O Natal do
Apóstolo...
1 Quando Simão
Pedro foi arrancado aos grilhões do cárcere para o derradeiro sacrifício,
sentia o coração varado de angústia, conquanto mostrasse o passo firme.
2 O velho apóstolo,
que transpusera os oitenta de idade, levantava a cabeça branca, destacando-se
na turba à maneira de um pai atormentado por filhos inconscientes.
3 Irmãos do
Evangelho ladeavam-no, tristes, escondendo o próprio desespero, diante da
serenidade com que ele, encanecido em duras experiências, se acomodava ao
martírio.
4 Mulheres e
crianças emaranhavam-se, cortejo adentro, para beijar-lhe as mãos.
5
Transeuntes, ainda mesmo adversos ao Cristianismo nascente, fitavam-no,
respeitosos, qual se vissem um soberano humilhado e pobremente vestido, a
caminho de inesperado triunfo…
6 E até soldados da escolta, recordando vários
companheiros que Simão transfigurara, ao curar-lhes os parentes enfermos,
abeiravam-se dele com veneração e carinho…
7 Apenas um dos
pretorianos, Sertório Aniceto, destacado elemento na expedição, não poupava o
sarcasmo.
8 Desejando quebrar
a atmosfera de reverência e de êxtase que se fazia, desdobrava impropérios:
— Para diante,
velho impudente! Judeu sujo! Lixo humano, que envergonharia os postes da
arena!…
9 E mais à frente:
— Não abuse da
crendice do povo! Ladrão imundo, chegou seu fim!…
10 Pedro,
entretanto, contemplava o céu escaldante da tarde e orava em silêncio…
11 Sentia-se,
agora, fatigado e incapaz! Compreendia que a Boa Nova exigia servidores
robustos e rogava ao Cristo enviasse obreiros novos e valorosos para a vinha do
mundo…
12 Mas não era só isso… No imo do coração, ardia-lhe a saudade do Mestre
e ansiava retomar-lhe a companhia para sempre…
13 Escalando a
colina, via não longe o Campo de Marte, assinalado pelo monumento de Augusto,
as cintilações do Tibre espreguiçando ao sol, o casario imenso, as termas e os
jardins; no entanto, regressava pela imaginação à Galileia distante, buscando
Jesus em pensamento…
14 Revia o lago de
Genesaré, em seus dias mais belos, e as multidões simples e generosas com que o
Senhor repartia o pão e a verdade, o consolo e a esperança…
15 Por estranhos
mecanismos da memória, respirava, de novo, o perfume das rosas de Betsaida, das
romãzeiras de Dalmanuta, das quintas frutescentes de Magdala e dos pequenos
vinhedos de Cafarnaum…
16 Apesar do calor
reinante, rememorava a pesca e supunha-se envolvido pelo sopro da brisa, quando
a barca sobrestava as ondas calmas.
17 Reconstituía,
enlevado, as pregações do Divino Amigo e parecia-lhe jornadear de retorno à
família das crianças e dos enfermos, das mães sofredoras e dos velhinhos que
ele próprio lhe entregara ao coração…
18 Atingido o local
do suplício, confiou-se automaticamente aos soldados que o desnudaram, e, como
se estivesse hipnotizado pela ideia do reencontro, sofregamente aguardado,
quase nada percebeu dos martelos, rudemente manobrados, que lhe apresavam pés e
mãos ao lenho que se lhe erguera de improviso…
19 Em derredor,
escutava os protestos velados das centenas de espectadores da lamentável
exibição, de mistura com as preces dos companheiros agoniados…
20 Detido,
porém, na ânsia de repouso, Pedro não via que o tempo se escoava, sem que lhe
desfechassem qualquer golpe…
21 Aqui e além,
grupos em orações e lágrimas salientavam-se de mãos postas; contudo, a morte
tardava…
22 Aniceto, entretanto, não o perdia de vista, e, reparando que o
crepúsculo baixava, atirou-lhe pontiagudo calhau à cabeça e gritou:
— Morre, bruxo!
23 O apóstolo
observou que o sangue esguichava, mas, sem qualquer reação, rendeu-se a
invencível torpor, qual se fosse repentinamente anestesiado por brando sono.
24 Semelhante
impressão, contudo, perdurou por momentos. O ancião, após desalgemar-se do
corpo, identificou-se espiritualmente, livre e eufórico, ao pé dos próprios
despojos, e, alheio à algazarra em torno, contemplou o firmamento, onde os
astros se inflamavam, como se dedos invisíveis acendessem lumes deslumbrantes
para uma festa no céu…
25 Espantado, observou que um homem descia do alto, como
que materializado pela fulguração das estrelas, e, decorridos alguns instantes
de assombro, viu Jesus a dois passos, a endereçar-lhe o inolvidável sorriso.
26 — Mestre! —
clamou, inclinando-se para beijar o chão que ele pisava. O Messias redivivo
tomou-o nos braços e partiu, conchegando-o ao coração, qual se transportasse
frágil criança.
27 Por várias
semanas restaurou-se Pedro na estância de luz que o Cristo lhe reservara.
28 Junto dele,
visitou paragens de inexprimível beleza, recolheu lições preciosas, presenciou
espetáculos soberbos da grandeza cósmica e abraçou afeições inesquecíveis…
29 Quando mais
integrado se reconhecia no Plano Superior, eis que o Celeste Companheiro lhe
anuncia nova separação. Que o discípulo descansasse quanto quisesse,
elevando-se às excelsas regiões… Ele, porém, devia ausentar-se…
— Senhor, aonde
vais? — indagou o apóstolo, penosamente surpreendido.
30 E Jesus,
indicando-lhe escuro recanto da vastidão, em que se adivinhava a residência
planetária dos homens, informou, sereno:
— Pedro, enquanto
houver um gemido na Terra, não me será lícito repousar…
— Então, Senhor, eu
também…
31 E, como outrora,
demandaram, juntos, os quadros de ação, em que se lhes evidenciasse o amor
sublime…
32 Atraídos por
centenas de vozes, atravessaram Roma, parando, por fim, em espaçoso cemitério
da Via Ápia, mergulhado na sombra noturna…
33 A multidão
cantava, glorificando o Senhor… Não obstante o Natal estivesse na lembrança de
poucos, rememorava-se, ali, diante da imensidão constelada, a melodia dos
mensageiros angélicos.
34 Simão, fremindo
de emotividade, começou a chorar de alegria. Anelava ser bom, aspirava a ser
irmão da Humanidade, queria auxiliar a construção do Reino de Deus e homenagear
a manjedoura de Belém, ofertando algo de si mesmo, em louvor do Evangelho…
35 Nesse ínterim,
aproximou-se Jesus e disse-lhe ao ouvido:
— Pedro, alguém te
chama…
36 O apóstolo
voltou-se e, admirado, enxergou na pequena comunidade um homem triste,
carregando nos braços um pequenino agonizante…
37 Era Aniceto, a rogar-lhe,
mentalmente, se lhe compadecesse do filhinho que a febre devorava. Qual se lhe
registasse a presença, expunha-lhe os remorsos que amargava e pedia-lhe perdão…
38 O antigo pescador
não hesitou. Depois de oscular-lhe a fronte suarenta, afagou a criança
atribulada, impondo-lhe as mãos, e, ali mesmo, magneticamente tocado por forças
renovadoras e intangíveis, o menino despertou, lúcido e refeito, enlaçando-se
ao pai, à feição da ave assustada que torna à segurança do ninho.
39 Aniceto, no
íntimo, compreendeu o socorro e a bênção que recebia e, renovado, começou a
cantar em lágrimas de júbilo: “Glória a Deus nas alturas, paz na Terra e boa
vontade para com os homens!…” (Lc)
40 Para o rude
legionário de César começava nova vida e para Simão Pedro o serviço continuou…
Chico Xavier. Irmão
X
Livro Antologia
mediúnica do Natal
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