, comunhão de Pessoas (Pai-Filho-Espírito Santo). Quanto mais unidos somos, por causa do amor que circula entre nós, mais nos parecemos com o Deus Trindade. “Se nos amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós e o seu Amor em nós é perfeito” (1Jo. 4,12)

Deus colocou em nossos corações impulsos naturais que nos levam em direção ao convívio, à cooperação, à acolhida, à solidariedade... “Só corações solidários adoram um Deus Trinitário”. 

Aqui está a grandeza e a dignidade do ser humano, criado à imagem e semelhança do Deus Trindade. E é fácil intuir isso: sempre que sentimos o dinamismo de amar e ser amados, sempre que sabemos acolher e buscamos ser acolhidos, quando compartilhamos uma amizade que nos faz crescer, quando sabemos doar e receber vida..., estamos saboreando e visibilizando o “amor trinitário” de Deus. Esse amor que brota em nós tem n’Ele sua fonte.

O amor intra-trinitário não é um amor excludente, um “amor egoísta” entre três. É amor em excesso que se difunde e se expande em todas as criaturas. Por isso, quem vive o amor inspirado pela Trindade, aprende a amar a quem não lhe pode corresponder, sabe doar sem esperar recompensa, sente uma grande paixão pelos mais pobres e pequenos, é capaz de entregar sua vida para construir um mundo mais amável e digno.

Por outro lado, quem é incapaz de dar e receber amor, quem não sabe compartilhar nem dialogar, quem só escuta a si mesmo, quem resiste relacionar-se com os outros, quem só busca seu próprio interesse, quem só deseja o poder, a competição e o triunfo, não pode experimentar nada da Trindade amorosa. 

O ser humano não é feito para viver só; ele é chamado a viver em comunhão com todas as pessoas;

Como homem e como mulher trazemos esta força interior que nos faz “sair de nós mesmos” e criar laços, construir fraternidade, fortalecer a comunhão. Fomos feitos para o encontro e a comunicação.

Não fomos criados para viver sós; necessitamos con-viver, viver-com-os-outros, encontrar-nos; é essencial descobrir o sentido e a vivência do encontro relacional com os outros, na vida familiar, na fraternidade, na sensibilidade social para com o diferente e o excluído.

O sentido da vida em comum com os outros é um dom de Deus; afinal, fomos criados à imagem do Deus “encontro intra-trinitário”.

fraternidade, a vida em comum se mede pelo amor, por atos e gestos de doação, por vivências de comunhão, por experiências de partilha do mesmo ser, da mesma vida, da entrega mútua gratuita...

amor é olhar o outro com olhos tão limpos, bondosos, desinteressados, tão profundos... que só desejo que o outro seja o que é... Alegro-me de vê-lo assim, tal como é... 

O dogma da Trindade, portanto, não só nos revela como Deus é para nós; é também revelação de quem somos nós, ou seja, portadores do impulso relacional que se manifesta na nossa capacidade de amar.

Se Deus é relacionamento amoroso perfeito e nós somos criados à sua imagem e semelhança, então a doutrina da Trindade está preocupada com a nossa vida também. Somos convidados pela graça divina a entrar neste fluxo de relação que define o próprio ser de Deus.

Deus de Jesus não é uma verdade para pensar, mas uma Presença a ser vivida. Não é um ideia para quebrar nossa cabeça, mas a base e fundamento de nossa vida.

Uma profunda vivência da mensagem cristã será sempre uma aproximação ao mistério Trinitário.

Será, em definitiva, a busca de um encontro vivo com Deus. Não se trata de demonstrar a existência da luz, mas de abrir os olhos para vê-la. O verdadeiramente importante foi sempre a necessidade de viver essa presença do Deus, comunhão de Pessoas, no interior de cada ser humano.

Jesus, o Mistério de Deus feito carne no Profeta da Galiléia, é o melhor e único ponto de partida para reavivar uma fé simples no Deus Comunidade de Pessoas.

Texto bíblico:  Jo 16,12-15

Na oração: A Trindade não é hóspede; é a essência do ser humano; o modo de viver de uma pessoa é revelador de quem habita seu interior; uma pessoa compassiva, aberta, acolhedora... é sinal de que é habitada pela Trindade amorosa.

- Quem perde o caminho de sua interioridade, distancia-se da Trindade que é Vida e passa a viver a cultura da morte, deixando transparecer o ódio, a violência, o preconceito, a injustiça... como modo petrificado de ser.

- Qual é a Presença que determina sua vida: a Trindade Santa ou os dinamismos diabólicos (forças que dividem)?

 


Pe. Adroaldo Palaoro sj

https://centroloyola.org.br/revista/outras-palavras/espiritualidade/2592-a-santissima-trindade-e-a-melhor-comunidade

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TANTA DOR, POESIA – Cyro de Mattos


                                Tanta dor, poesia 
 

Cyro de Mattos

 

          Adelmo Oliveira nasceu em 13 de maio de 1934, na cidade de Itabuna, sul da Bahia. Sua família constituída de retirantes da seca retornou às origens no sertão da Bahia, na época da Segunda Guerra Mundial. Publicou: O canto da hora indefinida (1960), O som dos cavalos selvagens (1971) , Cântico para o Deus dos ventos e das águas (1987), Espelho das horas (1991), Canto mínimo (2000), Poemas da vertigem (2005) e Antologia (2012) na coleção Poesia Seleta, da Editora Mondrongo.

          Em Cântico para o Deus dos ventos e das águas, prossegue na jornada de andarilho da ilusão pelo “reino das estrelas eternas”, como ele mesmo diz em um de seus versos. Retorna ao espaço da emoção e reflexão ritmado com a  palavra que  expressa seu sentimento de mundo,  testemunho de seu tempo e lugar.   

          Este livro está dividido em quatro partes:  Silêncio & memória, Grito & silêncio, O menino & o sonho, O homem & o sonho.  Com seus ventos e águas de eternas datas, esse cântico revela um poeta que em seu navegar solitário assume o gosto lírico da tristeza. Dotado de irmandade em   “Pássaro”, humanismo político em “As bodas da morte”, moralizante em “Bilhete a um poeta”, ingênuo em  “O menino & os pássaros”, luto e dor  em “Elegia dos deuses”, sagrado no grave ritual de  “Confissão”. A dicção se compraz em guardar no tom pungente o que é fundamental moldado com a marca das distâncias. Na flauta que toca a música de tristes claridades, a expressão lírica filtra ausências por entre sombras, queixas de muitas solidões, isolamento, cais, despedida. Longe de desesperar, afirme-se com o poeta no seu ermo que “esse pranto e ponteio num poço de ondas e mágoas” redime, conforta.  Elucida no silêncio a rosa quando nasce ade pesares na paisagem solitária.

          É uma poesia que se vincula à linhagem de tradição universal em seus elementos mais presentes: o verso, a rima, a imagem, o uso do soneto, o subjetivismo. E, moderna em sua expressão lírica, sem os desvios técnicos de certa vanguarda experimentalista. No ritual de dor, tristeza e solidão, conduz sua mensagem por “caminhos de orvalho”, através de uma dicção confessional que converte o poeta “a uma seita antiga para o culto de deuses invisíveis.”

          O cântico que Adelmo Oliveira fere nessas águas de sal é vazado com solidariedade, equilíbrio de ventos ofendidos no tempo interior, doloroso e intenso, que corre no mundo. Sua música não é artificial. Há, em notas agudas,  o eu profundo que resiste a um mundo despido de ternura, em ritmo veloz que pulsa  no absurdo, impele a criatura para uma zona ausente  de esperança e compreensão.

          É um cântico que comove, dado que nele submerso está o sujeito  como alguém triste, em  armadura frágil nos limites do próprio casco, com “um pé no chão e outro no espaço”, eis que emerge  daquela região fincada de pureza, apesar de perdida, na qual gravita  de si mesma a memória de cenas episódicas  eternamente nuas. A voz que escorre assim desse cântico mostra que na canção do viver e morrer lirismo e o lado social do homem como ser gregário podem conviver de mãos dadas, solidárias.

          Pode-se dizer que em Cântico para o deus dos ventos e das águas o poeta resgata o homem com mãos cheias de amor no apito sonoro das extensões e fragmentos doloridos latejando na memória. Com voz subjetiva eficaz, tom suficiente de queixa na vida que passa, suporta no seu ermo o mito da inocência perdida. Navega nessas águas feridas, caminha nesses ventos ofendidos, diz do eco de vozes oprimidas. Guarda na melodia de rude mar rumores de madrugada, que se anuncia solitária e indefinida.

          Na Antologia (2010), organizada por Gustavo Felicíssimo, Coleção Poesia Seleta, da Mondrongo, a poesia de Adelmo Oliveira é como uma estrela fixa que revela o mundo em órbita de ventos contrários. Constata de que estamos enredados com o peso do enigma, representados no atrito dos  seres e as coisas, até mesmo quando o cenário é a infância, que entre fissuras e rupturas forma fragmentos de uma fruta que de súbito acaba  com a idade adulta. Simbolizada por questões e momentos agudos, essa poesia é   algo que sempre está se fazendo e implica na criação de nós mesmos. Ora como feridas, que, no desencontro da passagem do tempo, deixam marcas profundas, próximas de verdades. Ora é a guerra que anula, a paz que marcha na esperança para colher a felicidade.

          Ocorrem cismas dentro da alma do poeta:

 

Vértice no tempo

De tanta dor

Meu pensamento

É só amor

 

 

          Eis aqui uma poesia que, também, veste-se de coragem e dignidade no espelho das horas. De ritmo que agrada, conduz sem pressa quem a lê  por meio de discurso elegante,  sem a  dicção para  esquivar-se  da vida na colheita das dores. Não teme os desafios, nunca recua em suas constatações do que não agrada e oprime. Não se envergonha  de mostrar   como   dolorida  é a memória do eu pronunciado, vertido por meio  de insinuações e motivações na  lágrima feita de sal.

          O mundo está dentro do poeta e o poeta dentro mundo. Essa é a sua  maneira  de  circular na existência, como um “filho errante da poesia.“ Os últimos versos de  “Monólogo de uma  rapsódia ligeira”, poema incluso na antologia, deparo-me com a certeza da crença desse poeta,  em voz viva:

 

  Só confio nas palavras

 Ainda que inutilmente revelem

 A verdadeira face da noite

                        

                         da noite

 

          Da grande noite de nossa inexorável miséria

 

          A poesia acompanha decididamente os passos do poeta no seu ofendido ser-estar do mundo, enredado na ilusão sob o peso do enigma, condição que lhe é cobrado pelo tempo na morte dos dias. Ao ler a poesia de Adelmo Oliveira, escuto o poeta T.S. Eliot quando diz que o rio flui dentro de nós, o mar cerca por todos os lados. Escuto no poeta baiano a sua voz  que se abre com as palavras , soltas na garganta como canto de  pássaro,  retirando  de dentro a fala, o grito, que  diz:

 

Sou um eco de silêncio do infinito

que perturba a razão deste enigma.

 

          Neste enigma vestido no silêncio dos desertos, o poeta medita o quanto o peito desesperado fala do homem habitado de sofrimento. As palavras são nítidas, cortantes, constatam, servem às feridas que não se fecham. Revelam sempre na metáfora do cérebro que tudo explode nos caminhos onde a cruz está fincada e abalam ideias no pensamento com incansáveis cavalos em   irascível galope. 

           Jogo e drama são movimentos de sondagem dessa poesia que pulsa em nervos e sentimentos, são vísceras do mar salgado da vida. Ninguém sabe de onde vem nem para onde vai este solitário coração. Com ele, no itinerário  de armazenadas solidões, salta o  pássaro riscado nas penas com pesares, desconfiado de sombras. Assim é que o poeta acha o equilíbrio por  entre os medos  e os vazios, delírios e sonhos. E se vê como um intervalo que não chega a compreender, não consegue decifrar o código cujas pontas estão atadas entre o primeiro vagido e o último suspiro. 

          Da infância, o poeta lembra o Rio do Ouro que secou, os caminhos que não se completaram, as veredas compartilhadas com o destino que deságua em um leito de águas mortas, nesse súbito estuário escuro. De outras vezes romântico ou assumido realista, toma emprestado a voz de figuras fundamentais na crença de uma sociedade justa. Mostra-se engajado na poesia social, solidária, de alto nível, humanista, suportando dores refeitas na esperança do mundo melhor, seguindo na marcha de esperança. 

          O poeta libertário, em “Pequena canção do porta-estandarte” distribui versos cantantes para comover e unir todas as mãos em uma só cantiga:

 

Não é sede de vingança

Não é ânsia de terror

Não é fuga ao desvario

Não é escape de angústia amorosa

Nem murmúrio de sentimentos dissolutos.

 

          E já podemos concluir com ele que a liberdade, o bem mais forte dos humanos, só é a força pura da vida, legítima, quando se escreve o seu nome  “como quem prega a paz e busca a felicidade.”

          No exercício do soneto, faturado com sinceridade, verdades, dá mostras de certa morte que é puro fingimento. Vertido de vertigens e fantasia, enuncia uma de suas estações prediletas a perdurar segredos e desejos do mito que circula na rota da ilusão:

 

Aqui perto de mim, na minha vida

Meus olhos ficam cheios de poesia

- A estrela se debruça na janela

E a lua troca a noite pelo dia.

 

          O poeta só emprega palavras que não desmentem o que sentiu e colheu nas dores da vida. Em Adelmo Oliveira, o universo verbal do poema não é feito com os vocábulos do dicionário, não se trata de ornamento que serve de mero passatempo. Quer dar no auge dos conflitos um sentido mais puro da vida.  (Ensaio que participa do livro Prosa e Poesia no Sul da Bahia, Editora Via Litterarum, Ibicaraí, Bahia, 2020)

 

Referência  

 OLIVEIRA, Adelmo. Antologia, Coleção Poesia Seleta, Editora Mondrongo, Itabuna, Bahia, 2012.

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Cyro de Mattos
é escritor e poeta. Publicado por editoras europeias. Membro da Academia de Letras da Bahia. Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz (Bahia). Premiado no Brasil, México, Itália e Portugal.

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